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História

Harmonia musical e familiar

História de: Geralda Horta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2005

Sinopse

Em seu depoimento, Geralda Magela Horta de Melo conta que seu pai era maestro e funcionário da estrada de ferro na Central do Brasil e viajava muito, por onde passava ia deixando suas músicas. Conta que nasceu rodeada de música, assim como seus filhos. Costuma dizer que “aqui em casa a música está no sangue”. Relembra como foi sua infância passando por várias cidades, a infância de seus filhos, sobre os dois filhos que mais se envolveram com a música, o Paulo Horta e Toninho Horta, e sobre a importância do Movimento Clube da Esquina. Foi testemunha do desabrochar do talento musical dos jovens Lô Borges e Beto Guedes, além de ser fã do Clube da Esquina, conta que aplaudiu a apresentação da música “Travessia” no Festival Internacional da Canção de 1968 até suas mãos incharem.

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História completa

P/1 – Dona Geralda, bom dia, muito obrigado por ter se disposto a dar esta entrevista para gente. Eu queria que você começasse falando para mim, repetindo seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Pois não. Geralda Magela Horta de Melo, nasci em Capim Branco, aqui perto de Pedro Leopoldo, no dia primeiro de setembro de 1909 (risos), portanto estou com 96 anos, fiz agora.

 

P/1 – Dona Geralda e como era o nome dos seus pais?

 

R – Meus pais chamavam-se João Horta e Lucília Guimarães Horta.

 

P/1 – Qual era a profissão deles, Dona Geralda?

 

R – Meu pai era maestro e além de maestro era funcionário da estrada de ferro Central do Brasil, então ele viajava muito e nas viagens ele sempre levava as pastas de música e por todos os lugares onde ele andou, ele plantava a música dele. Então ele era um maestro de música mais sacra, compôs missas, Te Deum, fazia Semana Santa nas cidades históricas de Minas. Então ele é um maestro até hoje desconhecido, completamente, mas ele deixou um acervo muito grande de obras e a família pretende um dia editar estas obras.

 

P/1 – E a sua mãe, Dona Geralda?

 

R – A minha mãe era da família Guimarães, aqui de Sabará, tocava piano, gostava muito de música também, então os dois quando se conheceram foi através da música. Ele era professor dela de piano, ele levava a flauta e faziam um sarau ali de vez em quando. Ela gostava muito de música, mas era doméstica, não tinha outra profissão não. Criou seis filhos, três homens e três mulheres, que eu sou uma delas (risos), então foi assim.

 

P/1 – Como era dentro de casa com a música? Algum irmão da senhora se interessou por algum instrumento?

 

R – Eu tenho um irmão que cantava muito aqui em Belo Horizonte nas rádios, principalmente na Rádio Guarani, ele tem uma voz muito boa, hoje está com noventa anos e ainda canta um pouquinho, por incrível que pareça. Ele cantava na Rádio Guarani, mas tinha um pseudônimo, ele se chama Pedro Horta e cantava com o nome de Lauro não sei o que, nem me lembro mais. Tinha outro nome, um pseudônimo e agradava muito. Ele era muito fã dessas músicas antigas, dessas valsas, essas coisas que o Silvio Caldas cantava, então esse era músico. Agora das irmãs, tinha uma que tocava bandolim, tocava na orquestra do meu pai também, ela tocava e os outros gostavam muito de música, mas não foram músicos.

 

P/1 – Dona Geralda, e sua infância, a senhora passou em Capim Branco mesmo?

 

R – Não, eu saí de lá com um ano de idade e voltei quando já era professora, devia ter uns vinte anos quando voltei lá, fiquei conhecendo a casa onde eu nasci. Teve uma coisa muito interessante no dia em que eu nasci, meu pai tinha uma banda e estava ensaiando o Hino Nacional, eu nasci em primeiro de setembro e ele ia tocar com a banda no dia sete de setembro, que era a chegada de um político lá, acho que Francisco Sales que era nascido lá, não sei. Então na hora em que eu nasci - naquele tempo a gente nascia em casa - estava tocando o Hino Nacional e por sinal eu sou muito patriota, adoro o Hino Nacional, me emociono em qualquer hora que toque o Hino Nacional, campo de futebol, em qualquer lugar eu me emociono. Tanto que na minha sala de jantar, não sei se você viu, eu mandei pintar uma bandeira na época da copa de 94 e ela está lá até hoje, de vez em quando dou uns retoquezinhos, porque gosto muito. Não sei se foi por isso, porque teve esta influência (risos).

 

P/1 – Mas então a família vem toda para Belo Horizonte depois que a senhora nasce?

 

R – Depois que eu nasci meu pai viajou muito, ele morou em Barbacena, morou em Juiz de Fora, morou em Diamantina, Pirapora, em muitas cidades, Mariana, Ouro Preto, tenho um irmão que nasceu em Ouro Preto, até o nome dele é Efigênio Ouropretano. Meu pai tinha estas coisas. Nasceu lá e tem muito orgulho de ser ouropretano, até hoje, ele está com 92 anos e é um cara muito íntegro, muito tradicional com as coisas, de modo que ele fala: “Minha terra é Ouro Preto” e bate no peito (risos).

 

P/1 – Como era o cotidiano desta família, Dona Geralda? Esses seis filhos, esse pai sempre viajando.

 

R – É, sempre viajando e eu adorava viajar, quando meu pai falava assim: “fui removido para tal lugar”, porque ele era escriturário da Central do Brasil e acompanhava a construção da linha, onde a linha ia ele ia também e a família ia. Então encostava o carro da Central, pegava a mudança e ia embora, a gente vivia uma vida meio de cigano, vamos dizer assim. Aí depois que ele viajou muito, onde ele ia deixava um sinal da música dele, ou ele deixava um grupo, ou ele deixava uma orquestrazinha, ou ele deixava nas igrejas as partituras sacras. Então ele semeou a música dele por este estado de Minas quase todo, depois que ele se aposentou ele foi morar comigo, a minha mãe morreu antes e ele ficou com a gente até o Paulo nascer, ainda conheceu o Paulo que era o mais velho. A vida nossa era assim, era uma vida itinerante.

