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História

Guy Marie Fabio Guagnidei Marcovaldi

História de: Guy Marie Fabio Guagnidei Marcovaldi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/12/2009

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Guy Marie Fabio Guagni dei Marcovaldi, mas eu uso Guy Marcovaldi, nasci no Rio de Janeiro, no dia 10 de janeiro de 1954. FAMÍLIA O nome do meu pai é Jean Guagni dei Marcovaldi e o nome da minha mãe é Maria Dinah Cardoso Martins Guagni dei Marcovaldi. O nome do meu avô por parte de mãe é Valdemar Cardoso Martins e o nome da minha avó é Olga Cardoso Martins. Minha avó por parte de pai se chamava Edith Lince Guagni dei Marcovaldi e o meu avô é Jean Guagni dei Marcovaldi também. Eu costumo brincar que nós, brasileiros, e os americanos somos importados de algum lugar, ou da Europa, ou da África ou da Ásia. Os brasileiros mesmo são os Jurunas e aquela turma de índios. Minha família é uma mistura de portugueses com italianos, são todos europeus. Meu pai nasceu em Florença, minha mãe é filha de português com uruguaia, mas nascida no Brasil. Então, eu sou filho de um italiano com uma brasileira. Meu pai é industrial e comerciante. Ele trabalha na indústria de produção e venda de mármores e granitos, ele exporta e importa mármore e granito, desde a época que veio da Itália. Ele veio trabalhar numa empresa do tio dele, aqui no Brasil, que já tinha esse tipo de negócio. Minha mãe é dona de casa, mãe de quatro filhos. Nós éramos cinco irmãos, perdi recentemente um. Sou o segundo mais velho. São todos homens. Foram duas gerações de irmãos. A primeira fase da minha vida foi só eu e meu irmão mais velho, Alex. Nós brincávamos e brigávamos, como todos bons irmãos. Ele é quatro anos mais velho. Dez anos depois, nasceu a segunda geração: o Vaval, que infelizmente morreu, o Enrico e o Fabio. Como nós tínhamos 10 anos de diferença, então eu já pertencia à outra geração. INFÂNCIA Era bastante agitada. Morei no Rio até os 18 anos. Nasci no Leme, num apartamento na frente da praia, e lá pelos oito anos de idade me mudei para Botafogo. Até ir para a faculdade, eu morava em Botafogo. Tínhamos o hábito de ir para a praia, morávamos no Leme e tínhamos uma fazenda em Belford Roxo, aliás, temos até hoje e é onde fica a indústria do meu pai. A brincadeira toda era lá, nessa fazenda, com meus avós por parte de mãe. Os meus avós por parte de pai eu não cheguei a conhecer, moravam na Europa e morreram lá. Meus avós Valdemar e Olga moravam na Praia do Flamengo, mas tinham essa fazenda. O negócio do meu avô era gado leiteiro e gado de corte, nessa fazenda, e plantação de café, na Baixada Fluminense. A nossa brincadeira na fazenda era montar a cavalo, subir em árvore, brincar de todo jeito, soltar muito balão, brincar com pião e caçar passarinho, que naquela época podia. Hoje ninguém ensina mais aos filhos, minha mãe nunca gostou disso, sempre foi contra, mas meu avô incentivava. Eram 50 anos atrás, né? Mas eu, muito cedo, aprendi a gostar do mar e era a minha grande diversão, ou ia para a fazenda ou ficava na praia, pescando siri, nadando, pegando “jacaré”. Eram minhas duas brincadeiras. O meu irmão mais velho gostava muito de onda e de praia também. PRAIA DO LEME O Leme era uma maravilha. Tinha uma água muito transparente, ainda não tinha nenhum tipo de influência da poluição ou muito pouca poluição da Baía de Guanabara. Havia épocas em que tinham muitos peixes e águas-vivas, uma brincadeira nossa era pegar a água-viva no mar e trazer para a praia. Acho que nunca mais ouvi falar em águas-vivas, não sei se vocês sabem que tem uns “blooms”, conforme a gente fala em biologia, de água-viva. Tenho uma imagem forte disso, no Leme, lembro quando chegavam essas águas-vivas no verão e era uma alegria, porque mudava a rotina do mar. E, como elas não queimavam, então era ideal para a gente: disputávamos quem pegasse mais água-viva, cada um fazia o seu morrinho de água-viva na praia. Naturalmente, elas derretiam no sol do verão do Rio de Janeiro e acabavam morrendo. Nessa época, eu ainda não mergulhava, porque era muito pequeno e estava sempre com minha mãe, com meu pai ou uma babá. MERGULHOS Comecei a mergulhar na Praia Vermelha, quando já estava morando na rua Sorocaba, em Botafogo, era um pouco maior. Então, eu tinha comprado minha máscara, meu pé-de-pato e ia para a Praia Vermelha, que tinha uma água transparente, linda, ia pescar siri debaixo das pedras, era minha diversão preferida, era o que eu mais gostava de fazer. FAMÍLIA Cada um mandava de um jeito, né? Acho que minha mãe mandava mais do que o meu pai. Na época, eu achava que o meu pai mandava mais, mas hoje vejo como ela... A mulher participa de tudo, o tempo todo, opina em tudo, então ela tinha uma presença maior e mandava mais. Meu pai entrava nas horas das coisas mais importantes, mais fortes, nas brigas, principalmente. ENSINOS FUNDAMENTAL E MÉDIO Eu comecei estudando na rua São Clemente, num colégio infantil chamado Clube do Guri. Eu acho que, inclusive, isso motivou a nossa mudança para a rua Sorocaba, porque era mais perto. Essa escola ficava na frente do Colégio Santo Inácio e eu saí do jardim da infância e fui direto para o Santo Inácio. Então, meus pais compraram essa casa na Sorocaba, que era bem maior que o apartamento no Leme. Era longe da praia, mas perto dos colégios. Eu e o meu irmão estudávamos no Santo Inácio. Nessa época, a rua era um ambiente muito bom, não tinha praticamente violência, nós jogávamos futebol na rua, brincávamos. Infelizmente, eu tinha que ir para o colégio e não gostava. Era um colégio de padre, muito rígido, e eu demorei a conseguir sair. Saí no terceiro ano ginasial, fiz um cursinho e acabei indo para o Bennett, que também é Botafogo. O Santo Inácio era um colégio, como falei, muito rígido e religioso e eu passei uma época na minha vida estudando lá sem gostar. Paguei um carma nessa época. O Bennett era outra coisa, era um colégio muito mais liberal, tinha menina – no Santo Inácio só tinha homem e padre –, professores muito mais modernos, professoras, e incentivava a arte e a música. MÚSICA, MERGULHO E PESCA Eu comecei a tocar no colégio, com o pessoal. A minha mãe tocava violão clássico, não chegou a ser profissional, mas até concerto no Municipal ela deu. Eu aprendi um pouco com ela, mas fui incentivado na música pelo pessoal do Bennett, no teatro que tinha lá. Tocava violão. Foi uma parte muito importante na minha vida. Durante anos, eu dividi o meu lazer entre mergulho, pesca e música. Tocava música popular. Eu aprendia todas as músicas, Caetano, Elba Ramalho, todas. Mas chegou uma época em que abandonei a música, depois que fiquei adulto. Quando fui para a faculdade, ainda toquei um pouquinho, mas depois deixei o violão encostado num canto, um violão meio velho. Agora, aos 50 anos, ganhei um violão novo, moderno, eletrificado e estou recomeçando a tocar. JUVENTUDE Eu nunca abandonei o Rio. A minha família, meus pais, meus amigos sempre viveram aqui. Fiz várias amizades no Bennett, que permanecem