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História de João Manoel de Carvalho Neto

História de: João Manoel de Carvalho Neto
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

História completa

IDENTIFICAÇÃO



O meu nome é João Manoel de Carvalho Neto, eu nasci dia 12 de julho de 1941, em Vitória, capital do Espírito Santo.

FAMÍLIA



Pais
Os meus pais são de Vitória, nasceram lá, meus filhos e minha esposa também nasceram lá, nós rodamos um pouco o mundo, minha família, eu, minha esposa e meus filhos rodamos um pouco, meus pais permaneceram em Vitória, mas nós temos muita ligação com a cidade ainda.

Meu pai estudou no Rio, Vitória não tinha faculdades naquela época. Meu pai estudou no Rio e conheceu minha mãe em Vitória, não há nenhum destaque de como eles se conheceram, conheceram porque moravam numa cidade pequena, namoraram, papai ficou estudando no Rio, indo a Vitória, nesse namoro entre duas cidades, e acabou dando certo. Eles daqui a 29 dias fazem 60 anos de casados.

Origens
Do lado materno nós somos mais ligados a uma descendência italiana, o meu avô materno foi parar em Vitória como imigrante italiano, daquele bando que veio aí na mesma época, veio para o Brasil e rodou um pouco antes de se estabelecer em Vitória, era comerciante e ficou em Vitória, achou conveniente morar nesta cidade. O meu avô paterno era carioca, foi uma pessoa também que rodou um pouco o mundo, estudou, tinha uma vocação muito forte para ser padre, estudou num seminário e um mês antes de se formar ele teve uma briga com o bispo que era celebrado todo fim de ano, nós, todo fim de ano, dávamos um viva a esse bispo porque se não fosse ele nossa família não existiria, ele provocou meu avô, meu avô partiu com o crucifixo para cima dele, foi expulso da Congregação e daí começou a viver uma vida normal. E todo fim de ano, todo Natal, a casa de vovô era muito animada, toda meia-noite a gente parava e fazia um brinde à grande figura que colocou nosso avô diante da vida. Ele optou por Vitória porque ele se formou no Rio, ele foi um brilhante advogado, e foi convidado para ir para Vitória, e acabou ficando lá também, até a morte dele em 65.

Atividade do pai
Papai foi médico a vida inteira, hoje ele está com 86 anos e ainda dá umas "piruadas" na Medicina e eu tenho umas tias muito jovens lá, de 80 e poucos - papai é pediatra - que até hoje se consultam com ele, e acreditam na consulta dele, isso é que é mais interessante. Ele trabalhou, foi médico a vida inteira e exerceu a profissão, ele foi o terceiro médico pediatra de Vitória, então é muito conhecido na cidade. E ainda trabalhou na Vale, na Associação dos Funcionários Públicos e no Instituto, quer dizer, todo mundo de Vitória passava pelas mãos dele, então era uma figura muito conhecida e muito querida também e ele aposentou-se pelo Instituto e aposentou-se pela Vale também. Ele tem uma história interessante, nessa ida dele para a Vale, que a responsável pela ida dele para a Vale foi uma empregada da nossa casa, eu me lembro da história, eu tinha uns 12 anos, mais ou menos. Essa empregada, de nome Dulce, falou para a minha mãe: "Eu não me conformo do Doutor João falar que não é médico da Vale e todo mundo lá no morro de Santana fala que ele é médico da Vale e ele fala que não é." Aí minha mãe se interessou pela história, foi atrás e ele não era registrado na Vale, mas era como se fosse, e aí minha mãe perguntou ao chefe dele, o Doutor Peixoto, como é que era essa história de que papai era ou não era médico da Vale: "Não, é porque ele não quer, porque na hora que ele quiser entrar ele entra." Então por causa da Dulce, nossa inteligentíssima empregada, ele entrou na Vale e ali permaneceu até se aposentar em 1981. Ele é aposentado pela Vale e pelo Instituto. Ele era também clínico geral, mas a Vale naquele tempo, as estatais naquele tempo, tinham um pouco de tudo, então tinha os médicos da própria empresa, os médicos tinham algumas especialidades, e ele era pediatra, ele tomava conta dos filhos dos empregados da Vale, lá pelo começo de 50, por aí.

Filhos
Tenho três filhos. Eles têm 32, 28 e 25. Dois deles estão hoje no ramo de restaurantes e fast-food, lanchonetes. Eram três, eles já tem três negócios, eu montei um para eles, eles cresceram, hoje têm três e o terceiro hoje está tentando pular fora desse ramo, está se identificando mais com marketing esportivo e está trabalhando como franqueado do Flamengo em escolinha de futebol.

CASAMENTO



Quando nós casamos ela trabalhava na contabilidade do Departamento de Estradas e Rodagens de Vitória, ela gostava de trabalhar, trabalhou cinco anos lá e, segundo ela, nós tínhamos os horários diferentes, ela trabalhava num horário de 11:30 às 6:30 e meio-dia era o horário que eu chegava para almoçar, então a gente no primeiro ano não se cruzava para o almoço, e segundo ela me acusa, absolutamente indevidamente, eu, um determinado dia fiz cara feia porque almoçava sozinho e ela parou de trabalhar, mas também logo depois engravidou e essa pendência ainda existe entre a gente, se foi eu ou se foi ela o provocador dela parar, para mim foi ela, ela acha que fui eu.

INFÂNCIA



Turma do Parque Moscoso
Existiam várias turmas na cidade, turma da Praia do Canto e realmente a turma do Parque Moscoso era uma turma mais coesa, mais amiga, nós tínhamos algumas características interessantes, era o melhor time de futebol de bairro da cidade, os garotos mais bonitos da cidade, onde tinha o clube mais elegante da cidade. Realmente é um orgulho falar que a gente é do Parque Moscoso.

A infância em Vitória era algo absolutamente livre, não tinha nenhum risco de nada, não tinha nenhuma fumaça de violência, nenhum assalto, nada, quer dizer, então a gente tinha realmente uma infância absolutamente livre, fizemos de tudo, todas as brincadeiras de crianças, sendo que a preferência sempre foi pelada na rua, mas de tudo, qualquer coisa que você imaginar de bola de gude, papão, pião, soltar pipa, trepar em morro, cair de árvore, quebrar pé, quebrar cabeça, o capeta. A gente não tinha limites porque era assim, a cidade era pequena, calma, pacata, e permitia muito essas coisas todas aí e o único bandido que tinha lá na cidade era amigo nosso, morava lá no morro Moscoso atrás da nossa casa, a gente conhecia bem o Joel Negão, e o Joel Negão sempre nos protegia, quer dizer, bandido era aliado nosso, já nos tirou de umas boas, quer dizer, tudo em casa.

Uma delas foi um 31 de dezembro que a gente estava lá no Parque se preparando para o Reveillón, para ir para a festinha, todo mundo já meio chumbado lá e passaram uns caras mais fortezinhos lá de Santo Antônio, que é um bairro mais à direita do Parque Moscoso, mais perto do cemitério, e a gente começou a mexer com os caras e os caras vieram brigar com a gente, e a gente estava a ponto de tomar muita porrada, porque os caras eram mais e mais fortes que a gente, só me lembro quando o vulto do Joel Negão apareceu não sei de onde e um dos nossos gritou para ele, aí apareceu um crioulão lá de 1 metro e 90 e tantos, saiu dando pernadas para tudo que é lado, tinha um cara com a navalha, ele tirou a navalha do cara, quase que ele próprio dá uma riscada no caboclo lá.

A gente não podia freqüentar sinuca, isso era muito rígido, essa questão da idade, e o Joel chegava lá e falava assim: "Os meninos vão jogar aí e fim de papo." E a gente jogava, freqüentava o salão com 15, 16 anos, porque o rei da zona ordenava e a gente ia lá todo senhor de si.

Autoridade
Não vejo nenhuma lembrança de nenhuma autoridade, acho que lá em casa não tinha esse negócio assim: "Vou falar com seu pai, vou falar com a sua mãe e dar castigo." Acho que não teve isso não, eu tive uma vida muito livre desde muito cedo. E por ser filho único, eles tiveram, não sei qual dos dois ou se foram os dois, eles tiveram uma jogada muito interessante de fazer essa coisa de não me proibir de nada, porque a jogada deles era que eu não sentisse falta de irmão, então abria a casa para os amigos. A minha casa sempre foi ponto de encontro de todos os amigos, então isso não me fez realmente, até essa idade de hoje, ter nenhum peso de ser filho único, de ter sentido falta de irmãos, porque uma coisa que meu avô fazia e meu pai também, com muita maestria, era cultivar amizade e isso eu herdei deles e acho isso uma das poucas virtudes que eu tenho, talvez seja essa aí e das poucas a melhor de todas, e felizmente isso foi passado para os meninos, também acho que os meus três filhos têm muito essa forma de vida gregária, que veio do meu avô para o meu pai, passou para mim e eles pegaram isso também.

CASA



Durante a infância eu morei em três casas em Vitória, eu consigo descrever cada cômodo, cada cor de cortina dos quartos, a coisa é sempre muito viva na minha lembrança. A melhor foi a segunda casa porque na terceira mudança a gente já foi para um apartamento, no dia da morte do Getúlio, no dia que nós mudamos foi o dia da morte do Getúlio, estava um tumulto na cidade, 24 de agosto de 1954 e essa casa, essa segunda casa, era uma casa de dois andares, embaixo tinha um porão, esse porão era território meu. Tinha, sei lá, talvez uns 30, 40 metros quadrados, que ali a gente tinha o direito de fazer de tudo, jogar bola, tabela de basquete, pingue-pongue, fazer teatro, então era uma coisa muito interessante, era propriedade minha, eu era filho único, não havia necessidade de se utilizar esse cômodo na casa, era uma casa de dois andares geminada com o vizinho, e morava nessa família um garoto que era da minha idade, que nós ficamos amigos nessa casa e lá se vão 59 anos de amizade.

