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História de Francisco José Neves

História de: Francisco José Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2020

Sinopse

Desde pequeno tinha vontade de ser médico. Realizou-se completamente na profissão, como dermatologista. Foi desde professor, durante 40 anos na Faculdade de Ciências Médicas, até membro da Federação das Unimeds, médico cooperado. Depois de ter passado por alguns concursos públicos, consolidou-se como Secretário de Saúde Adjunto da Prefeitura de Belo Horizonte. Criou a Intrafederativa Inconfidência Mineira e presidiu a Cooperativa Editora e Cultura Médica da Faculdade de Medicina.

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História completa

P/1 – O senhor gosta de ser chamado como doutor Francisco?

 

R – Você me chama do jeito que você quiser. Você pode me chamar de Chico Neves, você pode escolher: com ch ou com x

 

[risos]

 

P/1 – Boa tarde, doutor Francisco Neves!

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Primeiramente, pra iniciar a entrevista, gostaria de saber seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Francisco José Neves. Nasci em Ouro Preto, em outubro de 1925.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Os meus pais já são falecidos. Meu pai chamava-se (Longino?) Neves e minha mãe Rosina (Grisolia?) Neves, que é descendente de italiano, mas naquela época não se exigia pôr o nome da mãe, o machismo não permitia então só tinha o nome do pai, por isso sou só Neves.

 

P/1 – E a origem da sua família?

 

R – O meu pai é de Ouro Preto; a minha mãe é de Itabira. A minha mãe é conterrânea do Carlos Drummond de Andrade. Itabira é onde tem a Vale do Rio Doce, onde tinha o famoso ______ que é onde deu problema do minério de ferro. Minha mãe nasceu em Itabira.

 

P/1 – O senhor ainda exerce alguma atividade na Unimed?

 

R – Atualmente não. Já exerci todas que podia: fui presidente da Intrafederativa, fui presidente da Unimed [Confederação Nacional das Cooperativas]  Belo Horizonte, fui membro da Federação das Unimeds, mas atualmente eu sou médico cooperado, atendendo os pacientes no meu consultório, aqueles que ainda me procuram.

 

P/1 – O senhor poderia contar o que influenciou a sua decisão de exercer a atividade médica?

 

R – Eu nasci em Ouro Preto, eu brinco sempre do seguinte, vou fazer uma brincadeira que eu sempre fiz: em Ouro Preto, quem nasce em Ouro Preto sofria uma influência muito grande da engenharia porque a Escola de Minas de Ouro Preto foi a primeira escola de Engenharia de Minas do Brasil e eu, como só sei somar dois e dois são quatro, então escapei da matemática e por isso optei, mas desde pequeno eu tinha vontade de ser médico. Se alguma vez eu morrer e voltar outra vez, eu volto a ser médico e volto a ser dermatologista, estou muito satisfeito com o que eu sou, absolutamente realizado. Tenho um filho dermatologista e tenho uma neta dermatologista que ambos foram meus alunos na faculdade.

 

P/1 – Onde o senhor fez a faculdade?

 

R – Fiz em Belo Horizonte.

 

P/1 – O senhor pode contar como foi esse período? 

 

R – A escola, quando eu estudei, a escola era Universidade de Minas Gerais, era escola particular, ela não era federalizada. Ela se federalizou em 1950, eu formei em 1949, então no dia 8 de dezembro de 2007 vai fazer 58 anos que eu formei em Medicina. Lá naquela ocasião o vestibular, eu fui a última turma de ginásio de cinco anos porque depois da minha turma foi criado o científico e o clássico e o ginásio passou a ser quatro anos com três de científico e três de clássico. Eu fui cinco anos de ginásio e dois de pré, fiz os dois pré-médico e pré-jurídico, tinha pré-odontológico, pré-jurídico, pré-engenheiro que eram feitos dentro da própria faculdade. Depois você prestava o exame vestibular. O vestibular que eu prestei, nessa época, eram seis cadeiras pra fazer o exame: Física, Química, Biologia, Sociologia, Inglês e Desenho, naquela ocasião. Eram seis cadeiras e lembro perfeitamente que nós éramos mais ou menos 400 e poucos candidatos pra 80 vagas e só passamos no primeiro vestibular 62, 63, por aí. Teve que haver novo vestibular para preenchimento das vagas naquela época, isso é o que eu recordo. Tenho vários colegas ainda, alguns Deus já levou e eu sempre organizava as nossas festas de comemoração, nós sempre comemoramos a cada cinco anos: cinco, dez, 15, 20, 25, 30, 35, agora depois dos 55 anos meus colegas falaram: “Chico, vamos comemorar de ano em ano porque cinco em cinco não vai dar”[risos], então de ano em ano a gente já programa uma reunião e como toda reunião, ninguém quer mais jantar, todo mundo quer almoço pra não sair de noite com medo de assalto. Acabou o Brasil, o Brasil agora você arruma, hoje é do bandido, você fica confinado dentro de casa, não é verdade?

 

P/1 – Quando o senhor se formou em Medicina, qual a especialidade que o senhor escolheu?

 

R – Eu escolhi Dermatologia desde o começo. Aliás, quando eu me formei, usava muito em Belo Horizonte fazer o perfil do doutorando, então eles fizeram o meu perfil dizendo o seguinte: “O Chico Neves é um dermatologista verdadeiro pois ele conhece pela pele quando o lobo se veste de cordeiro”, então eu escolhi Dermatologia, acabei de falar pra você, se amanhã eu voltar outra vez, eu volto a ser médico e volto a ser dermatologista.

 

P/1 – E o período de residência?

 

R – Não existia na minha época, existia fazer a chamada especialização. Residência foi uma coisa criada depois.

 

P/1 – Poderia contar como foi o início do trabalho?

 

R – Me formei e fui trabalhar na clínica dermatológica da Santa Casa sob a direção dos professores Olinto Orsini e Osvaldo Costa. Por sinal, Osvaldo Costa foi até meu padrinho de casamento e, posteriormente, eu fui assistente dele na Faculdade de Ciências Médicas e depois ele saiu pra ser professor na Federal e eu assumi a cadeira de Dermatologia. Fui professor durante 40 anos na Faculdade de Ciências Médicas e esse meu mandato terminou agora no ano passado onde a Congregação me deu o título de Professor Emérito. Agora se for dar alguma aula, seria aula magistral, como chama, uma vez por mês por convite. No momento estou dedicado só à parte de consultório que eu vou todo dia.

