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História como legado

História de: Valdirene Ferreira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Separação dos pais. Infância no interior de Alagoas. Ensino Primário em Alagoas. Mudança para Rio de Janeiro. Trabalho em drogaria. Faculdade de Farmácia no Rio. Realizações de sonhos. Relações familiares. Irmãos. Filhos. Pandemia.

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História completa

Me chamo Valdirene Ferreira da Silva e nasci em Girau do Ponciano, estado de Alagoas. Meus pais e avós também nasceram em Alagoas. Eles trabalhavam na roça. Meu pai era sonhador, gostava de festa, de se divertir, conversar, era bom papo, gostava de contar histórias, era bom de conversa. Minha mãe era dona de casa, calma. Tenho treze irmãos, seis irmãos de um casamento, quatro só do pai, e minha mãe tem três filhos fora do casamento.

Eu passei a minha infância em várias casas, sendo a que mais me marcou foi a casa que eu fiquei até os meus dezoito anos, fiquei dos meus oito aos dezoito anos. Era a casa da minha avó. Era uma casa de taipa. Era uma casa bem humilde, mas fez parte da minha infância, tenho muito orgulho. Nessa casa morava a minha avó, um tio e mais quatro irmãos.

A separação dos meus pais não foi muito amigável, foi dolorosa para ambas as partes, principalmente para a família da minha mãe, porque era uma família muito conservadora, de princípio, de nome. Após a separação minha mãe foi mandada para São Paulo para sair do foco, aí minha mãe levou uma só, uma garotinha de dois anos, e nós éramos em seis. Aí ficou eu, com oito, meu irmão com sete, minha outra irmã com seis, um irmão com quatro, e o caçula com oito meses. A gente meio que era órfão de pais vivos, porque uma mãe morava em São Paulo e o pai morava no Rio de Janeiro.

O dia da separação marcou muito a minha vida, porque eles tiveram uma conversa de adulto, e as crianças não participaram. A gente ficou brincando. A minha mãe chegou e falou: “Filha, eu vou embora, eu vou pra casa do meu pai”, ela não falou que estava se separando. Eu falei assim: “Eu vou com a senhora”. Aí ela falou: “Não, fica aí que depois eu venho te buscar”, ai eu fiquei com os meus irmãos e ela foi embora. No dia seguinte ela veio, mas foi buscar as coisas dela, as roupas, levou tudo, e aí a gente não entendeu o que estava acontecendo. Eu falava: “Eu quero ficar com a minha mãe”. Mas a família dela falou: “A gente aceita você de volta, mas as crianças não, elas tem que ficar com o pai e com a avó”. E ela aceitou, não tinha outra alternativa. Ela foi embora para São Paulo, ficou mais ou menos uns dois anos. Depois os pais dela quiseram que ela reivindicação os bens, porque a gente tinha uma casa. Aí fomos para o juizado. No dia da audiência a minha avó levou todas as crianças e quando a minha avó foi falar na audiência, ela entrou com todas as crianças, ficamos perto da juíza. A juíza falou para minha mãe: “Os bens são das crianças. Dona Maria, se a senhora ficar com as crianças, a senhora fica com os bens, até mesmo se a senhora ficar com três, a casa é da senhora”. Aí antes da minha mãe responder, quem respondeu foi o meu avô, ele falou assim: “Ela não quer nenhuma”. E a minha mãe ficou calada. Aí a juíza falou para ela: “Então se a senhora não vai ficar com nenhum, a senhora não tem direito a nada, os bens são das crianças, é uma forma de renda”. Isso marcou muito a gente, a gente saiu de lá meio decepcionado, porque a gente não ficou confortável com aquilo, a gente esperou que ela falasse: “Quero ficar com eles” e nao foi isso que aconteceu.

Nesse dia eu senti que tinha que tomar conta dos meus irmãos, que eu tinha que ser o diferencial para eles. Eu assumi os meus irmãos como se fosse a mãe, eu abracei a causa, como se fosse a mãe com os pintinhos. 

Agora imagina, uma senhora de cinquenta anos, que era a minha avó, para cuidar de tanta criança assim. Foi muito… Olha, a gente passou por muito sufoco para poder se adaptar. No começo a gente nem tomava banho direito. Eu lembro que a gente brincava o dia inteiro e quando ficava noite ela pegava uma bacia d’água, botava a gente sentadinha no pilão e ia lavando os pés, aí quando chegava no último a água já estava suja, preta. Ela secava o pezinho de todo mundo e ela ia dormir. Hoje a gente lembra como se fosse uma aventura. Mas era assim, a minha vó não dava banho, só lavava os pézinhos, não tinha aquela higiene adequada com as crianças, então a gente pedia ajuda para as pessoas para lavarem as roupas, porque era muita criança. Aí o que acontece, a minha mãe, mesmo separada, se escondia nos cantos, esperava a gente passar para falar assim: “Olha minha filha, cuida dos seus irmãos, dá banho neles, corta a unha deles”, ela me ensinava a cuidar deles, mas escondido, para minha vó não ver. Tudo que ela mandava eu fazer, eu fazia. Aí eu ia pro brejo, levava uma vasilha, sabão de coco, e dava banho neles. 

Hoje todos os filhos se dão bem, a família se juntou, são todos irmãos. Todo mundo é unido. Hoje a gente consegue falar da história, já passou, a gente perdoou, tanto da parte de pai quanto a parte de mãe.

 

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