EDUCAÇÃO



Comecei no jardim da infância, primário, admissão, Colégio Salesiano, Colégio Estadual, eu apesar de ter sido meio molequinho nessas coisas de rua, de certa forma não era mau elemento, mas era meio da molecada. Eu sempre fui muito bom aluno, sempre estudei, sempre gostei de estudar, eu ainda gosto até hoje, aos 59 anos eu ainda gosto de estudar, adoro fazer um treinamento, participar de um curso. Eu sempre dividia muito bem o meu tempo, minha malandragem era prestar atenção nas aulas, já que bateu a sineta a gente não podia fazer mais nada, porque se fizesse, tomava, então eu aproveitava o tempo, já que eu não posso fazer nada, eu vou aprender na sala de aula para poder ter o meu tempo livre para mais lazer, então a minha jogada era prestar muita atenção nas aulas. Eu tive um privilégio de ter professores maravilhosos no ginásio, primeiro e segundo ano, Dona Odete, depois Dona Mariazinha, não pude pular o admissão, não tinha idade para pular o admissão, tive que fazer o admissão, só o pessoal de 50 para cima que entende essa linguagem. Fiz o admissão no Colégio Salesiano, passei em segundo lugar, depois fiz o ginásio entre o primeiro e quinto sempre, depois o científico no Colégio Estadual, mudei do ginásio para o Colégio Estadual porque era um colégio mais apertado, que apertava mais as matérias que eu queria fazer, que eram Matemática, Física e Química, depois vim fazer um cursinho no Rio para Engenharia, passei aqui e fiquei cinco anos fazendo Engenharia.

IMAGENS CVRD



A Vale também cresceu muito, junto com a minha faculdade, enquanto eu estava fazendo faculdade a Vale começou a crescer, a Vale deu o grande pulo dela em 1962, na decisão do Projeto Tubarão, antes disso a gente via muito era transporte de minério de ferro, descarregamento lá no chamado Pela Macaco, e as coisas ficavam por isso mesmo, a gente sabia que era uma empresa boa e etc. Mas, em 1962 é que ela deslanchou com a primeira grande visão do Doutor Eliezer de construir Tubarão, e aí começou a ficar assim um pouco de fascínio, a Vale começou a virar um objeto de sedução para os engenheiros.

FORMAÇÃO EM ENGENHARIA



Escolha da profissão
Eu ficava meio fascinado com aquelas histórias dos meus colegas mais velhos que vinham para o Rio e iam passar férias em Vitória, com milhões de histórias, muita menina bonita, muita festa, muita praia e eles eram muito idolatrados naquela coisa nova de cidade pequena, o cara vindo do Rio, achava aquilo bonito, tinha uma inveja daqueles caras desgraçada, falei: "Eu vou entrar nessa, eu vou para o Rio." E como eu tinha muita vocação para Engenharia, Vitória nessa época já tinha uma grande escola de Engenharia, escola de Engenharia em Vitória sempre foi muito boa, mas lá só tinha Engenharia Civil, então eu, para justificar a minha necessidade de vir para o Rio, optei em fazer Engenharia Mecânica, porque em Vitória não tinha, então convenci meus pais de que eu tinha uma vocação forte para Engenharia Mecânica e vim para o Rio. Civil eu ia ficar em Vitória e como é que eu ia passar minhas férias lá, bonito, queimado, cheio de menininha lá? Então eu vim para o Rio. Com essa grande jogada para fazer Engenharia Mecânica, e a Engenharia Mecânica foi minha aliada nesse momento e durante a minha vida profissional praticamente toda também foi muito aliada minha.

Estágio
Meu primeiro estágio foi no Estaleiro Mauá, lá em Niterói, estagiava lá com um grande amigo meu, hoje presidente da Embraer, Maurício Botelho, a gente fazia esse trajeto todo dia e aprendemos bastante lá, foi uma experiência muito legal. Eu e Maurício estávamos juntos, fomos para essa Tecnotransporte, onde ficamos até a gente se formar. Continuamos como engenheiros seis meses, depois eu passei na Vale, fui para Vitória e esses dois grandes amigos meus, Maurício e Melaz, continuaram a vida deles aí, a gente andou se separando profissionalmente, mas muito junto ainda, fisicamente. A Engenharia Mecânica entrou por acaso, na verdade você faz o primeiro, segundo ano na Engenharia você faz o básico, se divide no terceiro ano, se dividia, não sei como é que é essa história hoje ainda, mas se dividia no terceiro ano, e eu até poderia ter optado por uma outra especialidade, eu poderia falar: "Não, mudei de idéia e agora vou fazer Engenharia Civil, outra coisa." Mas eu me identifiquei mais com a Mecânica mesmo, quer dizer, ela entrou para alavancar a minha vinda para o Rio, mas no final eu acabei me identificando muito com ela. No final do quinto ano a gente tinha que entregar um projeto, o meu projeto foi feito dentro da Vale, facilidade que a gente tinha, eu e Aníbal Martins, foi outro amigo meu de faculdade, nós fizemos meu projeto dentro da Vale na oficina de Itacibá, e depois então apareceu esse concurso, eu e Aníbal fizemos juntos esse concurso, passamos e fomos para Vitória.

TRANSIÇÃO



No começo, aqui no Rio, foi bastante complicado, primeiro que um ano antes, uns tios meus que moravam no mesmo edifício que eu morava, eles se mudaram para o Rio e esse casal de primos meus, filhos desses tios - são muito amigos meus até hoje, são padrinhos do meu primeiro filho - e eu passei o primeiro ano morando com eles em Laranjeiras. A adaptação foi amortecida porque eu tive muito conforto, a mãe deles era minha madrinha, quer dizer, tinha todo um conforto. No Rio, tomei três pancadas muito fortes nesse primeiro ano de Rio. Primeiro que eu não era conhecido com as garotas, eu era muito disputado lá em Vitória, cheguei aqui tive que disputar namorada à tapa no Fluminense. Segundo foi que eu tinha passado no segundo científico no Colégio Estadual com média dez em Matemática e a minha primeira nota no Santo Inácio, a primeira prova que eu fiz no Santo Inácio foi zero, estavam dando número complexo, que eles tinham começado no segundo científico, eu não tinha a menor idéia do que era número complexo, quer dizer, passei de dez, de melhor aluno do colégio, para zero. E eu jogava basquete, era um jogador bem razoável, cheguei a primeiro time do Fluminense, fui campeão carioca jogando basquete, mas cheguei no Fluminense também tive que disputar, ficar no banco, tinha muita gente muito melhor que eu. E foram as três coisas em que eu me achava super bom, pelo menos as pessoas falavam, tudo isso, eu cheguei aqui tomei três porradinhas bem fortes, logo tudo de uma vez só, em dois, três meses foi para ver o que é bom para a tosse aí. Depois foi tudo se arrumando e o Rio é realmente a nossa cidade por opção, minha, da minha mulher, dos meus filhos, embora eu esteja morando fora hoje, o apartamento está firme aí.

RIO DE JANEIRO



Estudei no Rio de 59 a 66, então recordando: Brasil bi-campeão de futebol, Bossa Nova, Teatro Novo, Cinema Novo, campeão mundial de basquete em 62, aqui no Maracanãzinho, Eder Jofre campeão mundial, Maria Ester Bueno campeã de tênis, tudo dava certo, lembro Castelinho aparecendo, a praia do Arpoador brilhando, os bares de Ipanema lotados, o Jangadeiro, o Zepelim. Eu só queria era viver tudo isso de novo para ter uma percepção do que eu vivi, quer dizer, eu estou lendo agora um livrinho do Nelson Motta, falando um pouco dessa época, eu me vejo em quase tudo, embora não me recorde de alguma coisa de bastidores, mas eu me vejo em quase tudo. Eu namorei uma menina chamada Maria Helena, irmã de Carlinhos Lyra, e a gente ficava, 59, 60, 61, sei lá, a gente ficava querendo namorar e tinha uns "murrinhas" lá tocando, ela morava no primeiro andar, num térreo, e tinha uma saletinha no final e tinha uns "murrinhas" lá que ficavam enchendo o saco, a gente queria namorar e os caras tocando violão, eu tenho a maior curiosidade em saber quem era. Porque talvez fosse Tom, Vinícius, sei lá eu quem era, tinha uns caras que estavam lá compondo uma música diferente, eu não sabia direito o que era e chamava ela para sair de casa: "Vamos embora passear na praia porque aqui esses caras não deixam a gente namorar direito." Eu tenho a maior curiosidade em voltar lá e saber quem eram essas pessoas que estavam tocando, cantando lá. Praia era frescobol, São Conrado, foram momentos realmente fascinantes, a despreocupação de andar pela rua, ir de sunga para a praia, voltar de sunga, andar de lotação, sair à noite, namorar à noite na praia, andar por aí, por tudo que é canto, sem nenhuma preocupação com violência, sem nem idéia do que era isso. As primeiras boates, as primeiras boates do Leme, Girau, Le Bateau e o Zepelim, enfim, duro mas conseguia fazer um pouquinho de tudo, vida de estudante, mas dava para fazer um pouquinho de tudo.

