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História de Vida

História de: Wilson Anselmo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/04/2003

Sinopse

Lembranças de infância. A vinda para o Rio de Janeiro. O carnaval na cidade do Rio de Janeiro e no Morro dos Parzeres. O trabalho como garagista em Laranjeiras. O centro espírita VoVó Maria Conga, no Morro dos Prazeres. OGAN do Centro Espírita Vovó Maria Conga, no Morro dos Prazeres: o trabalho e as festas. A família. O casarão.

História completa

Bom, o senhor poderia falar o seu nome completo? Wilson Ancelmo. O local e a data de seu nascimento? 20 do 05 de 1931. Certo, o senhor nasceu na cidade de...? Miracema. O senhor teve algum apelido? Não. O nome do seu pai e da sua mãe? José Ancelmo e Paulina Jacinto. A origem dos seus pais? São de Miracema também. O nome dos seus avós maternos , o senhor se lembra? Aí eu não me lembro, não... Conheceu os avós? Minha avó eu conheci, mas eu não me lembro mais não. Como é que ela era, lembra dela um pouquinho? Ah, era escura, era uma senhora parteira, entendeu? Trabalhava na Lucrécia, mas o resto do nome certo eu não sei. Mas vocês viviam juntos, a família, os avós, os pais? É. Aliás eu fui criado praticamente com a minha avó, porque a minha mãe quando faleceu me deixou gente pequena... A origem dos seus avós? Também eram de lá. Também é daqui? É O senhor tinha irmãos? Tinha dois irmãos e uma irmã. A sua família tinha alguma relação com a religião? Não. Só tinha uma tia que gostava de... freqüentava... Nessa cidade que o senhor nasceu, tinha algum festejo? O senhor lembra, quando o senhor era pequeno de freqüentar alguma festa? Tinha alguma festa católica na cidade ou outro tipo de festejo ou tradição? Não. Tinha a religião, né? Aquelas festas de religião, de... O senhor morava... Lá em Miraci o senhor se lembra do lugar onde morava? Eu morava no interior da cidade, interior de Miracema. Na parte rural? Numa fazenda. Numa fazenda? É, numa fazenda. Nascido e criado na fazenda, né? Como eram as casas da fazenda? Eram assim, mais ou menos, uma ali outra lá... Disfarç Disfarçadas. Na roça, né? Mas eram casas dentro de uma fazenda? Eram casas dentro de uma fazenda. E a fazenda tinha produção de quê, o senhor lembra? Tinha, a maior plantação lá era de arroz. Arroz, café, cana, entendeu? Essas coisas, milho, essas plantação assim. Mas a sua família então trabalhava nessas plantações? Era de meia com o... Trabalhava. Trabalhava de meia, nós tínhamos que fazer a plantação lá de meia. Lá todo mundo era assim, por cada um... O senhor pequeno também teve que trabalhar na roça? Eu trabalhei pouco, porque depois o meu patrão me trouxe para a cidade, porque eu ficava... tinha a casa dele na cidade, então .Ele vinha mais ficar na cidade do que o contrário... Alguma recordação do seu tempo de criança, das brincadeiras? Como é que era a vida de criança? Ah, nós gostávamos muito lá é de futebol que a gente tinha. (risos) Andar à cavalo, inclusive eu tenho esse problema aqui, não sei se o senhor notou que eu puxo da perna? O cavalo me caiu em cima da perna... O gado estava invadindo a roça lá e eu à cavalo, corre pra lá, corre pra cá, o cavalo escorregou e me caiu por cima dessa perna. Ontem até eu fui tirar com o meu médico o pedido para tirar um raio-x, porque eu estou com um problema nesta perna, né? __________ eu tirei um raio-x para ver.Não vou operar, eles querem operar mas eu não vou operar mais não que eu já estou com 70 anos, vou mexer nisso... Lembrança de infância, né? (risos) Eu agora assim eu estou andando, né? Sei lá se eu vou mexer aqui... já estou com 70 anos, _________não vou mexer mais. Agora, aqui não, porque é problema de má circulação do sangue que a doutora falou, então isso aí evita complicação. Wilson, o senhor poderia descrever alguns fatos do seu cotidiano, da sua vida lá em Miracema? Como que era a sua relação com as pessoas? Ah, eu sempre me dei bem com todo mundo, nunca fui de... Chegou a ter alguma educação religiosa? Lá a gente freqüentava a igreja católica, a minha mãe era católica. Aí o que é, sei lá, essas coisas da igreja. ____________ do santo, a minha avó gostava muito, era muito católica. Tem algum santo especial que era mais venerado nessa cidade, nessa igreja? Na cidade era Santo Antônio. E a minha tia tinha muita devoção por São Sebastião, no dia de São Sebastião ela faz. Como que é uma procissão particular? Quer dizer no interior, né? No interior, se ela mora numa casinha lá, se ela é devota de um santo, chega aquele dia santo pra festejar, convida todo mundo, aí reúne todo mundo ali e faz aquela homenagem, né? Faz assim uma procissãozinha e só rezando, não tem padre, só os... Os devotos, né? Os devotos. Lá tem aqueles tirador de reza, né? Porque no interior tem os tirador de reza, aqui... Aliás, aqui no centro mesmo nós tinha aqui, ela morreu agora há pouco, faz uns dois anos. A falecida Amélia, ela era de Santa Maria de Madalena. Ela saía daqui e ia tirar ladainha lá em Santa Maria de Madalena. Sabe que quando morrem as pessoas, lá no interior eles têm aqueles negócios de dar aquelas ladainhas, aquelas rezas, aquelas coisas então chama rezadeira. E essa senhora, dona Amélia, era rezadeira aqui também, do Morro dos Prazeres? Ela já, mas ela já veio mais, coisa... Aí ela inventou aqui e fez, começou a fazer parte do centro e, mas ela tirava muita ladainha aqui e naqueles dias era muito chamada lá pra Santa Maria de Madalena. Tinha aqueles dias, aquelas datas que ela tinha que estar lá pra rezar. Tirar ladainha? É, tirar ladainha. O senhor freqüentou a escola? Eu freqüentei pouco, porque eu estudei pouco lá no interior. Estudei pouco, tinha que trabalhar, fazer alguma coisa, sabe como que era, né? Não dava para a gente... Isto é, o senhor quando criança? É, quando criança. Teve que parar cedo então? É, parei cedo. Wilson, como que era a sua época de juventude? O senhor tinha... participava de grupos de juventude, tinha muitos amigos, como que era? Eu tinha muitos amigos, a gente... um camarada vem chegando . O senhor, como era então a sua relação na juventude? O senhor tinha tempo para ter amigos, conviver, como que era isso? ____________ dia de domingo, assim. O resto mais era trabalho. (risos) Mas o que os jovens faziam na sua época? O pessoal se encontrava, tinha baile, tinha festa, como que era? Ah, tinha. Eram aquelas festas de fim de semana, aqueles bailes, aquelas coisas, essas coisas. Dançar você dançava muito na sua época? Dançava. Dançava o quê? Aquelas músicas da roça, né? Música de roça? É, sanfona, violão, cavaquinho, aquelas coisas. Arrastava o pé, né? Eu arrastava o pé... (risos) Arrasta pé, né? Não é arrasta pé que falava? É, arrasta pé. (risos) Bom, quais eram os locais que o senhor mais freqüentava quando jovem? Como assim? O senhor só ia em baile, assim...? É só, só. Bom, como o senhor conheceu a sua esposa? Veio a conhecer aqui no Rio de Janeiro? É, vim a conhecer ela aqui em Laranjeiras. E casou logo depois? É. Conta