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História

Guiomar abraça o mundo

História de: Guiomar dos Santos Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Ramos - RJ. História dos pais. Infância. Duque de Caxias. Missionária. Teologia. Pedagogia. Preocupação ambiental. Desnutrição infantil. Projetos educacionais. Projeto infantil. Projeto ambiental. Projeto de capacitação profissional para mulheres. Criação de novas perspectivas. 

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História completa

P/1 – Guiomar, você pode falar seu nome completo, o local e a data do seu nascimento?

R – Meu nome é Guiomar dos Santos Souza. Nasci no Rio de Janeiro. No dia 20 de dezembro de 1965.

P/1 – Seus pais são do Rio de Janeiro?

R – Não. Meus pais são baianos.

P/1 – Pai e mãe? 

R – Pai e mãe

P/1 - Que lugar da Bahia? 

R – Meu pai é de Jequié e minha Vitória da Conquista.

P/1 – Qual que é a atividade? O que seu pai fazia lá em Jequié?

R – Meu pai lá era agricultor e veio pro Rio e passou a ser comerciante.

P/1 – E como é que ele conheceu sua mãe. Ele a conheceu lá ou aqui?

R – Conheceu lá, os dois lá. Meu pai foi a uma festa em Vitória da Conquista. Meu pai era viúvo. Meu pai é viúvo da primeira esposa dele. Foi pra Bahia visitar, ele já morava no Rio, voltou pra visitar e numa festa conheceu a minha mãe. Eles casaram em seis meses.

P/1 – É mesmo? Foi paixão?

R – É. A história deles é interessante porque, assim, minha mãe era noiva, tinha um noivado longo, de longas datas e aí conheceu o meu pai numa festa de noivado e foi casar com meu pai, apesar do meu pai já ter cinco filhos.

P/1 – Ah, ele já tinha cinco filhos?

R – Já tinha cinco filhos do primeiro casamento.

P/1 – E aí eles casaram lá?

R – Casaram lá. Minha mãe casou na igreja. Uma tradição de família. Casou na igreja pra poder vir pro Rio com ele. E veio pro Rio com ele e aqui casou no civil.

P/1 – E porque que ele decidiu vir pro Rio? Eles decidiram vir pra cá?

R – Ele já morava aqui no Rio. Ele nasceu lá, mas já morava aqui com a primeira esposa dele.

P/1 – Ele foi lá só pra passear?

R – Só passear.

P/1 – Foi passear e caiu justo na mesmo festa que a sua mãe?

R – Na mesma festa que minha mãe. E acabou casando.

P/1 – Aí ele separou da mulher?

R – Não. Ele é viúvo. A esposa dele tinha falecido.

P/1 – E ele morava aqui no Rio com os filhos?

R – Morava com os filhos.

P/1 – Aí trouxe a sua mãe pra cá?

R – Trouxe a minha mãe pra cá.

P/1 – Aí a sua mãe ficou tomando conta dos cinco?

R – Não dos cinco porque alguns moravam com a avó. Minha mãe ficou só com três filhos dele. Dois moravam com a avó. Três ficaram com a minha mãe.

P/1 – E aí vocês nasceram quando? Logo depois?

R – A minha irmã nasceu, é, logo depois. Minha mãe engravidou logo. Não foi muito tempo, não.

P/1 – Em que lugar você nasceu aqui do Rio? Onde você morava?

R – Eu morava em Ramos.

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

R – Em Ramos? Ah, eu fiquei até 1975.

P/1 – Dez anos?

R – Dez anos.

P/1 – E você lembra como era a sua casa lá?

R – Lembro.

P/1 –E como é que era?

R – Era uma casa normal, assim, uma casa assim tipo numa vila que a gente morava ali em Ramos do lado da linha. Que era assim... Era bem dividido Ramos. Tinha... Aí como é que era aquilo? Avenida principal de Ramos e do outro lado é a favela de Ramos. Chamado Quadrado de Ramos. Nós morávamos do lado de cá. Era uma casa de vila normal, dois quartos, sala, cozinha, banheiro. Casa normal mesmo em uma vila de casas.

P/1 – E como é que era a convivência na sua casa? Quem que exercia autoridade? Seu pai ou sua mãe?

R – Minha mãe. Minha mãe é mais forte. Tem um gênio assim mais decidido. O meu pai é uma pessoa mais calma, lenta, assim, não é de falar muito. A minha mãe é mais autoritária, sempre foi. A última palavra sempre foi da minha mãe. Tipo assim: “Você que ir a uma festa? Pede pra sua mãe. Se a sua mãe disser, beleza”. Agora se meu pai autorizasse e ela não, não tem nem conversa.

P/1 – E como é que eram suas brincadeiras de infância?

R – Eu brinquei muito de boneca. Adorava boneca. Nós somos... Do meu irmão... Do primeiro casamento eram duas meninas e um menino, e nós somos três meninas. Temos dois meninos, mas vieram depois. Minha mãe teve cinco filhos. E aí a gente brincava muito de boneca, adorava brincar de casinha. Então a gente sempre foi muito de brincar de boneca, tanto é que eu ganho boneca até hoje. Tenho coleção de bonecas, pra mim, é o meu caso. Eu brinquei muito. E meu irmão sempre foi o motorista, entregava o gás, o comerciante que vendia. Então a gente brincou muito de boneca, as meninas brincavam muito de boneca.

P/1 – E com quantos anos você entrou na escola?

R – Com sete.

P/1 – Você ia a pé? Você ia como pra escola?

R – Não. Nós íamos a pé. A escola era próxima da casa. Morava longe, não.

P/1 – Que lembrança você tem dessa época? Alguma professora? Você gostava de ir pra escola?

R – Gostava. Gostava muito. Eu sempre fui muito... A gente sempre foi muito de escola, todas as três. Minha mãe sempre fez questão disso, não é? Eu era um pouco mais agitada do que as outras irmãs, mais levada mais agitada, mais levada. Eu, assim, sempre gostei muito de estudar e sempre tive muito apego com os professores. Então sempre fui aquela menininha comportada, menininha de cabelo grandão, de cabelo comprido que põe a roupinha, bonitinha, a mãe faz a maria-chiquinha bonitinha e manda pra escola. Tenho muito essa imagem da gente. Minha mãe vestia as três muito iguais. Então nós éramos as três irmãs. Aí ela penteava os cabelos, fazia aquelas tranças, os cabelos eram muito grandes, ela não deixava cortar. Tanto é que com quinze anos eu me rebelei. Cortei o cabelo “aqui”. Tanto que eu tive que criar o cabelo grandão, manter o cabelo grandão a vida inteira. Até eu poder fazer isso, cortar. E aí era assim, penteava as três iguais, arrumava as três iguaizinhas e as três iam pra escola. Então era muito engraçado. Eu, assim, era muito mais agitada, então se alguém mexesse com as minhas irmãs eu sempre estava lá pra defender. Então eu que arrumava as confusões, as brigas, separava as confusões. Eu sempre fui muito assim. Mas foi muito tranquila, assim, tive uma infância tranquila.

P/1 – E a adolescência?

R – Minha adolescência muito calma, porque aí eu também fui sempre de igreja.

P/1 – Aí você mudou já de Ramos. Você mudou de lá com dez anos?

R- Mudei de Ramos. Vim pra cá, vim direto pra cá.

P/1 – Aí vocês vieram pra Duque de Caxias.

R – Viemos pra Caxias. Meu pai...

P/1 – Por que vocês vieram pra cá?

R – Bem. Meu pai sempre teve comércio. Aí ele veio visitar aqui, achou aqui um lugar muito calmo. Assim, tanto é que a rua onde a gente mora é realmente muito calma. Então um lugar calmo, tranquilo, ele achou aqui o lugar ideal pra criar as filhas dele. Aí mudamos pra cá. Viemos pra cá e aí a minha adolescência e juventude toda já foi aqui, já morando aqui.

P/1 – Como é que foi a adolescência?

R – A minha adolescência foi muito tranquila, eu sempre fui muito de igreja. Daí eu me meti num grupo missionário, eu fui missionária. E aí eu viajava muito. Viajava muito pra levar a palavra. Então eu fui missionária, me meti num grupo missionário muito cedo e fazia muitas missões. Aí saía assim, nas minhas férias, essas coisas, fazia muitas missões, daí ia pro Sul, Bahia, Norte. Onde o grupo missionário fosse eu ia atrás. Então minha adolescência não foi assim muito de baile, assim não foi muito, não. Foi muito mais de movimento. Aí logo em seguida, com 17, 18 anos me meti em partido político...

P/1 – É? Que partido?

R – PT.

P/1 – Mas se discutia política na sua casa antes?

R – Discutia. E eu era terrível. Porque eu queria convencer todo mundo que o PT era o melhor. Aí meu pai do PMDB. Sempre foi governo. E eu, assim, da oposição. E ele não gostava. Aí eram os conflitos de... Mas era muito legal que a gente tentava convencer...

