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Hayssam Mohamad Akad: um pedaço do Líbano em Rio Preto

História de: Hayssam Mohamad Akad
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/07/2021

História completa

          O meu nome é Hayssam Mohamad Akad. Eu sou da Síria, de Damasco. Nasci dia 29 de julho de 1943. Meu pai se chamava Mohamad Akad, e a minha mãe era Hizaji Akad. A minha mãe cuidava do lar, éramos nove filhos. E o meu pai era do comércio de secos e molhados. 

          Damasco, segundo os livros religiosos, é a cidade mais antiga do mundo. Eu nasci lá e cresci lá - saí com quase 19 anos de idade. A nossa casa era na antiga Damasco, com aquelas ruas estreitas que não passava carro. De manhã cedo, antes de ir para a escola, eu lembro muito bem que passavam aquelas ovelhas, com sino no pescoço, fazendo barulho para a gente levantar e tirar o leite - o dono tirava o leite na hora, e a mamãe preparava. Aí a gente ia para a escola de manhã. Eu saí de lá porque a guerra estava acabando com tudo, por isso mandaram a gente sair de Damasco. Na época, o único país do mundo que estava aceitando imigrante de lá era o Brasil. Então eu parti para o Brasil.

          Fui para São Paulo primeiro, não falava português. Tive que ir para um hotel, e depois dar um giro nos patrícios que têm lojas lá. Em São Paulo, naturalmente, a Rua 25 de Março tem aquelas ruas bastante árabes, com sírios, palestinos, ‘egipciano’, tem libanês. Aí um professor de Damasco me acolheu: “Não, você vai ficar na minha casa, e nós vamos ver o que a gente vai fazer”. E quando é uma pessoa novata, eles te apresentam um para o outro. Eles me levaram para o Clube Homs, o Clube Sírio-Libanês, o Monte-Líbano, comecei a frequentar. Inclusive, eu sabia aquela dança folclórica que se chama “dabke” e comecei a ensinar o pessoal - adquiri uma amizade grande. Eu ia para a casa de um, casa de outro, para a gente não se sentir sozinho, porque você sabe, a saudade...

          Então, eu entrei num restaurante que se chama Almanara, um tradicional restaurante árabe em São Paulo. Fiquei dois anos trabalhando lá, até que um dia apareceu uma oportunidade para vir para Rio Preto, onde eu comecei um restaurante meu com um sócio, porque sozinho não dava conta, não entendia o português. E são mais de 50 anos com esse restaurante.

          Peguei o restaurante pra dirigir porque a gente não gosta de trabalhar para os outros, tem que trabalhar para você. O mais difícil não é montar, é manter. Eu escolhi Rio Preto porque tem mais de 20% de árabes na cidade. A gente tem quase uma família só. Aqui eu me senti mais à vontade, porque o negócio é meu, trabalhando, também fazendo casa - comecei a negociar como árabe -, vendendo uma casa, comprar terreno, construindo, e assim foi indo. O importante é que a gente está numa cidade, como se diz, “abençoada por Deus”, porque o povo daqui é excelente e me recolheu bem, fui bem recebido. Todo mundo botou apelido: “o Salim da Kiberama”. E até hoje, eu me apresento como o Salim da Kiberama. Afinal de contas é da raça, eu não nego. (risos) E aqui, graças a Deus, fui recebido pela Câmara Municipal como cidadão honorário, recebido pela maçonaria, recebido pelo Rotary, fui até presidente do Rotary. Tem o Clube Monte Líbano, o clube Automóvel Clube... eu tenho tudo aqui, então o que eu iria fazer em São Paulo?

          A Kiberama ficou mais de 15 anos aqui perto da Rua Bernardino de Campos, mas o dono do prédio queria fazer um edifício lá, e eu precisei procurar um lugar por perto. Era doceria e depois foi choperia, mas os dois saíram, e eu fiquei com o ponto para mim. Aí reformei tudo e estou ativo até hoje. Tentei entrar no Shopping Rio Preto, fui entrar no outro shopping, mas não deu muito certo. O movimento é importante num restaurante, e aqui é o lugar de movimento mesmo de São José do Rio Preto, na rua Bernardino de Campos - antigamente falava footing, rua de passeio, namorados.