 

P/1 – A senhora se lembra de algum lugar que tenha passado mais tempo, ainda criança?

 

R – Olha, ficamos mais tempo em Diamantina. Diamantina, até nós temos vários parentes lá, eu estudei lá porque era assim, eu comecei a estudar em Sabará, depois fui para Barbacena, cada lugar que eu ia estudava um ano, dois anos. Quando chegou em Diamantina, nós paramos mais, ficamos uns seis anos lá, então eu me formei lá no colégio Nossa Senhora das Dores, que é um colégio que existe até hoje em Diamantina, é um colégio que tinha um prédio de um lado e de outro e ele tem uma passadeira que ligava os dois prédios. Então os rapazes ficavam lá em baixo para ver as alunas passarem e tinha aquele negócio de dar adeusinho, aquelas coisas todas. Então lá que eu me formei no curso normal. De lá fomos para Pirapora, saímos de um lugar muito frio, lá era gelado e fomos para Pirapora. Meu pai tinha reumatismo e falou: “não, eu não posso morar mais aqui não”. Fomos para Pirapora e foi lá que ele aposentou. Em Pirapora eu conheci o meu marido e viemos para Belo Horizonte nos anos quarenta, eu já tinha dois filhos lá e tive os outros aqui.

 

P/1 – Quais filhos que nasceram lá?

 

R – Lá foi a Letícia e a Gilda. A Gilda está nos Estados Unidos, mora lá há dez anos e elas duas moram lá. O Paulo nasceu aqui, eu vim tê-lo aqui, porque lá eu morava em uma fazenda nesta época, então o médico falou: “não, vai para Belo Horizonte, tenha esse filho lá em Belo Horizonte” e nasceu em Belo Horizonte. Aí quando eu mudei para aqui definitivamente eu tive depois da Gilda a Berenice, o Toninho e a Lena, que são os três aqui da Floresta, nasceram na mesma casa (risos).

 

P/1 – Dona Geralda, a senhora poderia contar um pouco pra gente como a senhora conheceu o seu marido? Conta um pouquinho pra gente.

 

R – Meu marido eu conheci assim: ele era estudante aqui em Belo Horizonte, estudante de Engenharia, morava na Rua Cláudio Manoel, em uma pensão aí, não sei. Ele foi passear em Pirapora e eu tinha chegado lá, eu tinha dezenove anos, tinha chegado lá e ele dançava muito bem, gostava de dançar (risos) e aí começou o namoro, num baile lá começou o namoro. E esse namoro levou muito tempo, porque ele era filho de família muito rica, o pai dele tinha não sei quantas fazendas, era um cara que tinha muito gado, tinha muita fazenda, tinha muita coisa, e a intenção dele era casar os filhos com outras filhas de fazendeiros. Ele não apoiava o namoro. E meu pai, por sua vez, também não apoiava o namoro por uma questão que até eu agora perdôo, por causa de racismo, porque ele era bem moreninho. Então o outro falava lá: “meu filho vai casar com a rica” e o outro falava de cá: “Minha filha não vai casar com o preto” (risos). Ele não era preto, ele era moreno, assim, bem chegado, mas não era e mesmo que fosse, que mal haveria nisso, não é? Então ficava aquela briguinha assim, não deixavam namorar. Eu fugia para conversar com ele, era assim, era tudo fugido, tudo escondido. Depois eu vim para Belo Horizonte, mudamos para aqui definitivamente, meu pai falou: “não, vamos mudar para Belo Horizonte, vamos ficar aqui mais não, agora eu já me aposentei.” Mudamos para aqui e quando foi dois anos depois ele chegou aqui em Belo Horizonte, falou com meu pai e meu pai falou assim: “eu não resolvo nada, resolve com meu filho” que era o filho mais velho, o Augustinho. Então conversou com o Augustinho: “ah, eu gosto muito da sua irmã, tem sete anos que a gente se gosta e isso e aquilo...” então meu pai foi e falou assim: “ah, então quer casar, casa, pode casar” e foi assim.

 

P/1 – E como era o nome do marido da senhora?

 

R – Prudente de Melo, o pai dele era Manoel Joaquim de Melo, primo de Afonso Arinos de Melo Franco, lá dos sertões de Pirapora, Paracatu, aqueles lugares. Depois que o pai morreu é que nós casamos, ele ficou tomando conta da família, ficou sendo tutor dos outros irmãos e aí chegou a hora de casar. Casei e mudei para a fazenda e morei sete anos na fazenda. Quando o Paulo tinha sete anos, aí nós mudamos para Belo Horizonte, viemos para cá, foi em 1940.

 

P/1 – E a senhora se muda para a Floresta mesmo?

 

R – Olha, primeiro eu fiquei na casa do meu irmão, lá na Lagoinha, na Rua Além Paraíba, ficamos uns tempos lá, depois nos mudamos para a Floresta e ficamos por uns vinte anos, é, uns vinte anos, uns 25 anos nós ficamos na Floresta, o Toninho nasceu lá, na Rua Pouso Alegre.

 

P/1 – A senhora se formou no curso normal, não é?

 

R – É, mas eu não trabalhava como professora, detestava este negócio de professora, então eu trabalhava no Estado, comecei a trabalhar no Estado e fiquei 31 anos trabalhando no Estado, eu aposentei em 1980 e gostava de trabalhar e até hoje eu gosto de trabalhar, se fosse para trabalhar até hoje...

 

P/1 – A senhora me contou que trabalhava com uma educadora, se não me engano.

