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Herói olímpico

História de: Josiel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2013

Sinopse

Josiel nasceu em uma família humilde e teve uma adolescência difícil, sofreu exploração sexual quando era novo. Se prostituía ocasionalmente, em busca de dinheiro. Conta bastante sobre a mudança que aconteceu na sua vida através do Projeto ViraVida. Após alguns anos de projeto, foi concorrer a uma bolsa para o curso de mecatrônica no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Esse esforço rendeu a ele e à sua dupla uma medalha de bronze nas Olimpíadas do Conhecimento. Agora, seu sonho é o de se formar engenheiro e está trabalhando para isso, mantendo sua ocupação como trainee do Senai e estuda sozinho para o Vestibular.

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História completa

Meu nome é Josiel e eu nasci numa grande capital do Nordeste. Minha mãe é dona de casa e meu pai é vigia portuário. Ele se separou da minha mãe muito cedo, e ela partiu pra outro casamento. O meu pai também. Eles nunca conseguiram manter seus casamentos, estavam sempre trocando de relacionamentos. Em cada relacionamento, vinham mais filhos. Somos dez irmãos se somarmos todos. 

 

Eu sempre morei com a minha avó. A casa, aliás, era de minha bisavó. Nela morávamos eu, a minha avó, minha tia e também a minha bisavó. É uma casa com dois quartos, uma cozinha, uma sala. Uma casinha simples. Ainda hoje eu moro com ela, só que eu tenho esposa e tenho uma filhinha. Mas logo, logo, eu vou sair, vou alugar o meu lugar, pra poder ter um cantinho pra minha família. 

 

Da minha infância eu me lembro de jogar bola na escola, com latinha de refrigerante ou, então, com garrafa de refrigerante, que a gente chama aqui de “pichulinha”, a garrafa pequena, de PET, que era redondinha. Era uma escola no bairro e foi lá onde eu aprendi a ler. Eu era esforçado, desde pequeno, sempre agarrei muito as oportunidades. Não tive muitas, mas, quando eu tinha, não deixava passar. Eu me lembro que, da alfabetização, eu pulei logo para a terceira série da minha época, já que eu estudava muito. 

 

O meu cotidiano quando criança era muito simples, era de casa pra escola, da escola pra casa. Minha avó não deixava sair na rua, por conta do medo de que eu ficasse vulnerável. O bairro onde eu morava era muito perigoso. Agora está até melhor. Naquela época era bem pior, o índice de criminalidade era grande e ela tinha medo de que eu me envolvesse com drogas. 

 

E eu só consegui sair de casa quando comecei a trabalhar, quando tinha entre treze a catorze anos. A minha avó fazia artesanato para vender. Ela confeccionava crochê. A gente mora perto da praia, aonde ela ia vender seus artesanatos. Comecei a trabalhar na feira da praia, mas não com a minha avó. Na feira tem um centro de artesanato, eu trabalhava em outros estabelecimentos. 

 

Trabalhava ali na feira, ajudando nas vendas. Quando eu não tinha trabalho, ficava por lá também, porque eu já tinha conseguido ter o acesso à liberdade, então não queria mais ficar em casa. Era bom, porque ganhava o meu dinheiro, eu me lembro de que eu fiquei bastante feliz com a nova situação. 

 

Com mais liberdade para sair de casa, eu passei a jogar biloca (bolinha de gude) com as crianças na rua. Eu gostava muito, mas a falta de costume de brincar na rua e de experiência do convívio com adultos faziam de mim uma pessoa muito inocente. E foi aí que surgiram aqueles que aproveitaram de minha inocência, foi nesse ambiente da rua, da praia, e seduzido pelo dinheiro, que as pessoas se aproveitaram de mim.    


Eu não me sentia muito bem, mas continuava. Depois de dois anos que isso vinha acontecendo, que eu pensei: “Não, vou parar com isso, isso não é legal, não gosto disso”, eu acho que era por conta do dinheiro que eu fazia, mas não gostava. 

 

Eu ganhava presente, ou eles me davam trinta reais, vinte reais… O que para mim era bom, ajudava em casa, mas a questão não era essa. A questão era a falta de conhecimento do mundo. Eu ganhava dinheiro, chocolate, camisa, tênis, essas coisas. Eu acho que era para manter o meu silêncio que me davam isso. 

 

Acontecia uma vez por semana, às vezes duas, não era tão frequente. Era no carro, davam uma volta no carro e acontecia isso. Eu gostei sempre de mulher, mas eram só homens que me procuravam. Eles pagavam pra fazer, no caso, sexo oral em mim. Eles é que faziam em mim, gostavam de pegar no meu órgão e ficar fazendo essas coisas. 

 

Entrei no ViraVida através da APROCE. Fiquei sabendo que estava tendo inscrição para os cursos profissionalizantes, através do projeto ViraVida. Então, fui procurar saber, até que eu consegui me inscrever e entrei. O pessoal do Vira Vida recebe a gente super-bem, porque sabe que os jovens que são encaminhados para o Vira Vida precisam de carinho; esses jovens têm medo de todo mundo, porque a sociedade os discrimina muito.

 

Durante o tempo em que fiquei no projeto Vira Vida, eu não faltei nenhum dia, nem cheguei atrasado. Todo dia eu estava lá; não faltava  nem por doença, nem por nada. Eu estudei muito, pois estava motivado a estudar, era o que eu fazia quando era pequeno, quando vivia trancado em casa: estudava, estudava e estudava. Pelo menos quatro horas por dia. No Vira Vida, tem aulas de cidadania que nos deixam mais informados, mostram como é que funcionava a sociedade e quais são os nossos direitos.