P/1 – Mas ele falava de política?

R – Falava. Falava. E aí, assim, participei muito do movimento político. Então naquela época era a política. Sempre teve isso. Aí quando eu fiquei mais na juventude fui trabalhar nos morros. Fui trabalhar... Gostava dos morros. Fui trabalhar lá com as crianças. Sempre estive envolvida com o social, sempre. Desde que eu me entendo por gente eu sempre estive envolvida com o social. Nunca foi diferente. Aí...

P/1 – Quando chegou a época da faculdade, tinha alguma expectativa pra você seguir alguma carreira, dos seus pais...?

R – Então. Aí foi assim... Meu pai? Meu pai tinha. Qualquer coisa que me afastasse desse movimento em que eu vivia. Primeiro. O maior medo dele era que eu entrava na favela. Então era assim: “Entrava na favela, ó!”. Então era a pior coisa pra ele. Mas aí eu fui fazer Teologia, aí fiz faculdade de Teologia porque gostava era meu campo de missão. A primeira faculdade que eu fiz foi Teologia. Aí quando eu fiz Teologia eu fiquei assim... Teologia precisava de algumas dinâmicas pra trabalhar. Aí o que é que eu fui fazer? Fazer Pedagogia. Mas o sonho do meu pai era o quê? Que eu fizesse Pedagogia e fosse pra uma escola trabalhar numa escola bonitinho, como todo mundo faz. E aí eu fiz Pedagogia porque eu queria estar no movimento social e ajudar melhor. Aí por um tempo até fiquei em escola. Dirigi escola. Coordenei escola. Tentei fazer tudo isso. Mas as escolas em que eu trabalhava eram escolas de elite, assim, escolas que atendiam só os filhos das pessoas que tinham condições de pagar. Escolas de freira então eram aquelas escolas mais tradicionais. E aí não era a minha. Eu sempre ia à escola e fazia coisas ao contrário. Tipo assim: tinha alguma data comemorativa. O quê que eu fazia? As crianças de lá não precisavam de nada. Daí eu fazia com que as crianças dessem presente para outra criança que precisava. Pra ajudar a creche. Pra fazer um monte de coisas nesse sentido. Aí a freira me falou: “Bem, você não tem como ficar nesse ramo que você está, do jeito que você está”. E aí elas tinham uma creche no Morro do Vidigal. Elas trabalhavam lá no Morro do Vidigal. No Morro do Vidigal, no Borel. Aí o que ela me propôs: “Já que você gosta tanto disso”. Aí ela me transferiu. Aí eu fui morar com as freiras lá no Vidigal. Aí foi que eu ingressei nessa coisa dos morros. Aí fui coordenar creche lá no Vidigal e no Borel. Aí...

P/1 – Você foi morar com elas?

R – Fui morar com elas. Porque não tinha como voltar pra cá. Porque era lá no Leblon, muito longe. Então não tinha como eu ir e voltar todos os dias. Aí a proposta delas era que eu morasse e fizesse um trabalho social.

P/1 – Que lugar que era?

R – No Vidigal. Lá no Morro do Vidigal.

P/1 – Mas aí você ficou morando no Vidigal?

R – Fiquei morando no Vidigal.

P/1 – Como é que foi morar lá?

R – Aí morava de segunda a sexta lá no Vidigal, no sábado eu vinha pra casa, quando não tinha nenhum evento eu vinha pra casa no sábado.

P/1 – Como é que foi morar lá no Vidigal?

R – Olha, pra mim, foi a melhor experiência que eu tive. Assim, as mulheres de lá... Você vê, trabalhava com mulheres, crianças... Então a gente fez muito trabalho social lá. E assim, as pessoas são muito envolvidas e querem muito fazer alguma coisa. Não são pessoas paradas, não são acomodadas. As mulheres trabalham muito. Então lá, a creche, a gente atendia 120 crianças, mas as mães tinham que estar trabalhando, a gente não atendia filho de ninguém que a mãe não trabalhasse. Então as mães tinham que estar no trabalho, fazendo qualquer coisa pra criança ficar lá na creche. Elas não pagavam porque a própria instituição a que as crianças pertenciam pagava essa creche pra elas, davam toda a condição para eles terem os filhos lá. A única condição delas era ter carteira assinada e trabalhar fora. Tinha que estar trabalhando. Então, assim, a experiência do morro, pra mim, foi uma grande experiência. Eu só saí das creches porque eu tive um acidente de carro e aí fiquei com um problema na coluna, e aí não podia mais subir o morro, descer o morro, fazer tudo o que eu fazia. Aí eu tive que segurar minha onda e voltar pra cá.

P/1 – Aí voltou pra casa dos seus pais?

R – Aí voltei. E aí quando eu voltei pra cá surgiu um trabalho com uma ONG. Aí voltei pra escola, porque a escolinha era mais calminha, eu ia ficar quietinha, mas aí também não me adaptava muito com a questão de escola. Aí vim... Aceitei um convite de um amigo meu pra trabalhar numa ONG aqui mesmo em Primavera, em um projeto de crianças, pra ser a pedagoga do projeto. Aí eu fui ser a pedagoga do projeto.

P/1 – Que projeto que era?

R – Era um projeto com a C&A, na época, chamava-se Recriarte, era ler e criar com arte, o nome do projeto. Então a gente trabalhava a palavra em todas as suas dimensões e a arte de brincar com as palavras. Tinha teatro, música para crianças, era muito interessante o projeto. Aqui mesmo no Jardim Primavera. E aí depois, fiquei um tempo com ele até que fundou... Até que a gente juntou um grupo e a gente achou que estava na hora da gente mesmo formar a nossa própria ONG. Aí a gente fundou a Trama Ecológica e eu passei a trabalhar com a Trama Ecológica.

P/1 – Como é que vocês criaram o grupo?

R – Nós somos um grupo de igreja, veio desse grupo de igreja... E aí a gente... Todo mundo fazendo trabalho social. Só que a gente fazia em ONGs diferentes. E aí a gente juntou e falou: “Não, vamos trabalhar juntas, porque aí a gente faz do jeito que a gente quer.”. Porque se está na ONG de alguém você tem que fazer o que o outro quer, do jeito que ele quer. E aí ficam aqueles conflitos, muita coisa você não concorda. Aí eu falei: “Não, vamos fazer uma ONG em que a gente possa trabalhar a questão do meio ambiente também,que é muito séria, a gente precisa fazer alguma coisa”. É muito sério, não é? E na época aqui em Campos Elíseos... Ela até falou, eu achei engraçado ela falar assim: “As crianças têm uma cara bem saudável, né”. E a gente lembra que a gente começou justamente porque as crianças estavam desnutridas. E a igreja aqui fez um grande mutirão. Chamava O mutirão da alimentação. Aqui, 99% das crianças eram desnutridas, em Caxias.

P/1 – Era o quê?

R – Desnutridas. Aí, fundou-se a Pastoral da Criança. E aí a gente achou que a gente tinha que ter um trabalho voltado pra isso. Aí a gente começou esse trabalho fazendo isso. Voltado pras crianças desnutridas.

P/1 – Vocês atuavam... A sede era na igreja?

R – A sede é na igreja. E aí a gente trabalhava...

P/1 – Como é o nome da igreja?

R – Paróquia São Francisco de Assis, que é a Paróquia local aqui.

P/1 – Mas aí vocês criaram o Trama Ecológica?

R – Criamos o Trama Ecológica.

P/1 – E por que vocês decidiram por esse viés ecológico? Em que ano que foi isso?

R – 2007. Porque a gente, assim, aqui a gente precisava trabalhar a questão do meio ambiente. Porque não tem como.... Se você, a gente percebe que as crianças eram desnutridas... Aqui nós temos problema de desnutrição e doença de pele, respiratória, muito séria. Porque a gente está aqui perto da Petrobrás. Então por isso a gente achou que tinha que fazer um trabalho. Entrar num comitê, começar a fazer coisas que fizessem com que a Petrobrás e as empresas aqui pelo menos retribuíssem um pouco pra essa população o que eles fazem. E essa é nossa luta até hoje. Que eles possam pelo menos amenizar aquilo que é o impacto ambiental que eles fazem aqui em Campos Elíseos. E aí a gente começou a trabalhar a questão da desnutrição. Hoje, se você, a gente avalia... A gente não tem nem 80% de crianças desnutridas. A gente conseguiu um grande avanço. Tanto é que a gente não trabalha nem tanto mais com mistura, o leite forte. Nosso problema maior agora é fazer com que essas mulheres tenham renda pra não voltar o processo de desnutrição. Sabe? E a questão da higiene do ambiente onde elas moram... Então esse é o cuidado que a gente precisa. Porque a água aqui... Lá onde a gente estava, por exemplo, lá não tem água. Lá, o pessoal tem um cano da Petrobrás que eles furam, aí tem um poço, e toda a família vai buscar água desse poço. E quem quer fazer... Quem tem mais condições um pouquinho, puxa a água desse poço, furando o cano da Petrobrás, pra chegar até sua casa.