 

R – É, trabalhei com a Madame Helena Antipoff, mas isso foi antes de casar. Trabalhei com ela em 1932, antes de casar, casei em 1933. Trabalhei com ela durante dois anos na Escola de Aperfeiçoamento. Ela era uma Belga que veio para o Brasil na ocasião da Guerra e chegou aqui e o governo contratou-a para fazer uma renovação no ensino primário, então ela, onde hoje é o Minascentro, ali era a Escola de Aperfeiçoamento, ela convocou professoras de todos os estados para virem fazer o curso. E tinha a minha cunhada que era professora do grupo Olegário Maciel, ela era professora e estava de licença, ela foi convocada para trabalhar com a Madame, aí ela falou comigo: “Olha, você podia fazer esse negócio para mim? Porque eu quero arrumar uma pessoa em quem eu confie, eu não posso chamar qualquer um, você pode fazer esse negócio para mim?”. Falei: “posso”, eu estava disponível, o namorado tinha ficado lá, então eu fui pra lá trabalhar com ela. Trabalhei durante dois anos, ela introduziu o ensino moderno aqui no Estado de Minas, aliás, no Brasil inteiro. Era uma pessoa muito dinâmica. O filho dela morreu há pouco tempo aqui em Belo Horizonte, o Daniel. Ela acabou fundando a escola de Pestalozzi, que era de deficientes, crianças excepcionais. Ela criou esta escola e posteriormente ela criou a Fazenda do Rosário que era também do pessoal excepcional, mas que trabalhavam na lavoura e até hoje existe esta escola lá. Eu trabalhei com ela e era assim: eu ia para os grupos, fazia teste na criançada, fazia seleção dos excepcionais e levava para a Escola de Aperfeiçoamento. Então fizeram uma classe desses excepcionais para que as professoras vissem o modo de ensinar e também para eles terem uma classe deles mesmo, só deles, porque havia aquela discriminação: “ah meu filho é assim, é isso, é aquilo”. Então pessoas da alta sociedade daqui tinham alunos lá tomando esse ensinamento e foi nesta época que eu trabalhei com ela, uma pessoa muito inteligente, muito brava, seguia tudo ali na linha mesmo. Tinha uma diretora, uma outra professora que tinha vindo da Bélgica também que ajudava nos jogos infantis que as crianças faziam. Então eu trabalhei muito tempo lá. Depois, em 1933, quando eu saí para casar, a minha irmã foi pra lá, para a Fazenda do Rosário, porque depois que ela abriu o Pestalose ela foi para a Fazenda do Rosário e ficou trabalhando lá. A Clarisse minha irmã. Eu sei que a vida é cheia de coisas (risos).

 

P/1 – A Senhora morando aqui em Belo Horizonte, o seu pai morou com a senhora. Então ele acompanhou o nascimento dos seus filhos?

 

R – Não, ele morou comigo aqui em Belo Horizonte, eu morei com ele até antes de casar. A gente morava ali no Carlos Prates e ele era músico e já estava com sessenta, quase setenta anos, ou mais de setenta. E um dia chegou um senhor lá, um senhor meio grisalho e mulato, bem mulato. Chegou lá e falou: ‘eu queria falar com o maestro João Horta, aí a minha irmã recebeu ele na porta e perguntou assim: “Faça o favor de me dar o seu nome que eu vou lá avisar o meu pai”, ele falou assim: “eu me chamo Francisco Nunes, fui aluno dele e eu vim aqui fazer uma visita”. Aí meu pai veio de lá e foi aquele abraço, mas aquele abraço mesmo e ele ficou muito contente de ver o meu pai e meu pai ficou muito alegre, chorou. Meu pai é igual ao Toninho, muito emotivo chorava a toa. Então ficaram abraçados muito tempo e o Francisco Nunes ficou muito grato de ter feito a visita, de ter visto meu pai e foi uma passagem que até hoje a gente lembra. O Chico Nunes, do teatro, não é? Eu já tinha vinte e poucos anos, em 1932, nessa época.

 

P/1 – Vamos passar agora para a casa da senhora com seus seis irmãos. A senhora podia repetir pra gente o nome deles?

 

R – A ordem é essa: Agostinho, meu pai gostava de por nome de Santo, Agostinho de São Luiz Horta, pai da Junia Horta que é uma compositora também, é minha sobrinha. A primeira era a Maria de Cáritas Horta, era a mais velha de todas, depois vinha a Clarisse Horta, que era professora, trabalhou cinquenta anos aqui em Belo Horizonte e a última escola em que ela trabalhou foi a Fazenda do Rosário ensinando os excepcionais, o Agostinho de São Luiz Horta, depois o Efigênio Ouropretano Horta, não, eu errei, depois do Agostinho sou eu, depois de mim é que veio o Efigênio esse que está com 92 anos e o Pedro que está com noventa, então é noventa, 92 e 96.

 

P/1 – Dona Geralda a senhora se lembra das brincadeiras que vocês faziam em casa com seus irmãos? O que vocês faziam?

 

R – Ah, meus irmão eram muito alegres, como eu te disse o Pedro gostava muito de cantar, desde mocinho ele pegava o violão e cantava. O Efigênio não, o Efigênio era meio desafinado, falava assim: “eu não sirvo para a música, eu sou desafinado” (risos). Mas a Clarisse tocava bandolim, cantava muito, tem uma novela que está passando, das seis, tem uma música que ela adorava cantar. Toda vez que toca eu me lembro dela. Ela cantava essa música, tocava no Bandolim e tudo, a mais velha não tocava nada não, mas ela cantava, cantava no coro do meu pai, mas não tocava nada não. O Efigênio e o Pedro depois entraram para a Central do Brasil. Eu não sei se vocês sabem, mas a casa do conde era o escritório onde eles trabalharam durante trinta anos. Durante trinta anos eles trabalharam lá na Central do Brasil, herdaram do meu pai a vocação de trabalhar na Central do Brasil. Então eles trabalhavam lá e a gente morava aqui na Floresta, depois o Agostinho casou, o Pedro e depois que eles se casaram eu fui para a fazenda e nessa época eu já tinha casado também e levei meu pai para a fazenda, ele ficou morando comigo lá. De lá nós voltamos para Belo horizonte, mas ele morreu lá em Pirapora, morreu lá muito novo, 79 anos.

 

P/1 – Quantos filhos da senhora ele conheceu?

