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História de: Athayde Barata Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2004

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História completa



PESSOAL
IDENTIDADE Nome e nascimento Eu nasci no dia 16 de janeiro de 1933. Eu tenho no meu registro como se eu tivesse nascido em Batatais, mas, na realidade, eu nasci num vapor, num navio português, e fui registrado em Batatais porque havia uma carta de chamada do meu pai para o Brasil com destino a Batatais. Então, eu tive que ser registrado como nascido em Batatais. Mas não conheço a cidade porque eu realmente não fui criado em Batatais. Fui criado na Usina Junqueira, município de Igarapava e, depois, fui para São Paulo, aos nove anos de idade, e de lá voltei para a Usina Junqueira novamente. Depois, fui para Ituverava. Residi meu maior tempo em Ituverava e, depois, em Uberlândia.

FAMÍLIA
Pais O meu pai é José Barata Dias e minha mãe, Amélia Barata Dias. Embora os dois sejam Barata, minha mãe era Barata Lima. Ela perdeu o Lima e ficou com o Dias de meu pai. Mas são famílias totalmente opostas, embora sejam Barata porque o nome Barata em Portugal é mais ou menos como Oliveira no Brasil. Ele não distingue bem a família. O que distingue depois é o outro nome. No caso, minha mãe é Barata Lima. Minha mãe é filha de fidalgo. Meu pai é plebe. Meu pai era músico, alfaiate e, para casar com minha mãe, ela teve que se deserdar dos direitos que ela tinha da família porque meus avós não aceitavam. Era uma família totalmente diferente. Minha mãe é fidalga, meu pai é plebe. Os dois, tanto meu pai como minha mãe, são de Alvares, distrito de Coimbra. Naquela época, a aldeia, que era Alvares, era dominada pelos padres. E, naquela época, os padres não aceitavam que as mulheres estudassem; isso era muito comum, todo mundo sabe. Então, minha mãe, que vinha de uma prole de nove irmãs e nenhuma estudou, como era a caçula, o meu avô conseguiu trazê-la para o Brasil com um tio dela, para ela estudar no Rio de Janeiro. Então, minha mãe fez o Grupo no Rio de Janeiro e, quando voltou para Portugal, voltou como uma pessoa letrada, como eles diziam. Tinha apenas o curso primário, mas já sabia ler e escrever. Isso não era permitido na aldeia. Então, minha mãe, por ter estudado no Brasil, tinha verdadeira loucura em ter um filho brasileiro. Como ela se casou em Portugal e teve cinco filhos, todos lá - eu fui o último, ela já tinha 40 anos de idade -, então, ela tinha loucura para vir para o Brasil, para que eu pudesse nascer aqui. Meu pai tinha uma certa ligação com um tio dele ou um outro irmão, não me lembro bem, com a família de um pessoal de Batatais, que era a família do "coronel" Quito, que foi o fundador da Fundação Sinhá Junqueira, da usina Junqueira. Ele morava em Batatais e se chamava Alcebíades Junqueira. Esse homem conseguiu fazer uma carta de chamada para meu pai poder vir para o Brasil e, justamente, a única intenção era que eu nascesse aqui. E assim foi feito. A carta de chamada era um tipo de um documento que dava a garantia de o português sair de Portugal e ter um emprego garantido no Brasil. Mas, na realidade, isso não aconteceu, porque era para o meu pai ter esse emprego em Batatais, porque o Alcebíades era de Batatais. Mas, na realidade, eu nem conheço Batatais porque eu fui registrado em Batatais por conseqüência desses fatos. É uma história muito complicada. Digo que sou nascido em Batatais, mas não conheço nada em Batatais. A quem me perguntar, eu digo: "Eu não sei nada". Eu fui criado em Ituverava, Igarapava, Usina Junqueira e São Paulo. Essas cidades, então, eu conheço bem. A família veio inteira para o Brasil. Vieram todos. Meu pai, quando veio para cá, veio com esse chamado para dirigir uma lavoura em Batatais, mas, na realidade, isso não aconteceu porque essa carta foi meramente um instrumento para que tudo isso acontecesse. Mas ele arrumou um emprego numa fábrica em São Paulo, uma fábrica de papelão. Meu pai era alfaiate de profissão. E era músico. Era guitarrista. Talvez esse tenha sido um dos conflitos para ele casar com minha mãe porque os pais de minha mãe não aceitaram um músico se casar com ela. Não era benquisto. Ele conseguiu em emprego em uma fábrica de papelão em São Paulo, mas, em São Paulo, já naquela época, para criar a família, era um tanto difícil. Foi em 1933, já no final da Revolução, e meu pai, por meio desse Alcebíades, conseguiu arrumar um emprego na Usina Junqueira, com o "coronel" Quito, que deu emprego para o meu pai. Ele foi trabalhar então no laboratório de análises, na Usina Junqueira. Ele tomava conta do laboratório, ele não era engenheiro, não era químico. Ele tomava conta, dirigia o laboratório da usina. O Alcebíades era parente do "coronel" Quito - me parece era um primo ou coisa semelhante - e ficou amigo de meu pai. A usina ficava em Igarapava. Já não era Batatais. Mas, como o coronel Quito tinha necessidade dessa pessoa, de uma pessoa de confiança para ficar no laboratório, pelo Alcebíades, ele conseguiu trazer meu pai de São Paulo. Aí, nesse caso, veio todo mundo: meus pais, meus irmãos, todo mundo. Irmãos Na Usina Junqueira, todos arrumaram emprego. O "coronel" Quito deu emprego para o meu irmão mais velho, que era o Antonino. Ele foi trabalhar no escritório e era o identificador datiloscópico na Usina Junqueira. Um outro irmão chamado Álvaro foi trabalhar em um caixa de armazém. Outro, Feliciano, era jovem ainda, esse não trabalhava e foi para uma escola profissional fazer modelo em madeira. O outro, José, e eu éramos novinhos, só estudávamos. E a minha irmã mais velha foi trabalhar com esse coronel Quito e a dona Sinhá. Ela foi ser uma espécie de camareira da dona Sinhá. Seria assim uma espécie de dama de companhia. Mais tarde, eu mesmo vim a morar com a dona Sinhá também, em São Paulo, no período em que eu fiz o Grupo. Avós Os meus avós, eu não cheguei a conhecer. Eu sempre tive muita vontade de ir a Portugal para conhecê-los, mas, quando eles eram vivos, eu não tive essa oportunidade porque eu sou o caçula da família e sou o único brasileiro. Estou sendo brasileiro porque meus irmãos são todos portugueses. Eu sempre tive vontade de conhecer meus tios, meus avós, mas, quando eles eram vivos, eu não tive essa oportunidade. Eu só tive condições de conhecer parentes em Portugal, já depois de velho, coisa de dez anos atrás que eu fui a Portugal. Já fui umas quatro vezes a Portugal. Conheci diversos primos. Mas meus avós, não. Eu visitei o túmulo de meus avós em Portugal, mas eles eu não os conheci. Casa de infância Eu me lembro da casa da Usina Junqueira. Ela tinha um alpendrezinho. Essa casa existe até hoje, ela não foi derrubada. Muitas casas foram derrubadas, essa ainda existe lá. Ela tinha uma sala, dois quartos, uma cozinha, uma dispensa, quintal e a privada, que era no fundo da casa, junto com a lavanderia. Nós tínhamos água encanada. Não era forrada. Nos quartos e na sala, só tinha parede até na altura do telhado. Não era fechado até em cima. Era tudo aberto. Na minha casa, como eu era o caçula, eu era o responsável por arrumar de manhã cedo, tirar os urinóis da casa porque nós não tínhamos privada. As privadas eram privadas de fossa, retiradas da casa. Naquele tempo, usavam-se os famosos penicos, os urinóis. Então, a minha missão, como eu era o caçula, era, de manhã cedo, tirar todos os urinóis, limpar todos os urinóis da casa e depois ajudar minha mãe a varrer, essa coiseira toda. Depois do almoço, eu ia para o ginásio.

INFÂNCIA
Eu tive uma infância relativamente bonita. Eu não posso me queixar. Meu pai saía do serviço dele aproximadamente às 6 horas da tarde, e quando chegava em casa - não era muito longe e ele tinha uma bicicleta -, minha mãe já tinha a janta pronta, a gente jantava e, depois da janta, a gente se sentava. Isso eram quase todos os dias, na calçada, no alpendre. E aí meu pai, que tinha uma guitarrazinha, ele tocava essa guitarra e cantava para a gente. A gente também cantava, e a molecadinha juntava tudo. Não era só moleque, não. Adultos também vinham. Um trazia um pandeiro, outro trazia um violão. Então, era muito comum a gente viver à base de música durante a noite. E, de dia, nós tínhamos nossos brinquedos de campo de futebol. A gente brincava muito com bola de meia. A primeira bola de borracha que eu ganhei, aquilo já foi um sucesso danado. Normalmente, era bola de meia mesmo. As famosas peladas eram com bola de meia. E os nossos brinquedos eram feitos de barro. Eu fazia muito automóvelzinho, caminhão de barro e locomotivas, porque a gente era influenciado por causa da Usina Junqueira que tinha as locomotivas. A gente fazia as locomotivas de lata de azeite. Pegava uma lata de azeite redonda, uma lata de azeite quadrada e fazia locomotiva. Esse era o nosso brinquedo, porque não se comprava brinquedos. Quando eu tive a minha primeira bicicleta, eu tinha 14 anos de idade. Era uma bicicleta de pedal seco, não tinha catraca. E foi usada também. Meu pai já comprou usada. Foi a primeira bicicleta que eu tive.

EDUCAÇÃO
Primeira escola Eu fiz o Grupo na Usina Junqueira e, como não havia o quarto ano, eu fui para São Paulo fazer o quarto ano do Rodrigues Alves, na Avenida Paulista. Depois, eu vim fazer o ginásio em Igarapava. Naquele tempo, o ginásio era particular. Era do senhor Cícero Barbosa Lima, que, por sinal, tem parentes aqui na região de Uberlândia. Já morreu, já faleceu. Ele é que era o dono do ginásio. Quando eu iniciei o ginásio, era ginásio particular. Quando eu terminei, já era estadual. Já não era mais do Cícero Barbosa Lima. Aí sim, já vim para perto da família. Eu morava na Usina Junqueira e fazia ginásio em Igarapava. Para se ter uma idéia, é uma distância de 11 quilômetros aproximadamente. O primeiro e o segundo ano, eu fiz montado numa mula. Uma mula mesmo, não era um cavalo. Era uma mula. Os dois primeiros anos foram terríveis. Eu ia e voltava de mula. Já no terceiro ano, meu irmão mais velho conseguiu comprar uma charrete e uma égua, e aí já tinha condições de andar bem melhor. Eu levava um companheiro e dividia o custo do material que gastava com essa égua, para tratar dessa égua. Então, ia de charrete. Andava 11 quilômetros. Ia e voltava. Foi uma peregrinação. Depois que eu fiz o ginásio em Igarapava, eu retornei para São Paulo, mas aí já não tinha nada mais com a Sinhá Junqueira. Eu fui morar com um irmão que já estava morando lá e fiz o curso de Eletrotécnica e, depois, fiz Eletrônica, à noite, quando estudei no Instituto Ericsson de Ciências Eletrônicas. Quando eu fiz o ginásio em Igarapava, eu não tinha mais o que fazer porque eu não tinha condições. Para eu continuar e fazer uma faculdade ou uma coisa qualquer, eu teria que ir para Uberaba ou São Paulo. Mas o recurso financeiro não dava para fazer isso. Então, eu fui para São Paulo porque meu irmão mais velho já era estabelecido lá, tinha um bar em São Paulo. Então, eu morava com ele e o ajudava no bar.

CORPORATIVO
Primeiro emprego Eu morei com dona Sinhá por aproximadamente dois anos. Ela morava ali na rua Frei Caneca. Se não me engano, ao lado da casa dela e do Altino Arantes hoje parece que se transformou num museu. Era em frente à Maternidade São Paulo. Eu morei ali por dois anos, e a minha missão era ler jornal para ela porque a dona Sinhá tinha muita dificuldade para ler. Eu fiquei por conta de dona Sinhá, quer dizer, eu estudei em São Paulo tudo por conta dela. Eu não sei se ela não sabia ler ou se ela não conseguia ler. Ela tinha dificuldade. A minha missão era comparar o jornal de manhã cedo e ler o jornal todinho para ela. Essa era a minha missão. Eu talvez aceitei isso com mais facilidade porque, como minha irmã era camareira de dona Sinhá, quando ela se casou, ela foi para São Paulo. Minha irmã se casou com um rapaz que, na época, tomava conta de edifício, era uma espécie de um síndico de prédios, mas não era de um único. Naquela época se usava muito isso. Aliás, hoje ainda existe muito disso. Em vez de ser um próprio inquilino, é uma outra pessoa. A minha irmã já morava em São Paulo, e eu tive grande facilidade porque ela ia me ver pelo menos uma ou duas vezes por semana e eu também ia vê-la porque o chofer de dona Sinhá, que se chamava Mário, ele me levava, pelo menos uma vez por semana, à casa de minha irmã, para eu ficar duas ou três ou quatro horas. E eu gostava daquela vida com dona Sinhá porque, para mim, eu não sabia se era uma ilusão ou se era uma realidade. Eu me sentia muito importante ao estudar num grupo como o Rodrigues Alves porque eu vim de uma escola rural da Usina Junqueira e, de repente, tive a oportunidade de estudar em um grupo escolar como o Rodrigues Alves. Acho que me envaidecia de uma tal maneira que eu aceitei aquilo muito bem. E a dona Sinhá era formidável. Era uma mulher fantástica. Ela lia a Gazeta para ela. Com o "coronel" Quito, eu não tive muito contato porque ele morreu quando eu ainda estava na Usina Junqueira. Eu não tive muito contato com ele. Minha irmã teve muito contato com eles. Eu não tive. Agora, com a dona Sinhá, eu tive muito contato. Ela me contou muita história. Eu conheço muita história da Usina Junqueira, de como aquilo se originou porque ela me contava, com detalhes muito importantes. Me mostrava documentos do tempo do "coronel" Quito, as dificuldades pelas quais a Usina Junqueira passou com problema de dinheiro na época da guerra, que o "coronel" Quito foi auxiliado pelo Dr. Altino Arantes, que, na época, era do Banco, eu não sei se era Comércio e Indústria, ele era superintendente de uma empresa bancária, antes de ser político. Então, ele ajudou o "coronel" Quito a fazer um dinheiro falso. Falso assim, em termos, como nós já tivemos também na história do Juscelino, valor legal e valor recebido. O coronel Quito implantou isso na Usina Junqueira, na década de 30, um dinheiro chamado "cascudo", que era o dinheiro que circulava dentro da usina. Isso dona Sinhá me contava e me mostrava aquilo tudo porque isso aconteceu numa época em que eu era criança, e eu não conheci esses documentos. Mas ela tinha isso e me mostrava. Cheguei a trabalhar na Cássio Muniz. À noite, eu estudava das 6 e meia, 7 horas até meia-noite. Foi quando eu fiz o curso de Eletro. A Cássio Muniz era uma loja muito famosa na época. Eram a Cássio Muniz, a Isnard e a Mesbla. Hoje, todas elas já fecharam. Inclusive a Mesbla, acho que também já entregou os pontos. Cássio Muniz era inclusive importadora da Chrysler automóveis. Ela vendia desde agulha até navio, vendia de tudo, era loja de departamentos. Ficava na Praça da República. E eu iniciei ali como office boy e, quando eu saí de lá, já era correspondente. Eu fazia toda a correspondência para os vendedores que nós chamávamos na época de viajantes. Eram os famosos viajantes que hoje praticamente não existem mais. Era tão sacrificado que eu cheguei até a ficar doente porque era muito difícil. Eu passei muitas noites com pão e banana. Era comum eu sair da Cássio Muniz, comer pão com banana - eu já levava o pão com banana -, tomar água e ir para escola. Foi realmente difícil. Muito difícil. Mas não tinha outra solução. Não tinha outro recurso. Eu morava no Alto do Ipiranga, numa avenida chamada Diogo Elson. Meu irmão tinha um bar nessa avenida. Eu pegava o ônibus do Alto do Ipiranga para Praça da Sé. Da Praça da Sé eu ia a pé até a Praça da República porque eu não podia pegar o circular porque ai já ficava mais caro. A escola era perto. Era ali perto da rua Aurora, onde, hoje, se não me engano, eu não sei se é lá ou perto de lá, que é o Instituto Monitor, que é um curso de correspondência que hoje domina o Brasil inteiro. É lá naquela região da rua Aurora. Inclusive eu fiz ali também um curso de telegrafia porque eu tinha loucura naquela época para ser radioamador, como realmente depois eu consegui. Depois de formado, ganhando o meu dinheirinho, consegui ser radioamador e brinquei muito de comunicação com esse mundo inteiro, prestando serviço, porque não se falava por telefone. Com o primeiro diploma que eu fiz, eu me candidatei para trabalhar na Phillips do Brasil porque eu já achava que tinha condições de dar assistência a equipamentos da Phillips. Eu passei no teste e me indicaram que tinha uma filial em Ituverava. Se eu quisesse ir para lá, eu tinha meu emprego garantido. E realmente tive o meu primeiro emprego garantido, justamente em Ituverava. Entrei como técnico. Um ano depois, eu já era gerente da empresa e fiquei nessa empresa de 1953 até 1958. Ingresso na CTBC Foi exatamente nessa época que houve um convite para eu vir para Uberlândia e assumir a chefia de tráfego, a superintendência de tráfego interurbano porque eu tinha muita experiência em tráfego interurbano e tinha um contato muito bom com o pessoal de São Paulo, inclusive com a antiga CTB. E eu vim para cá, então, porque a CTBC tinha realmente alguns problemas aqui como a antiga Telemig, também tinha um problema administrativo com as telefonistas porque eram muitas telefonistas. E parece que eles tinham um pouco de dificuldade para lidar com esse pessoal. E o Dr. Luiz tinha, evidentemente, que crescer para outros lados. O Sr. Alexandrino tinha as ocupações dele e não tinha quem assumisse o controle de tráfego. Então, eles me convidaram para assumir o tráfego em Uberlândia. Eu me lembro que eu chamei o Sr. Alexandrino porque eu era o gerente da empresa e ele já estava comprando as ações. Eu falei que gostaria de conversar com ele, com referência à venda das minhas ações, que eu também tinha ações, e do meu compromisso com a empresa. Então, ele esteve lá, ele e o Dr. Luiz Alberto. Nessa época, eu já tinha uma certa amizade principalmente com o Dr. Luiz, que é mais ou menos da minha idade, aliás, eu sou mais velho, e eu tinha liberdade de chamá-lo de você. Então, a gente tinha mais um conhecimento, por diversas razões. Ele esteve lá também. Eu expliquei para o Sr. Alexandrino que eu estava disposto a vender as minhas ações, mas eu queria sair da empresa. Mas eu queria que a empresa entendesse que eu estava saindo porque eles estavam comprando e não porque eu queria sair. Então, o Sr. Alexandrino falou assim: "Mas que diferença faz?". Eu falei: "A diferença que faz isso é a seguinte: é que, se eu sair da empresa, eu não tenho nada a receber e, se eu sair com um acordo, eu gostaria que vocês pagassem o meu Fundo de Garantia, o que eu tenho direito. Então, eu sairia tranqüilo". Ele falou: "Perfeitamente. É viável. O seu pedido tem fundamento. Chama o seu contador e verifica quanto que nós temos que pagar para o senhor deixar a empresa. Para o senhor deixar a empresa amanhã, não é hoje, não. Aliás, não é daqui um mês, não. Nós acertamos hoje para amanhã o senhor não vir mais". Rapaz, você sabe que aquilo me deu uma friagem aqui por dentro Falei: "Puxa vida. Cadê o meu valor dentro da empresa? Estou achando que eu tenho um valor danado, e ele concordou facilmente Não tem problema, não". Aí, chamei o contador da empresa, ele levantou, fez os cálculos. O Sr. Alexandrino foi lá, tomamos café, tomamos refrigerante, e eu devo ter fumado uns cinco maços de cigarro - naquela época, eu fumava. Eu devo ter engolido cigarro para todo lado, de nervoso com a situação. E o meu contador, eu me lembro que ele falou assim: "Olha, Sr. Barata, para o senhor receber tudo o que o senhor tem direito, seu Fundo de Garantia, suas férias, que o senhor nunca tirou férias, a Telefônica lhe deve férias, pa pa pa...". Dava 8.500 contos, um troço assim. Eram contos. Não sei. Um dinheiro assim. Não me lembro. Naquela época, eu computei em dólares. Aí, mostrei para o Sr. Alexandrino, que falou assim: "Barata, isso aqui é o seu preço para você sair da Telefônica?" Falei: "É. Saio tranqüilo, sem problema nenhum. Se o senhor quiser, eu espero chegar outro gerente aqui para ficar no meu lugar. Se o senhor não quiser, o senhor põe outro, e eu já saio. O senhor se prontificando a pagar...". Ele virou para o Dr. Lamartine, que era o advogado da época, que estava junto e falou: "Dr. Lamartine, faz o cheque para o Sr. Barata nesse valor". Fizeram o cheque, o Sr. Alexandrino assinou e disse: "Oh. O dinheiro do senhor está aqui. Só que tem uma coisa: eu só cumpro a sua saída daqui se o senhor se comprometer a ir trabalhar comigo em Uberlândia". Aí, aquele frio que eu tive antes, mudou. Eu fiquei sem entender. Falei: "O senhor está querendo me levar para Uberlândia pra quê? Se nós estamos acertando aqui, eu vou embora. Eu tenho uma proposta para a CTB. Eu vou trabalhar na CTB. Eu tenho uma proposta para ir para lá". Ele falou: "Não, não. Você não vai para lá, não. Eu lhe pago isso aqui. Senão o senhor tem que sair sem receber nada. Eu lhe pago o que o senhor está pedindo. O senhor vê que eu não fiz conta. Estou acreditando no seu contador. Ele falou, está falado. Só que o senhor tem que ter um compromisso comigo. O senhor tem que ir trabalhar comigo em Uberlândia". Falei: "Mas o senhor tem que entender o seguinte: tenho mulher, tenho três filhos, todos estão na escola". Ele falou: "Não tem problema nenhum. O senhor vai comigo, a sua família fica aqui, o senhor vê o que o senhor vai fazer lá. Se o senhor estiver de acordo, nós acertamos tudo, o senhor leva sua família, mando buscar a família, o senhor vai para lá, eu arrumo escola, arrumo tudo, arrumo casa para o senhor morar. O senhor não se preocupa, não". Falei: "Quanto o senhor vai me pagar?". "Isso nós vamos conversar lá. Eu vou lhe mostrar o que eu preciso do senhor, e o senhor vai me dar o seu preço. Nós vamos combinar, eu tenho certeza de que nós vamos combinar porque eu preciso do senhor". Falei: "Está bom". Três dias depois, ele foi me buscar em Ituverava. Na época, ele tinha um Simca Chambord e apareceu lá com ele. E queria nos levar, eu a Judith e os meninos. Falei: "Não tem condições. Minha mulher não pode ir. Meus filhos também não podem ir. Eu vou sozinho, depois eu levo". Acabei vindo para Uberlândia, vim conhecer o problema de Uberlândia, ele me mostrou o que eu tinha que fazer, qual era o meu problema. Eu fiz a minha proposta, e ele aceitou tranqüilamente. Deu uma casa para eu morar e fez a proposta do jeito que eu quis, não houve nenhuma discussão. Então, o que aconteceu? Eu fechei minha conta na Telefônica da Ituverava e fui registrado aqui em Uberlândia, na Companhia de Telefones do Brasil Central. O pepino foi violento. Eu pedi para ele seis meses de prazo para resolver o problema que ele estava impondo. Pedi seis meses e consegui fazer em quatro.