até hoje. Eu sempre encontro com eles e visito meus pais no Rio. Lembro dos primeiros bares que eu comecei a freqüentar. Como eu disse, o lazer era praia e rodinha de música, no Rio ou em Búzios, na casa de um amigo, Maurício, que até hoje a gente vai. Eu tocava flauta e violão. E ia em alguns bares aqui; ontem mesmo eu fui no Bar Lagoa. Depois que começou a moda dos sushis, a gente passou a ir sempre no restaurante japonês também. Fui uma ou duas vezes ao Maracanã. O meu lazer principal era bar, Búzios, mergulho e viagens. Viajava sempre com amigos. Desde 13, 14 anos de idade, a gente passou a organizar viagens para praias, para Guarapari, para Cabo Frio, para Alcobaça, na Bahia, e essas viagens sempre estavam relacionadas a mergulho. O grande desafio de viajar era ir, a cada vez, para lugares melhores, mais longe, para poder mergulhar. E quando a gente foi para a faculdade, a gente continuou com esse hábito, mas um pouco mais organizado. O Museu de Oceanografia, de Rio Grande, nos incentivava a fazer coleta malacológica, coleta de material de conchas, para a coleção do Museu. NAMOROS Eu tive oportunidade de ter várias namoradas e tive uma principal, com quem terminei e fiquei solteiro entre os 19 e 24 anos, quando conheci na faculdade a mulher que eu sou casado até hoje, a Neca. OPÇÃO PROFISSIONAL: OCEANOGRAFIA Quando eu tinha seis anos de idade, tinha um pé-de-pato, uma máscara, um respirador e já mergulhava, já gostava. Na época, existia um mergulhador famoso na televisão, chamado Mike Nelson, que era meu ídolo. Depois, apareceu Jacques Cousteau, com uma coisa mais séria, porque o Mike Nelson era uma aventura submarina, de bandidos. Com o aparecimento do Jacques Cousteau, eu já tinha certeza de que queria fazer oceanografia. Eu sempre mergulhava de apnéia, para curtir ou para pescar siri, lagosta, com as mãos. Mas aí teve um curso na Femar, Fundação Estudos do Mar, aqui no Rio de Janeiro, que ensinava mergulho de garrafa. Na Marinha, não existia esse curso. Então, a Femar me ensinou, eu fiz um curso de mergulho de garrafa. Devia ter uns 15 anos, mais ou menos, foi antes da faculdade. O Almirante Saldanha era o “professorzão” de oceanografia, que dava o curso e tinha outros assistentes. Nessa época, a gente ia para Arraial do Cabo para terminar o curso, fazer a graduação, o batismo. Geralmente, era feito numa piscina. Na época, era tudo meio sem trânsito, tudo muito rápido para fazer. Parte dos meus amigos fez o curso comigo. Um deles é conhecido, é o Cláudio Savaget, que faz o Globo Ecologia – parte disso tudo que eu estou contando ele já estava junto. O Cláudio eu conheci através do Maurício, que era do Bennett. FACULDADE DE OCEANOGRAFIA Então, foi assim, mais ou menos. Eu via o Jacques Cousteau, gostava de mar, sabia que ia fazer biologia marinha, oceanografia, eu já tinha certeza. O meu pai tinha feito uma pesquisa e encontrado uma faculdade na Flórida, uma no Havaí e outra em um lugar que não lembro. Eu tinha, claro, escolhido ir para o Havaí, quando apareceu a Faculdade de Oceanografia de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A cidade fica perto da divisa com o Uruguai. Aí eu fui convencido a abandonar o Havaí e ir para Rio Grande, pois deveria ser mais barato, mais fácil, né? E mais perto da família. Aí foi ótimo. Eu senti muita diferença de cultura, quando cheguei em Rio Grande, mas a faculdade tinha alunos de tudo quanto era lugar: tinha alunos de São Paulo, do Rio, de Santa Catarina, muitos gaúchos também, a maioria, mais gente da Venezuela, da Argentina, da América do Sul inteira. Eu convivi com um grupo heterogêneo, então esse choque cultural não foi tão grande. Uma coisa que me assustou foi o clima gélido em Rio Grande. Teve uma época, quando chegou o inverno, que eu não sabia o que fazer. A minha namorada do Bennett, que foi para a faculdade comigo, voltou no primeiro inverno, porque não agüentou o frio e nem o choque cultural. E eu comecei a me enturmar lá, arrumei um grupo de gaúchos, comecei a tocar violão com eles e gostei, fui ficando. Nunca gostei muito de estudar. Mas gostava do que aquele estudo me ajudava a fazer. No início da faculdade, só tinha teoria, muita matemática, muita física, muita coisa de ciência exata. Depois começou a enveredar mais para biologia e geologia, aí começou a melhorar. Passamos a ter aulas práticas, tinha um navio oceanográfico, a lancha que nós saíamos. Nessas coisas eu me dava bem, porque eu era acostumado a navegar, era um dos poucos que não enjoava no mar. Todo mundo enjoa no mar, mas eu saía e não enjoava, ficava pegando no pé até dos professores, aí me sentia orgulhoso. VIAGENS PARA MERGULHOS Eu tentava uns mergulhos no Sul, sempre meio mal sucedidos, porque a água era muito fria e, na época, a gente não tinha equipamento, aquelas roupas próprias. E a água também era suja, turva. Então, o nosso negócio era chegar no verão e organizar viagens para ilhas onde a gente pudesse mergulhar, no Nordeste. A gente tinha que sair de Rio Grande, quando chegavam as férias, e passar um, dois meses viajando em algum lugar de praia, de preferência quente, porque a gente estava de “saco cheio” de frio. E o Museu Oceanográfico aproveitava que aquela turma ia para esses lugares e nos ajudava, até financeiramente, dava caixas para coletar material e nos incentivava a trazer conchas, moluscos, de outras praias do Brasil, para compor o acervo do Museu de Rio Grande. Era óbvio que o esquema dessas viagens era bem mais amador. Mas a gente tinha o fator tempo e o desprendimento de comodidade. Então, você conseguia ficar mais tempo, com menos exigência, menos estrutura. O produto não era tão bom quanto o que a gente traz hoje, naturalmente, porque agora a gente sai com um monte de câmeras de filmagem submarina, máquinas fotográficas de tudo quanto é jeito, equipamentos de sondas subaquáticos. Hoje em dia, para eu fazer uma viagem de uma semana é um problema, porque tenho família, tenho filho, tem um monte de papel para assinar todos os dias e milhares de e-mails para responder, então não tenho tempo. Mas nós saíamos todos os verões para mergulhar. Se a gente não conseguisse ir para lugar nenhum, a gente vinha, pelo menos, aqui para o Rio, para Búzios, para Angra dos Reis, para Santa Catarina. E quando a gente conseguia dinheiro, permissão e tempo, a gente ia para Abrolhos, para Trindade, para Fernando de Noronha, para o Atol das Rocas, que eram lugares praticamente desconhecidos. Fernando de Noronha não tinha nem hotel para turista, na época, era uma Base Militar. O Atol das Rocas era uma área de pesca. Abrolhos era um destacamento da Marinha, Trindade também. E a gente foi todos os anos para esses lugares, quer dizer, era a nossa rotina. Não sei se era rotina, não é nada sério, mas era o nosso objetivo de todos os verões. Se a gente vinha para o Rio ou para Santa Catarina, era mais férias mesmo. Mas quando a gente ia para essas ilhas mais distantes, que era uma oportunidade, aí a gente já se organizava, levava filmadora, máquinas Nikon de fotografia submarina, fazíamos