 

R – O meu pai conheceu dos meus filhos só o Paulo, que foi na época que ele morava comigo na fazenda, o Paulo estava com três, quatro ou cinco anos e ele chamava o Paulo de “meu nego Paulo” (risos), depois que ele morreu, com 79 anos, acho que em 1938. Em 1940 nós arrendamos a nossa fazenda para o professor Jorge Bernardeau, um professor francês que veio corrido da guerra. Nós arrendamos a fazenda para esse professor e viemos para Belo Horizonte. Começamos a vida aqui, os meninos estavam pequenos e aí cresceram, foram estudando e foi aquela coisa para criar os filhos, sabe como é, não é? Aí criei os seis filhos, eu também tinha seis, agora são cinco porque o Paulo se foi, mas a vida da gente é essa, tenho sessenta e tantos anos de Belo Horizonte, vi Belo Horizonte crescer, quase que nascer. Então é isso.

 

P/1 – A senhora podia contar para mim os seus seis filhos, a ordem deles e o nome?

 

R – Os nomes eram Paulo Geraldo Horta de Melo, a Letícia, eu tive um casal de gêmeos que eu perdi, eu perdi um casal de gêmeos antes da Letícia, depois do Paulo, então eu fiquei com o Paulo, a Letícia, a Gilda e passei nove anos sem ter filhos, depois é que veio a Berenice, o Toninho e a Lena, a Lena é a caçula, caçula que já está com 52.

 

P/1 – Como era o cotidiano da sua casa com esses seis filhos?

 

R – Seis filhos eram uma festa, a minha casa sempre era uma festa, graças a Deus. Morava ali na Floresta, uma casa muito grande, elas estavam crescidas, já estavam estudando, a Gilda fez vestibular para direito, ela foi colega do Fernando Brant na Escola de Direito daqui. Na época que ela entrou ele entrou também, eu sei que ela começou a estudar lá, depois resolveu ir para o Rio, acabar de estudar no Rio, na Escola Nacional e formou no Rio. A Berenice também estudando, a Letícia, todos eles, o Paulo. E era aquela vida assim: música o dia inteiro. Eu gostava muito de música clássica, tinha uma eletrola Pilot grande de alta fidelidade e eu punha as minhas músicas prediletas e gostava muito de Debussy, quando o Toninho ouvia tocar Debussy ele enfiava debaixo da cama, chorava que só vendo, abria a boca, então são essas histórias minhas aí. O Paulo que era o mais velho, mas isso foi bem antes desta época. Nós mudamos para cá em 1940, no ano de 1948 e 1949, o Paulo gostava muito de música também e gostava de ouvir a Rádio Inconfidência. A Rádio Inconfidência era na Feira de Amostras, lá na Lagoinha e tinha um locutor que chamava Agnaldo Rabelo e o Agnaldo Rabelo tinha um programa de música americana, então o Paulo gostava muito de música americana e tinha os colegas dele, os amigos, tinha o Donato Donati, o Cid Rodrigues, o Walace, diversos, ele tinha uns dez talvez, amigos da mesma idade, dezessete anos por aí. E o que eles faziam? Ficavam ouvindo no rádio o programa de música americana que era novidade para ele. Então quando foi um dia o Agnaldo Rabelo fez um programa lá onde ele oferecia um disco que se chamava Baby não sei o que, aí o Paulo escutou esse negócio e chamou o amigo dele, o Donato e falou: “Donato, vamos telefonar pra lá?” e era por telefone, a primeira pessoa que ligasse ganhava o disco. O Paulo ligou pra lá e ganhou o disco. Saiu correndo para a Rádio Inconfidência, eu morava na Rua Pouso Alegre, era só descer e ir para lá, foi lá e o Agnaldo deu o disco à ele. E o Agnaldo ficou muito amigo deles e eles ficaram frequentando lá e ouvindo música americana, aí resolveram formar um clube com dezessete anos. Então eles formaram um clube que se chamava “Jazz Fã Clube”, eram uns dez mais ou menos. Eu me lembro de alguns. Eu me lembro do Agnaldo Rabelo que era o chefão, ele tomou as dores, ele ajudou os meninos, o Agnaldo Rabelo, o Cid Rodrigues que morava ali em Santo Agostinho, tinha o Walace que eu não sei o sobrenome dele, o Donato Donati e mais alguns que eu não me lembro. Formaram o clube, o “Jazz Fã Clube”. Eu sei que foram para a tipografia e imprimiram até os estatutos. Então sabe o que eles faziam? Era assim: cada um dava um tanto de dinheiro para importar disco direto dos Estados Unidos, então eles pegavam os nomes e importavam os discos e os discos vinham e eles começavam a ouvir lá em casa, depois o outro lá importava outro, “ah, vem ver! Chegou outro aqui” e ia na casa dele pra ouvir. E eu sei que eles ficaram fãs da música americana e o “Jazz Fã  Clube” durou só dois anos, 1948 e 1949, porque em 1950 o Donato viajou para o Rio, mudou para o Rio e o clube acabou. Mas não acabou por aí não, porque nesse meio tempo o Paulo já foi entrando para a música, daí a pouco ele já estava tocando nas noites belorizontinas e foi levando o jazz para as noites belorizontinas que não tinha esse tipo de música. Então tinha uma casa que se chamava Confeitaria Elite, na Rua da Bahia, eles tocavam lá e o pessoal ia para ouvir as músicas, no Trianon também eles tocavam. Eu sei que eles foram introduzindo a música americana aqui em Belo Horizonte, foram os pioneiros, foi o Agnaldo Rabelo, foi o “Jazz Fã Clube”. Até pouco tempo eu tinha aí uma parte dos estatutos, se eu encontrar eu vou mostrar para você.

 

P/1 – Mas quando o Paulo começou a tocar, o que a senhora achou dele virar um músico da noite? A senhora via aquilo com bons olhos?

