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História

Antonio Aluizio Russo

História de: Antonio Aluizio Russo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa - Eu queria começar perguntando seu nome completo, data e local de nascimento. Antonio Russo - Meu nome é Antonio Aluizio Russo. Eu nasci no dia 28/08/1943, em São Paulo.

Pais e avós
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P - Seus pais são de São Paulo também? Antonio Russo - São paulistas. M

P - Onde eles nasceram? Antonio Russo - Em São Paulo mesmo, capital. M

P - Seus irmãos também nasceram em São Paulo? Antonio Russo - Todos de São Paulo. M

P - Quantos irmãos? Antonio Russo - Dois irmãos. MP -Você se lembra em qual bairro você passou a sua infância? Antonio Russo - A infância mesmo em passei em Pinheiros, na Rua Francisco Leitão, onde eu nasci. Eu morei lá até mais ou menos uns dez anos de idade, depois me mudei para a Vila Madalena. M

P - Como era essa casa na Francisco Leitão? Antonio Russo - Era interessante, porque antigamente as famílias, principalmente as italianas, moravam tudo numa casa só. Era um quintal grande com duas, três casas, e nós morávamos juntos. Na frente, era sempre a matriarca e depois nós morávamos nas outras casas na mesma área. Era um terreno muito grande. M

P - Eram os pais de quem? Antonio Russo - Pais do meu pai. M

P - Como se chamavam os seus avós? Antonio Russo - Meu avô era Raphael Russo e minha avó Emanuela Prince Russo. M

P - Você sabe quando que eles vieram para o Brasil? Antonio Russo - Eu não me recordo. M

P - Eles vieram casados? Antonio Russo - Vieram casados. M

P - Você sabe por que eles vieram para o Brasil? Antonio Russo - Foi naquela época da imigração. Eles vieram como imigrantes mesmo. Vieram eles e veio inclusive a mãe dele, que era minha bisavó, que também morava na mesma casa. Depois ela faleceu. M

P - Que lembranças que você tem do seu avô? Antonio Russo - Meu avô, eu não cheguei a conhecer. Ele faleceu antes de eu nascer. Da minha avó, sim, tenho bastante lembrança porque ela acompanhou toda a minha infância. Na realidade, foi ela quem me criou, porque meu pai e minha mãe trabalhavam e eu ficava com ela. Ela me trocava, me levava para a escola, me ensinava um pouco de italiano... Eu falava todas as palavras mais comuns, como travesseiro, que é cuscino... Então eu tinha esse vocabulário, porque vivia junto com ela. M

P - Ela cozinhava bem? Antonio Russo - Nossa Aos domingos era aquele almoço com a família toda: pasta, massa... Ela mesma gostava de preparar. Vinha toda a família. Hoje a gente perdeu um pouco disso. M

P - Você não conheceu o seu avô, mas você sabe o que ele fazia? R -Eu não o conheci, mas o meu pai conta que ele era carroceiro. Tinha os cavalos, a carroça e fazia transporte. Naquela época trabalhava próximo do mercado, fazia entrega, transportava coisas.

Primeira escola
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P - Você falou que a sua avó te levava na escola. Vocês iam a pé? Antonio Russo - Eu morava na Francisco Leitão e fiz o primário no Godofredo Furtado, um grupo escolar que existe até hoje, na Rua João Moura. Minha avó tinha um problema, um defeito na perna, tinha dificuldade de andar muito. Ela me levava da Francisco Leitão até o início da Henrique Schaumman. Onde hoje é uma descida, tinha um rio, tinha uma ponte, e ela me levava ali. Eu descia aquela ponte e subia a João Moura. Ela ficava ali me olhando até virar para entrar na rua da escola. E à tarde ela fazia a mesma coisa. Ficava ali esperando até eu chegar. M

P - Você era bom aluno? Antonio Russo - Eu era bom aluno, mas era peralta. M

P - Que lembranças você tem da escola? Antonio Russo - Naquela época, a escola do governo era o top, porque era difícil. Não tinha muita escola particular. Quem ia estudar na escola do Governo não tinha distinção de classe. Era todo mundo: do pobre ao rico. Era escola padrão. Naquela época, a gente tinha mestre, era mestre mesmo. Tem professores que eu me lembro até hoje. No segundo ano tinha uma professora que se chamava Dona Olga, uma morena. Quando você fazia alguma arte ela dava um croque na cabeça, batia. (risos) Aquilo foi marcando. Tinha uma disciplina Mas éramos todos jovens. Juntava aquele pessoal que sentava no fundo da classe e era aquela coisa M

P - Você se lembra de alguma dessas travessuras? Antonio Russo - Nós sempre brincávamos na hora do recreio, na fila. Pintávamos o outro, escrevendo com giz na mala... Naquela época a gente usava uniforme. Era calça azul marinho e camisa branca. Então, a gente escrevia com giz na mala batia com a mala no colega. Manchava tudo de branco e ele não sabia. Mas era tudo coisa sadia. Não era briga, era brincadeira mesmo, gozação.

Pais enfermeiros
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P - E em casa? As brincadeiras eram em casa ou na rua? Antonio Russo - As brincadeiras eram mais na rua. Hoje mudou bastante. Quando voltava da escola, tinha um horário para brincar. A diferença de idade para meu irmão era de nove, dez anos. Praticamente eu participei da criação dele. Fazia mamadeira, trocava, dava banho, porque minha mãe trabalhava. O meu pai e a minha mãe trabalhavam em horários alternados. Ela trabalhava de manhã no Hospital das Clínicas, acho que das 7:00 às 14:00, e meu pai ficava das 14:00 e saía às 23:00. Nesse ínterim, eu voltava da escola e cuidava do meu irmão. Eu praticamente participei da vida dele. Tem um fato curioso que é o seguinte: até pouco tempo atrás ele não fumava na minha frente, me respeitava como se eu fosse um pai. Era muito bacana. M

P - Os seus pais trabalhavam no Hospital das Clínicas como enfermeiros? Antonio Russo - Enfermeiro e enfermeira. M

P - O que você se lembra desse trabalho? Antonio Russo - Lembro-me deles vestidos de branco. Eu ia no Hospital das Clínicas para participar de festas, de comemoração da criança... Minha mãe também me levava para fazer consulta. Eu passava o dia lá porque ela trabalhava lá. Ela trabalhava na sala de enfermagem e eu ficava lá com ela, passava quase o dia todo. Conhecia os médicos, as outras enfermeiras, ia às festas. Naquela época era aquela roupa branca, engomada, aquela toquinha... Era impecável Meu pai, a mesma coisa, todo de branco. M

P - Como você descreveria a figura da sua mãe? Antonio Russo - Minha mãe sempre foi e ainda é uma pessoa muito ativa. As iniciativas sempre partiram mais dela, em termos de estudo, de escola... E existia muita dificuldade, porque ela trabalhava... Ela sempre teve uma coisa, tem até hoje, é uma marca dela: sempre que ia comprar, tinha que ser o melhor ou então não comprava. Ela não aceita coisa que não seja de boa qualidade. Tudo, tudo que você imaginar: roupa, comida, carro... Ou é bom, ou não tem. Ela não tem meio termo. Gozado, ela é assim ainda até hoje. E algumas coisas, ela tem uma marca dela: sabão em pó tem que ser Omo. Se não for Omo, não tem outro. Azeite tem que ser Gallo... Incrível Eu comprei uma vez num supermercado a marca Andorinha, tão bom quanto o Gallo, e ela falou: "Não, esse aqui eu não quero, eu quero Gallo". Ela não muda. É assim e sempre foi assim. É uma pessoa batalhadora,. Bonita, sempre foi muito bem vestida. Depois que ela se aposentou, caiu um pouco. Meu pai também. Naquela época, trabalhava-se de terno, tinha que pôr gravata, tudo rigoroso. Então nós fomos criando aquele padrão rigoroso de disciplina. Não sei se era certo ou errado, mas antigamente era assim. Você não tinha muita abertura como tem hoje para falar com os pais sobre sexo. Você aprendia na vida mesmo, na rua, porque dentro de casa era muito difícil ter esse tipo de orientação.

Brincadeiras da infância
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P - Eu queria que você contasse um pouquinho mais do dia a dia dessa sua casa. Era muita gente? Seu pai e sua mãe trabalhavam fora, você ficava em casa com a tua avó... Antonio Russo - Também ficava com os meus tios, irmãos de meu pai, que eram solteiros e moravam na casa. Tinham mais três ou quatro que moravam na casa. A gente jogava muito botão. Hoje você compra o jogo de botão pronto, tem aquelas fichinhas de acrílico. Na época, a gente pegava e cortava o botão para fazer o jogo. Quando eles iam vestir não tinha botão no paletó. Várias vezes eles já vinham secos em cima de mim, com aquela bronca... Mas era uma brincadeira sadia. Quer dizer, era peraltice. Chegava lá e dizia: "Cadê o botão?". Não tinha. Era daquele botaozão de capa, que tinha que lixar. M

P - Você jogava com seus amigos? Antonio Russo - Eu jogava com os amigos do bairro. Jogava à tarde na casa de um, na casa de outro, depois que voltava da escola. À noite não tinha muito que sair. Era mais à tarde mesmo. M

P - Você ficou nessa casa até que época? Antonio Russo - Acho que até quando eu tinha mais ou menos 13 anos. M

P - Aí vocês se mudaram para onde? Antonio Russo - Para a Vila Madalena, para Rua Harmonia. M

P - Você se lembra porque vocês se mudaram? Antonio Russo - Continuou a mesma coisa, quer dizer, a família morando numa casa grande. Só que essa casa era dos meus avós maternos. Já tinha meus irmãos e era uma casa maior, tinha mais acomodação. A casa que a gente morava antes era uma casa pequena. O terreno era grande, mas a casa era pequena. Essa era uma casa que tinha mais acomodação, aí nós mudamos para lá. M

P - Todo mundo se mudou? Antonio Russo - Não, na Francisco Leitão era família do meu pai. Então, o que ficou era a família da minha avó. Minha avó, mãe da minha mãe, morava lá. Ela e meu avô continuavam morando na frente e nós morávamos numa casa que era maior. M

P - Essa mãe da sua mãe era brasileira? Antonio Russo - Era brasileira, era paulista. M

P - O que ela fazia? Antonio Russo - Era dona de casa. M

P - Você se lembra de algum detalhe de como que era o dia a dia com ela? Antonio Russo - Ah, lembro. A gente mexia muito com ela. Ela tinha um dedo da mão, eu acho que o direito, que era um dedo duplo. Tudo o que ela fazia a gente olhava, aquilo era curioso. A gente ia pegar naquilo, achava interessante. Ela era dona de casa. No domingo, a gente ia almoçar com ela. Eu me lembro muito dela fazendo comida, fazendo aqueles bolinhos de chuva, aquelas coisas de culinária.