 

P/1 – Onde o senhor trabalhou antes de entrar na Unimed?

 

R – Em 1953 eu fiz concurso público pra entrar pra Prefeitura de Belo Horizonte. Fiz o concurso, passei, não vou falar o lugar porque fica parecendo elogio de boca própria, mas fui classificado, assumi e dentro da Prefeitura eu comecei a exercer todos os cargos de médico, chefiar carteira de saúde, enfim, todas as promoções possíveis até terminar como Secretário de Saúde, coisa que eu sou aposentado hoje como Secretário de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, como Secretário Adjunto.

 

P/1 – O senhor podia contar um pouco como era o serviço público na época, a medicina pública em Belo Horizonte? 

 

R – Olha, no momento eu não posso fazer comparações porque eu não conheço o atual serviço público, mas naquela ocasião, no tempo que nós fomos funcionários públicos da prefeitura, vou te dar uma passagem assim: o prefeito, na primeira vez, doutor Osvaldo _______, ele assumiu a prefeitura depois do impeachment do prefeito Carone. Eram duas horas da manhã, eu era presidente da Associação Médica de Minas, ele ligou pra minha casa, queria falar comigo. Eu xinguei porque duas horas da manhã: “Aqui é o prefeito...”, isso é trote, duas horas da manhã! Depois tornou a ligar, me convidou pra ir lá, eu fui e ele me pediu pra indicar, como presidente da Associação Médica, que eu indicasse o Secretário de Saúde porque ele estava assumindo a Prefeitura naquele momento e eu indiquei o doutor Edgard. Posteriormente, ele foi prefeito novamente, ele tornou a me telefonar, aí eu já levei uma porção de nomes e foi quando ele me convidou pra ser Secretário. Como eu estava deixando a presidência da Associação Médica, eu falei: “Ah, o senhor me dá pelo menos 24 horas pra pensar” “Eu dou 24 minutos”, então falei: “Eu vou ligar pra minha mulher porque pelo menos, já não páro em casa” “Não, você faz o que você entender”, aí eu assumi. Pra você ter uma idéia como era diferente, na primeira audiência depois de assumir o cargo de Secretário, eu perguntei ao prefeito assim: “Prefeito, tem algum nome que o senhor queira indicar pra compor o segundo escalão?” – diretoria disso, diretoria daquilo, porque uma Secretaria tem várias Diretorias – ele falou assim: “Você escolhe toda a sua equipe. Você é da minha confiança, então a sua equipe tem que ser da sua confiança e sendo da sua confiança passa a ser da minha. A hora que você montar sua equipe você traz aqui e me apresenta todos os funcionários”, e assim eu fiz. Isso não existe mais, você está vendo agora a partilha, o negócio do ______ aí, não é verdade? Em todo lugar hoje, todo mundo... Não existe isso mais por isso que eu estou dizendo não sei como está funcionando agora. No meu tempo era assim.

 

P/1 – Como foi o início da Unimed?

 

R – Olha, meu filho, foi uma luta! Nilo Marciano que foi quem me antecedeu, foi o primeiro presidente que foi aqui superintendente da Unimed – vocês lembram do Nilo Marciano? Morreu aqui inclusive dentro da sala da Unimed – eu o sucedi. Nós saíamos catequizando, pedindo pro médico entrar, então a primeira pergunta que eles faziam pra mim: “O que você está ganhando com isso? Você acha que eu vou largar minha clínica particular pra mexer com cooperativa?”, “Não quero saber disso não”. A mesma coisa nos hospitais, foi uma luta pros hospitais entenderem que tinha que fazer contrato com a gente pra poder atender porque na medicina tem que ter hospital, não é fim, mas é meio, tem que ter. Essa foi a luta, peregrinações não só dentro de Belo Horizonte como depois pra Federação nós viajávamos pro interior pedindo. Eu ainda falava pros médicos: “Se nós vivermos vocês verão, essa medicina liberal vai acabar, isso é ____ em extinção”, então vários daqueles colegas que recusaram naquela época, hoje estão planejando entrar na Unimed e ela hoje está mais difícil, entendeu? É uma verdade. Hoje ninguém mais tem condições de manter uma assistência médica. Consulta não, consulta é uma coisa que você paga aqui e acabou, mas a hora que você tiver hospitalizado, algum ato cirúrgico ou fazer uma bateria de exames mais sofisticada, não há dinheiro que agüente, o sujeito não tem condições. Ou ele tem que ter... O que me levou mais a isso foi o seguinte: eu sentia naquela época que a exploração do médico começava muito cedo com esses grupos fechados. Em Belo Horizonte lançaram um serviço que chamava Cyber Médica e contratavam vários médicos pra trabalharem na Cyber Médica. Com esse nome bonito eu quis saber o que era, fui ver, eram dois cidadãos que tinham ______Sabará e Hermínio, criaram um grupo fechado de atendimento e contrataram médico e tinha médico trabalhando, isso que é incrível.

 

P/1 – Que ano o senhor entrou na Unimed?

 

R – 71. Na inauguração, eu sou fundador.

 

P/1 – Da Singular?

 

R – Da Singular, que chamava Medminas. Antigamente chamava Medminas, que era Medgo, de Goiás, Medpa, do Paraná. Depois é que teve a fusão Unimed.

 

P/1 – E quem fundou junto com o senhor a Unimed BH?

 

R – Vários colegas, vários, inclusive quem presidiu a primeira assembléia da criação da Unimed dentro da Associação Médica de Minas Gerais foi o professor Nilo Rocha e eu, quando estava na presidência da Unimed, da Associação Médica, eu nomeei uma comissão que veio aqui a Santos pra poder verificar porque a primeira criada foi a Unimed Santos, vir aqui ver como funcionava a Unimed Santos. Pegar subsídios para depois criarmos a Unimed de Belo Horizonte, que parece que foi a terceira: a primeira foi Santos, depois foi Campinas e depois Belo Horizonte.

 

P/1 – E como foi o crescimento da Unimed BH?