um pouquinho como é que conheceu e qual é o nome dela, por favor, seu Wilson? Como eu conheci ela? Eu conheci ela, (riso) ela era solteira e ela morava lá numa casa em Laranjeiras, porque a mãe dela tinha uma pensão lá, eu fazia refeição lá e conheci ela e começamos a namorar. E nessa época o senhor morava onde? Lá em Laranjeiras, na casa ______ 5 de Laranjeiras, rua do rodo. Antigamente tinha um bonde que fazia um rodo ali na rua das Laranjeiras, chamava Laranjeiras, tinha uma (Águas Ferra?) que vinha até cá no Cosme Velho. E tinha o 2, o (Águas Ferra?) era o 3. Água cerra? (Águas ferra?). (Águas ferra?) É o bonde que tinha antigamente, porque antigamente tinha bonde aí pra todo lado, né? Inclusive, Santa Tereza só tinha bonde. Na época que eu vim aqui pra cima, só tinha bonde. Mas eram uns bondes que tinham aqueles horários certos, você podia olhar no relógio, “vou pegar o bonde a tal hora”, que aquilo não era falho, entendeu? Quando eu vim morar aqui em cima eu descia no bonde de duas e meia, tinha que pegar um bonde ali no, só na linha, duas e meia era o último bonde que eu descia pra... Eu ia em Laranjeiras fazer um biscate, pra depois eu voltar cá pra cidade pra pegar no emprego. E podia confiar no horário? Ah, era certo. Que bom uma cidade assim, né? É, mas não tinha ônibus, não tinha outra condição. Aqui em cima era o bonde, se você perdesse o bonde você tinha que ir à pé, ou descer por aqui ou por lá. Mas os bondes tinham aquele horário certinho, só aqui nessa linha tinha... Saia da igreja lá de Santo Antônio que é ali no Largo da Carioca, antigamente era o Morro de Santo Antônio aquilo ali; quer dizer, o bonde fazia o rodo perto de onde é o edifício central ali, fazia o rodo ali, mas aí vinha, tinha o Largo Guimarães que é lá embaixo, tinha a Ponte do França, Largo Guimarães, tinha bonde tipo dois limão, tinha bonde Lagoinha e tinha o Silvestre, era uma porção de bonde, entendeu, naqueles horários. Era ali que se chamava “Tabuleiro da baiana”? Era, Tabuleiro da baiana. Tinha realmente as baianas naquela época, o senhor lembra ou já não tinha? Não, não tinha. O pessoal que festejava ali, que era conhecido, né? O bonde parava, tinha uma parada ali coberta, então ali chamava Tabuleiro da baiana. O pessoal no carnaval, todos os lados aqui, principalmente aqui de Santa Tereza descia tudo, “Ah, vamos se encontrar lá embaixo no tabuleiro da baiana”, entendeu? Aí aquilo era um ponto de encontro, ali tinha aquele gramado na beira do morro, o pessoal se juntava todo por ali, se espalhava, por ali mesmo brincava, dançava, dormia ali mesmo e ninguém mexia com ninguém... Tinha aqueles sambas no tabuleiro da baiana, o pessoal que gostava, né? Aquele samba de roda, aquelas coisas, era muito bonito o carnaval ali no tabuleiro da baiana. Wilson, com quantos anos o senhor começou a trabalhar? Trabalhar eu comecei tão cedo... Acho que eu devia ter uns 10 anos, mais ou menos. Que eu comecei mesmo de carteira assinada já foi agora com... Qual foi o seu primeiro trabalho, quando o senhor tinha assim já 18 anos? Eu primeiro tomei conta de prédio, aqui em Laranjeiras que eu estou. Eu fui lá no Ministério do Trabalho para tirar a carteira, olha só o que a pessoa às vezes é honesta... Tinha vindo um rapaz de lá da minha terra, ele trabalhou com um senhor aqui em Laranjeiras, esse senhor que tomava conta de uns prédios ali em Laranjeiras e depois ele trabalhava, era funcionário do Ministério do Trabalho, aí ele ia lá para o Ministério. Esse rapaz, ele tinha que ter um empregado de confiança para ficar no lugar dele, cumprindo as tarefas dele quando ele estava lá no emprego dele no Ministério. Então, esse rapaz trabalhou com ele muito tempo, era muito honesto, muito trabalhador, aí depois ele voltou lá pra minha terra e eu sem saber de nada, a gente não se conhecia. Mas aí, quando eu dei entrada nos meus papel pra tirar a carteira de trabalho, passou na mão dele, ele aí me chamou e perguntou: “Ah, o senhor é lá de Miracema... e o senhor está trabalhando?”, eu digo: “não, eu estou querendo tirar a carteira...” “(...) trabalhar comigo não?”, aí me explicou. Aí eu falei: “Eu vou lá pra onde eu estou, na casa de um pessoal lá em (Inhaúma?) e eu vou lá e vou falar com o rapaz...”, e ele me deu o endereço lá de onde era a casa dele, a minha carteira e tal. No outro dia eu fui lá, comecei a (desenfurar?) (risos), procurar ele, aí fiquei lá trabalhando porque lá tinha casa e comida, né? Então eu fiquei trabalhando com ele lá, trabalhei muitos anos lá com ele, ele me tratava... Ele vinha aqui _________ no morro e falava que eu era filho dele, e gostava muito do... sempre fui trabalhador e ele era honesto, trabalhei com ele também muito tempo. Depois eu arrumei família e aí fui sair porque tinha que ter uma carteira assinada, porque lá não tinha carteira assinada, não tinha vida, né? Mas a sua vinda para o Rio de Janeiro foi para trabalhar? É, eu vim pra trabalhar, procurar uma melhora, né? E lá nos prédios mesmo, ele tinha um cunhado dele que o quarto dele era junto com o meu, ele tinha um carro de praça também e o rapaz era motorista, a gente conversando, ele já foi me dando umas instrução, de vez em quando pegava o carro ali dentro mesmo da garagem e ele me ensinando, eu fui me treinando, fui treinando... depois tirei a carteira e fui seguir a minha vida ali no trânsito. (...) logo depois que o senhor conseguiu trabalhar, como é que foi esse começo do senhor como motorista? O começo foi o seguinte, eu tinha também em Laranjeiras, porque eu sempre gostei desde o interior eu gostava de trabalhar com carro, eu tinha assim uma (percussão?) por caminhão, né? Achava muito bonito motorista de caminhão, então eu lá em Laranjeiras mesmo tinha um outro rapaz lá também que trabalhava de gari, motorista de gari. Aí, de vez em quando, ele ia vazar lá no Caju, me levava e eu ia com ele, ele ia me ensinando, me mostrando como é que era, né? Encontra de vez em quando, aí lá dentro mesmo ele me dava para eu pegar um bocadinho, dar uma voltinha por ali e foi ________. Aí, quando eu fui ver esse emprego de motorista de caminhão, aliás no mesmo prédio que eu passei a ser garagista, eu fui garagista lá depois que começou, com a (JM Melo?) aqui na Riachuelo, o seu Juca eu falei com ele, aí ele mandou eu ir lá fazer um teste. Eu fui lá, passei e fiquei trabalhando com ele na... Mas como é que foi para o senhor a chegada no Rio de Janeiro? Qual foi a sua primeira impressão da cidade? Da cidade, a gente quando chega assim lá do... tem assim aquela impressão da cidade grande que eu pensava, porque o Rio de Janeiro eu pensei que era uma baixada onde tinha morro, né? (risos) É, eu pensava que o Rio de Janeiro era assim, um lugar que sumia de vista. O pessoal falava: “você vai se perder no Rio de Janeiro...”, não sei o quê, mas eu falei: “vou tentar”. Aí eu já estava rapazinho, falei: “ah, vou tentar”. E tinha um rapaz, dois rapazes que até um é meu compadre, um até poucos tempos morava aqui, eles tinham