Escola e diversão na adolescência
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P - E a escola, você também mudou nessa época? Antonio Russo - Na Godofredo Furtado fiz o primário. Era só até a quinta série. Para entrar no ginásio tinha que prestar a admissão, era como se fosse um vestibular. Não entrava direto. Tinha que prestar um vestibular para entrar. Aí eu prestei no Fernão Dias Paes, na Rua Pedroso de Moraes, aqui em Pinheiros. Era também um colégio considerado padrão, como era o Caetano de Campos naquela época. E ali era gozado porque para entrar foi difícil. Eu entrei na segunda chamada porque tinha muito candidato, tinha que alcançar a média. Era aquela ansiedade. Era um colégio do Estado, de alto padrão. E usava um uniforme também. Antigamente era um tipo de um brim cor de caqui, camisa branca, gravata preta, meia preta e sapato preto. E era um calor da sala... Tinha muita sala de madeira, e quando caía naquela sala, aí era terrível. Não tinha ventilação, não tinha nada. A parte interna era ótima. Quando expandiu, fizeram um pátio e uma sala de madeira. Quando caía naquelas classes era terrível. M

P - E lá você estudou até o científico? Antonio Russo - Estudei no Fernão Dias até o científico. M

P - Esse tempo todo em Pinheiros? Antonio Russo - Tudo em Pinheiros. M

P - Como era Pinheiros naquela época, as ruas, os lugares que você freqüentava do bairro? Antonio Russo - Pinheiros tem uma particularidade que marca muito. É a época de Natal, a época das quermesses. Tem a Igreja do Calvário, que todo ano tinha quermesse. Acho que ainda tem. Fica aonde tem aquela pracinha de antigüidade. Era ali que se faziam as festas juninas e quermesses na época. E na época de Natal, o charme era você passear na Teodoro Sampaio, porque era toda enfeitada com decorações dos lojistas. Você ia paquerar as meninas, à noite tinha show de cantores, que os próprios lojistas faziam. Então íamos tomar um banho às 18:00, 19:00 e depois ficávamos ali.

Namoro e casamento
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P - A primeira namorada é do bairro de Pinheiros? Antonio Russo - Olha, namorada, realmente, foi a minha esposa. Foi com quem eu me casei. M

P - Quando você a conheceu? Antonio Russo - Eu acho que mais ou menos em 1966. M

P - Você lembra como a conheceu? Antonio Russo - Eu fui no casamento de um irmão dela. A gente jogava bola na Vila Madalena, na 7 de Setembro. O irmão dela jogava junto comigo também, e todo sábado a gente saía para baile. Todo sábado tinha bailinho. A nossa diversão era o bailinho. Eles eram feitos na casa de um, na casa de outro... A gente se reunia na esquina, ali, e ia para os bailes. Aí teve o casamento do irmão dela, teve uma festa, e foi aí que a gente teve... Eu não a conhecia, Tive o primeiro contato. Mas ficou um tempão assim, da gente se conversar, se falar. Aí eu comecei a freqüentar mais o bairro, porque tinha interesse, jogava bola... Comecei a freqüentar mais a parte de cima da Vila Madalena, porque eu morava mais na parte debaixo, morava perto do Cemitério São Paulo, lá no começo. Nessa casa da Harmonia tinha um negócio interessante que eu esqueci de falar: dava enchente. Toda vez, na época de carnaval, podia preparar que vinha enchente. Enchia mesmo, de perder tudo. M

P - Como vocês se preparavam para enchente? Tiravam tudo? Antonio Russo - Tirávamos quando dava tempo. Ali era tudo de terra, e tinha um rio ali. Agora eles canalizaram, mas tinha um rio ali que transbordava. Eu morava logo embaixo, na baixada. Aquilo era assim: o cemitério aqui, a rua descendo aqui, e eu morava nessa parte debaixo aqui. Quando chovia, que começava a escurecer, começávamos a levantar as coisas. Lógico, quando dava tempo. Quando não dava, perdia tudo, enchia tudo de água. M

P - Você chegou a ficar preso na casa? Antonio Russo - Nossa Teve uma vez que eu tive que pegar a minha mãe e pendurá-la assim, onde ficava o cano do chuveiro. Eu a levantei e falei: "Segura aí, vou ficar aqui até onde dá". Ia levantando as coisas e a água entrando. Não tinha jeito. Pegamos várias enchentes. Foi uma das razões pelas quais depois nós nos mudamos para a Vila Beatriz, aqui para cima. M

P - Aí você começou a freqüentar o lado de cima da Vila Madalena? Antonio Russo - Isso, aí eu comecei a freqüentar essa parte mais de cima. M

P - Quantos anos de namoro até o casamento? Antonio Russo - Seis anos. M

P - E o casamento, foi aonde? Antonio Russo - Foi na Igreja do Calvário. M

P - Você se lembra de algum detalhe da cerimônia? Antonio Russo - Lembro. Foi interessante. Naquela época eu trabalhava na Squibb e tinha uma moça que trabalhava comigo, no Controle de Qualidade. A irmã dela tinha um conjunto que se chamava Os Vips, um conjunto da Jovem Guarda, do Roberto Carlos, aquela coisa toda. Eles montaram um buffet, e a irmã dela trabalhava com esse cara. Aí eu falei: "Vamos fazer com Os Vips". Eles eram famosos naquela época. Fizemos a festa na própria igreja. Foi um caos Tudo aquilo que a gente combinou, acho que eles não estavam preparados. Eles estavam iniciando. E foi gente demais. Foi uma loucura. M

P - Mas eles tocaram na festa? Antonio Russo - Não, não. Eles serviam, eles montaram um buffet. O forte deles era tocar e cantar, só que depois eles montaram um buffet, que preparava a festa: bebida, salgado, doce... Aquela coisa toda. Fizeram todo menu, mas não deu nada certo. Então foi um caos. Mas marcou, porque a gente se preparou tanto para aquilo, e no fim não deu certo. Quer dizer, não se pode dizer que não deu certo. Foi muita gente. M

P - Vocês se casaram e foram morar aonde? Antonio Russo - No Rio Pequeno. M

P - Aí não mais com a família? Antonio Russo - Não. Aí já era uma casa nossa mesmo. Antes de nos casarmos já tínhamos comprado a casa. Fomos preparando, mobiliando, comprando máquina de lavar roupa, geladeira, fogão... Compramos no Consórcio do Cássio Muniz e fomos pagando. (risos) Aí casamos. A máquina não chegava, aquele som não veio... Mas foi muito bacana. No primeiro dia que entramos em casa, depois que voltamos da lua-de-mel, eu falei: "E agora?". Sempre morei com meus pais, nunca me preocupei em pagar conta, não fazia compra. Aí cheguei e disse: "Amor, o que nós vamos comer? Não tem nada dentro de casa". Não tinha nada E tinha que pagar as contas. Eu falei: "Meu Deus do Céu E agora?". (risos) A Clarisse trabalhava, então ela saiu do emprego e sacou o Fundo de Garantia dela. Foi a nossa salvação, pois não tinha o que comer. (risos) M

P - Aonde foram passar a lua-de-mel? Antonio Russo - Foi em São Lourenço, naquelas estações de água. Eu era sócio do Clube Delfim Verde, que era um clube de campo que tinha lá. Tinham alguns lugares que se podia escolher para passar a lua-de-mel. Na verdade, a gente queria ir para Cabo Frio, mas nós nos casamos no dia 18 de abril e na época de 21 de abril tinham aqueles feriados prolongados. Eu, na minha ingenuidade, falei: "Chegando a hora, eu marco". Mas estava tudo lotado. Então eu peguei o que sobrou. Na realidade, não foi escolha, foi o que sobrou. "O único lugar que tem é esse aqui? Está bom". Pegamos um ônibus ali perto da Estação da Luz e fomos. (risos)

Curso de Química
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P - Eu queria saber um pouquinho desse seu inicio de carreira. Depois do cientifico o que você foi fazer? Antonio Russo - Eu fiz Química no Liceu Eduardo Prado, lá no Itaim. M

P - Como foi a escolha desse curso de Química? Antonio Russo - O meu pai, ele antes de trabalhar no Hospital das Clínicas, ele tinha uma carteirinha de técnico em Química e trabalhava numa fábrica que era como se fosse uma indústria farmacêutica. Era em frente à minha casa, na Francisco Leitão. Eles faziam sabonete, faziam aquelas cápsulas... Então ele já tinha aquela coisa, ele sempre falava. E a fábrica era bem em frente, ele trabalhava ali. Eu era um molecão, um crianção de quatro, cinco anos. Ele atravessava a rua e ia almoçar em casa. Eu acho que ficou um pouco daquilo lá. Naquela época essa profissão também virou uma coqueluche, um modelo. Era Química ou Eletrônica. Todo mundo estava fazendo aquilo. De repente, hoje, talvez seja Administração de Empresas ou algum outro curso qualquer. Era um modismo. Como eu já tinha uma queda por aquilo, gostava, acabei fazendo. M

P - Quando você arrumou seu primeiro emprego? Antonio Russo - Quando eu ainda estava estudando eu comecei nesse laboratório na rua Pinheiros. Depois ele mudou para Belo Horizonte e eu fui para lá, fiquei três meses montando o laboratório junto com eles. Mas eu não podia ficar. Nós mudamos em dezembro, e as férias escolares iam até março. Eu estava no último ano do Liceu. Eu fui para lá, montamos tudo, organizamos todo o pessoal. Teve um negócio curioso, porque o bairro, ali onde hoje é a Fiat, era um bairro industrial, e não tinha indústria farmacêutica lá. Então, esse laboratório foi para lá porque teve todo aquele incentivo de imposto na época do Magalhães Pinto, para mudar para lá. E tínhamos que treinar a mão-de-obra. Não existiam pessoas preparadas, porque a indústria farmacêutica é uma indústria particular, há uma série de cuidados necessários. As meninas eram da roça, porque aquele bairro ali era um bairro de roça, e não tinha como trazer pessoal de Belo Horizonte. Não tinha como, não dava. Então pegava-se aquele pessoal, tinha que treinar, dar roupa para eles vestirem, porque eles eram descalços. Naquela época eles usavam alpargata rosa, aquele que tinha sola de corda. Tivemos que comprar aquilo. Mas elas pegavam as ampolas e quebravam. Estavam acostumados a apertar um cabo de enxada. Então ali foi um negócio Foi uma coisa que marcou muito. A gente aprendeu muito. Em três meses a gente foi treinando. Eu, sozinho, jovem ainda, tentava passar aquilo para o pessoal. Depois, eu voltei para São Paulo, fiquei prestando algum serviço aqui para eles, comprando alguma coisa quando quebrava alguma máquina, fazendo algum contato. Aí me formei e falei: "Agora eu tenho que procurar o meu caminho porque está muito ruim assim". Foi quando eu entrei na Laborterápica Bristol. Entrei como estagiário lá. Estava me formando, ia fazer estágio. Minha mãe conseguiu o estágio para mim através de um médico conhecido, e fui fazer estágio. No segundo mês de estágio já me contrataram como funcionário. Trabalhava na parte de Controle de Qualidade. Eu fiquei dois anos na Bristol e fui convidado para ir para a Squibb. Na Squibb entrei na parte de Controle de Qualidade também, na parte de fermentação. Depois, comecei a trabalhar na parte de Desenvolvimento de Produtos, fui para analista, depois passei para supervisor de Controle de Qualidade. Trabalhei oito anos na Squibb. Em 1972 eu saí da Squibb. Recebi um convite do Aché e fui para lá.