ENTRADA NA CVRD



Não tinha muita preferência não, nem pensava em voltar para Vitória e acabou que os salários da Vale era bons salários nessa época, e foi nesse momento que aconteceu, talvez se eu tiver que enumerar cinco grandes lances da minha vida, esse foi um deles que foi muito interessante porque, como nós fizemos o trabalho da oficina de Itacibá, eu fiquei enamorado da oficina e Aníbal também e tinha duas vagas, uma para oficina de Itacibá e uma para o Porto Tubarão. E eu queria ir para Itacibá e Aníbal queria ir para Tubarão, e o Superintendente da época olhou as avaliações e falou: "Não, você vai para Tubarão e o Aníbal vai para Itacibá." Aí eu fiquei meio frustado porque a oficina mecânica era uma coisa que a gente já conhecia. A oficina de Itacibá morreu como oficina de Itacibá, e o Porto Tubarão, que tinha uma linha singela de correia transportadora, que recebia navio de 100 mil toneladas e transportava 6 mil toneladas por hora, quando eu saí de lá estava transportando 30 mil toneladas por hora e recebendo navio de 300 mil, quer dizer, eu peguei toda a fase de crescimento de Tubarão, que foi um crescimento assustador nessa época que eu estava lá, e a oficina de Itacibá morreu do mesmo jeito que a gente fez o nosso projeto lá. E o Aníbal continuou como engenheiro de oficina, depois foi chefe de oficina, não tinha a abertura e a visibilidade que Tubarão dava para dentro da empresa. Isso foi em 1966.

Quando eu me formei em 1965, naquela época a gente era apanhado dentro da escola para ser empregado, quinto ano já tinha um monte de empresário circulando, eu fiz estágio desde o terceiro ano. Quando eu me formei eu estava trabalhando numa empresa chamada Tecnotransporte, mexia com material para indústria naval em São Cristóvão, aí apareceu um concurso para a Vale, me chamaram também para fazer o concurso, eu fiz, passei, e em 5 de julho de 1966 eu comecei na Vale.

A inauguração foi 31 de março de 1966, coincidência, fácil lembrar naquela época. E eu cheguei lá em julho de 66, eu fui o terceiro engenheiro do Porto de Tubarão, fui para lá como engenheiro de manutenção mecânica, nunca tinha visto na minha vida uma correia transportadora, não sabia nem o que era uma correia transportadora, só de livro, ver fisicamente, não ligava o nome à pessoa, mas aí encarei lá e tive muito apoio, foi legal, algumas pessoas muito marcantes que me ensinaram a vida. Teoria na faculdade é muito legal, te dá muito estofo, muito poder de raciocínio, de aprendizado, mas fora das paredes da faculdade a coisa é bem diferente.

RELAÇÃO DE TRABALHO



Tubarão não tinha nem nome, ele chamava-se GOPT, que era Grupo de Operações do Porto Tubarão, um grupinho que foi criado para botar a bola em jogo, então era o Leitão, Luís Fernando Fontes de Melo Leitão que era o chefe do grupo, Darci Provedel, o engenheiro eletricista e eu engenheiro mecânico, 24 anos de idade, chefiando 200 pessoas, não tinha a menor idéia de como é que eram essas coisas, mas, enfim, me jogaram na piscina, eu nadei. E depois, com o passar do tempo, o grupo foi crescendo um pouco mais, aí virou uma Superintendência e para felicidade nossa o designado para ser o Superintendente do Porto foi uma figura fantástica e maravilhosa chamada Hélio Ferraz, talvez depois de Doutor Eliezer e João Carlos Linhares, talvez o grande nome da empresa nessas décadas de 60, 70, final de 50 e 60. Hélio morreu em setembro de 1970, e ele foi um cara muito na frente do tempo dele, foi uma figura, um profissional e uma figura humana fantástica, um sujeito que hoje a gente vê essas teorias modernas de gestão participativa, de diálogo permanente dentro das empresas, de valorização dos empregados, tudo isso Hélio praticava, se a gente tivesse que escrever um livro sobre o que ele pensava, sobre como administrar pessoas e coisas, você ia bater aí nesses "cobras" de administração todos, Hélio fazia aquilo como intuição, ele tinha uma forma própria de administrar que era uma coisa notável. E eu falei isso para a filha dele esse fim de semana em Vitória, eu fui um discípulo que aproveitei muito os ensinamentos dele, talvez tenha sido quem tenha percebido essa luz, esse brilho diferente dele dos outros e tenha mais absorvido as coisas dele. Eu fiz um treinamento agora em gestão de estratégia de pessoas lá na França e me lembrei muito dele, mas muito mesmo, porque o cara fez uma teoria muito bonita e muito bem colocada para demonstrar como é que funciona a tensão na empresa, a tensão positiva ao centro, ao lado esquerdo aquela tensão mais contemplativa, que você não produz nada, e mais à direita a tensão do estresse, aquela que mata e etc. E no centro concentrado aquela tensão positiva que empurra a empresa para frente, que agrega valor. Hélio trabalhava exatamente dessa forma o tempo inteiro, ele nunca deixava ninguém parado e nunca deixava ninguém estressado, ele sempre trabalhava na meia pressão com a gente.

PORTO DE TUBARÃO



No porto operávamos com navio, no máximo, de 100 mil toneladas, uns 350 mil é ficha, 100 mil foi o primeiro navio, como o Doutor Eliezer falou, os navios naquela época eram de 35, 40 mil toneladas, quando o Doutor Eliezer falou em navio de 100 mil foi um susto no mundo inteiro. Os japoneses caíram das cadeiras das duas cabeças quando ouviram falar em navio de 100 mil toneladas, e na verdade o Doutor Eliezer, como sempre, com a sua visão séculos à frente da gente, colocou isso aí no ar, então a gente carregava navios lá de 11 mil toneladas, 15 mil toneladas, 30 mil e até de 100 mil no píer, no Píer 1 de Tubarão, quando já veio a construção do Píer 2, aí já se trabalhava com navio de 150, 180 mil e hoje 350 é rotina.

Tubarão merecia um estudo sociológico muito mais profundo, porque não é possível se explicar que tanta gente trabalhasse com tanto amor e tanto orgulho por uma empresa, sem que houvesse um destino lógico que carregasse as pessoas para ser como eram, mas eram figuras como o Hélio, como o Himério, como o Doutor Beleza, que traziam cultura de onde é que tinha vindo essa cultura. Hélio estudou na Bahia, Himério estudou na Bahia, como que se conseguiu levar para um determinado local, pequeno como Vitória, Itabira também, que só tinha essas duas coisas, Carajás nem se sonhava, como é que se conseguia levar para esse pequeno povoadinho, ajuntamento de pessoas, uma forma tão competente de se trabalhar, com tanto amor, com tanto orgulho. Eu era engenheiro nessa época de manutenção, a gente trabalhava aos sábados, trabalhávamos de 8 horas ao meio-dia, aos sábados, e eu trabalhava feito um louco. Tubarão, no começo, com todos os equipamentos dando milhões de problemas.

Eu trabalhava oito, nove, dez, doze horas por dia sem o menor constrangimento, já fiquei 72 horas dentro do Porto, já passei um Reveillon trepado na polia do chip 1 lá, para trocar a polia, porque tinha que embarcar o navio, era o recorde a gente tinha que terminar o serviço e ouvi os fogos do Reveillon de 67, em cima da polia do chip 1, mas com o maior prazer, a maior satisfação, o maior orgasmo tecnológico. Conseguimos terminar o trabalho e botamos o navio, atrasamos um pouquinho o relógio, mas deu certo.

COTIDIANO DE TRABALHO



Hélio Ferraz ensinava e a gente fazia, eu tinha reunião nos barracos, minhas equipes toda semana, para fazer uma reunião, eu tinha quatro equipes de manutenção, eu fazia uma reunião semanal com esses caras em que a gente não falava nada de trabalho, a gente só discutia ambiente de trabalho, condições de trabalho, como é que está isso, como é que está aquilo, como é que está o vestiário, o que tem que arrumar, quer dizer, é o que se fala hoje de comunicação face a face, é o que se investe tanto hoje na comunicação direta. Em 68 já se fazia isso em Tubarão, por inspiração do Hélio. Nós andamos publicando nos livros de causos da Vale, um dos causos dele, esse Roberto que foi estagiário nosso, ele fala assim, tem uns dez anos esse livro: "Não sei porque tanto estardalhaço, essa mudança da administração, isso a gente já fazia na década de 60 no Porto, com a maior serenidade, sem que nada fosse necessário de treinamento, de educação, a gente praticava isso porque dava certo, a gente fazia, dava certo, continuava fazendo, dava certo, fazia mais, dava certo." E havia muito respeito de um pelo outro, a gente era muito ligado, muito amigo mesmo, não lembro de nenhuma história de alguém puxar tapete de alguém, de alguém querer passar alguém para trás, de pisar no outro para subir, não me lembro disso. Eu só vim saber que tinha algum tipo de pequena corrupção na Vale depois de velho, depois de criado aí, porque para mim era impossível acontecer, evidentemente que uma empresa, na época com 23 mil, quando pintou alguma coisa de leve corrupção foi um desastre, uma cacetada que não tinha tamanho, porque era impossível para a gente que isso acontecesse na Vale. Era trabalho pelo trabalho. Não tinha nem aquele negócio de civismo pelo Brasil, porque esse foi um segundo estágio, era um amor de dentro, pela empresa, uma coisa tipo a gente está construindo junto, a gente está crescendo junto, está fazendo essa empresa virar uma grande empresa, os desafios são imensos pela frente, cada mês de dezembro que o João Carlos Linhares ia fazer uma palestra de fim de ano com a gente, a gente sabia que o que vinha pela frente era trabalho, vinha agradecimento, vinha reconhecimento, vinha tapinha nas costas, mas o ano que vem vai ser pior, todo ano era assim: "É, foi muito bom, muito legal etc, mas no ano que vem tem mais de 20%" O tempo inteiro, e a gente sorrindo, tomando e sorrindo, igual a mulher de malandro, e sorrindo, sorrindo mesmo, quer dizer, não tinha restrição nenhuma de nossa parte a esse tipo de demanda, em saber que o ano que vem vai ser pior. Trabalho da duplicação do Porto, da duplicação da linha, a gente acordava com alegria para ir trabalhar, não era mais um dia de trabalho, era mais um dia de realizações, de fazer coisas, de terminar o dia cansado etc, mas bem, satisfeito em estar produzindo coisas. Eu não consigo descrever o que é isso, eu não consigo identificar, depois de tanto estudo que eu fiz de psicologia, mais tarde, quando eu mudei de área, tanto livro que eu li, eu não consigo identificar o que era isso na Vale, nesse momento, na década de 60, 70, 80, não consigo. E perdemos oportunidade de ter esse registro sociológico que seria da maior validade para alguma coisa qualquer.