relatórios com fotografias e trazíamos materiais de coletas, bastante coisa. Nessa época, foram umas 10, 15 novas espécies que a gente descobriu para o Brasil. Quer dizer, nós coletamos e o professor viu que era uma espécie nova, catalogou e descreveu para um comentário científico. NAMORADA / ESPOSA A Neca era uma estudante, eu já estava há dois anos na faculdade quando ela chegou. Ela era estudante de Oceanografia, vinda de Porto Alegre. Um ano depois, a gente começou a namorar e estou com ela até hoje. FAMÍLIA Nessa época, lá em casa, já tinham perdido a ilusão de que eu poderia trabalhar no negócio da família. Teve um pouco de chantagem emocional – sei lá se posso usar essa palavra –, mas era um pouco natural, claro que meu pai queria que eu ajudasse no negócio de família. O meu irmão mais velho, que estudava advocacia, já estava trabalhando com ele. Mas ele me incentivou a ir para a faculdade. Minha mãe que, às vezes, falava: “Bah Mas você não vai ajudar o teu pai?” Na época, meu pai tinha a minha idade atual, não precisava de ajuda nenhuma. A faculdade, que normalmente se fazia em cinco anos, eu fiz em seis. Como eu disse, nunca fui bom aluno, mas meu pai sempre me incentivou, pagou todos os meses direitinho, deu minha mesada, nunca me pressionou para abandonar nem trocar de curso, nem nada. Então, deu certo, porque consegui me formar. HISTÓRIAS / CAUSOS / LEMBRANÇAS Nós tínhamos hábitos, todos os anos, de viajar para praias distantes e desertas e trazer esse material que eu estava falando, malacológico. A gente filmava, fotografava. O Cláudio Savaget participava, ele tinha uma camerazinha 16 milímetros, com um pequeno blimp, que a gente botava debaixo d’água, o Maurício também tinha uma Beaulieu 16 milímetros que a gente utilizava, e eu tinha várias máquinas Nikon. A gente trazia os relatórios, algumas filmagens e fotografias e levava esse material para o zoológico, para o cara do Agapan [Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural], que morreu há pouco tempo, o gaúcho José Lutzemberg. Agapan é a organização dele, que veio depois, mas já era a turma dele e do Renato Petry Leal. Numa dessas viagens, nós fomos ao Atol das Rocas. No Atol das Rocas, nós presenciamos as pessoas matando várias tartarugas. Os pescadores que nos levaram desceram à noite na praia – era uma noite de lua cheia, no verão, em janeiro –, enquanto a gente dormia. A gente estava passando três semanas na ilha, demoramos quase um mês para chegar lá e para voltar. Então, os pescadores desceram e mataram várias tartarugas. A gente via que todo dia tinha uma bagunça na praia, tudo se mexia, tudo estava cheio de areia, tinha uns buracos. E a gente estudava na faculdade que não tinha desova de tartaruga no Brasil, que as tartarugas-marinhas não se reproduziam no Brasil, porque não tinha sido descrito cientificamente. Então, se a ciência não descreve, não existe. E aí uma menina acordou e surpreendeu os pescadores matando as tartarugas durante a noite, na praia. A gente acordou e teve aquela briga entre “mata a tartaruga”, “não mata”. Havia umas tartarugas – tem até foto – com a barriga aberta cheia de ovos, a pessoa degolando, aquela coisa horrível. PROGRAMA NACIONAL DE CONSERVAÇÃO MARINHA – CRIAÇÃO Essas fotos foram parar na mão do Renato Petry Leal, que trabalhava no zoológico e já defendia a conservação da natureza. Depois, ele foi promovido a diretor do Ibama, em Brasília – ainda não existia o Ibama, era IBDF. E, na mesma época, o Brasil estava sendo pressionado para começar um trabalho de conservação marinha. Pressionado pela sociedade nacional e internacional. A Maria Tereza Jorge Pádua, que também é uma pessoa muito conhecida na área de meio-ambiente, que presidia o IBDF, na área de conservação, voltava de reuniões internacionais muito frustrada, porque não tinha o que mostrar para os países, como Estados Unidos, Austrália, Canadá e o próprio México. Não havia nenhum trabalho de conservação marinha do Brasil. Então, ela disse: “O Brasil precisa criar o Programa Nacional de Conservação Marinha. O Brasil não tem uma reserva biológica marinha, um parque nacional marinho, nenhum projeto de conservação marinha.” Isso era final da década de 70. Foi a época que estava terminando o movimento hippie e começando o movimento ecológico. Tinha aqueles adesivos “salvem as baleias”, que se botava nos carros, para pressionar os governos a parar a captura de baleia. Então, o Renato foi trabalhar com a Maria Tereza e disse: “Oh, eu conheço uma turma que agora deve estar se formando, que já conhece o litoral brasileiro todo. Eles são estudantes de oceanografia. Então, eles têm a formação para essa área. Vamos chamá-los para trabalhar.” Primeiro, chamaram o Catú, em 1979, e fizeram o Programa Nacional de Conservação Marinha, o planejamento. Depois, convidaram a Neca, o Lauro e eu para trabalhar, fazer parte desse trabalho. Em 1980, no orçamento do Governo Federal, estava escrito: “Programa Nacional de Conservação Marinha”, com as subdivisões, como o Projeto Peixe-boi, o Projeto Tartaruga-Marinha, o Projeto Baleia, não sei o que, não sei o que lá. A gente já tinha dado a consultoria para eles, ajudamos a desenhar isso. E aí nasceu a primeira verba, em 1980, com o nome Tartaruga-Marinha. PROGRAMA NACIONAL DE CONSERVAÇÃO MARINHA – PRIMEIROS PROJETOS Em maio de 1980, eu fui chamado para trabalhar para o Ibama, no Programa de Conservação Marinha. Então, o que a gente tinha que fazer? A gente tinha que fazer um levantamento do Oiapoque ao Chuí, não mais como estudante, mas como contratado do serviço público, para fazer um diagnóstico do que o Brasil precisava para se colocar no mundo como um país que também tem conservação marinha. E a gente já sabia mais ou menos, né? Já sabíamos quais eram os lugares que a gente tinha que transformar. Abrolhos foi transformado num parque nacional, três ou quatro anos depois. Fernando do Noronha também virou um parque nacional, uns oito anos depois. E o Atol da Rocas se tornou uma reserva biológica. O primeiro local preservado foi o Atol das Rocas. E aí, quando terminou o levantamento, o nosso chefe, o Renato, dividiu: “Olha, Catú, Lauro, eu sei que vocês vão trabalhar...” O Catú era da faculdade também, começou o trabalho comigo, fazia parte desse projeto. O nome dele é Catuetê Albuquerque. Infelizmente, ele morreu num desastre de carro há uns 15 anos. E a Neca também ficou trabalhando nesse programa. O nome dela é Maria Ângela Marcovaldi. Nós terminamos esse levantamento, que durou dois anos, parte por correspondência, telefone, e a outra parte fisicamente. O levantamento formal foi do Oiapoque ao Chuí, mas, in loco, a gente começou do Rio de Janeiro para cima, onde existiam informações de ocorrência de peixe-boi e tartaruga-marinha. Nossa meta era, a cada mês, percorrer um Estado, voltar para Brasília, fazer um relatório e entregar o nosso diagnóstico. Então, no outro mês, a gente ia para outro Estado. Demorou dois anos até terminar todos os Estados brasileiros. E aí, nessa época, o nosso chefe, o Renato, disse: “Ó, Guy e