CTBC
Tráfego Um dos pepinos, um grande pepino que nós tínhamos era o problema de telefonistas. Nós tínhamos uma quantidade de telefonistas muito grande e, na realidade, não precisava daquilo, na condição que nós estávamos funcionando na época. Mas aquilo era uma coisa que já vinha de outras empresas, da Empresa Telefônica Teixeirinha, da Telemig, que então era a antiga CTMG. Havia funcionários da CTMG que inclusive faziam sabotagem dentro do tráfego - isso, eu vim a saber depois. Então, tinha uma série de problemas que eu tinha que resolver. Esse problema de tráfego era a primeira fase. Depois disso, então, nós íamos discutir o que eu ia fazer dentro da empresa. E eu fiquei hospedado no Hotel Presidente por três dias verificando tudo o que acontecia dentro da empresa. Havia dias em que eu estava hospedado no Hotel Presidente para almoçar porque eu acabava dormindo na CTBC, dentro do DG, para poder verificar o que se passava entre as telefonistas e para poder descobrir os problemas. E havia seriíssimos problemas. Seriíssimos. Que eu não gostaria de comentar aqui. Eu pedi seis meses de prazo e, com quatro meses, eu consegui resolver o problema das telefonistas. Na época, eram 87 telefonistas e eu reduzi para 40. O tráfego funcionou muito melhor. Consegui eliminar a sabotagem que existia da antiga CTMG, que era uma grande sabotagem. As telefonistas que o Sr. Alexandrino teve que engolir para poder manipular o tráfego faziam sabotagem dentro do tráfego. Usavam circuitos da CTBC e colocavam no bilhete que eram circuitos da Telemig. Existiam circuitos paralelos daqui para Uberaba. Elas faziam ainda uma série de outras sabotagens de deixar o assinante que pedia uma ligação para falar em localidade da CTBC e não ligavam. As linhas ficavam desocupadas, e elas não faziam, para prejudicar a CTBC. E eu consegui provar para o Sr. Alexandrino Garcia que algumas dessas telefonistas recebiam salário da CTBC e recebiam salário da antiga CTMG, para fazer essa sabotagem. Eu consegui desmascarar inclusive o próprio chefe de tráfego delas, que era aqui em Araxá; o distrito era em Araxá. Então, foi um verdadeiro problema. Mas, depois que eu consegui detectar, eu consegui desmascarar e montar um serviço totalmente novo, uma nova filosofia em quatro meses. O Sr. Alexandrino ficou muito satisfeito e me presenteou. Ele tinha, não na hora, mas logo depois, para frente, ele tinha um carro, um Itamaraty. E esse Itamaraty, um advogado da empresa conseguiu capotar com ele. Arrumaram, ficou boa, mas o Sr. Alexandrino quis vender. E eu quis comprar. Eu me lembro que, na época, eu falei: "Olha, eu pretendo comprar o seu carro. Eu gostaria de comprar". Porque eu tinha uma Bel Air. Ele falou: "Barata, eu te vendo meu carro. O preço que eu pus lá para vender é 4.000, vou te dar por 2.000. Para te compensar o que você já fez dentro do tráfego". Expansão A CTBC acabou depois adquirindo as ações de todos. EXPANSÃO / CONTROLE ACIONÁRIO Ela conseguiu fazer São Joaquim da Barra. Depois, entrou em Orlândia. Também ganhou a concorrência em Orlândia. Aliás, não teve concorrência em Orlândia porque ela entrou sozinha porque eu já não entrei em mais nada. Onde ela entrava, eu não podia entrar. Então, ela fez Orlândia. De Orlândia, ela já foi para Miguelópolis. Modernizou o serviço de Miguelópolis. Comprou as ações de Miguelópolis. A última a comprar foi Ituverava. Aliás, a última, não. Perdão. Ela comprou Ituverava e depois é que ela conseguiu comprar Franca. Franca foi a última que ela conseguiu comprar as ações. Ela acabou comprando Ituverava também. Quando eles entraram em São Joaquim da Barra, ficou prejudicado um trecho até Ituverava porque a intenção do Sr. Alexandrino era ir pegando todas as cidades para não ter atrito com ninguém até chegar a Ribeirão Preto. O objetivo, aliás, parece que era até seguir Ribeirão Preto. Mas o primeiro alvo era Ribeirão Preto. Então, quando eles adquiriram Ituverava, começou a história de se interessar por comprar as ações de Ituverava. Existia um grupo que tinha a maior quantidade de ações. Dr. Paulo Borges, Alceu Alves Bueno, Benedito Trajano Borges e outros mais tinham uma quantidade de ações muito grande, por uma razão: quando foi implantado o serviço de telefonia em Ituverava, eram 360 acionistas. Depois, nós vendemos mais 140 telefones, mas não existiam as ações. Eram vendidos telefones sem ações. E alguns acionistas se sentiram marginalizados com aquilo. Então, eles queriam abrir mão das ações, negociar as ações em troca de novos telefones. Mas, como eu não podia fazer essa troca, eu tinha era que vender os telefones. Então, esse grupo, que era um grupo que tinha dinheiro na cidade, o que fazia? Comprava as ações das pessoas, comprava um telefone e dava em troca para as pessoas. Um negócio absolutamente normal, sério, tranqüilo, sem problema algum. Então, com isso, nós, que éramos em 360 acionistas, passamos a ser apenas uns cento e poucos porque alguns detinham uma quantidade de ações maior. Então, a CTBC, um dia, fez uma assembléia em Ituverava e eles nos ofereceram, para adquirirmos as ações da CTBC, que eles nos dariam a quantidade de circuitos interurbanos muito maior do que nós tínhamos. Porque, na época, já se usava o tal DQ12, que é um equipamento que multiplicava uma linha por 12. Teriam a condição de passar a central em vez de 500 para 1000. Quer dizer, tinham condições de modernizar o prédio, dar um serviço mais eficiente e, com isso, realmente conseguiu comprar as ações. Houve muita briga, muita polêmica, mas foi um negócio muito honesto, muito tranqüilo. No caso da área da CTBC, a expansão foi exclusivamente pelo espírito empreendedor. Vou lhe dizer por quê. Porque não existia comunicação na área do Triângulo Mineiro. Então, se isso não existia, não existia pressão nenhuma. Você imagina: se você nunca chupou uma laranja, você nunca vai ter vontade de chupar uma laranja. Você começa a ter vontade depois que você experimenta a laranja. Então, no caso das telecomunicações dentro do Triângulo Mineiro, era a mesma coisa. Não existia o interesse porque não existia o serviço. Então, não havia pressão. O que existiu sim foi o espírito empreendedor de Alexandrino Garcia. Isso existia, e muito. Agora, nas grandes áreas como Grande São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro etc., aí, a história é diferente. Por quê? Porque nessas capitais a demanda pelo meio de comunicação já se fazia necessária. Então, existia pressão. Pressão política, pressão empresarial, pressão dos grupos de serviços. Existia sim, nessas áreas. Agora, na área da CTBC, até a década de 60, não existia pressão. Isso eu afirmo categoricamente que não existia. Existia sim, o espírito empreendedor. Mas, uma vez que esse espírito empreendedor foi coroado de êxito, começou a aparecer o meio de comunicação, aí começou a aparecer a pressão. Aí, vinha a pressão do Rotary, vinha a pressão do Lions, vinha a pressão da Maçonaria, vinha a pressão das autoridades, do comércio, da Associação Comercial, que já foi se formando. Então, aí, sim. Já começou a haver pressão. Por quê? Porque o pessoal experimentou o meio de comunicação. Então, exigia que isso se expandisse realmente. Não tenho dúvidas de que o Sr. Alexandrino foi um grande criador de demanda. Eu diria o seguinte: você imagina um homem empreendedor, quando ele vê os seus atos serem coroados de êxito e dando resultado, você vê que existe um incentivo muito grande, e as forças aliadas - que são os amigos - vão encorajando a pessoa cada vez mais. O Sr. Alexandrino investiu em comunicação numa época em que ninguém acreditava em comunicação. Ninguém acreditava. Para se vender uma ação de uma companhia telefônica, meu amigo, você tinha que dar de graça um telefone para a pessoa comprar uma ação porque ninguém acreditava que aquilo poderia ser um bom negócio. O Sr. Alexandrino, na época, mexia com posto de gasolina, isso na década de 50, e Uberlândia começou a ter a necessidade de um serviço melhor porque era um serviço muito arcaico, um serviço magneto. Então, o Sr. Alexandrino iniciou com mais alguns amigos - porque ele não iniciou sozinho, iniciou com alguns amigos que dominavam a cidade, que eram comerciantes e iniciaram o serviço. Só que essas pessoas não acreditavam que poderia ser um bom negócio, e o Sr. Alexandrino, como era o homem que estava à frente desse negócio, ele não se preocupava com o lucro da empresa. Ele se preocupava em fazer o meio de comunicação. Então, foi desacreditando essas pessoas, e elas foram abrindo mão das suas ações. Foram vendendo, foram deixando. E o Sr. Alexandrino, para não deixar o barco afundar, vendia parte de sua propriedade - e eu tenho provas disso - para poder comprar as ações das pessoas que queriam vender porque queriam sair do negócio. Não acreditavam que aquilo seria um bom negócio. Quer dizer, muitos dos acionistas que iniciaram na CTBC, logo depois que acabou a Empresa Teixeirinha e passou a ser CTBC, muitos investiram com o mesmo espírito do Sr. Alexandrino, não tenho dúvida, mas a maior parte investiu com o único intuito de receber resultados. Como viu que isso não tinha resultado, abandonou o negócio. Entregou o negócio. O Sr. Alexandrino continuou e assumiu a responsabilidade. Porque o negócio começou a ser interessante comercialmente quando os circuitos interurbanos se expandiram e começou, então, a haver maior quantidade de tarifas. Então, aí, começou a aparecer como um bom negócio. E o sucesso da CTBC se deve ao fato de que o Sr. Alexandrino não permitia em hipótese alguma que os lucros que a empresa pudesse usufruir fossem convertidos em outra coisa a não ser comunicação. O Walter, o finado Walter Garcia, filho do Sr. Alexandrino, era o diretor financeiro da empresa quando eu vim para cá. Eu não presenciei essas cenas, mas sei por outros que estiveram antes de mim e diziam isso tranqüilamente, que, às vezes, o Walter Garcia, que era o homem financeiro da empresa, ele tinha visões tranqüilas de meios de ganhar dinheiro, mexia com concessionária de automóveis, era concessionário da Ford, mexia com fazendas e, então, ele dizia para o Sr. Alexandrino: "Pai, nós temos que aproveitar algum lucro que a empresa possa dar, para a gente investir em alguma coisa. Em fazenda ou em automóvel. Para fazer empresa de automóvel, abrir posto de gasolina. Enfim, caminhar para outra atividade porque telefonia não é coisa de futuro". E o Sr. Alexandrino dizia taxativamente: "Não. Se a empresa der lucro, o lucro deve ser revertido em comunicação. Em linhas interurbanas, comprar postes, comprar fios, comprar mesas-interurbanas, comprar equipamento. Enfim, todo dinheiro deve ser investido em comunicação". E realmente foi feito. Ligações interurbanas Quando a CTBC assumiu o compromisso de ligar os links interurbanos em São Joaquim da Barra, ela não conseguiu, no estado de São Paulo, a ligação de São Joaquim para frente, para chegar a São Paulo, porque tinha deficiência nos circuitos de São Joaquim para Orlândia. E de Orlândia para Ribeirão também, tinha apenas três circuitos. Então, qual foi a idéia do Sr. Alexandrino e do Dr. Luiz? Interligar São Joaquim da Barra com Uberlândia. Por quê? Porque, em Uberlândia, já existia a Embratel, já tinha tráfego interurbano. Tinha condições de escoar o tráfego por aqui. Então, ele viraria o tráfego para cá, com algumas vantagens. Primeiro, também era uma forma de ganhar concorrência e mostrar serviço, para poder entrar na cidade. Segundo, porque existia tarifa dividida. Naquele tempo, a tarifa não era uniformizada. Cada empresa tinha um deltazinho, de acordo com o comprimento do circuito que ela tinha. Então, já houve uma visão da CTBC. Puxa, se ela tem São Joaquim da Barra para falar em São Paulo, vai ter que vir a Uberlândia, ele tem um trecho de São Joaquim a Uberlândia que é da CTBC. Isso é muito bom, quer dizer, financeiramente e comercialmente falando, é muito bom. Então, foi feito esse circuito. Acontece que houve alguns atritos. Eu me lembro de um, por exemplo, com um companheiro nosso, o Chiquinho, o famoso Chiquinho, companheiro do Rivalino. O Rivalino fazia circuitos interurbanos aqui dentro do Triângulo Mineiro e o Chiquinho era mais distribuído nessa área de Uberaba, até chegar a Ribeirão Preto, como foi designado depois. E ele, então, foi o responsável pela implantação dos circuitos de Uberlândia até São Joaquim da Barra, para futuramente chegar até Ribeirão, como acabou chegando. Mas tudo era feito por etapas. Eu me lembro que, no traçado entre Ituverava e São Joaquim da Barra, já existiam as nossas linhas interurbanas, e, naquele tempo, era feito assim: do lado direito da rodovia, quem era autorizado era a Companhia Paulista de Força e Luz. Do lado esquerdo, quem era autorizado, éramos nós, Companhia Telefônica de Ituverava, naquele trecho, Ituverava-São Joaquim. No restante dos trechos, a CTBC conseguiu autorização do estado. Mas aquele trecho era meu. Acontece que eles tiveram que implantar o circuito interurbano nesse mesmo alinhamento da minha posteação. Então, o Sr. Chiquinho começou a implantar os postes no mesmo alinhamento e fincando os postes no meio dos meus fios. E eu usava poste de madeira, poste de aroeira. A CTBC começou a implantar poste de trilho. Então, esses trilhos balançavam e encostavam-se ao meu circuito interurbano. E parava o meu circuito interurbano. Dava defeito. Um poste, um pouquinho que arreava, já se encostava ao meu fio, e eu tinha que ir lá, empurrar o poste da CTBC. Eu sei que aquilo foi dando um desgaste tão grande, e eu pedi para os empreiteiros para pararem com aquilo, com o serviço, senão eu iria tomar uma providência mais drástica. Mas eles não pararam. E, quando foi um belo dia, o meu circuito interurbano parou totalmente. Eu peguei meu carro - na época era uma Kombi. Botei o auxiliar Jurandir, o famoso Japa - que nos ajudou muito nas construções de linha também, mas já faleceu - dentro da perua porque ele era uma espécie de capataz meu, jagunço, digamos assim. Era um homem que fazia frente para mim. Botei-o dentro da perua, e ele falou: "Vou enfrentar aquela turma dos empreiteiros". Perguntei o nome do pessoal, e informaram que era um tal de Chiquinho que era o empreiteiro. Tudo bem. Aí, fui lá. Eles faziam uma amarração num poste porque era em uma curva, e o poste pegava nos meus circuitos interurbanos e paralisava o circuito. Então, eles fizeram um estai (?) dessa posteação, e esse estai ficava em cima das minhas linhas e me interrompeu os dois circuitos que eu tinha - nessa época, eu já tinha dois circuitos físicos e um fant. Interromperam os circuitos todos. Eu estava totalmente paralisado. Eu já estava desanimado com aquilo. Eu cheguei lá, e o pessoal estava todo trabalhando. Eram mais ou menos umas 7, 7 e meia da manhã. Havia uns cinco ou seis homens lá com o Chiquinho, e ele em cima do poste trocando um isolador. Aí, eu perguntei: "Quem é o Chiquinho aí?". "Aquele lá". "O senhor é que é o Sr. Chiquinho?". "É". "Ô, Sr. Chiquinho, o senhor quer descer daí que eu precisava conversar com o senhor?". Ele falou: "O que o senhor quer?". "Eu quero que o senhor pare com isso, tire esses circuitos físicos que estão atrapalhando os meus. Os meus estão parados. O senhor está me atrapalhando. O senhor não está vendo os postes?". Ele virou para mim e falou assim: "Meu amigo, quem mandou fazer isso aqui se