 

R – No princípio eu não achei bom não, porque tocar a noite perde o sono, aquela coisa toda, mas como aqui em casa a música está no sangue, não teve outro jeito. Ele pegava o contrabaixo, o contrabaixo acústico, depois o outro também e entrou para a música. Ele tocava com o Nazário, tocava com o Plínio, com esses músicos antigos todos daqui de Belo Horizonte. Tinha o Dino que tocava saxofone. Então eles introduziram, tanto que muitos anos depois, o Tolentino veio para cá, aquele pianista, esqueci o primeiro nome dele, Mauro Tolentino, tinha uma casa de Jazz aí na Savassi, Pianíssimo era como se chamava, ele chamou o Paulo para tocar com ele, estava na onda dele que era o jazz. E o Toninho começou a ter influência jazzística por causa disso.

 

P/1 – O Paulo era o mais velho influenciando os mais novos. Como era isso?

 

R – Quando o Toninho tinha uns oito anos, mais ou menos, o Paulo já começou a ensinar violão para ele. Os primeiros acordes de violão e ele foi logo pegando tudo e fazendo aquelas harmonias dele, essas coisas. Têm muitas histórias, são muitas histórias. Tem uma história do Vinicius de Moraes também, mas essa aí já é com o Toninho. O Vinícius veio aí na Escola de Direito, o Fernando deve lembrar disso, ele veio aí na Escola de Direito tocar para os estudantes, e o Toninho soube que o Vinicius chegou aí. O Toninho correu para lá, chegou lá e o estudantes estavam gritando: “porque demoraes...” de Vinicius de Moraes, não é? Porque ele estava demorando demais, e nisso o Toninho está lá. Aí chega o Vinicius, foi muito aplaudido, e cadê o violão? Não trouxe o violão. Aí o Toninho falou: “eu vou pegar um violão.” Eu não sei que hora que o Toninho voou de lá e arrumou um violão. Aí deu ao Vinicius um violão, o Vinicius tocou e tudo. Depois o Vinicius falou assim: “você toca violão?” ele falou: “toco não, estou aprendendo.” “então pega o violão aí e faz qualquer coisa.” O Vinicius ficou bobo de ver ele tocar. Então no outro dia saiu no jornalzinho da escola o retrato do Vinícius com o Toninho e o violão (risos). E ele com poucos anos de idade, doze anos ele tinha nessa época.

 

P/1 – Como era a turma de amigos que andava com ele?



R – Nossa, tinha amigos toda vida. Os meninos foram crescendo, o Paulo fazia aniversário e a casa enchia de gente. Então uma vez teve um aniversário dele lá e o Bituca foi nesse aniversário dele e viu o Toninho tocando violão, achou interessante o Toninho tocando violão, o Toninho já estava com uns dezesseis anos, por aí. E houve até uma coisa curiosa que aconteceu uma vez: eu tinha um sobrinho, coitado, ele morreu na lagoa da Pampulha. Tinha acabado de se formar em Engenharia, tinha ganhado um carro novo do pai, foi passear com uns amigos e com umas fulanas e eu não sei [o que aconteceu] que o carro caiu na lagoa da Pampulha e ele morreu afogado, mas ele era um menino muito inteligente, gostava demais de música. Era filho do Pedro, meu irmão, esse que gosta de cantar e o Byron gostava também de música. Então ele chegou lá em casa um dia, tinha hora dançante, tinha aniversário, aquela coisa toda, e ele chegou e falou assim: “olha, eu trouxe aqui um disco de um grupo que está fazendo muito sucesso na Inglaterra e eu vim trazer para vocês ouvirem. Então pôs lá na radiola, eu não me lembro o nome da música, era uma música dos Beatles, o primeiro disco dos Beatles que entrou em Belo Horizonte, ninguém tinha, ninguém conhecia. Aí todo mundo que estava dançando, parece que era uma hora dançante que tinha lá, todo mundo foi para perto da radiola ouvir, “ah! Mas que som!”, todo mundo adorando e vira o disco e torna a virar e tocou não sei quantas vezes. Então tinha umas coisas assim. De vez em quando aconteciam uns casos destes assim.

 

P/1 – Dona Geralda, a senhora era muito atenta no que os seus filhos ouviam. O que você acha que influenciou mais no gosto musical deles?

 

R – Olha, eu gosto muito das músicas que o Toninho compõe, eu gosto muito dessas músicas mais românticas, porque toda vida eu tive um pouco de romantismo na minha vida, então eu gosto muito da música romântica. Agora influência não, porque se eles fossem com a influência do meu pai que era um músico sacro, mas meu pai compunha outras músicas também, tinha uma série de músicas que meu pai compunha que era com o nome de cada aluna, cada aluna dele tinha uma valsa, “Essa é para fulana, essa é para Belinha, essa é para Maria das Graças, essa é para Maria Não Sei o Que...” e a gente achava, de vez em quando eu ainda encontro. Ele era muito bravo, era uma coisa, na hora dele reger a orquestra todo mundo tinha que ficar calado na posição certa. E eu tocava bandolim na orquestra, por aí você já vê (risos), eu tocava bandolim. Então ele era bravo, era desses e na hora que ele estava compondo ele abaixava a cabeça na mesa e ia escrevendo, ninguém podia falar um “A”, todo mundo ficava caladinho. Então, uma vez, a orquestra das moças estava pronta, todo mundo pronto, mas todo mundo conversando. Então ele pegou o violão, porque na orquestra ele tocava violão, ele pegou o violão e sentou na cadeira em frente ao pessoal todo, virou para as meninas e falou assim: “Quando vocês acabarem de conversar vocês me avisem, eu vou sair daqui e depois vocês me avisem que eu volto.” Bravo mesmo, bravo com elas (risos). Quando ele estava fazendo acordes no violão também, ele não gostava que ninguém desse um pio, ele dava cada acorde no violão que você ficava boba. Então quando ele dava aqueles acordes assim, ninguém falava nada, todo mundo calado, depois comentava: “Ah, Seu Horta, está muito bonito o que você fez.” Mas ele era muito bravo e o Toninho também é meio bravo, parece que ele herdou esse negócio do avô. Então lá em casa acontecia estas coisas todas, de vez em quando acontecia um caso, como aconteceu esse do baile e uma vez também o Milton foi lá em casa, o Milton era mais amigo do Paulo, era mais ligado ao Paulo, porque era mais da idade, aí o Toninho falou assim: “Fiz uma música”, não, o Milton fez uma letra de uma música que se chama “Segue em Paz”, e o Toninho viu a letra do Milton e falou assim: “queria pôr uma música” e pôs a música, uma música até muito bonita, “Segue em Paz”, isso quantos anos tem? Isso foi muito antes do Clube da Esquina. Aí o Toninho guardou a letra, guardou a música e ficou guardada anos e anos. Quando foi no ano passado, a Paula Santoro foi gravar uma música e queria uma música do Toninho. Aí o Toninho pegou a música e falou assim: “eu tenho uma música que dá muito para sua voz aqui, é uma música que o Milton fez a letra e eu fiz a música.” Pediram licença ao Milton para gravar, o Milton deu a licença e tudo e ela gravou a música e vai sair no disco dela agora, a música se chama “Segue em Paz”. Nasceu lá nessa casa da Rua Araxá, na Floresta, numa destas reuniões que tinha lá em casa, essa música nasceu lá, antes do Clube da Esquina.

