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História

História de Ulysses Rodrigues de Freitas

História completa

IDENTIFICAÇÃO



Meu nome é Ulisses Rodrigues de Freitas, eu nasci em Penápolis no Estado de São Paulo, pertinho de Mato Grosso, no dia 25 de março de 1943. A hora eu não sei.

FAMÍLIA



Pais
Meu pai é Galdino de Freitas, português imigrante, vindo dos Açores. Minha mãe é Francisca Rodrigues de Freitas, filha de imigrantes espanhóis, também nascida em Penápolis.

Origem da família do pai
A avó do meu pai nasceu no Brasil, em Cantagalo, no Rio de Janeiro, por volta de 1800, ainda no tempo da escravidão. O avô de meu pai era fazendeiro em Cantagalo, deve ter vindo bem antes. Depois ele ganhou dinheiro, tinha fazenda, escravos, e voltou para Açores com a minha bisavó. Foi quando começou a relação da família de meu pai nos Açores. Quando passaram por aqui, ficaram alguns filhos desse avô do meu pai que foram para o interior de São Paulo. Em meados desse século, veio primeiro um irmão e depois o meu pai para trabalhar no interior do Estado de São Paulo, no comércio. Um primo de papai tinha uma loja muito grande em Penápolis, aquelas lojas antigas que abasteciam a região em tudo. Meu pai veio trabalhar com ele na loja.

Origem da família da mãe
Meu avô, por parte de mamãe, veio da região de Granada. A história dele é mais complicada porque teve um problema de exército. Parece que fugiu do exército, foi para a França e para o Brasil. Depois de uns anos voltou para a Espanha para buscar minha avó. Eles vieram para a região de Ribeirão Preto. Meu avô era um exímio capador de porco. No início do século, capar porco era uma profissão. Ele saía da região de Ribeirão Preto pelo interior do Estado de São Paulo capando porco. Ganhou dinheiro, comprou fazendas em Penápolis e mudou para lá onde nasceu minha mãe. Os dois se encontraram no final da década de 1930 em Penápolis e se casaram. Aí veio minha família. Essa é a historinha breve da família. Conheci o meu avô e minha avó por parte de mãe, por parte de pai não, porque eles ficaram em Portugal. Não tive oportunidade de conhecer. Conheci só alguns irmãos de papai nos EUA. Ia a serviço, quando, então, procurava por eles. Dois deles estiveram aqui visitando papai antes de morrer. Foi quando conheci os irmãos e irmãs de papai. Quando fui nos Açores também conheci uma irmã dele. Peguei meus filhos e falei "Vamos conhecer as origens". Mostrei a terra de meu pai para os meninos. Também passei pela Alemanha para visitar a terra dos pais da minha esposa. Fomos conhecer as origens. Não posso falar nisso que me emociono.

INFÂNCIA



Casa de infância
Das casas em que morei, da primeira eu não lembro. Só me lembro das fotografias e das marcas que me deixaram à beira do rio Tietê, quando estavam construindo a Usina Hidrelétrica do Salto de Avanhandava. Meu pai tinha uma loja, dessas que tem no interior na beira de estrada. Nasci na cidade, na casa da minha avó, mas fui para lá. Essa loja deixou marcas em mim porque foi um período muito difícil. Meu pai tinha uma bronquite asmática terrível, ele fumava muito. Ele teve que vender a loja e mudar para cidade pela necessidade dos meninos estudarem numa escola melhor e por causa da doença dele. Quando voltamos para a cidade morei em duas ou três casas. Eu tinha oito anos por aí. Foi um período muito triste quando perdemos o irmão mais novo. A penúltima casa em que morei era pequena, mas tinha um quintal enorme. Para você ter uma idéia, tinha oito pés de mangas um ao lado do outro.

Saúde na infância
Minha mãe conta que em termos de saúde eu tive períodos muito difíceis. Mamãe não tinha leite e eu tinha alergia a leite de vaca. Imagina a desgraça que era isso na década de 1940. Fui só definhando, emagrecendo, não comia nada e chorava a noite inteira. As comadres falaram para minha mãe que leite de égua era bom para substituir o leite materno. Ela falou para meu pai e ele: "de modo algum, eu, um português ter um filho criado com leite de égua, é um absurdo". Não deixou de jeito nenhum. Mas eu já estava morrendo. Mamãe conta que estava do tipo de botar vela na mão para não morrer. Se mostrar fotografias daquela época vocês morrem de rir. Escondida, mamãe pegou leite de égua e começou a me dar. No primeiro dia que mamei, eu já não chorei. Meu pai acordou de manhã e falou "Ué, esse menino não chorou, o que aconteceu com ele?" Aí minha mãe com todo o cuidado falou que tinha me dado leite de égua. Meu pai olhou para ela com uma cara, e saiu. Dali a duas horas voltou puxando a égua para casa. A partir daí todos os filhos foram criados com leite de égua. Tenho marcas de doenças de infância que não tinham cura antigamente. Tive mal de Simioto, que não sei o que é, fui mordido de cobra venenosa com um ano e meio ou dois anos, estive para morrer. Uma lembrança desse período foi quando tive meningite. Dizem que meningite quando não mata deixa doido. Estou vivo. Foi um período que, apesar das dificuldades financeiras, foi uma infância gostosa.

Brincadeiras de infância
Morei em outra venda de beira de estrada no interior do município, onde eu lembro mais. Recordo-me que ia à escola no primeiro ano. Lembro de brincar de fazer curralzinho, de criar vaca. No fundo da loja papai tinha uma propriedadezinha onde tinha gado, porco. Lembro daquele ambiente, das festas de São João. Meu pai gostava muito de soltar fogos até que um explodiu na mão de mamãe, não chegou a machucar, mas foi um susto medonho. Nunca mais ele deixou soltar fogos em casa. Na casa da cidade, a gente vivia brincando de pega-pega em cima das mangueiras. Quem descia no chão perdia. Então ficávamos pulando de um pé ao outro, caíamos lá de cima, nos machucávamos. Tinha uma vizinha que era testemunha de Jeová. O filho dela caiu de costas. Minha mãe ficou doida, batia no moleque, o moleque desmaiou. "Chama a mãe dele, chama a mãe dele". Veio a mãe com aquela paciência, era uma senhora alta, gorda, olhou para ele e falou "Não se preocupe não, Deus cura". Foi embora e deixou o moleque lá. Minha mãe jogou água. "Deus curou". Ele levantou e foi embora. Fui aprender a andar de bicicleta aos 15 anos. Sou meio patão nessas coisas. Meu irmão tinha uma bicicleta: "Ulisses, você precisa aprender a andar de bicicleta". Ele foi lá no fundo do quintal, que era meio em descida. "Eu vou segurando e você vai tentando equilibrar". Eu sentei na bicicleta, ele soltou e eu sai andando. "Ta bom Ricardo". De repente, escutava a voz dele ficando lá trás. Quando olhei e vi ele, eu bluft, caí. Enquanto não vi que ele estava lá trás consegui andar, na hora que vi eu caí.

COSTUMES



Solidariedade em família
Eu tenho um irmão que dava muito trabalho. Ele gostava de sair no colégio para brigar. Somos quatro irmãos. Tem esse magrinho pequeno e os outros três têm o meu físico. Esse desgraçado do pequeno era especialista em arrumar briga. Meu pai dizia: "Se bater em um irmão tem que bater em todos". Os grandes defendiam o pequenininho. Mas dava um trabalho danado porque ele gostava de desafiar os outros. Depois de umas três brigas, todo mundo ficou sabendo que tinha que bater nos quatro, desistiram. Tentamos segurar ele, mas era terrível para arrumar briga. Existia solidariedade porque éramos muito unidos na briga e em tudo.

Negócios do pai
Nessa época meu pai tinha um outro tipo de negócio na cidade. Ele instalou em cima do caminhão uma máquina de debulhar milho. Então, a vida econômica da família oscilava com a safra. O fazendeiro tinha uma roça de milho, ele comprava a roça, colhia e debulhava o milho para pessoa. O comércio era um depósito, onde ele vendia milho, arroz. Mas o negócio dele era milho. Quando chegava a época de fazer a colheita, alugava depósitos, enchia tudo de milho na safra que o preço estava lá em baixo, comprava, estocava. Quando chegava na entressafra, ele vendia o milho por um preço melhor. Depois entrou o governo com o sistema de garantia de preço e acabou com esse tipo de comércio que existia muito no interior. Lembro do meu pai levantando de madrugada, ligando o rádio e escutando a cotação do milho para saber se era época de vender milho ou não. O preço do milho não subia, ele xingava o governo, ficava nervoso. Nossa vida na época era isso.

Ajuda nos trabalhos domésticos
A gente ajudava nossos pais em casa. Minha mãe tinha muitas crises de enxaqueca. A gente que tinha que cuidar da casa, lavar, encerar, cozinhar. Hoje, eu e meus irmãos sabemos cozinhar. Eu e o mais novo somos bons cozinheiros. Fazia de tudo. Um dia papai falou: "Eu vou cozinhar". Fez um bife, quando pôs na mesa ninguém conseguiu comer porque tinha muito sal. Aí nós depusemos ele, não entra aqui não, deixa que a gente faz a comida. Tem tradição portuguesa na comida.

Farra do porco
Nós temos até hoje a farra do porco. Quando a gente se junta a gente mata um porco. Mata, limpa, pega o sangue e faz chouriço, pega a carne e faz lingüiça, defuma pernil. Agora em setembro meus irmãos vêm para minha casa e vamos fazer uma farra de porco. Lá no sítio, mato uns dois três porcos para fazer a farra do porco. Essa é uma tradição que a gente faz até hoje. O tempero que meu pai usava que a gente usa até hoje. A carne passa de um dia para outro no vinho, a carne não é moída, é picada na mão, depois enche a lingüiça e defuma. Hoje a gente defuma mas no tempo de criança ela ficava em cima do fogão à lenha. Quando a gente estava morando na cidade que não tinha mais fogão à lenha só tinha fogão a gás, meu pai fez um fogão a lenha no fundo e quando tinha que fazer o porco usava aquele fogão para defumar a lingüiça. Ou fazia fogo para defumar lingüiça. Isso é uma coisa que a gente mantém.

Ano Novo em família
Tem tradições da família: todo fim de ano a família se reúne na casa de meu pai. Ele fazia questão de todos filhos vir para casa. A gente já era casado, ele falava: "Vocês passam o Natal com suas esposas, agora o Ano Novo é aqui na minha casa". Até hoje eu e meus irmãos nos reunimos. Depois que papai morreu o Ano Novo é sempre na casa de um, ou eu vou para Penápolis onde mora um irmão, ou vou para Belo Horizonte. Quando eu morava no Rio eles iam para lá, agora eles estão indo para Juiz de Fora, ou para Belmiro Braga. Essa é uma tradição.

Qualidades culinárias da mãe
Minha mãe era uma boa cozinheira. Quando vinha a São Paulo papai trazia minha mãe e a levava em restaurantes portugueses para ela comer as comidas portuguesas e depois falava "Faz para mim". Minha mãe chegava em casa e fazia só de experimentar e ver a comida. Minha mãe era muito boa cozinheira. Ela fazia um puchero espanhol. Aqui no Rio eles chamam de cozido. Mas é um cozido diferente e muito gostoso. Feito com grão de bico. As comidas portuguesas eram as que a gente fazia mais, que meu pai gostava mais.