Entrada no Aché
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P - Você já tinha ouvido falar do Aché antes? Antonio Russo - Sim, mas muito pouco. Como eu sempre trabalhei em multinacional, as empresas já eram organizadas, já tinham um padrão, as coisas já vinham prontas da matriz. No Aché, era um desafio, um desafio que eu sempre quis, porque nessas empresas multinacionais você tem idéias, mas não pode pôr em prática. Não adianta. Tem um padrão e chega uma hora que você tem um limite. Então, havia muitas coisas a fazer, mas infelizmente não era possível, devido aos parâmetros, procedimentos que a empresa tinha. Esbarrava nisso e não tinha jeito. M

P - Como surgiu o convite para ir para o Aché? Antonio Russo - O Adalmiro já me conhecia porque ele tinha um time de futebol que se chamava Grécia. Tinha um outro rapaz também, que trabalhava na parte de escritórios do Aché, que é meu amigo até hoje, e tinha a Vera, a esposa dele, que também trabalhava no Aché. Era secretária dele. A gente se conhecia. Eles me convidaram para jogar bola lá no Grécia também, de sábado, onde hoje fica o Shopping Eldorado. Ali era tudo campo de futebol, tudo areia. Chamava Areião. E nós jogávamos bola lá no Grécia todo sábado à tarde. Então o conheci jogando bola. Um dia, me ligou a secretária dele e falou: "Olha, eu estou precisando de uma pessoa para vir trabalhar aqui no Aché. Você não conhece alguém na Squibb, alguém jovem que tenha formação, que queira crescer com a empresa?". Eu disse: "Eu vou verificar se tem alguém". Tinha alguns amigos, mas eu não queria indicar porque não tinha segurança. Não vou indicar uma pessoa que eu não conheço direito. Não quis indicar. Aí foi indo, foi indo, até que um dia ela falou: "Na realidade, eles querem que você vá para lá". Eles já conheciam meu perfil, sabiam quem eu era na Squibb... Eu falei: "Está bom, vamos conversar". Aí eu fui. O escritório era na Álvares de Carvalho, era onde ficava toda a parte de vendas e de marketing. Ficavam lá ele e o Victor Siaulys. Aí eu fui lá, marquei um dia, fui fazer uma entrevista, falei com o Victor, conversei um pouco com o Miro, mas era o Victor que cuidava dessa parte de desenvolvimento de produtos, de lançamentos. Conversamos um pouco e ele falou: "Está bom". Aí me pôs no carro - eu não tinha carro naquela época, ia de ônibus para lá - e fomos para Santana, lá no Imirim: "Você vai conhecer a fábrica, e na fábrica está o senhor Depieri". Eles me falaram o que eles queriam de mim e eu: "Tudo bem, não tem problema, vamos lá". Eu falei: "Quer saber de uma coisa? Se eu tiver que dar uma cabeçada é agora?" Estava casado há pouco tempo... Agora, eu vou. A chance está aparecendo agora. Eu senti, vislumbrei que eu ia ter oportunidade de desenvolver aquilo que eu gostaria de fazer. Eu falei: "Vamos lá, eu vou chutar: o meu salário é tanto". Eles toparam. Aí eu falei: "Não tem jeito. Agora tenho que ficar. (risos)

Organização do Controle de Qualidade e Desenvolvimento de Produtos
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P - Você foi contratado para qual função exatamente? Antonio Russo - Quando eu entrei foi para organizar o Controle de Qualidade. Eu estava fazendo fábrica, Controle de Qualidade, ainda no Imirim, e Desenvolvimento de Produtos. Foi aí que nós começamos a desenvolver muitos produtos que estavam lá parado. O Victor é o criador das idéias. Ele criava os produtos, falava mais ou menos o que ele queria, mas não tinha quem pudesse pôr aquilo em prática, que transformasse aquilo em produto, que desse cor, sabor, forma, qualidade no produto, estabilidade. Como eu já vinha com uma certa bagagem da Squibb, já trabalhava nessa parte de Desenvolvimento, peguei os projetos que estavam parados e começamos a fazer. No início, eu fiquei mais nessa parte realmente de Controle de Qualidade. Comecei a organizar o Controle de Qualidade no Aché, porque praticamente não tinha. A gente foi criando, montando, tentando criar alguns procedimentos, normatizar algumas coisas, aproveitar um conhecimento que a gente já tinha e comecei a desenvolver produto que estava parado. Ao mesmo tempo, eu ficava participando com o Ruy Ohtake e o Raphael da obra em Guarulhos. O Raphael é irmão do Adalmiro, o quarto sócio que saiu antes e que cuidava da parte da obra em Guarulhos. Então, toda semana nós tínhamos uma reunião com o Ruy, desenvolvíamos layout, que eu tenho guardado até hoje lá. Depois a gente vinha para Guarulhos para ver a obra, discutir no local como estava... E a obra já estava numa fase avançada. Então, inicialmente, eu participei no Aché na parte de Controle de Qualidade e de Desenvolvimento e no projeto da fábrica em Guarulhos.

Produção na Nova dos Portugueses


P - Quantos funcionários tinham na época do Imirim?

R - Acho que não chegava a 100. Eram mais ou menos uns 100 funcionários.

P - Você poderia descrever um pouquinho como era a organização da produção? Antonio Russo - Na verdade, como eu entrei na parte do Controle de Qualidade, eu comecei olhar de que forma se trabalhava, os parâmetros que eram usados, como era feito. No tempo em que eu entrei, a forma de fabricação era uma fichinha cor de rosa, que a gente ainda tem algumas guardadas. Você batia à máquina e colocava a receita, todos os componentes que iam no produto. Depois alguém tinha que pesar e fazer algumas coisas, mas como Controle de Qualidade mesmo, naquela época não tinha muito ainda. A gente confiava muito no fornecedor, na qualidade do fornecedor. Ele mandava alguns relatórios, especificava e nós fazíamos algumas análises de identificação. Então a gente foi desenvolvendo essa parte mais firme mesmo, que nas outras empresas já era comum fazer. As empresas nacionais estavam começando e ainda não tinham toda essa estrutura montada. M

P - A pesagem dos ingredientes era manual? Antonio Russo - Era manual. Existia uma balança que era levada para uma área separada, e com uma concha nós pesávamos. Nós fomos melhorando aquilo, tentando mostrar para o próprio pessoal o conceito de qualidade, a importância que tinha em fazer uma análise antes de envasar o produto. Nós começamos a dar código a todos os materiais e aí continuou organizando um processo de fabricação, uma ficha padrão, fomos comprando equipamento... O Aché estava investindo, então tinha que ter alguém lá que conhecesse para poder investir na parte de equipamento: "Que equipamento eu vou comprar para fazer a análise?". Tinham alguns já comprados, mas nós incrementamos com outros e aos poucos fomos trabalhando muito forte na parte de qualidade. M

P - Naquela época, quais os tipos de equipamentos utilizados? Era o Pica-Pau? Antonio Russo - É. Quem olhava a produção naquela época era o Antenor. Os produtos eram da mesma composição que se tem hoje: comprimido, drágea, líquidos... Só não tinha cremes pomadas, que foi desenvolvido depois. Então, ali, as máquinas de compressão eram todas Pica-Pau. O que é o Pica-Pau? Não é uma máquina rotativa, ela é excêntrica. Ela fica sempre batendo num pino só, vai pondo, fazendo aquilo e jogando fora. Usava-se muito daquelas máquinas. Depois começamos a comprar as máquinas rotativas, que eram máquinas de maior produtividade. Naquela época só comprávamos equipamentos nacionais, porque não tinha como importar. A importação de equipamentos estava proibida. E não existia o blister, era tudo strip, que é aquele alumínio/alumínio, que até hoje ainda existe. Então o Aché ainda não tinha as máquinas de blister. Faziam-se muitos produtos injetáveis, ampolas... E a parte de líquido também era pouca. Era Iodepol, Sorine, que foram os primeiros. Depois vieram outros produtos. Daí nós já começamos a pensar nos equipamentos de maior vulto. Nessa fase da obra passamos a comprar e adquirir equipamentos e a instalar lá na fábrica nova. M

P - As primeiras rotativas foram ainda no Imirim? Antonio Russo - No Imirim já chegou a ter as primeiras rotativas. M

P - O esquema da embalagem era manual? Antonio Russo - A embalagem era toda manual. O que era feito, mais ou menos? O comprimido era feito nessa máquina, depois ele ia para essa máquina que fazia o sprit. Punha num funil, aquilo descia e ela fechava os dois lados de alumínio/alumínio, com o comprimido no meio, e ela fechava. Depois dessa fase eles montavam a caixinha com a mão e punham lá, embalavam um a um. Tinha aquele pool de moças, cada linha tinha10, 15 moças trabalhando. Cada uma numa linha fazendo um produto. Punham na caixa de papelão, lacravam e fechavam. O mesmo procedimento de hoje, só que tudo manual. M

P - O esquema de expedição era diferente? Antonio Russo - Veja bem, hoje você trabalha com mais segurança. Você consegue rastrear todo o produto, você trabalha com código de barra, você tem leitor. Antigamente não tinha. Não tinha nem computador. Era tudo na mão. Você tinha que confiar muito no homem. Então, a Expedição realmente precisava separar os pedidos... Ia para o estoque e depois de lá fazia os pedidos. Era mais ou menos a mesma coisa de hoje, só que hoje você tem mais segurança é automatizado, você procura ter mais espaço. O processo era mais ou menos o mesmo, mas naquela época a gente só atendia farmácia, então era muito pedido. Quando chegava no final do ano, eram cinco, seis mil notas de pedido que tinha que fazer, e o faturamento era todo feito na unha. Tinham seis ou sete pessoas na máquina de datilografar fazendo o faturando. Passavam a noite virando, faturando para poder entregar os pedidos.