Em Tubarão era engenheiro de campo F10, mais a rigor eu era engenheiro de manutenção do Porto. Depois o Porto foi crescendo, isso passou por uma divisão de manutenção mecânica. Nós tínhamos um assistente executivo do Porto, que era abaixo do Hélio, esse assistente executivo do Porto - tinha manutenção mecânica, elétrica e qualidade - ocupava manutenção mecânica, Darci Provedel parte elétrica, Antônio Eugênio a parte de qualidade. Aí o Hélio, em 69, puxou o Daniel para uma assessoria especial dele, o Gilberto Daniel que era o assistente executivo, e nos colocou, eu e Darci para, falou assim: "Vocês vão ficar um mês, cada um vai ficar um mês na assistência, aquele que tiver melhor desempenho vai ser o assistente do Porto." Eu falei: "Hélio, você está doido, você não vai me julgar para esse mês, porque esse mês eu vou dar tudo de mim, eu vou trabalhar 48 horas por dia, porque essa chance eu não quero perder. Então você está doido, não é assim que se faz, você cometeu o primeiro equívoco na sua vida, você não vai me ver naquele mês porque eu vou estar num outro patamar de trabalho, então arranja outra opção porque essa eu não perco." Aí acabou que o Darci achou que não queria aquele lugar etc, e eu fui para a assistência executiva do Porto, eu com 28 anos era assistente executivo do Porto, a segunda pessoa do Porto com 28 anos, a carreira pela oportunidade do crescimento de Tubarão, mas se eu fosse para Itacibá, certamente eu estava lá em Itacibá, mas Tubarão dava essa oportunidade para a gente. E aí lá fui eu. Depois veio Ricardo Figueiredo, quando Hélio morreu em setembro de 70, assumiu outra pessoa maravilhosa, José Carvalho, foi figura muito fantástica também, ele deu uma outra organização, aí ficou uma gerência de manutenção, toda manutenção ficou comigo, a operação ficou com Ricardo e serviços complementares com o Aguir. Então eram os três ligados, a organização ficou muito mais, a distribuição de carga ficou muito melhor e nós nos dávamos muito bem também, quer dizer, os três. Essa área de serviço administrativo sempre foi mal vista pela empresa, nunca foi muito valorizada, mas a operação e a manutenção se davam muito bem.

PORTO DE TUBARÃO



A gente sentia na própria carne, porque com aquele negócio daquelas reuniões de João Carlos, passar de 11 mil e quinhentos, quando eu cheguei em Tubarão nós exportávamos 11 milhões e quinhentas mil toneladas por mês, quando eu sai, nós estávamos exportando 100 milhões de toneladas, quer dizer, um pulo de 12 anos isso, cresceu dez vezes em 12 anos, uma coisa absurda, quase que a ritmo de 100% ao ano.

CULTURA CVRD



A estrada nessa época estava com o Zé Himério de Oliveira, que tinha uma liderança fantástica em cima das pessoas também. Zé Himério era um trator para trabalhar, aquele negócio de não deixar parar, trem descarrilou, pára todo mundo, vai esposa, filho, avó, neto para o espaço: "Eu quero todo mundo aqui e agora e vamos fazer esse negócio funcionar." E todo mundo fazia funcionar e fazia mesmo, na mina nessa época era o doutor Vieira e depois o Schettino, também imprimindo o mesmo ritmo de trabalho e a mesma adesão. Porque uma coisa é você trabalhar numa empresa que não apresenta resultado, outra é uma empresa que apresenta resultado, quanto mais você vê resultado e mais vê desafio, mais vê necessidade de expansão e mais vê equipamento chegar e mais monta, mais opera e mais vence, realmente você está o tempo inteiro motivado. Não há nada mais, nada maior para motivar as pessoas do que desafios, o grande driver dos executivos é o desafio, quanto mais desafio você tem, mais você se supera, então a nossa vida na Vale, nesse tempo todo, foi pautada toda em cima de desafio e o doutor Eliezer não rejeitava nenhum contrato, se tivesse de crescer e comprar mais ele vendia porque ele sabia que ele tinha uma retaguarda que se virava e fazia as coisas embarcarem.

IMAGENS DA CVRD



A grande jogada da Vale é ter tudo integrado, mais tarde, nesse período também com a integração da Docenave, quer dizer, era door to door a gente saía de Itabira e botava o minério na porta do comprador, sem que no meio tivesse ninguém para atrapalhar, para encher o saco da gente, fazemos tudo, ao passo que as grandes exportadoras dependiam da rodovia, que dependia da mina. Nós não dependíamos de nada, nós só dependíamos de nós mesmos e essa integração, não percebida por mim, talvez percebida pelos outros, foi o grande diferencial da empresa.

TECNOLOGIA PORTUÁRIA



A concepção do Porto já foi uma concepção arrojada, não só a parte de seleção de equipamentos propriamente dita, mas como a própria localização, a dragagem do Porto, a necessidade da dragagem, foi tudo uma questão muito arrojada. Depois a concepção do píer 2, a concepção de um chip load giratório e não de um chip load deslizante, foi uma inovação muito forte da empresa também, era novidade na época, nós aderimos à tecnologia e deu certo. As correias transportadoras, por exemplo, elas não passavam de 60 polegadas, e para ter navios maiores tinha que chegar a 82, 94 polegadas, também foi um momento da gente ter que absorver esta tecnologia, ter que, junto com os fabricantes, desenvolver tecnologia para isso também, correias transportadoras de cabo de aço foi uma experiência que a gente teve também lá, não foi desenvolvido por nós, mas a gente absorveu bem essa tecnologia. Mas eu diria que a equipe de engenheiros e de supervisores de Tubarão, aliás, eu só posso falar de Tubarão porque eu fiquei 12 anos trabalhando em Tubarão, a equipe era uma equipe muito forte do ponto de vista de conhecimento, uma equipe bem formada academicamente, bem formada também tecnicamente, a ponto de eu ter ido representar a Vale

COTIDIANO DE TRABALHO



A gente se sentia extremamente confortável, quando hoje as grandes empresas discutem delegação de competência, até que nível deve ir, qual é o poder que cada um deve ter, isso era extremamente bem praticado na Vale, nós tínhamos muito poder, aos 28 anos de idade eu era assistente executivo do Porto e fui discutir tecnologia nos Estados Unidos, levei 36 sugestões dos meus supervisores, dos meus encarregados, de novas tecnologias, quer dizer, para comprar o car dumper número 2, nós usamos a nossa experiência do car dumper 1 e desenvolvemos algumas tecnologias novas, mais técnicas do que tecnologia, coisas mais técnicas do que tecnologia, e nós levamos 36 sugestões lá para vir junto com o car dumper 2, das 36 que eu levei, através de reuniões com os meus supervisores, com os meus encarregados, equipe todinha, 35 vieram incorporadas ao car dumper 2, incorporadas a todos os car dumpers que a MacDowell fez depois e a trigésima sexta não veio, ela veio muito melhorada. A gente tinha uma proposta de uma nova posição do sistema hidráulico, e eles arranjaram a solução melhor do que a nossa e assim foi feito, todo o equipamento que a Vale comprava nós os engenheiros íamos visitar os fabricantes, visitar nada, a gente ia fazer estágio técnico junto ao fabricante para aprender a concepção do projeto do equipamento, acompanhar a montagem dos subconjuntos, estudar o catálogo, estudar o funcionamento com eles lá, e quando a gente chegava aqui, montava, a gente já estava familiarizado com o equipamento, apesar da dificuldade de empresa estatal no momento de mandar a gente para fora, Ministro tinha que autorizar.