Popularidade do pai
Meu pai saiu de Portugal porque não queria trabalhar na roça de jeito nenhum. Ele falava que nasceu para empunhar caneta e não para empunhar enxada. Quando saiu de Portugal, os tios diziam que ele olhou para um burro e falou: "Terra maldita, nunca mais há de me ver". E não voltou nunca a Portugal. Voltar lá para que, para puxar enxada, não quer nem ver. Ele não gostava da terra dele, gostava muito de Penápolis. Naquela idade avançada, ele era diabético e tinha problema de visão. Ele tinha uma caminhonete e era muito conhecido na cidade. Ele era muito barbeiro, já velho, não vendo direito, ia andando sem notar os carros saindo do caminho por onde ele passava com a caminhonete dele. "Lá vem Seu Galdino" Todo mundo saia para ele passar com o carro dele.

Regras de horário e aparência
Nas folgas escolares eu ia para a minha cidade. O ônibus chegava na cidade às cinco horas da manhã. Eu saia de noite de São Paulo e chegava a essa hora da manhã. Não tinha dinheiro para cortar cabelo, chegando lá cortava o cabelo. Várias vezes, quando eu chegava, meu pai abria a porta - me via na varanda de cabelo comprido e de barbicha - e falava: "Senta aí, espera abrir o barbeiro para cortar o cabelo, dentro desta casa você não entra de cabelo comprido". Eu ficava esperando até as oito horas para abrir o barbeiro e cortar o cabelo e fazer a barba. Naquela época, eu já na Universidade, tinha que chegar em casa às dez, 11 horas da noite. Quando chegava meia noite, uma hora da manhã, dormia na varanda porque meu pai e minha mãe não deixavam entrar. O horário de chegar em casa era até 11 horas da noite. Isso já era na década de 1960.

Educação religiosa
Eu fui coroinha, mas nunca fui muito religioso, nem agnóstico. Agora sou ateu mesmo. Hoje, não acredito mais. Tive um problema sério dentro da família porque não deixei batizar meus filhos. Tinha até um sonho de algum filho ser padre, mas por opção e não por "incutição". Quis ser padre e meu pai disse: "Filho, você "estais" é maluco, não vai ser padre nunca, deixa de pensar besteira". Minha mãe sempre estudou em colégio de freira, mas nunca foi religiosa. Não era daquelas de ir à missa. Não me lembro da minha mãe ir à igreja, meu pai nem se diz. Só em casamento. Éramos religiosos, estudamos em colégio de freira, mas não tinha aquela formação para ser religioso. Aquela "incutição". Fui coroinha porque quis. Agora, quando quis ser padre "Pára por aqui". Mas esse movimento não tinha muito de igreja. Era da Igreja, mas não era religioso.

EDUCAÇÃO



Estímulo e apoio dos pais
Nós viemos para a cidade porque papai, principalmente mamãe, eram muito preocupados com os estudos. Os dois eram alfabetizados. Apesar dos sacrifícios, ele nos punha nos melhores colégios da cidade. O primário foi feito no colégio de Freiras que era o melhor colégio que tinha. Era pago. Depois, o ginásio, que era do governo, que naquela época era excelente. Mas ele tinha uma regra básica, está estudando, está passando ele paga. Não precisa trabalhar, não precisa fazer nada. Repetiu, não tinha dúvida, trabalhava de dia, estudava à noite. Passava, voltava para estudar de dia. Isso não aconteceu comigo, graças a deus.

Seleção das matérias
Eu fui sempre o CDF da casa. Sempre gostei de ler, de estudar, até hoje. No sítio, quando não há nada para fazer, fico lendo. Tenho uma biblioteca de quase 5.000 volumes. Eu e minha esposa lemos demais. Ela é fanática por leitura. Durante o ginásio, só estudava o que eu queria. Todo ano pegava segunda época, repetir eu nunca repeti, mas as matérias que não gostava eu sempre tinha dificuldade.

Nas matérias que eu gostava passava fácil, mas nas outras passava raspando. Quando cheguei para fazer o segundo grau, como chama hoje, que era o científico da minha época, eu já estava decidido, vou fazer engenharia. No científico eu disparei. Todo ano estava entre o primeiro e o segundo lugar da classe. Foi um tipo de obsessão.

ADOLESCÊNCIA



Na adolescência eu gostava muito de matemática e era coisa tipo de técnicas, tecnologia. Adorava ler, meu pai comprou Tesouro da Juventude. Eu li tudo aquilo de cabo a rabo. De vez em quando, a gente ainda encontra nos sebos chama Obras Primas da Literatura Universal. São coisas que tem resumos de textos de filósofos. Às vezes eu não entendia nada, mas lia. Nunca gostei de ler gibi, era gozado, não fazia questão de ler. Mas Seleções eu lia todinha, Mecânica Popular eu comprava. Pouco de Ciências Humanas, nunca gostei de Medicina. Leio muito sobre biotecnologia, psicologia, leio muito sobre isso, mas Medicina eu nunca gostei, tenho verdadeiro pavor, não gosto. Gozado, eu destrincho um porco, mas não posso ver um corte num humano. Para mim o homem é meio intocável. Também lia romances, mas era menos. Sempre gostei de saber para onde o mundo está indo, para onde o homem está conduzindo o mundo, o que está sendo pesquisado, o que está sendo feito.

FAMÍLIA



Encontro com a mulher
A minha futura esposa estava se preparando para cursar engenharia também. Ela estudava em outra classe. Ficou um tempo na mesma classe que eu, depois foi para outro horário. Eu estudava à tarde e ela, de manhã. Depois fomos nos encontrar na Universidade. Comecei a namorar minha esposa numa viagem indo para o enterro de um amigo em Rio Preto. Como era perto de Penápolis, voltei com ela por lá. Minha mãe falou: "Começou a namorar com ela ontem e já traz em casa!" "Pois é mãe, hoje é assim, tudo bem". Essas datas a gente não esquece. Além de tudo, foi um começo de vida a dois. Eu falo sempre a um. Sempre digo que no casamento a matemática não funciona porque um mais um não são dois, mas um casal. Passa a ser uma coisa só, a matemática deixou de existir.

Viagem ao exterior com os filhos
Tem uma passagem, eu com os meus filhos na Inglaterra, quando fiz o meu "tour" de reminiscências. Cheguei no hotel, meu filho já tinha 16 anos, meus filhos todos fizeram curso de inglês, já sabiam inglês. Eu cheguei na Inglaterra e falei para o cara do hotel: "I have reservation for me and to my woman, to kids". Meu filho: "Pai, você fala inglês como índio!" Mas só que depois nós fomos para a França eu falei francês que nem índio, pedi comida e deixei ele passando fome. "O índio já comeu", falei.

Mudança de Itabira para o Rio
A família morou em Itabira, já tinha dois filhos lá. Os dois filhos meus são itabirutas. Eles dizem que não, mas são. Aí mudei para o Rio e comecei a fazer o projeto Carajás.

Convivência com os filhos e netos
Parte do meu tempo gasto visitando meus filhos, venho a São Paulo, e ao Rio. São dois meninos. São dois homens já. Tem um neto de cada um dos dois. Os filhos cada um na sua. Um é engenheiro mecânico, trabalha como projetista de caminhão da Mercedes Bens, em São Paulo, e o outro é zootécnico, mas percebeu que o negócio dele não vai dar em nada e já está montando um negócio com um amigo. Ele tem duas oficina de conversão de carro à gasolina para álcool. Os dois estão levando a vida, cada um por si.

OPINIÃO



Persistência nos objetivos
Eu acho que entre as minhas características tem essa, quando quero uma coisa, vira obsessão, eu me atolo naquilo e vou. Foi assim para fazer engenharia, para me formar, para entrar na Vale. Foi uma obsessão. Quando entrei na Universidade foi o mesmo jeito, agora que estou aqui dentro não saio mais, só saio formado.

"Para mim o Crusp foi uma lição de vida"
Acho que a experiência no Crusp (Conjunto Residencial da USP) foi para mim o maior ensinamento que tive em termos de conviver com raciocínios, com culturas, com formas de pensar diferentes. No Crusp aprendi isso. Saber conviver com pessoas que pensam totalmente diferente e respeitar os pensamentos diversos. Acho que foi no Crusp que aprendi isso porque em casa não foi. A espanhola não ensinou isso não. Tinha que pensar como ela. E no Crusp eu aprendi que não, que o mundo não é assim. Você vive com pessoas que pensam das formas mais diversas e você tem que tentar entender, ver como o cara pensa e conviver com isso. Não adianta, o mundo é assim. O mundo é de pessoas que pensam diferente. Para mim o Crusp foi uma lição de vida.

Liberdade de pensamento e ação
Acho que me dei bem na Vale porque nunca fui tolhido em nada do que eu pensava. Acho que a Vale sempre deu isso para gente. Minha mulher diz que trabalhei 30 anos na Vale porque fazia o que queria e ia para onde queria. Comecei a me afastar do movimento quando percebi que tinha que rezar pela cartilha deles. E, coisa que eu não concordava, eu não concordava. Isso não encaixava. Então, estava sempre presente, mas nunca quis me envolver como membro do grupo. Cheguei a entrar na AP, acho que é AP que chamava, era da Igreja Católica. O Dupas, um colega de Universidade, era um dos mentores intelectuais. Vários deles eram colegas de turma. Cheguei a participar dos movimentos, mas me afastei porque era muito limitante.

Visão de um futuro melhor para o mundo
A minha vida profissional todinha foi uma indefinição entre a engenharia e a geologia, sempre vivi na interface das duas, que é o que gosto. A geologia é para estudar pedra e passado e a engenharia, o futuro. Eu ficava tentando levar a pedra para o futuro. Sempre gostei do futuro, sempre meu pensamento foi voltado não para saber as coisas, mas como usar as coisas para construir um melhor mundo. Tenho certeza de que nunca seria um pesquisador. Minha mulher, por exemplo, tenho certeza que seria uma excelente pesquisadora. Ela queria fazer pesquisa. Se eu não fosse engenheiro de minas e precisasse ir para os cafundós do mundo, ela seria uma excelente pesquisadora.

"O homem é que Deus, que constrói o mundo"
Os geólogos contam muito uma história que aconteceu comigo. Tem um tipo de dobramento que faz na rocha. Quando encontra uma rocha com aquele dobramento é indício que lá tem um ambiente propício para a formação de jazidas minerais. Nós estávamos pesquisando no Pará e apareceu um geólogo com aquilo. A "geologada" toda: "Nossa, quer dizer que aqui é uma região de crinston?", eles olhando a pedra e eu falei: "Para que serve e quanto que vale a tonelada". Eu estava pensando para onde que ia essa porcaria. Essa foi sempre a minha visão da engenharia e do conhecimento humano. Estou cada vez mais consciente disso. Já sou "nietzschiano" mesmo. Deus é o homem. O homem que é Deus, ele que constrói o mundo. É para a gente fazer o futuro.

Globalização
Quando entrei na Vale, ela faturava menos de 500 milhões de dólares por ano, a faixa de 200, 300 milhões. Eu saí da Vale, ela faturando cinco bilhões. Isso depois de 25, 30 anos. Houve uma mudança no país. O país deu uma guinada. Muita coisa piorou, a concentração era ruim, continua ruim, ou talvez pior. Na realidade era ruim, melhorou e voltou a piorar. A globalização está piorando isso. Itabira hoje é diferente. Itabira tem tudo hoje, antigamente não tinha.

O Cobre como negócio importante
Me dói falar sobre o cobre porque acho que a Vale tem medo porque é um negócio para gente grande. Tem que botar dinheiro, mas ter certeza que vai tirar dinheiro. Carajás certamente vai ser o segundo produtor mundial de cobre, só vai perder para o Chile, certamente vai ser. É inexorável, mas precisa ter um cara que tenha peito como Eliezer. Ter peito é, como dizia Deoclécio, a eficiente irresponsabilidade da Vale do Rio Doce. Tem que ser um irresponsável eficiente. Ter coragem de fazer. Cobre está nesse quadro, tem que ter a irresponsabilidade de fazer. É lógico que tem que fazer bem feito. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Alunorte, que era um projeto que não saía do papel. O que me dói no cobre é que talvez tenhamos escolhidos alguns sócios errados. Hoje o cobre tem um pouquinho do problema de Carajás da época, ou seja, o desenvolvimento do cobre está um pouco amarrado às estratégias globais dos sócios e não exclusivamente à Vale. Mas precisa quebrar isso, o que não significa colocar os sócios para fora, tem outras técnicas para você resolver o problema. Eu tenho convicção absoluta que Carajás vai produzir mais de 600 mil toneladas, eu penso em número na faixa de um milhão. Isso leva o Brasil ao segundo produtor mundial de cobre.

