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Guerra do pai, batalhas do filho

História de: Humberto Consiglio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Em seu depoimento, Humberto Consiglio fala sobre seus estudos e as faculdades de Economia e Contabilidade que fez. Conta sobre seu trabalho na área de Contabilidade e como diretor do Hospital Servidor. Aborda sobre suas namoradas e como conheceu sua esposa, além das histórias de seu pai na guerra, seus escritos no campo de batalha e os do próprio Humberto no campo da crônica.

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História completa

Meu nome é Humberto Consiglio. Eu nasci em São Paulo, no Brás. Nasci no dia 16 de dezembro de 1931. Naquele tempo, sabe como é, as coisas eram diferentes. O meu pai me registrou como 2 de janeiro de 1932. Nasci em casa. Naquela época não existiam tantos hospitais, tantas maternidades. Meu pai se chamva Antônio Consiglio. E minha mãe chamava-se Augusta Paulínio Consiglio. O meu pai, ultimamente, ele era cobrador de bondes aqui em São Paulo. Ele trabalhava na Light, na antiga Light. Minha mãe trabalhava numa tecelagem no Jardim Paulista, na Tecelagem dos (Calfate?). Ela tomava o bonde e ele não cobrava a passagem (risos)! Acabaram se casando em 1929, tiveram três filhos. Eu sou o segundo.

Eu estudei lá no Colégio Caetano de Campos por conta da família desse pessoal que fundou esse Colégio Rio Branco. Eu terminei o curso de Contabilidade, um curso ginasial. Fui fazer Contabilidade, depois fiz Economia e depois de casado, com três, quatro filhos, eu fiz Direito.

Acontece que naquela época estourou a guerra de 1939 a 1946 e a guerra parece que une os povos. Os vizinhos, todo mundo, as notícias que chegavam com muito atraso sobre a guerra na Europa. Eu lembro de algumas coisas, por exemplo uma coisa que existia era o blecaute. Blecaute era o seguinte: o governo fazia um treinamento para que todas as casas apagassem as luzes, não ficava nem uma luz acesa. Porque eles pensavam da seguinte forma, vêm os aviões bombardear a cidade e onde tem luz (risos).

Mas era uma época difícil, de qualquer jeito era uma época difícil. Primeiro, não tinha pão porque não tinha farinha. O pão era racionado. Tinham duas coisas que eram racionadas: o pão e o óleo para cozer. O governo distribuía para cada família um carnezinho com um ticket. De acordo com o número de pessoas, você tinha direito a obter tantos quilos de pães, o óleo, tantas coisas de óleo. Era assim, as coisas eram difíceis e complicadas. Mas para nós, especialmente para a minha família na época, era muito difícil porque nós éramos descendentes de italianos e éramos chamados de carcamanos. Nós éramos os carcamanos, então era difícil. Tinha dia, vários dias, meu pai nos chamavam e dizia: "Olha, cuidado com o que vocês falam, cuidado com isso. Não falem nada, cuidado que podem ser presos". Tinha sempre aquele negócio, foi uma época muito difícil para nós crianças, nós tínhamos sete, oito, nove, dez anos de idade. Era muito difícil, complicado: “Por que isso? Nós não somos iguais?” 

Eu comecei a trabalhar com dez anos, 12 anos. Eu comecei a trabalhar e já começamos a ganhar um dinheirinho. O meu primeiro emprego foi num jornal que hoje chama-se DCI. Na época chamava-se Diário do Comércio e Indústria, era na Rua 25 de Março que fazia. Então o que era que eu fazia? Eu entregava o jornal. Posteriormente eu montei um escritório e ele passou a trabalhar inclusive comigo, ele tinha se aposentado no bonde. Eu trabalhei em algumas lojas no comércio.

Ficava no escritório. Foi quando eu comecei a trabalhar com contabilidade lá no escritório dele. Trabalhei lá durante alguns anos, ele não queria que eu saísse, inclusive queria que eu fosse sócio dele. Chegou a me oferecer sociedade e tudo o mais e eu não quis por uma série de razões. Eu queria montar um escritório de contabilidade, era o meu desejo. Eu estava terminando os meus estudos de contabilidade e eu queria montar um escritório de qualquer jeito. Terminei, entrei na faculdade de Economia.

