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História de Erwin Wegner

História de: Erwin Wegner
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2005

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Eu já estava preparado para entrar no navio em outubro ou novembro de 36, quando eu recebi um telegrama de minha irmã para não embarcar. Minha irmã já estava no Brasil desde julho e mantínhamos uma correspondência muito grande. Para conseguir o visto, tive que mudar, na Alemanha, meu passaporte. Porque estava escrito “Dr. Erwin Wegner”, além da profissão de dentista; e o Brasil não aceitava profissionais liberais e nem eu estava interessado em doutores. Então me tornei agricultor, fui contratado como operário rural.
Não sei qual foi o problema com meu visto: se desconfiaram que não estava certo, se foi porque eu era um apátrida, ou se foi porque eu era judeu. Mas, finalmente, no dia 4 de dezembro de 1936, minha irmã telegrafou para que eu embarcasse imediatamente. Nesse mesmo dia peguei o navio.

Cheguei no Brasil no dia 23 de dezembro. Dia quente, muito quente. Minha irmã estava me esperando. Fomos direto para sua casa. Naquela época, ela morava em Nilópolis. Para mim era tudo uma novidade. O clima diferente, as pessoas diferentes. Na Avenida Rio Branco, vi gente em grupos, conversando, gesticulando e falando alto. E os bondes eram todos abertos, o cobrador andava em volta das pessoas e gritava: “Faz o obséquio” Faz o obséquio!”

Morei com minha irmã durante uns dez dias, até que finalmente decidimos que Nilópolis não era futuro para mim. Não havia possibilidade de arranjar trabalho lá, e ficava muito longe para procurar serviço no Rio. A viagem durava mais ou menos uma hora, ainda tinha trem a vapor, além do que o horário era muito irregular. Então vim morar numa pensão, na rua Francisco Muratori, chamada Goldstein.
A pensão era freqüentada só pro judeus, e eu dividia um quarto com outro rapaz. Comecei a procurar trabalho. O que fazer? Isso era o mais difícil. A minha profissão estava fechada para mim. Me deram a idéia de vender artigos dentários. Mas como não sou comerciante, não tinha a mínima experiência, não consegui ganhar dinheiro nenhum. Depois tentei como protético. Na Alemanha eu havia estudado odontologia, mas tinha relativamente alguma experiência em prótese dentária. Fui recomendado por um amigo para um dentista. O dentista era muito agradável, mas me dizia assim: “Olha, você toma conta. Quando vier um cliente, diz que estou doente, que não posso atender. Que eu agora vou para o cinema.” Eu fiquei chocado” Como é possível? Marcou um cliente às três e meia e vai ao cinema? Eu fui educado como ieke, tipo alemão, não conseguia largar e aceitar uma outra mentalidade. Essa foi uma experiência, mas não durou. Ele também não tinha dinheiro para me pagar.

Depois conheci um homem que queria me entregar a direção de uma oficina de prótese. Mas meus conhecimentos não eram suficientes e larguei. Fiquei dez meses praticamente sem ganhar dinheiro. Recebia dinheiro dos meus pais, dez marcos por mês, que era o que cada um podia mandar. E assim vivia. Mudei da pensão Goldstein e fui para a pensão de uma portuguesa, na rua Augusto Severo. Nesse tempo eu já tinha amigos, imigrantes da mesma idade que a minha. Nos encontrávamos na hora do almoço, na leiteria. Naquela época a leiteria era um lugar de encontro, era barato, não precisava tomar uma refeição grande, a gente apertava o estômago e comia. Éramos muitos. Alguns já tinham emprego, outros não. Alguns trabalhavam como comerciantes, outros como klappers. A maior parte dos judeus, naquela época, vinha do leste da Europa, da Polônia, da Rússia, da Romênia, etc. Havia uma separação entre judeus alemães e os poloneses e os sefaradim. Os judeus do leste europeu, principalmente os mais velhos, não queriam muito contato com os alemães; e os alemães tampouco queriam contato com eles. Os sefaradim eram ainda mais separados, conheci poucos. Mas tudo isso mudou muito quando apareceu a nova geração.

Bem, um dia eu v um anúncio no jornal procurando um protético. Fui lá e me apresentei. O dentista tinha trinta e um anos, era comunista, tinha simpatia por judeus e queria aprender alemão. Então ele me empregou. Fiquei com ele uns quatorze, quinze anos.
Em 1942 me casei. Alguns meses depois, minha esposa me incentivou a trabalhar como dentista outra vez. Havia vários outros dentistas imigrantes na mesma situação que eu. Alguns já trabalhavam clandestinamente, em casa ou em consultórios de colegas. Então arranjei uma cadeira, instrumentos e comecei a trabalhar, só entre conhecidos. Eu trabalhava de dia no laboratório e, quando voltava, às sete horas, chegavam um ou dois clientes. Às vezes eu ficava até dez, onze horas trabalhando. Atendia sábado também. E domingo eu ia para o laboratório fazer prótese. 

Em 46 saiu a nova Constituição, que permitia ao estrangeiro exercer profissões liberais. A dificuldade estava em reconhecer os documentos. Não tinha embaixada brasileira na Alemanha, só uma comissão militar. Aqui também não havia uma embaixada alemã. Mandei os documentos pela Cruz Vermelha, levaram um ano para voltar. Mas a revalidação das profissões liberais ainda não estava bem regulamentada e depois saiu o seguinte: eu tinha que fazer uma complementação do curso ginasial. Três matérias. Português, História do Brasil e Geografia. Fiz o artigo 91. Em 51 prestei ecxame para revalidar meu diploma de Odontologia. Então terminou a fase da minha imigração e da luta pela sobrevivência. 

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