 

R – A Unimed Belo Horizonte tomou um impulso muito grande. A Golden Cross na época falavam: “Enquanto tiver aquele gordão na presidência não entro naquele negócio!”. Eu era muito mais gordo do que sou hoje, enorme, tinha um barrigão. Pra você ter uma idéia, quando o Nilo passou pra mim a Unimed, a Unimed tinha 11 mil usuários. Eu entreguei pro Emerson, que foi meu sucessor, com 398 mil usuários.

 

P/1 – Isso em que ano?

 

R – Em 1998. Entreguei pra ele com 398 mil; hoje ela está com 600 mil usuários. Você vê que cresceu muito.

 

P/2 – Só uma perguntinha: o senhor falou que foi uma comissão a Santos...

 

R – Da Associação Médica Brasileira.

 

P/2 – Mas foi uma iniciativa sua ou o doutor Edmundo Castilho tinha ido lá?

 

R – Não, a minha relação com o Edmundo Castilho parte do tempo que nós éramos membros da Comissão de Medicina Assistencial da Associação Médica Brasileira. Porque a Unimed, as Unimeds inicialmente foram criadas dentro das Associações Médicas e na Brasileira o Castilho lutou muito porque eles não queriam. A Associação Médica do Brasil não queria, então foi na Comissão de Medicina Assistencial que depois foi criada. Depois foi vindo a unificação dos (IAP?): (IAPC, IAPTEC, IAPI?), aquela confusão toda, foi tudo se misturando, e aí chegaram à conclusão de que deveriam. Em Santos foi vitoriosa, começou muito bem, depois Campinas com Gilberto ______ que foi outro precursor. E, nessa época, tem um artigo que eu deixei aí você vai ver porque nós nomeamos a comissão. Nós estávamos sentindo que a coisa estava pressionando e tinha uma solução, essa solução que a gente via era o cooperativismo. E eu sempre fui um ardoroso fã do movimento cooperativo. Eu esqueci de falar no currículo, mas eu presidi a Cooperativa Editora e Cultura Médica da Faculdade de Medicina, fui presidente dela e eu sempre fui um ardoroso defensor e acho espetacular isso. É aquele negócio dos burrinhos: enquanto estica pelo pescoço ninguém come. Aqui está a moita de capim aqui, a outra moita de capim e os burrinhos esticados não chegam na moita. Se eles resolvem, os dois, comer a moita da esquerda e juntos comer a moita da direita, nesta cooperação – você vai ver nesse artigo, eu termino dizendo uma frase que ficou, eles falaram que a frase ficou sendo minha: é muito mais humano e muito mais fácil cooperar que competir, entendeu? A hora que o sujeito consegue cooperar, é muito mais humano do que competir. A competição é horrível; a cooperação é divina. Concorda comigo? 

 

P/1 – Posteriormente à Unimed BH, o senhor ______ cargo na Federação?

 

R – Não. Eu fui presidente, aí criei a Intrafederativa Inconfidência Mineira, fui presidente também, o primeiro presidente. Até esqueci de falar, é Intrafederativa Inconfidência Mineira. Eu escolhi o nome em homenagem à minha terra, Ouro Preto. Essa Inconfidência Mineira é que congrega as Unimeds da zona metropolitana: Belo Horizonte, Ouro Preto, _____ São João Del Rey, Pedro Leopoldo, ______, ______ que congrega aquelas cooperativas ali que são Intrafederativas da Inconfidência Mineira.

 

P/1 – E quais são as dificuldades na criação de Singulares?

 

R – É aquilo que eu te falei, uma dificuldade. Primeiro, normalmente os médicos são arredios às novidades, em princípio eles falam não, depois começam a falar mais ou menos, depois falam sim [risos], mas eu estava te dizendo, eu fiz várias viagens. Eu e o Nilo fizemos várias viagens para o interior fazendo pregações, mostrando o problema, por que ______ fez a cooperativa, desde aquela época dos tecelões de ______, mostrando o que seria cooperativismo, que cooperativa é sociedade de pessoas, não é sociedade de capital, não tem dono, entendeu? Cada pessoa é um voto, não há distinção. Você pega um catálogo da Unimed, lá na Unimed, por exemplo, 70% dos dermatologistas que estão na Unimed Belo Horizonte, por exemplo, foram meus alunos, eu não tenho professor lá não, eu sou Francisco José Neves, igualzinho àquele que acabou de formar hoje, então essas coisas são muito mais importantes. O atendimento da pessoa humana, o cooperativismo dá valor à pessoa humana. Eu, por exemplo, nunca aceitei um contrato de empresas enquanto eu presidi a Unimed, por 20 anos, que eles não pusessem todos os seus empregados, todos os seus funcionários. Quando chegava lá: “Eu quero fazer um contrato com a Unimed, mas em nível de gerência”, eu falava: “Você vai pra outro lugar, comigo não!”. Eu sempre achei, e é uma maneira de educar, você vê, por exemplo, o mecânico sai todo sujo de graxa e vai no ambulatório do INSS consultar; no consultório ele toma banho pra ir, ele se sente gente, ele senta ao lado do patrão, no mesmo lugar, na mesma sala de espera, então isso é muito importante. Por isso que eu nunca fiz contrato, se não quiser colocar todo mundo, arranja outro, vai pra Golden Cross, vai pra quem quiser, mas na Unimed não.

 

P/1 – E a Unimed Intrafederativa Inconfidência Mineira? Qual a relação com a Confederação?

 

R – Não, o problema é o seguinte, esse é mais ou menos um ______. Presta bem atenção, você fazer assembléia e cada assembléia é difícil juntar todo mundo, é dispendiosa, então a Intrafederativa, vou dizer o seguinte, ela pega um setor, você resolve os problemas daquela região que são mais ou menos os mesmos problemas, quer dizer, os problemas que têm na zona metropolitana de Belo Horizonte são diferentes dos que têm no Sul de Minas, que têm no Triângulo Mineiro, que têm no Norte Mineiro, completamente diferente. Ali resolve e depois traz as soluções para _____, então é uma maneira de filtrar. Uma vez quando fui secretário, falei uma coisa, o seguinte: “Nas cidades grandes deveria ter N pronto-socorros pequenininhos e deixar só um pronto-socorro grande. Esses pequenininhos pra fazer sutura, se o sujeito quebrar o dedo do pé, o sujeito quebrou um braço, pra não sobrecarregar, deixar pro magistral só os casos que são de fato sérios, as grandes cirurgias, os grandes queimados”, por que o que acontece? O sujeito dá um tropeção na pedra lá num bairro, pega e atravessa a cidade inteira e vai lá no pronto-socorro. O que ele está fazendo? Está aumentando a sala de espera, fica aquela fila enorme, começa reclamação, concorda? Não é verdade? Então você descentraliza, você centraliza a execução e descentraliza a outra parte final. O presidente da Federação que está sentado em Belo Horizonte como que vai ter condições de verificar o que está passando lá em São João Del Rey? Então é o presidente de São João Del Rey que junta com os outros presidentes que têm muita coisa em comum pra depois trazer pra Federação, esse é o meu ponto de vista.