Neca, vocês vão ficar cuidando das tartarugas e o Catú vai cuidar do peixe-boi.” Essas divisões seguiram nossas tendências. BALEIA JUBARTE E BALEIA FRANCA A gente não conseguiu incorporar as baleias no programa porque teve uma briga, uma disputa, melhor dizendo, e as baleias ficaram na mão da Sudepe, Superintendência do Desenvolvimento da Pesca. Então, a baleia continuou sendo tratada como uma pesca e não como um animal a ser protegido durante cinco, seis anos, porque depois foi agregado. Hoje existe o Projeto Baleia Jubarte e Projeto Baleia Franca, que são do Ibama também e que têm patrocínio da Petrobras. Abrolhos foi transformado em parque nacional em 86, mas aí a baleia já estava incorporada ao projeto. Em 85, veio o decreto proibindo matar baleia no Brasil e aí a baleia saiu da Sudepe e foi para o IBDF, que tinha uma área de conservação. A Sudepe era só exploração. PROGRAMA NACIONAL DE CONSERVAÇÃO MARINHA Então, voltando, dividimos os Estados e as atribuições. Um era substituto do outro. Eu tinha que me dedicar mais às tartarugas, junto com a Neca. O Catú e a turma dele tinham que se dedicar mais ao peixe-boi. A Neca ficou responsável por criações dos parques mais do sul, como Abrolhos, Reserva de Santa Isabel, em Sergipe, e Reserva de Comboios, no Espírito Santo. O Catú ficou trabalhando com Fernando de Noronha, com Atol das Rocas. Fernando de Noronha foi o que mais demorou, porque tinha população, então levou uns 10 anos para ser feito. DIAGNÓSTICO DA COSTA BRASILEIRA Quando a gente terminou o levantamento, a gente fez o seguinte diagnóstico: “A população...” Quando a gente chegava num lugar e perguntava se tinha peixe-boi, em Sergipe ou Alagoas, as pessoas riam da nossa cara, achavam que a gente era maluco, porque sempre se pensava que peixe-boi só existia na Amazônia. A maioria das faculdades, das pessoas, mesmo as que estudavam, não sabia que existia peixe-boi em Sergipe, Alagoas, Pernambuco. Todo mundo no Nordeste sabia que as tartarugas desovavam, mas não tinha nenhum paper que descrevia isso, nenhum trabalho científico. Quando a gente terminou esse levantamento, a gente disse: “Ó, todas as tartarugas-marinhas que chegam no Brasil para desovar, ou são mortas, ou seus ovos são colhidos. O ciclo reprodutivo das tartarugas está interrompido pela ação do homem, atrópica, e o governo brasileiro precisa criar zonas de segurança para elas se reproduzirem. E nós indicamos Praia do Forte, Comboios...” Como a gente não podia fazer tudo, estar em todo lugar do Brasil, teve uma negociação entre nós e o Catú. O Catú gostava mais da Paraíba, eu gostava mais da Bahia, então a gente fez essa divisão. E eram poucas pessoas também, só foram quatro contratadas para fazer o primeiro documento. Hoje trabalham nesse projeto quase 1300 pessoas, só no Tamar. Bom, eu estava falando que, ao terminar esse levantamento de dois anos, a gente fez um diagnóstico dizendo que todas as tartarugas que chegavam ao Brasil para reproduzir ou eram mortas ou seus ovos eram colhidos. A reprodução no Brasil estava interrompida pela ação do homem e nós tínhamos que nos implantar nas praias para fazer com que ficassem seguras para as tartarugas se reproduzirem. A mesma coisa acontecia com o peixe-boi, que estava numa situação bem mais desesperadora, em poucos locais foram encontrados um número significativo desses animais. A população estava no seu limite e nós tivemos que impedir a matança de qualquer peixe-boi, um que seja, porque podia estar num número que não mais conseguiria se recuperar. Começou a ficar tão pequeno que, talvez, do Ceará para baixo, não tivesse número suficiente para se recuperar. Na Bahia, ele foi extinto, em Sergipe ele está desaparecido há seis anos e no Espírito Santo também já tinha sido extinto. Aí nós chegamos para os nossos coordenadores e falamos isso. Apresentamos um relatório e tivemos uma reunião nesse sentido e dissemos: “Ó, nós precisamos ir para esses lugares.” TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Quando terminamos o diagnóstico, já tínhamos intenção, nós não queríamos morar em Brasília, né? E eu, com certeza, também não. Eu disse: “Olha, vamos nos mudar para uma dessas praias para começar o trabalho.” Aí, de 82 para 83, eu me mudei para a Praia do Forte, na Bahia. Acabei a faculdade em 79. Nesses dois anos, eu passava um mês viajando e duas semanas fazendo e divulgando o relatório. Em 1982, me mudei para a Praia do Forte experimentalmente. Em 1983, eu fui oficialmente. TARTARUGAS MARINHAS – PRAIA DO FORTE Eu escolhi a Praia do Forte por vários motivos, mas um deles é que a maior quantidade de desova de tartaruga-marinha do litoral brasileiro é naquela região entre Arembepe e Praia do Forte. E, em segundo lugar, é que a Praia do Forte estava num lugar estratégico, muito próximo de um aeroporto importante, que era o aeroporto de Salvador. Apesar de não ter estradas, que já estavam sendo construídas, nós tínhamos condição de, em duas horas, estar num aeroporto importante que nos permitia manter contato com outras cidades. A cidade de Salvador também era grande, então, tinha o material que nós precisávamos, enquanto Pirambu, em Sergipe, e Comboios, no Espírito Santo, não tinham essa regalia. Além de que – aí já é uma escolha pessoal – a Praia do Forte era muito mais bonita e as pessoas que estavam lá nos ajudavam, inclusive um empresário que tinha recém-comprado terras para implantar um projeto turístico nos facilitou a vida, nos cedeu cavalos, eventualmente carro, e nos hospedou durante um período. O hotel estava na fase de planejamento, pedindo financiamento, e foi construído em 88. Entre 83 e 84, fizeram a primeira pousada da Praia do Forte, que é a Pousada Praia do Forte, vizinha ao Projeto Tamar. Até então, era só uma vila de pescadores e as casas da fazenda do coco. A Praia do Forte é uma fazenda de coco e gado, tem pouca atividade pesqueira. Todas as tartarugas que chegavam para desovar lá não eram mortas propositalmente, mas as matavam eventualmente. Os ovos eram colhidos e, se a pessoa visse uma tartaruga desovando na praia, matava. E isso era costume nas noites de lua cheia, porque nessa fase a maré fica grande e a praia fica gostosa de caminhar. Então, nessas noites, as pessoas tinham o hábito de fazer caminhadas pela praia, para matar as tartarugas desovando. Ou saíam de uma vila para outra pensando em encontrar uma tartaruga e matar. Teve gente que deu entrevista falando que era uma farra, mas era alimentação também. Imagina, cinco, seis pessoas encontravam 100 quilos de carne, cada um levava 20 quilos para casa, era bastante comida, né? Então, misturava o útil com o agradável, era uma farra e também produção de comida. Os ovos tinham um problema maior, porque, como na extensão da praia tinha uma fazenda de coco e existia uma atividade quase que diária de pegar coco, os funcionários da fazenda se deslocavam pela praia e, sempre que viam um ninho, pegavam os ovos para levar para casa. Os pescadores que moravam na região também tinham o hábito de pegar os ovos. A tartaruga tem 150, 200 