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História

Guardando o BNDE e suas memórias

História de: Cândido Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2018

Sinopse

Cândido Rodrigues, nascido em 9 de março de 1926 na cidade de Santa Maria Madalena, Rio de Janeiro, conta para nós em breve entrevista sobre o seu trabalho no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, onde entrou em 1952 para prestar serviços e posteriormente se aposentou como chefe de portaria. Presente no Banco desde seus primórdios, conta como era sua relação com as pessoas de lá, do funcionário mais humilde ao presidente, suas histórias no Banco e o orgulho de ter feito parte de uma instituição que ajudou a promover o desenvolvimento nacional.

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História completa

P/1 - Bom dia Sr. Cândido, muito obrigada pela sua presença, o primeiro entrevistado do projeto memória, eu gostaria então que o senhor me dissesse seu nome completo, seu local e data de nascimento, por favor.

 

R - Cândido Rodrigues, moro no Méier e nasci em 9/3/1926, em Santa Maria Madalena, no estado do Rio.

 

P/1 - Sua família é originária de lá?

 

R - É, originária de lá.

 

P/1 - E seus pais, qual a profissão de seus pais?

 

R - Meu pai era lavrador.

 

P/1 - Como é que se deu a vinda da família para o Rio de Janeiro?

 

R - A família não veio para o Rio, eu vim sozinho. Eu trabalhei numa empresa, Central de Macabu, energia elétrica e estava sendo feita para fornecer energia para o estado do Rio, então em 1947 eu vim para o exército em Macaé, depois que eu saí do exército, vim para o Rio e aqui no Rio eu trabalhei como conferente na Red Indian em Mangueira que até hoje existe. E depois em 1952, por uma dessas coincidências, o Carlito Rocha, que era presidente do Botafogo na época, ele tinha uma senhora que ela era chefe da seção de traduções da Comissão mista Brasil-Estados Unidos, então na época, a senhora do Carlito, pediu a ela se tinha assim alguma coisa porque eu já tinha me despedido da Red Indian e perguntou a ela se tinha a possibilidade de um emprego pra mim, então ela na época disse: “Olha, estão criando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, e eu acredito que vá ser um dos grandes bancos no Brasil, então lá os serviços são iniciais e quem for para lá tem que pegar qualquer tipo de serviço, porque o banco está se formando.” Na época o BNDE não tinha quadro de funcionários, então Comissão mista Brasil-Estados Unidos assumiu o pessoal da época, e ficava com o pessoal, decidia para o BNDE. Então eu entrei em 9/9/1952 para prestar serviços, porque o Ministério da Fazenda era o 14º andar, cederam 14 salas para o BNDE, então eu comecei a tomar conta daquelas salas, abria as salas, arrumava tudo, na época o presidente era o Dr. Walter Lima Sarmani, que era irmão da dona Darci Vargas, foi o primeiro presidente do BNDE, e o Dr. José Soares Maciel Filho era o diretor superintendente, Dr. Cleanto de Paiva Leite, era um dos diretores que era assessor do Getúlio Vargas, tanto que meu filho hoje se chama Cleanto e eu coloquei em homenagem ao Dr. Cleanto que era um diretor muito amigo, né? E tinha o Dr. Antunes Maciel que era um dos diretores. Passado este tempo, eu fiquei no BNDE como interino até 1956, em 1956 o presidente Juscelino Kubitschek, na época ele lançou o concurso público para todos os funcionários que eram interinos, inclusive, o presidente Vargas na época perguntou ao Dr. José Soares Maciel Filho se ele tinha interesse em que os funcionários do BNDE fossem extranumerários, porque o extranumerário daquela época, com cinco anos de serviços, passavam automaticamente a efetivo, e o Dr. José Maciel falou: “Não, eu não quero que nenhum funcionário do BNDE seja extranumerário, todos os funcionários do BNDE vão ter de fazer concurso, os que passarem ficam, os que não passarem vão embora.” Tanto que na minha época, nós éramos 45 funcionários interinos, concorremos com mil candidatos públicos, do Brasil inteiro, e na época foram aprovados vários candidatos, sendo que do nosso grupo foram aprovados 25, entre estes 25 eu fui um dos classificados, eu devo ter direto uma nota (?) de uns 84 pontos e com a classificação do pessoal só atingiu o mínimo para ficar no posto, quem tirou 75 em média, porque além de passar no concurso tinha que ser classificado. Então aí começou a minha história no banco, depois eu fui responsável pela parte de pessoal de portaria, de motoristas, fiz grandes amizades; cheguei a chefe de portaria, fiquei dez anos na função, naquela época uma pessoa que ficasse dez anos numa função gratificada, ele era agregado, então eu fiquei agregado e cumpri minha missão no banco, atingi todas as promoções e aquelas coisas todas, quando chegou em 1975, criaram a Fundação de Assistência à Previdência, a FAP, então como eu já tinha todos os meus direitos, eu fui chamado e perguntaram se eu queria me aposentar, e eu iria ficar na mesma situação, né, então eu me aposentei.