TECNOLOGIA PORTUÁRIA



A nossa operação era muito singular, não tinha no Brasil similaridade com o que a gente manuseava e manipulava em Tubarão. Era o cais de Vitória, era o terminalzinho da MBR, terminalzinho de Amapá lá da Icome, lá de cima, mas não tinha nada no Brasil que a gente pudesse colaborar porque nós éramos uma operação singular, o Porto de Santos opera manuseio de carga, guindaste, bota a carga no navio, tira a carga do navio, nós manuseávamos granel, que é uma tecnologia completamente diferente, então não havia similaridade aonde aproveitar este conhecimento da Vale no Brasil. Eu viajei pela Vale, eu passei 12 anos, na minha primeira passagem pela Vale, foram 12 anos, depois foram mais 18 anos, eu fui ao exterior pelo menos umas 20 vezes pela Vale. Na época de compra de equipamento, de operar equipamento, não tinha nada no Brasil tinha tudo que ser comprado lá fora, como é que você não vai absorver a tecnologia toda dos fabricantes? Tinha que ir lá, era o que a gente fazia.

NEGÓCIOS NO EXTERIOR



Isso foi feito da maneira inclusive atabalhoada, o governo criou um órgão chamado NAI, Núcleo de Articulação com a Indústria, em que você para importar determinado equipamento, determinado componente tinha que demonstrar que não tinha similaridade no Brasil, para a proteção da industria nacional e aí acabou entrando cada carroça, cada picaretagem dentro do país que não foi brincadeira. Mas nós tivemos, nós nos car dumpers 3 e 4, por exemplo, nós provocamos uma joint venture no Brasil em que a gente conseguia obter índices de nacionalização bastante altos, Nós provocávamos esses joint venture, com as grandes empresas de mecânica do Brasil a Link, Belt de Piratininga, a Dedini, a Zanini, nós botávamos as pessoas para conversar, nós selecionávamos os pares e botávamos as pessoas para conversar, eles faziam as suas associações promovidas por nós e a gente chegou a conseguir índices de nacionalização de equipamentos de projeto fora do país, mas fabricado dentro do país de cerca de 90 por cento, muito alto para a época.

DOCENAVE



Docenave operava como se fosse um agente qualquer, não havia nem distinção, nem preferência pela Docenave, ela se integrava ao contínuo da empresa mina-ferrovia-porto como mais uma empresa operada por nós, mas eles não tinham preferência, mesmo porque essa legislação de fila de navio é muito dura, quer dizer, fila de navio na barra tem que ser respeitada, quem chega primeiro atraca primeiro, porque o preço de espera é muito alto e a multa pior ainda. Então a gente tinha, claro, uma relação muito mais fraterna com a Docenave, os navios só atracam e desatracam com rebocadores, não conseguem fazer a manobra sozinhos, tem que ter auxílio de rebocador, os rebocadores eram da Docenave, portanto, muito mais fácil a relação com eles, mas a Docenave funcionava como uma empresa independente e sempre também com muita capacidade, muita competência.

TRAJETÓRIA CVRD



Quando eu saí do Porto já se começou a estudar outros granéis, o primeiro deles foi cavaco de madeira que se estudou na minha época, depois eu passei cinco anos fora da Vale e depois que eu retornei isso aí já foi exatamente na hora que teve um impulso grande. Eu saí do Porto e trabalhei cinco anos num projeto do cobre na Bahia, o Projeto Caraíba, eu fui emprestado pela Vale ao BNDES e fui ser Diretor Industrial da Caraíba, passei de 1978 a começo de 1983 na Caraíba, que era presidida por um ex- Superintendente da Vale, que era o Arildo Zorzanelli. Então o Arildo me pediu emprestado e tinha aquele negócio de empréstimo entre ministérios, eu fui cedido para a Caraíba, passei cinco anos, um ano de projeto, quatro anos operando e no final de 1982 eu voltei para a Vale.

COTIDIANO DE TRABALHO



A Caraíba tinha três partes distintas, eu tinha muita experiência na área portuária e na área de manuseio de equipamentos de grande porte. A Caraíba tinha uma mineração, tinha uma unidade de concentração e uma unidade de metalurgia. O cobre dá in natura a cerca de 1%, no mineral cobre-minério dá 65, 66%, o cobre dá 1. Então você tem que extrair o cobre, nós tínhamos duas minas, céu aberto e subterrânea, então nós tínhamos que extrair o cobre a 1%, concentrá-lo na unidade concentração, para ele sair da concentração a 33%, ir para a metalurgia e sair no final da metalurgia com 99,99% de cobre contido. É uma operação muito complexa, para mim foi uma mudança tecnológica muito forte, porque eu entendia razoavelmente bem de manuseio de equipamentos pesados, mas de mineração metalurgia, não era nenhum expert, tive que me cercar de bons profissionais.

TRANSIÇÃO



Aí foi o grande salto profissional da minha vida. Esses primeiros 17 anos foram fundamentalmente na área de engenharia, trepado em cima de equipamento, operando equipamento, mantendo equipamento, e quando bateu a sineta lá na Caraíba que estava chegando a hora de eu retornar à empresa, já tinha acabado a minha tarefa lá, a planta já estava operando, operando bem. Aí deu a hora de voltar para a Vale, mesmo porque essa questão de sair e voltar de uma empresa é uma questão muito complicada. Quando eu vim conversar com o doutor Eliezer, que era Presidente na época, ele me ofereceu o cargo de Superintendente de Comunicação Empresarial, eu falei: "O doutor Eliezer enlouqueceu, ele não pode estar batendo bem, me chamar, todo mundo me elogiava como engenheiro, o cara me chamar para ser comunicação, não dá certo."

PROCEDIMENTO DE TRABALHO



O doutor Eliezer falou: "Se vira e implanta, eu quero acertar a comunicação interna, quero acertar a comunicação externa que nós nunca tivemos, quero ter uma boa relação com a imprensa e pelo meu conhecimento...", não sei nem se ele se recorda dessa nossa conversa, "...mas pelo meu conhecimento de empresa só tem um tipo de profissional para trabalhar isso aqui na Vale do Rio Doce, é o engenheiro, porque todos os outros profissionais que foram colocados neste posto foram engolidos pelos engenheiros, então tem que ser um engenheiro, tem que ser um engenheiro reconhecido como bom profissional dentro da empresa e um engenheiro com livre trânsito em todas as áreas, então é tu que é essa pessoa." E outra vez a genialidade dele estava correta, porque foi muito mais fácil para mim estudar comunicação e depois recursos humanos, estudar sociologia e psicologia e me dar muito bem nessa área e ficar com engenheiro, conheci todos os outros engenheiros dentro da Vale e ter trânsito, do que botar outro cara, especialista em administração e comunicação ali e acontecer o mesmo que aconteceu com os outros que foram absolutamente engolidos.

TRANSIÇÃO



Porque sendo a Vale uma empresa fundamentalmente de engenheiros, engenheiro só respeita o engenheiro. Realmente mais uma vez o doutor Eliezer estava correto na avaliação dele. E certamente, ou possivelmente, a comunicação tenha dado certo na Vale na minha época porque a gente para fazer comunicação, principalmente a interna, depende muito dos outros superintendentes, e a minha relação com eles era a melhor possível, então foi fácil fazer essa implantação. E esse negócio aconteceu exatamente também no momento em que eu já estava achando necessidade de mudar de área, os engenheiros são muito pragmáticos, muito lógicos, muito cartesianos nas coisas deles, e eu nessa época comecei a perceber que a vida não era lógica, foi nessa época que eu consegui entender quando Caetano falava que dois e dois nem sempre somam quatro, eu falava que esse cara é um maluco, foi nessa hora que eu estava entendendo o que ele queria dizer com: "Tudo certo, como dois e dois são cinco." Aí eu vi que a vida era uma vida que precisava de ter uma outra, que eu precisava ver a vida de outra forma, que não apenas a parte lógica da engenharia. E topei, topei e falei: "Pô, vou nessa!" Aí fiz um pós graduação na PUC de comunicação, me enfiei em livros, estudei, freqüentei uma série de cursos e fora isso a minha convivência com a relação com as pessoas na área de engenharia, você é obrigado a conviver e a estudar essa relação com as pessoas, eu na mina cheguei a ter quatro mil homens comigo, na Caraíba, então isso me deu um aprendizado muito grande, prático, para depois eu misturar isso com um fortalecimento acadêmico e hoje falar: "Eu hoje sou um profissional de RH e comunicação." Formado em engenharia mas um profissional de RH e comunicação, graças a um decoroso convite que o doutor Eliezer me fez, e que eu, indecorosamente, aceitei. E me sinto muito feliz, muito realizado e se o doutor Eliezer estiver ouvindo isso aí: muito obrigado, mais uma vez, mestre, pela chance que você me deu de praticar essa feliz loucura na minha vida.

CASOS DE TRABALHO



A comunicação interna sob ponto de vista institucional não existia, era praticada ao bel-prazer de cada um. A externa, essa questão de relação de RP, de contar com os órgãos representativos da sociedade, zero também. A imprensa, para caracterizar uma imprensa, eu cito um caso do doutor Beleza lá em Vitória. Doutor beleza foi outro gênio também, outra figura maravilhosa. E um rapaz que trabalhava na comunicação lá, o Renatinho, chegou para ele e disse: "Doutor Beleza, tem um jornalista querendo falar com o senhor aí, aconteceu não sei o que, um acidente, os jornalistas estão querendo falar com o senhor!" Aí ele, bastante hábil nas coisas, perguntou para o Renatinho: "E qual tem sido a nossa tradição?" Renatinho falou: "Nós não temos falado com a imprensa." Ele falou assim: "Cumpra-se a tradição!" Então era assim a nossa relação com a imprensa, era mais ou menos assim. Tinha o Mário Rola, que era o assessor do doutor Eliezer, que ajudava muito nessa parte aí, que foi quem influenciou muito o doutor Eliezer a criar essa área. Mário tinha um trânsito muito grande com a imprensa e ele ajudou muito o doutor Eliezer. E com a chegada da comunicação a gente deu uma modernizada boa na imprensa, porque aí trouxemos um excepcional profissional de imprensa, o José Silveira, equalizamos bem a área, botei um engenheiro para fazer comunicação interna e fomos alimentando a parte mais técnica, mais acadêmica por baixo, fomos admitindo mais especialistas por baixo e esses especialistas iam dando suporte até que a área hoje é altamente especializada e de muita competência.