quilos e, quando ela sobe na areia, deixa um rastro muito claro. Então, qualquer pessoa, com um pouco de prática, sabe exatamente onde é que está a câmara de ovos. Vem com uma varinha, espeta, três, quatro, cinco vezes, onde a varinha descer e se sujar de ovo é ali que está a câmara. Então, isso acontecia praticamente no Brasil todo. Tinha outras regiões que eram mais cruéis. Na Praia do Forte, as pessoas não se preocupavam em matar todas as tartarugas, matavam eventualmente. Já no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, o costume era outro. As pessoas sabiam exatamente que, 15 dias depois, a tartaruga ia subir, então, se eles vissem uma desova, eles pegavam o ovo e marcavam o dia: “Hoje é dia 10. Dia 24 eu vou vir para a praia com um jegue, um machado, passar a noite aqui. Se eu não pegar ela no dia 24, eu pego no dia 25.” As tartarugas são fiéis, elas voltam 14, 15, 16 dias depois, no mesmo quilômetro da praia. Aí, no primeiro, no segundo ou no terceiro dia, ele pegava. Cada pescador tinha a sua área e foram pegando até quase extinguir. A tartaruga volta duas, três, quatro vezes para botar 150, 100, 120 ovos, por cada vez. PROJETO TAMAR: CONCEPÇÃO Então, o que aconteceu? Quando chegamos na praia, notamos que deveríamos nos aliar a essas pessoas. Aí nasceu o Projeto Tamar, na concepção que ele é hoje. Porque, até então, o projeto era levantamento, fotografia, relatório. Ou a gente se aliava a essas pessoas para elas nos ajudarem ou seria muito difícil a gente conseguir, porque elas é que nos ensinaram isso tudo que estou falando, não aprendemos em livro. Pode trazer o Exército aqui para a praia, a polícia, mas, quando eles forem embora, vão pegar os ovos de novo. Vai ser muito violento, horrível. E aí a gente começou a chamar os pescadores principais, os líderes de “pegação” de ovo. Em Sergipe, as pessoas só pegavam o ovo, matar uma fêmea era pecado, mas, em compensação, eram hiper-profissionais, não escapava um ovo, era impressionante a capacidade deles. Eles eram tão eficientes que não relacionavam o ovo com tartaruga. Ovo era um produto para comer e vender. Não relacionavam o ovo a um filhote de tartaruga. TRABALHO COM AS COMUNIDADES Aí a gente chamou os líderes, os mais malignos, que mais conheciam de pegar ovo, para trabalhar para a gente. No Brasil, um salário mínimo não é tanto dinheiro, mas, mesmo tão duros naquela época, nós tínhamos três salários mínimos para pagar para essas pessoas. A gente chegava abordando, dizendo que estava fazendo uma reportagem, não dizia que era do IBDF, nem da Sudepe, nem nada do governo. E nós não tínhamos jeito, fenótipo de ser do governo: o nosso carro era diferente, o nosso jeito de se vestir era diferente, nos fazíamos passar mais por repórteres ou turistas interessados naquele assunto do que fiscais do governo. Não se passava pela cabeça das pessoas, mas, na verdade, nós éramos pesquisadores, tentando conseguir um jeito de parar aquela matança. E aí, o que aconteceu? Inclusive, surgiu um boato de que a gente trocava ovos de tartaruga por ovos de galinha, então, eles nos dariam os ovos de tartaruga. Isso se falou, se comentou, mas nunca se aplicou, nunca aconteceu. Dar 10 dúzias de ovos de galinha para o cara era uma coisa que não tinha cabimento. A gente também não podia comprar ovo, porque as leis já estavam sendo elaboradas, em 83, 84, e era proibido comprar ou vender ovo. Então, como a gente não podia negociar uma coisa proibida, a gente os contratava para trabalhar, para coletar ovos de tartaruga na praia. Só que, ao invés de vender na feira, ele colocava o ninho na praia, o filhote nascia e ia para o mar. A cada cinco quilômetros de praia, a gente tinha um pescador, então contratamos três, depois mais três, mais... Hoje tem 600 pessoas trabalhando nisso, só nessa parte de praia. E a cultura de pegar ovo foi completamente desmanchada em 20 anos. Hoje a tartaruga é um produto de usar em camiseta, de fazer um chaveiro, de fazer a marca do seu restaurante, de desenhar o nome no barco. A tartaruga continua sendo usada, mas o uso é não-letal. RE-EDUCAÇÃO DA POPULAÇÃO Na época, nos demos conta de que nós tínhamos que atacar o predador. A gente pensava, por exemplo: “Ah, nós temos que reeducar as crianças...” Claro, isso também é ótimo. Mas o imediato era pegar os maiores predadores. Se a gente pegasse 50 pescadores – isso a gente conseguiu em seis, oito anos –, os mais predadores de todos, a gente mudava completamente a situação da mortalidade de tartaruga no Brasil. Era urgente. Então, começamos com o provedor da casa, o pescador entre 20 e 50 anos de idade. Eles eram os caras que traziam comida para casa, inclusive ovo ou carne de tartaruga, então esses é que a gente abordou. Com o tempo, fomos além: “Precisamos ampliar esse modelo de troca para as crianças e para as mulheres, para o projeto ser mais bem visto.” A gente não podia contratar todas as pessoas para trabalhar protegendo praia, mesmo porque as pessoas não tinham esse profissionalismo de andar na praia e pegar os ovos. Então, várias mulheres foram contratadas para fazer artesanato, para fazer tartaruguinha de areia e, mais tarde, isso virou confecção; hoje tem uma confecção no Espírito Santo com 150 pessoas trabalhando, das quais 100 são mulheres. Tem também muita gente da comunidade trabalhando no Centro de Visitação, onde nós mantemos peixes, tartarugas. Nós somos, mais ou menos, 1300 pessoas, sendo que 1100 são da comunidade e 200 são importadas, vamos dizer assim, como os estagiários e eu. O NOME TAMAR O Projeto Tamar – não era ainda esse nome – nasceu quando nós percebemos que tínhamos que chamar os pescadores para trabalhar com a gente. Então, uniu ciência e ação social. E esse casamento deu certo. Vou falar também como é que nós chegamos na Petrobras, né? Uma das metodologias que se usa para contabilizar tartarugas, principalmente, e também para ver as suas rotas migratórias é colocando um grampinho de arame nelas, parece um brinco, um colar, uma chapinha, do tamanho de uma chave, mais ou menos, de aço inox e a gente tinha que escrever ali: “Avise Projeto Tartaruga Marinha - Caixa Postal não sei o que, não sei o que lá.” Era advise, porque tem que ser em inglês, é estipulado. Só que não cabia na placa, não dava pra escrever “Projeto Tartaruga Marinha”. Então, a gente colocou: “Advise Tamar – Caixa Postal XYZ – número tal, CEP tal, Bahia – Brasil.” O nome Tamar foi criado para caber nessa targeta. Estávamos numa mesa, discutindo: “Tira isso, tira isso, tira isso, tira isso, pronto.” Aí ficou, surgiu o nome Tamar. Tanto é que nas primeiras logomarcas está escrito “Projeto Tartaruga Marinha”. Isso foi em 84. IDENTIFICAÇÃO DAS TARTURUGAS Essas placas são importantes porque cada tartaruga fica com um número, como se fosse a carteira de identidade. Então, a gente marca a tartaruga e a maioria das que a gente encontra fomos nós mesmos que marcamos, no mesmo lugar. Como elas são fiéis, dois, três anos depois, ou 15 dias depois, ela está na praia, desovando no mesmo lugar. “Ah, é a tartaruga número