Construção do Aché I
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P - Queria que você falasse dessa mudança para Guarulhos. O senhor falou que chegou a discutir os layouts com o senhor Ruy. O quê, exatamente? Antonio Russo - O que é o layout? É um projeto. E como nós íamos mudar do Imirim, precisávamos pensar o que íamos fazer em Guarulhos, como iam ficar as seções... As deficiências que a gente vislumbrava ali, nós tínhamos que sanar para não ocorrer em Guarulhos, porque era uma fábrica com um conceito mais moderno. A gente não ia fazer uma fábrica para depois de um mês ter que mexer. Tinha que ver o conceito. Então foi feito já com um novo esquema de fabricação, de separar, ter uma antecâmara, não entrar direto na sala... A gente fazia aqueles layouts no papel, rascunhava e expunha: "Ruy, isso vai ter isso aqui, isso aqui..." Ele com a idéia dele e a gente ia jogando e tentando ver: "Está mal dimensionado, tem que ter a sala para fazer aquilo, quantos metros tem que ter, como vai ser o processo". Então a gente procurou não automatizar, mas fazer um processo contínuo, em que houvesse menos trabalho manual. Durante um ano a gente trabalhando em cima e montando todo esse sistema, toda a parte produtiva, a parte do Controle de Qualidade. Montamos toda a fábrica. M

P - Que prédio é esse? Antonio Russo - É o que a gente chama de Aché I. M

P - O senhor chegou a acompanhar as obras? Antonio Russo - Sim, toda semana eu vinha um dia para Guarulhos com o Raphael e o Ruy junto. Nós marcávamos reunião aqui e vínhamos discutir. A fábrica já começava a tomar um vulto, na parte final, a gente já via como ia ser esse processo, aonde vai pôr a máquina. A gente já foi montando tudo, olhando tudo: "Vai ser assim? Tem que fazer um furo na parede para passar assim..." Deixamos pré-montado. Quando chegasse era só apertar o botão e sair trabalhando. Não podia falhar.

Mudança para Guarulhos
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P - O senhor se lembra da inauguração? Antonio Russo - Antes de inaugurar nós já instalamos em Guarulhos alguns equipamentos grandes, novos, que foram comprados. O Aché do Imirim não comportava as novas máquinas. Eu ia para Guarulhos sozinho. A gente comprava equipamento, operava, via toda a parte de funcionamento do equipamento, então eu ia para lá para operar. Nós compramos uma máquina para fazer comprimido, com a qual nós fazíamos o Somalium. O Somalium vendia barbaridades naquela época. Eu vinha para cá, o motorista me trazia com a perua, eu preparava aquele produto, eu já pesava lá em Santana, trazia toda a matéria-prima para cá, manipulava o produto, preparava só para comprimir depois lá no Aché. Eu vinha já tocar e ia também trabalhando um pouco. Já estava tudo instalado, tudo aprovado, bonitinho. A gente já fazia essa coisa. No final do dia, enquanto a gente discutia, aquilo secava. No final do dia a gente punha no carro e levava de volta lá para Santana para poder puxar, para quando a gente mudasse ter estoque. Para evitar qualquer problema, o que nós fizemos? Nós puxamos a condução antes de mudar e fizemos um estoque de segurança, para depois então mudar. M

P - Na mudança foi tudo levado para lá? Antonio Russo - Foi tudo para lá. Foi bacana. Dividimos em duas turmas: uma turma ficou em Santana e outro pessoal em Guarulhos. Nós pegamos um final de semana. A gente já montou todo o esquema, contratou os caminhões e falou: "Isso aqui vai primeiro...". Já tinha colocado isso no layout, já sabia onde ia cada máquina.: "O caminhão número um vem com isso, isso e isso". A gente já ficava preparado para pôr no lugar. Os próprios funcionários do Aché, todos, aderiram. O caminhão chegava, carregava lá e falávamos: "Olha, está saindo daqui tal caminhão". Já esperava. O outro já chegava, já punha as máquinas todas no lugar: "Chegou não sei o quê, vai tudo para o lugar". Bom, nós fizemos num final de semana. Na segunda-feira a gente já estava trabalhando. Não os 100%, mas já estava voltando. M

P - Foi máquina, matéria-prima, tudo? Antonio Russo - Foi um negócio planejado, foi detalhado. Algumas coisas falharam, mas no geral não tivemos grandes problemas na mudança.

P - O que representou, para o Aché, a saída de Santana para Guarulhos em termos de ambiente de trabalho e rotina de produção? Antonio Russo - Em primeiro lugar, ganhou-se muito em qualidade devido às próprias instalações. Em Santana, era uma instalação muito truncada. O Aché tinha crescido e se desorganizado. Passava-se por várias etapas, não tinha uma seqüência. E lá não, já era uma fábrica prevista, planejada, tinha uma seqüência. O produto não voltava. Ele ia sempre para frente. Não chegava numa etapa agora, para voltar aqui outra vez. Então, em termos de qualidade, de fluxo, de logística, foi excelente. A instalação de ar condicionado, pisos, o ambiente... Até para o próprio pessoal trabalhar melhorou, pois tinha mais espaço, era mais arejado, tinha corredores maiores, as máquinas estavam dispostas de forma adequada realmente, mantendo os padrões de qualidade, essa coisa toda. Foi realmente foi uma mudança radical. M

P - O senhor se lembra qual foi o aumento da capacidade de produção? Antonio Russo - Eu não tenho um número preciso, mas eu acredito que nós aumentamos mais ou menos uns 30% nessa mudança no primeiro momento. Depois começou a vir o Aché II, Aché III, Aché IV. Quer dizer, eu estou há 30 anos no Aché, há 30 anos que tem obra lá. Nunca parou de aumentar, de crescer. Não teve um ano em que se falou: "Pára". Nunca parou. M

P - E houve um aumento no número de funcionários com essa mudança? Antonio Russo - Sim, houve. Muitos já vieram de Santana, aqueles que gostariam de ficar. Nós tínhamos uma linha de ônibus que levava até Santana. Aqueles que quiseram ficar ficaram. Depois eles foram saindo também, porque eu acho que a distância pesava. A gente foi treinando mais mão-de-obra em Guarulhos. No início tivemos que pegar também uma boa parte em Guarulhos, mas mais a parte braçal, não especializada. O pessoal especializado a gente trazia sempre de São Paulo, porque não havia em Guarulhos naquela época. E assim foi. Quer dizer, houve um acréscimo de mais ou menos 30%. M

P - Mudou muito a rotina de trabalho em relação, por exemplo, ao refeitório, ao grêmio, ao convívio das pessoas? Antonio Russo - Veja bem, logo que mudou para cá, não tinha um grêmio, mas existia uma quadra. Então nós tínhamos uma área de lazer; uma quadra de futebol de salão, um vestiário. A gente se reunia. À noite fazia campeonato de futebol de salão lá em Guarulhos, internamente. Depois aquilo foi crescendo. Ele foi comprando os terrenos do lado de cá, que era do Roda Viva, depois comprou a Alcoa, e fez uma área de lazer grande. Fez um campo de futebol de areia antes de fazer toda aquela estrutura. Depois desmontou. Aí, montou o Grêmio, realmente, com piscina, campo de futebol, quadra de tênis... Isso tudo foi crescendo de 1973 até 1992, mais ou menos. Toda essa transformação começou aos poucos. Depois foi vendo os desejos dos funcionários, que eles gostariam de ter isso, aquilo, e foi conversando. Tinha espaço, tinha área, e aos poucos a gente foi montando essa parte de lazer para os funcionários. E está até hoje. Hoje tem creche, benefício, refeitório... O refeitório, antigamente, era uma coisinha pequena. Hoje existe a área que era o refeitório. É uma pérgola que você sai da fábrica antiga, ali no térreo, e vai para a nova. O refeitório era ali, onde funciona o pessoal da segurança. Inicialmente a comida vinha congelada, não tinha espaço. Depois o pessoal reclamou e passamos a comprar comida fresca, mas não feita no Aché. Tinha aquelas empresas que traziam. Para mim era a mesma coisa. Um dia o feijão estava bom, no outro dia estava ruim. Aí nós montamos um restaurante, com cozinha industrial, tudo, ali naquela parte em frente ao ambulatório. Ali atendiam-se quase 600 pessoas de uma vez. Era uma cozinha realmente industrial. Depois, com essas mudanças, com a ampliação, aumento da obra, saiu de lá e foi para essa parte que a gente chama de Aché V. M

P - Essa primeira cozinha industrial, o senhor tem uma lembrança de que época era? Antonio Russo - 1978, por aí. Nós mudamos em 73.