Compromisso com o acionista
Se você tem uma coisa que você acredita, tem que lutar. Tem que ter a eficiente irresponsabilidade para fazer, tem que viabilizar, principalmente num país como o nosso que tem essa riqueza, que tem esse potencial. Não pode fazer como se fez muitas coisas. Mesmo a Vale que diz que gastou 80 milhões de dólares no titânio sem ter compromisso com a rentabilidade do acionista. Não pode ser feito, tem que ter esse compromisso com a rentabilidade do acionista. Se você pega um acionista, na época era o governo, que não entende nada de nada, você que tem que assumir isso. Hoje o que é: fundos de pensão, bancos etc. Ele não entende de mineração, tem que ter gente lá que acredita. É claro que o acionista tem que confiar em você. No caso nosso de governo, eles confiaram no Eliezer, que implantou Carajás.

Valor da Vale na privatização
Se houve erro na privatização - tenho convicção disso depois do episódio Telemar, das gravações que saíram da Telemar -, acho que foi mais alguns deslizes do BNDES, mas a privatização saiu, foi bem feita, não valia mais do que pagaram. Acho que eles pagaram o limite. Aquele negócio de que a Vale valia 12 bilhões. Nunca acreditei naquilo, sempre achei que a Vale valia menos. Eu queria que vendesse por 20, mas não adiantava, era aquilo que valia. Não se discute se está certa ou se está errada, se foi bom ou ruim, isso eu não discuto porque o que sobrevive é o que é certo. O errado não sobrevive, ele é destruído com o tempo. E a privatização está aí, foi feita, não vai voltar. Isso é o certo, o que tem que melhorar é isso e não voltar ao passado.

CIDADE



Mudança para São Paulo
Fiquei conhecendo São Paulo quando estava no científico. A situação financeira em casa estava ruim, meu pai queria que eu fizesse a escola preparatória para fazer carreira militar. Achei que estava bom, que eu ia fazer a área de engenharia no exército. Mas quando prestei o exame, não fui aprovado. No ano seguinte falei para meu pai que não queria mais, que depois dava um jeito de fazer o exército.

Cotidiano na pensão
No nascimento da minha neta, voltei a São Paulo e vi a pensão. Era de um italiano. Eu não me esqueço, tinha um rapaz do interior, ele era de Laranjal e tocava tuba. Tuba não, aquele que é enroladinho. Ele tocava aquilo, estava estudando. O sonho dele era tocar aquilo na Orquestra Filarmônica de São Paulo. Ele compunha também. Ficava escutando a música que ele estava tentando compor. Eu saí e fui assobiando. "Onde você ouviu essa música?" "Você toca toda hora". Ele ficou tão feliz de me ver assobiando a música que ele tinha feito. "Você não sabe a alegria que me dá, que alguém gostou da música que eu fiz". Foi uma coisa impressionante, como o cara ficou, o prazer quando o músico escuta a música dele tocar. Essa cena eu não esqueço de ver a felicidade dele. Eu não sei o destino dele porque morei pouco na pensão, morei uns oito meses só.

Mudanças em São Paulo
O Bairro Vila Mariana era muito tranqüilo. Eu ia de bonde para o cursinho, era perto onde é a Igreja Ortodoxa, do lado onde era a Brahma antigamente. Recentemente eu passei por lá, fui ao Hospital onde existiam umas casas. Hoje é um excelente hospital-maternidade preparado para receber gestante, para parto, fiquei impressionado. Meu tempo não tinha nada disso. O nenê está nascendo, está aparecendo na televisão. Está ali do lado de onde estudei, de onde morei. Hoje tudo foi mexido na Rua Senador Vergueiro. Hoje passa metrô, abriram, alargaram, mudou tudo. Mas a casa, a pensão que morei ainda está lá.

FORMAÇÃO EM ENGENHARIA



Opção por Engenharia de Minas
Originalmente eu sabia que iria para o lado das Ciências Exatas. Química, física e matemática eram as três áreas que eu mais gostava. Eu escrevia bem. Sempre tirava boas notas nas redações, não por competência literária do tipo escritor. Como eu lia muito, escrevia bem, tinha um vocabulário muito bom, sempre tirei boas notas. Mas nunca tive aquela imaginação de escritor para criar um texto, criar uma estória. Tinha um professor de química que eu gostava muito. Na época que a Petrobras estava começando e precisava formar técnicos na área de geologia, ela fez um trabalho de lavagem cerebral nos professores no Brasil de começar a desenvolver aptidões na juventude, desenvolver o anseio de ir para essa área mineral. Ela queria geólogos. Nessa época, o que o país precisava era de geólogos. Os professores botaram nas nossas cabeças a área de geologia. Fui o único que optou por geologia. Queria ser geólogo, mas minha mãe falou: "Filho meu tem que ser engenheiro ou médico, não tem esse negócio de ser geólogo". Ela, danada, foi fuçando, descobriu que tinha o curso de Engenharia de Minas, e conseguiu obter o currículo da Universidade e da Faculdade de Geologia. "Está vendo! São iguais, só que esse você sai engenheiro e não geólogo". "Está bom mãe, vou fazer engenharia". Fui fazer Engenharia de Minas. Levei a Universidade todinha no "Baile da Valsa". No terceiro ano ainda estava fazendo matéria do primeiro ano, fui levando assim. Fiz a Escola Politécnica da USP, a Poli. Na época era boa mesmo.

Cursinho para vestibular
Vim para São Paulo fazer os exames. No primeiro exame, passei em todas, menos em desenho. Tinha desenho no vestibular naquela época. O nosso professor de desenho não dava todas as matérias que caiam no vestibular. Fiz cursinho durante um ano. Com sacrifício, papai me pagou o cursinho e no ano seguinte eu entrei. Entrei na Poli, entrei na FEI. Não prestei exame no Ita, eu não queria o Ita. A Poli era e ainda é a Universidade mais famosa de engenharia do Brasil. Depois que surgiu o Objetivo essas coisas todas, tinha muita disputa. "Quem vai fazer Poli?" Eu estava lá no fundo, fiquei na minha, não vou falar nenhuma. No fim, ele virou para mim, Emilio Gabriagas: "você, oh barbicha, oh bodinho!" "Eu vou fazer geologia". "O que? Gastamos aqui para te preparar para você fazer geologia? Você tem que fazer Politécnica". "Vou fazer sim". A minha esposa lembra de mim no cursinho. Eu era da turma que ficava lá no fundo fazendo folia. Os que faziam folia ficaram conhecidos. Eu era o bodinho do cursinho porque usava uma barbicha. Era gozado, sempre gostei de ter cabelo comprido e usar barba, mas meu pai não deixava de jeito nenhum. Mesmo na Universidade ele não deixava.

Hábitos de estudo
Em São Paulo, eu morava próximo da Liberdade, na Vila Mariana. Eu morava numa pensão. Éramos três no quarto. Havia um colega de Penápolis que depois, no Mackenzie, se formou e foi trabalhar na CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Ele montou uma empresa e se saiu até muito bem. Uma vida próspera. O outro colega era de Urupês, no interior de São Paulo, cidade que deu título a um livro de Monteiro Lobato. Eu e esse meu colega de Penápolis estudávamos à tarde no cursinho. O de Urupês estudava de manhã. Só que quando sentava para estudar os dois juntos, um ficava conversando um com outro e acabavam não estudando. Íamos para o cursinho à tarde e esse de Urupês ficava sozinho, mas esse não estudou muito não. Chegava a noitezinha, naquela pensão, todo mundo junto, ia jogar baralho etc. Eu via que não tinha hora de estudar. O que eu fazia? Todo mundo ia dormir lá pelas dez, 11 horas da noite, então, ia estudar da meia noite até as quatro, cinco horas da manhã, todo dia. Esse meu colega ia para o quarto e dormia. Eu ficava sozinho estudando e dormia a manhã todinha. Foi o único jeito de conseguir estudar. Naquelas folias de pensão, imagina, ninguém estuda. Felizmente eu entrei bem, entrei fácil. Prestei exame e passei. Eu queria fazer em Ouro Preto, mas coincidia com os exames da Poli. Praticamente tinham duas provas que caíam no mesmo dia, não dava para estar em São Paulo e em Ouro Preto ao mesmo tempo. Hoje não, é fácil, a meninada faz exame no Ceará e presta exame para o Ita em São Paulo. Naquele tempo tinha que prestar exame na Universidade.

Entrada na Universidade
Eu entrei na Universidade em 1964 por aí. Um ano depois de formado, em 1968, minha esposa estava lá. Comecei a namorar minha esposa no conjunto residencial. Quando entrei na Universidade me engajei muito na política, isso foi antes do pau quebrar mesmo. Era a AP (Ação Católica da Igreja). Cheguei a participar, fazer trabalhos em favelas etc. Mas, depois fui fazer o CPOR, e logo cedo comecei conviver com várias pessoas que começaram a querer dominar minha vida, dizer o que eu tinha que fazer, como tinha que fazer. Nunca gostei disso.

Participação na invasão do Crusp
Quando entramos para a Universidade, fui da turma que invadiu o Crusp, que era o conjunto residencial da USP, onde aconteceram os jogos Pan-americanos em São Paulo. Vários prédios foram construídos na Universidade para alojamento dos atletas. Eram para ser, depois, alojamento de estudantes. Já havia aquele período de tensão, de revolução no Brasil etc, não queriam transformar e colocar os estudantes juntos porque ia dar problemas. Aí, nós invadimos. Participei da turma, dos 30 primeiros que invadiram o Crusp para morar lá. Pegamos as coisas e ficamos dormindo. Aí o governo não teve jeito, teve que admitir, botou a gente lá. Então, no tempo da Universidade, morei no alojamento. Dos movimentos do Crusp eu participava defendendo o alojamento para estudante. Quando a gente discutia isso, quando quiseram fechar, participei da grande invasão. Para vocês terem uma idéia, o dia da grande invasão, o pau comendo e eu dormindo, eu dormi o tempo todo. Estava cansado, o pau comendo lá em baixo e eu dormindo lá em cima. Eu não vi nada. Eu dormi não por apatia nem nada, dormi porque estava cansado mesmo. Participei da comissão que montou a cozinha própria. O jeito que o governo tentou tirar o pessoal foi proibir a cozinha. Primeiro aumentou o preço absurdamente. Fizemos uma greve, ele voltou o preço. Mas aí ele parou a cozinha. Arrumamos fogão, montamos cozinha, era aquela promiscuidade de cozinha. Fizemos cozinha própria. Desses negócios eu participava mais, mas a política não.

Alojamento na Universidade
A USP tinha poucos prédios. Os dois primeiros anos, que eram o básico, foram na Cidade Universitária, mas os três anos seguintes, que era mineração, fizemos no antigo prédio, onde hoje é a Fatec, na Tiradentes, em frente ao Quartel. A Poli velha que a gente chamava.

Quando nós invadimos, não tinha restaurante, não tinha nada. Saía andando, ia em Pinheiros ou no restaurante da Reitoria, que ficava aberto até a hora do jantar. Tinha um pessoal da limpeza à noite. A gente andava no meio de um pasto. A gente comia também no restaurante dos peões. Era a coisa mais comum ver ratos por ali. Éramos homens e moças. A gente se divertia, até tocava os ratos para cima das moças. Eu morava num quarto junto com o Jorge Fagalli Neto, que foi presidente da UEE e com um outro colega que era um biólogo, pesquisador.