          O nome do restaurante veio da comida. A comida árabe tem kibe, tem esfiha, tem kafta, tem babaganoush, tem homus, vários nomes, mas o kibe, todo mundo sabe que é coisa de comida árabe. Tem muito chinês, muito japonês que faz boteco e vende kibe e esfiha, mas o nosso é tradicional, o tempero é outro, e a gente sabe que kibe tem que chamar atenção, por isso chama Kiberama. “Rama” é lá naquela casa na Arábia Saudita, o local onde o profeta Muhammad tem uma casa do Abraão, em Meca. E aquela casa foi coberta com um pano preto, e estão escritos em árabe os nomes, coisa religiosa. Então, todo mundo conhece, chama “rama”, “rama”, “rama”. E para eu mostrar que o kibe é de origem árabe, chama Kiberama. Eu já fui uma época lá, há pouco tempo. Como bom árabe muçulmano, eu tenho que visitar aquela terra santa. E eu fui, peguei na mão aquele pano que chama “rama”, e falei: “Você me deu sossego. Graças a Deus”.

          Quanto à propaganda, tem um segredo. Propaganda de restaurante tem três coisas importantes: comida boa, tratamento especial com os fregueses e o preço razoável. Não pode começar a ‘puxar o tapete’ do povo, porque aí não vai. E como eu criei bastante amizade, comecei a fazer tipo uma festa, trazia dançarinas árabes para dançar. E fazia almoço, jantar, dias especiais, como Dia das Mães.

          Mas Rio Preto é assim, você tem que saber trabalhar. O local é importante, tradicional, só que o povo gosta de sair, ficar numa churrascaria, ficar naquele barzinho. Eles querem beber, ver o movimento na rua, mas o Kiberama é recuado, não tem cadeiras e mesas na calçada. Então, o povo volta porque a comida é especial para todos.

          E nós já pensamos em ampliar, fazer mais filiais, e até montar franquia. Mas eu estou dando um tempo agora, com essa pandemia. Afinal de contas, como dizem, você carrega duas melancias num braço só, de repente cai uma, não dá. Então, vamos manter a firma firme, vamos trabalhar. Meus filhos são firmes no pedaço, são meu braço direito. Uma delas está aqui ao lado, está ouvindo. E o menino está lá no shopping, pois agora está abrindo um pouco, e eu tenho uma filha que não quer sabe de restaurante, está morando em São Paulo, pois se formou como arquiteta, já casou.

          Vou te contar uma coisa: se não tivesse a comida árabe, eu não ficaria aqui, não. Eu iria embora para o país árabe. Comida árabe é uma comida deliciosa, tempero gostoso - a gente usa mais carne de carneiro, usa aqueles temperos de homus, kibe cru, coalhada, muitos cereais. Então, em primeiro lugar a comida árabe; a segunda, árabe também. (risos). Você sabe que quem aprendeu comida árabe em casa, a comida é feita todo dia: aquele arroz com macarrão, charutinho, abobrinha, berinjela, kafta, a gente aprende desde pequeno. E aqui, eu apliquei mais o que eu aprendi em São Paulo. E hoje, graças a Deus, está tudo bem. Ninguém morreu até hoje. (risos).

          Eu fui pra Síria algumas vezes visitar os parentes. Eu tenho um parente, um cunhado, casado com minha irmã em Damasco. E ele é ligado ao controle de quem entra ou sai da Síria. Quem não fez serviço militar não pode. E eu ligo para ele, ele me aguarda na fronteira. Sempre tem aquele caminho que ninguém te para, e ele é conhecido lá, tem uma frota de táxis, em Damasco e Beirute. E quando eu vou lá, ele pega um carro, coloca três, quatro amigos dele, e eu estou no meio, passo reto. Tem que ser esperto, né? Mas agora, com mais de 70 anos de idade, ninguém mais pergunta aonde você vai e o que você está fazendo. E eu vou fazer de novo, vou me aventurar lá de novo em vida, se Deus quiser.

          Eu digo que você não precisa ir lá para a Síria ou para o Líbano. Você entrou no restaurante Kiberama, você já está lá. A comida, a decoração, tudo é igual às coisas de lá. Nós fazemos a pessoa viajar para o Líbano ou pra Síria dentro de Rio Preto. Isso é que é gostoso.

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