COTIDIANO DE TRABALHO



A superintendência de comunicação era integrada interna, externa e imprensa. Quer dizer, no final, quando a comunicação ficou redonda, ela tinha comunicação externa, comunicação interna, imprensa, recursos de informativos promocionais, que é essa parte de folhetos, catálogos. A gente foi aprendendo, criando devagarinho e no final tinha um negócio chamado Fundo de Desenvolvimento da Zona do Rio Doce, que hoje é Fundação Vale do Rio Doce que, na minha concepção, era quem praticava relação com as comunidades, que é quem pratica relações com as comunidades. E relações com a comunidade é uma disciplina da área de comunicação, então, demonstrando tudo isso a área ficou realmente bastante completa e integrada em termos de comunicação. E nós tínhamos nas capitais, onde a gente estava instalado, em Belém, em São Luís, em Vitória, em Belo Horizonte, nós tínhamos regionais para comunicação externa e em cada superintendência a gente tinha um pequeno órgão de comunicação interna. Então era realmente uma estrutura, eu diria, até muito pesada, fosse fazê-la hoje eu não faria da mesma maneira. Mas era uma estrutura com cerca de 80 pessoas e funcionava realmente redondinho.

CASOS DE TRABALHO



Só para não falar só de coisas boas da Vale, acabamos que nesse momento aí, nesse meio tempo nós vivemos aí uns dois anos, foi um dos piores momentos meus na empresa, a gente tem que falar das coisas ruins também, senão fica parecendo uma ação entre amigos. Nós vivemos aí uns dois anos meio complicados quando houve uma cisão da área de imprensa, do Jornal da Vale com a gente, aí o Jornal da Vale puxou a imprensa, foi uma coisa assim que nós ficamos durante um bom tempo "disfacelado", cada um indo para um canto. Uma história muito triste, muito jogo de poder interno, com pessoas que eram estranhas à empresa, e que foram envolvendo os diretores e acabou demonstrando que era melhor ser assim, e foi assim e foi no momento que eu quis pular fora da empresa também. Iria pular fora se não retornasse a situação que retornou, foram coisas muito complicadas, eu não vou estender um pouco porque a gente teria que falar em alguns nomes e não é legal. Então, foram dois anos bem difíceis porque vivemos desintegrados. Como é que imprensa, Jornal da Vale, um órgão de circulação interna vive fora da comunicação? Coisa meio estranha aí. Que a assessoria de imprensa fique ligada à presidência, sob o ponto de vista de organização, tem até uma justificativa, desde que seja integrada com a comunicação. Porque não há nada pior para o empregado, nada pior para o gerente de uma empresa do que saber das notícias da sua empresa pela imprensa, isso é uma coisa que eu recomendo e falo disso o tempo que eu posso, quer dizer, esse é um erro que empresa nenhuma pode cometer.

RELAÇÃO DE TRABALHO



Mas, para mim, o maior ganho foi na questão da comunicação interna, na relação com os empregados, quer dizer, eu argumento o seguinte: se o empregado for obrigado a produzir dez peças por dia em determinada empresa, se ele estiver identificado com a empresa, bem informado, tratado com respeito, se sentindo valorizado, sendo adequadamente remunerado, sendo bem informado, tendo uma relação com a sua equipe e com o seu gerente boa, esse cara ao invés de produzir dez vai produzir doze, pode chegar a produzir doze. Por outro lado, se um outro empregado obrigado a produzir dez peças por dia, estiver desinformado, desmotivado, tomando cacetada do supervisor, tomando "xerifada" do gerente, sem ter nenhuma informação, esse cara vai produzir oito. Esse doze menos oito é que faz a diferença entre empresas que têm uma boa comunicação interna e pessoas que não tem uma boa comunicação. Eu acho que isso foi o grande up grade da Vale, nessa questão da comunicação, foi a questão da comunicação interna, o programa de relações com os empregados, a valorização do empregado, o empregado se sentir mais membro de um corpo do que peça de uma máquina, eu acho que isso foi conseguido nesse período, o período de Wilson foi quem fez essa coisa avançar muito, o doutor Eliezer sentiu a percepção disso. Foram momentos de crescimentos paulatinos e constantes, nós nunca deixamos de crescer sob o ponto de vista da qualidade da comunicação. E, eu trabalhava, falo isso hoje com prazer muito grande, porque eu trabalhava com prazer brutal também, também tinha um carinho pelo que eu fazia e pela minha equipe, principalmente, pelas pessoas que trabalharam comigo, um carinho especialíssimo e coisas que ficam para o resto da vida na memória da gente.

SAÍDA DA CVRD



Eu saí em 1993 da Vale, em 1991 alguns amigos meus saíram num plano semelhante ao que eu saí e alguns deles tiveram muita decepção, quando voltaram a falar com as pessoas da empresa e se sentiram tratados como um profissional qualquer, como mais um profissional que está querendo vender serviços e não houve assim, não se sentiram com nenhuma distinção por ter tido a vida inteira dentro da Vale. Eu, depois que eu saí da Vale, eu não voltei à Vale, nem quis trabalhar para a Vale, dei um suporte para a Valia durante um certo tempo, mas não quis. Fiz a minha empresinha de comunicação junto com mais dois amigos e a minha condição era não trabalhar com a Vale, eu não queria trabalhar com a Vale, porque eu não queria permitir, dar a menor oportunidade a ninguém de manchar esse meu amor, essa minha relação com a empresa.

RELAÇAO COM O GOVERNO



A relação com o governo sempre foi muito ruim, as empresas estatais elas, como eram no Brasil, a própria Vale com toda independência que tinha, mesmo depois do contrato de gestão assinado com o governo, a gente sofria muito com alguns comandos de Brasília. Vocês são da área aí vocês sabem que em determinados momentos, durante muito tempo, a verba das empresas de publicidade das empresas estatais era centralizada, quer dizer, para veicular uma peça publicitária de aniversário da empresa, de saudação aos empregados por resultados alcançados, a gente tinha que pedir permissão a um órgão de Brasília e tinha que demonstrar por A mais B que era necessário, então isso era muito ruim, nas nossas negociações coletivas quem dizia qual era o índice de correção não era a empresa, era o conselho Nacional de Política Salarial, os caras de Brasília que nunca se preocuparam com os resultados da empresa, quer dizer, a Vale com resultado fantástico dava o mesmo aumento que uma outra empresa estatal, Barcaça de São Francisco, Bondinho do Pão de Açúcar, que eram empresas estatais que não tinham nenhum resultado prático para apresentar, então eram coisas dramáticas. Relatórios às pencas para falar para o Governo o que se estava fazendo, milhões de pessoas ocupadas para gerar esses relatórios, para alimentar esses empregos de Brasília, porque os caras tinham que justificar os cargos, então pediam relatórios etc. A independência que a gente tinha era em relação à imprensa, também sempre tivemos muito cuidado com os comentários, sempre falando muito da empresa e muito pouco do restante do país.

CASOS DE TRABALHO



A criação da superintendência de comunicação foi em 1983. Eu saí em 93. Passei dez anos trabalhando com a comunicação na Vale. Lembro de muita coisa porque você se recorda que, no começo dos anos 80, as empresas estatais começaram a virar o grande vilão do país, quer dizer, a gente era confundido como os sanguessugas da nação, os marajás, aqueles que levam o dinheiro do povo, e a gente vendo a nossa auto estima e o nosso orgulho da empresa ir para o brejo. O doutor Eliezer, a gente começou a fazer encontros do Presidente com os empregados, todo fim de ano a gente fazia isso, levava o Presidente para as áreas, o Presidente falava para todos os empregados, passava uma semana conversando com os empregados. E numa sessão aqui no Cine Palácio estavam todos os empregados, ele falou uma frase lapidar para mim, nesta questão das empresas estatais: "Caroço de mamão e caviar não são as mesmas coisas, embora se pareçam muito." Distinguindo bem a Vale do restante de outras estatais, de outras, do restante não, porque tinham outras estatais também eficientes, mas se permitindo ter um tratamento diferenciado pelos resultados que apresentava, a gente era tudo farinha do mesmo saco. Então, nessa época houve realmente embates indescritíveis com a imprensa, até uma revista séria como a revista VEJA, cometeu alguns deslizes com a gente, eu diria até algumas indelicadezas e algumas coisas até anti-éticas, porque manda a ética do jornalismo ouvir os dois lados, e isso realmente não era muito praticado no Brasil, ainda não é muito praticado, temos muito que aprender na área de imprensa também ainda, mas nós tivemos muitos problemas nesse período. Inclusive, a Petrobrás, principalmente, que tinha um grande amigo meu lá na direção deles também e nós trocávamos muita figurinha lá para nos ajustarmos, para irmos trabalhando mais ou menos juntos, o pessoal da Eletrobras também, quer dizer, a gente se armou um pouco em bloco contra os ataques.