x.” Eventualmente, elas migram: duas ou três foram para a África, outras três foram para o Caribe. São notícias que nós recebemos. Duas ou três foram para os Estados Unidos, algumas várias saem de um Estado e vão para o outro. Agora nós conseguimos uma coisa mais sofisticada que é a marcação genética. Aí você não marca o indivíduo, você marca uma população. A gente identificou o fenótipo das tartarugas que nascem na Praia do Forte, no Nordeste brasileiro e no Espírito Santo também e identificou esse mesmo fenótipo nas tartarugas que morrem na pesca, em Santa Catarina. E aí a gente viu que é a mesma população, não precisou dessa identificação, porque elas têm um gene que só existe nesses lugares. Então, a gente descobriu por isso. PATROCÍNIO PETROBRAS É o seguinte, como eu disse, nós já tínhamos o hábito de tirar fotografias, filmar, então isso sempre nos ajudou, porque tinha que mostrar para as pessoas o que a gente estava fazendo. Eu falo que: “O que os olhos não vêem, o coração não sente.” Em 82, quando a gente se implantou nessas praias, nós recebemos três carros do Ibama: um para o Espírito Santo, um para Sergipe e um para Bahia. Só que, no nosso orçamento, não estava previsto gasolina. Quando a gente fez o cálculo para botar três jipes trabalhando na praia, com o orçamento que nós tínhamos: “Pô, a gente vai ter que despedir todos os pescadores.” E também o dinheiro para contratar pescadores não é o mesmo dinheiro para a gasolina, tem outra burocracia aí, porque não podia, mas não tinha fundo para fazer isso. Aí a gente lembrou da Petrobras. Catú, Cláudio Savaget eu preparamos uma apresentação com slides, um trechinho de filme. Acho que o Cláudio, nessa época, estava começando a trabalhar no Globo Repórter e conseguimos uma apresentação na Petrobras, lá no Edifício Sede mesmo, que é igualzinho até hoje. Me lembro da gente subindo naqueles elevadores moderníssimos, era bem novinho, aqueles aço-inox, tudo cintilante. E a gente vindo lá daqueles interiores, né? Aí, fui muito bem recebido, fizemos a nossa apresentação para um grupo de cinco ou seis pessoas e pedimos combustível para os carros. Era o nosso pedido, uns dois mil litros, três mil litros, 10 mil litros de combustível. E aí eles nos passaram para um setor e, um mês depois, ganhamos o combustível. Foi o departamento do meio-ambiente, na época. Eles repassaram um pedido para as distribuidoras e aí nós recebíamos o combustível, gasolina e álcool. No ano seguinte, em 84, eles disseram: “Olha, não vai dar para fazer isso. Ao invés de dar combustível, nós vamos dar dinheiro.” Então, nós tivemos que fazer um contrato formal. Tivemos que procurar uma fundação para receber esse dinheiro, porque o Ibama não podia receber. Aí a Fundação Brasileira para Conservação da Natureza recebeu esse dinheiro. É uma fundação do Almirante Ibsen, aqui do Rio de Janeiro chamada Fundação Brasileira de Conservação da Natureza, com sede em Botafogo, que já tinha uns 10 anos, sei lá. Acho que foi a primeira fundação brasileira de conservação da natureza. A Petrobras fez um contrato com ela para repassar um dinheirinho e aí já dava para contratar mais meia dúzia de pescadores, botar os mil litros de gasolina que nós precisávamos. FUNDAÇÃO PRÓ-TAMAR Cinco, seis anos depois, nós fizemos nossa própria fundação. E a Petrobras passou a fazer o contrato com a Fundação Pró-Tamar, desde 1988. Uma coisa muito importante, que ainda não tinha dito, foi que nós, numa determinada época, reparamos que a burocracia imposta pelo Governo inviabilizaria qualquer projeto de conservação da natureza. Qualquer projeto não, mas o nosso jeito de fazer a proteção da natureza. Nós podíamos contratar as pessoas apenas por três meses, mais do que três não, era aquele mundo de burocracia. A gente se utilizava de fundação de terceiros, Fundação Garcia D’Ávila, Fundação Brasileira para Conservação da Natureza, CP Mar, lá do Espírito Santo, e percebemos que nós tínhamos condições de fazer uma fundação. Aí fizemos a Fundação Pró-Tamar e o projeto decolou, porque os recursos começaram a fluir através da Fundação, nós começamos a contratar as pessoas pela Fundação e começamos a abrir confecções, artesanatos, já tínhamos nota fiscal, fomos isentos do ICMS pelos governos estaduais e aí foi uma bola de neve. PROJETO TAMA

R - ESTRUTURA O Projeto Tamar é um projeto criado e coordenado pelo Ibama, co-administrado pela Fundação Pró-Tamar e tem como patrocinador oficial a Petrobras. O orçamento do Projeto Tamar está apoiado num tripé, formado pelo patrocínio da Petrobras, pelo dinheiro do Ibama e pela produção e venda dos produtos Tamar, que gera mais de 1/3 do dinheiro e é a parte que mais gera emprego também. PROJETO TAMA

R - CENTRO DE VISITANTES Não é só na parte de proteção à tartaruga que a gente consegue colocar essas mil e tantas pessoas, a maioria delas trabalha nos Centros de Visitantes, vendendo serviços e cuidando da manutenção do Centro. As tartarugas continuam sendo usadas por essas populações, a diferença é que o uso agora é não-letal, ou seja, a gente conseguiu fazer com que as pessoas desenvolvam iniciativas e métodos de viver das tartarugas sem precisar matá-las. Então, no Centro de Visitantes, tem toda uma rotina: tem uma turma só para limpar as tartarugas, porque as tartarugas nos tanques precisam ser limpas diariamente. Uma pessoa consegue limpar duas tartarugas por dia, a gente tem 100 tartarugas, então são 10 trabalhando nisso. Outras dão comida, outras varrem o espaço que elas ficam. Então, o que mudou é isso, a tartaruga deixou de ser um produto de consumo morta e passou a ser uma fonte de riqueza e emprego viva. APOIO ÀS COMUNIDADES LOCAIS E também nós conseguimos dar apoio às creches, às escolas locais. Esse apoio foi importante porque essas crianças já estão crescendo com outro tipo de educação e outra linguagem. Hoje, os adolescentes, pós-adolescentes, jovens, essa geração toda já nasceu onde a tartaruga não é comida, onde a tartaruga é um chaveiro, é uma camiseta, é a marca do restaurante, e eles são guias para mostrar a tartaruga. PRAIA DO FORTE A realidade atual é completamente diferente. Na época, na Praia do Forte, não tinha estrada, não tinha nenhum turismo, nem nada. Como aquele componente que eu falei, de agregar o pescador para trabalhar na proteção da tartaruga, foi o que formou o projeto Tamar, existe um outro componente que é o lado Eco-Turístico, que é uma fonte de renda e fonte de educação muito importante. A gente percebeu que os ninhos das tartarugas atraíam as pessoas de uma maneira fantástica, porque ver as tartarugas nascendo e indo para o mar deixava as pessoas sensibilizadas e fãs do projeto. Um aquariozinho que a gente montou sem querer, de 500 litros, com 10 tartaruguinhas dentro, causava frisson. Então, a gente disse: “Por que a gente não se organiza e não faz uma coisa, um Centro de Visitantes, como já existia? Agora a gente cria aqui, em vez de ser um aquário, bota dois tanques, com uma sombrinha, para o pessoal ver?” LOJAS DO TAMAR Mais um passo desse é que nós tínhamos camisetas com tartarugas, mas nunca vendíamos porque não achávamos que era o nosso métier, né? As pessoas estavam sempre querendo comprar, mas a gente achava que não era legal vender camiseta – não sei por que a gente achava essa besteira. Às vezes, no final do ano, sobra um dinheiro, entre aspas, porque falta o ano inteiro e aí vem no último dia do ano. Num final de ano, tinha esse dinheiro sobrando e a gente não sabia o que fazer. Então, fizemos uma licitação e mandamos fazer camisetas. Aí a gente resolveu: “Pô, estamos precisando de gasolina, precisamos de dinheiro, vamos vender essas camisetas que sobraram.” Botamos as camisetas para vender e, em uma semana, triplicamos o orçamento do projeto. “Bom, então vamos fazer.” Aí começamos a fazer oficialmente, encomendamos camisetas para vender, montamos uma lojinha. Hoje são 20 lojas montadas, vendemos itens e mais itens e mais itens. PROJETO TAMA