Casos no alojamento
Tinha um quarto que eu achava interessantíssimo. Eram três pessoas por quarto. Nesse quarto tinha um sobrinho do Auro Moura Andrade, que era a ala direita do país mais radical. O outro era o Jeová, que morreu nas guerrilhas, parece que em Xambioá, durante a repressão. O terceiro era um rapaz de Santos. O Jeová fazia Física, esse sobrinho do Auro fazia Engenharia Civil na Escola Politécnica e tinha um que fazia Matemática, mas era um boa vida, gostava de passar as férias em Santos. Ele dizia que os maridos levavam as mulheres para Santos e voltavam para trabalhar. Ele ficava cuidando das mulheres em Santos. Costumo contar a história desse quarto porque tem o extrema direita, o extrema esquerda e o "dolce far niente". Para mim aquilo era o protótipo do Crusp. Era assim. A gente vivia num ambiente muito democrático, com os radicalismos de todos os lados, mas todo mundo se respeitando, respeitando as idéias dos outros.

Primeiro curso de computação no Brasil
Considero que minha formação de engenheiro se deu no primeiro e segundo ano. O resto contou pouco. Os cursos, principalmente na área de matemática, me deram uma formação de raciocínio lógico, desenvolver raciocínio, de pegar um problema e conseguir transformá-lo em equações. Acho que aprendi engenharia ali. O resto foi aplicação e muito mal. Foi a primeira turma de Universidade que teve curso de computação no Brasil. A gente programava computador usando, ainda, não era cartão não, a linguagem de programação de dua decimal, de doze posições, tinha que encher os espaços dos "bites". Tanto é que não aprendi nada. Foi no início realmente da computação no Brasil. O primeiro computador no Brasil em uma Universidade foi a Poli que começou a desenvolver. Colegas meus que entraram nessa área cometeram um erro. Depois da revolução, veio aquele nacionalismo de querer fazer um computador nacional, se enterraram querendo fazer um computador nacional, mas era uma área muito boa. A eletrônica já era uma área muito quente na Universidade. Engenharia de Minas ninguém queria saber. Eu fazia porque eu queria ser geólogo e minha mãe não deixou. O quente era fazer eletrônica na época.

Professor marcante no tempo de Universidade
O professor Paulo Habib Anderi, na área de mineração, talvez tenha me marcado mais pela personalidade do que pela matéria. A matéria dele eu nunca gostei. Sempre fui da área de mina, da área de pedra, de geólogo. O professor no fundo é um pesquisador, então, nunca me entusiasmei. Gostava muito de algumas matérias. Como disse, nos dois primeiros anos eu adorava, principalmente, cálculo e geometria analítica, e gostava demais da parte de estatística. Em termodinâmica nunca fui bom. Colava feito um desesperado da minha mulher, que era boa em termodinâmica.

Estágios
Depois do curso, fiz estágio em Itabira e saí de lá falando: "Vou entrar na Petrobras". Tinha feito estágio em duas outras empresas, uma em Volta Redonda, em Casa de Pedra, que não me entusiasmou, e na Plumbo, no sul de São Paulo, uma mina subterrânea de chumbo, que também não me entusiasmou principalmente porque a jazida estava em processo de exaustão. Ainda fiz estágio em Itabira, onde fiquei mais entusiasmado, gostei do ambiente, gostei do estágio. A gente escrevia para o Centro Moraes Rego, que escrevia para as companhias pedindo estágio. Eles davam estágios só de férias.

EXPECTATIVA



Processo seletivo para a Petrobras
Houve dois processos seletivos: o da Petrobras e o da Vale, que só tinha o psicotécnico, não tinha prova escrita. O da Petrobras tinha o processo escrito e o psicotécnico. Primeiro fazia o escrito e depois fazia o psicotécnico. Eu não sabia nem o que era psicotécnico na época. Fiz o da Petrobras para saber o que é psicotécnico para depois fazer o da Vale. Na prova escrita fui fazendo o que sabia, o que não sabia não respondia. Não fiquei preocupado. Numa sala havia uns 500 ou 1.000 candidatos de São Paulo, de várias Universidades. Fui o primeiro a entregar a prova. Fiz numa passada, o que fiz, fiz, o que não fiz fui embora. Quer dizer, deve ter sido uma porcaria de prova. Daí foi o psicotécnico. Esse eu fiz com gosto. Isso eu não me esqueço até hoje: tinham aquelas figuras de Rochard: aí eu já vi uma coisa entrando, outra coisa saindo e escrevi aquilo tudo.

Prova para a Vale
Da minha turma de mineração, que eram seis, só eu fui chamado para a Petrobras. Eu reputo que foi pelas loucuras que escrevi. Eu recusei. A Petrobras queria que eu fosse. O cara ficou admirado "O senhor está recusando trabalhar na Petrobras?" "Estou. Não quero trabalhar na Petrobras, eu quero trabalhar em mineração e não em petróleo". Besta que eu fui. Meus colegas ficaram doidos comigo. "Se eu passei na Petrobras por causa do psicotécnico, vou passar na Vale por causa do psicotécnico. Chego na Vale, as mesmas figuras, escrevo as mesmas coisas e não fui chamado. Meus outros colegas foram chamados para a Vale, dois outros colegas foram chamados e eu não fui. Aí começou minha antipatia pela psicologia. Isso é pessoal. Era a mesma prova gente. Eu fui chamado na Petrobras e não fui chamado na Vale, fiquei possesso! Aí eu tinha que trabalhar.

PRIMEIRO TRABALHO



Experiência com japoneses
Eu fui trabalhar no Rio Grande de Sul. Foi quando eu trabalhei dez meses com Baby Pignatari. O bom de trabalhar no Rio Grande do Sul foi viver com os gaúchos quase um ano. Eu gostei demais. Quando cheguei em Itabira, o pessoal me perguntou se eu era gaúcho porque falava igual gaúcho, era "bá" para cá, "chê" para lá, com aquele jeito de falar igual a gaúcho. Adorava o Rio Grande do sul, uma vida e um povo espetacular. Agora, como experiência profissional foi um período com alguns japoneses. Já estava se iniciando a Mitsubishi. Tinha um contrato de assistência técnica com o Grupo Pignatari, que mandavam na mineração. Os japoneses não ensinavam nada para ninguém. No fundo, estavam querendo comprar as minas do Pignatari. Então foi um período muito difícil. Mas nisso o Pignatari estava querendo assumir. Durante o período que eu estava lá ele rompeu com os japoneses, e eles foram embora. Depois, consegui ser um pouquinho mais engenheiro. Antes, os japoneses me botaram como peão. Trabalhei como perfurador, praticamente. Pegar martelete e furar frente de trabalho. Japonês dizia: "Tem que aprender furar uma frente".

Empresa de Baby Pignatari,
Quando Baby Pignatari, que foi uma figura marcante, botou os japoneses para fora, ele assumiu mais. Ele chegava com o avião dele, um Electra velho que ele comprou em Porto Alegre. De Porto Alegre ele pegava um bi-motor e ia para a mina, onde tinha um campo de pouso. Ele chegava mais ou menos às nove horas da manhã, conversava com a gente, contava experiências de vida dele, era uma delícia conversar com ele. Depois, lá pelo meio-dia, uma hora, ia almoçar. Marcava reunião lá pelas quatro horas da tarde. Aí ele já chegava de fogo e era terrível.

Casos com Baby Pignatari
Numa época que o preço do cobre caiu e ele estava ruim de caixa, marcou uma reunião que começou de manhã. Ele relatou tudo e nós ficamos conscientes do problema e das providencias que deveriam ser tomadas. Ele marcou para discutir depois do almoço. Depois do almoço ele chegou já bem dosado e falou que tinha que baixar o teor, fazer lavra seletiva etc. para poder ter mais rendimento porque o caixa dele estava ruim. Aí tinha um engenheiro de minas espanhol que falou: "Olha Sr. Pignatari, tudo bem, entendemos a situação, mas recomendamos que isso seja comunicado ao DNPM porque eles podem entender como lavra predatória e criar problema para o senhor". "O senhor está demitido, retire-se". Botou o cara para fora, mandou a polícia prende-lo na casa dele. Dois dias depois o caminhão botou a mudança e levou ele embora. Quando estava de fogo, ele era insuportável.

ENTRADA NA CVRD



Um dia marcante
No dia 22 de novembro, recebi um telefonema para entrar em contato com a Vale do Rio Doce. Essa é uma data na minha vida que considero "o antes e depois do dia 22 de novembro". Nesta data, também comecei a namorar minha mulher. A maioria das promoções dentro da Vale ocorreram em torno do dia 22. A mesma data da morte do Kennedy. Na véspera, um colega nosso, um dos líderes do Crusp, Rafael Cauã, estava indo visitar os pais dele em São José do Rio Preto e o ônibus caiu e ele morreu. Soubemos da notícia, fomos para lá num ônibus da Universidade. Na estrada, um pouco adiante de Rio Claro, paramos num restaurante para tomar um lanche e o rádio deu a morte do Kennedy. Não esqueço, estava com uma garrafa de guaraná na mão. Essa data marcou muito para mim. Foi um choque. Hoje, quando vou a Penápolis, sei direitinho qual é o restaurante. Ele mudou um bocado, mas a forma dele continua a mesma ainda.

Mudança para Itabira
Então, quando recebi a comunicação de que era para eu ir, pedi demissão imediatamente. Queria que me dispensasse de aviso prévio, não me dispensaram de aviso prévio. Tive que ficar um mês lá. Eu me lembro que quando eu saí mesmo, fui para Porto Alegre telefonar para minha esposa. Minha esposa ficou ainda um ano em São Paulo estudando. Acho que ela perdeu um ano na Universidade porque eu a distrai demais. Ela continuou em São Paulo no último ano, eu morando no Rio Grande do sul, eu já casado. Fui para Porto Alegre ligar para ela avisando que eu ia chegar, que estava pegando o avião para ir para lá. Sai no outro dia, às seis da manhã para pegar a roupa no hotel e ir para embora. Não consegui falar com ela porque o telefone não funcionava. Encontrei a minha mulher na Estação da Luz. Cheguei mais rápido que o telefone. Telefonei para a Vale: "Dia 2 eu estou aí para começar a trabalhar". "Não, você vem para cá antes do Natal". Aí, descobri que eles me chamaram urgente para cobrir as férias de Natal do pessoal e não porque precisavam de um engenheiro. Passei o Ano Novo trabalhando. Comecei a trabalhar dia 27 de dezembro de 1968, em Itabira.

Estágio na Vale
Quando fiz estágio na Vale já vi uma visão de futuro. Talvez isso tenha marcado minha vida, que acho que é sempre olhar para frente, sempre pensar o futuro. Era uma empresa que olhava para frente. Na Casa de Pedra, que era CSN, você notava que a preocupação era estritamente de operar a mina. A panela no sul de São Paulo era pior, era uma mina no processo de exaustão, era como fechar a mina. Quando trabalhei no Pignatari era o dia-a-dia, tinha que ser o dia-a-dia, você falava em futuro o cara falava "Isso custa dinheiro, não podemos fazer". Na Vale não, sentia que existia na equipe da Vale uma ânsia de construir um futuro.

TRANSIÇÕES



Antes de eu entrar para a Universidade, as turmas que entravam na Politécnica era de 100, 120 alunos. A minha foi a primeira turma de 300. Foi quando começou a expansão da elite, que era muito mais restrita. Então, esse pessoal viveu uma época muito marcante em termos de mudança no país em 1968, os movimentos que houveram no Brasil e fora do Brasil. Muita coisa piorou, muita coisa melhorou. Foi uma época marcante mesmo. O país foi outro depois. Tenho prazer de ter vivido nessa época, de ter ajudado nessa mudança, de uma forma pequena.