P/1 – Voltando um pouquinho a esse Trama Ecológica, daí a primeira coisa que vocês fizeram foi trabalhar com criança?

R – É. A gente sempre foi voltado pra criança e a geração de renda. Esse era o nosso foco principal. Trabalhar essa questão ambiental, o ambiente em que eles moram, onde eles estão localizados, como é que está... Porque, assim, trabalhar só a criança não dá. Porque eles ficam aqui comigo um tempo, mas eles têm que voltar pra uma casa.... E aí ele vai voltar pra essa casa e não tem nada nessa casa. Então não adianta eu falar que ele tem que tomar banho. Acordar de manhã e tomar um ‘banhozinho’, escovar os dentes. Não adianta eu fazer nada disso. Que o lixo tem que ser jogado, no lixo, no lugar certo. Se eu não der condições pra que ele perceba isso lá onde ele está. E aí a gente conseguiu assim, eles foram fazendo também com que os pais fossem mudando essas questões: “Tudo bem, eu não tenho água, mas eu vou buscar. Mas eu posso ferver essa água. Eu posso colocar um filtro de barro”. Não precisa ter grandes coisas, um filtro de barro está bom pra poder filtrar a água pra criança beber. Então a gente começou a trabalhar por esse viés, aí a gente viu que era por aí mesmo que a gente tinha que continuar. E como nessa época também...

P/1 – 2007?

R – 2007. Aqui já tinha o PDA. 

P/1 – Explica PDA?

R – Programa de Desenvolvimento de Área. A Visão Mundial já estava aqui. A Visão Mundial chegou aqui em 2004. A gente não era...

P/1 – A Visão Mundial é uma ONG o quê? Nacional? Internacional?

R – Internacional.

P/1 – É da Suécia, não?

R – Ela está em vários países. Mas aí a Natália até te explica melhor depois. Ela está localizada em vários países. Não só na Suécia, mas em vários países. Tá? Aqui no Brasil, também em vários estados. E aqui no Rio, estão no Rio mesmo, em Nova Iguaçu e Caxias. São os três lugares onde a Visão Mundial está aqui no Rio. No polo Sudeste. E aí a Visão Mundial já estava fazendo um trabalho com crianças. Foram essas outras ONGs aqui. Aí tinha essa ONG onde eu trabalhei. Tinha outras igrejas também. E a igreja onde a gente estava fazendo parte também era dessa ONG, era Visão Mundial.

P/1 – Mas vocês começaram a receber dinheiro da Visão Mundial? Eu não entendi.

R – Não. A Visão Mundial já estava aqui. Eu trabalhava na Visão Mundial por causa da igreja. A igreja estava dentro da Visão Mundial. Porque era igreja católica e mais uma ONG e mais uma igreja evangélica que faziam parte...

P/1 – Você estava na Visão Mundial e na Trama?

R – Não. Eu estava só na Visão Mundial. Nós estávamos fundando a Trama. Aí quando a Trama passa a existir aí é que ela entra na Visão Mundial... Porque a Visão Mundial precisava de mais uma instituição. Aí o que aconteceu? Trama entra pra Visão Mundial também..

P/1 – A Trama, mas a Visão... Continua sendo Trama?

R – Continua.

P/1 – Dentro da Visão Mundial?

R – Isso. Ela só é uma financiadora dos projetos da Trama, a Visão Mundial.

P/1 – Entendi.

R – Aí, eu não saí da Visão Mundial. Desde 2004 que eu estou na Visão Mundial. Estava por outra instituição.

P/1 – Desde 2004?

R – Desde 2004, por outra instituição.

P/1 – Então você estava primeiro na Visão Mundial, aí que vocês fundaram a Trama em 2007 e a Trama passou a fazer parte da Visão Mundial?

R – Isso, isso, isso. Aí em 2008 que a Trama entra na Visão Mundial. Nem em 2007, em 2008 que ela entra na Visão Mundial. Porque aí houve a saída de uma igreja. A igreja... Essa ONG saiu. Que eu trabalhei com ela um tempo... Saiu da Visão Mundial, saiu dessa parceria, e aí precisava de mais uma instituição. Aí foi nessa hora que a Trama entrou, a Trama Ecológica entrou na ONG.

P/1 – Isso tudo vocês continuavam atuando na igreja? Na Paróquia?

R – Continuava. É a gente não mudou nosso local de trabalho, não. Ficamos lá mesmo.

P/1 – E quais eram os projetos desenvolvidos nessa época?

R – Aí, a gente tinha um projeto, a gente coordenava um projeto de criança, que era um trabalho de leitura, o trabalho do monitoramento da pesagem das crianças, da questão da saúde da criança e a geração de renda. Nessa época a gente fazia curso de artesanato... Estava voltado mais para o artesanato. A gente achava que o artesanato era o grande do momento. Porque em alguns lugares ele dava certo, mas aqui em Caxias... Aí a gente fez assim, as mulheres vinham faziam pintura, faziam cordão tudo que pudesse em nível de artesanato a gente foi integrando com elas. Mas era assim, eu aprendia, ia pra minha casa e fazia sozinha. O tempo todo era assim. Então o grupo estava sempre renovando. O nosso sonho de ter uma cooperativa ia sempre diminuindo. Porque o artesanato não prendia elas. Porque aí começava muita encomenda, aí não vinha mais, porque tinha que fazer cordão pra feira, não sei o quê... Aí só se encontravam assim: “Ah, vai ter uma feira”. Aí chamavam todo mundo e todo mundo vinha. “Ah, vai ter isso”. Todo mundo vinha. Aí foi quando a gente descobriu... Uma senhora perguntou porque é que a gente não fazia sabão já que a gente trabalhava com a questão do meio ambiente... Aí começou essa questão do óleo. O que a gente vai fazer com o óleo. Aí a gente começou essa discussão, aí foi que surgiu a ideia do sabão. Era uma senhora que falou pra gente assim: “Vamos fazer sabão?”. A gente: “Fazer sabão?”, “É gente. Vamos fazer sabão”, “Mas com que estrutura?”, “Ah, não precisa de muita coisa, não. A gente compra uns baldes, umas pás”.

P/1 – Quem foi essa senhora?

R – Essa senhora foi a Solange. Hoje ela não está mais no projeto. Ela agora está trabalhando com comida. Ela abriu um self-service. Está trabalhando com comida agora. E aí ela sabia fazer sabão lá da terra dela, que a mãe dela fazia. E ela começou a ensinar a gente a fazer sabão. E assim a gente começou. E pra nossa surpresa o sabão encantou as mulheres. Elas compraram a ideia do sabão. Porque elas começaram a falar assim... A Isa deve ter até de falado... “Sabão é uma coisa que não sai de moda, sabão todo mundo precisa”. E aí comecei falar esse discurso com elas assim. E elas falaram: “Realmente, sabão todo mundo tem usar. Ninguém pode dizer que não vai usar sabão. Se a gente não vender, pelo menos a gente vai fazer uma economia porque a gente já não vai mais comprar o sabão, já é uma economia de qualquer maneira”. Então assim a gente começou. Aí começamos. A gente foi percebendo que o projeto era viável porque todo mundo estava coletando o óleo, não é? Então foi uma coisa assim, todo mundo começou a falar de óleo, óleo, óleo. E aí a gente participou de um primeiro concurso, foi com a Sadia. Foi nosso primeiro concurso. A Sadia abriu um projeto. E aí a gente inscreveu esse projeto lá, concorremos com esse projeto. “Vamos concorrer com o Reciclorium?”. Aí a gente formulou mesmo o projeto. Fizemos...

P/1 – Quem que inventou o nome Reciclorium?

R – Foram elas mesmas. Aí a gente falou com elas: “Vamos escrever um projeto”. Aí sorteamos entre elas o que podia ser. Elas escolheram o nome. Elas iam escolher esse nome de Reciclorium. Aí batizamos como Reciclorium e nos inscrevemos no projeto. E botamos um projeto mesmo: objetivo, missão... Fizemos o projeto e botamos pra concorrer. Falei: “Vamos ver, se a gente ganhar...”. Não era uma grande verba, mas já era uma grande ajuda. Eram 20 mil que a Sadia ia patrocinar. Então: “Beleza, vamos embora. Vai dar pra gente comprar um monte de coisas”. E aí a gente ganhou o projeto. Ganhamos o projeto e aí foi nossa primeira parceria, desse projeto Reciclorium, foi a Sadia. Aí ganhamos. Aí com o que a gente ganhou da Sadia aí a gente começou a comprar material, matéria prima. Aí conseguimos um químico. Né, que aí com a proximidade da Sadia foi abrindo outras portas. A gente fez parceria com uma universidade aqui em Duque de Caxias a Unigranrio, que é uma grande universidade de Caxias. E ele nos cedeu o seu químico e a gente começou a fazer todo um processo de melhorar a qualidade. O nosso medo era fazer um sabão também que prejudicasse porque a gente mexe com soda cáustica... Então a gente não tinha esse parâmetro. Como fazer com a dosagem: “Como é que vai ser isso?”. Então a gente começou a fazer vários testes junto com esse químico. Tirar o cheiro do óleo, como é que a gente ia fazer isso, sem que pegasse. Então esse químico trouxe tudo isso pra gente. Mas isso com a Sadia. Mas continuamos no manual. Que as máquinas... Fui pesquisar máquinas, só que as máquinas eram muito caras, a gente não ia conseguir comprar. Nem com a verba da Sadia não dava pra comprar as máquinas.Aí a gente pensou, foi onde descobrimos que a Austrália apoiava projetos de geração de renda. Aí fizemos um projeto e mandamos pra Austrália.

