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História

História de um sucesso que é maior do que a própria história

História de: Rodrigo Santos Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/12/2019

Sinopse

Com 13 anos de idade – nascido em 1980, na Capital – Rodrigo Oliveira, contra a vontade do pai, já ia para o restaurante da família, lavar louça. Vocação e desejo de transformar já se insinuavam ali. Resultado: escolheu a Gastronomia como profissão e tornou o modesto estabelecimento uma referência da cozinha sertaneja em São Paulo. Deu nome novo – Mocotó – organizou, desenvolveu até o ponto de envolver 70 funcionários e 16000 atendimentos/mês, racionalizou, tornou a comida mais saudável e mais bonita. Enfim, implantou conceitos, aprimorou com base num certo perfeccionismo, mas se manteve fiel às raízes, respeitando os sabores intensos e a essência da comida do sertão.

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História completa

Meu nascimento significou, para o meu pai, um sonho. Acima de coisas como vencer na vida e ter uma casa, ele queria ter um casal de filhos. E a minha chegada, em 22 de julho de 1980, teve esse significado – eles já tinham uma menina, minha irmã, nascida sete anos antes. Meu pai foi um sertanejo expulso da sua terra pelo flagelo da seca. Chegou em São Paulo sem nenhuma formação e nenhum dinheiro. Trabalhou em outras atividades até conseguir montar uma ‘Casa do Norte’, simples, sem fachada, ele e mais três trabalhando. E aí a história dele e da família tomou outro rumo. Minha mãe, que ele conheceu quando voltou para visitar a família, escreveu uma página heroica de sacrifícios e determinação para conseguir alguma escolaridade. E, em São Paulo, trabalhou com costura – uma costureira finíssima – que, paralelamente, sempre teve muita habilidade manual: artesanato, pintura, cerâmica, pelúcia… Lembro das jaquetas que ela fazia e de como eu me sentia “o máximo” ao usá-las. 

Com uma vida simples, a gente não tinha, assim, grande lazer: era a convivência entre nós, o núcleo familiar, e com os parentes, que eram muitos. A nossa casa era uma casa sertaneja, até no sotaque. Uma vivência muito sertaneja, que eu conferia quando ia, com eles, em viagem ao sertão. E, com 13 anos de idade, eu já queria ir para o restaurante – lá, eu lavava louça mesmo contra a vontade do meu pai. Dei ao restaurante o nome que ele tem hoje – Mocotó. Mas, desde então, eu enfrentava resistência do meu pai, avesso a mudanças. No fundo, ninguém achava que aquilo lá pudesse significar perspectiva de vida para um jovem como eu. Porém, a despeito de tal resistência, eu não recuei no meu propósito de introduzir transformações: comecei a oferecer sucos naturais, em complemento à cachaça, à cerveja, ao refrigerante de praxe; acabei com o perigoso desenho de uma cozinha com fogões domésticos e dois botijões para cada um deles; organizei a coleta do lixo, isolando-o completamente dos alimentos; racionalizei a lavagem de louça, copos, etc. Mas, em todas essas alterações, sempre procurei reconhecer e valorizar as razões da alma sertaneja, bem como entender as necessidades de uma cozinha com aquelas raízes. Jamais me afastei da realidade de um ambiente com especificidades, e sempre atento a uma cozinha cujo dia a dia é marcado pela escassez e onde, portanto, tudo é muito precioso. Tive, assim, a humildade de não contrariar a cozinha de sabores intensos e profundos. E a sabedoria de não me afastar de suas origens.

… Gente que tem uma sensibilidade lapidada pela escassez… E há uma beleza muito agreste ali.

Só que, com todo esse respeito pelo que meu pai fazia ali há 30 anos, eu achei que se poderia fazer melhor um pouco.

… deixar o lugar um pouco mais bonito, fazer a comida um pouco mais gostosa, um pouco mais saudável, um pouco mais bonita também.

Prossegui nas transformações que julgava necessárias. Físicas e estruturais. De conceitos também. Há dois anos estamos trabalhando com produtos orgânicos, gado orgânico; 85% de tudo que a gente serve, a gente sabe quem colocou a mão. Quando eu assumi, estava o meu pai com outras três pessoas. Hoje temos 70 empregados e atendemos a 16 mil pessoas/mês. Mas tenho a certeza de que ainda tenho pela frente muito a descobrir daquilo que não sei. Tenho que admitir que, nessa empreitada, tenho usado de um certo perfeccionismo. Por exemplo, a carne de sol, desde 2004 o prato mais pedido, passou por 30 versões até chegar ao ponto que eu julgo ideal. E assim, eu me permito concluir que o Mocotó oscila entre manter a tradição e buscar o que eu chamo de “abordagem inovadora” em seus pratos. Atenção à sua origem e ao contexto em que se insere como experiência gastronômica. Praticar a denominada alta gastronomia, sem excluir.

A gente se apegou ao essencial e o Mocotó continua sem ar-condicionado, sem reservas, sem talheres finos, nem louças, nem cristais, e as pessoas entendem isso.

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