vindo aqui servir o exército, aí chegou lá falando e coisa, aí me animou mais... Eu tinha uma madrinha, minha madrinha morava aqui em (Inhaúma?), aí eu escrevi pra ela, falei o endereço, falei que estava querendo vir o Rio e aí... (CORTE) Ah, eu vim com o pessoal do exército, porque eu saí da minha terra com o pessoal do exército, a gente foi pra Campos, de Campos viemos pra cá, mas é (CORTE) ia voltar pra roça, aí um dia a gente vinha descendo lá de Deodoro, eu falando com uns rapazes assim e falei: “ah, porque eu queria saber se tinha...” uma coisa assim, e eles me falaram: “você salta aqui em Engenho de Dentro e (Inhaúma?) é pra lá, tem um bondinho...” e tal. Me ensinou, aí eu fui chegar certinho, _______ e cheguei lá na casa da minha madrinha. Pra você ver as coisas, a minha madrinha já não estava morando lá nessa casa, ela deixou um sobrinho dela que morava nessa casa e ela estava morando lá no Lins. Aí eu cheguei lá, ela falou assim: “ué? .... (CORTE) “o senhor o que é dela?”, eu digo: “sou afilhado, afilhado dela”, “ah, entra”, e começou a conversar; “o senhor é filho de quem?”, eu falei sou filho de fulano, sicrano, assim, assim. O meu pai e minha mãe foram colegas dele lá de bar e coisa, ele não ia saber que um dia ia bater um... (risos) Não sabia nem que eles tinham se casado nem nada, _________essas coisas, aí chega eu na casa dele, “você é filho de fulano....”. ... meu deus, filho, já tem filho tão grande É, “poxa, veja só, a gente foi lá no interior, nem sabia que eles iam namorar...”. Aí, “tudo bem, fica aí”, fiquei lá e no outro dia foi um filho da minha madrinha, por coincidência que foi lá, ele me conhecia bem, né? Esse outro daqui eu não conhecia porque ele veio para o Rio primeiro, esse outro eu já conhecia. Aí, foi domingo eu fui lá na casa da minha madrinha, ele me levou lá no Lins, aí voltei e falei: “ah, vou ficar de uma vez.” Aí fiquei, fui dispensado pelo exército... ... no Rio até hoje. Até hoje, graças a deus. Não quer saber de Minas mais, não é não? Não, não quero saber. Quando o senhor trabalhava a renda era suficiente assim para o senhor viver? Ah... você diz de quê? No Lins. No Lins. Ah, lá pra . (...) mas na sua família aí o senhor já não tinha mais contato, né? Não, aí eu já não tinha mais contato. Qual foi a data da sua chegada no Morro aqui, dos Prazeres? A data certa... Ano o senhor se lembra, mais ou menos? Deve ter sido 56 ou 57, mais ou menos. O senhor já veio com a sua esposa? É, já vim com ela para aqui. Por quê é que vocês escolheram o Morro dos Prazeres pra viver? Foi o seguinte, é conforme o que eu estou falando, esse rapaz que eu falei que é meu compadre ele, depois que eles ficaram lá na minha terra e depois me escreveram que queriam vir para o Rio, uma rapaziada... Aí eu lá em Laranjeiras arrumei um conhecimento com pessoas que moravam aqui, depois naquele conhecimento, aí eu também depois arrumei família e não quis ficar morando, porque lá embaixo a gente morava em casa de um cômodo, né? Uma cozinha só, um banheiro, eu achava aquilo horrível. Um barraquinho aqui eu achava melhor, era só eu e a minha patroa, então eu vim para aqui. Na época que eu vim, do armazém pra cima só tinha um trilho, não tinha aquela... entendeu? Carro só vinha aqui no armazém. Dali pra cima... o casarão aí, a entrada dele era por lá que por aqui era fechado. E aqui onde é quadra, tinha um senhor que tomava conta desse casarão. Isso era tudo mata fechada, só tinha aquele trilho que a gente viu, aqui tinha uma... onde é a casa aí, era uma árvore grande que tinha ali e tinha um senhor que tinha um barraco ali que tomava conta disso aí. Depois, veio o (Serge?) que começou a tirar sal de lá em Laranjeiras, tirou sal de lá, depois veio aqui pra boca do túnel, tirou por ali e veio parar aqui, aí desmatou tudo isso aqui, então ele fez uma subida por dentro do mato e arrancou as árvores, ali aonde tem esse caminho ele... então teve que os caminhão descer _______ nesse barranco que eles tudo aí tirou o sal. Depois, quando ele terminou de tirar o sal, aí já vinha carro aqui em cima, mas eles esburacou tudo e eu trabalhava no caminhão, tirava muito entulho, fui aterrando, aterrando, fazia ali tudo, ia aterrando ali a subida. Aí depois, numa época de eleição o pessoal arrumou e deram um asfaltozinho e fez esse caminho aqui. (...) Só tinha uma bicazinha ali embaixo, então a gente apanhava, eu apanhei muita água, a minha patroa carregava de dia lá do (Assunção?), aquele colégio (Assunção?) onde as freiras davam, ou senão ia lá na... (Xinxão?) ...é, pra apanhar a água. De domingo eu e mais uns colegas a gente, fizemos assim um rola rola, a gente ia lá no final desse ônibus, onde esse ônibus para, lá no Silvestre. Porque aqui nas (Cabocas?) tinha uma bica ali, mas aí ficava cheio de mulher, todo mundo lavando roupa ali... A gente ia lá no final, com aquele rola rola, um barril, vinha rolando ele cheio d’água, do armazém pra cima a gente botava na lata e fazia... uma lata do lado _______e subia aquilo tudo ali pra trazer aqui. O pessoal tinha nos barracos, todo mundo tinha um latão, porque aonde chovia nego aproveitava água da chuva, né? O pessoal aproveitava água da chuva pra banheiro, essas coisas, às vezes lavava roupa. Porque água mesmo aqui era difícil mesmo, aí embaixo tinha uma biquinha ali, mas tinha esse pessoal daí de baixo não deixava, não dava para o pessoal daqui apanhar água. Embaixo que o senhor diz é aonde? Aqui na mina aqui, no começo desse viaduto, ali tinha uma bica d’água. Agora aqui não tem mais. Ali, o pessoal mais o pessoal de baixo, todo mundo chegava e ali era lata pra todo lado, então o pessoal daqui de cima tinha que... Quando a gente melhorou um pouquinho de água aqui, foi quando as costureiras começaram a construir aquele prédiozinho que tem ali perto da cabine lá fora, aí foi que esse pessoal da obra começou a dar água para o pessoal aqui e foi que melhorou para a gente. E aqui também depois que abriu aqui de carro foi que melhorou, mas o contrário era muito difícil mesmo. Mas quando o senhor chegou aqui, o senhor tem uma noção de quantas famílias viviam aqui no Morro dos Prazeres? Vocês já chamavam esse lugar de Morro dos Prazeres? Já, já. Mas tinham poucos moradores aí, agora a maior parte já morreu, os mais antigos já morreu. Eram os primeiros. Eu não sou dos primeiros, eu já cheguei depois, mas aqui tem gente aí que sabe quantos tinham, mas tinha pouco barraco aqui. Era tudo aqueles barracos de madeira velha, de zinco, agora não, agora isso aqui está uma cidade. Isso aqui mesmo, o dono disso aqui ele tinha o barraquinho dele, era até ali, ele mesmo contava pra gente, o falecido (Rolo?), né? Quando chovia, eles tinham que... as crianças ficar debaixo da mesa e forrar com plástico em cima, por aqui chovia tudo. Fé com deus ajudou que pegou aí com (Maria Cândida?) e ele conseguiu fazer isso aqui, por isso que ele deu aqui embaixo. Antes era uma residência? Era uma residência. Aí depois ele fez aqui, fez embaixo... Que ele