Desenvolvimento de produtos
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P - Eu queria que o senhor contasse um pouco sobre o desenvolvimento de produtos. Antonio Russo - Na realidade, o Victor era o criador, era quem pesquisava. Ele ainda é hoje, ele lê muito. Então ele criava as fórmulas: "Vamos fazer o Energisan. O que tem que conter no Energisan?". Vitamina B12... Dava as dosagens de acordo com a posologia. Ele olhava, estudava muito, via aquilo e a gente montava: "Olha, o produto é esse aqui". Ele me passava e eu começava a desenvolver o produto numa bancada. Ver como ia ficar, fazia o teste, fazia a dosagem, ver se não caía a pureza, a potência, via a estabilidade... Aí a gente se reunia e ele sempre dava o perfil, o que ele gostaria. A gente também via o que tinha no mercado, porque havia algumas cópias, mas sempre com uma melhoria. A gente procurava sempre colocar um plus naqueles produtos, seja em qualidade, em apresentação, em aparência, no visual... Assim que era desenvolvido. Na época, logo de cara, quando eu entrei, nós estávamos com três produtos parados, que era o Eritrex, um antibiótico, o Energisan, que depois estourou, que nós fazíamos um milhão de ampolas por mês, e o Colpistatin creme. Esse aí era um produto que eles queriam lançar, mas que só veio a ser lançado quando estava aqui em Guarulhos, em função de que nós não tínhamos equipamento para fazer creme e pomada em Santana. Nós conseguimos depois, em Guarulhos. M

P - O senhor disse que eram produtos que estavam parados. A fórmula já era do Aché? Antonio Russo - É. O Victor já tinha na cabeça dele o que ele queria. Já estava bolado, mas ele não conseguia desenvolver o produto. É que nem culinária, se não tiver o chefe de cozinha que conheça o negócio, a coisa não sai. Como você vai fazer aquilo virar um creme? Como você vai fazer aquilo virar uma suspensão, dar um sabor, ver o ph, as qualidades? Então, você tem o desenvolvimento, que é o que eu sabia fazer porque eu já tinha uma bagagem que veio da Bristol, da Squibb... Então, eu tinha um auxiliar, e a gente começava. Comecei a passar para eles também, a ensinar, a falar como era. Assim a gente foi desenvolvendo todos os produtos. Fazia em bancada, depois fazia um teste piloto na parte de produção. Descia para a produção, falava: "Vamos fazer assim, assado". Fazia um teste, fazia outro. Discutia com o Victor. Toda sexta-feira o Victor estava no centro, vinha na Álvaro de Carvalho. Ele vinha com aqueles calhamaços de coisas, com as idéias. A gente discutia, eu mostrava aquilo que eu tinha feito durante a semana, ele olhava, via se estava de acordo, via sabor... "O que você acha disso?" "Não, essa cor não está boa. Eu acho que o mercado quer uma coisa mais assim..." Éramos eu e ele. Ele dava as idéias e a gente punha em prática. E assim foi indo, foi seguindo para esse setor de farmacotécnica, desenvolvimento. M

P - De onde você acha que vinham as idéias do senhor Victor? Era uma observação de mercado, eram sugestões de médicos... Antonio Russo - Não, eu acho que era uma coisa dele mesmo, de ele vislumbrar aquele produto. Os produtos da época que entrei ainda são, hoje, um sucesso. Foi tudo ele que fez, como o Tandrilax. Ele criou, deu um plus naquela composição, porque ele é um estudioso. Ele sabia a função daquele princípio ativo, como ele ia agir, em que dosagem ele tinha que ser usado, ele dava nome... E assim ia. Ele criava e a gente fazia. Aí, depois que desenvolvia os produtos, fazia os relatórios para registrar. Dava seqüência em um outro grupo que já cuidava dessa parte.

Energisan
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P - Dos produtos que o senhor desenvolveu, qual foi o que mais chamou atenção? Antonio Russo - Foi o Energisan. M

P - Conta um pouquinho como foi o desenvolvimento do Energisan. Antonio Russo - Quando eu entrei no Aché, eles estavam com o Energisan parado. Tinha uma outra pessoa antes de mim que mexia com isso, um farmacêutico, mas ele não estava conseguindo fazer a fórmula. Fazia e ela cristalizava. O produto não se tornava estável. Aquilo foi um desafio. Comecei a olhar e a pesquisar também: "A fórmula que ele quer é essa daqui. O produto tem que ter esses itens". Mas dava problema. Fazia uma fórmula, punha em estufa, deixava um período de estabilidade, ele não se mantinha, dava problema. Fomos desenvolvendo até que eu cheguei a um sal. Era um problema de cálcio que precipitava. Então fui pesquisando, achei que era aquilo. Nós mudamos o sal e pedi uma amostra de um outro produto. Naquela época a gente fazia contato com os fornecedores, pedia uma apoio, ia trocando idéias. Aí acertamos a fórmula e começamos a fabricar, porque o Aché já tinha o perfil de fazer injetável, já tinha o Dextrovitase... Então aquilo já existia e nós queríamos lançar o Energisan. E foi um sucesso. Lançou, começou, foi indo e nós chegamos a fabricar um milhão de ampolas por mês. M

P - Como ficava a fábrica no pico da produção do Energisan? Antonio Russo - Como hoje, cada setor tinha sua especialidade: o setor de Líquidos é só produto líquido, o de Semi-sólidos é só semi-sólido, o de Comprimidos é só comprimido e o de Injetável é só injetável. Isso porque para cada tipo de produto você tem um rigor para trabalhar. Injetável é uma área que tem que ter mais rigor porque é estéril. Comprimidos de uso oral já é um pouco mais aberto. Então, ali sim nós tivemos que comprar mais equipamento. Nós tínhamos duas máquinas de encher ampola, tivemos que comprar mais quatro. Chegamos a ter seis máquinas só para fazer Energisan. Essas máquinas eram nacionais, com uma velocidade boa para o produto nacional. Quando abriu a importação, nós compramos duas máquinas italianas. Por exemplo, essas máquinas nacionais faziam duas mil ampolas por hora, essas italianas faziam dez mil por hora. Então, aquelas sete ou oito máquinas que a gente tinha... Nós compramos essas máquinas de maior produção e começamos a fabricar o Energisan direto. Eritrex e Colpistatin M

P - Sem ser o Energisan, eu gostaria que o senhor desse outro exemplo de produto desenvolvido. Antonio Russo - Depois, em seguida do Energisan, outro produto que pegou bem foi uma novidade, foi o caso do Eritrex, uma primeira suspensão que nós desenvolvemos, em termos de antibiótico uso oral, xarope, tipo líquido. E depois um creme, o Colpistatin creme que também foi uma novidade, porque o Aché não tinha, até aquele momento, nada nessa parte de creme e pomada. M

P - Qual era o diferencial do Eritrex em relação a outros produtos existentes? Antonio Russo - O sabor, a cor dele. Nós demos sabor de morango, muito gostoso. M

P - De onde veio a idéia do sabor de morango? Antonio Russo - Veja, no mercado já existia um produto similar. Ele tinha sabor de laranja. Não mascarava bem porque o sal desse produto é amargo e você tem que fazer alguma coisa para mascarar aquele sabor amargo. Então, o diferencial do Aché era isso, de trabalhar em cima, de melhorar o sabor, a apresentação, o visual, para entrar no mercado e combater o outro. M

P - No caso do Eritrex foi o sabor? Antonio Russo - É, o sabor, o visual dele, porque a cor ficou muito bonita, era aquele rosa, uma cor do Aché, já caiu mais no tom do magenta. Foi trabalhado muito em cima do morango. M

P - E o outro que o senhor citou? Antonio Russo - Foi o Colpistatin creme. M

P - O diferencial desse qual era? Antonio Russo - Veja bem, quando nós lançamos o Colpistatin creme, nós lançamos em óvulos e o creme. São produtos de uso vaginal. Então, o óvulo, a gente queria mostrar que aquele óvulo, quando era introduzido na vagina, ele absorvia toda a vagina. Ele formava uma espécie de espuma em contato com a própria mucosa da vagina. Esse foi o diferencial. Nós criamos um recipiente que reagia com aquilo e realmente ele formava. Então nós mostrávamos isso na propaganda para o médico, que o Victor criou. Ele pegava um comprimido, pingava uma gotinha de um líquido em cima e mostrava como aquilo reagia. Ele crescia e criava espuma, pegava toda a cavidade vaginal. Então tem toda essa coisa que o Victor criou. E o Colpistatin creme marcou para nós porque foi o primeiro produto em creme, em bisnaga, que se fazia, como desenvolvimento da empresa.

Diferenciais do Aché
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P - Essa postura de se buscar um diferencial no desenvolvimento dos produtos do Aché continuou ou foi só nessa época? Antonio Russo - Continuou. M

P - O senhor Victor continuou criando ou teve um momento em que isso mudou na história do Aché? Antonio Russo - Quando o senhor Raphael, irmão do Adalmiro, saiu da empresa, houve uma divisão nas áreas de atuação dos acionistas. O Victor cuidava da parte de marketing, então isso passou para o Adalmiro. O Adalmiro foi quem ficou com essa parte de vendas e de marketing, e o Victor ficou com toda a parte da indústria e RH. Eles sempre foram trabalhando sem um interferir na área do outro. Tinham autonomia de fazer isso ou aquilo. É lógico que ele continuava estudando, tendo as suas idéias, falando, mas isso passou a não ser uma coisa prioritária dele, e sim desse outro departamento. M

P - A partir daí, qual passou a ser a política de escolha dos novos lançamento? Antonio Russo - Como nós não temos pesquisa e você também não trabalha com patente, nós não temos um Viagra na mão para poder lançar, então você tem que fazer o quê? Ver o que tem no mercado, ver o similar e melhorar aquele similar. Como? Na embalagem, no sabor; dar aquele plus mesmo no produto. Então esse era o diferencial do Aché. Acrescentávamos alguma qualidade, agregávamos alguma coisa que o outro não tinha, mudávamos a embalagem... Sempre olhando o lado da qualidade e também acrescentando aquele plus, aquela criatividade. M

P - Hoje essa criatividade está por conta de quem? Antonio Russo - Hoje, depois que teve essa primeira transformação, logo depois que empresa passou a se profissionalizar, criou um grupo, uma força-tarefa que hoje olha toda essa parte de lançamento. Mas o Victor sempre dá algumas idéias também. Eu acho que isso é uma coisa dele. M

P - A cabeça continua funcionando? R -Não adianta, as idéias são natas. Ninguém ensinou o Ronaldinho a jogar bola. Se você coloca alguém nessas escolinhas de futebol, ninguém aprende a jogar bola lá. É nato, o cara é um artista. Ele já nasce assim, não adianta.