OPINIÃO



Eu não tenho a menor cerimônia de afirmar que a campanha contra as estatais era alguma coisa orquestrada, por alguém muito interessado em, prevendo uma futura privatização, baixar preço de empresa. E ao mesmo tempo também conter alguns exageros porque algumas estatais praticavam alguns exageros. Eu costumo dizer também que só o fato de falar assim: "a Vale não é mais estatal hoje", só aí você baixa seu custo em milhões e milhões de dólares, porque você já não precisa ter toda a estrutura de resposta para o governo, você não tem que dar mais satisfação para os burocratas de Brasília, você não precisa mais gerar tanto relatório, você não tem que ir à Brasília, você não tem mais que, enfim, se envolver tanto com o chefe virtual que não entendia nada do nosso business e que dava ordem para a gente, quer dizer, só isso já é um avanço muito grande. Então, me parece que essa coisa era bem orquestrada, muito bem orquestrada e por gente que tinha muito interesse nessa coisa.

IMAGENS CVRD



Trabalho e resultado, essa era a nossa estratégia. Trabalho e resultado, vem cá vem ver como que é esse buraco, vem cá ver como se trabalha, vem cá ver os resultados que a gente tem, a nossa lucratividade, os nossos custos, como é que a gente está por aí e muito trabalho para apresentar resultado e noção dos resultados. A época do Wilson eu fazia reuniões praticamente mensais com os jornalistas para mostrar os resultados da empresa e não faltou gente que quis pegá-lo pelo pé também, não faltou, Essa era a estratégia, trabalho, resultado, trabalho, resultado, abertura, transparência. Aí nós fomos desmistificando essa coisa do caroço de mamão com caviar, mostrando que a gente tinha algo diferente a mostrar, resultado, crescimento, exportação, geração de divisa, tecnologia, competência, trabalho, muito trabalho. E aí foi se criando essa imagem da Vale a ponto de a gente ser considerado, no final das contas, uma exceção entre as estatais.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO



Nós tínhamos sete superintendências chaves, sete superintendentes com suas características próprias, sete operacionais e mais umas dez corporativas, nós éramos uns vinte e poucos superintendentes e eu, num determinado momento, quando eu senti, quando falo eu entendo sempre eu e minha equipe, quando nós sentimos que a coisa estava assim meio que desequilibrada, algumas superintendências fazendo muita comunicação interna, outras nem querendo fazer, nós fizemos um seminário de dois dias para falar só de comunicação interna, pegamos os melhores profissionais do país, ficamos internados num hotel em São Paulo e discutimos comunicação interna durante dois dias, com exemplos práticos, com resultados, com teoria, com visitas e eu tenho um superintendente hoje, que é grande amigo meu e ele fala sempre, toda vez que ele pode ele fala desse momento, que ele acha que foi nesse momento de capacitação dos superintendentes, com uma certa disciplina que eles não tinham muito domínio, que eles perceberam a vantagem dessa história toda aí, aquele doze menos oito, que eles perceberam essa vantagem. E aí a gente conseguiu ter mais uma uniformidade de pensamentos, eu me recordo que dos 21 superintendentes nos dois dias, faltou um deles, um deles faltou não foi. Mas ato contínuo nós fizemos a mesma coisa com aqueles técnicos que eu falei com você que a gente tinha, com os regionais nas capitais e com os técnicos de comunicação interna que trabalhavam dentro da superintendência, então eles passavam anualmente por um programa de treinamento, de mais capacitação, de mais conhecimento e de trocar experiências, porque a realidade de Carajás e de São Luiz é diferente da realidade de Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de Itabira, então, se trocava muito experiência sob o ponto de vista interno, dentro da empresa. E não tem outra forma de você fazer a não ser dando instrumental e ferramenta para as pessoas trabalharem, em resumo, conhecimento. Quer dizer, quando as pessoas passam a ter conhecimento do que tem, do que deve praticar, absorvem bem, internalizam bem, na cabeça e no coração, essas vantagens e a forma e conteúdo de uma disciplina, as coisas ficam menos difíceis. Mas na verdade, se você perguntar se a gente consegue uma homogeneidade, é muito difícil, mas certamente todos estão conscientes hoje da necessidade de praticar comunicação interna.

A comunicação interna trabalhou muito o ser humano, a formação do ser humano, o que é o ser humano, quais são as suas reações, a diversidade de personalidade, de caráter do ser humano, a necessidade da afetividade num ambiente de trabalho, a questão da produtividade, a questão da satisfação interna de cada um, a forma de se relacionar com as pessoas. Porque que um cara que é pai, líder comunitário, avô, tem que pedir licença ao chefe para fazer xixi, que diabo de relação é essa que se instala em algumas empresas e o que você espera de um resultado de uma equipe dessa, uma equipe que trabalha sob a chibata, não tem jeito, então é trabalhar o ser humano por completo, não o ser humano fragmentado. A guarita não é um almoxarifado, depósito de emoções, você entra dentro da empresa com todas as emoções próprias, individuais suas, você tem o direito de ter dias bons e dias ruins, você tem o direito de ter dias em que você está mais feliz e menos feliz, e a grande arte do gerente é perceber isso em cada um e fazer com que essa coisa aconteça. Existem pessoas que falam: "Eu não sei fazer isso e não vou aprender a fazer, eu não tenho competência para aprender a fazer isso." Existem outras pessoas que tem isso muito mais dentro de si próprio, mas isso pode ser muito bem treinado. Esse negócio de que eu não tenho, eu não nasci para isso, nessa área, na minha empresa, se eu mando numa empresa, se eu tenho uma empresa, e se tem alguém que pensa assim, a primeira coisa que eu falo: "Você está na empresa errada, porque nessa empresa os valores são esses, esse e esse, e a comunicação interna é um valor nosso." E é uma coisa tão fácil de ser explicada, me recordo de que eu fiz uma palestra para o pessoal, uns dois anos atrás, lá na Acesita e um dos engenheiros falou comigo: "Mas João, isso deve ser muito difícil de ser praticado, porque o que você está falando é tão fácil de se entender e tão óbvio que deve ser muito difícil de ser praticado." E não é, basta ter os elementares níveis de conhecimento, e começar a trabalhar numa direção de ter respeito ao ser humano, respeitar as pessoas, porque dentro deles existe um potencial de inteligência e de proposta, de sugestões de melhoria sem fim, e empresário que não usa isso, com toda franqueza e sendo muito chulo, é empregado muito burro, porque tem uma riqueza dentro de seus próprios empregados e não consegue destampar essa panela para fazer essa riqueza transbordar. E credibilidade não se compra em supermercado, para uma equipe confiar no gerente é preciso que ela perceba ações e atuações do gerente no seu dia-a-dia e não em conversas, na hora da negociação, mandar votar pela empresa, se não fizer isso 300 vezes por dia, 300 dias por ano, não adianta no momento que a empresa precisa do cara: "Agora eu preciso de você." "Tá legal, que papo besta é esse? Me dá chute o tempo inteiro e agora está querendo me chamar para trabalhar para você? Qual é?" E aí eu tenho duas passagens interessantes com o Hélio nessa questão de respeito, daí um aprendizado meu muito grande nessa área de relações humanas com ele.

CASOS DE TRABALHO



Aniversário de casamento
Uma vez Helio Ferraz me chamou e falou: "João Manoel, preciso que você vá para o Rio amanhã, que eu tenho um troço lá para você resolver, que o doutor João Carlos está te chamando lá, tem que resolver uns negócios lá nos equipamentos, você vai passar lá terça e quarta." . Eu falei: "Pô, Hélio, tá legal, eu vou, mas amanhã é o meu primeiro aniversário de casamento, vai pegar para caramba." "Primeiro a empresa, você vai ter muito aniversário de casamento pela frente ainda e primeiro a empresa, vai resolver o problema da empresa e depois você vê como resolve com a sua mulher." Aí cheguei de tarde lá tinha uma passagem para a Regina vir comigo para o Rio, quer dizer, ele falou: "Pô, eu preciso que esse cara vá, mas não posso fazer com que ele vá irritado. Não pode chegar lá não fazendo o melhor para a empresa, então ele tem que ir e ele está com esse problema, a mulher dele vai." Então, me deu uma passagem para ela vir, chegamos aqui no hotel, champanhe, rosa, o diabo a quatro, o cara ganha o empregado com essas pequenas coisas.

Cara cheia
Uma outra passagem nós estávamos testando lá umas correias num sábado de carnaval, chegamos lá bem cedinho, sete horas, e fizemos os testes, era coisa nova, tudo rodou bem, ficamos lá até 10, 11 horas da manhã, aí eu fui para um banho de mar à fantasia na praia, perto lá de Tubarão lá em Manguinhos, eu freqüento a quase 40 anos isso aí. E lá, sábado de Carnaval, banho de mar à fantasia, cara cheia, aí deu um problema nas correias, ele mandou me chamar. Eu vim, empresa sempre em primeiro lugar, aí quando eu saltei da kombi, ele me viu, saiu em direção a mim, me botou dentro da Kombi, falou assim: "Pode voltar para casa que está tudo resolvido já." Estava nada resolvido, estava uma encrenca desgraçada lá, mas ele foi lá e falou assim: "Vai embora, está tudo resolvido, pode ir embora." Hélio era um cara muito, ele tinha muito aquele negócio da atenção positiva, eu cheguei sábado, falei: "Estou ferrado, segunda-feira ele vai me esculachar." Mas ele não deixou que ninguém visse que eu estava de cara cheia, nunca tocou no assunto comigo, porque ele era um cara da noite também, da vida, sabia, gostava da mesma birita, mas me protegeu assim como o chefe deve proteger sua própria equipe: "Volta que está tudo ok." E não tocou no assunto comigo na segunda-feira, esse assunto parece que não existiu na nossa relação, faz de conta que eu não fiz, faz de conta que você não viu, então acabou, tudo resolvido e pronto, a vida que segue.