 

P/1 – O que o senhor considera como principal desafio que o senhor enfrentou na Unimed?

 

R – Hein?

 

P/1 – O principal desafio que o senhor enfrentou na Unimed?

 

R – O primeiro foi a loucura, esse convencimento ao médico. Aquele foi o maior, convencer o colega de uma coisa que não existia, que era nova. Porque o médico estava acostumado a ter clínica particular, naquela ocasião todo mundo pagava médico e os outros que não tinham, eram funcionários dos Institute: (IAPC, IAPI, IAPTEC, IBAS?) etc. E depois convencer que deveria atender no consultório e personalizar o paciente porque o paciente de ambulatório não tem nome, ele é número, ele é uma ficha: número 12, número 20. Está lá: “Fulano, ficha número dois!”, entra o fulano, não tem nome. Nessa altura precisa personificar a pessoa, dar a ele direito de condição humana, ele passa a ser uma criatura como outra qualquer. E pergunto a você: se não tivesse cooperativismo nesse país, qual o índice de pessoas que poderiam freqüentar consultório médico? Seria mínimo, não é verdade? Quem poderia se a consulta particular custa 250, 200 reais? Quem poderia? Muito pouco. Você está dando oportunidade àquelas faixas de pessoas que se humanizem, que passem a ter os mesmos direitos dos chamados ricos. Isso que é importante.

 

P/1 – Depois do cargo na Intrafederativa Inconfidência Mineira, que outros cargos o senhor exerceu?

 

R – Da Federação, da Intrafederativa e agora eu sou soldado raso.[risos]. Agora estou fazendo ______ e carregando fuzil no ombro.

 

P/1 – O que o senhor considera como principal realização sua na Unimed?

 

R – Realizações, primeiro o número de, quer dizer, você sentir o conceito que a Unimed Belo Horizonte criou. Isso é muito importante. Ela hoje é respeitada, você fala em Unimed, é como eles brincam lá: “Refrigerante é Coca-Cola, lâmina de barbear é Gilette, cerveja é Brahma, relógio suíço _____ e assistência médica é Unimed”. Essa é uma das grandes coisas que a gente conseguiu. A outra são realizações materiais: construção da sede, a sede nossa hoje foi durante muito tempo a maior sede do Sistema Unimed do Brasil, um edifício de dez andares absolutamente pago. Você perguntou qual era a outra coisa que eu passei mal? Vou te dar uma: eu era presidente da Unimed e nós tínhamos um depósito de 600 e tantos mil reais no banco e o Collor confiscou. Eu deitei com 600 mil e acordei sem um tostão, com 50 mil, com uma porção de contas pra pagar, pra pagar médico etc etc, só Deus é que sabe isso o quanto me custou de sofrimento.

 

P/1 – Como foi a criação da Unimed?

 

R – Isso nós fomos, peleja daqui, toma emprestado aqui, não atrasamos os pagamentos nem nada porque médico você não pode parar de pagar, senão chia mais do que... Conseguimos e Deus faz as coisas bem feitas, eu acho que sim porque com esse dinheiro que foi confiscado, depois ao recebê-lo, eu fiz a sede, entendeu? Construí a sede. Já tinha a sede menor, vendemos a sede menor pro Banco Bandeirantes, juntamos o dinheiro e construímos. A sede foi construída pela nossa equipe e sem usar um centavo de qualquer colega médico e de tomar um tostão emprestado. Pagamos a sede inteiramente nossa.

 

P/1 – Quantos cooperados e usuários tem em Belo Horizonte?   

 

R – Agora tem 600 mil e quatro mil e poucos médicos cooperados, acho que é 4800 médicos, se não me engano.

 

P/1 – E como o senhor compatibilizava a carreira de médico e de dirigente da Unimed?

 

R – Eu fui Secretário de Saúde. Quando o prefeito me convidou pra secretário de saúde, eu falei com ele assim: “Eu vou ser secretário do senhor com uma condição: até às 5 horas da tarde. Das 5 em diante eu sou médico, serve?”. Eu não pedi, ele me convidou, então às 5 horas eu largava a secretaria e ia pro meu consultório, ficava até às 8 e meia, 9 horas da noite. Mesma coisa eu fiz na Unimed, nunca deixei o consultório porque clínica é uma coisa que você tem que estar sempre presente. O dia que você afasta você perde a clínica porque o indivíduo está coçando: “Ah, doutor Francisco hoje não vai no consultório” e ele está coçando, ele vai em outro pra resolver o seu problema. Dermatologia não mata, mas não há nada pior pra pôr a pessoa mais preocupada do que coceira e mancha. Aparece uma mancha no corpo do nego, o nego fica doido. [risos]

 

P/1 – De que maneira a criação da Confederação ajudou na expansão da Unimed?

 

R – O meu relacionamento com o Castilho foi sempre o melhor possível. O Sistema Unimed do Brasil deve tudo a Edmundo Castilho, em primeiro lugar, isso é indiscutível. É um homem que devia estar... Infelizmente as coisas acontecem assim. Há uma frase latina que diz o seguinte: amicus certus in res incerta cernitum, o amigo certo das horas incertas. Isso não existe, está difícil. Ele foi um batalhador, sacrificou a vida inteira e ninguém... Mas isso é muito comum na vida, a história sempre nota e sempre registrou que as criaturas sempre viram contra o criador. Isso é comum, isso faz parte da raça humana. O Castilho, devia ter em cada Unimed do Brasil um monumento a ele, esse é o meu ponto de vista. Se agrada à A ou B, não me interessa, o que eu acho eu falo.