 

P/1 – Dona Geralda, como a senhora percebeu que o Paulo e o Toninho iam ser músicos profissionais?

 

R – Ah, eu sentia, eu sentia isso na carne, eu sentia que eles iam ser músicos, não tem outro jeito, vão ser músicos mesmo. O Paulo começou a estudar Engenharia de não sei o que, foi até o terceiro ano e largou, não aguentou, a música não deixava. O Toninho correu quase todos os colégio de Belo Horizonte, ia expulso todo dia. Lá no Colégio Arnaldo ele brigava com os padres, os padres punham ele para escrever mil vezes: “Eu devo ser um bom aluno...” chegava lá em casa oito horas da noite, eu morava em frente ao bonde e ele chegava: “O Toninho, o que é isso?” “ah, nada não” e saia para lá correndo. Não queria saber de estudar, não queria, o que ele sabe ele aprendeu em casa, porque o colégio para ele não valia nada, era assim, não ligava. Então eu sentia isso: “meu Deus, o que eu posso fazer?”. Tanto que com dezessete anos ele foi para o Rio, para o Festival Internacional da Canção e o que eu pude fazer? Não pude segurar, com dezessete anos ele foi. Foi até muito interessante, porque nessa época eu não morava na Floresta não, eu morava no centro da cidade, no mesmo prédio em que o Beto Guedes morava, então o Francisco do Carmo chegou lá com o Jornal do Brasil e falou assim: “O Toninho, olha isso aqui, três músicas suas foram selecionadas no Festival da Canção” que eram: “Maria Madrugada”, “Nem é Carnaval”, que é do Marcinho com ele e “Litoral”. Ele ficou doido, dezessete anos, foi embora para o Rio. As músicas foram tocadas, foram finalistas, mas não deu, tinha uns intérpretes, mas não sei não, porque não era para ser. Esse negócio de festival é muito... Eu falei com ele sobre esse festival de São Paulo: “Olha Toninho, vai, faz uma boa apresentação e só, e só. Não pensa em nada não” aí ele falou assim: “não mãe, não estou pensando em nada não, eu gosto de música.” E a Cultura é uma TV idônea, se fosse uma outra qualquer aí ele não iria, mas é idônea, mas então eu gosto de cultura, eu gosto de música, eu gosto de gente. “Eu quero, vou porque eu quero, vou porque eu gosto”. Não foi ele quem fez a inscrição, na época ele estava na Europa sem saber de nada. O letrista dele foi quem fez a inscrição da música. Então o que ele podia fazer? Deixar o letrista desapontado? Na mão? Que aliás, é um grande amigo dele. “Então vamos lá, vamos fazer”. Deu ou não deu, a cara dele é a mesma, a minha é a mesma, é uma coisa natural. Esse negócio de festival é uma loteria, então para que ficar reclamando: “Não, eu vou porque eu quero ir, porque eu gosto de ir” e é desse jeito. Então a música é assim: quer ser músico de todo jeito? Não tem como segurar. Como vou segurar uma pessoa que já tem um dom da música, porque ele já nasceu com aquele dom, porque uma criança que aos quatro anos chora ao ouvir uma música de Debussy, uma música romântica, triste, o que aquela criança é? Ela é predestinada a alguma coisa, a alguma coisa que seja a música. Eu falei com o pai e o pai ficou assim... Mas graças a Deus ele até hoje é o mesmo menino que foi toda a vida, então eu não me arrependo de ter consentido (risos). 

 

P/1 – E quando a senhora viu essa turma reunida próxima ao Toninho: Marcinho, Lô, o próprio Beto, a senhora achou que ia dar em alguma coisa? Que ia virar o que virou? Esse movimento todo, que ganhou o mundo.

 

R – Olha, eu vou te falar uma coisa: no dia de “Travessia”, no Rio, eu fui com a família toda. Eu aluguei uma quitinete lá em Copacabana, foi a família toda e fomos para o Maracanãzinho, sentamos e a família do Fernando Brant estava também mais ou menos perto. Na hora de “Travessia” eu falei: “essa música já é, não tem outra” e você acredita que eu bati tanta palma para “Travessia”, tanta palma, mas tanta palma que, olha, eu estou com 96 anos, não minto na minha vida, minhas mãos incharam, incharam. No outro dia eu estava com a mão assim: “Gente, minha mão está inchada!” (risos), de tanto bater palma para “Travessia”. E foi aquela euforia, aquela coisa toda, não teve jeito, a música para mim é predominante, para mim ela é predominante. E eu falei: “Essa vai ganhar, mas vai mesmo, não tem outra.” Mas eu bati palma, bati palma, no outro dia eu estava feliz da vida, minha mão inchou, mas “Travessia” ganhou (risos). 

 

P/1 – Então Dona Geralda, e quando você viu o Toninho começar essa carreira de exterior, de ganhar o mundo, o que a senhora achou?