rezava, rezava para (Maria Cândida?), ela reza cá de rezar a criança, então quase ninguém tinha uma casinha dentro daqui. Tinha um outro cunhado dela que morava ali em cima, e que cedia a segunda-feira para ela rezar a criança, só para rezar, não tinha..._______ senhor também faleceu, né? Na época já existia algum centro aqui nos Prazeres? Não. Ah, tinha lá pra baixo, mas aqui nesse meio não tinha não. Aqui pra baixo eu ainda peguei uns três ou quatro, eu acho que ainda tem mais ainda um ou dois aí pra baixo... Como que era a sua vizinhança? Tinham várias famílias de Minas Gerais aqui? É, aqui tinha. Aqui embaixo, então tinham muitas pessoas de Minas aqui embaixo. Porque o pessoal daqui ia se dividindo, o pessoal vinha de Minas, inclusive a gente dizia: “embaixo é a embaixada de Minas e aqui em cima a dos Paraíbas.” (risos) É, aqui embaixo, é sinhá, aqui embaixo tinha dois senhor muito famoso que eles trazia muito, trouxe muito, ajudou muita gente de Minas. Chamavam seu Zé Mineiro e seu Pedro Ribeiro, o seu Pedro Ribeiro pareceu que morreu agora semana passada, e o seu Zé Mineiro já morreu há bastante tempo, tem uns quatro anos mais ou menos. Então, eles traziam muito, vinha muita gente de Minas, eles ajudavam muito, então o pessoal... Aí pra baixo morava muito é mineiro, aqui pra baixo... Baixo que o senhor diz é o que a gente chama de escondidinho? É, o escondidinho que eles falam dali pra baixo. O pessoal nunca, aqui antigamente tinha essa divisão que eles dizem e aqui pra cima tinham os paraíbas, o pessoal do norte, que lá em cima eles chamam o Morro dos paraíbas, eu não sei se a senhora sabe... A hora que eles chegavam, olhava pra minha cara e dizia: “eu queria arrumar um barraco” __________________________ mineiro que vinha ficar aqui de bobeira, era brincadeira, era deboche. (risos) É, então era assim, aí todo mundo fugia de _____. Mas não havia nenhum tipo de desentendimento? Não, não. A senhora sabe, os mineiros eles tem aquelas convivências deles, cada um tem suas convivências, né? Então, se achava melhor lá no meio deles. Esse seu Zé Mineiro era muito, era um cara 100% o seu Zé Mineiro. Se ele pudesse ajudar a pessoa, ele não (agradava?) não, era um cara 100%. Acho que ele ajudou muita gente aí. Quer falar assim sobre a... Tratando da questão do centro, como que era a relação com a comunidade? Era uma relação dinâmica? Existia, porque os centros dentro das comunidades têm uma outra importância, então como é que seria a participação da comunidade dentro do centro? Não, o senhor sabe que religião sempre há aquela divisão, né? Têm aquelas pessoas que alegam é... contra, e antigamente, na época mesmo essa religião era muito criticada, a religião espírita. Aí, quer dizer... aqui, por exemplo, nunca teve essa retaliação não. Internamente, né? Não, internamente não. Aí, não sei, essas coisas. O centro ele desenvolvia em função de caridade, não é? De caridade, o importante é a caridade, isso aqui não se cobra nada, até hoje não se cobra um tostão de ninguém. Aqui ________ vem aí, aqui já entrou, graças a deus, já entrou gente aqui carregado e saiu com a força aí do orixá... Eu mesmo, eu vim pra umbanda porque o meu negócio era farra, o meu negócio era promover excursão, baile, passear e tal. Aí depois, eu trabalhando na minha profissão de motorista e essa minha comadre que já estava ________de frente à minha porta, numa casa de frente. E a minha patroa tinha o dom espiritual, aí quando elas começavam a rezar lá (risos), a minha patroa pulava da cama e saia, batia lá na porta... E eu naquela época eu não gostava, eu não freqüentava, você está entendendo? O meu negócio era baile, o meu negócio era outro, então aí ela ia pra lá e tal e coisa, foi indo, foi indo, aí que deu pra fazer isso aqui, então se reunimos, todo mundo, o meu compadre, a senhora dele também gostava, aí todo mundo começou a ajudar para dar uma forçazinha aí. No final, hoje em dia, ela saiu, está na igreja de frente e eu fiquei aqui dentro. Eu aí trabalhando, isso aqui meu inchou, me deu uma dor aqui, eu não podia nem movimentar, passei mais de uma semana sem poder dormir. Botava numa mesa, botava numa cadeira minha compadre, minha comadre, minha senhora, aí me pegava para me sentar e eu botava assim o travesseiro em cima da mesa, eu passei uma semana assim fazendo exames, eletrocardiograma, e faz exame especialista de coração e isso inchado, não podia nem tocar aqui, então tinha que tirar minha roupa, me dar banho, me vestir, e eu gritava de dor, não conseguia deitar numa cama. Aí, um dia a minha comadre me falou que tinha um centro espírita aqui na __________, por sinal que chamavam Pedra Preta, lá naquela curva, aí num sábado ela cismou de me levar lá e saíram me arrastando, o meu compadre, eu gritando de dor, e segura de um lado e vai. Quando eu cheguei lá na porta, aí o seu Pedra Preta que era o chefe lá, o caboclo chefe, estava ele e mais um caboclo tupinambá.... Então dando continuidade, por favor, seu Wilson... Conforme eu ia dizendo então, quando eu cheguei lá na porta o caboclo disse: “vem um filho aí passando mal”, aí me acolheram lá, eu nunca tinha entrado num centro espírita, aí estou lá... (risos) cheio de dor, aí rezaram lá, para o senhor ver só, ele me falou que eram os meus dias, que estava chegando a hora de eu prestar a caridade e o problema era esse. Ele mandou a minha comadre procurar melão São Caetano e abaixar ele com um pouquinho de água pra ele suar, depois tirar do fogo e enquanto estivesse quente botasse álcool e dar uma (asfixão?). Eu cheguei cheio de sono, cansado, aí sentei lá conforme estava acostumado, sentei na cadeira e estou eu ali, passaram aquilo em mim, aí me deu vontade de deitar e eu falei: “ah, estou querendo deitar...” Aí juntaram lá, uns pegam pelas pernas outros por aqui, eu gritando e me deitaram na cama, eu dormi, e quando foi de tarde eu esqueci até de tal e coisa, eu mesmo levantei, depois fui num médico depois na semana... Poxa, quer dizer, sumiu até hoje. Comecei a freqüentar aqui, deputado construindo aqui e tal, depois vai abrir o terreiro aqui... A maior parte das pessoas que freqüentavam aqui eram as pessoas da comunidade dos Prazeres? Eram da comunidade, era a comunidade. Aqui enchia, isso aqui tinha muita (neve?), muito (neve?). Aquele centro Maria Cândida não fica... (risos) Dois, três? É, o centro Maria Cândida, em todo lugar que a senhora for é isso. O centro Maria Cândida não tem número certinho, não tem não, ela vai escolhendo a dedo... (risos) Eu sei que fica pouco, né? Mas aqui era bem freqüentado, pessoal muito animado. Isso aí eu conheci na Federação, nessa Federação que o seu João, que era dono de um bar. Então eu conheci lá, nós filiamos lá nessa Federação, aí conheci o seu João, o seu João gostava de correr terreiro, de vez em quando ele vinha aqui, depois ele formou uma caravana pra correr terreiro, e eu fazia parte, de homem era eu e ele. Ele não tinha um bar, ele diz que era (algum da lua?), ele não tinha um ______. (risos) Se