Sempre gostei de fazer e sempre fiz. Então o que é que eu fiz? Um dia eu estava em casa, abrindo o Estado de São Paulo, eu vi um anúncio grande de uma empresa de contabilidade que precisava de um contador. O salário era muito grande, três e quinhentos na época. Era um salário alto para contador. Eu escrevi uma cartinha, me candidatei, fiz a entrevista e ganhei o emprego lá na Minerva, chama-se Minerva. Era um empresa de contabilidade, talvez na época era a maior de São Paulo.
Essa é do meu pai. No dia 25 de novembro de 1915 o navio aportou em Genebra e todos tiveram três dias de descanso para visitar a família. Antônio apressou-se para a sua terra natal, Grisolia, com imensa saudade de sua namorada. E foi a primeira coisa que fez ao chegar lá, mas não a encontrou. Ela havia casado e não morava mais na cidade. Profundamente magoado, Antônio imediatamente se apresentou ao comando militar e foi mandado para a frente de batalha. A guerra, meus netos, naquele tempo não era como a atual que lida com equipamentos sofisticados que basta apertar um botão e aguardar o resultado. A maior parte das batalhas se ganhava com a infantaria, avançando. E a luta, muitas vezes, era feita na baioneta. Antônio era voluntário, um patriota que com o apelo da pátria deixou tudo para conhecer, combater. Isto na realidade exigiu dele muitos sacrifícios, uma vez que sempre que existia uma missão difícil, ele era convocado para a mesma por ser voluntário. Não quero me deter a lhes contar as imensas, inúmeras batalhas que participou pois isso exigiria muitas horas de conversa. Quando vocês tiverem idade suficiente, poderão ler o diário de guerra que se encontra em meu poder e que ele fez escrevendo em todos os anos que participou. Mas quero somente contar-lhes alguns poucos casos. Após muitos dias seguidos de batalha sem descanso, a tropa chegou perto de um rio. Os soldados, então, foram orientados a ficarem nus e seus trapos que foram um dia um uniforme, queimados. E a soldadesca tomou banho, se livrando dos piolhos que os infestavam. Também extenuados, os soldados se abrigaram em uma trincheira e os mais cansados dormiram. Estava chovendo, mas o cansaço era tanto que não perceberam que a trincheira estava se enchendo de água. Antônio acordou quando a água já lhe chegava ao pescoço. Estava só, os seus companheiros haviam sumido. Estava junto das linhas inimigas e somente por um milagre conseguiu encontrar a sua tropa. Finalmente, para não me alongar muito, eu vou lhes contar um caso que talvez defina essa brutalidade que é a guerra. Como lhes disse, muitas vezes a guerra se dava corpo-a-corpo, isso é, através de baionetas. E nessa situação encontrava-se o soldado Antônio. Após o (encabeçada?) a luta com o inimigo do tedesco, conseguiu derrubá-lo com a baioneta. Apontada para a sua garganta do inimigo, bastava apertá-la para matá-lo. O coitado do inimigo olhava indefeso, olhava para Antônio com uma verdadeira expressão de súplica com os seus olhos azuis, cabelos loiros sujos de lama. Foi como um relâmpago, em questões de segundos Antônio raciocinou: "Será que é ser patriota matar um outro homem? O que é ser patriota? Será que este pobre rapaz que está abatido também não é patriota? Não estará ele defendendo uma causa que políticos de sua nação o obrigaram a defender?" O soldado Antônio tomou uma decisão que nunca mais se arrependeu: deixou o tedesco ir embora. E pelo resto da sua vida, Antônio guardou em sua memória o inimigo se afastar, vez ou outra olhando para trás com o olhar agradecido. Mas meus netos, um dia a guerra acaba. Em 1918 ela acabou.

 

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