chama Sr. Alexandrino Garcia. É o meu patrão. Ele mandou fazer e eu estou fazendo. Se o senhor estiver achando ruim, o senhor sabe o que o senhor faz? O senhor pega esse "caldeirão" seu aí, vai lá em Uberlândia e conversa com o patrão". Eu falei: "Quer dizer que o senhor não vai descer daí?". Ele falou: "Não. Daqui, não. Vou continuar o serviço". Eu entrei na Kombi. Eu tinha uma cartucheira papo-amarelo porque eu gostava muito de caçar - a gente caçava em cima de jirau, caçava capivara - e ela estava dentro da Kombi. Mas não tinha bala. Eu fui lá, passei a mão na cartucheira, apontei a cartucheira para ele e falei: "Eu te dou dois minutos para você descer daí". Ele desceu dali igual a um macaco. Porque na, posteação de ferro, havia umas esporas que ele ia trançando no poste, para poder descer. Ele não veio travando. Ele desceu duma vez do poste. "Pelo amor de Deus, o senhor não faz isso". Eu falei: "Tira esses estai de cima, que está estorvando minha linha". Ele falou: "Não, espera aí. Espera um pouquinho". Aí o Japa, que era o meu companheiro, passou a mão naquele alicate de turquês, foi lá e cortou o estai; caíram seis postes deles. Aí, parou o meu e pararam os deles. Aí, parou tudo. Ele cortou as linhas e conseguiu entrar com a linha de retorno. Entrou em Uberlândia e conversou com Sr. Alexandrino. Aí o Sr. Alexandrino quis falar comigo. Foi quando nós entramos então para conversar pela segunda vez porque a primeira vez havia sido justamente em São Joaquim da Barra. Essa segunda vez foi no meio do mato, entre Ituverava e São Joaquim, e ele em Uberlândia. Aí, ele pediu para mim: "Sr. Barata, o senhor tem paciência que eu estou indo para aí e eu vou resolver esse problema do senhor agora. Só que o senhor deixa os meus circuitos funcionando porque eu estou indo para aí. Falei: "Sinto muito, Sr. Alexandrino, mas já cortei. Está tudo no chão. Tem seis postes caídos. Não vai arrumar, não. À hora que o senhor chegar aqui, a gente conversa. Eu espero o senhor aqui". E realmente ele chegou lá por volta de 3 e meia, 4 horas da tarde, mas ele saiu cedo daqui, ele saiu mais ou menos naquela hora, que devia ser umas 8 horas da manhã, 9 horas. Mas era muito difícil para ir para Uberlândia. O asfalto daqui para Uberlândia não existia. Era meio complicado. E, se chovesse, então, era um drama para atravessar. De Uberaba para frente não tinha problema porque era bloquete - aqui nós chamamos aquelas pedras de pé de moleque. Mas ele chegou lá e aí nós fomos conversar. Então, o Sr. Alexandrino me propôs: "Barata, vamos fazer o seguinte: eu ponho os meus postes e tiro os do senhor. E dou a garantia de dois circuitos para vocês nos meus postes e dou a manutenção daqui até São Joaquim da Barra, nos meus postes. E você pode tirar esse material todo que você tem aí e ir para outro lugar". "Perfeitamente". Aí, eu concordei. Conversei com a minha diretoria, minha diretoria concordou, e assim fizemos. Esse material que eu retirei de Ituverava até São Joaquim da Barra, eu o levei para uma cidade chamada São Benedito da Cachoeirinha. Fui atender um distrito com esse mesmo material, com os postes e com os fios. Aproveitei, então, os fios da CTBC e, depois disso tudo, acabaram incorporando aquilo lá, acabou sendo tudo da CTBC. Depois de resolvido o problema em Uberlândia, a nossa maior preocupação era aumentar os circuitos interurbanos e conseqüentemente montar posições interurbanas e criar um grupo de telefonistas condizente com a modernidade da época. E isso foi feito. No período de dois anos aproximadamente, nós conseguimos equilibrar tudo e montar como era a intenção do Sr. Alexandrino. Levar circuitos interurbanos para o Triângulo Mineiro todo. Fechar aqui para o Prata, Campina Verde, Iturama até Paranaíba, estado do Mato Grosso, Aparecida do Taboado. Então, isso tudo foi feito, e eu montando mesa de interurbano. Então, eu passei a ser um homem de tráfego, um homem de mesas de interurbano, de manutenção de mesas de interurbano. Quer dizer, um comprador da empresa em matéria de equipamentos. Lobby Acho que eu militei em todas as áreas da empresa e, quando eu saí, eu já estava em uma situação já lidando com a diretoria, mais fazendo lobby em Brasília com o conhecimento que eu tive com o pessoal de ministério, essa coiseira toda. Acabei me dedicando mais a essa parte e fui entregando a minha parte. A parte de tráfego, por exemplo, eu me lembro que eu entreguei para o Nelson Cascelli. Ele entrou na empresa como estagiário e chegou ao nível de diretoria. A CTBC sempre foi uma verdadeira escola, deu oportunidade para muita gente. Ninguém pode negar isso. Nós temos aí Nelson Cascelli, Dilson Dalpiaz Dias e outros mais, que iniciaram na empresa, às vezes, como estagiário ou como auxiliar de alguma coisa e chegaram ao nível de diretoria. Fantástico isso, mas merecido também, porque eram homens que lutaram demais pela empresa. Depois de 1980, eu comecei a sair um pouco mais, fazendo lobby em Brasília, vendo problemas no Ministério. O Dentel mudou o órgão, que era no Rio de Janeiro. ESTATIZAÇÃO=> Eu ia constantemente ao Rio de Janeiro, para ver problemas de tarifa no Dentel. Depois, isso passou para Brasília. Então, a gente tinha que ver a necessidade de um intermediário entre a CTBC e o pessoal do Ministério, para ter um acesso mais fácil. Aprovação de projetos era uma coisa muito difícil de ser feita porque o Ministério achava que a área de telecomunicações tinha que ser toda do estado. Então, se negava taxativamente a ver projetos da CTBC, porque a CTBC era uma empresa particular. Então, isso dependia muito de a gente fazer aquele serviço de mostrar para o pessoal que a CTBC não estava querendo ganhar dinheiro, não. Que a CTBC lutava para dar comunicação para o estado, dar comunicação para o Triângulo Mineiro, dar comunicação para São Paulo, para Goiás, para Mato Grosso, porque isso, ninguém tinha. Então, era uma forma de sensibilizar esse pessoal. E conseguíamos sensibilizar, não tenha dúvida alguma. E, no fim, o sujeito acabava entendendo que era necessário fazer. Estatização A CTBC se manteve privatizada, num cenário estatizante por uma única razão: o Estado não tinha nunca a condição de assumir a CTBC. Por diversas vezes ele quis assumir, mas chegou à conclusão de que ele não tinha condições. O Estado não tinha nem capacidade técnica nem financeira porque, para assumir a CTBC no estado de Minas Gerais, quem tinha que assumir era a CTMG, que seria depois a Telemig. A Telemig é que teria condições de assumir. Por quê? Porque a estatal era de Minas Gerais. A Telemig devia o mundo e o fundo. Ela não tinha condições de pagar a dívida dela. O governo teve que pôr dinheiro para ela poder pagar a dívida dela. Ela não tinha competência técnica nem profissional para assumir o Triângulo Mineiro, haja vista que Araxá, que era uma cidade importante para Minas Gerais, ficou prejudicada. Quem acabou atendendo Araxá e Uberaba foi a CTBC. Eram cidades marginalizadas para CTMG. Ela não ligava para elas. Se ela tinha um circuito, aquele circuito estava bom demais. Ela não queria saber se o pessoal precisava falar ou não. Ela não tinha nem capacidade técnica nem financeira. Tanto isso é verdade que numa ocasião que nós tivemos uma reunião em Brasília com o pessoal da Telemig, que a Telemig se mostrou interessada em comprar a CTBC, o Sr. Alexandrino afirmou: "Olha, capacidade técnica, nós temos, melhor do que vocês. Então, se vocês acham que devem comprar..." Isso foram palavras do Sr. Alexandrino, e eu estava presente, dentro do Ministério das Comunicações. Ele falou: "Se vocês acham que a estatal tem que tomar conta, para ficar exclusivamente uma empresa em Minas Gerais, eu sou o comprador da Telemig". Aquilo foi um verdadeiro pandemônio na reunião. Foi um baque. A reunião terminou aí. Eles queriam que o Sr. Alexandrino abrisse preço, e ele não abriu e falou: "Não. Eu sou comprador porque eu tenho condições de assumir a Telemig, e vocês não têm condições de assumir a CTBC". E realmente isso é verdade. No estado de São Paulo, o que a CTBC fez? A antiga CTB ficou parada em Ribeirão Preto por 30 anos. Nunca fez nada. A CTBC, em dois anos, implantou telecomunicações naquela área toda. Por que a CTB não fazia isso? Depois, a Telesp. Por que a Telesp não fez? O estado não tinha condições. Isso ficou provado. Então, eles iam deixando, deixando, mas segurando. Não deixava expandir, mas ia expandindo na raça. Expandiu na raça. Todas as concessões da CTBC foram na raça. Foram feitas para depois serem aprovadas porque depois não tinha mais jeito de não aprovar. Eu me lembro de uma ocasião em Franca. Quando nós entramos em Franca, eu liguei um link para Franca se comunicar com o Brasil inteiro através de Uberlândia porque Franca só se comunicava através de Ribeirão Preto, por dois circuitos, para atender uma cidade como Franca e toda a região. A CTBC, além de fazer um serviço moderníssimo lá dentro, ela implantou um link de microondas. Então, ficou uma maravilha. Acontece que nós recebemos uma ordem judicial do Ministério das Comunicações para desligar Franca dentro de 24 horas. O Sr. Alexandrino ficou arrasado: "Sr. Barata, fizemos estudo, o pessoal está falando. Como nós vamos desligar?" E o Dr. Luiz falou: "Desligar, não sei. Barata, você vai para lá e resolve o problema, mas não desliga". Eu fui para Franca. Nós éramos para desligar essa estação às 4 horas da tarde. Viajei de madrugada e cheguei a Franca eram umas 9 horas da manhã. O que eu fiz? Procurei o presidente do Rotary, o venerável da Loja Maçônica, dois promotores da cidade, juiz de Direito da cidade, presidente da Câmara Municipal, prefeito. Enfim, peguei a massa da cidade e expliquei o caso para eles: "Olha, às 4 horas da tarde, vai chegar o pessoal do Ministério das Comunicações para desligar o sistema". Quando eu falava isso, eles falavam: "Mas não desliga, não. Não desliga, não". Falei: "Mas eles vêm desligar". Às 3 horas da tarde, eu estava com 26 pessoas representando a nata de Franca, dentro da cidade, quando eles chegaram, o pessoal do Ministério das Comunicações. Vieram dois engenheiros do Dentel, um representante do ministro das Comunicações, um advogado, uma comitiva de seis pessoas. Essa comitiva chegou, e eu já estava com a nata da cidade, com os representantes da cidade, todos dentro do escritório, na gerência. Então, quando eles chegaram, eu apresentei o pessoal. Esse aqui é o juiz de Direito, esse aqui é o promotor, esse aqui é o prefeito, esse aqui é o venerável da Loja Maçônica. Antes de vocês cortarem os circuitos, o promotor quer dar uma palavrinha com vocês. O promotor de Franca - eu não me lembro do nome dele agora, eu poderia ver até no meu arquivo se eu consigo, mas eu não me lembro do nome dele agora -, só sei que ele era um rapaz de uma estatura bem pequenininha. E todo baixinho você sabe que é valente por natureza. Acho que é autodefesa. Ele falou que queria a palavra. E eu não sabia o que ele ia falar. Eu dei a palavra para ele. Ele falou: "Eu vou usar a palavra antes de vocês cortarem". Rapaz, à hora que esse doutor começou a falar, eu fiquei com medo, fiquei com medo. O homem acabou com o governo, acabou com o Ministério das Comunicações, acabou com a Embratel, acabou com todo mundo, elogiando a CTBC. O fim do discurso dele foi assim: "Se vocês vieram aqui para cortar os circuitos interurbanos da Companhia e desligar o nosso serviço de comunicação, o Sr. Barata vai mostrar para os senhores onde é o quadro, mas eu quero ver qual de vocês é homem para fazer isso: desligar. Sr. Barata, mostre onde está o quadro para esses homens". Olha, foi um verdadeiro vexame. Esses homens baixaram a cabeça, pediram desculpas e disseram que iam conversar com o ministro. Pediram o telefone emprestado, falaram com o ministro, e o ministro pediu que deixasse - aliás, foi o secretário do ministro -, que deixasse tudo como estava, até segunda ordem e que voltasse todo mundo para Brasília. E voltou todo mundo para Brasília, com o rabinho no meio das pernas. Essa é a história de Franca. Renovação da concessão A consolidação disso aí se deu quando o Figueiredo foi presidente da República, que já se foi embora também. Foi no governo dele. Isso é muito polêmico. Tem uma série de razões. No fundo, no fundo, o que eu entendo mesmo é que ele chegou à conclusão que realmente a CTBC tinha que ser uma empresa independente. Ela tinha que ficar no mercado porque as empresas estatais não estavam em condições de se manter. Além de ter tarifas maiores do que a CTBC, para você ter uma idéia, por exemplo, a Telemig tinha, na época, um percentual de 90% no tráfego interurbano da Embratel. A Telesp, no estado de São Paulo, tinha 85% de participação no tráfego da Embratel. A CTBC tinha apenas 10%. A CTBC dava lucro. As outras empresas precisavam pedir dinheiro para o governo no final do ano para fechar o caixa. Então por que isso, se a nossa tarifa era menor? Os nossos percentuais eram menores. É porque a organização que foi criada por Alexandrino Garcia era uma organização sólida. Cada homem tinha uma responsabilidade dentro do campo de ação dele. Então, a empresa era paternal. Eu não vou discutir isso. Sempre foi uma empresa paternal com Alexandrino Garcia, tanto que, depois que ele faleceu, nós tivemos essas mudanças todas. Tudo mudou, mas era uma empresa paternal e que precisava ser mudada sim porque tudo o que você faz de bom na vida, um dia se torna ruim. Você vê, o próprio Getúlio Vargas, que foi considerado o pai dos pobres, a mãe dos pobres, que criou um punhado de leis, que na época foi um cara fantástico, um governo espetacular, hoje está tudo jogado para o chão, não vale nada aquilo que ele criou, e tudo é obsoleto. Você vê o problema do emprego, das leis trabalhistas? Hoje, é tudo obsoleto. Não vale mais nada. Hoje, está prejudicando o funcionário e está prejudicando a empresa. Se hoje nós não temos mais empregos, é fruto dessas leis criadas na época do Getúlio e que vêm vindo para cá. Mas, na época, ele estava certo. Era uma forma de acertar a situação. Então, no caso da CTBC, foi a mesma coisa. A CTBC tinha diversas concessões. Então, ela tinha concessões vencidas, tinha concessões a vencer e aquela série de coisas. E acontece que a empresa telefônica de Uberaba, quando foi incorporada à CTBC, era a empresa que tinha o maior tempo de concessão pela frente. Então, na época, tentou-se inclusive transferir a CTBC para Uberaba porque era uma forma da concessão passar porque eles esperavam que, quando a concessão da CTBC Uberlândia terminasse, seria encampada. Então, transferindo para Uberaba, tinha a concessão de Uberaba. Foi uma forma que nós usamos. Mas, na época, o presidente da República, como diversos homens políticos que acabaram entendendo a necessidade de dar à CTBC realmente uma concessão baseada no último ato dela, no último período que era justamente o de Uberaba, ele consolidou todas as outras empresas a troco de alguma coisa da CTBC talvez, que eu não sei o que seria, talvez fosse uma forma de beneficiar a cidade com circuitos interurbanos. Aí, eu já não sei. Eu sei que foi consolidado no período do Figueiredo. Consolidou-se todas as empresas, com a concessão mais longa que existia, que era a concessão de Uberaba. Quando essa concessão expirou, o próprio governo já tinha entendido que as empresas do governo não tinham condições de tocar.

