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História de um imigrante (fragmento)

História de: Boris Starmac
Autor: Dalvaci Porto
Publicado em: 09/02/2015

Sinopse

Na década de 50 houve um forte movimento imigratório para o Brasil. Muitos sobreviventes do holocausto se dirigiram para cá, em busca de um lugar ao sol, onde pudessem reconstruir suas vidas, totalmente dizimadas na Europa pós II guerra mundial.

Hoje, tantos anos depois, ficaram as lembranças, daqueles momentos difíceis e muitos exemplos de superação e aprendizado. Um deles foi Boris Starmac, que numa tarde de chuva deste fevereiro de 2015, nos contou um pequeno fragmento de sua longa história, acima de tudo, marcada pelo amor à vida.

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História completa

HISTÓRIA DE UM FRAGMENTO DE VIAGEM

Entrevista de história de vida

Título: História de um imigrante (fragmento)

Pesquisadora: Dalvaci Porto

Nome do Entrevistado: Boris Starmac

Data de Nascimento: 12/09/1936

Local de Nascimento: Zagreb/Croácia

Pai: Harry Starmac

Mãe: Daniela Starmac

P - Como foi a sua viagem para o Brasil?

Boris: Eu vim em 1954. De navio. Vim de Israel. Com dez dólares no bolso. Sem profissão. Acabei de fazer vestibular em Israel, num colégio francês. Eu falava francês na época. Croata e eslavo. Não sabia nada de português. Um pouquinho de inglês, muito pouco. Então vim de navio, com dez dólares no bolso. A viagem demorou pra chuchu. Demorou quase 1 mês pra vir, via Itália. Isso são peripécias que eu conto depois, numa outra hora...Mas os dez dólares acabaram no navio. Obviamente em coca-cola, lanchinho e tal. De forma que vim ao Brasil. Mas tive problema de desembarque Mas isto também é um outro episódio que eu conto numa outra hora. Outra longa história, muito interessante, por sinal. Bom, mas vamos ficar nisso.

Então desembarquei em Santos, sem um tostão furado no bolso, e minha mala, com minha roupa e outros pertences foi retida no navio, pra ser desembarcada depois, numa outra oportunidade, dias depois. Então eu vim com roupa de corpo, nada na mão, nada no bolso, desembarco em Santos. Bom, em Santos, o problema era sair de Santos, não podia ficar em Santos. E um colega meu que veio de Israel junto comigo, teve os mesmos problemas que eu, menos o problema financeiro que eu. Ele teve irmã já radicada no Brasil há alguns anos, etc. Então ela ajudou ele, tirar ele de Santos, trazer pra São Paulo, e ela me emprestou algum dinheirinho pra eu vir junto. Se não, eu ficaria na praia, pescando com a mão os peixes com a mão, pra comer cru (risos).

Então eu vim pra São Paulo. Em São Paulo eu não tinha onde me hospedar, não conhecia ninguém. Então fui hospedado na hospedaria de imigrantes, no Brás. Barbaridade, que coisa é aquilo lá. Na verdade não tinha imigrantes que vinham de fora, mas tinha migrantes que vinham do Brasil, do Norte. E o único estrangeiro lá, acredito, fui eu. E...terrível, terrível, num dava. Impossível usar os banheiros, tava transbordando tudo aquilo. Nem dava pra entrar no chuveiro porque tinha um palmo de cocô...num dava, num dava. Nem dava pra dormir nos dormitórios, nas camas beliche, porque eles faziam cocô nas próprias camas, deitavam nas camas uns dos outros. E a comida era também muito ruim. Mas tinha sobremesa: banana. Então eu vivia de banana e dormia na grama, num parquinho decorativo na frente. Essa casa do imigrante existe até hoje. E dormia fora, no relento, porque não dava pra... E de dia, entre uma banana e outra, eu procurava emprego. Não tinha emprego nenhum, não sabia fazer nada. Não conhecia a língua. Interessa isso? Continua? Então procurava emprego. Desde pequeno tinha certa facilidade com desenho à mão livre, mas não era artista, não tinha realmente talento. Mas gostava, fazia uns rabiscos. Então procurei em São Paulo agências de arquitetura e de construção, tentando oferecer meus serviços de desenhista. Mas nunca tinha visto um desenho de arquitetura, nada, não sabia. Eu não conseguia nem dizer pra eles o que é que eu queria. Eles me despachavam logo de cara. Tava muito ruim a coisa, durou uma semana ou duas. Muito difícil. Muito ruim. Alguns conhecidos que vieram comigo, eu soube que eles se mandaram pra Porto Alegre, atrás de oportunidades lá.