 

Eu fiz o curso de comunicação digital, me formei com a melhor nota − aliás, a maior nota na época foi a minha. No Vira Vida, eu logo percebi que a maior mudança que estava acontecendo em mim foi o passar a acreditar mais em mim; eu vi que podia mudar a minha vida, vi que, para conseguir isso, eu tinha que ser um vencedor a cada dia, a cada dia tinha que ser melhor. Eu ia percebendo que isso estava acontecendo, então eu sentia que a cada dia eu estava melhor.

 

No Vira Vida, entrou todo mundo de um jeito; os que sabiam o que queriam agarravam aquela oportunidade e foram pra frente. Eu vi que meus colegas, como eu, que tiveram trajetórias de vida como a minha, estavam mudando, estavam melhorando, estavam se vestindo melhor, não falavam mais os palavrões que falavam antes. Vi que estavam mais sérios. Aquilo foi como se a gente tivesse passado por um processo de reciclagem, de reeducação.

 

Quando me formei no ViraVida consegui me manter no projeto mais um pouco, aí surgiu uma oportunidade de bolsa de estudo. Eu pensei: “Vou fazer esse curso também, quero aproveitar mais essa oportunidade.” Fui encaminhado pelo ViraVida e consegui a bolsa no SENAI. Fiz o curso de mecatrônica. Eu gostava muito de matemática. E sempre gostei dessa área de cálculo também; desde pequeno, eu gostava de ler e de resolver questões de matemática. Já na segunda série do ensino básico, eu sabia resolver cálculos usando as quatro operações. Eu era muito bom nisso. 

 

Quando entrei no curso de mecatrônica aqui, eu vi logo os alunos que eram os “olímpicos”; eles usavam camisa escrita “Olimpíada do Conhecimento” e com o nome do competidor atrás. Eu achei bacana, e aí eu pensei: “Vixe, será que um dia eu posso chegar a esse nível?” Quando aconteceu a seleção para a olimpíada de dois mil e doze, eu passei em terceiro lugar dos doze selecionados para disputar a etapa estadual. Esses selecionados, após um período de treinamento, disputam a olimpíada estadual, os quatros vencedores da etapa estadual formam duas equipes para a disputa final, que em dois mil e doze foi em São Paulo. A mecatrônica é uma área bem ampla; o profissional tem que ter domínio principalmente em programação e em pneumática. Por isso, para competir na “Olimpíada do Conhecimento”, tem que ser em dupla: um com maior conhecimento em programação, que é a minha área, e o outro com domínio em pneumática. Eu encarei o treinamento, foi indo, foi indo, foi indo… Sabendo que quem escreve a nossa história, somos nós, não são os outros. Eu precisava acreditar em mim pra conseguir chegar até lá. Aí eu consegui! Fiz a prova na etapa estadual, fiquei em segundo. 

 

Na olimpíada, eu fui o responsável pelo planejamento na área de programação e o outro parceiro fez a parte elétrica e a parte mecânica. Eu e meu colega de equipe treinamos muito para a etapa final. A gente treinava de manhã, de tarde e de noite; feriado, dia de sábado e domingo; a gente ficava na unidade só com os vigias. O nosso professor também era muito comprometido e nos ajudou muito. 

 

No primeiro dia da final, fizemos uma boa prova; no segundo dia, a gente deu uma caída; no terceiro, a gente subiu de novo; e, no quarto, a gente foi razoável. De todos os competidores do Brasil, ficamos em terceiro lugar! É uma sensação boa você conseguir algo assim, que é resultado do seu esforço e que não vinha só do treinamento. Esforço que vinha desde lá dos meus 14 anos, por tudo o que eu passei. Era resultado do projeto Vira Vida, que me acolheu, do esforço que eu fiz para mudar a minha vida. A sensação de eu estar ali naquele ambiente, com os melhores alunos do Brasil, de saber que eu consegui me igualar a eles, os melhores programadores do Brasil, era uma sensação muito boa, muito boa, mesmo!

 

Quando a gente subiu no pódio, a gente pulou, gritou, sorriu. A gente vibrava tanto que até se machucar a gente se machucou. O meu cotovelo bateu nos lábios do meu parceiro, sangrou, mas ele nem ligou, a gente estava feliz. Quando eu estava lá no pódio, vendo que estava entre os melhores do país em mecatrônica, eu já sabia que eu era um profissional, que não ia faltar emprego pra mim. 

 

Agora, eu estou no SENAI como trainee e estudando à noite em casa, sozinho, pra fazer vestibular, pra passar em Engenharia, que um dos meus sonhos também, desde criança, é ser engenheiro. Eu já sou técnico em mecatrônica e quero ser um engenheiro, um bom engenheiro. 

 

Ao entrar na universidade, quero mostrar pras pessoas que dá, sim, pra gente virar a vida. Quero mostrar isso para os alunos do ViraVida; eu converso muito com eles. Eles me perguntam: “Ah, eu quero também ir para a Olimpíada, como é que eu faço? Eu posso? É difícil?”, eu digo: “É difícil, não é fácil, não; todo dia você tem que vencer. Como o pessoal diz aqui, todo dia você tem que matar um leão! Mas vocês conseguem, vocês têm potencial pra isso!”



Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações

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