RENOVAÇÃO DA CONCESSÃO
A identificação da comunidade com a companhia e a mobilização para manter a concessão foi uma coisa que aconteceu naturalmente.Isso não foi pressionado por Alexandrino Garcia, por Luiz Alberto Garcia, nada disso. Isso foi uma coisa que aconteceu naturalmente. A luta desesperada que a CTBC tinha com o Ministério das Comunicações, com a Telebrás, para que ela fosse uma empresa consolidada com a proteção de tempo, com a concessão garantida e tudo mais, essa luta foi incessante. Mas a luta da CTBC sozinha não ia resolver nada. O que nos ajudou realmente foi a comunidade porque, em todas as cidades em que a CTBC operou, operava ou opera até hoje, todas elas defendiam a CTBC com unhas e dentes perante o Ministério das Comunicações, perante a Telebrás. Diversos prefeitos de diversas localidades iam a Brasília insistir com o ministro das Comunicações para que a CTBC executasse determinados projetos. Isso não foi nem uma, nem duas cidades. Foi a área inteira da CTBC porque eles tinham um meio de comunicação e sabiam perfeitamente bem que era um meio de comunicação perfeito e que jamais outra empresa poderia fazer. Então aí, a CTBC não poderia desaparecer. Essa pressão existiu. Depois, é evidente, começou a existir a pressão também pelos políticos da cúpula. Os deputados que entendiam a eficiência da empresa também começaram a ver essas pressões. Então, isso tudo ajudou. Houve lobby, não resta dúvida, de pessoas influentes, mostrando a necessidade da CTBC permanecer no mercado. Mas, se ela permaneceu e permanece até hoje no mercado, e a Telebrás realmente já não se preocupa, se deu ao fato de começarem a pensar na privatização. Muito embora, na época, era empresa estatal, mas já existiam correntes contrárias à estatização e já favoráveis à privatização. Por quê? Porque entendiam que uma empresa privada tinha condições de apresentar um serviço melhor. Então, a força das empresas pólo começou a enfraquecer naturalmente. Isso veio naturalmente. Não pense você que isso foi forçado de alguma maneira. Isso aconteceu naturalmente. Houve a necessidade porque as empresas pólo começaram a se enfraquecer. Porque começaram a falar em privatização, alguém já começou a cogitar a possibilidade da empresa pólo ser repartida, ser mudada. Com isso, enfraqueceu um pouco. E, depois, no último governo militar que nós tivemos, o Figueiredo, foi justamente no governo dele que se concretizou a idéia de acertar a concessão da CTBC, de unificar as empresas todas em torno de uma única concessão. Porque a área da CTBC funcionava com o nome de diversas empresas. Tinha a CTBC, tinha a CTA, a CTAM, a Etisa, Etusa, uma série de empresas. Isso foi consolidado numa única empresa, CTBC, porque ela é a detentora das ações de todas essas empresas, e foi dada então uma concessão para a CTBC com um tempo maior, que deu a condição para a CTBC expandir em toda a sua área. E essa concessão, eu nem sei te dizer se ela já terminou ou não. Mas, mesmo que ela já tenha terminado, já não tem mais problema, porque hoje não se fala em empresa pólo. Isso não existe mais. Hoje, cada estado tem uma empresa de alguém. A empresa já não é estatal. Já não é mais estatizada, embora a disciplina sim, continua sendo da empresa estatal, uma agência reguladora. Qualidade Eu diria que 80% das causas da sobrevivência da CTBC foi a eficiência. Se ela não fosse eficiente, nós teríamos um meio ou contrário do povo no Ministério. E isso iria fortalecer as empresas pólo, fortalecer o Ministério, fortalecer a Telebrás, e isso ia encorajar o presidente da Telebrás ou o ministro a incorporar o sistema da CTBC no patrimônio estatal. E mesmo também por duas razões: era um problema um pouquinho complicado para o Ministério das Comunicações. A CTBC não atuava só num estado. Então, para que isso fosse feito, a Telebrás e o Ministério teriam que incorporar a CTBC em um todo. Então, ela tinha que atingir a área do Triângulo Mineiro, ela teria que pegar a Alta Mogiana do estado de São Paulo, que seria o norte de São Paulo, o sul de Goiás, uma região de Mato Grosso e o Alto Paranaíba. E ele sabia que, se houvesse alguma companhia, a única na época que poderia ter condições de fazer alguma coisa era a Telesp. Essa tinha. Porque a Telesp militava numa área muito forte, tinha recurso não só técnicos, mas financeiros também para poder fazer. Mas a área de Minas não tinha, a área de Goiás não tinha, a área de Mato Grosso não tinha porque eles não tinham nem um meio de comunicação para eles. Como é que eles iam assumir aquilo? Então, era um problema. Tinha que ser feito em etapas. Tinha que fazer a Telesp primeiro. Depois de dois ou três anos a Telemig. Depois de dois ou três anos fazer a Telegoiás, depois a Telemat, e isso, taxativamente, seria bastante desgastante para o Ministério e para Telebrás porque eles iam enfrentar uma pressão muito grande do povo, que era o usuário do serviço. Tarifas Foi a fase mais pesada. Depois, quando todos os circuitos foram implantados e já estavam funcionando, foram se criando departamentos. Então, cada um assumiu uma parte. Eu, por exemplo, tinha uma responsabilidade: para todos os circuitos que se montasse, eu tinha que montar na mesa-interurbano. Depois, já tinha quem montasse. O João Bichinho, por exemplo, depois, começou a montar as mesas de interurbano. E outros mais que foram assumindo essa responsabilidade, e eu fui ficando exclusivamente no tráfego porque o tráfego era a mola mestra da empresa. Quer dizer, 80% do faturamento da empresa eram tráfego interurbano. Não digo que sejam 80% da receita, mas seriam 80% da participação lucro porque, no sistema operacional, a despesa era muito grande. Então, a mensalidade que o assinante pagava não correspondia taxativamente ao custo do sistema operacional. Mas o interurbano, sim. Então, a vida da empresa era movida pelo interurbano e não pelo serviço local. Serviço local sempre deu prejuízo. Hoje, é diferente. Hoje, nós temos uma série de benefícios no circuito que provocam uma renda fantástica para empresa. Mas, naquela época, não. Comércio com serviço medido não existia. Você podia falar 10 ou 1.000 ligações e você só pagava uma tarifa. A tarifa era administrada pelo Dentel. O Dentel não dava tarifa de jeito nenhum. Era um troço político realmente difícil de roer. Então, a arrecadação que a empresa tinha, dos serviços de telefonia local, dava prejuízo. O que deu condições da empresa crescer realmente chama-se interurbano. Eu fiquei responsável por essa área até mais ou menos 1980. TARIFAS Nas décadas de 50, 60, era o Dentel que era um órgão estadual quem dava as tarifas. Antes dele, eram os Departamentos de Água e Energia Elétrica de cada estado e, depois veio o Dentel, veio o Contel e assim por diante. Foram órgãos que vieram regulamentar e dar condições de atendimento porque o Departamento de Água e Energia Elétrica de cada estado, que era o órgão que cuidava das comunicações, dos meios de comunicação do estado, eles não tinham condições, não estavam preparados para dar uma atenção à telefonia, que começou a se expandir realmente na década de 50. Quer dizer, já existia antes, mas era arcaico. Na década de 50 é que começou a haver mais interesse nas comunicações. Então, criou-se o Dentel, que era o órgão que dava as tarifas. Mas esse órgão era um problema político. Se uma empresa tinha condições de fazer lobby dentro do Dentel, conseguia uma tarifa melhor, se não tinha, não conseguia. Era difícil. E nós, a CTBC, como empresa particular, ela tinha muita dificuldade para chegar ao Dentel. Dificuldade extrema. Mas no pensamento do Sr. Alexandrino, no momento em que a gente sensibilizasse o usuário com a necessidade de falar, na necessidade de se comunicar e que realmente a empresa executava esse serviço e dava essa condição, no pensamento dele, o Dentel seria sensibilizado. E foi como realmente foi. Não se pode negar. Quer dizer, a cada dois ou três meses, existia uma diferença de tarifa, um deltazinho que aumentava um pouquinho. Então, isso aí foi criando uma bola de neve. Então, chegou a um ponto na década de 70, 76, antes de 80, que já começou a aparecer na telefonia um grande negócio, porque, até então, não era um bom negócio. Eu digo com absoluta certeza que o Sr. Alexandrino Garcia iniciou em comunicação não com o intuito de ganhar dinheiro. Foi com o intuito de dar comunicação dentro do Triângulo Mineiro, que era aqui que ele vivia. Mas o entusiasmo, aquilo foi contaminando, foi contagiando ele e, evidentemente, os assessores dele. Depois, veio aí o Luiz Alberto Garcia, que fez Engenharia Elétrica em Itajubá e veio para cá ajudar o pai e aquilo foi sendo incentivado. Uma cabeça incentivando a outra. E nós, funcionários da empresa, também éramos motivados pelo Sr. Alexandrino, e aquilo foi criando um elo, uma corrente muito forte que deu realmente a condição para expandir. Já na década de 70, como isso começou a parecer um grande negócio, surgiu então a Telebrás, e o negócio se organizou no Brasil com as empresas. E as empresas pólo, que eram as empresas estatais, foram então eliminando todas as pequenas empresas porque eles já entendiam que a telefonia era um grande negócio. Já falando comercialmente. O pensamento não era só voltado para comunicação. Já era voltado também para o comércio. Não tenha dúvida disso. Então, foram absorvendo as pequenas empresas. Mas, no início, a Telebrás não se sentiu com intenção de tirar a CTBC porque a CTBC realmente operava numa área em que as empresas estatais não operavam. Então, deixou. Mas, no crescimento da empresa, a empresa se fortaleceu, começou a ser representada dentro dos órgãos públicos como uma grande empresa de comunicação, e aquilo então gerou o ciúme, o interesse pela área e as empresas do governo, as empresas pólo, através da Telebrás. Começou-se a tentar segurar em rédeas firmes para que a CTBC não crescesse. Esse era o principal objetivo da Telebrás, era não deixar a CTBC crescer. Por quê? Porque as empresas estatais eram um negócio de estado, era aquilo a que se propunha na Telebrás, e as empresas pequenas deveriam acabar, como acabaram. As últimas a terminar foram exatamente a Sercomtel, a Ceterp, que ainda continua até hoje, principalmente, com serviço local e já está sendo absorvida pela Telesp. Essas empresas que existiam aqui, a Araguari, a Patrocínio, isso tudo foi desaparecendo, foi sumindo tudo. Então, a CTBC, nessa época, já estava fortalecida e teve que permanecer no mercado. Não teve jeito. O que mais me desgastava eram os reajustes de tarifa porque eu tinha que ir para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília porque foi um período de transição. Antes, era só no Rio de Janeiro. Então, eu me desgastava exclusivamente dentro do Rio de Janeiro, com um companheiro nosso, chamado Boulanger Fonseca, que faz muito tempo que eu não vejo, nem sei se ele é vivo ainda. Ele nos deu uma mão espetacular. Ele me ajudou demais, ele é que abria as portas para mim dentro do Dentel. Então, era uma luta tremenda. Depois, o negócio mudou para Brasília, mas, nesse meio tempo, já estava funcionando a empresa do governo, já era a Telemig, então, eu dependia também da Telemig para fazer comparações. Se a Telemig tem, porque eu não tenho? Era uma arma que eu usava. Se, para uma área de 50 quilômetros, a Telemig tem uma tarifa X, por que a CTBC, com essa mesma quilometragem, não tem? Então, eu tinha que fazer essa comparação. Era uma forma de sensibilizar o pessoal. E, com isso, a gente ia conseguindo alguma coisa. Com uma luta danada. Eu me lembro de uma das reuniões que nós tivemos na Telebrás em que estávamos o Dr. Luiz Alberto Garcia, o Sátiro, que já era o advogado da empresa, eu, um outro elemento que era de Patrocínio, que era o nosso homem de computador, que foi o homem que implantou o sistema de computador em Uberlândia, Maurício, não me lembro mais - não vou dar nome agora porque, às vezes, me falta a memória; tenho muita dificuldade para guardar nomes - e, nessa reunião, foi dito pelo próprio representante da Telebrás, a justificativa dele era de que a Telebrás era um cabide de emprego. Isso foi dito em uma reunião. Essa era a razão que o custo da Telebrás era maior. Ela precisava faturar mais porque ela era um cabide de emprego. Ele não podia nunca falar isso Puxa, se é um cabide de emprego, está na hora de tirar esse cabide de emprego e funcionar como a CTBC fazia. Quer dizer, a CTBC tinha um homem em cada área. A Telemig tinha dez homens em cada área. Eu me lembro de uma ocasião em que eu fui fazer um serviço na Telegoiás - naquele tempo se chamava Cotelgo, depois, ela passou para Telegoiás. No tráfego que eu tinha aqui em Uberlândia, já naquela época eu tinha 160 circuitos interurbanos, manipulados manualmente e eu tinha 85 telefonistas. A Cotelgo, com apenas 40 circuitos, tinha 260 telefonistas. E esse homem que dirigia o tráfego da Telegoiás, o presidente da Cotelgo, ele foi para o Ministério das Comunicações depois e foi o homem-chave do ministro das Comunicações. Mas, na época dele, na Cotelgo, o negócio funcionava assim. Por isso é que essas empresas não davam lucro realmente. Porque não podia dar. O que tinha de gente que batia ponto e não ia trabalhar, era uma fábula. Na Cotelgo, quando eu fiz um levantamento a pedido de um diretor da Cotelgo, foi impressionante. Tinha pessoas que eram funcionários que ninguém conhecia. Eram telefonistas. Não eram uma, duas, não. Eram dezenas de pessoas. Essa é a razão do sucesso da CTBC. A CTBC só tinha gente onde ela realmente precisava. Diversificação A empresa CTBC só começou a mudar as suas atividades comerciais na época em que a Telebrás segurou a empresa e não a deixava crescer a troco de nada, como eu contei no caso de Franca, que, depois dos circuitos montados, o Ministério foi lá para cortar, a Telebrás, aliás, mandou cortar os fios e acabou não cortando nada. Era uma forma de segurar para a CTBC não crescer. Então, qual era o objetivo da Telebrás? Não deixar crescer. Era uma forma de poder absorver a empresa mais facilmente porque, quanto maior a empresa fosse, mais difícil seria para absorver. Então, não deixava crescer. Então, não houve outra alternativa a não ser investir. Já que não se podia crescer, crescíamos na medida do possível, e tudo o que pudesse sobrar era investido em benefício de alguma coisa. Vou dar um exemplo. Na época, em 1969, 1968, 1970 - não me lembro bem a data, já estou velho, e a gente esquece muita coisa - eu saía de carro daqui de Uberlândia para ir àquela região lá do Triângulo Mineiro, Aparecida do Taboado, eu saía de madrugada para chegar de noite outra vez no outro dia. Era uma dificuldade danada. E, no momento em que os circuitos interurbanos foram se concretizando, havia necessidade de eu ir fazer treinamento de telefonistas para operar o serviço nessas cidades: Prata, Campina Verde, Iturama, Aparecida do Taboado. Para o lado de cá do Paranaíba, eu tinha que fazer Patos de Minas, Carmo do Paranaíba, Pará de Minas, essa região. Então, você imagina que eu não conseguia fazer de carro, mais do que cinco ou seis cidades por mês porque eu perdia 15 dias por mês viajando. Era difícil, e eu não tinha gente para colocar no meu lugar. Era difícil achar um homem de tráfego. Não existe essa formatura: homem de tráfego. Não existia nem existe hoje. O homem de tráfego era feito dentro do tráfego. Não existia essa profissão, como não existe até hoje. O homem que mexe com tráfego tem que nascer fazendo tráfego porque não existe essa profissão. Então, eu não tinha pessoas que pudessem fazer aquilo que eu fazia. Eu é que tinha que fazer. Assim como eu, existia o caso do Dr. Luiz. Ele tinha que ir para um local ou outro e, às vezes, perdia uma semana para fazer uma vistoria numa central. Nós tínhamos o Wilson Costa, que foi um cara espetacular dentro da empresa, deu o sangue pela empresa, foi nosso diretor financeiro. Esse homem também tinha a mesma coisa, e o Sr. Alexandrino também. Quer dizer, nós tínhamos dificuldade. Como a Telebrás não deixava a empresa crescer, então nós tivemos uma única solução: o Luiz teve que investir e comprar um avião. Era um monomotorzinho, um avião pequeno, e, com esse avião, nós conseguíamos fazer a área toda. Eu, o Dr. Luiz e o Sr. Alexandrino viajávamos nele. Todos nós viajávamos, e, então, começou a sobrar tempo para nós. Eu saía daqui e voava para o Prata, fazia o serviço que tinha que fazer no Prata, continuava a viagem para Iturama. Às vezes, eu fazia duas ou três cidades em um dia só. Então, em uma semana, eu conseguia fazer uma área inteirinha voando com essa aeronave pequenininha. Chegou a um ponto que o Dr. Luiz começou a entender também que o problema do avião era um negócio altamente rentável porque, como existia esse aviãozinho, muitas pessoas amigas da família, amigos nossos pediam para o piloto levar a pessoa a São Paulo, a Belo Horizonte e acudiam uma coisa ou outra, e o Dr. Luiz começou a perceber que o táxi-aéreo seria um bom negócio. Então, comprou mais uma aeronave. Por quê? Porque não se deixava taxativamente investir em comunicação. Nós éramos proibidos investir em comunicação. Então, comprava-se uma outra aeronave. Foi quando nasceu o táxi-aéreo. Nós chegamos a ter uma frota de oito aviões. O táxi-aéreo foi um negócio paralelo que surgiu. E outros negócios foram surgindo porque a Telebrás nos segurava. E, quando ela soltava a rédea um pouquinho, voltávamos todos novamente para o serviço de telecomunicação, que sempre foi a menina dos olhos do Sr. Alexandrino.