Então eu achei bom sair de São Paulo, porque aí, realmente não conseguiria nada, então, me mandei lá pra Porto Alegre. Só que não tinha dinheiro obviamente pra isso...Não me lembro mais...Ah, sim, uma família de russos que também conheci o filho deles no navio. Não me lembro mais como entrei em contato com eles, me emprestaram um dinheirinho pra eu comprar uma passagem de trem pra Porto Alegre. Durou...essa viagem, Maria Fumaça, durou uns 4 dias e 4 noites. É terrível. Não tinha classe ...Classe única .lá, banco de madeira duro, não tem onde se reclinar e aquele porcaria parava de 15 em 15 minutos, pra reabastecer com madeira, com água...tchí,tchí...Maria Fumaça, terrível. Mas teve alguns episódios interessantes que aí, quando nós entramos Santa Catarina, sul, Paraná e tal...Começaram a entrar caboclos de bombachas, botas, cintos largos de couro, uns troços espetados no cinto. Uns chapéus grande e fedendo. Toda essa gente fedia, cheiro esquisito. Então os caras começaram a fumar um cigarro, tirar umas palhas, cortar fumo..E eu acabei gostando do cheiro daquelas porcarias que eles fumavam. E puxavam um troço esquisito com uns canudos lá e metiam água quente, íam buscar na locomotiva,água quente no caldeirão da locomotiva. Eles traziam água quente, em garrafa térmica e botavam naquele treco lá, com aquele canudo de metal, chupavam aquele troço, achei esquisito pra caramba. Mas gostava muito do cheiro desses cigarros esquisitos que eles fumavam. Eram cigarros de palha. Primeira vez que conheci isso aí. E ficou depois isso aí comigo, durante muitos e muitos anos. Até hoje eu gosto de um cigarrinho de palha. Aí então foi assim. Quatro dias, Maria Fumaça, cheguei todo quebrado. Ainda bem que era novo, porque hoje, provavelmente teria morrido. Cheguei lá. Cheguei em Porto Alegre. Aí começa outro episódio.