R - EXPANSÃO A loja e o Centro de Visitantes agregaram valor ao projeto. São fatores importantíssimos porque são capazes de gerar emprego, gerar recursos para nós, e são também o lugar onde as pessoas conhecem o Projeto. Mais uma vez: o que os olhos não vêem, o coração não sente. Como nós protegemos tartarugas em praias distantes e desertas, à noite, ninguém sabe direito o que é o Projeto Tamar. Então, no Centro de Visitantes você se sente tendo contato com a conservação e a pesquisa da natureza. Hoje já são, mais ou menos, 1300 pessoas trabalhando pela costa, de Santa Catarina ao Ceará. São 22 bases, em nove Estados. PRODUÇÃO CIENTÍFICA – PARCERIA COM O CENPES Eu estou sempre dizendo que tem mais um agregado ao Projeto Tamar, existe também um outro lado. Para você fazer a conservação da natureza bem feita, você tem que seguir caminhos cientificamente aprovados, ou seja, você não pode remover os ninhos, você não pode trocar a tartaruga de praia. Isso tudo são recomendações científicas. E o Projeto Tamar sempre se preocupou muito, desde o seu início, em obedecer às normas internacionais de conservação das tartarugas marinhas. Nunca tentamos repovoar Fernando de Noronha com tartarugas de Atol das Rocas ou o Espírito Santo com as tartarugas de Trindade. Então, nós demos muita importância para a pesquisa científica e os trabalhos cientificamente corretos. Acontece que a produção de papers, de trabalhos científicos, é muito trabalhosa e a própria pessoa que trabalha na praia tem que abandonar esse local para ficar num escritório, num laboratório, fabricando o paper dele, o trabalho científico. Apesar de termos publicado centenas de trabalhos, ainda tem outras centenas para publicar e organizar. Então, recentemente, fizemos um contrato com o Cenpes, que é o Centro de Pesquisas da Petrobras, para organizar isso. Um dos itens do contrato é organizar e ampliar a nossa produção científica, ou seja, a gente vai tirar essa produção científica de dentro dos computadores do Tamar e divulgar para a comunidade científica. Temos, então, uma equipe de pesquisa que está lá, diariamente, coletando dados. Mas não basta coletar, tem que interpretar e publicar. E isso passa por um crivo científico. Tem que ir para várias revistas científicas. O próprio Cenpes também tem uma revista científica boa, em que, eventualmente, serão publicados alguns trabalhos. O mundo da conservação da natureza marinha tem outras revistas indicadas e nós estamos atrás delas, nos Estados Unidos, no Canadá. TARTARUGAS VIA SATÉLITE E tem outros trabalhos também, que estamos desenvolvendo junto com o Cenpes. Estamos ampliando o nosso nível de monitoramento das tartarugas, com aplicação de satélites. Estamos instalando 60 satélites em 60 tartarugas diferentes, em vários Estados do Brasil. Nós vamos conseguir fazer um mapa de deslocamento de tartaruga, como eu acho que quase nenhum país do mundo fez. Estamos botando rastreadores de satélite, tipo GPS, nos cascos nas primeiras 12 tartarugas. É bem mais que um chip, ele se comunica com satélite. O satélite diz onde a tartaruga está todo dia e a gente acompanha a migração. A gente já fez isso com umas cinco ou seis tartarugas. Os Estados Unidos faz com cinco, seis também, mas esse ano vamos “botar para quebrar”, vamos fazer com umas 60. O Cenpes também está precisando saber onde as baleias e as tartarugas ficam no Brasil. Se elas ficam perto das plataformas de petróleo, se ficam perto das áreas de exploração, se vão para outros países, se ficam perto da praia, nós não sabemos. Querem saber, por exemplo, quando vão fazer uma exploração de sísmica, para detectar óleo no subsolo, se essa exploração espanta, mata ou muda o comportamento desses animais. Nós estamos subsidiando esse trabalho e, então, é bom para a Petrobras e é bom para a gente, porque o Projeto Tamar e a comunidade científica vão, finalmente, saber onde é que as tartarugas ficam. Isso foi feito nos Estados Unidos, mas o exemplo não serve para o Brasil, pois cada população se comporta de uma maneira e cada lugar tem uma maneira de comportamento de migração. Boa parte dos funcionários do Tamar vem da faculdade de oceanografia. Nós temos um convênio de cooperação com o laboratório de bio-acústica, estamos trabalhando juntos num projeto de mapeamento do fundo oceânico. Também temos um convênio com o Museu Oceanográfico de Rio Grande, onde nós trocamos informações. A Universidade tem um núcleo de proteção e pesquisa das tartarugas e animais pulmonados, no Sul, que nós também fazemos parte. HISTÓRIAS / CAUSOS / LEMBRANÇAS Uma história que marcou, que já contei, foi o dia que a gente acordou e os pescadores estavam matando as tartarugas, nós quase brigamos com eles, ainda bem que não. Não é uma história triste, eu não acho triste, é reveladora. A gente ganhou, porque os pescadores devolveram as tartarugas, eles acabaram matando três ou quatro e devolveram as outras ao mar. Deixa eu ver se tem outra história. O CASO DO PEIXE-BOI É uma história que não se passa com a tartaruga, mas se passa com o peixe-boi e é mais gozada. Nós chegamos na Universidade de Sergipe e perguntamos se lá tinha desova de tartaruga ou ocorrência de peixe-boi. Desova de tartaruga todo mundo disse: “Tem, acontece na praia X, em tal época.” Quando a gente perguntou sobre o peixe-boi, as pessoas começaram a se entreolhar, pensando: “Esses caras estão malucos, perguntando por peixe-boi aqui” Mas isso a gente já estava acostumado. Tinha um professor da faculdade cujo apelido era peixe-boi, porque jurava que tinha peixe-boi na fazenda dele, quando ele era criança, e era motivo de piada na faculdade. Era o professor Clóvis e a gente foi entrevistá-lo. Chegamos lá e ele disse: “O meu sítio é lá em tal lugar. Eu vi, o meu avô matou peixe-boi, o pescador não sei o que lá. Até 15 anos atrás apareceu um peixe-boi, mataram um peixe-boi e ninguém acredita em mim.” Aí nós pegamos o carro e no dia seguinte fomos para lá. Não só existia peixe-boi na região, como também existia arpão de matar peixe-boi, costela de peixe-boi. O lugar, chamado Sítio Loureiro da Praia, era conhecido como “Peixe-boi” na região, em Sergipe. E ali