ESTATIZAÇÃO
Intervenção em Morrinhos Eu me lembro, aquilo lá foi lamentável. Morrinhos, Goiatuba era uma empresa ligada à CTBC. Ela foi tirada praticamente na marra, na força. Foi um ato feito pela Telegoiás, um ato um pouco violento, porque foi tirado. Nós estávamos inclusive implantando o serviço em Morrinhos e em Goiatuba. Eu já tinha o projeto em mãos, já estava executando o projeto em Goiatuba e em Morrinhos, quando a Telebrás autorizou a Telegoiás a ter um serviço paralelo nessas duas cidades. Então, o que aconteceu? A Telegoiás tirou investimentos que deveriam se feitos em outra área de Goiás, que foram paralisadas, para poder fazer Morrinhos e fazer Goiatuba antes de nós. Mas o problema é que eles não fariam antes de nós. Nós tínhamos condições muito superiores para fazer antes. Mas acontece o seguinte: você imagina uma empresa do governo pondo homens na rua, dizendo para o pessoal para não comprar telefones da CTBC porque quem ia montar era a Telegoiás. Então, botaram uns quatro carros da Telegoiás dentro de Morrinhos e dentro de Goiatuba - a Telegoiás não tinha carros suficientes para atender a demanda da rotina de manutenção deles. Mas eles botaram quatro carros em Morrinhos e dois carros em Goiatuba para fazer pressão. Porque nós também não tínhamos carros disponíveis. Para você ter uma idéia, nós, os funcionários, usávamos os nossos carros na empresa. Não era carro da Companhia, não. Eu destruí uma Bel Air minha, quando eu vim para cá, nessa rota. Eu destruí dois carros meus para, depois, então, eu ganhar um carro da CTBC, que foi uma Rural Willys. Aí, me deram algo. Assim como eu, outros funcionários também faziam. Não é que nós fazíamos de graça, não. A empresa nos pagava por quilometragem percorrida. Mas ela fazia isso porque ela não tinha dinheiro para investir em automóvel, em carros para nós. Ela preferia pegar o dinheiro e investir em comunicação e nós usávamos os nossos carros. Então, todos os chefes de setor, os homens que viajavam, tinham o seu carro, seu mesmo, e os usavam para empresa. E a Telegoiás também não tinha muitos carros. Ela tinha poucos carros, mas tinha mais do que nós. Então, você imagina o que acontece. Eu, em Morrinhos, fazendo uma campanha com duas vendedoras, vendendo telefone, quer dizer, vendendo uma coisa que não existia, vendendo uma ilusão: "Nós vamos pôr um telefone aqui, a exemplo do que pusemos em Itumbiara etc." Às vezes, era até um carro velho, um fusca, um carro nosso de uso, normal. E a Telegoiás chega com quatro carros novos, com o nome Telegoiás. Nós fomos arrasados em Morrinhos. Fomos arrasados. E a concessão foi dada para Telegoiás. Enquanto o acervo, aquilo tudo era patrimônio da CTBC. Então, Goiatuba e Morrinhos foram tirados na marra. Não teve jeito. O Sr. Alexandrino ficou doente. Ele não conversava. Então, o pessoal dizia: "Barata, o Sr. Alexandrino está trancado lá na sala dele. O Sr. Alexandrino não sai da sala dele". Aí, eu chegava, batia na porta. "Quem é?". "É o Barata". Abria a porta. "O quê que foi com o senhor?". "Eu não estou muito bom hoje". Pegava um copo de água e tomava. Mas não é que ele não estava bom, não. Ele ficou sem condições de agir. Eu tenho a impressão de que ele entrou em depressão com aquilo ali. Isso foi por mais de um mês, para depois, então, a gente começar a mostrar para ele que nós tínhamos outro campo de ação maior, que nós tínhamos outras coisas para fazer, que o nosso pessoal não ia ficar parado, que o nosso material não ia ser jogado fora, o equipamento que se comprou para Morrinhos nós poderíamos usar em outra cidade. Isso foi equilibrando, equilibrando. Depois, ele esqueceu. Mas que foi uma situação difícil, foi. O governo, na época, poderia ter feito uma coisa muito melhor com a Telegoiás para o povo. Era deixar a CTBC fazer aquele investimento que a Telegoiás fez em Morrinhos. Poderia fazer em outras cidades que ficaram prejudicadas, para poder fazer Morrinhos, porque a CTBC estava fazendo. Prejudicou alguma outra cidade e prejudicou uma empresa. Mas é o tal negócio: o objetivo da Telebrás era esmagar a CTBC. Então, onde pudesse pegar alguma coisa, pegava mesmo. O general Alencastro teve alguns entreveros não só com o Dr. Luiz, mas com o Sr. Alexandrino também. O general Alencastro, embora eu o tenha como grande cidadão, um homem honesto, um homem que acredito que ninguém poderá tocar nada dele porque foi um homem honestíssimo, um militar e um político honestíssimo, como presidente da Telebrás, no entanto, ele prejudicou demais a CTBC. E não só na Telebrás. Quando ele estava na Telemig, como presidente da Telemig, também. Ele nunca enxergou o Sr. Alexandrino e o Dr. Luiz com bons olhos. Não. Isso eu falo com certo sentimento porque eu presenciei algumas cenas que gostaria de não ter presenciado. Vi a forma do general Alencastro se dirigir à CTBC, ao Sr. Alexandrino, que era um homem de idade mais ou menos idêntica à do general, não sei quem seria mais velho, mas eram do mesmo nível. Se o general Alencastro falasse para mim o que falou para o Sr. Alexandrino, eu até aceitaria porque, afinal de contas, eu era um menino, e ele, um senhor já de idade e um general. Agora, o Sr. Alexandrino, embora não fosse um militar, era um cidadão honesto, um empresário de grande porte e um homem batalhador. Eu acho que ele não merecia ouvir determinados tratamentos que não condizem com a época em que nós vivemos hoje, que temos que respeitar um cidadão, respeitar outro. O general Alencastro usou muito o militarismo em cima da empresa. Ele foi muito rude. Se ele fez alguma coisa de bom para a CTBC, eu não sei, eu não conheço. Mas do que eu conheço realmente tudo o que foi feito foi realmente para dificultar o trabalho da empresa. Só que tem uma coisa. Se não fossem essas pressões que nós tivemos, a CTBC, hoje, poderia estar em Minas Gerais inteira, poderia ter se expandido muito mais, muito mais. Ela tinha condições para isso. Tinha condições técnicas, boa-vontade e gente para fazer. Mas ela não tinha autorização. Ela era barrada nas normas da Telebrás e no Ministério das Comunicações. Reestruturação Eu não tive contato com Mário Grossi. Então, começou a mudança da empresa. De empresa patronal para empresa diferente, com outra organização, outro sistema. Começaram a ser eliminados esse e aquele funcionário. Aposentou-se, sai. Está aposentado, sai. E eu falei: "Gente, agora é minha vez". Mas eu não tive contato com Mário Grossi. Para te falar a verdade, se eu vê-lo na rua, não o reconheço. Eu nunca tive contato com ele. Uma ocasião até, falando com o Dr. Luiz, eu falei: "Como é que fica minha situação?" Ele falou: "Barata, você continua tudo do jeito que estava". "É porque fulano foi mandado embora, sicrano foi mandado embora...". "Não tem problema. O dia em que você for mandado embora também, você vai. E daí, qual é o problema? Enquanto você não for, você continua". Fui continuando. Pioneirismo A CTBC foi a primeira a implantar o DDD, foi a primeira a implantar um punhado de coisas, implantar microondas. É que eram dois homens na empresa: Alexandrino Garcia e Luiz Alberto Garcia. Esses dois homens fantásticos. O Sr. Alexandrino, com aquela vontade de resolver o problema de comunicação. Ele não se preocupava com lucro, não. Ele se preocupava em ter comunicação. Esse foi sempre o objetivo dele. Falava: "Sr. Barata, o lucro é uma conseqüência natural. O senhor não se preocupa. Ele vem naturalmente. Nós temos que prestar um bom serviço, um bom atendimento e fazer o serviço funcionar. Isso é que é o principal". Quer dizer, juntou essa vontade do Sr. Alexandrino com a técnica do Dr. Luiz, que já era um homem formado e fez cursos, foi para Suécia, foi para o Japão, um homem que realmente entrou no meio de Comunicações para valer. Então, ele trazia isso de novidade para cá. Por exemplo: o primeiro circuito de televisão fechada que existiu no meio das comunicações brasileiras foi o nosso. O Dr. Luiz trouxe uma câmara do Japão e falou: "Ô Barata, vamos ver o que nós podemos fazer com essa câmara?" Falei: "Não tem nada que fazer. Só serve aqui para ficar vendo funcionário trabalhar e funcionar. Não tem o que fazer com isso". "Não, mas tem que achar uma solução para isso". Ele era um homem assim. Ele via um troço nos Estados Unidos, no Japão, na Europa, na Itália, aonde ele ia e trazia. "Nós temos que aproveitar isso aqui. Lá já se fala nisso". Em 1970, quando o Luiz veio do Japão, ele falou assim para mim: "Barata, dentro de mais 20 anos, nós não vamos precisar mais de fios. Nós vamos ter telefone para carregar no bolso. Para falar com quem a gente quiser, no mundo inteiro". Falei: "Oh. Luiz, isso aí você sonhou. Você deve ter passado mal, comeu demais. Não tem condições. Nós sabemos que isso não é possível". "Barata, o senhor pode ter certeza que isso vai acontecer. O homem não vai precisar de fios para falar". E, realmente, você sabe que hoje nós estamos falando com fios porque não tem jeito de tirar isso mais. É um abacaxi que está aí e tem que ficar. Mas, na realidade, conforme vai se deteriorando, vai sendo abandonado. Nós não precisamos mais de nada disso. Nós temos o telefone portátil e, daqui a uns dias, nós estamos vendo o assinante do outro lado. A evolução é muito grande. E o Luiz foi um homem que sempre teve essa visão. Ele sempre viu isso. Então, ele procurava sempre trazer o que havia de melhor. E foi aí que a CTBC foi pioneira num punhado de coisas. Associados É uma grande empresa. Eu já não diria mais que é uma escola porque já foi uma escola. Hoje, eu não diria isso. Eu diria que é uma boa empresa. É como hoje que o sujeito luta para ser um funcionário do Banco do Brasil, para ser funcionário de uma Ericsson. Com a CTBC é a mesma coisa. Está no mesmo páreo. É uma grande empresa. Vale a pena ser funcionário da empresa, vale a pena. Se eu tivesse meus 20 anos de idade, eu ia lutar para ser funcionário da CTBC. Clientes Eu não concordava muito com o Sr. Alexandrino. Confesso que eu também errei, porque eu não acreditava nisso. Mas ele tinha as razões dele para poder usar essa norma de trabalho. Ele insistia com a gente que prestasse um bom serviço, que o assinante, o usuário dos nossos serviços é que ia ser o propagandista das comunicações. Porque comunicação não existia. Nós tínhamos o serviço de telégrafo que era deficiente. O serviço de cartas, a correspondência, que era aquela história: o senhor mandava uma carta para São Paulo e demorava 15 dias para chegar. Então, havia necessidade da comunicação. Ele dizia para o nós o seguinte: "Olha, se o assinante é bem recebido, se a pessoa é bem recebida nos nossos PS, que são os nossos centros de serviços, e se nós prestamos um bom serviço para ele, esse assinante vai voltar, vai ser incentivado a usar mais o serviço interurbano. Quer dizer, é um meio de comunicação que ele tem, e será um nosso aliado". Esse era o lema do Sr. Alexandrino. É ter todo usuário, quer dizer, o nosso cliente, como nosso aliado. Um amigo nosso. E assim funcionava realmente, embora eu, na época, novo ainda, entendesse tecnicamente do assunto, e nós nem falávamos em marketing. Essa palavra nem existia. Na década de 50, ninguém falava em marketing. Eu nunca ouvi falar nisso. Eu comecei a ouvir falar em marketing na década de 70. E eu comecei a luta na CTBC, em telecomunicações, em 1958. Então, nessa época, marketing não existia. Mas eu entendi que tinha que existir propaganda. E o Sr. Alexandrino dizia o seguinte: "Propaganda pra quê? Ninguém consegue falar. Se nós oferecermos alguma coisa ao usuário, o colocamos com o meio de comunicação, essa é a maior propaganda que existe. Porque a propaganda é feita dos dois lados: do lado que inicia a ligação e do lado que termina a ligação. É muito mais importante". Esse era o lema que o Sr. Alexandrino implantava na cabeça de cada um. No correr do tempo, eu passei a ver resultado, a entender que isso era uma verdade. Existiam os viajantes, que eram os homens que conseguiam levar os pedidos para as empresas, porque o meio de comunicação que havia era o próprio homem circulando. E eu percebia que, uma vez que o assinante que costumava fazer uma correspondência para uma família ou no comércio usasse o sistema de comunicação, que era o telefone, para fazer os seus negócios ou para o contato com a família, o entusiasmo era tamanho que ele se sentia motivado a fazer mais chamadas, a vir mais vezes ao serviço, procurando mais o serviço. E, com isso, começou a aparecer a necessidade também de o usuário ter mais comunicação local, ou seja, mais números de telefones local porque ele antes sabia que o telefone só servia para falar dentro da cidade. Depois, quando começaram os interurbanos, que foi a implantação que o Sr. Alexandrino insistia em fazer e fez, dentro do Triângulo Mineiro, expandindo até a Alta Mogiana, que seria o norte de São Paulo, o sul de Goiás, uma parte do Mato Grosso, o Triângulo Mineiro, o Alto Paranaíba, essas comunicações incentivavam as pessoas realmente, e eu comecei a ver resultado nisso. Só tinha um detalhe: não existia tarifa. Era a visão que o Sr. Alexandrino tinha, e eu acredito que ele não era o único homem do Brasil que tinha esse raciocínio, uma infinidade de outras pessoas deveria ter, só que as pessoas não acreditavam porque não existia tarifa. A tarifa era insignificante. Não dava para cobrir nada de investimento, muito menos a mão-de-obra operacional. Então, o Sr. Alexandrino acreditava que, no momento que existissem essas comunicações, o governo tinha que ser sensibilizado com isso automaticamente e teria que dar tarifa para que se desse continuidade ao serviço. Era uma questão de experimentar, sentir e ver o resultado. E o resultado foi concreto, não havia dúvida alguma. Houve um incentivo. E eu acabei acreditando nisso. Então, é lógico, eu tinha uma visão de uma maneira, mas tive que me convencer de que a opinião do Sr. Alexandrino era certa mesmo. Era manter o usuário sempre do nosso lado. O assinante sempre do nosso lado. Era o nosso cliente. Não resta dúvida nenhuma. E, com isso, a Companhia chegou no porte que chegou. O pensamento dele estava certo. Uma vez implantando o serviço em uma localidade ou local, haveria necessidade do interurbano. Mas o interurbano não tinha tarifas suficientes para manter o serviço. Mas ele dizia o seguinte: "No momento em que se fizer o meio de comunicação, a própria comunidade vai se sentindo sensibilizada a pressionar o governo a dar tarifas". E foi exatamente isso que aconteceu. Aposentadoria Quando me preparava para me aposentar, eu me aposentei com 40 anos de serviço, eu fiquei na empresa por mais dois anos. Aliás, foi um pedido que Sr. Alexandrino me fez na época. É uma história um pouquinho longa, mas vou contar. Quando quis me aposentar, eu procurei o Sr. Alexandrino, que era o homem com quem eu tinha contato. Expliquei para o Sr. Alexandrino que eu ia me aposentar, que já estava me preparando para, dentro de dois anos me aposentar e que eu ia começar a ter uma atividade paralela, ter algum negócio paralelo, para que, quando eu me aposentasse, eu tivesse condições de manter o mesmo nível que eu tinha na empresa. Isso até foi censurado muito pelo Dr. Luiz, e ele falou: "Barata, você está pondo minhoca na cabeça. Você não vai sair da CTBC nunca. Você vai morrer aqui dentro. Você não vai se aposentar, você vai morrer aqui dentro". E eu dizia para o Luiz: "Luiz, eu posso até me aposentar aqui dentro e ficar aqui na empresa, mas, no dia em que eu morrer, minha mulher vai ter a minha aposentadoria, e ela não vai poder viver com a aposentadoria, no mesmo nível que ela tem hoje". Eu era um homem que ganhava aproximadamente 70 salários mínimos. Falei: "À hora que eu me aposentar, só vou conseguir aposentar com 10 salários porque é o que o nosso sistema paga. E eu não sei, por exemplo, se, à hora que eu me aposentar e eu estiver vivo, será que eu vou viver com 10 salários no nível que eu tenho? Se eu morrer, minha mulher vai ser aposentada com 10 salários. Nem 10 não era. Eram 5 salários naquela época. Será que ela vai se manter no nível que ela tem?" O Luiz falava: "Barata, você não pode pensar assim". "Mas eu penso. Eu penso porque eu tive a escola do seu pai". O Sr. Alexandrino me ensinou a pensar não só no presente. O Sr. Alexandrino me ensinou a pensar no presente e no futuro. Só o passado que não. Ele dizia: "Passado você esquece. Você tem que pensar hoje e daqui para frente". Então, foi quando eu falei com Sr. Alexandrino, e o Sr. Alexandrino me falou: "Barata, você pode fazer alguma coisa, mas da CTBC você não vai sair. Eu até te ajudo a se aposentar, mas você vai continuar na empresa". "Então, está bom". Então, eu parti para uma atividade. Eu tinha uma preocupação em ter um meio, à hora que eu ficasse velho, de ter algum negócio. Então, eu estudei uma possibilidade de ter um sistema de bip. Na época, o bip era muito divulgado porque a condição de você ter um telefone era muito difícil. Você ficava dois anos em uma fila para ter um telefone. E o bip ajudava demais as pessoas, a exemplo de São Paulo, Grande Rio. Então, eu consegui a permissão - porque não era concessão, era permissão - para montar o serviço e fiz, procurei uns companheiros dentro da empresa, e o Dr. Luiz sabendo disso. Contei para o Dr. Luiz e para o Sr. Alexandrino o que eu ia fazer. O Sr. Alexandrino aprovou e o Luiz também. Só que o Dr. Luiz aprovou de uma forma: ele achou que eu não ia fazer. Mas eu parti para fazer e fui embora. Então, eu consegui 10 elementos na empresa, que eram os homens-chave da empresa, com uma única condição: para nós termos um negócio desse, teríamos de colocar um gerente lá dentro e só assumirmos aquilo quando nós nos aposentássemos. Então, assim foi feito. Eu fiz uma lista, assinaram essa lista o Walter Machado, eu, o Cláudio Leig, o Dr. Sátiro, enfim, diversas pessoas da CTBC que tinham cargos de chefia, e todos mais ou menos numa idade que, quando começasse a se aposentar ia ser mais ou menos tudo igual. Fiz isso aí e iniciei o serviço. Agora, na hora de pegar o dinheiro, do capital, na época, eu me lembro que eram R$ 10.000 cada um. Nós tínhamos que entrar com um capital de R$ 10.000 cada um para começar o serviço. Aí, o pessoal foi desistindo, e a bomba ficou na