a senhora ver como aquele cara dançava no santo, no santo, não é madrinha? (Voz in off: “Eu conhecia.”) Ela conheceu ele, o seu João. Ele diz que era dono da lua, ele não tinha o bar, não. Ah, meu deus, aí a gente saia pra correr dele. Tinha umas cinco médias do centro que era filiado lá, ele veio fazer aqui, corria, trazendo umas média mais coisa, aí convidava para sair com a gente, onde eles estavam a gente corria terreiro por aí. O terreiro que eu fui com ele, mas depois eu tentei ir lá sozinho e não consegui, na vila da Penha, do tenente Ari, não sei se você já ouviu falar. Esse tenente era do corpo de bombeiros, eu cheguei no centro dele, aí o tenente Ari... eu nunca tinha ido lá, aí ele (CORTE) uma vela de Santo Antonio e mandou a gente dizer os trabalhos. (risos) Esse centro dele é tipo um Maracanã, com arquibancada, entendeu? Um centro mais gozado mesmo aquele centro, eu nunca mais, é do... No terreiro dele tem na entrada, passou o muro pra dentro tem um cemitério com todas as catacumbas assim, um troço fora de série. Agora, Wilson, como que era a relação da identidade com a comunidade? Porque, principalmente na linha de vovó, são algumas vovós que fazem caridade e remédio, como que era essa relação no dia a dia? Era a relação de acordo com o que se precisava, aí elas receitavam essas receitas delas mesmo que faz, de descarrego, essas coisas. Dentro da linha de preto velho tinha a linha de exu, ou não? Tinha. A gente abre com os ________, entendeu? Seu Wilson, como que era assim, era respeitado dentro da comunidade e fora da comunidade? Ou o centro tinha algum problema dentro da comunidade ou fora, em relação às atividades? Não, nunca teve. Ontem nós fomos num centro, fomos registrados em cartório na federação. Agora que eu parei de pagar a federação, porque há mais de 30 anos que a gente paga a federação e nunca vieram aqui saber se a gente precisava de alguma coisa. Agora tem uma outra aqui, porque nós todos os anos sempre gostamos de fazer um praia, ____________, porque praia... Eu vou a um centro que tem pouco homem e invade, o pessoal, eu me aborreci uma vez ali na praia do Flamengo, então a gente parou de ir na praia, mas a cachoeira na mata a gente faz todos os anos. Alguma festa aqui do terreiro muito comemorada? Tem alguma festividade aqui. Aqui, a mais comemorada aqui é a criança. Domingo dá doce, dá roupa, dá uns brinquedos que elas gostam de dar, então a mais comemorada aqui é a de criança. A gente faz a festa pra todo mundo, mas a que chama mais atenção é a de criança, porque a gente sempre quando faz, faz sempre num domingo à tarde, a essa hora fica isso aqui de criança por aí. Todo fim de ano a gente gosta de ir na cachoeira, a gente fazia coroa grande, fizemos muitos anos coroa grande, agora coroa grande foi interditada porque aproveitaram aquela água lá, então nós estamos fazendo agora rainha da serra. Mas agora já faleceu a senhora que tomava conta daquilo lá, ela faleceu e agora tem uns caras lá que diz que é da federação, uma federação lá de Magé, tem um cara tomando conta lá. Ele quer obrigar a gente a se filiar a ela e eu não estou querendo mais ser filiado da federação, porque eu acho o seguinte, se você é filiado a alguma coisa você tem que ter alguma coisa em troco. Por exemplo, ele cobra, ele toma conta lá daquele local. Então, para abrir em conta ele diz que vai construir, eu estou para ir lá, para ver se ele está construindo, não tem um banheiro, não tem nada. Essa senhora tinha a casa dela, tinha banheiro, tinha um salão muito grande lá, porque se chovesse a gente vinha pra cá, e banheiro lá para as senhoras, separado para os homens. Mas ele agora lá não tem nada disso, ele só acha que tem que fazer pro meio do mato. Ele está cobrando mensalidade e quando a gente for lá, por exemplo, neste ano nós pagamos $ 45,00, para o ano eu não sei quanto já está... e pagar uma mensalidade todo mês de 20 reais. Eu acho que se a gente pagasse essa mensalidade de 20 reais, quando a gente fosse lá ao menos teria que ter acesso livre, você não acha de acordo isso? Porque se a gente for alugar um ônibus, a gente aluga um ônibus de turismo, o ônibus chega aqui e fica das 4:00 da manhã, a gente pede sempre da fábrica: “faz aí no máximo 5 horas.” Fica à disposição da gente até o outro dia à noite, mas o cara cobra uma nota, não é um ônibus vagabundo, é um ônibus de turismo, um ônibus bom. Agora, a gente faz esse sacrifício todo, chega lá e ainda tem que pagar esse dinheiro Fomos esse ano no... nós não pudemos ir no dia que chovia muito, aí marcamos para o outro domingo na frente e ele cobrou mais 15 reais Poxa, quer dizer que eu achei que ele não, é uma falta de consideração, né? Aí ele... agora só vai entrar lá quem for sócio, a gente como não estava sócio porque ele deu um prazo para a gente até março, março já passou e eu não fui lá. Não, março, esse papel aí... Mas eu não fui lá e nem vou, que eu não vou pagar 20 reais por mês e quando chegara lá no fim do ano que a gente for lá em janeiro, você vai pagar lá 50, 60 reais por cada terreiro que a gente vai ter. Espera um pouquinho, você estava falando das rezadeiras aqui no Morro dos Prazeres, ainda existem rezadeiras? Existem, eu acho que ainda existem. Porque aqui há bem pouco, uma vizinha minha que também que rezava muito bem ela faleceu, tinha falecido também a Amélia que eu falei para a senhora que era daqui do terreiro, ela rezava muito bem, saía daqui ia para Santa Maria de Madalena que ela era de lá. Mas hoje, o senhor acha que (os tenho?) ainda, pessoas que... aqui? Eu não conheço mais não. Só se tem aí pra baixo ou lá pra cima, que reza assim. Mas agora, a não ser os _________ (riso), que reza às vezes (espinhela caíra?), essas coisas. Seu Wilson, qual era, o senhor sente diferença em relação ao espiritismo, em relação à vida no centro antigamente com a vida que tem hoje? Em relação às filhas de santo, se muita coisa mudou ou continua mais ou menos igual? Eu acho que não mudou não, continua igual, não sinto muita diferença. E o envolvimento da comunidade com essa atividade espiritual, diminuiu muito? Diminuiu como, a senhora está dizendo? Porque antigamente tinha um maior número de pessoas que freqüentavam. É de cada religião, a religião agora dividiu muito, né? A senhora vê que, antigamente todo católico é espírita, pelo menos eu penso assim, acho que todo católico é espírita. Não tem nada a ver com o espiritismo. Agora não, agora inventaram uma porção de religião aí e então... Aqui mesmo do terreiro, um bocado de média daqui saiu, inclusive minha patroa. O meu filho mais velho, ele estuda para pastor, toma conta . A minha filha mais velha também conta de uma outra igreja, perto de onde a gente morava _________. As outras filhas também freqüenta, tenho outro filho que também freqüenta, tem um outro que mora em Caxias, ele é da Universal, ele freqüenta a igreja. Tem outra Assembléia de Deus aqui embaixo e quer dizer muita gente, daqui mesmo teve muita gente que saiu. Quando chega