RELAÇÕES DE TRABALHO



Meus amigos de infância de Vitória quase todos trabalharam na Vale, então, nossa relação dentro da Vale era outra coisa muito fácil de ser tocada porque a gente tinha amizade e a gente foi fazendo muita amizade. E aqui no Rio, depois que eu vim para cá, vim com pessoas conhecidas, mas não amigas, e a gente foi tomando esse hábito também e isso aconteceu, a vida inteira acontecia na empresa, desde do pé sujo lá de Jucutuquara, que a gente saía toda sexta para comer caranguejo e sarapatel, até aqui no Rio a gente freqüentava. Era uma coisa eu diria natural e gostosa, nada forçada, não vai quem não quer, é uma coisa absolutamente da cultura da empresa e do gosto dessas coisas pela empresa. Nós tivemos em Vitória, durante cerca de uns dez anos, uma pelada à noite na Desportiva, que era um clube oficial da Vale, a Desportiva é um clube grande e pertencia à Vale do Rio Doce, toda terça-feira era sagrado ter essa pelada lá, iam pelo menos 100 pessoas nessas terças-feiras, para jogar bola, para bater papo, as esposas iam para jogar um carteado, jogar voleibol, jogar tênis, quer dizer, era um momento em que a gente ficava, de oito à meia- noite falando de abobrinhas e nada de serviço e assim a coisa ia crescendo. Está na hora do happy hour, viu?

SAÍDA DA CVRD



Eu saí da Vale em 3 de junho de 1993, dia 4 de junho já estava na Valesul trabalhando como consultor, passei três anos como consultor. Saí pela oportunidade de ter dinheiro, eu já estava com tempo de aposentar, meu filho querendo botar um negócio para ele, eu nunca juntei mais do que dez mil réis por mês, nunca, tudo que eu ganhei eu gastei e a Vale estava com oferta muito grande, muito boa nesse período, eu já estava com tempo, já estava pensando nisso, que o meu tempo estava dando também, dez anos no mesmo lugar, a Vale ofereceu um plano de desligamento muito atrativo, eu peguei, nesse meio tempo aí, enquanto eu decidia sair, fizemos uma firma de consultoria, já tínhamos alguma coisa já engatilhada para começar logo no comecinho, montei negócio para o meu moleque, está indo muito bem, felizmente, está feliz da vida, e juntei o útil ao agradável. E acho que saí na hora certa também.

TRABALHO



O trabalho que eu continuei fazendo foi muito parecido com o que eu fazia na Vale, para as empresas, então não foi do trabalho não. Sentia e sinto muita falta daquele amor pelo trabalho que a gente tinha. Eu nasci dentro da Vale, eu comecei dentro da Vale, me criei, saí um pouco, aprendi mais coisas fora, voltei para outra função, com novos desafios, sinto falta do ambiente da Vale, do calor da Vale, daquele envolvimento pessoal com as coisas, a gente trabalhando para uma entidade chamada governo, mas trabalhando como se estivesse trabalhando para sua própria empresa, aquele desejo de mostrar resultados, de apresentar resultados. Eu, felizmente com três anos de consultoria, o Wilson me chamou para ir pra Acesita.

O Wilson Brumer foi para Acesita e me chamou para ser diretor eu topei na hora porque a vida de consultor realmente não me atraiu. A falta de vibração pelo resultado, eu não era responsável pelo resultado, eu ia falar para os outros como devia fazer certas coisas para eles obterem resultado, se eu falasse e os caras não quisessem fazer, não faziam, eu não podia mandar nos caras. Aí isso gera uma frustração desgraçada para quem foi executivo a vida inteira. Mas eu sinto falta do ambiente de respeito, de camaradagem, de trabalho, isso eu sinto muita falta, mas está guardadinho aqui, ninguém tira não. Eu sou diretor de recursos humanos, comunicação, administração de serviço, sistema da qualidade, Fundação Acesita para o Desenvolvimento Social, Acesita Previdência Privada e Agência do Desenvolvimento de Timóteo. Sete areazinhas discretas. Casei com outra empresa, continuo fazendo o meu trabalho com o mesmo amor, a mesma dedicação, o mesmo entusiasmo, com pessoas diferentes, de vez em quando fico pensando que se fosse na Vale seria diferente, os resultados viriam mais rapidamente do que uma pessoa de fora etc. Essa questão de vir um diretor desconhecido da casa é meio complicado. Mas hoje eu me sinto muito bem, depois de quatro anos eu me sinto muito bem lá e, embora não seja exatamente a mesma coisa, pela minha criação e formação, mas como o trabalho é bem similar, bem parecido, isto me dá um conforto profissional muito grande.

CASAMENTO



Eu casei em 1967. Conheci minha esposa quando eu estudava no Rio e chegava em Vitória como estudante que veio de fora, conheci ela numa festa, numa quinta-feira dançante no Iate Clube de Vitória. Nosso namoro quase não passa de um dia porque um cunhado meu falou com ela: "Sai desse canalha porque esse cara mora no Rio, ele vai passar a mão em você e vai pular fora." E a coisa foi ficando, foi criando, tomando forma, para mim no começo um pouco legal porque ela lá eu cá, dava para dar umas puladas aí, mas depois que a coisa ficou séria aí realmente foi para valer e nós estamos casados a 33 anos.

ATIVIDADE ATUAL



A Acesita tem uma planta em Timóteo, tem um escritório-sede em Belo Horizonte e tem um escritório comercial em São Paulo. Eu fico pulando de galho em galho, vou um pouco a São Paulo, menos do que devia, menos do que eu deveria ir a São Paulo. E rotineiramente eu passo segunda e sexta em Belo Horizonte e terça, quarta e quinta na Usina, vou terça de manhã e volto quinta à tarde para Belo Horizonte, e fim de semana, Deus é que manda.

LAZER



Nas horas de lazer que estão diminuindo um pouco, eu faço as coisas que eu mais gosto de fazer, ouvir música, bater papo com os amigos, teatro, cinema, saída aí pela noite, boêmias. Curto muito amigos e corriola, sou especialista nessa área, dos bons, e algum esporte pela televisão, gosto muito de esporte me envolvo demais, ter disponibilidade para ver algum esporte à noite lá que realmente as noites em Timóteo são meio devagar.

AVALIAÇÃO



Se pudesse mudar, mudaria uma única coisa: teria feito um pouco mais de força para morar no exterior. Acho que me faltou essa experiência internacional. Uma vez eu fui indicado numa lista tríplice para ir para Nova York, para fazer algo absolutamente que eu não gostava, que era área de compras, e eu falei: "Oh, pode me tirar daí que eu estou fora, essa área aí não me interessa não. Deixa só os dois aí para saber quem vai." Mas eu me arrependo, eu deveria ter vivido uma experiência internacional de dois três anos, mas como eu estou muito jovem ainda, vou recuperar, ainda tenho planos para morar no exterior.

SONHO



A parte mais pesada dos meus sonhos é não perder o nível de qualidade de vida que eu consegui adquirir, não é financeira não, é essa vida espiritual e de emoção com a qual eu convivo 24 horas por dia, tenho certeza que se eu conseguir manter isso comigo, com minha mulher e com meus filhos, acho que isto basta para mim, sem iate, sem casa em Miami. Bem na linha de: sem maiores pretensões físicas, financeiras, materiais. Acho que se eu puder continuar mantendo esse meu nível de vida, está de muito bom tamanho. Eu nunca pensei em nada de realizações materiais, nunca foi meu forte, nunca sonhei com Ferrari, Porsche, cobertura na Barra, casa em Miami, isso não passa pelos meus valores. Passa pelos meus valores é esse estilo de vida que eu descobri, junto com os meus amigos, com minha mulher, com minha família, com meus pais e que me dá um prazer muito grande de viver. Isso para mim já é muito, isso acontecer já é muito. Evidente que a preocupação com o futuro dos meninos é muito grande, pudesse vê-los daqui a vinte anos, todos eles bem, com o pouco que a gente tem também, mas felizes, bem estruturados, com personalidades bem formadas, com muito respeito pelas pessoas, com muita ética, com muita honestidade, com muito trabalho e vivendo razoavelmente na média, se eu pudesse ter essa visão de futuro hoje clara para mim seria a complementação desse sonho de manter meu nível de vida.

DEPOIMENTO



Acho muito legal ter falado aqui com vocês. Acho a iniciativa da empresa fantástica, pena que tanta coisa tenha ficado para trás, tanta coisa tenha ficado esquecida pelas pessoas que não vão poder mais falar, como o Hélio, como o Leitão, como o doutor Beleza e tantos outros aí, tantas pessoas que tinham muito para contar, mas a vida segue, é isso aí. Acho que esse respeito que a empresa está tendo pela sua história, pelo seu passado e principalmente pelo seu futuro, não se chega no futuro sem o passado, sem uma bela construção do passado, acho fantástica a iniciativa, muito adequada, acho que o momento pede muito isso e tenho certeza que para mim foi, mais uma vez, motivo de muito orgulho pertencer à Vale do Rio Doce.

 

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