 

P/1 – Como a Unimed BH se insere na comunidade local? Que ações a Unimed vem fazendo?

 

R – A Unimed tem que estar em perfeita ressonância com a população, é lógico. Inclusive mostrei pra vocês, agora mesmo, nós tivemos a idéia de criar a chamada Música ao Pé da Árvore. Essa Música ao Pé da Árvore foi um negócio espetacular, infelizmente eles acabaram, não deram prosseguimento, mas de 6 da tarde às 9 da noite o pessoal dançando na rua com orquestra Anos Dourados, uma beleza! E ali vocês não queiram saber a quantidade de contratos que foram vendidos por causa da Música ao Pé da Árvore porque o povo vibrava com aquilo. Era um quarteirão fechado cheio de árvores em cima e ali o pessoal dançava, dançava na rua com orquestra e tudo. Várias coisas da comunidade, nós tivemos sempre muita participação em todos os eventos, as coisas que seriam de natureza social sempre a Unimed deu cobertura.

 

P/1 – Campanha de vacinação?

 

R – Tudo, campanha de vacinação, problema do diabético, ainda continua isso até hoje, de hipertensão, todas essas... E também a parte cultural, por exemplo, no aniversário da cidade, no aniversário da Unimed, nos 25 anos, eu levei o Milton Nascimento. O Milton Nascimento deu um show na Praça do Papa, 40 mil pessoas mais ou menos lá; na outra convenção eu levei o Cauby Peixoto, Caubicha. Ele deu um show, é um grande artista o Cauby; outra vez foi o Ney Matogrosso, então nós tivemos várias coisas assim que a sociedade participava.

 

P/1 – O senhor foi presidente da AMB. Como era a relação da Unimed com as organizações médicas, cooperativistas?

 

R – A Unimed nasceu dentro da Associação Médica. Eu fui presidente da Associação Médica Brasileira e nós ajudamos porque o presidente, o prefeito de Belo Horizonte que era Osvaldo _______, ele foi presidente do Conselho da Caixa Econômica e foi através da nossa amizade com ele que nós conseguimos o dinheiro da Caixa Econômica pra conseguir comprar a sede da AMB em São Carlos do Pinhal, que é atrás ali da Gazeta, é a sede da Associação Médica Brasileira, em São Carlos do Pinhal [tosse] E eu fui presidente, como eu estava dizendo, o Kassab, Pedro Kassab que foi o presidente da Associação Médica Brasileira, que é o pai do atual prefeito de São Paulo, eu fui o seu vice-presidente. Ele foi eleito presidente da Associação Médica Mundial, com sede em Genebra, então ele foi pra Suíça pra presidir a Associação Médica Mundial e eu assumi a presidência. Eu vinha toda semana aqui de Belo Horizonte a São Paulo pra presidir a Associação Médica Brasileira. Mesma coisa quando fui presidente do Conselho da Seguradora Unimed, eu vinha toda quinta-feira aqui também pras reuniões do Conselho, então eu já tenho um bocado de horas de vôo, quase um colibri.

 

P/1 – Me fala um pouco da sua experiência na Unicred, em BH.

 

R – A Unicred foi criada justamente por isso, pra ser o braço econômico do médico, e a primeira Unicred que eu criei, eu coloquei dentro da Unicred os funcionários porque eu sempre defendi o funcionalismo. Eu acho que nós, diretores, nós somos passageiros, quem agüenta, quem constrói, quem leva, quem administra, quem ativa, progride com a empresa, é o funcionário, não é o diretor; o diretor é passageiro. Tanto que eu criei o 14º salário na minha administração na Unimed do Brasil, fui o primeiro a criar o 14º salário, não existia o 14º salário e eu criei pros funcionários. É o meu ponto de vista, eu acho que a empresa só anda se estiver com bons funcionários e se os funcionários estiverem satisfeitos pra trabalhar porque esse negócio de gritar, isso... Eu nunca tive negócio de audiência, marcar audiência, não, minha sala sempre foi aberta, da presidência, dos secretários, de tudo quanto é lugar.. Quer falar comigo? Entra! Falar não ofende. A primeira Unicred eu coloquei os funcionários; posteriormente teve que acabar porque saiu uma dessas jurisprudências. A nossa justiça é cega, mas agora além de cega ela está capenga também, aleijada e muito mal assistida, então veio uma portaria proibindo os funcionários, a Unicred só podia ser dos médicos. Eu tive que dissolver, devolver as cotas pra todo mundo e reabrir a nova Unicred sem os funcionários. Eu achava que a Unicred era o braço econômico. E a Unicred de Belo Horizonte tomou um impulso enorme, hoje tem uma série de normas, ______, movimento muito bom e disponibilidade. A última assembléia agora eles mostraram que está em situação econômico-financeira mais equilibrada possível, sem problema nenhum. Eu tenho a conta um da Unicred, a minha conta é 00001 dac 9 porque eu fui a primeira conta da Unicred, então eu continuo sendo usuário da Unicred.

 

P/1 – O que o senhor considera como peculiaridade de Belo Horizonte em relação ao Sistema Unimed como um todo?

 

R – Não sei se tem peculiaridade, eu acho que cada ponto, cada lugar é um jeito. O Brasil é isso que você vê: um continente em que todos falam a mesma língua, mas os modismos são diferentes, cada um tem a sua moda diferente. Eu não vejo diferença, eu acho que a Unimed Belo Horizonte cresceu como acho que cresceram várias outras Unimeds como também algumas deixaram de crescer, infelizmente.

 

P/1 – O senhor falou de referências em Minas Gerais dentro da própria...

 

R – É, porque o estado é muito grande, Minas tem 823 municípios, então as coisas são diferentes, as zonas, quer dizer, Minas é dividida em zonas: Oeste, a parte de mineração, Zona Central, Norte, Nordeste etc, são completamente diferentes. De tipo, até no sotaque. O sujeito que mora no Norte de Minas que é muito preso lá na Bahia, ele fala quase igual baiano, eles confinam com a Bahia; Belo Horizonte já é parte Central. Eu mudei pra Belo Horizonte em 1936, eu moro lá desde 36, eu vi Belo Horizonte crescendo. Quando eu cheguei em Belo Horizonte tinha 200 mil habitantes; hoje tem perto de 3 milhões. [risos]

 

P/1 – Qual foi o impacto da ANS na Unimed?