ITABIRA



Considerações sobre a cidade
No passado, Itabira não me chocou porque eu já tinha lido Carlos Drummond, as poesias. Já esperava uma cidade daquele tipo. Já conhecia o interior de Minas, Ouro Preto etc. Com o passar do tempo, eu senti bem o Drummond, o tipo de povo, pelo menos a Itabira que eu conheci, em 1968. Eu morei lá de 1968 a 1971. Dava para sentir um pouquinho a distância que havia entre a cidade e a companhia. Aquela nostalgia do Pico, essas coisas marcavam muito, você sentia isso. A Companhia dava muito condição de vida e você vivia dependendo pouco da cidade. Ia na cidade para comprar arroz, feijão, essas coisas assim. O resto não dependia de Itabira. Hoje, vejo isso com olhos diferentes. O Brasil da época era diferente.

Mudanças nas construções de estradas da mina
Fui ser engenheiro de minas, mas logo que cheguei, acho que eles começaram a perceber meu jeito. Não tinha paciência para operação, esse negócio de ficar olhando escavadeira, pega o pessoal, leva para cá, leva para lá, não dava para isso. O Darcy Germanni, que era meu chefe, logo percebeu e começou a dar problemas para eu resolver, que resolvia matematicamente, dava soluções, otimizava. Por exemplo, todo mundo ficava encafifado: fila de caminhões no britador. Eu fui pegar os livros, pegar teoria de fila, mostrei o que tinha que fazer para diminuir a fila. Aquilo foi despertando: aquele cara é de escritório. Eu me lembro que tinha um principio da mineração que dizia: "se você tem uma mina, você tem que fazer as estradas por fora para ela ser o mais permanente possível". Uma vez, conversando com o Antonio João, que era o chefe da mina: "Porque o caminhão, em vez de dar aquela volta todinha em volta da mina, não corta aqui e sai direto?" "Você calcule e vai ver como é mais caro fazer". "Eu fiz os cálculos e mostrei para ele que uma estrada provisória no meio diminuía tempo, ganhava no caminhão. Aí virou rotina fazer estrada pelo meio. Eu tinha uma capacidade, por isso que digo que os dois primeiros anos da faculdade me ensinaram muito. Pegava um problema, transformava ele em matemática e calculava quanto que ganha fazendo as coisas. Então, comecei a entrar nessa área. No segundo semestre, já estava no escritório calculando coisas, fazendo análise de dados. Ontem, buscando fotografias, encontrei relatórios que fiz na época, uma série de estudos que fiz. Tudo matemática. Eu gostava de transformar os dados do campo em números. Pegava estagiários e fazia dezenas de medidas de tempo e analisava aquilo.

PROCEDIMENTO DE TRABALHO



Construção de rampas como marca
Esse negócio de mudança de rampa para mim foi uma coisa interessante, era um principio de mineração que acabamos na Vale. Não se construía estrada no meio da mina, nós construímos e mostramos que era mais econômico. Isso para mim marcou. Um caminhão que dava uma volta enorme fazia uma linha reta. Euclides já dizia que a menor distância entre dois pontos é uma reta. Não podia fazer isso porque dizia que a estrada tinha que ser permanente. Tinha que ser permanente nada, numa mina você derruba ela e faz amanhã. O tempo de fazer uma estrada com trator custa menos de que dez caminhões rodando um segundo a mais. Um ciclo do caminhão. Essa foi uma das coisas que marcou.

Controle de qualidade da Vale
Outra coisa que marcou foi o estudo de controle de qualidade. Nessa época, já no segundo semestre, a Vale do Rio tinha decidido um plano de expansão. Quando cheguei em Itabira, logo em janeiro chegou a previsão do que a gente tinha que produzir em 1969. Aquilo foi um Deus nos acuda, a Vale produzia na época oito ou nove milhões de toneladas e a meta era produzir 14 milhões de toneladas. Aquilo foi uma loucura, o Darcy Germani ficava doido. Aí o Dr Vieira fez uma palestra técnica para os visitantes e eu fui assistir. Ele falou assim: "Hoje nós somos a quarta ou a quinta empresa de mineração de ferro no mundo. Dentro de cinco ou seis anos vamos ser a segunda e queremos ser a primeira dentro de dez anos". Que petulância, uns brasileirinhos! E não é que aconteceu tudo aquilo que ele falou!

IMAGENS CVRD



Uma das coisas que agradeço muito a Vale foi que senti o tempo todo que ela investiu na minha formação. O que eu fiz de curso, o que a Vale dava de curso. Eu não pedia, ela mandava fazer. Ela investia nas pessoas. Não sei como. Depois, quando cheguei em postos mais altos, não entendi como aquilo aconteceu. Realmente a Vale botava para aprender mesmo. Isso foi feito com muita gente dentro da Vale, que chegou a altos postos dentro da Vale. Quando já estava há uns cinco ou seis anos dentro da Vale é que surgiram esses cursos de admitir o pessoal e passar um ano dentro da Vale. Como alguns do passado deram certo, eles fizeram isso em massa.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO



Planejamento da mina
Fomos a segunda empresa em minério de ferro, fomos a primeira e até hoje a Vale é a primeira empresa de mineração de ferro no mundo. O que me atraía na Vale era isso, olhar para a frente. Tinha abertura dentro da empresa para propor novidades e inovações. Logo depois começou os planos de mexer nas minas para produzir 30 milhões de toneladas. A Vale contratou uma empresa, só me lembro do Elton Gaister, para coordenar o plano de mineração. Ele trouxe um gringo que sabia fazer planejamento de mina. Como eu já tinha caído para esse lado de matemática, me botaram com o gringo. Não esqueço que o gringo falou em inglês "Slowly, slowly, slowly" para ele falar devagar que eu tinha aprendido inglês no ginásio só. Ele falou devagar; "Eu vou ficar aqui no máximo três a quatro meses, nunca mais vou voltar, então, não quero aprender a falar português. Se você quer aprender alguma coisa, que aprenda inglês". Eu ficava agarrado a ele prestando atenção. Eu aprendi a falar inglês desse jeito, na marra. O Chico Fonseca dizia que no começo tinha vergonha de ver eu falar inglês. Eu chamava "he" de "she", "she" de "he", para mim tudo era a mesma coisa. Mas aí eu comecei a mexer com planejamento, que era a longo prazo. Criamos modelos de bloco, calculava a reserva com máquina Facit. Hoje usa computador. Fizemos uma mina de bloquinho. Passava dias, até altas horas da noite, serrando bloquinho na marcenaria da companhia. Terminou aquilo, nós vamos trazer para planejar a operação do dia-a-dia. Comecei então a botar a parte de planejamento. Na época, o planejamento era só técnico, visando o melhor. O problema da Vale era a qualidade dos produtos, tinha que sair dentro da especificação certa. Era um problema de credibilidade do mercado. Era saber juntar as partes certas da frente da mina para dar o produto com aquela qualidade. Acho que foi um dos grandes trabalhos que fizemos. Eu comecei, o Gazzolinha continuou, teve o apoio de um cara chamado Pilonel, que hoje está em Itabira, formado na Escola Politécnica, na mesma turma minha só que ele era mecânico e se especializou nessa área de estatística e economia.

Evolução da produção com a tecnologia
Sempre conto a história de que quando entrei na Vale, perguntei para o Antonio João: "Por que aquela escavadeira está naquele lugar?" "Por que o minério faz assim, depois tem outra camada que faz assim, a escavadeira entra e vai pegar o minério bom?" "Não sei, o planejamento mandou eu colocar, eu coloquei". Houve uma mudança de comportamento em relação à forma de tocar a mina. Para a gente é uma alegria ver o que a gente começou fazendo é uma realidade. Hoje é assim, as coisas são feitas de uma forma muito mais competente, eu diria, não só por causa do experimental que você tem, mas também por causa das próprias técnicas, principalmente porque entra a computação e a molecada hoje está terrível nisso. Os caras são feras nesse negócio, é feito de uma forma muito bacana. Antes a gente conseguia planejar uma mina no máximo um ano, saber para onde a mina ia no máximo para um ano, hoje eles sabem com precisão o funcionamento da mina para uns cinco ou seis anos.

Implantação de custo gerencial
Fiquei um ano meio em Itabira que nessa parte, depois fiquei um ano fazendo meio planejamento, mexendo com planejamento. Aí fiquei meio cheio daquilo, todo dia fazendo o mesmo planejamento e fui mexer com custos porque sentia necessidade de começar a botar custos naquelas decisões que a gente tinha. Já tinha feito cursos de gerencia por objetivo e me aprofundei em entender o sistema de custos da companhia, foi quando entendi que o sistema de custo era um custo contábil e não um custo gerencial. Fui no CPD e consegui mudar certos procedimentos e começamos a criar o custo gerencial que depois também veio a ser implantado na Vale. Começou nessa época. Aí a Vale entrou em Carajás e teve que fazer o projeto Carajás. Como já estava mexendo com custos e sabia mexer com planejamento, me mandaram para o Rio para fazer o plano da mina de Carajás.

CARAJÁS



Início do plano de mina de Carajás
Quando fui para o projeto Carajás eu já tinha o conhecimento do potencial dessa mina. O projeto Carajás estourou aos olhos do Breno logo de cara e depois qualquer um que chegava, quando eu cheguei, o problema era escolher entre tanta abundância, por onde começar. Comecei a fazer o plano de mina do projeto Carajás junto com a U.S. Steel na época, quando tivemos uma época de mudança no país. Nós tínhamos um grupo, o projeto foi dividido em sessões, então havia o planejamento de mina, beneficiamento, porto, estrada de ferro e administrativo, cada um com superintendentes ou gerentes, um americano e um brasileiro. E era batata, o americano tinha 40 anos de profissão, 50-60 anos de idade e o brasileiro era um moleque de 28-30 anos. Todos eles eram a mesma coisa. Tudo era assim. Talvez se tivesse outros eu não teria subido onde subi. Não tinha gente, era tudo molecada nova. Eu, Chico Fonseca, Paulo de Viváqua. Na estrada de ferro era o Arilton, bem mais novo que o gringo. Era tudo assim, sempre um brasileiro novinho com o velho americano. Começamos pela ferrovia e a concentração de minério. Onde tinha uma concentração de minério de melhor qualidade. Durante a própria pesquisa eles já começaram a perceber que era a M4, depois que nós concentramos na M4E. Mas isso já veio naturalmente. Ir para S11 que é onde tem o maior, significava mais 150 a 200 km de ferrovia, que já tinha mais de 900 km. Era melhor começar porque só ali dava para 20 a 30 anos ou até 50 anos. Como de fato está dando quando com a expansão para M5, que dará para muitos anos ainda. Então, não foi difícil escolher.

Parcerias no trabalho com americanos
No fundo sabíamos que os caras tinham muito mais experiências do que nós. A única coisa que realmente a gente tinha mais autoridade era o fato de se tratar de Amazônia e de ser um país tropical. Eu não esqueço até hoje, quando nós fomos especificar caminhão, ele queria saber o consumo do caminhão quando ele funciona parado. "Por quê?" "É que quando chega no inverno se não ficar funcionando congela a água". Isso aqui nunca acontece, ainda mais na Amazônia. Não quero saber o consumo dele parado ou funcionando. Ele não vai funcionar parado, quando ele funcionar vai estar rodando, carregando minério. Na parte de estrada houve a presença muito forte do pessoal.