minha mão. Eu tinha o compromisso dos equipamentos que eu tinha já adquirido, tinha feito compromisso, tinha feito contrato, estava vencendo o prazo para eu mandar o dinheiro, e eu não tinha. Só houve dois companheiros que aceitaram e pagaram os R$ 10.000 cada um. Eu também depositei mais R$ 10.000 e deu R$ 30.000, mas não dava o capital. Então, cheguei a ponto de falar: "Agora tem que fechar. Não tem condições". Chamei esses dois sócios que realmente fizeram o negócio, que eram o Adauto - ele era o homem responsável pelo centro de processamento de dados da empresa na época - e o Milvar de Menezes, que era um engenheiro civil da CTBC. Nós três, então, falamos: "Nós vamos fazer, nós três. Os outros não querem, vamos fazer nós". Aí, o capital já não vai ser mais R$ 10 mil cada um. Vai ter que ser R$ 30. E tudo bem. Vendi o automóvel, vendi uns terrenos, vendi telefone, vendi um punhado de coisa porque, toda vez que saía plano de expansão de telefones, eu sempre comprava 10. Saía o plano de expansão, e eu comprava 10. Quando o telefone instalava dali a dois anos, eu saia vendendo. Vendia a metade e ficava com a outra metade. A metade que eu vendia dava para tirar o capital e ficava com o resto para mim. Chegou uma hora de eu ter 40 e tantos telefones. Nessa época, eu acabei vendendo vários, fiz o capital. Montei o bip, que hoje já foi convertido no pager, serviço de rádio-chamada. Hoje, não se usa mais bip. Usa-se pager. E aconteceu um detalhe muito importante. Quando consolidamos a idéia de partir para o bip, eu chamei o Dr. Luiz e expliquei: "Olha, Dr. Luiz, eu tenho a permissão para fazer, nós vamos fazer só em três porque os outros não quiseram". O Dr. Luiz não gostou e falou: "Barata, você está completamente errado. Você está fazendo um negócio paralelo, depois, você não vai fazer direito nem o seu serviço, nem o da CTBC. Eu não acho que você está certo". Eu falei: "Olha, Dr. Luiz, eu estou me preparando para o futuro. A minha intenção é fazer isso e deixar alguém tomando conta, não vou mexer com isso e, futuramente, quando eu me aposentar, vai se uma mão na roda". Mas ele não gostou. Então, eu fiquei muito aborrecido e falei: "Eu vou conversar com Sr. Alexandrino também. Se ele estiver com o mesmo princípio que o Dr. Luiz, vou largar esse troço e vou botar uma pessoa no meu lugar". Mas eu fui conversar com Sr. Alexandrino, e ele me cumprimentou e me deu os parabéns. Aí, o Sr. Alexandrino me contou uma história. Falou: "Olha, eu soube que o senhor conseguiu a autorização para o senhor fazer. O senhor sabia que a CTBC tentou fazer isso?" "Não sabia". "Pois é, os nossos engenheiros fizeram um projeto para nós fazermos o bip aqui em Uberlândia". Eu falei: "Mas eu não tenho conhecimento disso. E todo projeto da CTBC eu tenho conhecimento". "Pois é, o senhor não teve conhecimento, mas está tendo agora. A CTBC fez e não conseguiu, e o senhor fez e ganhou. O senhor está de parabéns. O senhor vai fazer o serviço. Se o senhor precisar de dinheiro, eu lhe ajudo". Essa foi a expressão do Sr. Alexandrino. Eu fiquei todo eufórico com aquilo. Aquilo para mim foi uma vitória. Só que ele me pediu uma coisa. "Só vou pedir uma coisa para o senhor: o senhor nunca venha me falar que o senhor vai sair da CTBC. Aposentar-se, sim. À hora que o senhor estiver na época de aposentar, o senhor me procura, que eu vou mandar o Departamento Pessoal aposentar o senhor sem problema. Mas o senhor nunca fale em sair da empresa". "Está bom". E assim eu fiz. Fizemos o bip, montamos o bip, pus um filho meu para gerenciar aquilo lá, e funcionou maravilhosamente bem. Não me tomava tempo da CTBC em nada. O negócio da CTBC continuou a mesma coisa porque o bip funcionava tranqüilo. Não tinha problema algum. Os meus dois sócios, o Dr. Milvar e o Adauto, saíram da empresa. O Adauto foi para universidade lecionar e ser responsável pelo Centro de Processamento de Dados da Universidade e o Dr. Milvar dependurou a chuteira. Não quis saber de mais nada. "Trabalhar mais, não. Não preciso trabalhar mais, não. O que eu tenho dá para viver". E se aposentou, saiu da empresa. E eu continuei na empresa, trabalhando normal, sem problema algum, o bip nunca me prejudicou na empresa, em hipótese alguma. Mas, depois, eu me aposentei e continuei na empresa. Mas aconteceu um fato. O bip mudou para o pager. O serviço era outro, completamente diferente. Então, aí, eu tinha duas alternativas: ou vender o sistema para uma empresa de pager, ou passar a executar o pager, porque o bip estava ultrapassado. Eu tinha que me modernizar. Eu aprendi isso com a CTBC. Você não pode ficar para trás. Você tem que estar sempre se modernizando. Então, falei: "Agora, vou ter que sair da empresa porque eu vou ter que ir para os Estados Unidos, vou ter que ver como isso funciona lá". Porque o que fizeram em São Paulo é fechado, eu não conseguia, eles não mostravam nada. O negócio era fechado. O que fizeram no Rio, a mesma coisa. Falei: "Vou ter que ir para os Estados Unidos e ver como é que eu vou fazer, como é que eu tenho que fazer". Então, pedi a concessão para passar do serviço de bip para o serviço de pager, e a concessão foi dada, tudo normal. Aí, houve a necessidade de eu sair da empresa. Foi quando eu procurei o Sr. Alexandrino. E o Sr. Alexandrino me falou: "Não, Sr. Barata, o senhor prometeu para mim que o senhor não vai sair da empresa. O senhor vai fazer o seguinte: em vez de o senhor ir para os Estados Unidos, manda o Milvar, manda o Adauto, que são seus sócios. Eles vão lá ver como é que é e trazem para o senhor. O senhor é um homem inteligente, o senhor não precisa ir lá, tendo um papel, o senhor funciona. E o senhor continua na empresa. Faz o serviço lá de pager, mas o senhor continua na empresa. Pelo amor de Deus, o senhor não sai da empresa". Eu falei: "Não, tudo bem". Aí, eu fiquei na empresa. O Sr. Alexandrino ficou doente, teve um problema de derrame e ficou um homem sem condições mais de a gente conversar, de a gente se ver. Nesse meio de tempo, começou a haver as modificações na empresa, o Dr. Luiz foi para presidência, veio o rapaz, o italiano, o Mário Grossi. Mas, depois, o Sr. Alexandrino realmente chegou a um ponto que já não tinha mais diálogo com ele. Ele já não conversava mais. Eu visitei o Sr. Alexandrino, e ele já não conversava mais. Não tinha condições, já se esperava realmente ele ir embora. Aí, eu cheguei para o Dr. Luiz: "Dr. Luiz, vou sair da empresa por duas razões. A primeira é porque eu estou vendo como está sendo negociado, com autorização do Mário Grossi, com alguns funcionários da empresa. Estão pedindo para a pessoa sair da empresa, e aqueles que quiserem ficar vão sair da empresa e voltam depois com salário diferente. E continuam, como continuaram alguns. Se alguém me fizer uma proposta dessa natureza, eu vou me revoltar. E eu não sei o que vai acontecer, se eu me revoltar. Eu gostaria que isso não fosse feito comigo. Gostaria de sair da empresa normalmente, sem problema algum. Estou aposentado já faz três anos. Tenho que sair porque eu vou me dedicar à minha empresa". O Dr. Luiz concordou. "Não, Barata, está certo. Você pode sair". Então, acertamos, sai sem o menor problema. Não tenho nenhuma mágoa da empresa, de ninguém. Saí de livre e espontânea vontade, sem problema algum, e fui tocar meu negócio de pager. Só que hoje, você vê a situação. Eu dei minha vida para CTBC. Desde 1958 e até antes. Em 1958, eu já estava em telecomunicações e, em 1966, eu vim definitivamente para CTBC. Então, você vê, eu dei a minha vida para CTBC e, no final, a CTBC me prejudicou, indiretamente, de uma forma extraordinária com o pager. Quer dizer, não é culpa da CTBC, mas eu estou dizendo para você ver como é o destino. Eu fiz tudo na minha vida para a CTBC. Deixei a família às vezes passar por necessidades, por problemas, viajando, fazendo das tripas coração, não tive hora de trabalho. Eu não sei o que é hora extra, eu não sei o que são férias. Nas vezes que eu saía de férias na empresa, eu saia três, quatro, cinco dias, e eles mandavam me buscar de avião, como aconteceu em Guarujá por duas vezes. Eu estava no Guarujá e, no terceiro dia, eles foram me buscar. Aconteceu também no Rio de Janeiro. Foram me buscar. Estouravam os pepinos aqui, e eu tinha que vir para cá. Mas isso tudo eu achava normal porque eu sempre gostei do que eu fazia. Sempre gostei. E, com o problema do pré-pago, do telefone pré-pago, a empresa me prejudicou de uma maneira fabulosa. Eu perdi 70% dos meus assinantes com o pré-pago. O telefone, o celular, não. Negativo. O celular até me incentivou. Quando saiu o celular, eu ganhei mais assinantes. Os assinantes tinham o celular e tinham o pager para economizar. Porque ele usava o celular somente à hora que ele queria ligar. E com o celular sempre desligado, era uma privacidade que ele tinha de não ficar atendendo telefone na rua. Pelo menos, os mais inteligentes. Não querem saber de atender telefone. Eu mesmo sou um caso. Meu telefone celular está lá dentro, que eu não vivo mais sem ele, mas desligado. Eu uso o meu pager. Se alguém quiser falar comigo, fala pelo pager. Não atrapalha ninguém. Se chamar agora, vocês nem vão ficar sabendo. Ele vai vibrar, e só eu vou escutar. Não tem problema algum. Eu sei que tem um chamado para mim. À hora que tiver oportunidade, vou ver. Então, muita gente usa o pager para isso. Faz uma economia fantástica. E não passa por aquela parte ridícula de ter que atender ao telefone em uma hora imprópria, no meio da rua, o que é altamente deselegante. Uma pessoa andando na rua com o telefone na orelha, para mim, é a coisa mais baixa que pode existir. Se quer falar, vai para um canto. No meio da rua Tenha paciência. Tudo bem. Cada um tem o direito de fazer o que quer. Mas quando saiu o pré-pago, esse sim me esmagou porque hoje o pré-pago está na mão do bicicleteiro, do carroceiro. Ótimo, excelente. Assim, todo mundo pode usar, uma maravilha. Mas esse tipo de assinante, eu perdi todos porque é lógico que eles preferem o pré-pago. Com uma mensalidade muito mais barata, eles não falam, só recebem. Então, eles não pagam nada. Compram um talão a R$ 10 e só pagam a cada 90 dias. Minha tarifa é muito mais cara que a deles. Eles têm uma vantagem: fala. Recebe a mensagem e fala. Agora, ele evita falar porque, se ele for falar realmente, o custo vai lá em cima, porque a tarifa é alta. Isso me prejudicou de uma forma extraordinária. Mas eu não culpo a CTBC. Isso é uma conseqüência natural do desenvolvimento. É o mercado.

EMPRESAS
Companhia Telefônica de Ituverava S.A. Em 1957, eu comecei a fazer um curso de Telecomunicações porque havia um grupo em Ituverava que queria, de toda maneira, fazer o serviço de telefonia automática porque Ituverava tinha um serviço de telefone magneto. Tinha parece que 32 ou 38 assinantes magneto. Então, tinha esse grupo querendo fazer isso. Eu era muito amigo desse grupo, inclusive também entrei para ser um futuro assinante de telefone e, como eu já tinha um curso de Eletrônica, um curso de Eletrotécnica, eles me perguntaram se eu tinha condições de fazer um curso para conseguir o registro no CREA e assumir a Telefônica. Porque o primeiro passo depois de formada a Sociedade Anônima era ter um corpo técnico especializado para poder se responsabilizar pelo serviço. E eu, então, fiz esse curso em São Paulo, prestei o concurso e consegui o registro no CREA. Fui, então, ser o responsável técnico pela Telefônica de Ituverava. Isso em 1957, antes de ter a Telefônica. Aí, fizemos a Telefônica, em 1958. Eu me desliguei da Phillips e passei a ser o gerente da Telefônica e o responsável técnico por ela, em Ituverava. Ela se chamava Companhia Telefônica de Ituverava S.A. Foi absorvida depois pela CTBC, mas foi depois de muito tempo, quando a CTBC começou a entrar na área da Alta Mogiana, comprou Franca, comprou Orlândia, foi incorporando essa região, e Ituverava acabou sendo incorporada também, nessa mesma época. Eu fiquei na Telefônica de Ituverava de 1958 até 1966. Havia uma dificuldade muito grande de importação de equipamentos. Inclusive a nossa primeira compra na Ericsson, de um equipamento de 500 linhas, a Ericsson não conseguiu entregar. Começou a pôr obstáculo porque havia uma espécie de concorrente na compra, alguém que pagava mais. Então, quando chegava na hora de a gente fazer o contrato com a Ericsson, já tinha outro que fazia primeiro. Era um tipo de um leilão. A verdade era essa, porque existiam grupos já, na época, achando que telefonia seria um bom negócio - como realmente foi -, a exemplo do próprio Sr. Alexandrino Garcia, que achava que era um bom negócio já na época. Nós tivemos uma dificuldade muito grande com a Ericsson, mas soubemos de um equipamento que estava em Paranavaí, no Paraná, que tinha sido adquirido por uma companhia de lá, e essa companhia começou e quebrou. Ela não teve condições de ir para frente. Então, nós compramos esse equipamento de Paranavaí. Mas não estava em Paranavaí, estava em Santos, nas docas de Santos, porque eles não haviam nem retirado o equipamento ainda. Então, nós pagamos o ágio para Telefônica de Paranavaí, que não existia, só existia no papel, e tiramos esse equipamento da alfândega e o levamos, então, para Ituverava, onde nós montamos a Companhia Telefônica de Ituverava. Era uma central de 500 linhas, e, na época, nós tínhamos 360 compromissados. Então, tivemos um saldo de 140 telefones para serem negociados depois. Os 360 já davam condições para nós adquirirmos a central, para fazermos o prédio, enfim, fazer tudo o que era necessário para fazer a Telefônica. Mas, depois, criou-se um problema mais sério. No fim de 1958, nós inauguramos a Companhia Telefônica, mas ela não falava em lugar algum do mundo. Só falava lá dentro. Não tinha circuito interurbano, não tinha nada. O enlace de interurbanos era feito em Orlândia, com a Companhia do Augusto Junqueira, que tinha circuitos de Ribeirão Preto até Orlândia e um circuito estendido para São Joaquim da Barra. Então, para nós entrarmos no interurbano, nós teríamos que fazer um circuito - naquela época era circuito físico - porque não se falava em rádio, era um circuito físico de Ituverava até São Joaquim da Barra, 30 e poucos quilômetros. Mas nós não tínhamos dinheiro para fazer isso. Então, nós entramos através de política. O nosso prefeito de Ituverava, na época, por sinal, tinha o meu nome, João Athayde - meu nome é Athayde, mas ele se chamava João Athayde e era o prefeito. Ele era muito amigo do famoso Brigadeiro Faria Lima - depois, eu passei a ser amigo dele também. Ele vinha muito a Ituverava, tinha uma fazenda ali, que foi negociada com o senhor Nhozinho, que era muito meu amigo também, lá de Ituverava. Então, na época, nós conseguimos do governo do estado a doação de fios de cobre, isoladores e mais alguma coisa. Só postes é que não. Nós conseguimos ganhar isso e só nos restou fazer uma campanha depois, no município, para conseguir postes. Fizemos uma campanha com os fazendeiros da região, que tinham interesse em ter circuitos interurbanos na cidade, e eles fizeram a doação de postes. Alguns, nós compramos, outros nós ganhamos e conseguimos fazer esse circuito interurbano de Ituverava até São Joaquim da Barra, para fazer a comutação para Orlândia, para Orlândia fazer a comutação com Ribeirão, Ribeirão-Campinas, Campinas-São Paulo, que era o objetivo nosso da região: falar em São Paulo. Era um verdadeiro drama. Depois que fizemos o circuito interurbano, nós conseguíamos fazer uma média de quatro ou cinco ligações por dia. Era o máximo que se conseguia fazer, porque esse circuito atendia Ituverava, passando por São Joaquim. Quando São Joaquim ligava Ituverava, deixava de atender São Joaquim e assim por diante. Então, normalmente, o sujeito começava a pedir ligação hoje para conseguir falar amanhã, a qualquer hora do dia. Ele não tinha horário para falar. Era quando tinha uma brecha de linha que se conseguia falar. Para o interurbano normal, o sujeito às vezes ficava três, quatro dias para conseguir fazer uma ligação. E, quando fazia a ligação, tinha que gritar mesmo para valer porque os circuitos eram muito ruins. Era circuito físico e comutado muitas vezes. Ele não era direto. Se fosse um circuito físico, Ituverava-São Paulo, tudo bem. Até dava para falar. Mas era muito comutado. Então, era muito difícil. Companhia Telefônica de São Joaquim da Barra Na época que eu era responsável técnico pela Telefônica de Ituverava eu expandi o serviço, montei uma central em Guará, no estado de São Paulo, também perto de Ituverava. Fiz, criei uma Sociedade Anônima e montei uma central em Guará. Depois, montei uma em Miguelópolis. Depois, montei uma em Ipuã. Já estava expandido. E, depois, havia uma concorrência em São Joaquim da Barra, também para fazer um serviço como Ituverava, um serviço automático, de 500 linhas. Houve a concorrência pública. Eu entrei nessa concorrência, mas quem ganhou foi a CTBC. E foi justamente nessa época que eu tive um atrito muito grande com o Sr. Alexandrino Garcia porque eu era um adversário, eu estava implantando o serviço de telefonia e fui um concorrente da CTBC em São Joaquim da Barra. Eu perdi a concorrência. É lógico. Não tinha condições de concorrer com a CTBC. Eu era sozinho. Particularmente, eu. E a CTBC era a CTBC, uma empresa de nome. Então, eu perdi a concorrência, e a CTBC ganhou, e, com desse atrito, nós passamos a nos conhecer. Eu passei a conhecer o Luiz Alberto Garcia, o Sr. Alexandrino, o finado Walter Garcia. Passei a conhecer a família Garcia. O atrito é que era uma disputa. Quer dizer, eu entrei numa concorrência que São Joaquim estava fazendo. Entrei em uma concorrência. Eu queria que eu fizesse o serviço. E a CTBC também quis fazer. E a CTBC ganhou. Eu chamo isso de atrito. Não foi uma briga. Criamos um atrito. Chegamos a discutir em reunião na Câmara. Por que a CTBC ganhou? Por que eu não ganhei? Eu apresentei propostas idênticas. A CTBC tinha um nome a zelar, e a responsabilidade muito maior. Eu era um principiante. Eu tinha apenas feito uma Telefônica de Ituverava. Uma Telefônica de Guará. Eu não tinha um nome e talvez nem os recursos que a CTBC teve para apresentar. Houve esse atrito, mas foi um atrito benéfico para mim, para CTBC e para