Bom, lá, o mesmo problema, sem dinheiro, sem onde ir e sem conhecidos. Ninguém ajuda numa hora dessas. Difícil. Lá também tinha um albergue. Esse era mantido pela diocese de Porto Alegre. Como judeu, cheguei lá e tal, e me deram abrigo. Era bem mais confortável, muito. Mantido por religiosos. Muito mais higiênico e excelente comida. Comida vinha de um convento de freiras lá por perto, assim, numa elevação. Comida gostosa, feijão preto, arroz, bifezinho de vez em quando...delícia. Comparando com as bananas que eu tinha que comer em São Paulo... Então, sim, lá bem mais confortável, cama higiênica, tinha onde tomar banho quente...maravilha. Só que podia ficar 15 dias só. Tinha 15 dias pra achar emprego e...batalhando né? O problema é o idioma do país. Então era difícil me comunicar. Eu tentava falar com as pessoas em francês, arranhando um pouco o inglês, ninguém entende. Foi dificil. E por outro lado, não tinha profissão, então não sabia que tipo de emprego procurar. E não achava, não achava. Aí passaram os 15 dias. Numa tarde, tava chovendo, me lembro como se fosse ontem, chuva torrencial, chovendo muito. E chego lá, lá no quintalzão do albergue, tá minha mala meio aberta , tudo jogado lá embaixo da chuva, encharcando minha roupa tudo...Me despejaram. Bom, aí realmente foi difícil. Aí, deixei a mala lá na chuva, etc, não podia sair com ela nas costas,saí pra rua, me abriguei, dormi num canto qualquer. Dia seguinte procurando emprego. Então vi no jornal, o jornaleiro me emprestou O Correio do Povo. Deixou eu ler, lá, porque eu não tinha dinheiro pra comprar jornal. Tinha...procurando garçom, num hotel. Hotel São Luís, Av. Farrapos, principal acesso a Porto Alegre. Então fui lá. Minha sorte foi que o dono do hotel era família de alemães. E aí conversei com o filho do dono lá em alemão, etc. Ele teve dó de mim, etc. Me deu emprego – Garçom de andares. Tinha 9 andares aquele hotel. E...era uma maravilha. Alí tinha comida farta na cozinha, maravilha, uma maravilha. E me adiantou algum dinheirinho, pra eu poder alugar um quartinho, na Independência. Em frente ao antigo Prado. Era um lugar muito gostoso, muito bacana. Um quartinho higiênico, bacana, muito bacana, junto a uma família de espanhóis. Gente muito bacana. Foi uma maravilha. Agora, maravilha não foi o trabalho no hotel, porque não podia usar o elevador, não tinha elevador de serviço, só tinha elevador de hóspedes e esse não podia usar. Eu era garçom nos andares. Eu atendia os clientes lá em cima. Então o hotel era...clientes principais: aposentados e prostitutas uruguaias e argentinas que atendiam os doutores, os advogados, juízes, os delegados, os escrivães de polícia, esse tipo de clientela lá nos andares. Então...e elas gostavam de mim, nossa... Difícil porque eu tinha que subir e descer, subir e descer, subir e descer escadas, 9 andares, não foi fácil. Mas eu era novo, era jovem e ganhei muita gorjeta dessa gente. Elas gostavam muito de mim. Elas continuavam trabalhando enquanto faziam pedidos e cobriam só com o cobertor. É... ponha na mesa, e djum,djum,djum.. Eu colocava lá mesa. Traz um uísque...e você, benzinho, o que é que você quer? Traz um uísque duplo. Eu trazia o uísque duplo pro cara e colocava lá na mesa.

Ganhava muita gorjeta. De repente meus bolsos estavam abarrotados de dinheiro. Me sentia como um pachá. Maravilha! Delícia essa época, né? Só que o que é bom dura pouco. Tinha umas peculiaridades locais que eu não conhecia. É, tinha, na cozinha especialmente, muitos travestis, homossexuais, etc. Eu não conhecia isso aí. Lá em Israel não tive oportunidade entrar em contato com esse tipo de figuras. E era muito, e assediavam, enchiam o saco, etc e tal. E chegou um momento onde não dava mais, não dava nem pra ficar lá mais. Então, eu já tinha uma reservinha de dinheiro, tinha um quartinho pra morar e eu saí do hotel. Acho que aquilo não era pra mim. Era um beco sem saída, um quebra-galho. Quebrou um tremendo dum galho.