perto, próximo à cidade de Estância, existia uma indústria de couro de peixe-boi, que exportava couro de peixe-boi para a Europa. O couro do peixe-boi é muito grosso e servia de correia para roldanas industriais – esse é um dos motivos de eles serem extintos. Era o melhor couro que existia, era o couro mais grosso, então você botava um couro de peixe-boi, transferia a força de um motor para uma roldana e durava mais que borracha, mais do que tudo. Então, eles eram explorados para isso. AS TARTARUGAS DE COMBOIOS Tem outro fato que aconteceu, com tartaruga. No Espírito Santo, havia uma briga danada porque tinha uma área em que uma turma dizia que não tinha desova de tartaruga, que o maluco do Ruschi inventava essa história e que ele era pirado, que não existia isso. Porque era no Sudeste e tinha essa cultura dos caras da cidade: “Pô, não tem nenhum paper. Mas tem o maluco do Ruschi – o famoso Augusto Ruschi –, que fala que tem desova de tartaruga na praia. Ele quer criar uma reserva no lugar e inventou que tem tartaruga nessa área.” E eu fui lá uma, duas vezes, no início do levantamento, e falava com o prefeito: “O que ele te disse? Vocês já foram lá ver se tem ou não tem desova?” “Não, nunca ninguém foi.” Ficavam só brigando no gabinete. Aí a gente foi lá em Comboios, em novembro. Quando o carro andou os dois primeiros quilômetros de praia, encontramos uma desova, mais dois quilômetros e outra, mais outra, mais outra, aí, pronto, acabou aquela piada. PROJETO TAMA

R - AVALIAÇÃO O Projeto deu certo porque saímos de dentro dos gabinetes também, com certeza. E eu acho que mais uma coisa que também fez o projeto dar certo – ainda falta muita coisa para ver, mas algumas já foram feitas – é que toda liderança do projeto se desvinculou das cidades e dos escritórios centrais, onde se briga muito e a disputa por uma cadeira é muito grande. Então, as pessoas morando em Comboios, Praia do Forte, Pirambu, nessas cidadezinhas, não tinham esse problema de disputa de espaço. Tinha só o choque cultural. Em segundo lugar, a liderança morava do lado do fenômeno a ser protegido. Então, à noite, do lado da sua casa, a tartaruga está sendo morta, os ovos estão sendo colhidos, então você se atenta muito mais para isso do que se você estivesse lá em Brasília, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, tentando salvar a Mata Atlântica, a tartaruga, a baleia. Não é que esse serviço não seja válido, ao contrário, esses serviços, essas iniciativas na cidade são fundamentais. Mas, o lado de trabalho de campo é diferente. Geralmente, quem mora no campo protegendo o bicho frente-a-frente é o mateiro, é o “seu Chico”, que não tem nem o primário, é o filho do “seu Severino”, né? Então, não tem gente de faculdade lá. Mas as coisas vão melhorando, agora tem mais gente com nível universitário e, culturalmente, mais preparada para mudar uma tendência na região. DESAFIOS FUTUROS Existe esse novo desafio, com o aumento da indústria de pesca. Algumas tartarugas que morriam – não era um número significativo – no Sul do Brasil deixaram de ser algumas poucas centenas para ser alguns milhares. Nós precisamos mudar o rumo da pesca industrial no Brasil, para fazer com que as tartarugas que nasçam no Nordeste e Sudeste brasileiro não venham a morrer no Sul. Isso é o novo desafio dessa próxima década. E existe um fato novo: o Projeto Tamar cresceu muito, tem muita gente trabalhando em muitos lugares e, apesar de ser tudo descentralizado – não existem mil pessoas num prédio só, o que seria inviável, são 1300 pessoas distribuídas –, já existem problemas de relacionamento, disputas de cargos e serviços mal feitos, porque nem todo mundo é abnegado e tão dedicado como era a primeira geração. Antigamente você ia trabalhar no Tamar para salvar as tartarugas-marinhas e ajudar por um idealismo. E hoje isso é uma das fontes de trabalho. Então, as pessoas estão interessadas em benefícios trabalhistas, essas coisas normais. Isso é um lado que a gente está aprendendo a conviver, nesses últimos seis anos. Está começando a dar problema de empresas grandes, né? CONSERVAÇÃO E AÇÃO SOCIAL Muitos consultores de outros projetos vêm conversar conosco, para aprender como é que a gente faz. Geralmente, são duas turmas diferentes. Uns trabalham com ação social e inclusão social e outros trabalham com conservação. Conservação se confunde com pesquisa em vários países. Então, muitos países que acham que estão fazendo conservação, na verdade, estão fazendo pesquisa. O cara está vendo quantas tartarugas tem, como é que matam, de que tamanho elas ficam, o que elas comem, mas não interferem no fator humano para impedir. Eles registram se está em decadência, se está com problema disso, problema daquilo, mas não interferem no lado humano, na conservação. A conservação não mexe com a tartaruga, quem mexe com a tartaruga é a natureza, ela está pronta, ela tem a receita dela, não tem o que fazer. São as pessoas que interferem nas tartarugas. Então, você tem que interferir nas pessoas, para as pessoas não interferirem negativamente nas tartarugas, esse é o trabalho de conservação. Então, sem a ação social, sem interferência social, o trabalho de conservação não pode dar certo. PATROCÍNIO PETROBRAS O patrocínio da Petrobras acompanha o crescimento do Projeto. Isso é uma coisa positiva, a cada ano, a Petrobras compreende que nós estamos fazendo mais e mais coisas e, então, ela participa com um pouquinho mais. E o contrato de cooperação com o Cenpes também fez uma elevação, um upgrade muito grande na área de pesquisa. Esse contrato é novo, foi feito em meados do ano passado, com vigência de dois anos, renovável. Porque sempre ficou na parte de comunicação, mas agora passou para a parte de pesquisa. FILHA Acho que a Nina foi a primeira forasteira nascida na Praia do Forte, o primeiro registro com nome diferente dos nomes das pessoas de lá. Na verdade, ela nasceu num hospital em Salvador, mas quando a gente chegou em Praia do Forte ela era completamente diferente. A Neca é bem loira e eu sou moreno de sol, porque quando eu morava no Sul era bem branquinho também. E a Nina é bem loirinha, de olho azul. As pessoas que não estavam acostumadas com os turistas, ainda, achavam que ela não enxergava porque tinha olho azul. Então, diziam: “Ah, ela é tão bonita, pena que ela é cega, ela tem olhinho de boneca, não deve enxergar. Se não é cega, não deve enxergar bem.” Ela foi a primeira registrada no cartório da Praia do Forte. Ela se chama Nina Guany Day Marcovaldi, tem 19 anos, faz jornalismo. PROJETO MEMÓRIA É legal conversar assim, né? Imagina, contei tantos anos de história... Foi bem agradável e eu acho que a iniciativa é super legal, porque é difícil, o tempo vai passando, a gente vai fazendo as coisas e não tem ninguém para registrar. Então, isso é uma iniciativa super importante. A gente teve o prazer de fazer o livro “Como Nasceu o Projeto Tamar”, em que a gente abordou isso. É super legal conseguir pegar um passado e mostrar para as pessoas.

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