P/1 – Pra que lugar da Austrália?

R – Pra Embaixada. Mandamos pra Embaixada da Austrália e aí a gente: “Vamos esperar, vamos ver”. Aí eles não dão verba em dinheiro, mas falaram que comprariam as máquinas pra gente. Se a gente pesquisasse todos os preços, eles comprariam as máquinas e mandariam entregar, e assim eles fizeram. Pegaram as máquinas e doaram as máquinas pra gente.

P/1 – Tudo na Paróquia?

R – Tudo na Paróquia. A gente já estava lá. Aí com as máquinas foi facilitando nosso trabalho. Aí aprendemos todo o processo de trabalhar com máquina, de cortar... Porque cortar era muito engraçado, gente, no início. Porque o sabão ficava... Se a gente deixasse ele ficar muito seco ele ficava muito duro. Aí a gente tinha que esquentar a vela, botar, assim, acender o fogo, botar a faca na vela, pra depois cortar o sabão. Olha que sacrifício. Era muito difícil. Ou então a gente tinha que fazer ele dentro de uma caixinha de manteiga, aquela menorzinha de 250g, pra depois virar e ele já estava no formato mais ou menos pra gente ir cortando. Então, assim, a gente perdia muito material. “Ai, gente, como é que a gente vai fazer?”. Aí quando vieram as máquinas foi a nossa solução. Graças a Deus, estávamos com as máquinas. Aí elas ficaram todas contentes. Motivadas mais ainda. Então, assim, a gente tinha um grande número de mulheres lá. Nós tínhamos uma base, assim, que estavam com a gente, de vinte a trinta mulheres, sempre, né. Só que aí quando a gente mudou, a gente pediu só pra... Não dava pra vir tudo mundo com a gente, todo mundo fazendo sabão, que lá o espaço que vocês viram é muito pequenininho. E aí a gente começou a... Aí quando a Paróquia teve... Porque vocês notaram, assim... a Paróquia não é um espaço adequado. Porque ali a gente é projeto de criança e o projeto do sabão, tudo junto. E aí as mães levavam as crianças e a gente tinha que separar.  Botar, né... Mas e o medo? Aí a gente começou a ficar com medo. Que criança pegasse soda cáustica, aquela soda cáustica toda bonitinha, branquinha, vai que uma criança escapole, vai e põe aquilo na boca. Então, a gente tinha que ter um cuidado com as crianças. Falei: “Não dá gente, a gente vai ter que arranjar um outro espaço”. Aí começou a ficar inadequado pra gente ficar lá e aí a gente buscando, buscando espaço e a gente não conseguia nada. Aí, também, a gente começou a nossa luta. O quê que a gente fez? Juntamos o pessoal da Trama, todos os diretores, a gente juntou a Trama e compramos o terreno. A gente conseguiu comprar o terreno.

P/1 – Com que dinheiro?

R – Dos diretores mesmo. As pessoas lá, fazendo nossa... Aí foi caixinha mesmo entre famílias. O terreno não foi tão caro lá dentro, e a gente conseguiu comprar. Aí falamos: “Então vamos construir”. Aí a gente mandou o mesmo projeto pra Alemanha, pra Embaixada da Alemanha, aí a Embaixada da Alemanha nos cedeu o material nos deu material. A mesma história: “A gente não dá dinheiro, mas a gente compra o material. E não paga a mão de obra”. Aí começou meu tormento. Tínhamos o material, mas não tínhamos a mão de obra. Aí, o quê que a gente fazia? Como a gente tinha o projeto da Chevron aqui ainda tem a Chevron...

P/1 - A Chevron entrou quando?

R – A Chevron entra em 2007. É porque a Chevron, antes da Trama entrar a Chevron já estava aqui. Até esqueci de falar isso. A Chevron já estava aqui. Porque a Chevron entrou aqui com um projeto de HIV-Aids, de prevenção.

P/1 – Mas quando você fala entrou aqui, aonde?

R – Entrou na parceria com a Visão Mundial.

P/1 – Tinha o Ciep ainda? Tinha a igreja?

R – Não, não, não tinha nada de Ciep, aí não. Nem existia a Trama ainda nesse projeto que a Chevron tem. Ainda era essa ONG antiga, que faz parceria com a Visão Mundial. A Visão Mundial disse pra gente assim: “Olha, a Chevron quer apoiar um projeto de HIV-Aids”. Né, porque nosso foca aqui por causa dos caminhoneiros... Então a gente também tem esse problema de questão de HIV-Aids, prostituição infantil, tem essa questão também. E como a Chevron tem uma empresa aqui, que é o Silício. Aí a gente começou a trabalhar. Começou a trabalhar essa questão da vulnerabilidade, HIV-Aids, as DSTs. Aí começamos a trabalhar com a Chevron nesse sentido. Então, ficou três anos esse projeto só trabalhando com jovens. Então aqui a gente só trabalhava jovens e trabalhávamos com escolas, com 12 escolas do município. Só com jovens, essa questão da vulnerabilidade. Aí, quando fez três anos... No quarto ano foi que a Chevron chegou pra gente e fez a opção de trabalhar só com mulheres, geração de renda. E aí foi onde a gente botou o projeto... Aí a Visão Mundial falou assim: “A gente tem um projeto com mulheres”. Esse projeto já existia, tá? Toda essa estrutura, assim. É o que eu estava te falando. Já tínhamos o terreno, já estávamos buscando tudo isso. Aí a Visão Mundial falou pra gente: “Olha, vamos inscrever também junto com a Chevron esse projeto do Reciclorium. Essas mulheres vão entrar junto desse projeto”. E foi aí que a gente entrou. Aí como a Chevron apoiava esse Construindo Oportunidades. “E a oportunidade das mulheres? Do que elas precisam?”, “Elas precisam de um espaço”.

P/1 – O projeto da Chevron é o Construindo Oportunidades?

R - Construindo Oportunidades, esse é o projeto que a Chevron apoia aqui. Então a gente trabalha tanto com jovens quanto com as mulheres. Aí as mulheres a gente dividiu em dois grupos: as mulheres do Reciclorium, que são as mulheres que estão no Reciclorium; e as mulheres que fazem o artesanato. Aí as mulheres que fazem o artesanato... Porque assim...

P/1 – Então a Chevron apoia agora esses dois projetos? Continua com jovens também?

R – Os jovens eles continuam dentro desse projeto Construindo Oportunidades, né. Ali que continuam os jovens. Só que com os jovens a gente trabalha mais a questão da vocação o que eles querem fazer. A gente vai mais nessa linha. Incentivando eles a ir além do segundo grau. Porque aqui também eles param no segundo grau. Então a gente está dizendo pra eles que eles são capazes de ir além disso. A gente trabalha mais essa perspectiva de futuro. E com as mulheres a gente resgata essa questão do valor do trabalho... Tanto é que elas fizeram o curso de informática, fizeram várias coisas também, integrando junto esse projeto Construindo Oportunidades.E também porque a gente, assim, essa parceria com a Chevron não é só a Trama. Pra Visão Mundial esse programa são, hoje, duas instituições, tanto a Trama quanto o Lar de Dança.

P/1 – Como é que é?

R – O projeto Lar de Dança. São esses dois que são parceiros da Visão Mundial aqui nesse projeto PDA e, por conseguinte, no projeto Construindo Oportunidades. 

P/1 – Entendi. E o que mudou no projeto com a entrada da Chevron? O que mudou no projeto, tanto no Reciclorium e do artesanato, que já existia, com a entrada da Chevron?

R – A Chevron quando entra, pra gente... É o último assim... Porque a gente estava precisando da ajuda da Chevron. Ajuda financeira mesmo da Chevron nesse período. Porque aí o que acontece? A Chevron começou nos apoiar na mão de obra. Coisa que a Alemanha não apoia na mão de obra. Mas a Chevron no autorizou a fazer isso. Então ela pagou essa mão de obra pra construir, pra que deixasse em ponto de laje. Igual está agora, em ponto de laje. Então essa ajuda quem nos deu foi a Chevron. E, assim, e com o Construindo ele deu toda condição de trabalhar com jovens, de fazer gincana, fazer os movimentos, os encontros, os seminários. Então tudo isso está dentro desse projeto da Chevron.