 

R – A primeira vez que ele viajou para o exterior foi com a Gal Costa. Eu fui ao aeroporto e a Gal falou assim: “é, Dona Geralda, a senhora está com muito medo do seu filho viajar comigo?” ele estava com dezoito, dezessete, não sei. Aí eu falei assim: “não, ele está em boas mãos, ele vai fazer o que ele gosta e se ele vai fazer o que ele gosta eu estou feliz, vou ficar saudosa, mas eu estou feliz porque ele vai principalmente com você.” A primeira vez que ele foi para o exterior foi com a Gal, foi para Paris com a Gal. E por aí foi, não sei quantas vezes que ele já andou o mundo todo. Só falta agora acho que a África, mas ele já foi pra Rússia, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Indonésia, que eu quase morri, falei: “Toninho, você vai na Indonésia? É longe de mais, meu filho” ele falou “vou, tranquilo.” Vinte e tantas horas de viagem. No Japão já foi quatorze vezes, está escrito aí, tem tudo anotado, quatorze vezes ele foi ao Japão. Então eu fico achando assim, começou com a Gal e por aí foi, até hoje. Agora já está com a viagem armada para a Dinamarca e vai para a Califórnia no final do ano, para o tal de Grammy que tem lá, ele foi sorteado e tem outro lugar que ele vai ainda este ano, deixa eu lembrar, é Argentina? É Argentina. Então é assim, ele não para e cada vez que sai eu fico com o coração na mão. Mas quando foi para a Indonésia eu fiquei meio assustada, porque é longe demais, ele foi para lá, depois de lá foi para a China, em Xangai, depois para aquelas coisas todas de lá, Malásia, eu sei que andou por lá tudo. E já chamaram outra vez. Na Ilha de Bali, foi na Ilha de Bali, longe e eu ficava no mapa assim: “Ai meu Deus do céu, hoje ele está aqui” (risos).

 

P/1 – Dona Geralda, nesse tempo em que o Toninho fica em casa, muita gente vem visitá-lo, não é?

 

R – Vem, vem sim, mas esse negócio do Livrão que ele faz, absorve ele muito, então ele fica muito lá na firma dele trabalhando, mas vem, vem sempre gente aqui.

 

P/1 – Mas assim, na juventude dele a gente viu bastante foto de artistas que vêm aqui na casa da senhora. Quem a senhora lembra, tem alguém? Dos antigos, dos novos...

 

R – Já dormiram aqui em casa, primeiro os que já dormiram: Eumir Deodato, Dori Caymmi, Gilberto Gil, esse Gilberto Gil tem uma história, mas essa é da Gilda. A Gilda era promotora no Rio e ela pegou o Gil para levar para Ouro Preto, mas como ela era produtora pobre e ele estava começando, ele tinha ganhado o festival, mas estava engatinhando ainda. Então ela foi para Ouro Preto com ele, fizeram o show, voltaram tarde da noite, dormiram aqui em casa no quarto do Toninho e de manhã foram tirados uns slides, nós temos uns slides dele aqui na grama, quem mais veio? A Fafá de Belém, ela veio com o Ronaldo Bastos e uns outros aí, num show. Quando era de manhã, estou vendo aquela moça com um vestido indiano, meio baixo assim, curtinho e falei: “quem é essa?” “essa é a Fafá, ela é de Belém, está entrando na música e veio assistir ao show” o show eu não sei se era da Gal, se era do Milton, não me lembro mais qual o show que ela veio ver, parece que era do Milton, não sei. Então ela dormiu aqui, no quarto dormiram ela, Toninho, Ronaldo e um outro que eu esqueci o nome, dormiram quatro em um quarto. No mais assim, a Joyce várias vezes, muita gente, eu até esqueço. Edmundo, aquele que morreu, acho que é isso mesmo, um que foi namorado da Joyce, esqueci o nome dele, eu sei que por aqui já passaram várias pessoas.

 

P/1 – Esses são os que dormiram não é? E os que vieram só visitar?

 

R – Ah, os que vieram são muitos, não dá para falar.

 

P/1 – E os fãs de Toninho, batem na porta aí?

 

R – Escrevem muita carta, mandam disco, ele tem umas três pastas deste tamanho cheia de CD`s que mandam pra ele, todo dia chega CD, todo dia. Agora carta, bilhete nos shows, recebia muito e ainda recebe, eu vejo muito.

 

P/1 – A senhora é uma pessoa que entende de música, que sabe disso. A senhora enxerga a inovação que o Toninho e essa turma trouxe para a música?

 

R – Eu acho que esse Movimento do Clube da Esquina foi muito feliz, foi muito abrangente, porque criou um novo estilo de música que o Brasil não tinha, um novo modo de compor que o Brasil não tinha e deu um incentivo muito grande para todo mundo, porque foi uma coisa que entrou e não saiu mais. Eu acho que o Clube da Esquina foi muito válido, nasceu aqui em Santa Tereza. Eu me lembro que às vezes o Lô vinha aqui com o violão, o Toninho ensinava alguns acordes pra ele e o Toninho morava mais lá do que aqui, toda hora estava lá, toda hora. “Oh, Dona Mariquinha!” entrava dentro de casa. Eu acho que foi uma ideia muito boa e muito grande, essa ideia também da placa, de consagrar a Esquina, foi muito bonita, um gesto muito bonito, a ideia do Museu, o livro do Marcinho, que é uma coisa de louco. “Os Sonhos não Envelhecem”. Eu falo sempre com o Toninho, porque o sonho dele atualmente é de lançar o Livrão, então eu falo com ele: “Os Sonhos não Envelhecem, ele não envelhece, lembra do livro do Marcinho?”. Porque ele tem esse sonho, mas esse livro dele é uma coisa muito minuciosa, por isso que está dando esse trabalho, trabalho e dinheiro, porque o dinheiro do patrocínio não dá então eles tiram do bolso. Ele ganha e tira, põe no bolso e tira, mas uma hora tem que sair.

 

P/1 – E agora, como é ver suas netas já tocando, acompanhando o Toninho?