região. Digamos que, na época, nós nos transformamos em inimigos cordiais. Mas nunca chegamos a ser inimigos, não. Definitivamente, não. O primeiro contato foi esse aí. Aconteceu exatamente em São Joaquim da Barra, numa reunião em que, eu me lembro muito bem, estavam o Sr. Alexandrino, o Luiz Alberto Garcia, o advogado da CTBC, que era o Lamartine, e mais outras pessoas que eu não lembro de nome. Quer dizer, a CTBC tinha quatro pessoas representando a CTBC. Representando a outra concorrente era eu, Athayde Barata. Então, eu não tinha chance nenhuma de ganhar. Eu ganhei e fiz Ituverava, fiz Ipuã, fiz Miguelópolis porque não tinha concorrente. Eu apresentava meu serviço ao prefeito, o prefeito incorporava a antiga Companhia Telefônica, nós transformávamos aquilo em uma sociedade anônima, e eu fazia. Não existia concorrência alguma. Mas São Joaquim, não. Já era uma cidade maior, eles queriam um serviço melhor, já queriam com interurbano, essa coisa toda. Inclusive a CTBC propôs interligar o link de interurbano. Eu não podia propor isso porque eu não tinha esse recurso. Eu não posso negar que eu me senti prejudicado, é lógico. Eu estava concorrendo. E quem perde uma concorrência, automaticamente, não fica de cara boa. Mas eu entendi que, para a região, foi benéfico porque a região ganhou com isso. Porque, se eu tivesse ganho a concorrência em São Joaquim da Barra, eu teria apenas montado a Companhia Telefônica, com um único circuito interurbano que era disputado com Ituverava, enquanto a CTBC propôs ligar um link de circuito interurbano, de seis circuitos, de São Joaquim a Ribeirão Preto. Quer dizer, a região foi altamente beneficiada e inclusive eu, em Ituverava, porque aí eu tive condições de crescer os circuitos interurbanos até Ituverava, aliás, até São Joaquim porque São Joaquim já tinha condições de ter mais circuitos. Então, foi benéfico para todo mundo. Embratel A tarifa foi uma arma da Telebrás até um certo ponto porque, quando a Telebrás sentiu a necessidade de ter tarifas também para dar continuidade no serviço dela, ela teve que dar tarifas para o serviço público. E, com isso, a CTBC pressionava o Dentel. Se a empresa estatal tinha essa tarifa, por que a CTBC não tinha? Então, foi começando a aparecer resultado na tarifa. Mas nós tivemos um problema muito sério. Seriíssimo. É que a Telebrás, conseguiu se alicerçar porque existia uma sobre-tarifa que foi imposta, de 30%, como Fundo Nacional de Telecomunicações, e essa tarifa era arrecadada por todas as empresas, e isso era voltado exclusivamente para o crescimento das empresas do governo, inclusive a Embratel. Então, o governo passou a exigir da Embratel, como ela tinha uma grande arrecadação, e a Embratel foi realmente concretizada com esse Fundo Nacional de Telecomunicações, os 30% que se arrecadava em todas as empresas. Você imagina. Hoje, nós falamos em 3% em qualquer atividade comercial um grande negócio. Concorda comigo? É um grande negócio você investir para ter um resultado de 2 a 3%. Altíssimo negócio. Agora, você imagina uma empresa tendo uma arrecadação de 30% do faturamento de todas as empresas do país, sem ter aplicação nenhuma nisso. Porque o que ela aplicava, ela tinha em tarifa. Esses 30% eram uma coisa extra que entrava na Telebrás. Então, não se pode negar o sucesso da Embratel. Porque, se nós temos hoje no país um meio de comunicação que é invejado até por grupos internacionais porque realmente é um bom serviço, nós temos que agradecer à Embratel, porque realmente ela trabalhou e fez. Mas ela fez não com o dinheiro que ela arrecadou. Foi com o dinheiro que nós, outras empresas, arrecadamos e enviamos aquilo limpinho para o governo. Inclusive até a documentação para ser paga em banco era nossa despesa. O governo não fazia despesa alguma. Então, o crescimento das empresas estatais não se deve exclusivamente ao esforço da empresa, no caso, como aconteceu com a CTBC, como aconteceu com Alexandrino Garcia. Se a empresa teve sucesso, ela teve sucesso com a arrecadação de suas tarifas, do seu serviço porque ela não tinha subsídio algum do governo. Nenhum, nenhum, nenhum. Haja vista que, quando as empresas estatais - eu já disse isso antes - tiravam da Embratel 80, 85, 90% de participação no tráfego, o governo dizia que tinha que tirar porque a Embratel não investiu dinheiro. Quem investiu foi a própria Telebrás. Acontece que não era dinheiro da Telebrás. Era dinheiro das empresas que arrecadavam do usuário que fazia a ligação. Você fazia uma ligação que lhe custava R$ 10 - na época, era cruzeiro - você pagava 30% a mais que as empresas arrecadavam e mandavam isso para Telebrás. De mão beijada. Que a Telebrás investia isso na Embratel, não resta dúvida alguma. Então, a Embratel cresceu. Cresceu com o dinheiro do povo. Não foi com os lucros da atividade dela. Definitivamente, não. Agora, a CTBC foi exclusivamente com os resultados da sua atividade porque ela não tinha participação nesse tráfego. A participação que a CTBC tinha no tráfego da Embratel era de apenas 10%, enquanto as outras empresas tinham 85 e 90%. Somente na década de 80, 80 e pouco, 90, ainda foi antes de eu me aposentar, é que a CTBC passou a ter um percentual maior, porque o governo já começou a entender que não podia existir tanta injustiça, as outras empresas terem uma arrecadação alta, e a CTBC ter uma mísera arrecadação de subsídio. Então, ela passou a ter um percentual maior de 80%. Aliás, passou para 64%, depois para 80%, um negócio mais ou menos assim. Já não me lembro a exatidão dos fatos. Mas me lembro bem que, enquanto as empresas tinham uma participação de 85 e 90% no tráfego da Embratel, a CTBC tinha apenas 10%. Telebrás Nós tivemos um período, o do general Alencastro, que estava na presidência da Telebrás. Ele foi presidente da Telemig, da CTMG, foi um homem fantástico, um lutador, um homem incansável no meio das comunicações, só que existia também aquele espírito de perseguição dele e da cúpula que estava junto com ele, de realmente liquidar com a CTBC. Aliás, o general Alencastro, por diversas vezes, disse ao Sr. Alexandrino - chegou a sair lágrima dos olhos dele, e eu sou testemunha disso - que um dos objetivos dele na presidência a Telebrás era encampar a CTBC. Correram lágrimas dos olhos do Sr. Alexandrino. E eu, como funcionário da empresa, eu te confesso que eu não sei se eu me senti mal por ver as lágrimas do Sr. Alexandrino, ou se realmente por ver um sonho da empresa desmoronar de uma hora para outra, e isso passando para o acervo da Telebrás. Por duas razões: primeiro, porque a Telebrás não tinha dinheiro suficiente para pagar honestamente o preço da CTBC. Segundo, porque ela não tinha, não é capacidade técnica, não, capacidade ela sempre teve, ela não tinha condições técnicas de ter gente suficiente para assumir o profissionalismo da CTBC nos mesmos moldes que a CTBC tinha. Isso deu um medo fantástico no Sr. Alexandrino, no Dr. Luiz, em todos nós. Nós vivíamos, nós trabalhávamos assim com certa precaução. Nós tínhamos que estar pensando em um outro negócio porque, de uma hora para outra, a CTBC seria do governo. E, se isso acontecesse, nós perderíamos o nosso emprego porque, evidentemente, a Telebrás não ia querer nenhum de nós, que éramos o pessoal de confiança da diretoria da CTBC. Então, nós seríamos taxativamente descartados. Você imagina o medo que nós tínhamos. Então, nós incentivávamos a empresa a começar a ter negócios paralelos, realmente, com o intuito também de garantirmos uma profissão para nós mais tarde. Nós achávamos que telecomunicações, para nós, era o fim. Ela estava acabando. Eu sei que uma das razões dos investimentos que houve fora da área da CTBC foi justamente se precavendo porque se, de uma hora para outra, fosse absorvido esse serviço, nós funcionários tínhamos nosso emprego garantido. O Sr. Alexandrino dizia isso para nós: "Não se desesperem porque isso nunca será da Telebrás. E, se um dia for, vocês serão funcionários nossos do mesmo jeito. Nós vamos partir para outra empresa". E, realmente, de onde surgiu o táxi-aéreo, surgiu a compra da fábrica de soja e outros empreendimentos por aí afora, como o problema de fibra óptica, cuja fábrica de quartzo, a X Tal, foi adquirida também. Enfim, essas empresas foram aparecendo em virtude do medo de realmente, de uma hora para outra, a CTBC desaparecer. Quer dizer, de o controle da CTBC passar para a Telebrás. E outra coisa que o Sr. Alexandrino sentia, e falava abertamente, e falava muitas vezes: "Sr. Barata, eu não estou preocupado da Telebrás incorporar a CTBC. Definitivamente, não. Porque nós incorporamos outras empresas. Nós incorporamos a Telefônica de Uberaba, incorporamos a Alta Mogiana, incorporamos Patos de Minas, incorporamos essas empresas. Por que a Telebrás também não pode incorporar a CTBC? Pode sim. Desde que ela apresente um plano de telecomunicações melhor do que o nosso, com mais agilidade do que nós, é absolutamente normal isso acontecer. Nós não podemos segurar a comunicação. E, às vezes, a Telebrás pode dar essa condição. Mas nós sabemos que não vai dar". E eu tinha certeza de que não dava também. Por quê? Porque nós estávamos sempre à frente de todos os projetos. Os nossos projetos eram executados, todos eles, antes do prazo. Enquanto que os projetos das empresas pólo sempre foram executados depois do prazo que eles tinham. Essa agilidade acabou garantindo a sobrevivência da empresa.

TECNOLOGIA
Circuitos Em matéria de comunicação, desde os 12 anos, eu já fazia certas travessuras em comunicação. Mas iniciar mesmo em comunicação, em telefonia, realmente, foi de 1957 para 1958. Instalado o circuito, houve motivação inclusive para os acionistas da época aumentarem o capital, para depois fazermos mais circuitos. Depois, nós fizemos outro circuito paralelo. Criamos um circuito fanton em cima, quer dizer, de dois circuitos físicos, fizemos um fantasma, na época, um fant. E passou para três circuitos. Depois, nós conseguimos comprar em São Paulo um equipamento que veio da Alemanha, de uma empresa chamada Conduli. Era uma novidade na época. Era um equipamento que transformava um circuito em quatro. Mas era um equipamento que, para eles, lá na Alemanha, já era obsoleto, mas para nós aqui era uma novidade danada. Então, aquilo funcionou um período. Mas era valvular e dava muito problema. As válvulas queimavam, e você não conseguia achar essas válvulas no mercado. Era um problema seriíssimo. Seria uma forma de ampliação dos circuitos de um para quatro. Depois, com isso, surgiram novos equipamentos. A Standard Electric lançou um sistema de equipamento, se não me engano, com o nome de DQ12. Era um equipamento que já transportava de um para 12 canais. Esse sim, já tinha uma segurança muito maior. Mas aí já não era mais com a Telefônica de Ituverava. Isso quem conseguiu fazer foi a própria CTBC na época porque nós não tínhamos capital nem condições de fazer uma coisa dessas. Microondas E os circuitos interurbanos, por exemplo, depois, ficaram fazendo parte da minha vida. Eu me lembro de uma história muito fantástica. Quando nós fizemos um link aqui de microondas, o primeiro link de microondas para Patos de Minas, existia um compromisso, quando o Sr. Alexandrino adquiriu o acervo lá, da Telefônica de lá interligar Uberlândia com Patos de Minas. Acontece que não existia a possibilidade de fazer circuitos físicos, a distância era muito grande, e não havia condições. O Dr. Luiz, então, conseguiu comprar um equipamento - na época, a gente chamava de uma espécie de microondas de VHF, UHF, mas era um centro de distribuição. Isso se usava muito nos Estados Unidos, e o Luiz deve ter visto isso lá. O sujeito tinha uma central e, dessa central, ele se comunicava com 10 ou 12 outras centrais tudo através desse circuito. E o Luiz, então, teve uma idéia fantástica: usar esse equipamento para levar um link aqui de Uberlândia a Patos de Minas. Então, ele usou esse link como repetidores, então o sinal era repetido aqui em Patrocínio, Serra do Salitre etc. até chegar a Patos de Minas. Mas, tecnicamente, isso não é aconselhável porque o circuito ele é feito para interligar no máximo uma central com outra, passando pelo intermediário. E, na realidade, o que nós fizemos foi interligando sete pontos, um repetindo o sinal para o outro. Conclusão: existiu um compromisso no aniversário de Patos de Minas, na Festa do Milho em Patos de Minas. E não havia meio de funcionar o serviço, não tinha condições de funcionar, e o Dr. Luiz estava para o Japão. Então, o Sr. Alexandrino, depois que veio o pessoal que vendeu o equipamento e deu o veredicto final que não tinha condições de funcionar, falou: "Não, não tem condição de funcionar. Não vai funcionar". E foram embora. Aliás, até nem se pagou o restante que se devia a eles. Eles abandonaram o serviço, eles não assumiram, o pessoal que estava montando o equipamento, e eles não assumiram. Então, esse abacaxi ficou nas mãos da CTBC. Acontece que o Dr. Luiz estava no Japão. Existiu um compromisso inclusive de que a primeira ligação telefônica ia ser feita entre o Dr. Luiz, no Japão, e o prefeito de Patos de Minas. Tinha uma ligação do prefeito de Patos de Minas com o Governador de Minas, quer dizer, o negócio estava todo esquematizado, e nós tínhamos 14 dias de prazo para que isso acontecesse quando o pessoal - parece que é da Standard Electric chegou à conclusão que o serviço não funcionava. Então, foi um problema sério. O Sr. Alexandrino ficou desesperado, aí me chamou em casa, eram umas 10 horas da noite e falou: "Barata, vem aqui em casa". Aí, eu fui lá na casa dele, que era aqui na avenida, e, então, ele me contou a história: "Ô Barata, como é que nós vamos fazer?". Eu falei: "Oh, Sr. Alexandrino, amanhã eu vou conversar com os técnicos, vou conhecer um pouco desses equipamentos porque eu não conheço. Conheço teoricamente. Na prática, eu não conheço. Eu vou conversar e vamos ver o que nós podermos fazer. Então, fui conversar com os técnicos. Nós tínhamos o Walter Machado, que estava auxiliando naquela época, mas o responsável era um outro rapaz que se chamava Leônidas. Tinha o Daisson Pimenta também, que estava na CTBC e auxiliava no negócio. Então, eu me lembro que eu peguei esse Leônidas, e ele me deu uma série de explicações sobre como é que funcionava o equipamento. Então, eu perguntei para ele: "Escuta. Se nós colocarmos todos eles no máximo possível de transmitir o sinal, marcarmos uma determinada hora para que isso funcione. Se todo mundo ligar o equipamento na mesma hora, o que vai acontecer?". Ele falou: "Olha, no período de meia hora funciona, depois, queima tudo". Eu falei: "Então, tá". Cheguei para o Sr. Alexandrino e expliquei o caso para ele. O Sr. Alexandrino falou: "Barata, se eu inaugurar o serviço, depois, pode até pegar fogo, eu não faço questão nenhuma. Mas se funcionar é o que interessa". Eu falei: "Então vai funcionar". Peguei esse rapaz que hoje é comandante, o Gilson, e que era o meu auxiliar no tráfego, e montamos uma mesa-interurbana. Uma mesa meio arcaica, só para receber o circuito interurbano no sistema de VHF - estava lá UHF - e transformá-lo no sistema híbrido para entrar em telefonia, para comutar, seria uma espécie de interface. Muito rude, mas o serviço funcionou. Fomos para lá e ficamos lá em Patos de Minas. Então, eu me desliguei da minha família e expliquei para minha mulher: "Olha, no final do ano, eu vou para Patos de Minas, não sei quando volto. Não tem jeito de se comunicar. Se acontecer qualquer coisa com os meninos, você avisa para o Sr. Alexandrino, ele pega um carro e manda me buscar porque eu não tenho meios de me comunicar". E fui embora para Patos de Minas, eu e o Gilson. Fui instruindo o pessoal, e deixamos um técnico em cada torre. Em cada repetidor, ficou um técnico. Marcamos o horário - cada um tinha um relógio - no relógio para fazer o teste. Fizemos um teste e funcionou. Funcionou por dois minutos. Parei tudo na hora. Todo mundo desligou e deixou tudo montado para funcionar exatamente quatro dias depois, que era no dia da inauguração. Então, eu fiz a mesa de interurbano, fizemos o teste em Patos de Minas, e foi feita a festa do milho rapaz. Foi a coisa mais linda em Patos de Minas, mas houve um problema sério. Eu já fazia 10, 11 dias que eu não falava com a minha mulher, não tinha contato nenhum com a minha família. Fizemos os links, fizemos a programação, e a primeira ligação que ia ser feita eu é que ia fazer primeiro, para poder ver se estava ok. Imediatamente já interligava o Dr. Luiz, que estava no Japão, e Uberlândia já estava com o Dr. Luiz na linha. Deve ter pago uma fortuna naquela ligação porque ele ficou mais de meia hora na linha do Japão em Uberlândia esperando comutar com a estação de Patos de Minas. Quando deu a hora da inauguração, a banda tocando, aquela coisa toda, a banda parou de tocar, eu fiz a primeira ligação, e a minha preocupação era com a minha família, só que eu não sabia que estava no ar. Eu não sabia, eu fiz o teste. Mas o pessoal que viu eu fazer o teste ficou tão entusiasmado, e a emissora e pôs no ar. Quando eu falei com a minha esposa: "Judith, Judith", ela falou: "Athayde, cachorro. Sem vergonha. Você me deixa aqui passando necessidade com os meninos". O pior é que ela falou um palavrão, eu não vou repetir, ela falou um palavrão. E não era rádio, não, era serviço de alto-falante, saiu no serviço de alto-falante. Eu só lembro que eu desliguei, tirei a Judith fiz assim para a banda, o maestro percebeu e começou a tocar. O pessoal começou a rir pra lá e pra cá. Aí, conseguimos fazer a comutação da linha, e o Dr. Luiz falou com o prefeito. O prefeito falou com o governador. Depois, uma irmã de caridade falou na Áustria com a irmandade dela e, quando ela estava terminado de falar, pegou fogo em tudo e acabou tudo. Aí, ninguém mais falou nada. Mas houve quatro ou cinco chamadas e conseguiu inaugurar o serviço. Mas foi um problema sério. A mulher tinha lá suas razões, mas podia ser um pouquinho diferente. Mas aquilo foi uma risada só. Depois, o Sr. Alexandrino veio falar comigo: "Barata". Eu fiquei chateado, fui chorar, fui para o meu quarto e abandonei tudo. O Sr. Alexandrino: "Não, Barata, não faz isso, não. Isso é normal, isso acontece mesmo".