P/1 – E o de artesanato?

R – De artesanato também. A gente comprou máquinas, ela financiou a matéria prima. As mulheres que fazem o artesanato elas não compram nada, tudo é por conta do projeto. Então a pessoa que vem aqui fazer, ensiná-las a fazer coisas. A gente compra todo o material pra elas, então elas não têm despesa nenhuma, e já ajuda bastante nessa participação, não é? E aí elas aprendem e o único compromisso delas é aprender e tocar daqui pra frente a sua vida. E agora nesse ano do projeto, agora, em 2012, o que a gente quer? Formar a cooperativa. Então a Chevron está nos apoiando nessa formação de cooperativa. Então toda essa parte de formação, de legalização, tudo isso está dentro desse projeto. Então tudo o que a gente vai fazer agora, desse projeto está sendo com a ajuda da Chevron...

P/1 – Mas que projeto? Do Reciclorium e da cooperativa do artesanato?

R – De artesanato, isso. A gente vai tentar fazer as duas coisas. Casar as duas coisas.

P/1 – Então a Chevron patrocina o Reciclorium, a artesanato e o do jovens, o Construindo Oportunidades?

R – Isso. Todo mundo junto... Sem ela ficaria meio complicado. Porque aí a gente foi somando os parceiros que a gente foi encontrando. Porque, hoje mesmo, o que a gente precisa? Do espaço delas porque elas precisam de um espaço, que elas não têm. E a gente precisa dar essa infraestrutura básica pra elas terem condições... Voltar a resgatar essas mulheres.

P/1 – E elas têm algum tipo de projeto, tanto no de artesanato quanto no Reciclorium, pra desenvolvimento do negócio, algum acompanhamento?

R – Tem a ideia de capacitação de gestão de negócio, tem toda... Empreendedorismo. A gente trouxe o pessoal do SEBRAE pra falar com elas. Porque a gente precisa que elas também se legalizem. Aí veio explicar sobre o MEI, como é que elas podem ter o CNPJ direitinho. Porque elas não vendem pra alguns lugares porque elas não têm CNPJ, não têm como dar nota. Então a gente trouxe o SEBRAE, trouxe várias pessoas pra conversar com elas, dar palestras. Tudo direitinho. Então elas têm toda uma formação. Só que assim, as mulheres são interessantes. Porque elas até assistem palestra, formação... A gente tem a questão do corpo, a saúde, a gente fala tudo isso com elas, o ser mulher, como é... Tudo isso a gente trabalha com elas. Mas é assim, tem que ter a parte teórica e a parte prática. Se você ficar, assim, várias oficinas só falando só formação, elas também não gostam. Aí a gente sempre intercala uma parte de formação, uma hora é mais prática, então... E isso vai sendo muito interessante... Elas participaram de seminário, elas estão com uma outra ONG em Caxias, elas vão pras feiras. Então é interessante. Elas têm todo esse movimento. Não ficamos só fechadas aqui, no Ciep ou lá na casa da Olga, não. Elas estão bem espertas. Isso é legal. Isso que eu estava te falando, eu senti uma diferença muito grande quando eu trabalhava com as mulheres do morro e as mulheres daqui, quando eu quis trabalhar aqui, a diferença foi essa: que as mulheres do morro elas eram mais... Como é que eu vou te falar? Mais dinâmicas, corriam mais atrás. E as mulheres daqui, quando eu cheguei aqui, elas estavam mais paradas, mais acomodadas. Não sei se acomodada é a palavra. Assim, mais acomodada na sua vidinha. “Eu não tenho. Eu fico”. Entendeu? E aí a gente conseguiu e fez uma diferença muito grande. Porque as mulheres do morro não, elas fazem faxina aqui, faz faxina acolá e faz isso… Desce o morro, vai lá pra baixo, vai pra praia, fica segurando aquelas bandeirinhas, entrega papelzinho. Então era muito... Uma dinâmica muito grande. Mais fácil até de organizar elas. E aqui não. Elas são muito mais calmas, muito mais... Aí foi muito difícil no começo. Ainda é um pouco difícil fazer com que elas saiam de casa, levantem. Sabe? Vá cuidar... Não tem cesta básica, não é só coisa do governo. Nós temos que correr atrás. Então esse é todo um trabalho que a gente também faz aqui. Pra que elas aprendam a depender delas mesmas, com o esforço de cada uma. Porque é assim, tem várias histórias bem legais delas dessa motivação, desse trabalho que elas fazem. Tem esse resgate da cidadania delas, retomar a vida delas, serem senhoras das vidas delas...

P/1 – Não tem um caso, assim, alguém que você acha que é um exemplo, que você destacaria? Dessa coisa de motivação, de ir atrás...

R – Olha, tem duas mulheres que eu admiro muito. Uma é a Valéria, que não falou hoje. Ela acha que não faz nada, mas ela cria os filhos, ela ajuda a criar os sobrinhos. É tipo aquela casa que mora num quintal bem grande todo mundo junto. São muitos filhos que têm naquele quintal e ela se destaca, ela só tem um filho, e ela batalha, sabe? Então ela não pára nunca. E com o pouco dinheiro que ela ganha, com o óleo, assim, da venda do sabão, ela já conseguiu construir algumas coisas na casa dela, comprar, assim... E é interessante, porque elas falavam assim...Todas as mulheres falavam assim: “Eu comprei um vestido”. Ela não: “Eu guardei, comprei outra janela. Eu comprei um piso, eu comprei isso”. Sabe? Ela foi montar a casa dela. Isso é muito legal. Coisa que antigamente ela não falaria. Outra senhora também que estava em depressão muito forte mesmo, que a gente convidou só pra poder tentar, e de repente ela se engajou no projeto e hoje ela está bem à beça de vida, está vendendo sabão. Não está com a gente porque ela faz o sabão dela em casa. Já vende. O objetivo da gente era esse mesmo que elas aprendessem e fossem à luta. Então agora ela já voltou pra gente, falou: “Ah, quando tiver a cooperativa eu estou de volta”. Falei: “Beleza”. Não tem problema nenhum, sabe? Estamos aqui. E ela vende. Quem conheceu ela quando chegou no projeto e vê hoje, nossa, o pessoal dava a mulher como morta, assim. Sabe? E ela hoje está aí. E você a vê falando do projeto. Ela fala assim, dessa questão, assim: “Eu cheguei aqui praticamente só por chegar, vim mesmo porque alguém me obrigou, forçou eu a vir. E hoje eu aprendi a gostar, aprendi a trabalhar, aprendi a fazer as coisas”. Então, assim, são pessoas muito boas. E tem vários exemplos de pessoas que só queriam viver dependendo de família, não queriam saber de nada: “Ah, tá bom, tá bom”. Já tem aquele salariozinho no final do mês. E agora não: “Acho que não, não está bom. Quero voltar a estudar. Quero voltar a fazer cursos”. Então, assim, é muito interessante isso. A Nevinha mesmo, veio no curso de informática, se inscreveu no curso de espanhol. Quer dizer, uma pessoa que mal teve até 4ª séria tem dificuldade até, assim, na escrita e tudo. Mas se esforça à beça. Estava só em casa cuidando de neto, de filho. De repente você vê assim: “Não, eu sou uma pessoa, eu quero...”. E ela veio aqui cheia de banca, assim: “Eu quero vender, eu faço um monte de coisas e eu quero vender o meu produto”. E ela veio porque ela: “No Construindo Oportunidades eu vou ter oportunidade de vender o meu produto. Vocês vão me ensinar a vender o produto”. Então, assim, é interessante ouvir os depoimentos dessas mulheres. É encantador. Eu gosto demais de trabalhar com mulheres. Amo. Acho assim... Acho que é uma coisa que te anima. Sabe? Te faz viva. Acho que é isso.

P/1 – O que mudou na sua vida ao desenvolver esse trabalho com as mulheres, no artesanato, no Reciclorium, com jovens? O que muda na sua vida?

R –Olha, eu tenho verdadeira paixão pelo lado social. Então a minha vida inteira foi assim. Eu sempre vivi essa questão do social, desse despertar. Então, aqui eu pensei que não ia ter muita oportunidade por isso, uma área muito grande... Porque, assim, o morro parece que é mais junto, não é? Não sei se o morro facilita, é muito junto, todo mundo quase se conhece. Aqui não, é uma área muito extensa. Aí a gente falou: “Será que eu vou conseguir”.  De repente não... Dá sentido a minha vida mesmo. Trabalhar assim nesse projeto me dá sentido à vida. Que às vezes eu estou desanimada meio chateada. Às vezes eu fico: “Poxa vida, essas mulheres não querem nada”. A gente reclama de tudo. Mas aí depois vêm umas que contam umas histórias, fala uma coisa, aí pronto. Aí já fico toda derretida e já não... Então, assim, a minha vida mesmo... Eu acho assim, a gente não está aqui por acaso, à toa. Cada um tem o seu lado, a sua missão. Então eu acho que esse é meu caminho. Já tentei outros, já tentei estar em outros lugares, mas não consegui. Aí eu estou sempre... Quando eu me vejo estou eu fazendo campanha, estou eu fazendo alguma coisa. Falo: “Bem, não adianta. Vou ser mandada embora. Eu tenho que voltar pro lado de cá”. Então, esse é o meu lado.