na católica, a maioria deles não vem aqui, então quer dizer que dividiu muito o pessoal, né? Além das atividades do centro existiam, por exemplo, festejos como festa de folia de reis, antigamente? Ah, folia de reis é... Aqui mesmo, tinha um senhor aqui embaixo que ele morreu agora há poucos tempos, (Rochim?), ele todo ano saia com folia de reis e tinha que vir aqui, porque era... Parente do senhor? Não, era o pessoal que gostava mesmo e tinha ali uma senhora que era irmã da babá aqui, que eu falei que morava aqui em cima, todo ano eles tinham que vir na casa dela, vinha aqui na casa do Reginaldo também, que eram os pais do Reginaldo, que era a minha comadre, ela freqüentava aqui, mas o esposo dela também gostava de folia de reis... Então, essas casas eram casas que todo ano, ele era daqui de baixo, mas tinha aquele dia que eles tinham que vir passar aqui, entendeu? E além da folia, tinha uma outra prática assim popular de...? Ah, tinha, tinha... Até hoje ainda tem, tem essa de, de São João, como é? De quadrilha, essas coisas. Folia, essas coisas eu também já fiz. Quadrilha eu nunca fui muito amarrado não, mas já fiz essas coisas. (risos) Mas até hoje ainda tem, ainda tem. Hoje é muito diferente das nossas de antigamente, hoje em dia eles querem fazer uma quadrilha igual a uma escola de samba. (risos) Gozado é aquelas roupas da tradição, toda remendada, aquelas coisas. Essa senhora aí ela gostava de se vestir de homem, daquelas roupas toda coisa. Quem é essa senhora? Já faleceu, a falecida Lurdes, ela gostava. Nesses dias de quadrilha, ela gostava de marcar quadrilha, era muito bonito, era muito animado. Tinha algum tipo assim, por exemplo, de comida que vocês faziam nessa época? Que as mulheres faziam algum tipo de comida mais tradicional na época, algum doce, alguma coisa? Pra quê? Para a festa de São João, por exemplo, ou para a folia, nesses momentos de festividades? Ah, eles fazem aqueles negócios de canjica, quentão, essas coisas. Aqui para o centro tinha alguma festa que você fazia alguma comida, algum doce, alguma coisa para...? Não, aqui não. Até que de vez em quando eles fazem aí a comida... Como que era, passando um pouco para essa questão da vizinhança, como que eram os locais de convívio dentro da comunidade? Locais onde as pessoas se encontravam, conversavam, existiam? Como que era isso? Aqui existia sempre umas casas assim que tinham mais, conforme essa casa aqui que eu estou falando da dona Lurdes, tinha aqui também onde é a do Reginaldo, que são as pessoas de muita, na comunidade que gostava precisar essas coisas de festa. Então, de vez em quando, fazia uma brincadeira. Porque aqui mesmo, antes da década de 60, quando eu cheguei para aqui, isso aqui era... queria que todo sábado, você vai fazer uma brincadeira para o pessoal aí? E muita gente arrumou casamento aqui. (risos) É, muita gente arrumou casamento aqui, porque não ia lá para baixo, aí dia de sábado fazia daquelas brincadeiras aí, tinha um pessoal para tocar, tinha uma rapaziada boa. Às vezes, no carnaval mesmo, eles dizem que muitos ficavam por aqui. Ali também, essa senhora ali, porque o meu compadre tinha um forno daqueles fornos antigos, fazia aqueles assados para o pessoal e o pessoal gostava, então tinha aqueles que traziam, que faziam aquelas coisas para o pessoal. Vivia muito bem a comunidade aqui em cima, ________, graças a deus. Na época do carnaval tinha um bloco, não era aqui? O senhor lembra disso? Tinha, aqui teve um bloco sim, era o... Mas eu não fiz parte desse bloco, eu só fiz parte quando eu era solteiro, na Mangueira, que tinham os canários e tinham os periquitos, eu fazia parte dos periquitos. Então, do bloco mesmo eu não fazia parte. Como que era, havia uma chegada constante de moradores na comunidade ou o número de habitantes era...? Não, olha, não tinha muito número não, isso aqui foi crescendo aos poucos, foi desenvolvendo aos poucos e hoje em dia isso aí está... entendeu? Foi assim aos poucos, gradativamente, que o pessoal nem sentia. As lembranças sobre o bairro de Santa Tereza, o senhor já colocou algumas? Santa Tereza, eu não sei agora, eu não sei, mas era um bairro tradicional que tinha toda religião, até há poucos tempos tinha toda religião. Com relação ao casarão, quais são suas memórias desse casarão? Lembra de quando o senhor veio para cá, quem vivia ali, era particular, o senhor lembra? Era particular. Inclusive, como eu falei, tinha um moço que tomava conta ali, que ele disse que tinha que sair porque era de um general, não sei o quê, que ninguém podia... Depois ele passou para morar lá, depois... Aqui, quando eu vim para aqui, a missa era debaixo daquele prédio à luz de lume, a missa era ali. Depois passou aqui para o casarão, a gente fazia parte de uma igreja. Debaixo do prédio ali, depois de lá passou aqui para o casarão. O senhor lembra de ir à missa ali no casarão? Ia muito. Conta um pouco para a gente, como que era? Era ali no térreo? Era ali no térreo, primeiro andar. Inclusive eu fui testemunha de casamento, tudo ali. Com o padre Pedro e a mãe do Reginaldo, que era muito católica também, vinha. Mais do que isso não tinha, na época que eu vim para cá não tinha igreja nenhuma aqui, nem crente, nem nada, depois é que surgiu essa igreja que tem do aterro, depois eles começaram a orar por aí, ele entrou para a igreja, se perdeu aquilo ali para fazer igreja. Pedro (Lateiro?) era o nome dele? O nome mesmo é _______, chamado Pedro (Lateiro?). Essas missas no casarão eram aos domingos? Era domingo. E durante a semana o casarão ficava desocupado? Ficava. Depois passaram a morar um pessoal lá, mas não tinha atividade nenhuma, só domingo tinha essas festas de comunhão. Ah, tinha assim primeira comunhão? Primeira comunhão. Meus filhos mesmo, fizeram primeira comunhão lá. No casarão? É. Tinha uma moça que morava aqui embaixo, ela _________ preparar a criança para a primeira comunhão. E tinha as aulas de catecismo aqui? É. E fazia a comemoração, festejo, no casarão? No casarão. Você consegue descrever para a gente um pouquinho como é que era essa, ali, quer dizer, era no andar térreo, tinha bancos, eram...? Tinham, tinham. Aí depois o senhor o quê? Ficou morando um pessoal lá, aquilo foi ficando jogado porque chegaram à conclusão que antigamente aqui todo mundo tinha dono. A parte para lá tinha um cara que explorava, aí ele veio aqui, o terreno para lá era do seu fulano, então quando botamos água aqui nesse morro e quem botou essa água aqui foi o ________, a gente não tinha água. _____________ esforçar, morava ali lá atrás e dona Maria Lúcia, que morava lá em Itatiba também, os dois se empenhou aqui, nos favelados aqui, e esse moço que era daqui também se mirou muito no pai dele, o falecido (Russo?), dava muito _______ , numa tubulação para botar água aí. O pessoal trabalhava muito bem em obra, arranjou mais uns antigos aí que trabalhavam em obra, fizeram as casas, a Maria Lúcia e o pessoal. Não tinha, para formar uma sede aí foi uma luta, a gente conseguiu