Construção da Ferrovia
A tradição da Vale na estrada é muito grande. Até recentemente comprei um livrinho novo que saiu sobre a história da Vitória a Minas, que foi criada quase 50 anos antes da Vale. Ela foi fundada em 1900 e pouco. Então, havia uma tradição muito forte e a estrada na Vale foi construída graças à equipe da Vale. As experiências de fora eram muito poucas. Os gringos penaram para construir a ferrovia atual. Eles não eram tão bons em ferrovia como eram experientes em mina. Mas na parte de mineração nós apanhamos muito. Eu era um dos mais novos da equipe. Eu diria até que fui um pouco mão-de-obra. Mas nunca me preocupei muito com isso.

Prenúncio da globalização
Com a convivência com os americanos, a gente já começou a ver o mundo globalizado. Quando olho o passado sinto que o mundo globalizado começava. A gente estava naquela época ainda "Eu te amo meu Brasil, eu me ufano do Brasil, riqueza do Brasil". Nossa ânsia era muito construir, gerar emprego. Trabalhei grande parte da minha vida com a idéia de que o que movia o meu trabalho era gerar negócio, gerar emprego, gerar trabalho. Era o que o país pedia da gente que estava se formando, que estava entrando no mercado de trabalho. Era o espírito da Revolução e tudo isso, a modernização do país. Então, a gente punha acima de tudo essa construção. Embora, na Vale, a gente sempre teve de fazer as coisas tendo lucro. Mas tão importante quanto ter lucro era gerar negócio. E aí a gente sentiu o lado americano. Para eles, desenvolver o projeto Carajás não era mais um projeto que ia produzir minério. Aquilo era um programa dentro da estratégia global deles. E aí os atritos começaram. A gente já sentia isso de uma forma diferente. Eu interpretava, na época, que eles estavam querendo que a gente saísse. Hoje, interpreto como fazendo parte da estratégia global deles. Mas na época não, eu pensava que eles queriam por a gente para fora, que eles não admitiam que o Brasil tivesse tomado a jazida da U.S. Steel. Porque a jazida foi descoberta pelo Breno, que trabalhava para os americanos. E o governo brasileiro obrigou a se associar à Vale, senão não dava o direito de minerar para ele. Foi típico do poder ditatorial. Foi obrigado mesmo. A gente via aquilo como ciúmes. Hoje a gente vê que era parte de uma estratégia mais global deles. A globalização já estava começando.

Rompimento da parceria com os americanos
Quando eles saíram da parceria, o problema começou a ser outro. O Roquete Reis, um Presidente da Vale excessivamente mineiro -daquele de guarda rancor na geladeira -, tirou os americanos, comprou a parte dos americanos, aí aconteceu uma coisa interessante. O primeiro foi Israel Pinheiro, depois outros. O Roquete era bem preso dentro de casa, dentro de Minas, ele puxava muito para Minas. Fez uma grande coisa tirar os americanos porque sentiu que não havia projeto na medida em que existia um conflito de interesses entre o Brasil querer fazer um empreendimento e os americanos não querer subordinar o empreendimento aos interesses globalizados deles. Foi uma grande coisa tirar os americanos, mas ele ficou na dúvida. Começar um empreendimento novo quando já existe um funcionando é sempre melhor expandi-lo do que fazer um novo, é muito mais barato. Era mais barato expandir Itabira, abrir mina aqui em Minas Gerais que já tinha ferrovia do que construir um novo lá. Então, ele ficou num dilema e o mundo já tinha os primeiros reflexos do problema de carência de financiamentos mundiais, que só foram ser resolvidos, em parte, com a crise do petróleo, com a riqueza que desenvolveu nos árabes, que ficou sobrando dinheiro no mundo. Havia um problema de carência e de não ter interesse do Roquete Reis de desenvolver Carajás. Ele preferiu Timbopeba aqui no sul.

Mudança na visão estratégica da Vale
Na geração Eliezer Batista era uma visão muito mais brasileira do que mineira. Embora Eliezer fosse um engenheiro nascido em Minas, a formação dele era diversificada. Ele foi estudar no Paraná e depois era um cidadão do mundo. Ele via a Vale dentro de um enfoque muito mais mundial, muito mais nacional. O Mascarenhas também. Todos os outros que vieram depois eram mais nessa linha. O próprio Presidente Dias Leite, o Ministro Dias Leite tinha uma visão muito mais brasileira e mundial. Carajás só foi começar mesmo depois que o Eliezer voltou com a visão que ele tem a longo prazo, uma visão macro. Aí veio toda a parte de arrumar financiamento. Isso que aconteceu demorou. Carajás foi descoberto em 1967 e só em 1972 que começou a se operar, ou 1982. Foi em 1982 que começou a se operar.

TRABALHO



Rebep
Quando nós fizemos o projeto Carajás, naquela de olhar para onde as coisas vão, eu percebi que ia passar um tempão esperando para resolver um problema crucial que era o financiamento. Eu não vou ficar nessa boa vida aqui. Forcei a barra e saí mesmo. Nessa época, tinha a Rebep, a Valuec e a Docegeo. Uma série de empresinhas para resolver o problema organizacional. Eu saí da Amazônia, de Carajás e fui para a Rebep, aliás já era da Rebep, e comecei a fazer projetos de outras minas. Fiz um projeto de calcário em Cachoeira de Itapemirim, já tinha a pelotização, precisava de cal. Comecei a mexer nessa área na Rebep, fazer projeto Jaboti, que era um projeto de bauxita, em Paragominas.

Interface entre geologia e engenharia
Tinha que fazer uma série de projetos não só porque a Docegeo já estava descobrindo jazidas, mas também porque tinha que fazer os relatórios de lavra para obter o direito minerário. A Rebep é que fazia essas coisas. E aí foi se aprofundando, eu já tinha começado um relacionamento em Itabira com geologia. Mas era mais distante porque tinha duas questões: geologia de mina, com quem me relacionava e tinha pesquisa geológica, que já era outro departamento, era o Domingos que eu conhecia. Tinha mais relacionamento com o Juarez e o Marcos Tadeu que eram geólogos de mina. Em Carajás, me envolvi mais com o Wanderley, e com o Breno, nessa parte de pesquisa. Quando fui para a Rebep, aumentou porque passei a conviver com toda a Docegeo, com os projetos de pesquisa que a Docegeo fazia. Começou um envolvimento e aí aumentou a interface de geologia e engenharia de mina, a mineração, sempre fazendo esse trabalho.

TRAJETÓRIA CVRD



Área de controle de Carajás
Fiquei um tempo na Rebeb - era cedido pela Vale - e saí porque Fernando Reis falou: "Ou volta ou sai da Vale e é readmitido na Rebep". "Primeiro, não estou na Rebep porque pedi, vocês me mandaram. Falei que não ficava em Carajás, não queria ficar lá parado sem fazer nada. Eu quero é trabalhar". Aliás quem ficou lá ficou parado pensando besteiras, que acabaram fazendo, mas tudo bem. "Eu sou da Vale, fico na Vale". Aquilo criou um impasse. Eu não pedi demissão, ele queria que eu pedisse demissão. Arruma um lugar para mim que eu volto. Aí tinha um colega que tinha trabalhado comigo no projeto Carajás, o Cláudio Grael me trouxe e eu vim trabalhar na área de controle. Ele sabia já que eu tinha estudado a parte de custos e que tinha uma série de idéias sobre como criar um sistema de custos gerenciais. Eu tinha até escrito um trabalhinho. Então, fui para o controle, fiquei no controle uns dois ou três anos. Aí teve algumas crises, eu fiquei na área de assessoria dele.

Resultado do projeto de custo gerencial
Eu já era diretor quando um superintendente de controle falou que guardava aquele trabalho porque considerava um marco na mudança da Companhia. Chamava CICOC - esse incognoscível. Não é irreconhecível é incognoscível. Irreconhecível é quando você não conhece, incognoscível é porque ele não se dar a conhecer. É diferente. Ele mostrava uma série de coisas que, a partir dali, se começou a desenvolver idéias de se criar custo gerencial, primeira fase de custo, segunda fase de custo. O Iassim que falou que tinha guardado. Quando ele implantou a segunda fase, mandou um bilhete para mim "Ulisses, finalmente realizamos aquele sonho que você começou em 1971 em Itabira". Era o custo gerencial.

Funcionamento do custo gerencial
Ele reflete as tuas decisões na operação. Quando você muda um sistema operacional, o custo sobe ou baixa. Quando o custo é contábil e tem todos os rastreamentos, aquilo some, desaparece e não reflete no custo. Quando muda o sistema operacional, o custo gerencial vai limpando o que não mudou e fica só o que mudou. O que não mudou fica igual e o que mudou você vê se subiu ou baixou. São valores comparativos. Quando você pega uma empresa do tamanho da Vale e bota o custo da hora trabalhada do caminhão, naquilo ali tem desde o salário do presidente, até o contínuo ou até o cara que trabalha em Nova Iorque. Outro exemplo, quando tem uma multa grande de Fundo de Garantia, aquilo é rateado em todos os custos da Companhia. Então, às vezes o custo dele sobe e ele não sabe o porquê. Ele limpa isso e mostra para o gerente o que está acontecendo com aquilo com o que ele tem o poder de gerenciar. O que ele não tem o poder de gerenciar é uma outra história. Isso é o que nós começamos a fazer em 1971. Tentamos saber o que o cara tinha poder de gerenciar. Ser contábil é uma beleza, você consegue enganar o fisco fazendo isso. Mas o cara que está gerenciando precisa saber fazer isso.

Gerente do Departamento de Sistemas
Fiquei um ano com gerente do departamento de sistemas, que nunca foi meu. Quem era gerente do departamento de sistemas era o Israel. Desde que formado, ele que criou a área de sistema da Vale. Tinha 15 a 20 anos como gerente do departamento de sistema e o novo diretor que veio junto com o Roquete Reis quis mudar o contracheque, o holerite. Ele se recusava a mudar a forma do contracheque, aí o homem demitiu ele e já tinha outro candidato de fora para botar lá. O Grael, disse: "Ulisses, vai ser você porque se eu não disser que tenho um, ele vai trazer de fora". Então eu fui. "Vim aqui, não entendo disso, não sei quanto tempo vou ficar. Vim aqui para ser chefe, só isso, vocês que vão me ajudar a tocar isso aqui, eu sou só chefe". Aí eu fiquei lá um tempo, saí de lá também por atrito, por divergências. A Vale estava num turbilhão no fim do governo do Roquete Reis, foi um período terrível, nem ele sabia quem mandava. Me tiraram da área de sistemas e fui para o corredor, eu ia ser demitido. E o Manuel Magalhães que me conhecia do tempo da Rebep, de fazer os projetos para a Docegeo, falou: "Não, você não vai ficar sem emprego, vem para cá".

Criação da Sugeo
Fui chamado para a Docegeo para fazer exatamente o que eu fazia na Rebep que, nessa época, estava fechando, estava um descalabro. As empresas de engenharia entraram no governo impedindo que as empresas estatais tivessem empresas de engenharia. Acho que foi uma boa a Rebep não ter sobrevivido. Não fui para a Docegeo. O Fernando Roquete Reis, na verdade, queria que a Docegeo deixasse de ser uma empresa para ser uma superintendência da Vale. Então, ele criou a Sugeo. Aí o Emanuel, muito vivo, uma raposa velha que só ela, falou o seguinte: "Não dá para passar de uma vez porque os direitos minerários estão todos em nome da Docegeo. Não posso passar os direitos para a Vale. Quem tem o direito é a Docegeo. A gente cria uma superintendência aqui e, devagarzinho, vou absorvendo a Docegeo. Até hoje não absorveu. Então, fui para essa superintendência da Vale. Ficou claro qual era a minha função, Eu era o cara que fazia as avaliações econômicas dos projetos minerais. A partir daquilo, deixei de ser o menino rebelde e fiquei o resto da vida na Vale.