P/1 – E você é casada, Guiomar?

R – Eu não sou casada. Eu moro com uma pessoa. Eu tenho uma pessoa. Não sou casada, mas moro com uma pessoa. Graças a Deus também é de movimento. O que já me facilita a minha vida. Também gosta do lado social, sempre trabalhou com pescadores, ele trabalhava com pescadores. Então pra mim sempre foi... Então tem a colônia de pescadores que a gente está tentando fazer uma cooperativa. Aliás, ele fundou uma cooperativa de pescadores e a gente está concorrendo com um projeto também pra trabalhar alguma coisa com essas mulheres dos pescadores. Então, assim, a minha vida e a dele sempre foi envolvida nisso. Então, pra mim, isso foi muito bom. Porque até então eu nunca conseguia ficar numa relação com ninguém, porque ninguém aturava uma mulher que está sempre no movimento, está sempre saindo, sempre viajando, sempre ocupada com o outro. É muito complicado. Eu sempre tive relações muito complicadas nesse sentido.

P/1 – Você tem filhos?

R – Não. Não tenho filhos. Eu tenho um sobrinho que eu trato como filho, que eu sempre criei, ficou junto comigo, mas não tenho filhos.

P/1 – Quais são seus maiores sonhos hoje?

R – Hoje, meu maior sonho é ver essa cooperativa, é ter esse espaço pras mulheres. Formar essa cooperativa de mulheres. E aí partir pra uma outra cooperativa, que seria essa cooperativa dos pescadores, que a gente está começando agora lá em Cabo Frio. Esses seriam um dos grandes objetivos agora, no momento.

P/1 –Como que você acha... Qual a importância de... Como você vê dar esse depoimento para o projeto, contando sua história de vida? Qual é a importância que você vê desse projeto das mulheres empreendedoras?

R – Desculpe?

P/1 – Qual você acha que foi a importância de fazer a memória das mulheres desse projeto?

R – Olha. Eu acho assim, é um resgate pra gente estar sempre alerta também daquilo que a gente fez. Porque a gente tem sempre mania de achar que não faz nada. Que a gente não conseguiu nada, não fez nada. Aí quando você começa a pensar e a voltar a ver, assim, quando começou e o que você tem agora, você vê que: “Não, eu fiz muita coisa”. E a gente fez muitas coisas juntas.

P/1 – Quais são os principais marcos do projeto? Reciclorium, do artesanato, da igreja pra cá? Se você tivesse que falar os marcos dele?

R – Eu acho que, assim: o nosso primeiro encontro. O decidir pelo projeto Reciclorium, o depois de achar que esse projeto é viável, que a gente podia vender esse projeto e conseguir mais apoios pra esse projeto, é um marco. Quando a gente começou a... Como é que a gente fala? Não organizar, mas a fazer ele ficar na... Botar ele na praticidade, que ele era um sonho nosso de fazer sabão. Hoje, o grande sonho das mulheres, das mulheres como um todo mesmo, é ter uma cooperativa de sabão inteligente. Elas acham que vão... Eu acho, tenho certeza que elas vão conseguir ver esse sabão nas prateleiras, vendendo nos mercados. Esse é um grande sonho que elas têm. E aí eu acho que a gente está caminhando pra isso. Então, aí, eu acho que esse passo, pra ele ser um pouco mais formal, empresarial, comercial. O sabão passou a ser isso, que antes ele era uma coisa mais artesanal, agora é uma coisa mais comercial. Toda essa preocupação de segurança, com todo o aparato pra gente conseguir os registros que são necessários pra botar um produto no mercado. Então agora a gente está nessa fase também de conseguir todos os registros também, com um químico assinando, se responsabilizando pelo sabão tudo isso. Então, assim, eu acho que o grande marco... Ele passou por várias fases. Agora essa fase em que ele está agora que é de comercialização, eu acho que é a fase, assim, mais... Assim, pra elas, agora é a viabilização de todo um sonho. Porque se você quiser brigar com essas mulheres é falar mal do sabão delas. Ah, elas defendem ele, assim, muito mesmo. Então, assim, e é muito bom saber: “Vou ver o meu sabão no mercado e saber que a gente começou lá naquele baldinho, naquela colher de pau, lá na Paróquia”.Tudo assim, foi lá que tudo começou, a nossa história.

P/1 – E você estava falando que você acha isso importante porque nesse projeto você pode resgatar essa...

R – Essa cidadania. O ser mulher de novo. Eu acho assim, elas estavam muito quietinhas no seu canto. E cada uma muito quietinha. Isso o artesanato também fazia. Assim: “Eu aprendo. Vou pro meu cantinho, faço meu crochê a noite toda. Faço...”. E aí a gente: “Não, gente, tem que estar unidas, tem que estar juntas, quando a gente está junto a gente é mais forte”. E foi isso que a gente conseguiu perceber. Então, assim, é legal quando as mulheres falam assim... Hoje a Valéria fala assim: “Ah, eu adoro ver dona Inês falando. Nossa, ela tem tanta história de vida. Enquanto a gente faz o sabão, ela vai nos contando a sua história de vida e é muito legal ouvir dona Inês contar”. Porque aí você sabe, assim, tudo que ela passou, então, também passei um pouco, não sou só eu que passo. Porque a gente tem mania de querer que o nosso problema seja maior do que o de todo mundo. E aí a gente vai percebendo que o nosso problema não é maior que o de todo mundo. Todo mundo tem problema, todo mundo tem situações difíceis, todo mundo tem seus altos e baixos. E isso elas vão contando uma pra outra. E cada uma vem contando como chegou aqui. Que a maioria não é daqui é do Norte. É da Paraíba, do Ceará, de quaisquer outros lugares. Então elas vêm contando como chegaram até aqui, as dificuldades que passaram. Então isso é muito interessante pra elas. E ouvir elas. Porque ninguém ouve. Que às vezes elas falam: “Ah, Guiomar, vou chegar em casa, vou... Aprendi fazer a boneca. Ai que legal”. Sai daqui toda contente. Um dos objetivos da gente era esse. Quando dava o artesanato, saía daqui com tudo pronto pra que elas tivessem aquela coisa pronta pra levar pra casa. Então tem marido que não acredita nelas. Elas falam: “Meu marido não acredita em mim. Ele vai dizer que não fui eu que fiz”. Entendeu? Então essas coisas: “Poxa, ele vai dizer que não foi você? Como assim? Você não é capaz?”, “Ele vai dizer que não”. E aí: “Nós vamos lá. Vamos levar a boneca e vamos ver como é que ele vai falar”. Então elas ficavam todas contentes. E quando você elogiava a boneca: “Nossa, que boneca linda!”. Aí elas ficavam todas contentes. “Porque minha boneca é linda”. Então, assim, são coisas pequenas. Às vezes parece coisa pequena pra muita gente, mas pra elas era muito importante. Então tinha uma mulher que chegou aqui e ela era muito agressiva. Nossa! Como ela era agressiva. A gente não podia nem falar com ela que ela já... Sabe? Assim... Então era tudo muito... E hoje não. Hoje ela: “Ah, não vou conseguir fazer”. Era assim: “Vamos tentar fazer o fitilho, pra você fazer a boneca?”. “Ah, não vou conseguir fazer isso, não, Ah, isso aí não vou tentar, não”. “Mas vamos, vamos tentar, vamos botar a agulha. Quem sabe”. Agora não, agora ela pergunta: “O que é que nós vamos fazer quinta-feira? Quinta-feira é dia de quê, mesmo?” Aí mudou totalmente. Aí fizemos um jantar pra elas. Nós fizemos um jantar. Fizemos um jantar aqui no Ciep, lá no refeitório do Ciep. E aí pedimos pra trazer a família nesse jantar. Assim que terminaram o curso de informática. A primeira etapa do curso de informática.

P/1 – As mulheres do Reciclorium?