 

R – Eu não peguei, meu sucessor é que... Eu não tinha, na minha gestão não teve esse negócio de seguro, né?

 

P/1 – Regulamentação.

 

R – Regulamentação já não era no meu tempo mais.

 

P/1 – Foi na década de 1990.

 

R – Não, do [Instituto Nacional da Seguridade Social]INSS...

 

P/1 – Da ANS.

 

R – Não, da criação do seguro, né?

 

P/1 – Da Agência Nacional de Saúde, foi 1998.

 

R – Agência Nacional foi 1998, eu já tinha largado a presidência.

 

P/1 – Já tinha largado a presidência?

 

R – É, o meu sucessor é que pegou, eu não tive... Eu tive com o INSS, eu tive problemas sérios de outros tipos de atendimento antes, mas briga e coisa assim, luta, eu não tive. Quando eu fui presidente da Associação Médica de Minas eu tive uma briga com o Instituto por causa da diária global. Era uma diária que criaram que chamava diária global, dentro da diária estava o honorário médico e a diária hospitalar, você já viu o que acontecia, né? O sujeito pagava o hospital, o médico não recebia. O hospital pegava o dinheiro, comprava mantimentos, comprava não sei o quê e o médico ficava pra depois, então essa foi a minha grande luta na época. Só isso que eu tive.

 

P/1 – E a questão da educação no cooperativismo? Como a Unimed trabalhou essa questão e como é com os cooperados?

 

R – Nós sempre tivemos o máximo cuidado em chamar a atenção porque todo mundo falava assim: “Eu sou credenciado da cooperativa”, então sempre convencia que não era, que era dono. E foi criada a Fundação, né? Quem vem agora depois de mim deve ser o Nívio, quem vai poder dar subsídios maiores sobre a educação cooperativista é Nívio porque ele criou o [Centro Educacional Unificado] CEU, ele foi o presidente da Federação e foi um batalhador nessa parte, ele vai te dar mais subsídios sobre educação. Nós, toda vez que a gente recebia médicos cooperados, a gente sempre faz a educação cooperativista, inclusive com palestras, ensinando o que é cooperativa, como deve ser feita e os jornais, como vocês vão ver – eu deixei vários aí – sempre tem aquelas matérias batendo nessa tecla.

 

P/1 – Os recém-formandos procuravam a Unimed?

 

R – Os formandos, a gente sempre tratava, inclusive fazia palestras no sexto ano de Medicina, várias vezes a gente fez palestra na faculdade para os que estavam formando que iam começar a enfrentar o mercado de trabalho. 

 

P/1 – Não sei se o senhor poderia dizer sobre a atuação do Sistema Unimed hoje como um todo... Como cooperado.

 

R – Eu não tenho, atualmente, você sabe, hoje eu sou soldado, hoje a minha atuação no Sistema Unimed é isso: eu atendo dentro do meu consultório, só atendo doente da Unimed, não atendo nenhum outro tipo de atendimento, papelzinho, só atendo Unimed e alguns doentes particulares que ainda sobraram pra mim porque é aquele negócio, o sujeito já... Outro dia mesmo teve um que consultou comigo, no mesmo dia, na mesma hora, 40 anos atrás, ele consultou agora, 40 anos depois. Eu falei com ele: “Nós vamos jogar no bicho: mesmo horário, mesmo dia”, mas isso é raro, consulta particular. Eu só atendo Unimed. Eu vou ao consultório, nas segundas-feiras é o meu day-off, eu não vou ao consultório, é o dia que eu tiro pra resolver minhas coisas; terça-feira eu vou de manhã e de tarde, quarta eu vou de manhã e de tarde, quinta de tarde e sexta de tarde.

 

P/1 – O senhor poderia falar um pouco dos seus colegas de trabalho, o senhor poderia citar alguém em especial?

 

R – Da minha turma lá da Unimed?

 

P/1 – É, de toda sua trajetória.

 

R – Eu não tive colegas de trabalho, eu tive amigos de trabalho. Todos aqueles que comigo compartilharam e me ajudaram. Eu nunca falo eu fiz; eu falo nós fizemos. O presidente é uma peça dentro do conjunto, agora, todos eles que foram meus colegas e que me ajudaram em tudo, na Associação Médica, na _____, na Unimed, eles foram mais do que colegas de trabalho. Foram antes também amigos, solidários e você só pode progredir e tentar melhorar se você tiver o apoio, a solidariedade, a confiança, a honestidade daqueles que te cercam.

 

P/1 – O senhor poderia citar alguém?

 

R – Se eu citar nomes eu posso cometer algum engano, esquecer de algum. Eu só posso falar com você o seguinte: todos aqueles que comigo trabalharam, até hoje eu não tenho nenhuma ressalva a fazer. Pelo contrário, foram todos meus amigos, todos companheiros, todos me ajudaram muito e se alguma coisa eu fiz, é porque eles me ajudaram; sozinho eu não faria.

 

P/1 – O senhor poderia contar algum fato pitoresco que aconteceu ao longo desses anos na Unimed?

 

R – Na Unimed... Que eu lembre assim, não. Pode ter tido, mas no momento agora eu não lembro.

 

P/1 – Quais são os fatos mais marcantes na sua carreira de medicina?

 

R – Tem vários. Um dos que mais me impressionou na minha vida médica foi uma cliente minha que tinha tricotilomania, tricofagia e (tricobesoir?). Explico: arrancava cabelo, comia cabelo. Ela comeu todo o cabelo da cabeça, todos os pêlos do corpo e metade de uma peruca. Ela arrancava e comia até ser operada pelo que nós chamamos de (tricobesoir?). Tirou um estômago de cabelo porque o cabelo não dissolve. Foi uma das coisas que me impressionou. E outra que me impressionou muito na minha vida profissional foi o caso de uma irmã de caridade que destruiu uma mama com soda cáustica. Colocava soda cáustica, masoquismo. Na minha vida profissional, não na minha vida de Unimed. Não é muito bom isso não.