Experiência da Planta Química
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P - A maior parte da matéria-prima utilizada no Aché é importada? Antonio Russo - É, praticamente 90% dos princípios ativos são importados. M

P - Em 1973 isso já acontecia? Antonio Russo - Em 1973 isso já acontecia também. Quando foi em 1979, nós inauguramos uma Planta Química, que foi feita para fabricar algumas matérias-primas para uso próprio, para uso do Aché. Eu tive a felicidade de ir buscar essas tecnologias na Europa. Em 1980 eu fui para a Hungria, fiquei 21 dias lá, fui a fábricas, fiz como se fosse um estágio buscando toda tecnologia da fabricação de Tatarato de Ergotamina e Furosemida. Fomos buscar na Hungria. Acompanhamos toda a fabricação, toda a tecnologia, análise, para ver como fazia, porque tinha que chegar aqui e tentar reproduzir tudo aquilo que a gente viu lá. Ficamos lá, eu e o Yang, que era um pesquisador chinês. E era interessante porque a Hungria, na época, estava sob domínio russo, era o comunismo. E o húngaro fala um dialeto, então ou você falava o russo ou dialeto dele. Eles eram proibidos de falar inglês. Foi terrível, mas a gente se comunicava. M

P - Como se resolveu isso? Antonio Russo - Com as mãos. (risos) Nós nos comunicávamos com as mãos. Nós conseguimos um dicionário que tinha português e húngaro, e como não tinha jeito de falar em português, eu mostrava para eles no dicionário qual palavra era. A gente ia tentando falar, tentando se comunicar. Mas era mais no visual e na mão que conversávamos. Até que, depois de um determinado momento, já estávamos lá há uma semana, uns dez dias, e conhecemos uma pessoa que trabalhava nessa fábrica, uma fábrica enorme, que existe até hoje, e ele havia estado em Cuba e por isso falava um pouco de castelhano. Foi a nossa salvação, porque senão seria difícil a nossa comunicação ali. Pegamos amizade com ele, ele ajudou e a gente também foi começando a conhecer algumas palavras em húngaro. Quando eles falavam, você não falava, mas você já entendia o que era. Foi bacana. Ficamos 21 dias lá sem poder conversar, mas trouxemos um resultado para a empresa. M

P - O projeto da Planta Química durou quantos anos? Antonio Russo - Olha, entre a construção e o funcionamento, acho que uns três anos. Mais ou menos três ou quatro anos. M

P - Ela funcionou por quanto tempo? Antonio Russo - Veja bem, nós fomos buscar esses materiais e depois nós tivemos na Alemanha para pegar uma outra matéria-prima, o Dipiradamol. Era na Alemanha Comunista, em Dresden. Ficamos lá duas semanas. M

P - E lá como foi a aventura com a língua? Antonio Russo - Terrível. Lá foi pior ainda, porque era uma cidadezinha pequena e a pessoa que vinha de fora tinha que ficar num determinado local. Os hotéis eram confinados para ficar ali. E às 22:00 acabava tudo, não tinha jeito. Apagava a luz, não tinha televisão, não tinha nada. Era comunismo mesmo. No restaurante, a gente não conhecia nada, não tinha como sair. E o restaurante do hotel era vazio. Se você se sentava na mesa sem se apresentar para o garçom, ele não te servia. Você tinha que ficar em pé, na porta do restaurante. Nós ficamos duas semanas lá em Dresden. Depois eu fui para a Itália, para Milão, e nós fomos buscar mais duas matérias-primas. Tivemos na Poli e na Farmabios. Ficamos lá 17 dias também. Aí nós passamos na França, em Paris, para ver algumas matérias-primas também. Ficamos aí uns dois ou três dias. Aí voltamos. O circuito inteiro deu 42 dias na Europa atrás dessas tecnologias, acertando esses detalhes. Isso foi em 1980. A partir daí nós começamos a fazer o desenvolvimento de bancada e começamos a usar e produzir em escala industrial. Todas essas matérias-primas ficaram para uso dos produtos do próprio Aché. M

P - Quantas matérias-primas chegaram a ser produzidas? Antonio Russo - Nós chegamos produzir a Frutose 1.6 Fosfato Cálcio, a Frutose Cálcica, Dipiridamol, Tatarato de Ergotamina, Diidroergocristina Metansulfonato, Nitrato de Enconazol e hoje ainda fabrica o Diclofenaco Resinato e a própria Frutose. Uma parte da Química continua fazendo essas duas matérias-primas. M

P - E quais foram as dificuldades? Antonio Russo - Veja, o grande problema que eu acho foi o custo, porque você não conseguia ter tudo aqui no Brasil. Sempre tinha que importar alguma coisa. Você não importava matéria-prima, mas os intermediários para fazer aquela matéria-prima você tinha que trazer. E o custo desses intermediários era quase o preço da matéria-prima pronta. Tinha o risco da perda, porque quando você faz um lote de matéria prima, você tem uma perda. Se eu compro 100 quilos, chegam 100 quilos. E com os custos, a fabricação tornou-se inviável, porque os intermediários tinham quase o mesmo custo do produto final. Aí a gente foi deixando e ficou só com essas duas, porque foi um desenvolvimento nosso. É importante manter esses dois, mas o resto não tinha mercado, não justificava mais. Saía mais caro fabricar aqui do que trazer o produto pronto. M

P - E houve alguma mudança no fornecimento de matéria-prima? Antonio Russo - A maior parte continuou sendo importado. Não tem fábricas aqui no Brasil de princípios ativos. Os incipientes, existe alguma coisa, mas o princípio ativo é praticamente 100% importado.

Compra da Bracco-Novoterápica
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P - As aquisições que o Aché foi fazendo no decorrer de sua história, como a compra da Bracco-Novoterápica, afetaram de alguma forma a produção? Antonio Russo - Sim, bastante. Primeiro foi o Bracco-Novoterápica, que era na Pedroso de Moraes. Foi uma compra mesmo. Então, o que foi feito? Durante um período funcionou lá mesmo, e depois nós trouxemos toda a fabricação para Guarulhos. É lógico que tivémos que fazer um aumento nas áreas produtivas. Nós preparamos tudo isso primeiro e depois nós trouxemos para cá. Então, começou a ter alguma tecnologia diferente. Até então, nós não tínhamos a nossa linha de cápsula. A Bracco tinha uma máquina italiana de encher e envasar cápsula. Então, o produto em forma de cápsula foi uma novidade em termos de apresentação. Os outros produtos eram mais ou menos o mesmo perfil do que o Aché já tinha, eram os próprios equipamentos que o Aché tinha. Teve que ampliar, aumentar a carga, talvez algumas pessoas a mais, mas deu para absorver bem dentro do parque industrial de Guarulhos.

Parceria com Parke-Davis


R - Depois teve a Warner-Lambert, Parke-Davis. O Aché fechou e ainda tem até hoje o contrato de fabricação e vendas. Por ser uma empresa multinacional, nós tivemos que ter outros cuidados também aqui. Durante um período funcionou lá no Rio de Janeiro. Nós pusemos uma pessoa lá para acompanhar toda a fabricação, para pegar os detalhes. Depois nós nos preparamos, porque aí sim, começou a ter outras coisas, como por exemplo uma sala estéril, que a gente não tinha, para a fabricação de creme e pomada, que é o Fibrase. Tivemos que fazer uma linha dedicada só para fazer Mylanta e Agarol, que eram volumes enormes, vidro de tamanho grande, supositório, que nós não tínhamos em nossa linha. Nós tínhamos que estar preparados, enfim, seguros, para a hora que trouxessem o equipamento. Outra coisa, nós tivemos que sofrer uma auditoria internacional, porque a instalação, como ia ficar? Então, antes da fábrica funcionar, eles estiveram aqui. E é como tem até hoje. Por exemplo, tem uma pessoa que controla toda a qualidade e é empregado, hoje, da Pfizer, mas ela fica full time no Aché. Nada passa sem antes passar por seu crivo, sua aprovação. Nós começamos a ter as inspeções internacionais, e até então nós só tínhamos inspeções nacionais, a vigilância sanitária aqui do Brasil. Ainda hoje, o Parke-Davis todo ano manda os auditores, os inspetores deles e faz a inspeção. Isso foi bom para nós, que a gente começou também a estar de acordo com a legislação, as últimas com as normas de boas práticas de fabricação e sendo auditado por um órgão internacional. M

P - Isso acabou se espalhando ou ficou restrito aos produtos da Parke-Davis? Antonio Russo - Especificamente, eles vêm para ver os produtos do Parke-Davis, mas como a fabricação é comum, eles acabam vendo toda a área. Viam a instalação, a área, como você fabricava o produto, a documentação... E eles faziam as observações deles. Algumas coisas foram se adaptando, foram mudando, mas nunca tivemos um problema sério, de ter que parar por não ter condições. Com a vinda do Parke-Davis a gente aprendeu muita coisa. Os primeiros lotes que eram fabricados tinham que ter a aprovação dos Estados Unidos, então nós fabricávamos aqui. O produto ia lá para os EUA, ia uma amostra. Depois de três lotes provados eles autorizavam você a ter a fabricação. Isso foi um marco muito bom para gente, porque nós tínhamos qualidade e condições de fabricar, como se fosse fabricação de primeiro mundo, dos Estados Unidos. Aí sim, começou a ter essa diferenciação e ampliação. Aí o Aché foi crescendo: Aché III, Aché IV... M

P - No caso da Bracco e do Parke-Davis vieram os equipamentos, os funcionários... Veio tudo? Antonio Russo - Da Bracco nós pegamos alguns equipamentos e alguns funcionários. A maioria do material nós deixamos lá e vendemos. Fizemos um leilão, porque era coisa muito antiga, não justificava trazer para nós. Do Parke-Davis, a mesma coisa. Todos os equipamentos que a gente não tinha, que eram específicos, a gente trouxe. Nós também trouxemos alguns funcionários que estão até hoje com a gente, que a gente achou que era estratégico que eles viessem para cá. E esses equipamentos são ativos deles desde que o contrato foi fechado. Então, no momento que aquele equipamento que não tem mais uso, você devolve para eles no estado que está. É deles, aquilo lá. Tivemos que adquirir algumas coisas, que eram de uso comum. Houve uma mudança muito grande com a vinda do Parke-Davis. M

P - Uma mudança em que sentido? Antonio Russo - De ampliação no espaço da parte de produção. Eram tipos de produtos com os quais nós não atuávamos. Tivemos que ter uma área estéril só para fazer o Fibrase, uma área só para fazer supositório, que nós não tínhamos, uma área dedicada para fazer líquido, que era só de Agarol e Mylanta, que ela absorvia o tempo todo só fazendo aquilo. Na parte fabril, na parte de Sólidos, também nós tivemos que ampliar, comprar mais máquinas, equipamentos, porque alguns produtos tinham grandes volumes, como Ponstan, Mylanta... Teve que contratar mais funcionários, houve uma ampliação grande, houve um crescimento unitário grande.

Criação da Prodome
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P - A formação da Prodome causou algum impacto? Antonio Russo - A Prodome não, porque a Prodome manteve a mesma instalação. Nós não trouxemos a parte fabril aqui para Guarulhos. Ela se manteve nas instalações que ela tinha, só foi mais ou menos uma parte comercial e de administração, mas a parte fabril continuou lá. Para o Aché foi a mesma coisa. Não teve interferência. Nós conversávamos com o pessoal, a Prodome hoje fabrica algumas coisas para gente, a Schering chegou a fabricar também alguma coisa para eles, mas para nós, em Guarulhos, não afetou porque essas fábricas continuaram produzindo no próprio local.