 

R – Pois é, isso pra mim é um prazer imenso, eu ver a Lena, a Lena toda vida acompanhou o Toninho na Orquestra Fantasma, o Iuri, não é? Eu acho isso muito bonito, muito gratificante para mim, é uma prova de que a família é unida. E uma coisa que eu peço muito aqui em casa: vocês gostam muito de harmonia musical, mas a maior harmonia é a em casa, é a harmonia da família, é essa que eu não quero perder nunca. Então Natal, Dia das Mães, eu sempre faço um discursinho para falar sobre harmonia na família. Olha, para você ver, elas acompanham o Toninho, a Lena sempre acompanhou, agora a Diana também já formou no conservatório e está tocando muito bem e isso para mim é uma alegria imensa. Agora o filho dele também já está na guitarra, já está começando, isso pra mim é um grande prazer.

 

P/1 – E o Toninho ouve muito a senhora, porque eu soube ontem que o intérprete da música foi escolhido pela senhora, o Tadeu Franco. Ele agradeceu ontem na televisão.

 

R – Pois é, o Tadeu Franco tem uma voz maravilhosa. Eu falei: “se fosse por merecimento eles tinham tirado no mínimo segundo lugar”, eu achei até que fosse o Maracatu, as músicas do Brasil, eu sabia que o primeiro lugar não tinha jeito, mas por causa da voz do Tadeu, aquela voz maravilhosa, aquele timbre, eu falei com o Toninho, ele estava lá na mesa falando que ia chamar Fulano, Beltrano e eu falei: “Toninho, chama o Tadeu Franco porque ele tem uma voz maravilhosa, agora, ele tem que ensaiar, ele tem que despojar daquela timidez e por para valer.” Mas esse negócio de festival é que nem loteria, você viu quem ganhou, não é? Ganhou o filho de um dos apresentadores e por isso que a vaia foi tão grande. Eu falei com o Toninho: “Olha Toninho, não pensa em nada, pensa só em fazer uma boa apresentação” ele falou: “mãe, mas é isso que eu quero, eu quero mostrar a minha música, que gosto de mostrar a minha música, eu gosto de sentir a minha música e é por isso que eu vou” tanto que ele não entendeu quando eu falei: “Parabéns viu, porque a sua música ficou muito bonita, o Tadeu ontem estava divino, não deu errada nenhuma.” Mas são estas coisas que acontecem, são naturais e a gente tem que achar natural aquilo e pronto. Pra mim passou, passou, eu não deixei de dormir, não deixei de tomar o meu café da manhã.

 

P/1 – Dona Geralda, a senhora já falou um pouquinho sobre o Museu, mas vamos falar mais. O que a senhora está achando desta iniciativa agora de o Clube da Esquina virar um Museu?

 

R – Achei excelente, porque um movimento deste, que fez tanto bem à Minas Gerais, fez tanto bem ao Brasil e ao exterior também, porque ele é muito respeitado no exterior, chega lá, Clube da Esquina é muito respeitado. Então eu acho que a ideia é genial, eu acho que quem teve a ideia está de parabéns, porque escolheu a coisa certa. É uma coisa que no futuro, nós não temos um Museu da nossa música, nós não temos. Nós temos grandes nomes da música passada que nós não temos um museu. Por isso é que o Toninho está fazendo este Livrão e a maior parte das músicas, são músicas passadas, do século passado, então é pra deixar, uma coisa que acaba virando um banco de dados. Então o museu é ainda melhor porque é uma coisa palpável onde você vai lá, vê os clipes, os vídeos e é uma coisa que vai ficar para o resto da vida, vai ficar para as novas gerações, que vão adorar esse museu, “vamos no Museu do Clube da Esquina” todo mundo vai, ali está uma história grandiosa da música brasileira, uma história que conta tudo sobre a música brasileira e que dá a maior honra ao estado de Minas, esse Clube, porque afinal de contas é mineiro.

 

P/1 – Dona Geralda, tem mais alguma história que a senhora queira contar que tenha se lembrado agora?

 

R – O interessante foi que na hora do Fernando Brant receber o Prêmio, ele foi com o smoking do Toninho (risos). Não sei como coube nele, porque toda vida ele foi mais forte que o Toninho, mas o Toninho ia em uma festa de quinze anos aqui em Belo Horizonte e mandou fazer o smoking e estava novinho. Ele não vestiu porque ele não ganhou prêmio nenhum, então ele estava lá no hotel e diz que o Fernando falou assim: “não consegui arrumar uma roupa” aí o Toninho falou: “eu tenho uma lá, vamos ver se serve em você” e acabou ele indo com a roupa. Não sei nem se ele se lembra disso (risos). Então é isso, vamos visitar o Museu.

 

P/1 – Dona Geralda, a senhora gostou de ter dado a entrevista? O que a senhora achou?

 

R – Gostei, gostei muito, eu queria era pedir desculpas porque eu não estava preparada para isto. Eu tenho um acervo grande, que como eu falei pra você, eu vou doar para o Museu, já falei com o Toninho: “Olha Toninho, eu vou doar para o Museu, tem muita coisa que eu vou doar”, porque eu, quando tinha estes eventos, eu relacionava tudo e guardava. Então eu tenho Manchete, aquela revista antiquerrima, tem as fotos aí da Manchete, do Festival. Tem uma foto do primeiro show que eles deram em São Paulo, o Clube da Esquina, o primeiro show com aquela música do Wagner, aquelas músicas lindas Clube da Esquina 1, tocava o Zé Rodrix, o Fredera. Eu me lembro que teve uma que o Toninho tocou guitarra numa dessas exibições lá em São Paulo que eu tenho aqui na televisão, é televisão ou fita, mas eu sei que tem, o Toninho tinha quebrado o pé e estava com o pé engessado até aqui e tocando guitarra assentado. Então eu tenho estas coisas todas aí, eu vou procurar e vou ter um grande prazer em doar para o Museu.

 

P/1 - Então desde já, Dona Geralda, muito obrigada pelo seu depoimento, foi muito bonito e nós vamos aguardar este acervo, foi um grande prazer.

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