 

P/1 – Mesmo como cooperado, doutor Francisco, como o senhor acha que a sociedade vê hoje o Sistema Unimed?

 

R – Vou te contar um fato que escutei na rádio. Em Belo Horizonte tem uma rádio que é famosa, chama-se Rádio Itatiaia. Ela é 24 horas e tal, e um jornal da Rádio Itatiaia tem um programa que chama assim: Fala o Cidadão, é quando você liga pra reclamar, pra queixar, pra pedir providência etc, e um cidadão lá telefonou dizendo que ele pagava um plano de saúde há muitos anos e a hora que ele precisou foi negado. E o repórter falou: “Pois é, eu pago Unimed, eu tenho Unimed e eu nunca tive problemas com a Unimed. Se você estivesse na Unimed você não teria problema nenhum porque estava resolvido seu problema”, quer dizer, isso foi uma coisa feita gratuitamente, não foi combinada, eu escutei na rádio, no jornal, no carro indo do consultório pra casa.

 

P/1 – Na sua opinião, como a Unimed ajudou a medicina brasileira?

 

R – Muito.

 

P/1 – E qual a maior contribuição?

 

R – Principalmente essa, o grande problema da Unimed é problema social. É levar pro consultório aquele que nunca poderia estar dentro do consultório, isso que é mais importante, ele se sentir gente, ele se sentir pessoa humana, sentir respeitado. Não é fila, não é número, uma senha. Antigamente era o seguinte, o médico não tinha nome, era o doutor da sala tal e o paciente era número. Hoje não, você marca consulta no consultório, você tem hora marcada pra você, você senta na sala de espera, você é atendido como qualquer outra pessoa que está lá, isso é fundamental, meu filho. Isso inclusive ajuda aquilo que em latim se chama de vis medicato in nature: força medicadora da natureza.

 

P/1 – Como o senhor vê o principal diferencial da Unimed em relação aos outros planos de saúde?

 

R – Primeiro, a Unimed não tem fins lucrativos, começa por aí, o outro tem. Não preciso falar mais nada.

 

P/1 – Qual o fato mais marcante que o senhor presenciou ao longo desses anos na Unimed?

 

R – Principalmente isso, várias manifestações por escrito eu recebia lá de pacientes agradecendo, muitos pacientes agradecendo. O seguro que a Unimed propicia aos médicos, aos cooperados, várias manifestações dessa ordem pelo rádio, por jornal etc de agradecimento, e isso é como eu digo, o médico é dono da cooperativa então ele tem obrigação de zelar por aquilo que é seu. Quem não zela pelo que é seu ou quem dá o que tem, a pedir vem. 

 

P/1 – O que o senhor considera como maior aprendizado de vida trabalhando na Unimed?

 

R – Eu sou da medicina que já passou por várias transformações, sou da medicina antiga e que a primeira penicilina vinha em garrafa térmica cercada de serragem. A primeira vez que se aplicou uma injeção de penicilina no Brasil, em 1950, já tem alguns séculos. A medicina hoje tomou um impulso muito grande com a técnica e eu acho o seguinte, quando eu criei a Academia de Medicina, o escudo da Academia tem morbus arcere, ergroto sanare, dolores lenire. São três frases em latim: sanar a dor, evitar a morte, lenir a dor. Medicina é isso, e só existe medicina no mundo ou em qualquer lugar quando há um binômio que é indestrutível, esse binômio é constituído de consciência e confiança. Confiança do paciente, consciência do médico. Se não houver esse binômio, não existe medicina, existe tudo que você possa imaginar, menos medicina. Essa que é a verdadeira medicina, o encontro da confiança com a consciência.

 

P/1 – Como o senhor vê a questão da Constituição da Unimed em 1994? Qual a importância desse marco pra história da Unimed?

 

R –1994? 

 

P/1 – A Constituição da Unimed. Como foi esse marco pra história da Unimed?

 

R – Você fala da criação? Eu acho que foi um passo pra melhora da coisa, sem dúvida alguma. Como toda Constituição, inclusive a de 88 que você está vendo aí, ela tem vantagens  e desvantagens, não é verdade? O interesse pra se fazer uma Constituição, todo mundo quer fazer uma Constituição pra melhorar, mas nem sempre. Ela às vezes sai ao contrário, então como toda Constituição ela tem que ser modificada, tem que ser reformulada, tem que ser revisada. Ela não pode ser estática, tem que ser dinâmica. Você vê, por exemplo, essa Constituição do Menor aqui, da Constituição de 1988 o problema do menor: o menor pode matar? Pode votar, mas não pode ser preso, um negócio esquisito e está na Constituição. Direitos do menor, do adolescente, então tem que ser reformulado como toda Constituição. Às vezes as pessoas fazem as coisas pensando num jeito – isso aí não vai gravar não, mas tinha um amigo meu que era advogado, muito sem vergonha, ele falava assim: “A lei é igual mulher: pra ser fecunda tem que ser violada” [risos], mas é verdade. Ele era um sujeito materialista, terrível, mas o que acontece é o seguinte, o que está acontecendo com o estatuto do adolescente? Você está vendo aí criança matando. Em Belo Horizonte ontem mesmo prenderam um, 16 anos com fuzil, metralhadora, assaltando. Dezesseis anos, com munição de guerra. Acontece o seguinte, o Lula fez aquele negócio de desarmar, então o cidadão sério não pode ter arma, mas o bandido pode, não é uma coisa incrível? Ninguém tem arma pra matar, mas pra se defender, hoje não tem. O que acontece? Hoje o bandido vai e atira, qualquer coisinha ele está atirando, está matando, está assaltando. Hoje se você ficar com o vidro aberto o sujeito está querendo te tomar no sinal, se você não tiver ar condicionado no carro, nem todos podem ter ar condicionado, você fica assado lá dentro com calor porque o bandido está do lado de fora pra te pegar, Deus me livre!

 

P/1 – Fala um pouco, doutor, sobre os simpósios, as convenções, quais foram os mais importantes?

 

R – Eu fui a todas enquanto eu estive, fui a todas as convenções. Toda convenção, eu tenho um ponto de vista que acho que a convenção não deveria ser anual, eu acho que a convenção deveria ser de dois em dois anos e fazer reuniões regionais cada ano, mas a grande convenção que congrega todo mundo deveria ser de dois em dois anos. Ou de três em três anos porque você teria assunto suficiente pra debater em uma convenção. Acaba sendo festa.