MINÉRIO DE FERRO



Projeto mineral comparado à exploração da mina
Você tem o processo de busca do bem mineral. Você olha uma pedra, ela é uma pedra. O homem é que tem a competência de transformar aquilo em um minério, em um bem mineral. O geólogo descobre as pedras que tem chance de virar minério. Mas ele sabe só isso. Daí você tem que tirar aquele minério, quanto que gasta de investimento, quanto vai botar de beneficiamento, posição do transporte, tudo isso e calcular e ver se a tonelada daquele produto consegue ser competitivo no mercado. Ele fica lá até o dia que o preço do minério sobe tanto que ele vira um bem mineral e deixa de ser um recurso e passa a ser uma mina. Esse trabalho é o que eu fazia. Teve uma mina famosa, a primeira que me levou para lá - não sei se vocês se lembram que descobriram ouro em Babaçu e Shigeaki Ueki falou que ia pagar a dívida do Brasil com aquela jazida. Eu fui para avaliar a jazida. Fui para os EUA para ver outras minas de ouro. Não tem porcaria nenhuma de mina de ouro. O que a gente faz agora? A jazida era o seguinte: tinha umas pedrinhas que tinha ouro, você analisava dava 1 kg/tonelada, era uma beleza. Quando você pegava aquilo, a mina era aquela pedra, algumas pedras de ouro, mas não sustentava um investimento mineral no meio da floresta. Primeiro que queriam tirar por dragagem aluvional. Fui visitar as dragas americanas, as dragas na Colômbia. Cheguei ver a mina e disse: "Onde está nossa mina não cabe essa draga". Não cabia nosso equipamento dentro da mina. Teve um veio de quartzo. Investimos porque tinha que livrar a cara do Shigeaki Ueki. Montamos uma planta, tiramos uma miséria de ouro de lá, pegamos os equipamentos e aproveitamos no projeto cobre, sempre visando que tinha que aproveitar porque aquilo não ia dar nada. Os geólogos sempre acreditando que tinha.

Relação com os geólogos
A relação era difícil. Os geólogos tinham marcação comigo. Fechei vários projetos na companhia, fechava mesmo, pára de gastar dinheiro. Um deles foi o famoso Projeto Titânio, não esqueço. Fui eu que cheguei para o Deoclécio e falei: "Pára de gastar dinheiro, acabou, não existe esse projeto". Já tinha gastado 80 milhões de dólares.

Mineração, a indústria mais velha do mundo
A tecnologia não pode dar conta desses projetos que foram interrompidos. Costumo muito falar que a mineração é a indústria mais velha do mundo. O primeiro livro de engenharia do mundo é sobre mineração. É o De Re Metallica, de Agrícola, que foi escrito em 1460, por aí. Se você pega aquele livro, os equipamentos que estão descritos são os mesmos de hoje, só que naquela época era movida à mão do homem ou burro e hoje é movido a motores. Mas os princípios são os mesmos. Então, são raríssimas as inovações tecnológicas. É uma industria que incluo no quadro das industrias senis. Ferrovia, mineração são industrias senis, velha, não tem "Back thru" tecnológico. Hoje, produzir minério aqui, domínio mundial, acabou. O que muda uma mina hoje, de ela ser economicamente explorável ou não, é a carência ou a disponibilidade do recurso no mundo. Ter mercado para ela com o preço que ela possa se viabilizar. É isso que muda. Carajás saiu porque as minas estavam acabando no mundo. Mesmo que pegasse a Austrália toda para produzir, ia faltar minério para a Europa. E o minério ia chegar caro na Europa. Cobre, hoje está no limiar de se tornar viável o de Carajás. Deve estar virando viável já.

BAUXITA



A Bauxita Jaboti que é uma grande reserva que a companhia tem em Paragominas, ela não se desenvolve porque tem uma outra jazida enorme que está suprindo. Enquanto aquela estiver dando recurso, não compensa investir em outra. Ela é uma jazida mais cara, você tem que investir mais. Então é mais fácil expandir Trombetas do que investir em uma nova. Essas coisas é que acontecem em muitas dessas jazidas.

OURO



No ouro está acontecendo o contrário, muitas minas estão fechando porque o preço de ouro não reage. Mesmo aquelas minas que eram viáveis, hoje não são mais. Para uma jazida sair do recurso e virar mina depende muito mais do mercado e do preço do mercado do que de tecnologia.

TITÂNIO



O titânio é um caso que depende de tecnologia, esse depende. Não existe, até hoje, uma tecnologia que produza um produto com preço competitivo porque existem outras fontes de titânio no mundo que produzem um titânio mais barato. Então, o nosso titânio não consegue entrar no mercado. Foi por isso que fechamos. Não conseguimos vender o produto por um preço que permitia viabilizar o nosso projeto. Não continuamos nada, acabou, fechamos. O Deoclécio foi de uma firmeza extraordinária, paramos o projeto, fechamos o projeto já com contrato de terraplanagem assinado. O caso do titânio teve muita pressão do tipo política. No caso do Pará teve muita pressão do governo para desenvolver as jazidas de cobre. Em Paragominas, existem pressões políticas para tentar desenvolver. A função do gerente é tourear, levar para lá, levar para cá, não posso fazer isso, mas faço aquilo. Depois aquilo não dá certo, inventa outro, e vai levando. Não adianta, a mina só é aberta se ela der remuneração. Só produtor de leite que nem eu é que continua perdendo dinheiro.

MEIO AMBIENTE



A pressão nas questões ecológicas foram mais recentes. Teve casos de empreendimentos que não saíram por riscos ecológicos. Um deles era uma fábrica de ferro-manganês na região de Carajás que tinha questão de risco ecológico. Passou a ser um dado técnico, tinha risco ecológico e que, também, vou ser franco, nós usamos muito o risco ecológico para não fazer. Se você me perguntar: não fizeram só por isso? Não. A jazida não era nenhuma "Brastemp". A jazida era de vida curta, e em qualidade não era uma beleza. Era uma jazida boa, tanto é que está sendo explorada até hoje, mas exige um processo de concentração que não valia a pena economicamente. Nós apoiamos muito no ecológico, mas é que economicamente não valia a pena.

SERRA PELADA



Presença do SNI em Serra Pelada
A minha participação na negociação e comercialização do ouro de Serra Pelada foi uma coisa interessante. Serra Pelada tinha um potencial grande, já deu umas 30 toneladas de ouro, deve ter lá mais alguma coisa, e nós queríamos explorá-la. Mas estava na mão de garimpeiro, toda uma pressão política para ficar. Foi aí que eu descobrir que havia uma relação muito grande com o SNI nessa época, porque o SNI quem mandava em Serra Pelada. Foi aí que descobri que tinha sido fichado no meu tempo de estudante no SNI. Estava fichado lá por duas razões: uma foi do meu tempo de AP e outra porque sou desertor do exército nacional. Tinha o SNI, tinha o Curió que era uma figura forte. Toda dia, no início da manhã, ele hasteava a bandeira e era aquela "garimpeirada" toda enfileirada diante dele, como no exército, para cantar o Hino Nacional. O Breno se dava bem com ele. Aquilo era problema do Breno. O meu negócio era comercialização e conversar com o SNI. De pagar, tem paládio, não tem paládio. A preocupação do SNI era o Figueiredo. Primeiro era a eleição do Figueiredo e depois era a eleição do Curió. O SNI tinha uma visão diferente das coisas, ele também tinha medo de tirar o pessoal e aquilo lá virar uma baderna. Se você ler grande parte da história política do Brasil, vai ver que o exército sempre está no meio com medo de rebelião. Eles criavam uns perigos. É terapia ocupacional de milico. Grande parte do meu raciocínio, eu raciocino em termos de terapia ocupacional, o que o cara faz para ocupar o tempo dele? O exército faz isso, cria rebelião fictícia, Plano Cohen, Intentonas, são rebeliões fictícias. Se existiram não tem a dimensão que o exercito dá.

Pagamento do ouro em Serra Pelada
No fundo era montar uma operação de comprar ouro. O governo falou: a mina é tua, mas não posso tirar os garimpeiros, então vamos fazer o seguinte: você compra o ouro e me vende. Então, montamos uma operação financeira, que ia desde receber o ouro; ver se o cara estava vendendo ouro e não terra, ou não estava vendendo pirita; pesar esse ouro e pagar. Tinha que pagar a dinheiro. O cara sentava na portinhola, vinha o cara com o ouro, media, pesava. Tinha uma caixa de papelão cheia de dinheiro do lado dele. Um pacote de 1.000, 2.000, 5.000. Eram uns dez compradores, cada um com uma caixa cheia de dinheiro do lado.

Seqüestro de funcionários da Vale
Havia uma tensão social em Carajás, mas eles exageravam nas coisas. Depois, quando já era diretor, quando tivemos que retirar os garimpeiros de lá para começar a explorar Serra Pelada, resolvemos do nosso jeito, simplesmente trazendo a imprensa e mostrando a miséria que era. Os garimpeiros seqüestraram nossos homens, a imprensa foi lá. "Deixa, chama a imprensa, só isso". Botamos a imprensa em cima, virou um escândalo, mostrando o absurdo que os caras estavam fazendo. Depois eles invadiram. A ordem era deixar eles fazerem a besteira. Os caras são movidos a sentimento. O cara que foi passou um aperto. Então, todo o mecanismo que o SNI usou para segurar o garimpeiro, usando a imprensa tudo, nós usamos para mostrar que aquilo era um absurdo. Se você ver as fotografias em Serra Pelada, aquilo era um crime. A exploração humana que existia ali dentro era um absurdo. Era um absurdo o que se explorou de gente ali. O dono de um barranco, ele tirava 70 a 80%, o resto ele dividia com 20 pessoas. Ele pegava os 80% e gastava no dia seguinte fazendo besteira. Não saiu ninguém rico de lá. Só o Curió que saiu eleito, rico não saiu ninguém. Os caras não sabiam nem guardar dinheiro. O cara ia para a Zona de Marabá, punha a mulher pelada, o que eu conseguir cobrir você de nota é teu. E a mulher levava o dinheiro embora. Um negócio absurdo, inconcebível no mundo que a gente vivia. O SNI estava com medo de uma possível rebelião, revolução. A guerrilha, já tinha terminado.

DIVERSIFICAÇÃO



Criação da Superintendência de Estudos e Projetos
Com a volta do Eliezer, a Vale já tinha diversificado na área de alumínio, de madeira e celulose, tinha uma ansiedade de ocupar a estrada de ferro com transporte de cargas, a Vale sentiu que precisava estudar não só os recursos naturais, mas o plano de diversificação, de entrar em novos negócios. Então, foi criado uma Superintendência de Estudos e Projetos que, além de fazer o estudo das áreas minerais, potenciais minerais, também fazia estudos de novos projetos. Aí que começamos a fazer uma série de coisas, inclusive o Projeto Titânio, que não foi adiante. Fizemos um autoforno em Itabira para tentar desenvolver uma produção de gusa em Itabira. Estudamos produção de gusa na região de Carajás, que hoje é uma realidade, apesar de todos os problemas que tem a região, problemas de equilíbrio ecológico, utilização de carvão vegetal. Mas é uma região produtora de gusa e de outros projetos fora da área de alumínio e fora da área de madeira e celulose porque já tinham órgãos especializados nisso. Depois veio a área de ferro manganês e a parte que acho que foi importante que é a energia elétrica.