Crescimento da produção
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P - Queria que você descrevesse um pouco como foi esse crescimento da produção do Aché. Antonio Russo - O crescimento foi gradual. Nós tivemos alguns períodos de muitos lançamentos de produtos e também de fabricação de amostra grátis. Em 1996, 1998 foram os nossos picos. Nós chegamos a fabricar quase 180 milhões de unidades em um ano. Hoje nós estamos fabricando mais ou menos 140 milhões. O que significa tudo isso? É o mercado, lógico, que foi se habituando. Hoje, por exemplo, na minha visão, a gente vê que as drogas, os medicamentos começam a ter uma posologia diferenciada do que era anteriormente. Antes, para tomar antibiótico, tinha que tomar quatro ou cinco comprimidos por dia. Hoje você toma um e resolve. Por quê? São de ação prolongada, é uma droga mais atualizada... Então hoje, aquilo que você fazia 30 comprimidos está sendo modificado para dose única. Era um volume de produto, de caixa, absurdo. Hoje você faz menos porque a posologia mudou. Fala-se muito em ação prolongada. Você toma no máximo dois por dia. Antigamente você tinha que tomar quatro e era a cada seis, oito horas. Isso acarretava um volume grande de fabricação. Hoje mudou um pouco em função das drogas novas que vêm sendo lançadas, que são em menor quantidade, em comparação com a outra, que era em grande volume. M

P - E a produção de amostras grátis? Antonio Russo - A produção de amostra grátis teve grande interferência. Agora, no ano passado lançaram a nova legislação da ANVISA, essa RDC 102, que obriga o fabricante a dar 50% do original. O custo ficou quase impossível, inviável. Por isso houve uma queda das amostras. O Aché é o laboratório que tem mais vendedores, mais propagandistas na praça, então tinha um volume grande de amostras. M

P - As amostras representavam qual parcela da produção? Antonio Russo - O produto de venda, se você põe 20 comprimidos, por exemplo, numa caixinha, a amostra você punha dois. Mas era uma caixa também. Então, a máquina que faz aquilo, tanto faz ela pôr 2 ou 20. É o mesmo tempo. Em volume unitário era muito grande. O volume de caixinhas representava mais ou menos 40% às vezes... 30, 40%.

Informatização da empresa
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P - Em relação ao esquema de produção, os setores evoluíram muito? Antonio Russo - Evoluíram muito. Como eu falei, nós saímos de um sistema manual. Você dependia muito praticamente de todos os controles. Não tinha computador, não era informatizado. Aí passou a ser informatizado. Com a informatização, foi aquele pulo. Você tinha controle de tudo, começamos a pôr no sistema, criamos um sistema próprio de controle de planejamento... Antes era tudo feito na unha, tinha que fazer na unha. Quantos lotes nós fazíamos de Combiron? 20? 20 vezes não sei quanto, quanto vai gastar de tanto? Então era na unha, na maquininha de calcular, e não tinha como o sujeito fazer. Hoje não, hoje nós implantamos um sistema que faz todo o planejamento, que é o BPCS, que você explora todo o planejamento, que é o MLT... Você explora e tem todo um consumo, você planeja o setor. Hoje está tudo informatizado. Nós compramos esse software que é específico para indústria farmacêutica. M

P - É recente? Antonio Russo - Veja bem, nós demoramos quase dois anos para trabalhar em cima dele, para implantar tudo. Então ele já está mais ou menos há quase dois anos funcionando redondo. Inclusive na semana passada nós já colocamos uma versão nova. M

P - Você se lembra do primeiro dia que funcionou esse sistema? Antonio Russo - É, foi um caos, porque a gente ficou muito preocupado. Primeiro, foi duro para você levar isso para o público, para a cultura da empresa. A pessoa já quer saber mexer, tinham pessoas que nunca tinham mexido num computador... Imagina o que é toda a parte industrial informatizada Tudo, tudo Nós tivemos que fazer um treinamento para todo mundo, para não ter medo da máquina: "Pode apertar aqui que não acontece nada". É um sistema que tem um trabalho pesado, porque você tem sua rotina e para implantar aquilo tem que se dedicar. Nós tivemos que formar uma equipe, tirar toda a atividade dela, suprir com a gente ali para poder ficar quase um ano só trabalhando em cima daquela coisa, para fazer os ajustes. Tem um programa, mas você não encaixa nada, tem que adequar ao seu negócio. Teve treinamento do pessoal, faziam-se os pilotos. Isso foi um ano trabalhando pesado. Uma equipe trabalhou duro mesmo, se dedicou bastante, até virava a noite. Assim foi indo, até que chegou num ponto que disseram: "Agora está pronto. Vamos implantar?". "Bom, vamos". Ia acabar o sistema que tinha. Era um corte, sem retorno. Você cortou e não funcionou, ele pára a empresa, porque é um sistema integrado. Ele foi colocado desde o recebimento até a fabricação. Quer dizer, a hora que a matéria-prima entra na empresa, ela já entra ali, já vai, explode para o Contas a Pagar, Contas a Receber, entra no Estoque, Controle de Qualidade, analisa, aprova, o Planejamento já emite as normas de fabricação e assim vai... Quer dizer, está tudo em conjunto. Entra no Estoque, outro fatura... Então, se desse uma pane... Por isso, o que fizemos? Fizemos vários pilotos e montamos nas férias. Pegamos um período de férias e ficou uma equipe para colocar o BPCS no ar. Lógico, como qualquer programa novo dá problema. M

P - Naquela noite você não dormiu...

R - Não dormia, mas aí foi. A empresa toda estava participando disso. Não era só a indústria. O Controle de Qualidade, a Administração... Primeiro foi implantação na parte industrial, na parte fabril. Depois já foi na parte administrativa. Hoje está integrado na empresa toda. M

P - Mas isso coincide com aquele Certificado de Sistema de Gestão Integrada? Antonio Russo - Não, isso veio depois. Primeiro, há dois anos nós implantamos o sistema de BPCS. Por que se optou por esse? Porque era um sistema que a gente fez uma pesquisa mundialmente nas indústrias farmacêuticas, e este é o sistema que mais se usa. Hoje pode ser que não seja mais, mas naquela época era. Então nós fechamos um contrato com a SSA e pesquisamos, não só aqui no Brasil, mas fora, em outras empresas farmacêuticas que usavam e estavam desenvolvendo. Isso é uma coisa. Agora, a Gestão Integrada já vem da ISO, do meio ambiente e saúde no trabalho. Mas isso veio depois, é mais de meio ambiente. M

P - Em relação à informatização, ela também envolveu a modernização das máquinas de produção? Antonio Russo - Sim, foi um outro passo. Quando nós começamos a desenvolver a planta nova, que ainda está em construção. O projeto dessa planta começou em 1994. A idéia era fazer uma fábrica de primeiro mundo, uma fabrica adequada às novas normas, porque as leis mudam muito.

Modernização da fábrica
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P - Esse é o Projeto Farma 2001? Antonio Russo - É o chamado Farma 2001. Por que? Quando ela foi concebida, em 1996, era para terminar em 2001, mas infelizmente não foi possível. Ela continua lá e o projeto tem que ser concluído. Hoje, o conceito mais moderno é ter máquinas que tenham toda rastreabilidade do produto. Não adianta ter rastreabilidade no BPCS, se o que eu fabrico eu não tenho como rastrear. Essas máquinas já são todas com código de barra, são máquinas que não têm contato manual, é em linha, é tudo automatizado, o produto entra e sai pronto lá na frente. Os operadores estão lá só para abastecer, colocar cartucho, mas ele não tem que fazer. É toda computadorizada, toda informatizada. São equipamentos que nós já fomos comprando, o investimento já foi feito, já prevendo a fábrica nova. Nós já começamos a comprar antes de instalar para já mudar a cultura do pessoal. Nós estamos saindo das máquinas mecânicas, que são as antigas, para as máquinas eletrônicas. Então a pessoa tem que ter conhecimento de eletrônica. Você tem que preparar, treinar esse pessoal. Por isso nós montamos aquela pequena fábrica que a gente chama de "Piloto". O que era aquilo ali? Ali era para testar todo o material que ia ser usado na fábrica nova. Então, aí tem 1.500 metros quadrados. A fábrica nova tem 42.000 metros quadrados. Se você errar em 1.500 é uma coisa, agora, errar em 42.000 é muito. Então nós acertamos o piso, a parede, o teto, o sistema de ar condicionado... Começamos a usar aquilo como um protótipo para treinamento, para mudar a cultura, porque é uma coisa completamente diferente, é um conceito mais atual, mais moderno de fabricação, que é o GMP. Então foi adequando, foi testando, treinando o pessoal e aquilo passou a ser produzido, foi validado todo o processo. Muitos daqueles equipamentos já foram comprados previstos para a fábrica nova, que depois seriam transportados para lá. M

P - Agora está num momento de transição? O projeto é que no futuro todas as máquinas sejam automatizadas? Antonio Russo - Esse é o padrão moderno, atual e seguro. M

P - No começo, eram aquelas máquinas como Pica-Pau, depois vieram essas máquinas... Antonio Russo - A gente passou para essas embalagens manuais, que ainda existem. Temos também alguns equipamentos que não têm os mesmos controles que esses equipamentos novos têm. Por exemplo, elas são semi-automáticas. Elas montam o cartucho, mas alguém tem que pôr o blister lá dentro. Então, existe um trabalho semi-automático. Têm outras que já fazem tudo, mas não está em linha. Quer dizer, ela faz o blister numa máquina, ela tem que alimentar com a mão aquela coisa toda, tem todos os controles, mas você continua dependendo da pessoa. Essas modernas já fazem tudo sozinhas. Elas têm todos os controles. Se estiver faltando comprimido, ela separa e tira. E tudo isso aí ela vai anotando. Depois, você gera um relatório no final do dia que tem tudo. Você tem todos os controles, não depende de você ficar anotando o que aconteceu. É tudo feito com código de barra, é tudo rastreado. Então esse é o conceito moderno: dá qualidade e dá segurança. M

P - E essas semi-automáticas, elas foram adquiridas naquele momento de abertura das importações? Antonio Russo - São máquinas nacionais. Todas elas são nacionais. São as primeiras máquinas que tinha no momento para se comprar. Era o que tinha de mais moderno, eram linhas de blisters. Começamos a comprar essas máquinas. Hoje, uma das máquinas nacionais, a que foi a número um, está com a gente. Nós compramos a primeira máquina que a Bosch lançou, que era fabril. Nós compramos a de blisters. M

P - Eu lembro que você mencionou aquele fato da abertura de mercado para equipamentos importados. Antonio Russo - Quando veio essa abertura do mercado, eram essas máquinas mais modernas, que seriam já para a fábrica nova. Isso já foi comprado em 1995, 1996, porque essas máquinas demoram um ou dois anos para serem entregues. Não tem estoque, eles fazem sob encomenda. Uma linha dessa mede 30 metros de comprimento entre todo processo, até sair pronto. Então, é um processo contínuo. Hoje não, é um processo interrompido: faz um pouco aqui, tira, depois leva para lá, passa por muitas etapas. Isso é risco. Numa dessas, você pode correr risco. Então, hoje, como o processo entra aqui e sai ali, o processo é fechado, não tem como você misturar, é seguro. Essa é outra vantagem das máquinas mais modernas.