 

P/1 – O senhor poderia dizer qual a mais importante?

 

R – Eu acho que os assuntos, se você fizer reuniões sectárias e depois discutir esses assuntos e levar os grandes assuntos pra Confederação depois eu acho que é muito mais proveitoso. De ano em ano o que acontece? Fica uma repetição, ela é repetitiva, todo ano é a mesma coisa, repara pra você ver. A gente chega e já sabe, aquela música já ouvi. [risos] Mas é verdade, e é dispendiosa, custa um dinheirão para a Confederação, para as Unimeds e para os cooperados também porque você vai, tem que levar a mulher – mulher gasta também – a despesa aumenta. Eu me lembro de na época sujeito falar: “Eu tomei dinheiro emprestado pra vir nessa convenção, minha mulher quis vir de todo jeito”. A Unimed paga a passagem dele, mas a da mulher não paga, a hospedagem não paga, eu acho que é um dispêndio. Do meu ponto de vista deveria ser de dois em dois anos, de três em três anos a grande convenção. Agora, reuniões setoriais, por exemplo, junta São Paulo, Rio e Minas, fazem uma reunião uma vez por ano, por que? Porque mais ou menos os mesmos problemas que afetam Minas, que afetam São Paulo e Rio. A mesma coisa é Goiás, Mato Grosso e Tocantins, não é? Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e assim sucessivamente. Depois fazia a grande convenção que ia discutir os assuntos genéricos, gerais pro Brasil inteiro. Depois de já ter esmiuçado tudo aquilo que acontece no dia-a-dia.

 

P/1 – Pro cooperativismo brasileiro, na sua opinião, qual a importância da Unimed?

 

R – Hoje é um dos setores do cooperativismo nacional de mais importância. Eu fiz parte da Comissão de Cooperativa do Trabalho da (OCB?), até esqueci de falar isso também, participei durante cinco anos, eu fiz parte do Departamento de Cooperativismo do Trabalho. Hoje é um setor importantíssimo. Você vê que nos relatórios todos, entre as maiores cooperativas do setor cooperativo brasileiro, a Unimed está sempre lá destacada.

 

P/1 – Na sua opinião como a Unimed pode crescer e qual a sua perspectiva pro crescimento da Unimed?

 

R – Só cresce enquanto tiver confiabilidade. Enquanto o povo acreditar, e a maneira do povo acreditar é ela fazendo a medicina honesta, ética, uma medicina séria e os médicos também, por sua vez, procurarem dar o atendimento melhor possível para aqueles que são os usuários, aí ela cresce. Cresce igual bolo, é fermento, farinha, você põe no bolo e ele cresce. Se você não puser os ingredientes, o bolo murcha.

 

P/1 – O senhor chegou a presenciar a divisão da Unimed?

 

R – Eu cheguei. Eu soube que agora já estão unidas outra vez. Eu era dessa época aí que houve a cisão.

 

P/1 – Qual foi o impacto? 

 

R – O pior possível. A briga fraterna é um absurdo, mas eu sempre achei e continuo achando, aquilo tudo é vaidade. A vaidade humana é um problema sério. Dividiram e quem ficou feliz com a divisão foram os concorrentes porque a maneira de você derrotar é fracionar, se você dividir, enfraquece. Mas agora eu soube, hoje inclusive estive ali conversando com o Mallmann e ele disse que todo mundo está voltando, parece aquela música: “Boemia, aqui me tens de regresso” [risos], não tem essa música “Boemia, aqui me tens de regresso”? Estou sabendo que está todo mundo voltando, é ótimo!

 

P/1 – Para o senhor, o que é ser Unimed?

 

R – O que é ser Unimed? É, antes de tudo, ser cooperado; é, antes de tudo, encarnar na sua vida, no seu cerne o cooperativismo. Cooperativismo não tem credo, não tem divisão social, não tem divisão política, o cooperativismo está acima de tudo, repara pra você ver. É isso, cooperativismo é isso. É aquilo que eu acabei de falar pra você: no mundo, se todo mundo cooperasse, o mundo seria de outra forma. Aquilo que eu falei, torno a falar, é muito mais humano, mais fácil, cooperar do que competir. A competição, o que houve, por que houve a cisão? Porque faltou a cooperação. E suplantou e subiu a competição, por isso que houve o sectarismo, por isso que houve a partilha, porque faltou cooperação e surgiu barbaramente a competição. Daí deu o que deu, não é verdade? É uma tristeza. Mas aquele que é imbuído da qualidade de cooperado, aquele que entende que cooperativismo, aquele do _____, a maneira de evitar uma revolução. Cooperativismo é tudo, não tem credo, não tem religião, é um homem, é um voto, é livre-arbítrio, entra e sai a hora que quiser. Cooperativismo é isso, é uma coisa divina quase. Ela está um pouco acima da condição humana no meu modo de entender.

 

P/2 – Tem alguma pergunta que a gente não fez, alguma coisa que a gente não falou e o senhor gostaria de colocar?

 

R – Não. Eu agradeço o convite que vocês me fizeram, não sei se o que eu falei está de acordo com o que vocês esperavam, mas eu só posso agradecer.

 

P/1 – O que o senhor achou de ter participado?

 

R – Achei ótimo, agradecido, fico muito feliz por ser lembrado porque agora estou sendo carta fora do baralho. [risos]

 

P/2 – O que o senhor achou desse projeto dos 40 anos?

 

R – Muito bom!         

 

P/2 – Lembrando das pessoas...

 

R – É ótimo, beleza. Quem teve a idéia, meus parabéns pros idealizadores, meus parabéns pelos executores. Quem não tem história, morre, então vocês estão fazendo a história. Uma maneira de morrer é não historiar e no Brasil, infelizmente, o brasileiro tem por hábito não fazer história. É um erro. Meus parabéns pela idéia! Meus parabéns pela execução e espero que outros que seguirão vocês dêem continuidade a esse trabalho.

 

P/1 – Em nome da Unimed e do Museu da Pessoa agradecemos a sua entrevista.

 

R – Obrigado, eu é que agradeço. 

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