e aí arrumamos aqui na descida aqui um _________ ali para ser uma sede, formamos uma diretoria para arrumar associados para botar água e pagar. Porque daí conseguiu a tubulação, mas a bomba era ali embaixo, a energia a gente tinha que pagar até o fim do mês, tinha que pagar conta, então nunca a gente... Porque fazer ela é, para a pessoa fazer as coisas é muito duro, isso era tudo vala negra. Isso tudo aqui foi feito aqui, isso o que a senhora está vendo hoje aqui, aqui embaixo era tudo aquele capim brabo, isso a gente teve aqui, isso não tem um tostão de ninguém, foi só os moradores que moravam nesse ________ aqui, foi que a gente reunia, juntava um dinheiro grosso aqui, a gente vivia de obra, juntava, comprava material, vinha aí dia de domingo, a gente ________ estava trabalhando, estava fazendo. Nesse meio aqui, a favela mais bem organizada foi essa aqui, primeiro, aí depois, agora é que veio a prefeitura e fez alguma coisa aí. Nesse meio aqui esses carros não fizeram nada, fomos nós aqui, os moradores daqui não tinham apoio. Mataram eles aí, mas... Só que tinha que pagar a energia, chegava fim de mês os caras ficavam por aí e ninguém queria pagar, aquela dificuldade danada, aqueles que tinham mais moral a gente pagava para os outros. Agora não, depois que entrou o Brizola, depois que botou __________________ à vontade até aqui. A gente tinha relógio de luz, a gente pagava por mês a eles o bico de luz, o cara limpava os bicos de luz, mesmo assim não tocava nenhum rádio, quando chegava de noite assim estava amarelinho igual um tomate. Também ninguém tinha geladeira, não tinha nada naquela época, não tinha nada disso. Então, a luz procurava na Light, você não conseguia botar um relógio, os relógios eram lá embaixo e os caras puxavam. Se ele chegava, me arranjava ___________ é tanto por mês, você arranjava. Aí um relógio só foi estendendo, foi ficando fraco... Ah, cada um ia puxando um pouquinho do mesmo? É, do mesmo relógio, era assim. Poxa, era um sacrifício aqui. Depois que esse rapaz arrumou para botar água aí... O senhor lembra que época foi essa? Que ano o senhor está falando, mais ou menos, seu Wilson? Os filhos eram pequenos ainda? Ah, eram pequenos. Eu calculo já tem que botou essa água aqui, já deve ter uns... A Associação dos amigos, da sociedade, dos moradores? Só depois é que fundou essa associação. Ah, depois? Depois. Nós começamos aqui, quando a senhora desce aqui, para pegar aquela rua ali, essa casinha que tem assim, tem um portão ali, nós começamos de baixo ali, alugamos um (moço?) ali para fundar a associação. Para fazer aquilo ali foi uma briga com um cara que tomava conta desse terreno, que disse que isso aí era particular. Aí o pessoal aí, botamos o peito, senhoras e tudo, “não, vamos formar a nossa associação aí”, começamos ali, fizemos só nós, dia de domingo a gente fazia um mutirão, pegava lá de baixo, “ah, depois vamos pegar aqui”, fazia a escada, porque isso aí tudo era barro, o pessoal descia por aí dava cada escorregão quando chovia, poxa, sujeira aqui na alameda tudo era para o meio da rua, a gente foi arrumando assim de domingo. Aqueles que tinham... porque tem uns que não ajudam, mas aqueles que... Às vezes a gente punha um dinheiro e com a mão-de-obra, ia __________ para arrumar a água e tudo, a gente foi fazendo aos poucos, os meninos pegavam às vezes barro, aí foi quando foi formando isso daí. Depois fizemos o piso aqui da associação, fizemos a associação e a gente começou a... Aí pra cima, não tinha dinheiro, ninguém ajudava nada, aí apareceu um candidato, o (Altemir?) dos Santos, ele era lá de Cabo Frio para representar na política aqui no Rio e ele veio aqui com um cara lá do São Carlos, trouxe ele aqui parece que eles estavam fazendo um trabalho também na comunidade lá, aí ele veio aí prometeu e falou pra gente: “olha, eu sou um candidato, sou pobre, mas eu quero __________ se candidatar aqui no Rio, mas eu tenho muitos amigos, vou ver o que posso fazer para vocês.” ______ ia trabalhar aquele dia de noite, _______ estava aí e me apresentaram, aí passou umas duas semanas e começou a chegar material, caminhão de areia, caminhão do primeiro andar em cima. (Daqui?) a associação hoje? A associação. É o único que ajudou. Como era o nome dele? (Altemir?) dos Santos. Tirou o 7º lugar, foi eleito, mas lá na _________ (risos) Coitado, ele não tinha conhecimento daqui, ele era pobre mesmo, chegou aí com um carrinho velho, ele não era coisa não, não tinha muito conhecimento não. Lá de Cabo Frio, mas foi eleito, foi eleito a deputado. Ficou em 7º lugar, mas foi. Mas ele mandou um bocado de material para a gente. Quer dizer, vocês é que faziam a obra? Que pegavam o domingo e faziam uma virada aí com o pessoal, e as senhoras ajudavam também? Ajudavam, ajudavam. Aqui tinha uma senhora, coitadinha.dona Isabel, já faleceu ela, tanto que essa rua aqui baixou o nome dela. Todas essas ruas aqui, esse pessoal vê do Morro, foi pessoas de tradição aqui no Morro que ajudou... Ah, os nomes de rua homenageiam antigas pessoas daqui? É, homenageia os antigos moradores. Por exemplo, essa aqui, essa que sobe aqui é a rua (Rubens Nunes?) Moreira, é o dono dessa casa aqui, (Rubens Nunes?) Moreira, vai até no alto. “Onde é a rua (Rubens Nunes?) Moreira?”, é essa aqui. Ali quando sai da (Sandra?) que desce ali, é o (Pires Chagas?) Ricardo, esse aqui é de Chagas Ricardo também, morava ali naquelas primeiras casas ali, mas aquilo lá é um barraquinho, aquilo ali, e ajudou muito. Hoje o irmão dele se formou em direito, tem dois escritórios de advocacia; esse meu compadre também que eu trouxe lá de Miracema, que morava aqui, também o filho dele estudou e hoje é formado, advogado. _________ o Morro. Essa rua do senhor tem, era de alguma pessoa daqui? Era uma senhora, Maria Sabina Maria Sa-bi-na? Maria Sabina. Ela era moradora antiga lá de cima, ela é, parece, eu não sei se é avó dessa menina que trabalha na (Sandra?), e é da família da (Sandra?) a Maria Sabina. Essa rua toda aqui tem um, vamos dizer, o Zé Flamengo lá em cima, que foi um cara também, Francisco Sabiá lá em cima, Zé Paula que era o pai do (frade?), esse é presidente da ________ , João Bernardino, essa escadaria aqui, João Bernardino era um paraíba também trabalhador pra caramba, essa escadaria foi no nome dele. Aí mataram ele, a filha dele arrumou um namorado aí e ele não queria que a filha namorasse o cara, o cara veio aí, os homens trabalhando com a gente foram almoçar, os caras deram um bocado de facada no cara e matou ele, João Bernardino... Ah, então é uma coisa bacana, quero dizer, homenagear pessoas da comunidade. É. Essa praça é Edgar Pires Ferreira, porque o Edgar foi o que ajudou a botar água na comunidade e formar a associação. Mas ele não é, no caso, esse Edgar não era morador daqui? Não, ele morava ali perto da (Educativa?), ele morava lá na coisa... Mas ele era estudante e ele quis entrar na política, mas ele se candidatou e não ganhou não, aí ele foi para São Paulo, estudou, foi estudar