Eu sempre gostei muito de ciências, química, física, etc, mas sem ter nenhuma formação nessa área. E procurava alguma coisa, de alguma maneira, ligada a esse tipo de atividade. E então eu tava procurando no Correio do Povo. Então havia um anúncio, uma metalúrgica de precisão xxxxxxxx, avenida xxxxxx. Não existe mais a empresa, posso falar à vontade. E procuravam Desenhista Projetista Mecânico. O que me chamou a atenção é a palavra desenhista. O resto, nem entendia o que era. Então eu fui me candidatar. Outra sorte que eu tive. Naquele tempo tinha muitos alemães. A gente cruzava. Hoje, não sei porque cargas dágua, acho que já morreram todos e não vieram novos. Então o dono era o senhor Hans Haminguer. Falou em alemão comigo. Primeiro me candidatei lá entrada, etc. Já tavam me despachando... O senhor tem experiência em projeto? _ Não sei nem o que é isso. Mas tinha um senhor careca, simpático, Otto, que tava numa mesinha lá, ouvindo a conversa com o pessoal de contratação. E quando eu tava indo embora, ele falou: Espera um pouco. Otto era também descendente de alemães. Ele falou: espera um pouco, deixa eu falar com o proprietário. Ele entrou lá nos aposentos, aonde era o Hans Haminguer. Otto era um contador da empresa. E falou com ele lá. Enão, entraí, o seu Haminguer quer falar com você. Aí eu entrei lá dentro e tal. Ah, o senhor veio de onde? Aí eu contei pra ele. Vim de Israel, de navio, tal, peripécia terrível, e tal e coisa. Mas...sabe? _ Eu sei desenhar, mas à mão livre, eu faço caricatura. _ Mas não é isso que a gente precisa. O senhor tem experiência em Desenho Mecânico, Projeto de Máquina, Ferramentas? _ Eu não sei nem o que é isso. _ Bom, mas, vamo ver o que é que a gente faz. Vem comigo. Aí ele me levou pela fábrica, subimo as escadas, chegou no escritório, lindo e maravilhoso, com as mesas de desenho,,com uns aparelhos em cima. Depois fiquei sabendo que a coisa se chama tecnígrafo, e tal e coisa . E tinha lá um senhor muito simpático, 30 e tantos anos , doutor José, comé? Doutor, doutor... Bom, depois me lembro. Doutor xxxx. Engenheiro-mecânico, eletricista. Ai o Haminguer me apresentou. Esse é o Boris Starmac, veio de, imigrante, decente. Ele vai trabalhar conosco. Ele já foi impondo assim pro outro, não perguntou se o outro queria me contratar. Ele vai trabalhar conosco, aí com o senhor, o senhor ensina a ele os rudimentos do desenho mecânico, porque ele não entende nada de nada. Mas mesmo assim, vamo ficar com ele, depois a gente contrata outro, se for o caso, e tal e coisa. Bom, então eu fiquei lá com o doutor José Maria xxxx. E excelente pessoa, muito camarada, teve muita paciência comigo. Ele foi aos pouquinhos me ensinando os rudimentos dessa profissão de desenhista-mecânico, depois projetista, etc. No todo fiquei 8 anos na Haminguer. Num período eu saí, depois regressei novamente, no total foram 8 anos, muito interessantes. Se aprendeu muito lá, me esbaldei muito, adorei. Depois saí do desenho, fizemo uma barbaridade de coisa. Bom, mas isso já é outro capítulo. Chega.

P- E você já estava conseguindo falar a língua portuguesa?

- Hum, não me lembro. Isso aí a gente vai absorvendo aos poucos. A gente nem sabe quando consegue falar.

P- Você chegou a estudar? Fez algum curso de língua portuguesa?

- Não. No vamo ver, alí. No batente.

P - Você foi demitido dessa fábrica?

- Não fui demitido.

P - Você pediu pra ir embora desse escritório?

- Depois de alguns anos.

P - E qual foi a próxima experiência profissional?

- Nem me lembro. Acho que foi trabalhar na xxxxx. Mas isto foi uns 4 ou 5 anos depois.

P - E nessa época você continuou morando em Porto Alegre ou mudou pra outro lugar?

- Não, não, Porto Alegre. Sim, um ano e meio, dois anos depois da minha vinda ao Brasil, veio minha mãe. Aí nós alugamos juntos um apartamento no mesmo bairro, Independência. Um pouquinho mais afastado do meu quartinho. Aí nós fomos morar num apartamento bom, na Curva do Sandu, se chamava. Um lugar muito bom na Independência na época, perto do Palacete do Brizola.

P: Obrigada

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