COMUNIDADES
Alexandrino Garcia Eu tinha muita liberdade com ele, eu tinha um carinho muito grande por ele, e ele também por mim. Naturalmente, a gente era assim. Embora a diferença de idade fosse muito grande, nós tínhamos um certo modo de conviver, diferente um pouquinho de empregado e patrão. A gente tinha assim um pouco de amizade. Eu tinha liberdade de contar piada para ele, e ele, para mim. Contava as proezas dele em Portugal, quando menino. A infância dele, como ele viveu aqui em Uberlândia, quando ele veio para cá. A gente tinha assim muita liberdade. O Sr. Alexandrino era o que a empresa sempre foi: paternal. Ele era um homem que, quando gostava realmente de um funcionário, ele era um pai, era uma mãe, ele era tudo. Ele não deixava o funcionário passar por problemas, definitivamente. Eu, pelo menos, tenho essa experiência. Aconteceu uma coisa muito interessante. Aliás, eu tenho dois fatos muito interessantes do Sr. Alexandrino nesse trecho aqui, daqui de Iturama. Em uma ocasião, nós estávamos aqui fazendo esse link do Triângulo Mineiro. Estávamos em uma pensão em Campina Verde porque, às vezes, a gente conseguia pensão e, às vezes, a gente conseguia casa de algum político que via que a gente estava fazendo interurbano e cedia cômodo para a gente dormir e tudo mais. Estávamos implantando serviço e eu me lembro que era uma noite de julho, agosto, estava fazendo frio, e nós estávamos dormindo em uma pensão. Estávamos eu, o Sr. Alexandrino e esse Gilson, que era o meu companheiro, que montava mesa de interurbano. E o Sr. Alexandrino tinha por hábito levantar muitas vezes durante a noite. Eu não sei se por necessidade ou porque ele sonhava ou lembrava de alguma coisa. Então, na cabeceira dele, ele já dormia com o relógio, uma caderneta e um lápis. Ele acordava à noite, lembrava de alguma coisa e anotava na cadernetinha, e isso, às vezes, incomodava a gente. A gente não dormia porque ele acendia a luz para ver a cadernetinha. Mas um belo dia ele acordou e não acendeu a luz. Estava assim meio claro, não sei se era a luz do poste ou o que aconteceu que ele levantou, escreveu alguma coisa no livro e, depois, olhou na minha cama, e o meu cobertor estava caído no chão. Eu estava acordado, eu não estava dormindo. O Gilson estava dormindo, eu não. Eu estava acordado, mas fingi que estava dormindo para não ver que ele tinha levando, para não perturbar porque ele ia fazer as anotações dele. Ele, então, acabou de fazer as anotações dele, se levantou, foi lá, pegou o cobertor, me cobriu, e eu pensei: "Gente, isso é um pai, esse cara não existe". Ele me cobriu, eu fingi que estava dormindo, ele foi lá na cama do Gilson, cobriu o Gilson também porque o cobertor estava no chão. Aí, ele se deitou na cama dele e dormiu. No dia seguinte, na hora do almoço, em Iturama, eu perguntei para ele: "Sr. Alexandrino, o senhor parece que não dormiu essa noite. Eu não sei se eu sonhei, o que aconteceu, parece que o senhor estava me cobrindo com cobertor, me cobriu na cama. O que aconteceu?". Ele, para não dar o braço a torcer que ele fez aquilo como pai, quer dizer, com cuidado, ele falou: "Não, porque você dorme de qualquer jeito, o cobertor estava arrastando no chão, sujando tudo, eu peguei e pus em cima da sua cama". Para você ver, ele não aceitava mostrar a parte boa dele porque ele era tido como homem pesado, homem rude, homem sério, que não gostava de conversa. Não dava moleza para ninguém. Mas, no fundo, no fundo, era impressionante. A gente comprava sanduíche nessas estradas, a gente vivia atolando nesses matos afora. Ele comprava sanduíche, dividia sanduíche com a gente. Comigo, com as pessoas, com os companheiros. Ele não se punha no lugar dele, não, punha-se no lugar de pai. O segundo caso sobre ele é até divertido. Eu não sei se as outras pessoas que foram entrevistadas contaram que eu gostava de contar piada. Eu não sei se alguém falou isso porque eu sempre gostei mesmo. As minhas reuniões em Brasília, os meus contatos com políticos, essa coiseira toda, sempre foram baseados em contar piada. Eu gostava de contar piada. Eu achava que era uma forma de me tornar simpático com o pessoal. Mas alguns casos não eram piadas. São casos que aconteceram com a gente. Em uma ocasião, em um trecho de Campina Verde a Iturama, havia uma fazendinha, fazenda, não, uma venda, no meio da estrada. E eu estava com o Sr. Alexandrino. Nós íamos indo para Aparecida do Taboado. Saímos daqui às 6 horas da manhã em um Simca, nesse Simca Chambord e fomos chegar a Aparecida do Taboado no dia seguinte era meio dia, quase 1 hora - para você ver que barbaridade que era a estrada. Mas tinha um detalhe: o Sr. Alexandrino, onde já havia circuito interurbano implantado, ele tinha o cuidado de ir olhando, e eu ia guiando para ele, eu gostava de guiar para ele mesmo nas viagens para São Paulo, Belo Horizonte, ele gostava que guiasse para ele. Ele ficava mais descansado e tal. Ele falava que era uma forma de descansar para que, quando ele chegasse ao local, ele ter mais ânimo para o trabalho, para não chegar cansado. Eu era mais novo e tinha a obrigação de guiar. Tudo bem. E eu gostava de guiar, era jovem. E ele, então, pedia para eu ir devagar, para ele ir vendo os circuitos interurbanos porque, se ele visse um circuito trançado, ele ia no mato, pegava um pau e jogava até destrançar o circuito. Não tinha outro jeito. E ele carregava no carro dele um equipamentozinho chamado cuifa. Nós dávamos esse nome, uns chamam cuifa, outros chamam coifa. É um aparelho que você coloca em cima da linha para se comunicar. E nós chegamos a um determinado trecho, o circuito interurbano entre Prata e Campina Verde, e o circuito tinha caído, quebrado assim, só tinha um fio, então, quer dizer, conseqüentemente, esse circuito não estava falando. Ele falou: "Sr. Barata, está parado o circuito interurbano, prejuízo e pessoal sem falar. Vamos dar um jeito?" Eu falei: "Vamos dar um jeito". Eu encostei o carro, pelejamos para arruma, mas de que jeito? Não tinha escada, e eu não tinha condições de subir, eu não sabia subir em um poste de madeira. Ele também não tinha condições de subir. E como é que faz? Puxa daqui, puxa dali. Aí, começamos a pegar arame de cerca. Eu falei para o Sr. Alexandrino: "Nós vamos pegar um arame de cerca, eu amarro nesse aqui e vou pegar outro arame e amarro em outro. Ele vai ficar dependurado, mas vai falar". Ele falou: "É uma boa idéia, é uma boa idéia". Mas aí ele falou assim: "Mas espera aí. Nós vamos arrancar os arames de cerca e vai dar problema. De repente, o gado aí... Vamos fazer diferente". Pegou os dois circuitos interurbanos, vamos supor, um circuito partido no meio, pegou uma ponta do fio do lado de cá e o outro do lado de lá na cerca. Quer dizer, o circuito ficou interligado. Aí, pegou a cuifazinha, eu joguei um pedaço de fio em cima do outro fio e aquele na cuifa. E ele, então, começou a escutar e ouviu as telefonistas conversarem. Era ruim porque dava indução. A sorte é que não estava chovendo. Então, o poste estava mais ou menos isolado. Os mourões secos, e dava para falar relativamente bem. Dava para falar, mas era ruim. Com indução, mas falava. Tudo bem. "Sr. Barata, vamos embora. Quando nós chegarmos lá em Campina Verde, eu vou pedir para o pessoal vir aqui para arrumar. Está mais perto de Campina Verde que do Prata. Está mais perto de Campina Verde, o pessoal vem aí e arruma". "Então, está bom". E fomos andar. Mais à frente, ficava uma venda. Antes de chegar à venda, nós paramos em umas goiabeiras para comer goiaba porque nós ficamos muito tempo parados ali, e a gente estava com fome. Então, comemos goiaba, mas ficamos com sede. Aí, paramos nessa venda. Mas isso ai já tinha passado umas duas horas. Aí, chegamos à venda para pedir água. A água que tinha na venda não era de beber, mas o jeito era tomar aquela lá. E andamos. Eu escutava um cachorro lá fora, fazer uuuuuu uuuuu e parava. Aí, o Sr. Alexandrino falou para o cara: "Oh. Esse cachorro está louco. Mata isso aí que isso vai morder alguém". Aí, a mulher falou: "Ah. Sô. Ele começou isso tem uma meia hora, uma hora mais ou menos, ele começa a gritar e pára". Aí, eu falei: "O Sr. Alexandrino está certo. Esse cachorro tá louco. Não está bom, não" Aí, fomos lá ver o cachorro. Cheguei lá, e o cachorro, daí a pouco: uuuuuu uuuuuu. O Sr. alexandrino falou: "Barata do céu. Olha aí onde o cachorro está amarrado". O cachorro estava amarrado na cerca, com a corrente de ferro, com corrente de arame no pescoço. Então, quando a telefonista tocava o magneto, que era circuito magneto, esse cachorro, coitado, recebia uma carga de 500 volts, sem amperagem nenhuma. Não dava para matar, mas eram 500 volts que esse cachorro recebia. Ficava louco. Ficava desesperado. Aí, o Sr. Alexandrino falou: "Barata do céu". Falei: "Pode deixar, já sei o que é". Ele falou: "Eu também já sei". Pagou a continha lá e voltamos. Não fomos para frente, não. Andamos mais ou menos uns 500 metros para trás, e o Sr. Alexandrino pegou o alicate, cortou o arame, isolou o arame da cerca e acabou o problema do choque do cachorro. Chegamos a Campina Verde, e ele ficou desesperado e telefonou para o pessoal vir atrás. Pegaram uma viatura, pegaram uma escada e foram lá arrumar. Então, são acontecimentos que a gente guarda. Então, quando, às vezes, eu contava uma história dessas lá em Brasília, ou mesmo em São Paulo, e aquilo virava um pandemônio: "Mas Barata, como é que vocês podem ter um troço desses lá?". "Mas é o jeito de falar. Não tem outro jeito. É a forma que nós temos lá. Nós temos que arrumar de qualquer jeito". Tem que falar. Não me interessava de que jeito. A ordem do Sr. Alexandrino era essa: tem que falar.

MEMÓRIA
Futuro É possível que, um dia, cada estado tenha uma estatal. Eu sempre pensei assim. Mas, como essas estatais começaram a ser privatizadas, passadas para outras empresas, eu só vejo a CTBC ser mais uma empresa, como é a Telefônica, como é a Telemar. Vai ser mais uma também. É uma CTBC. Pode acontecer de essa concorrência se acirrar muito. Mas, se a CTBC se mantiver no mesmo nível que ela sempre se manteve, se a CTBC hoje se mantiver prestando um bom serviço e dando essa condição, ela vai ser mais uma empresa no país. Não é só tratar bem o cliente. Você tem que dar um bom serviço ao cliente. Você tem que respeitar o cliente, principalmente, hoje, que se fala muito na defesa do consumidor. Hoje, se fala muito nisso. Então, você tem que dar prioridade ao bom atendimento. Isso é imprescindível. Se você der um bom atendimento, se o assinante tiver uma comunicação, se, à hora que precisou do telefone, ele teve. Se precisou de um serviço interurbano, ele teve. Se precisou fazer um DDD, ele teve. Se precisou fazer um DDI, ele teve, ele vai reclamar para quem? As tarifas hoje são unificadas. Não existe mais problema. Então, a tendência natural é manter-se, a menos que amanhã ela venha a ser negociada para outro grupo. Pode ser. Pode acontecer. A gente percebe que tem aí uma Telefônica da vida, e a tendência natural é dominar. Eu já não estou mais na ativa desde 1990, tem 10 anos que eu estou fora e não sei mais o que está se passando, mas o que eu vejo hoje em comunicação, o que eu sinto é que as empresas estatais estão sendo todas privatizadas. Já chegaram à conclusão que devem ser empresas privadas, e a CTBC tem realmente muita chance de se manter no mercado e continuar a sua expansão. Agora, tem uma coisa que me preocupa. Nós sabemos que tem aí a Telefônica, que é uma empresa de um grupo muito forte, europeu, que domina Portugal e Espanha. Nós sabemos que a Telefônica tem condições, hoje - quando eu falo Telefônica, seria a Telefônica de São Paulo -, tranqüilamente, de vir comprando essas empresas todas e começar a operar com outras empresas, com outro nome, para depois incorporar a dela e tudo mais. A gente tem noção de que isso pode acontecer. E a CTBC Telecom também pode, de uma hora para outra, passar ao grupo da Telefônica. Não sei. Não sei como funciona hoje a diretoria da CTBC Telecom porque a CTBC Telecom não é CTBC. CTBC era uma coisa. CTBC Telecom é outra organização. Outra política. Não é a mesma. Está certo que a empresa continua sendo CTBC, mas a diretriz, a forma de dirigir já não é mais CTBC. É CTBC Telecom. Então, eu não sei mais qual é a mentalidade dos diretores, hoje, na CTBC Telecom. A mentalidade de Luiz Alberto Garcia, do Sr. Alexandrino, que já foi embora, eu conheço. Agora, a mentalidade dos diretores da CTBC Telecom, eu não sei qual é. Pode, amanhã ou depois, eles acharem que seja interessante vender o patrimônio à Telefônica. Quem é que sabe? Sonhos Meu sonho, eu já realizei. O meu objetivo era conhecer os meus antecedentes, minha família. Não consegui conhecer meu avô, minha avó, nem meus tios, esses eu não consegui. Não consegui ver tio nenhum. Mas eu consegui realizar meu sonho, já alguns anos atrás, indo a Portugal conhecer os descendentes, os primos. E vou dizer uma coisa: fui tão bem recebido em Lisboa que hoje eu tenho um intercâmbio com o pessoal de lá. Já fui cinco vezes a Portugal. Virou, mexeu, me dá na telha, eu fico meio doido, passo a mão na mulher: "Mulher, vamos para Portugal?" Vou para lá e fico 40 dias. Eu tenho uma grande vantagem, tenho primos que são bem relacionados e financeiramente estão muito bem. Então, eu tenho um apartamento em Lisboa para a hora que eu quiser. Na ilha de Caparica, eu tenho um apartamento, à hora que eu quiser, com automóvel e tudo à minha disposição. Então, toda vez que eu vou a Portugal, eu tenho alojamento, tenho automóvel, tenho tudo. E, quando eu chego, está tudo abastecido. A cozinha, o apartamento, está tudo abastecido, com bebida, com vinho, com tudo. Então, ali, o que eu vou gastando, eu vou repondo. Mas, quando eu chego, está tudo pronto. E esses portugueses que fazem isso comigo são primos, sobrinhos de minha mãe. Eu faço a mesma coisa com eles aqui no Brasil. Eles já vieram aqui três vezes, inclusive vêm agora em outubro. Ficam hospedados aqui comigo, e eu os levo para a pousada do meu filho lá na Bahia. Eu os levo para todo lado. Dou meu carro também. Faço a mesma coisa que eles fazem comigo lá em Portugal. Então, meu sonho, eu já realizei. Era esse aí: conhecer Portugal e conhecer os primos. Já fui lá diversas vezes, conheço a Europa toda, coisa que eu não tive oportunidade antes de conhecer, quando estava na CTBC. Não dava tempo, não tinha recursos, não tinha nada. Mas hoje eu conheço a América do Norte, um punhado de lugares. Eu tinha um sonho tremendo que era alimentado pelo Sr. Alexandrino, que era Las Vegas. O Sr. Alexandrino esteve em Las Vegas em uma ocasião e me mandou um cartão postal, que eu tenho até hoje e, no cartão postal, ele dizia: "Barata, o dia que você puder viajar para o exterior, venha a Las Vegas. É a coisa mais linda do mundo". Eu tenho esse cartão. E, quando ele veio, ele até me trouxe um litro de uísque, e eu até já convidei o Dr. Luiz para ir lá em casa para beber esse uísque de 1971 que eu só vou abrir com ele. Ele trouxe dos Estados Unidos, da Suécia, porque esteve na Suécia também. E eu sempre pensava em conhecer Las Vegas. Não que eu tivesse sonho. Digo com sinceridade. Meu sonho era a Europa, era Lisboa. Lisboa, Coimbra. Essa área toda eu conheci, do norte ao sul de Portugal. Já corri aquilo tudo, inclusive Alvares, que é de onde veio a minha família. Conheço aquela coiseira todo ali. Conheço assim, andando de carro, para todo lado. Conheço tudo. Mas o meu sonho por Las Vegas era pelo que o Sr. Alexandrino dizia. Então, um belo dia, eu estava em Coimbra e me deu na telha, eu estava com uns dólares sobrando e falei para Judith, que é minha esposa: "Judith, vou conhecer Las Vegas". A Judith falou assim: "Eu não vou, não. Eu prefiro ficar em Lisboa". "Então, está bom, vamos para Lisboa". Não realizei meu sonho. Naquele dia não deu para realizar. Quando cheguei a Lisboa, falei: "Judith, eu vou". "Não, não vai, não. Eu não quero ir. Vou ficar aqui". Eu me senti frustrado com aquilo. Viemos para o Brasil. Quando eu vim para o Brasil, passaram-se uns dois ou três meses, eu virei para o meu sócio e contei para ele: "Eu deixei de ir a Las Vegas que eu queria". Ele falou: "Se você quiser, eu vou com você. Estou doido para ir lá também". "Então vamos?". "Vamos". Pegamos o avião e fomos para lá. Peguei 5000 dólares e falei: "5.000 dólares eu vou gastar em cassino. Enquanto eu não gastar os 5000 dólares, eu não saio de lá. Vou gastar isso lá". Não consegui gastar não. Fiquei cinco dias e precisei vir embora. Só consegui gastar 800 e poucos dólares porque eu gastava e ganhava, gastava e ganhava. No fim, eu fiz as contas e tinha perdido 800 e poucos dólares, mas passei cinco dias numa vida maravilhosa em Las Vegas. Foi um negócio muito bacana. Então, meu sonho hoje é ver meus filhos bem. Meus filhos, graças a Deus, estão todos criados. Agora, estou começando a olhar os netos. Eu me sinto um homem realizado. Centro de Memória Eu fico feliz de ter dado esse depoimento. É uma forma de mostrar para vocês uma coisa que eu sabia e que vocês talvez não soubessem. Ou se sabiam, não tinham certeza. E agora está confirmado. Sem dúvida, fiquei satisfeito sim. E estou à disposição, se vocês quiserem. De certa forma, dando esse depoimento, eu achei que pode ser importante para vocês que estão fazendo um trabalho conhecer o que se passou no passado, e eu me sinto assim feliz em poder colaborar porque eu acho que alguma coisa que eu contei para vocês às vezes vocês não sabiam, outros não contaram. Eu me sinto feliz em saber que vocês possam aproveitar alguma coisa. Eu me sinto satisfeito, acho interessante. É uma forma de ir passando a história para uns e outros. Quem sabe meus filhos um dia possam ver o trabalho de vocês? Meus netos, quem sabe? Meus bisnetos, quem sabe? Meus amigos, filhos de meus amigos podem ver isso aí e falar: "Esse Barata, eu conheci. Meu pai falou nele". Acho isso aí importante.

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