Responsabilidade Social
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P - A gente já vai terminando, eu só queria fazer uma pergunta em relação ao meio ambiente e à segurança do trabalho, você falou do certificado. Como isso foi crescendo dentro da rotina do Aché? Antonio Russo - O Aché sempre zelou pela qualidade, sempre manteve um padrão de qualidade. A gente olha o lado do benefício, o lado humano. Antes, a gente já vinha trabalhando forte em ergonomia. Depois, fizemos toda a ergonomia da empresa, era ginástica laboral. Mudamos os computadores para evitar aqueles problemas de doenças profissionais. Isso foi feito. Foi um curso feito na empresa toda, de forma geral. Todo mundo participou. A empresa tinha cumprido isso, então a próxima meta é o quê? "Vamos fazer o meio ambiente, a ISO 14001". Nós começamos a trabalhar em cima disso, contratamos uma consultoria que nos orientou o que tínhamos que fazer e sensibilizamos todos os funcionários, porque tem que ter uma participação grande, todo mundo tem que passar. Tem que ser integral e não somente em um setor. Essa foi a idéia de preservar o meio ambiente, de ser a primeira empresa a trabalhar em cima disso: a reciclagem de material... Toda aquela coisa que a gente já vinha fazendo passou a ser oficializada. Como nós já tínhamos muita coisa adiantada, quisemos certificar realmente, fomos buscar esse certificado. M

P - Que tipo de cuidados existiam? Antonio Russo - Por exemplo, a gente já procurava separar o vidro do papel, a barrica de fibra da barrica de lata, começava sair um lixo não reciclado, mas você separava e vendia aquilo... A madeira... Já tinha já uma coisa. Depois veio o programa 5 S, que trouxe mais organização... A lâmpada queimava, não se jogava fora e sim separava a lâmpada... Fomos buscando quem usava aquilo. Têm empresas que compram. Hoje nós começamos a reciclar os materiais, e não só vender, mas também doar, como por exemplo para a APAE. O benefício que a gente passou para a APAE... Ela pega alumínio e outras coisas que ela pode reciclar, que ela já tem como reciclar. A gente separa e doa para eles. Nós já tínhamos começado a separar o papel do plástico, do alumínio... Aquilo já existia dentro da empresa essa idéia de reciclagem, de separação, dos cuidados para não haver mistura. Depois quisemos dar um pulo a mais, que foi a ISO 14.001, que é de meio ambiente, uma coisa nova que poucas empresas têm. A ISO 9.000 já é uma coisa mais antiga. A ISO 14.001 já é uma coisa mais recente, de preservação do meio ambiente, essa coisa toda. Foi aí que surgiu a idéia de pegar mesmo e certificar. M

P - Precisou de uma capacitação, de um treinamento? Antonio Russo - Precisou. Nós ficamos quase um ano de trabalho em cima disso. Foi contratada uma empresa de consultoria que deu todo esse apoio para o pessoal, orientou como seria feita a capacitação, incluindo multiplicadores... É um trabalho que não é uma vez só, é contínuo. Todo ano você tem que se certificar outra vez. Se você furar aquelas normas, você não ganha o certificado. Não é um certificado nacional, ele é mundial. É uma organização na Inglaterra, que é mundial, que dá esse certificado.

Sonho para o Aché
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P - Depois de tantas conquistas, eu queria saber o que você sonha para o Aché. Antonio Russo - Primeiro é a conclusão da fábrica. A gente participou daquilo e acho que é uma coisa que tem que ser feita e vai precisar fazer. Tem que construir isso aí. E tem essa mudança, agora, essa transformação, essa profissionalização, que é uma coisa nova. A empresa está saindo de uma empresa familiar para uma empresa profissional. Isso é uma cultura nova, o pessoal está motivado com essa nova gestão que está aí. São novos companheiros que estão trazendo coisas novas. No Aché tem muitos funcionários que só conhecem o Aché. O primeiro emprego dele foi no Aché e acho que vai ser o último, se ele não se aposentar naquilo lá. Então, com essa nova oxigenação, espero que eles também tenham o mesmo critério, que não percam a cultura do Aché. Isso que é importante: não podemos perder a cultura porque o Aché cresceu e é um sucesso assim. Com essa cultura, com o aproveitamento da "Prata da Casa", buscando treinamento... Hoje é importante, e o pessoal realmente está buscando sua própria melhoria, está procurando fazer um curso de inglês, outros que não tinham faculdade voltaram a estudar... Tem casos de gente que já se formou. Eu acho que tem que se profissionalizar, mas não perder essa cultura que foi um grande sucesso para o Aché. M

P - Que cultura é essa? Antonio Russo - Aquela cultura familiar. O Aché, na realidade, é uma família. Você pode manter a área profissional e ter essa cultura familiar, de estar próximo do funcionário, de manter esses benefícios, de ter toda essa parte de lazer, essa coisa cultural, manter o treinamento forte, prestigiar realmente, proporcionar ao funcionário que ele cresça... Mas você tem que proporcionar alguma coisa, não depender só dele, que a empresa continue proporcionando isso para ele. Isso foi muito bom. O Aché cresceu realmente assim, com uma coisa mais aberta, aquela coisa de se aproximar, de ter abertura, da pessoa poder expor as idéias, de não ter aquela coisa fechada, um paredão, do cara saber que não pode ultrapassar aquilo. Acho que tem que ter limites e ao mesmo tempo não ter, sabe? Tem que ter uma coisa aberta e fazer com que o outro se sinta realmente à vontade, que ele tenha condição de expor a idéia dele, não ter medo. Tem que falar, manter essa coisa aberta. Eu acho que isso aí está muito claro e acho que é assim que vai continuar.

Dia-a-dia atual


P - Como é o seu dia a dia hoje?

R - Para mim, ainda não mudou nada. A maior parte da minha vida, as minhas horas do dia eu passo mais no Aché do que em casa, com a família. É uma dedicação que não só eu, mas todo acheano tem. O Aché é uma coisa contagiante. É uma coisa que a gente percebe até numa pessoa nova, com pouco tempo de casa. Ela se contagia. Vai se influenciando, se envolvendo e, quando viu, está só falando daquilo. É um negócio envolvente.

P - Além do Aché, o que senhor gosta de fazer? Antonio Russo - Nos finais de semana, tem que tentar desligar, tirar a pilha. Eu falei que eu gosto muito de jogar futebol, como lazer. Eu adoro fazer churrasco, tenho prazer em fazer. Quando eu faço, eu gosto que ninguém ponha a mão. Eu compro, preparo e sirvo. Para mim aquilo é um lazer. Ficar na beira de uma churrasqueira é a coisa que eu mais adoro. M

P - Atualmente o senhor está morando onde? Antonio Russo - Eu moro aqui no Viaduto das Bandeiras, no Sumaré. M

P - Na sua casa tem uma churrasqueira? Antonio Russo - Ah, tem. Todo lugar que eu estou tem uma. Quando não tem, eu levo uma portátil.

Sonho de vida
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P - E para a sua vida pessoal, qual é o seu sonho? Antonio Russo - Eu estou me preparando para uma aposentadoria que está próxima. Eu não pretendo parar. Talvez fazer uma consultoria, prestar um serviço, usar um pouco daquilo que eu aprendi nesses anos todos na indústria farmacêutica, apoiar meus filhos, sempre apoiá-los na vida profissional, estar sempre do lado deles... Esse é o meu ideal. Viajar... Pretendo viajar, gosto de viajar... Mas não pretendo ter uma semana de terça a quinta, não ter que marcar de segunda a segunda, aquele compromisso com horário... Não pretendo fazer isso aí. Mas pretendo, sim, continuar essa atividade, continuar no ramo. Quero passar para o jovem um pouco desse conhecimento que a gente adquiriu no decorrer de todos esses anos, essas experiências que a gente teve em toda a Europa, no Japão, Singapura, fazendo cursos sempre ligados à industria farmacêutica, visitando fábricas por esse mundo todo... Eu tive o prazer de conhecer todas as maiores fábricas do mundo da indústria farmacêutica: na Alemanha, na Espanha, na Itália, na França... Então eu acho que é uma coisa bacana. No Japão eu fiz um curso de aperfeiçoamento visitando várias indústrias com uma comitiva de executivos. Tivemos lá vinte e poucos dias trocando idéias juntos. Em Singapura a mesma coisa, na Coréia estive visitando fábricas. É uma experiência de vida que não tem como eu perder. Isso aí ninguém tira. Então, eu gostaria de passar para mais alguém, não ficar com isso só para mim.

Contar sua história
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P - O senhor acabou de deixar parte desse conhecimento registrado aqui, hoje. Eu queria saber, por último, o que achou dessa experiência de ter contado um pouco da sua história? Antonio Russo - Acho que foi uma oportunidade que eu nunca esperava ter. Eu acho que é bacana você mostrar aquilo que você tem, aquilo que você sabe. Às vezes está guardado só com você e nem a própria família tem essa visão, esse conhecimento. Às vezes conversamos sobre outros assuntos, sobre assuntos atuais: o filho que está na escola, a doença não sei de quem... Você acaba não se voltando para o passado. Não que a gente seja saudosista, mas é uma coisa gostosa de rever. Acho que foi muito bom para o meu ego. Estou mais leve agora. É gozado isso. É como se fosse um desabafo, como se eu pudesse mostrar um pouco daquilo que eu criei nessa minha vida profissional. Foi bacana. M

P - Muito obrigada pela participação, vai ficar registrado para a história. Obrigada.

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