em São Paulo... Não, foi para a França, estudou lá, agora veio e mora em São Paulo. Mas quando ele vem no Rio, ele vem sempre aqui fazer uma visita à gente aqui. O pai dele morava do lado de lá, mas tinha muita coisa aqui com a comunidade, sempre foi do pai, o filho, eles tinham muita coisa aqui com a comunidade. Quer dizer que tinham pessoas do entorno aqui do Morro dos Prazeres que ajudavam? É. Na (Educativa?) mesmo, o pessoal da (Educativa?). Antigamente morava muita gente ali que dava muita assistência ao pessoal da favela. Como o senhor vê assim em relação a hoje, o senhor devia ter diferença em relação ao passado? Ah, é, né? Porque hoje em dia não é mais aquela finalidade, porque antigamente o pessoal era mais humano, praticamente dizer assim. Tinha mais aquela consideração, aquele respeito... Qual é a relação que o senhor faz, assim em relação daqui pra frente? Como o senhor acha que o Morro dos Prazeres vai _______? Eu espero de antes de morrer ver ao menos, porque desde que eu mudei aqui para esse Morro que essa rua Gomes Lopes é dada como aberta, mas ela só vinha até ali e vem por lá pela _________ de Oliveira, esse meio aqui da favela agora abriram e começaram a fazer essas obras aqui no Morro, e fazer esse viaduto, mas até agora ainda não terminou, e eu espero ver terminado, porque é uma obra de grande valor aqui para os moradores. E essa vista maravilhosa que vocês têm daqui, hein? Ah, é ótima. Eu tinha um patrão que era francês, aí ele veio me trazer uma vez e, poxa, gostou muito. A minha patroa também tem um, dorme numa casa lá que as filhas __________ casou com um alemão, eles vieram aqui, fomos até lá em cima ___________________, acharam muito bonito. Porque lá de cima, eu não sei se vocês já subiram aí em cima? Lá no (Cantão?)? Eu já, é bonito, né? É bonito. Dá pra ver o Maracanã, vê tudinho, tem uma vista muito bonita. O Cristo de um lado, a Baía de Guanabara, Niterói... É. Nesse ponto a gente, somos privilegiados. Aqui tem uma vantagem que mesmo qualquer pessoa que não tem dinheiro desce, ______ comprido, desce lá pra Laranjeiras, eu já desci muito à pé. Quando eu vim morar aqui eu tinha que, no máximo em três horas eu tinha que estar lá embaixo na garagem para, eu tinha que lavar aqueles carros e botar na ordem de saída, porque eu ia para o outro emprego e seis e pouco eu tinha que sair de Laranjeiras para pegar às 7 horas no _______, e eu tinha que deixar os carros _______, os carros que saia primeiro, na ordem, eu tinha que lavar os carros e botar tudo em ordem para um carro não atrapalhar o outro e ir embora fazer minha vida. Então, se eu perdesse aquele bonde ali eu tinha que descer pelo meio do mato, por aí. De manhã ou de noite? Duas horas, duas e meia da manhã Da manhã? Duas e meia da manhã, chovendo ou fazendo sol eu tinha que... Era descer __________. Então, pra cortar caminho já te disseram, pra lá do bambu ali tem _________ que descia por dentro daquele mato, poxa... Às vezes chegava lá embaixo, uma vez eu descendo, tem uns caras, aí os caras abriram para um lado e para o outro, eu falei: “Opa, como que é?”, aí o cara não reconhecia e deixou passar. Aí eu desci e quando eu cheguei lá na rua, o cara lá estava desesperado, os caras tinham assaltado ele e tinham corrido pra atrás deles; “você não viu ninguém?”, e eu: “não, não vi ninguém não.” Os caras __________ e eu vou falar (risos) “poxa, nesse Rio de Janeiro... nunca mais eu ando sem a minha peixeira, porque se eu estou com a minha peixeira, esses caras...”, eu falei: “ô rapaz, vai embora rapaz, sai daí, que você fica falando aí, às vezes... Eu não vi os caras não, mas podem estar aqui dentro do mato, vem de lá...” (risos) O cara lá do lado de fora, falando pra caramba, eu falei: “vai embora rapaz....” Aí vinha um lotação “Penha”, aí eu: “você vai para onde?”, ele ia lá pra baixo, aí eu dei um dinheiro que dava pra ele pagar a passagem dele, “vai embora, sai daí.” Os caras _____________, eu não conhecia os caras não, hein? Aí outra vez eu vou descendo de madrugada, tem uns caras deitados no meio do, eu falei assim, aí eu estou vendo aquele grupo de gente, eu voltei que eu corri num pau, aí é assim: se eu estou passando e o cara levantar, eu meto o pau na cabeça dele Mas os caras estavam dormindo mesmo, bêbados, eles vieram, pararam, sentaram e dormiram ali. Mas eu passei muito susto ali. Aqui tinha um outro também maluco, que ficava maluco, ficou maluco e ele ficava imitando os cachorros, e tinha um tal de um, um camarada que morava do lado de lá, ele tinha um, seu Zé da (Borra?), ele tinha um... (TRECHO INAUDÍVEL – INTERFERÊNCIA EXTERNA) Aí, graças a deus, quando eu firmei mais no trabalho eu deixei a garagem _______________. Como motorista? É, como motorista. Graças a deus, trabalhei lá, trabalhei em três firmas e me aposentei. O senhor hoje está aposentado? Estou. E se dedica ao trabalho aqui? É, agora que eu estou diabético e doente, e o diabético tem aquela, a taxa de açúcar às vezes cai você dá uma tonteira, e eu falei: “eu trabalhei tantos anos de motorista...”, não tive desastre, né? Até só tive um desastre, mas a culpa não foi minha; eu falei: “eu posso uma hora aí, o açúcar cair eu desmaiar, matar os outros, morrer.”, aí eu .... Achou melhor parar. Eu me aposentei e ainda trabalhei mais 4 anos, ainda assinei carteira e trabalhei mais 4 anos, depois eu decidi o pecúlio. E hoje como que é um dia da vida do senhor? Hoje eu sinto falta ainda do trabalho, mas eu não estou trabalhando mais não. Saio, dou as minhas saidinhas por aí, andar pra lá, pra cá, porque o médico pediu para andar, então eu tenho que estar sempre me movimentando... E dedico mais aqui, dar mais uma assistência aqui, né? Durante a semana . (...) Isso poderia mudar alguma coisa na trajetória da sua vida? Como assim? O senhor gostaria de fazer alguma coisa diferente ____________ que o senhor não fez? O que o senhor teria feito? Se eu tivesse condições eu ia dar um passeio e conhecer ao menos uma certa parte do Brasil, né? Porque eu tinha vontade de conhecer, é que a gente não conhece nada, nada, eu vim de Miracema, depois que eu estou aqui eu fui lá umas três ou quatro vezes só, não conheço nada. São Paulo, Belo Horizonte, esses lugares eu não conheço. Se eu pudesse conhecer, passear um pouco. Porque a pessoa, pra ver aquilo que você nunca fez, é bom dar um passeio, conhecer lugar, porque eu gosto de sair... Qual seria o grande sonho do senhor ? Ah, é o que eu estou falando, era dar um passeio se eu pudesse, se eu tivesse condições, mas eu não tenho e estou ficando por aqui mesmo. Bom, seu Wilson, o que o senhor achou de participar aqui de participar desse projeto, dessa entrevista que a gente está fazendo? Ah, tudo bem, fazer como diz o outro, “faz parte”, né? (risos) Não é? Vocês queriam conhecer aí, aliás ela nem viu lá dentro, não é? Não, podemos? Claro, claro. Então, eu agradeço, muito obrigada pela contribuição do depoimento, muito obrigada.

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