R – As mulheres do Reciclorium... É, as mulheres do Construindo como um todo. Aí vamos fazer um jantar. Vocês fizeram aula de culinária, então aprenderam a fazer macarrão, vários molhos. Aí fizemos todo um jantar. Você precisava ver. Elas se produziram todas. A gente ia fazer almoço, mas almoço não vai dar aquele impacto de você se arrumar de você... Né, não vai fazer isso. O jantar não, jantar é mais chique. Aí botamos no convite pros maridos delas virem... Todo mundo. Aí vieram. E aí botamos todas em exposição, os trabalhos que elas fizeram...O cordão... E aí enfeitamos todo mundo... Olha, você precisava ver, tinha gente chorando porque o marido veio. Tinha umas que falavam assim: “Meu marido não vai vir. Meu marido não vai vir”. E aí a gente falou: “Calma, vai vir sim”. Estavam todas arrumadas, bonitas, aí daqui a pouco os maridos foram chegando. Aí assim: “Nossa, ele veio”. Falando: “Ih, ele veio”. Aí, sabe, assim… Aí depois tinha gente chorando de emoção porque o marido veio e conseguiu... E aí eles falavam assim: “Ah, mas isso não é ela que faz, não”. Alguns brincando: “Não foi ela que fez, não”. Falei: “Foi sim, quer ver? Vou te mostrar o vídeo”.  Aí a gente começou a passar o vídeo que a gente grava elas fazendo, gravamos a feira, gravamos várias coisas. E começamos a mostrar o vídeo e eles falando: “Nossa, é isso que vocês fazem toda quinta-feira. Porque pra eles assim, vai fazer fofoca saiu de casa pra fazer fofoca. Está o dia inteiro naquele projeto fazendo fofoca. E aí eles também ficaram emocionados de ver. E aí foi um jantar, assim, gente... Foi muito legal, muito emocionante. Se vocês virem as fotos do jantar... Aí botamos aquelas mesas grandes, reunimos a família. Então foi muito, muito bom pra elas. Então e gente vê assim, sabe, que às vezes pode parecer pouco o que a gente está fazendo. Porque às vezes a gente fala assim: “Faço tão pouco por elas”. Mas quando você vê uma coisa dessas, fala assim: “Não, gente, é muita coisa, sim”. Então quando alguém diferente: “Não, gente, você não está fazendo pouco, não”. Então lembrar isso dá ânimo pra gente continuar também caminhando. Que às vezes a gente fica: “Poxa vida, será que eu estou ajudando mesmo, não estou atrapalhando?”. Né, que às vezes... Tem algumas que falam que o marido briga quando vem. No começo é muito difícil pra elas também, sair e deixar o filho, trazer os filhos pra cá. Aí a gente: “Não, pode trazer, pode trazer que a gente dá nosso jeito. A gente coloca no computador, a gente põe ele pra ler um livro. Traz seus filhos. O importante é trazer todo mundo”. “Ah, não tem com quem deixar”; “Não tem problema, pode trazer”. E elas gostam por isso, porque elas trazem os filhos... E é um momento, assim, é mágico. Você vendo um encontro acontecer... É muito mágico. E a transformação de uma por uma, assim. Ó, mulheres que viviam no bar. Eu tenho muita mãe que... Aqui a gente tem problema, alguns problemas com tráfico. Temos algumas coisas assim, também. Não é só no Rio, não. Aqui tem também. Então tem mães que são fogueteiras. Soltam foguete quando chega a droga, pra anunciar que a droga chegou. Aí tem as mães que são fogueteiras. Depois você dá uma parada pra você ver. Aí tem mãe fogueteira. Então, assim, aí eu passava e estavam lá no bar, todo dia. Aí elas: “Ué, aonde vocês vão? Aí, tem umas mulheres, passava: Aonde vocês vão?”. Aí nós: “Nós vamos pro projeto”; “Ah, posso ir?”. Aí todo mundo ficava com medo de trazer. Porque são mulheres assim... Aí vem com aqueles shortinhos desse tamanhozinho, aquela blusa menor ainda. E a gente tem um lema, não pode, não sei o quê. Aí ela: “Guiomar, pode trazer?”. Falei: “Pode. Deixa elas virem. A gente vai conversar. Não, deixa vir. Quer vir? É melhor estar aqui do que estar lá no bar”. Aí elas vinham. Todo dia a gente passava e chamavam. Aí elas vieram. Aí elas chegaram e falaram assim: “Mas eu posso entrar?”, “Pode”, “Mas olha como é que eu estou?”, aí falei: “Mas, você está como?”. Aí eu falei:“Como é que você está?”. “Olha como é que eu estou”. “Está como? Me diz como você está?”. “Ah, você está vendo”. “Estou vendo o quê: estou vendo uma mulher vestida com uma roupa muito pequenininha, minúscula, mas está vestida”. Ela: “Ah, então, todo mundo vai ficar me olhando”. Aí eu: “Você está se sentindo mal assim?”, “Ah, eu estou”, “Então, você quer uma camiseta? Eu te dou. Você põe uma camiseta do projeto e você fica”, “Ah, então eu prefiro”, “Você prefere? Não quer ficar igual você está acostumada?”, “Ah, não. Assim não vou me sentir bem, não. Então não vou”, “Então, tá bom”. Aí, pegamos a camiseta e demos. Ela ficou com o shortinho curtinho dela, mas botou a camiseta. Quer dizer, ela por si só, ninguém falou nada. Mas ela já estava se sentindo... E hoje elas estão aqui com a gente. Não é mais fogueteira. Estão aqui com a gente. Já não se vestem mais como se vestiam. Porque aí é aquela questão: “Eu me visto a minha filha também vai, e vai embora, aí eu não sei como vai ser... ”. E hoje não, estão aqui. Aí tem projeto elas já falam: “Tá com o short muito curto?”. “E aí, vai no projeto?”, “Ah, vou, mas vou lá em casa trocar de roupa, tá?”. Eu falo: “Ah, tá. Tá bom. Vai botar um shortinho mais comprido? Ah, é, porque eu vou botar babado na tua saia, eu vou botar babado no teu vestido”. Eu brinco com elas. “Vou botar um babadinho no teu vestido. Está precisando de um babadinho. A gente não aprendeu a fazer crochê? Vou fazer um crochezinho vou botar no babadinho”. Elas: “Não, não, pode deixar. Já comprei aquelas bermudinhas que você falou”. É assim. Mas tem muito... Por si só elas vão percebendo: “Qual o lugar que eu posso estar assim, o lugar que eu posso estar de outro jeito”. E as outras mulheres, lógico tem sempre aquelas muito abertas, mas tem aquelas que ficam assim... “Fulana aqui no meio da gente.” Tem também, não vou dizer que não tem, mas já começa a pensar diferente. “O que a gente está fazendo aqui? Qual é a nossa missão? O que é que a gente quer? Será gente está aqui só pros bonzinhos?”. Aí a gente começa a questionar e também a ver tudo isso. “Qual era o projeto de Jesus Cristo? Jesus Cristo veio pra quem era bom? Pra quem era sadio?”. Não. Ele falou que veio pros doentes, então, não foi pra quem está bom. Quem está bom já tem sua condição de vida, não precisa da gente. Quem é que precisa da gente? Não é? E aí a gente foi trabalhando… Então todas essas questões estão sendo trabalhadas. O meu preconceito, o julgar a outra. Eu não estou aqui pra julgar ninguém. Não sou melhor do que ninguém, nem pior do que ninguém. Então, não estou aqui pra julgar ninguém. Cada um tem o direito de viver a sua vida. E isso é uma coisa que a gente trabalha muito com elas e com todo mundo que está no projeto. Você não tem o direito... Fulana pode ter dez, quinze filhos, quatro maridos, você não tem nada a ver com isso. Você não está aqui pra julgar ninguém. Está aqui pra acolher, pra ouvir, pra tentar ver o que você pode fazer pra ajudar. Agora, pra julgar não. A gente não quer ninguém que nos julgue. A gente já tem bastante juízes no mundo. Não precisa de mais um.  Então, isso tudo a gente vai trabalhando aos pouquinhos com elas. E elas vão entendendo. Sabe? Então, assim, pessoas que você via, assim, que não... “Ah, fulana é minha vizinha”. E há quanto tempo não falava com aquela vizinha. Agora no projeto não. Então aprendeu a falar, aprendeu a ir pro quintal fazer o crochê juntas. Então, são coisas assim... Eu sei que às vezes parece pouco... Pouca coisa, sabe? Mas são coisas que pra elas são muito grandes. Isso pra mim, assim, nossa... Faz com que meu cansaço não faça efeito. Olha, eu tenho quatro anos sem tirar férias. Todo mundo aqui fica está me perturbando, porque por causa do acidente eu tenho uma coluna, tenho prótese na coluna. Então eu sinto muitas dores. Então o pessoal fica: “Mas você não pode...”; “Mas, gente... Se eu ficar em casa, acho que eu morro mais rápido”. Sabe? Assim, eu acho que eu não vou aguentar. Vir pra cá é esquecer meus problemas. Tenho problema como todo mundo... Mas esquece dos teus, porque o teu problema é pequeno. Porque tem tanta gente com problema maior que o teu, muito maior, que aí você fica assim: “Gente, eu estou fazendo uma batalha por uma coisa que... Fulana lá é que tem problema. Eu não tenho problema. Eu tenho casa, eu tenho comida. Eu tenho... Eu estudei. Eu não tenho problema. Agora, fulana tem problema”. Eu tenho um salário, bem ou mal, pra pagar minhas contas no final do mês. E quem não tem nada disso. Você imagina? E são mulheres, aqui, Rosana, assim... Que têm 10, 12 filhos, que moram num cômodo que o quê? É uma coisa mínima, isso aqui dá dez das casas delas. E dorme todo mundo junto amontoado, sabe? E não tem como pagar as contas no final do mês e você vai lá visitar, às vezes, chega pra você e fala: “Guiomar, não tenho nada aqui pra dar pro meu filho hoje pra comer”. Aí você fala: “O quê que eu faço?”. Ou então elas vendem sabão. E tem uma porcentagem pra quem vende. Aí elas ligam falando: “Guiomar, eu vendi tanto de sabão, mas estou sem nada em casa”, “Filhinha, nem pensa... Entendeu? Tem dinheiro? Compra”, “Ah, depois...”, “Não, depois quando você prestar conta a gente vai ver como é que a gente faz aqui. Não esquenta. Compra”. Sabe? Então é onde elas vêm, elas falam: “Eu vendi tanto”. Então é assim, um pouquinho, mas aquela honestidade, sabe? Podia mentir: “Não vendi”. Não é? Não, elas falam: “Guiomar, vendi tanto e gastei tanto, porque eu precisei comprar arroz, comprar isso pro meu filho. Então, eu vendi… No mês que vem ou vou vender mais”, “Não tem problema nenhum. Comprou o arroz? Está satisfeita? Beleza”.  É isso o que a gente quer. Porque elas não gastam com nada, assim, mesmo. Hoje a gente até força, assim, elas a fazerem um caixa pra poder ter como comprar a matéria prima. Aí a gente fala: “Não, tem que aprender que o negócio é esse. O negócio vai se pagar sozinho. E se no ano que vem a gente não tiver mais apoio. Como é que vocês vão continuar, vão acabar? Não a gente arrecada”. Então, junta o dinheiro. Aí no final do ano elas fazem uma festinha pra elas. A Isa compra presente, da cesta básica, faz um monte de coisas com elas com o dinheirinho que elas vão juntando pra comprar as coisas. Então, assim, e elas vão aprendendo. A gente não se mete, assim, por enquanto a gente não se mete em nada disso. A ONG mesmo a gente não se mete com o que elas vendem, não. Só assim: “Isa, fulano gastou, deixa como está, tá?”, aí: “Tá bom, beleza”. Aí: “Fulano não vai prestar conta esse mês não porque ele teve que comprar isso”. Então, assim, só nessas questões. Assim, você perguntar quanto elas ganham, quanto... A gente não se mete em nada disso. Isso tudo é por conta delas mesmo. Porque a gente falou: “Não, não vamos nos envolver, vamos deixar elas criarem esse hábito de vender, de fazer o seu negócio, de fazer os cálculos”. Porque também daqui a pouco a gente também vai deixá-las sozinhas, e elas vão ter que tocar a cooperativa com elas mesmas. Então vamos deixar elas caminhando e a gente vai partir pra outra. Quando elas tiverem já organizadas, estabilizadas, nossa missão já está cumprida e agora a gente vai partir pra outras mulheres, outro povo que está precisando da nossa ajuda. Então, assim, isso eu acho legal. Isso eu acho muito bom. Eu acho que isso dá sentido à vida. Eu não saberia viver diferente, de outra maneira. Não saberia. Te digo com toda sinceridade que eu não saberia. E o meu cansaço, realmente, elas me fazem levantar todos os dias e tocar pra frente. Porque não é mole. Porque não é fácil, não é? Porque como toda dona de casa, também tenho os mesmos problemas como dona de casa. Mas, não sou de esquentar muito, não. Não sou aquela dona de casa perfeita, de casa, assim, não sou. Fanática por casa não sou também, não. Mas tenho meus problemas de dona de casa normais. Mas trabalho com elas com o maior prazer, com as crianças com o maior prazer. Sábado a gente trabalha, domingo a gente trabalha, sem problema nenhum. Então sábado a gente vai pesar as crianças, a gente mede as crianças, a gente faz a multimistura. Ó, sábado é um dia assim, que se vocês pudessem ver, era incrível. Porque a gente vai fazer a pesagem das crianças e as mães vão junto, as mulheres vão junto. Então a gente põe a Isa num grupo com das mulheres, com as crianças, pesando, e a gente fica com as mães a gente pega as mães. E aí a gente faz um encontro, palestras, brincadeiras, sorteio, faz um monte de coisa ali pra elas. Elas viram criança ali com a gente. E os filhos ficam com outro grupo. Aí a Isa pesa todo mundo, a gente pesa vê o tamanho direitinho, vê como é que eles estão, dando um acompanhamento. Depois a gente faz um grande almoço. Deixa... Todo mundo almoça junto, mãe, filho, todo mundo almoça junto. Aí, e faz aquela festa. E é muito bom.