Energia elétrica como um negócio
A Vale é uma empresa que tem uma dimensão tal que ela não sabe trabalhar no varejo, não é uma empresa de varejo. Ela é uma empresa de atacado. É uma atacadista. Ela gosta de trabalhar com coisa grande, é paquidérmica não no sentido da lentidão, mas no sentido do tamanho. Percebemos isso dentro da Vale e começamos a vender essa idéia. A energia seria um negócio importante dentro da história do país, que ia crescer mais, e, já que estávamos nos libertando daquele estatismo que o governo definiu: mina é com a Vale do Rio Doce, petróleo é com a Petrobras, energia é com a Eletrobras. Estávamos sentindo que a energia ia acabar tendo que ter mais investidores. Isso foi no fim da década de 1980, começo da década de 1990. Primeiro para Carajás. A energia elétrica é um seguimento importante. Uma das coisas que precisa muito para fazer qualquer coisa é energia.

Saída do ouro do Sudes
O que tomou muito tempo nosso foi a área de ouro. Isso sempre foi um problema, principalmente para a equipe que toca um projeto, a hora que chega um ponto, acabou a nossa função, passa para outro. Foi difícil tirar o ouro dentro da minha área. Fizemos a primeira operação de ouro rentável da Vale. Digo sempre que deu azar, tudo que projetamos deu errado, mas só que tudo para melhor. A produtividade foi mais do que esperava, a produção foi maior, a jazida foi maior, tudo foi maior, então deu azar. Criou a área de ouro na Vale. Mas quando foi para sair da área do Sudes e ir para uma área operacional, se transformar numa área independente, foi difícil a equipe concordar que acabou o estudo de projeto, isso sempre foi uma dificuldade. Mas nunca me inibi porque, particularmente, não gosto da área de operação. Quer dizer, gostar, gosto, mas não quero, têm outros para operar. O pessoal de Ouro Preto é especialista para operar, eu não sou.

ALUNORTE



Início de operação da Alunorte
Nós fizemos a Alunorte que, três anos depois de estar em operação, é considerada a mais eficiente em produção de alumínio do mundo. Hoje ela é um padrão, um "bench mark". É um negócio dificílimo de dar lucro. Para não correr risco tem que ter menor número de funcionário, tem que ter o melhor aproveitamento energético, tem que ter o menor investimento. Tudo nele tem que ser o melhor do mundo. Montamos uma equipe com esse desafio, fazer o melhor do mundo, e fizeram. Basta ter loucura de pressionar, pressionar, pressionar. Eu lembro que quando eu assumi a Alunorte, o plano era ter 850 funcionários. Eu falei "600?" Ele já percebeu que já estava cortado. O dia que ele veio "É conseguimos equacionar para 600". "450?" Antes de qualquer coisa, eu já sabia a quanto teria que chegar para ser viável e onde teria que espremer. Então, quando ele vinha com 600 eu já falava 450 e criei o famoso 421. Tinha que fechar com 421 empregados. A Vale confiou em mim quando fiz Alunorte, nesse ponto foi o Wilson e depois o Schettino. E fizemos a Alunorte. O acionista tem que ter alguém que ele acredite para fazer e saber que vai dar. Ele tem que ir até implantar e dar o lucro. Foi o que fizemos com a Alunorte até botar em operação.

Diminuição no consumo energético
O consumo energético por exemplo, uma vez conversando com Dr. Antonio Ermírio de Moraes, ele falou que uma planta de Alumina, só tem duas coisas que funcionam: consumo de soda e consumo de energia. Se você consegue economizar no consumo de energia, de soda, e de vapor, você tem uma planta eficiente. Tinha a Alcan, era a dona da tecnologia, falava que era a melhor coisa do mundo. Eu quero fazer um balanço energético. Levei seis meses para convencer a Alcan, quero saber quem é o cara que mais entende no mundo de balanço energético. "Mas nós entendemos de bauxita". "Vocês podem entender de bauxita, de alumínio". Descobrimos um especialista, ele levou o projeto da Alcan e diminuiu 15% o consumo energético. Hoje é o de menor consumo energético no mundo.

PRIVATIZAÇÃO - CVRD



Contrato de risco
Acompanhei a privatização de perto, como diretor. Para quem vinha de 25 a 30 anos de Vale, a privatização foi um processo meio traumático, difícil. Mas é aquilo, o futuro é o que vem. O futuro não é imagem do passado, o futuro não é uma cópia do passado, o futuro você que está fazendo. Era irreversível, nos engajamos, tentamos fazer o melhor possível. Eu creio que contribuí de uma forma importante dentro do impasse que foi o contrato de risco. Estava um impasse que era o potencial das jazidas que o processo de privatização não absorvia. Eu e Schettino discutimos e bolei a forma do contrato de risco, que não sei se vai ser cumprida, mas que pelo menos criou uma figura institucional que permitiu que a opinião pública aceitasse a privatização. O contrato de risco posso dizer que foi uma criação minha. Isso o Luis Carlos Mendonça de Barros disse na reunião com os jornalistas publicamente.

Vou ser franco, não me lembro muito do contrato de risco. Só lembro de uma reunião onde os jornalistas começaram a perguntar ao Luis Carlos Mendonça de Barros sobre o contrato de risco e ele começou a se "embananar", "Fala com o Ulisses que ele que inventou isso". Ninguém perguntou, eles queriam discutir politicamente e não tecnicamente. Então, ficou isso por isso e o contrato de risco que eu não acredito que alguém vai obedecer.

Negociação por envelope fechado
Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para apoiar o governo. Se houve divergências foi simplesmente porque queríamos o melhor para a Vale e para o governo e para o que o BNDES achava. Entre outras coisas importantes que mudaram, a mais importante é que deixou de ser leilão e passou a ser por envelope. O governo ganhou muito mais depois que foi envelope fechado. Serjão percebeu isso com clareza, se você compara a privatização feita pelo BNDES, as privatizações do setor elétrico e as privatizações do setor de telecomunicações você vê a superioridade da condução que o Serjão deu ao processo. Serjão deu um show no processo de privatização. Uma das coisas que eles fizeram foi isso. O BNDES a partir da Vale começou a trabalhar com envelope fechado que ganha mais. Na época, nem sabíamos qual era o melhor, mas o processo da Vale mostrou que o processo do envelope fechado é o melhor. Existia uma grande tentativa de corporativismo, mas era uma disputa de interesses corporativos dentro da própria direção, interesses de preservar cargo etc. É duro hoje, passado algum tempo, mas isso nunca me preocupou. É lógico que entre os licitantes tinham as preferências pessoais. Isso era normal, mas em termos de preservar cargo, eu estava tranqüilo, já tinha aposentadoria, já era aposentado. Já ganhava pé na cova, tinha abono permanência. "Você queria parar?" "Não, sempre pensei em trabalhar até os 60 anos". Parei com 55, tudo bem.

SAÍDA DA CVRD



Logo depois da privatização, em setembro de 1997, eu saí da Vale. No dia da privatização eu entrei com o pedido de demissão. Para mim acabou, foi um ciclo. Tenho muita consciência disso, assim como eu fechava um projeto, mudava minha vida. Quando sei que não dá, não dá. Hoje estou diferente, posso até voltar para a Vale porque já amadureci, mudei. Mas naquele momento não dava. O Schettino não aceitou minha demissão, depois entreguei o pedido para o Benjamim, que também não aceitou. Me enrolaram. Eu decidi não ir mais e fim de papo. A grande modificação que houve, é quando era estatal e não tinha acionista. A diretoria era dona da empresa. Quando privatizou eu podia falar o que queria que ninguém obedecia, sabia que não mandava. Foi um processo que percebi que ia acontecer, pedi demissão antes. Não vou ficar aqui que nem vaquinha de presépio, nunca foi do meu feitio. Quem construiu minha vida fui eu. Nós trabalhamos muito para apoiar o governo no processo, eu digo isso com tranqüilidade e consciência.

AVALIAÇÃO



Fui para o sítio, estou organizando minha vida. Comecei tentando produzir leite em larga escala, mas minha propriedade é pequena. Sinto que produção de leite, aliás, a agricultura é um negócio para ser em larga escala. Não é ser reacionário, mas esse processo de reforma agrária, tipo MST, 20 hectares para cada um, 50 hectares, o cara não tira salário mínimo por mês. Você não gera riqueza. A agricultura nessa escala tem que ser subsidiada, como é na Europa, no México e nos EUA. Para ser o que o Brasil quer, o que o governo quer, que é ser competitivo à nível internacional sem subsídio tem que ser em larga escala. Eu estava fazendo uma conta, se o cara tiver 20 hectares e plantar tudo de feijão ele vai tirar R$ 100,00 por mês de lucro. Um cara do MST vai ganhar 20 hectares, tudo bem, não vai passar fome. Estou ficando só com poucas vacas, só para ter o leitinho de casa, e para ter o que gosto. Gosto de vaca de leite, vaca bonita, vaca boa, que produz muito. Estou pegando minha terra, umas terras do lado, tentando fazer horta com o pessoal, arrendo para eles, eles me pagam um tanto por mês. Tentando com que os caras façam os negócios deles. Estou tirando uma renda mínima para mim, para dizer que não estou dando de graça. Tem um que tem uma horta grande, tem outro que vai produzir mandioca, o outro vai produzir abóbora. Depois me dão 20% do que faturar e vamos tocando.

Atualmente, leio muito, continuo estudando. A leitura que gosto é história e filosofia, isso é o que leio. Agora, entrando com esse negócio de biotecnologia, estou lendo muito nessa área e de mente humana, essas coisas.

DEPOIMENTO



Achei bacana a idéia do projeto memória, principalmente no caso da Vale, falar em função do que eu vejo para nós. Uma empresa que saiu de 300 milhões para cinco bilhões tem um grupo de pessoas que teve uma experiência magnífica, que não foi só simplesmente mais uma engrenagem do processo, foram pessoas que trouxeram alguma coisa. Quero que a Vale cresça. Fomos a maior empresa de mineração de ferro, e quero que ela seja a maior empresa de mineração do mundo. Esse processo de engrandecimento da empresa tem que continuar. Tenho entusiasmo de falar nisso, me emociono. Acho que ouvindo isso, os que estão lá vão querer continuar com esse crescimento, não vão querer parar no tempo. Esse negócio de globalização, para a Vale, significa uma coisa só, deixar de ser a maior empresa de mineração de ferro do Brasil, a maior empresa de mineração do mundo. Tem que ter isso na cabeça, se não tiver, é inexorável o destino da Vale, dentro de dois ou três anos ela será comprada por alguém, vai deixar de ser Vale do Rio Doce. Por exemplo, quando estourou a revolução, tinha a maior empresa de mineração que era a Hanna Mineração, era dona de todas as jazidas que hoje é da MBR, não existe mais, simplesmente não existe mais. Para dizer que não existe, ela tem uma fábrica de caixinhas de plásticos nos EUA. Se você não transmite a equipe essa ânsia de crescer, isso é inexorável, vai ser comprada. Como já fundiu Bilington, juntam o nome durante um período depois o nome some e começa uma outra. E aquele nome deixa de existir. Até hoje tem empresas que tem 150 ou 200 anos com o mesmo nome. Uma Coca Cola, uma coisa assim. Como se consegue isso? Através do sistema de transmitir à equipe o orgulho e de ir para frente com aquilo. No caso da Vale do Rio Doce, tem que fazer parte dos anseios das pessoas.

Não consigo lembrar da idade dos meus filhos, procuro lembrar o que eu fazia na época na empresa, a minha vida está amarrada às datas da empresa. Se não fizer isso com a empresa, se os empregados não fizerem isso com a empresa, não é o acionista sentado operando na bolsa de Nova Iorque, ou sentado no escritório do outro lado do mundo que vai ter esse amor pela empresa, porque quando tiver uma oferta boa ele vende sua participação, funde com outra e a empresa some. Uma empresa sobrevive se seus empregados conseguem manter aquele espírito. Esse Vale memória irá transmitir às novas gerações esse sentido de construir uma empresa grande, fazer uma empresa que, no mundo de hoje, não tem sentido se não for globalizada. O que significa ser globalizada, vamos ter que fazer outra palestra.

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