Então, assim, no sábado é o dia inteiro praticamente. De manhã a gente faz reunião, de tarde já tem esse compromisso. E aí a gente vai. Mas é muito, muito, muito prazeroso. No sábado vai ser assim... É encantador. E é muita gente, não é pouca, não.

P/1 – Todo sábado?

R – Não. A gente faz isso... Em cada lugar a gente faz um tempo.

P/1 – Mas esses filhos têm a ver com essas mães desses outros projetos?

R – Tem. São as mesmas mães. As mesmas mulheres.

P/1 – Do Reciclorium, do artesanato?

R – É. As mesmas mulheres. E mais algumas que a gente está tentando... Aí nesses encontros que a gente vai fazendo com que elas vão se despertando. Sabe? Pra vir para o projeto... Aí a gente vai fazendo toda essa formação com elas. Mas é nesses encontros. Porque pesar o filho elas vão sempre isso elas não perdem, não. Apesar de dar o almoço, elas vão sempre. Então nesses momentos que a gente vai fazendo todas essas coisas com elas. E aí elas vão sendo multiplicadoras dessa ideia que a gente tem. Vamos captando essas mulheres, trazer essas mulheres pra perto da gente. Porque aí elas veem... Às vezes elas veem assim... Às vezes a gente coloca um cordão, aí elas: “Nossa, que cordão bonito?”, “Ah, beleza. Fui eu que fiz”, “Ah, mas como é que você fez?”, “Você quer ver? Você quer aprender a fazer também. É fácil. Moleza”. E assim: “Ah, eu quero”. Aí começa. E assim a gente vai começando. Aí começa um outro grupo. Então a gente vai formando vários grupos assim. E isso é muito, muito legal. E é só dessa ferramenta que a gente vai juntando com elas. Porque tem que ser assim, coisa de interesse delas, e aí você chega. E aí na amizade, no carinho, assim, no respeito, aí começa. Porque todo mês elas vão pesar, todo mês.

P/1 – Que máximo.

R – É muito, muito bom de ver. E é muita criança. Não é pouca não, é 150… Então é muita criança. A gente fica assim, 150, 200 crianças. Não é pouca criança, não. É muita criança que vão...

P/1 – E a Chevron financia esse projeto também? Não?

R – Não. Esse é o PDA mesmo, Visão Mundial.

P/1 – Deixa eu te falar, vai entrevistar alguém pessoas dos jovens? Porque vai faltar alguém de artesanato... Já... A Maria Inês...

R – Então, eu convidei a Natália, que é uma jovem que está com a gente desde o início do Iniciativa. Começou com a gente desde o início.

P/1 – Tá. Aí vem a Natália, vem uma de artesanato e mais uma de Reciclorium? Tá?

R – Isso. Aí a Natália vem pra falar pelos jovens. Ela é uma jovem que está com a gente desde o início.

P/1 – Tá bom.

R – E a... Você conheceu aquele dia, uma morena, alta.

P/1 – Tá ótimo.

R – Fez até a logo do Iniciativa. Então, ela vem aqui amanhã. Falei com ela pra vir, porque de repente uma jovem é interessante colocar também. Mas ela vem... Mas meu foco mesmo é mulheres. Crianças e mulheres. Crianças porque eu gosto muito também e mãe porque não tem outro jeito. Mãe, criança tem mãe, não tem como deixar também. E elas esperam muito dos filhos também. Vem pesar, traz o filho. Vem pra atividade, elas trazem os filhos, ficam esperando. Enquanto espera, aprende a fazer alguma coisa. Não ficam paradas nem enjoam. Então a gente está um pouco nisso. É um pouco isso.

P/1 – Queria agradecer. Foi lindo seu depoimento. Fundamental.

R – Um pouco da nossa história.

P/1 – Muito obrigada.

P/2 – Puxa, super importante.

P/1 – Super importante.

P/2 – Pra gente até entender...

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