 

P/1 - Em que ano?

 

R - Em 1975.

 

P/1 – Então, do período que o senhor... até 1975, o senhor viu o desenvolvimento do Banco. Quais projetos pelos quais o Banco passou que tenha mais lhe chamado a atenção? Que o senhor tenha acompanhado?

 

R - A primeira empresa, que eu me lembro, que pediu empréstimo, foi a Metalúrgica Barbará, esta foi uma das empresas que pediu, depois tiveram várias empresas como a Vale, na época uma que tinha muito contato com o banco era a Central do Brasil, depois veio o Metrô..., e num modo geral, tudo que existe hoje no Brasil como ferrovia, inclusive fazendas de gado, tudo o BNDE estava ligado. Tinha até colegas nossos, na época o pagamento era feito com dinheiro vivo, então tinha aqueles fazendeiros lá no interior que às vezes atrasavam o pagamento, tinha aí um advogado com o nome do Dr. Tinoco, ele ia lá no interior atrás daqueles fazendeiros, levava até um colega, como guarda-costas, podia levar o Raimundo, às vezes ele ia até armado, lá para daqueles interiores. Então, no desenvolvimento do Brasil, não existe nada até hoje que não tenha dedo do BNDE, então é um orgulho de existir no Brasil, inclusive no mundo, porque o BNDES tem funções até no exterior, é um órgão que orgulha a quem trabalhou nele e quem hoje ainda se dedica a ele.

 

P/1 - Como era o dia a dia de uma portaria? Como era a responsabilidade na portaria?

 

R - A função de chefe de portaria era uma função meio espinhosa, porque ele tem que manter a disciplina dos colegas, então na época, a administração do banco exigia que os empregados andassem impecavelmente vestidos, eles davam uniformes, com gravata, sapato, aquela coisa toda e eu tinha a função de não deixar que eles andassem de qualquer maneira, então havia sempre alguém que não gostava, e o banco dava uma placazinha, que estava “BNDE”, era uma placa assim de metal que eles eram obrigados a usar, e eu fazia questão de que eles usassem, mas muitos deles saíam e não usavam a placa, então eu falei com o chefe de departamento, falei: “Vamos fazer o seguinte, vamos bordar, em vez de ser a placa, vamos bordar.” Aí bordamos. Eles ficaram todos aborrecidos, pediram para o chefe: “Mas não, doutor, o senhor deixa?” “Se vocês se comprometerem a usar plaquinha nós tiramos o bordado.” Aí tiramos o bordado e tal, mas de qualquer maneira era uma convivência muito boa. Também na época eles eram julgados pelo chefe para poderem ser promovidos, então o Dr. Roberto Campos criou um sistema de avaliação, ele avaliava um empregado com outro, criou até um negócio de quartil e ali o camarada ficava em primeiro quartil, segundo quartil e às vezes não era promovido; então era um meio da pessoa ter mais interesse pelo trabalho, e aí a gente podia fazer uma peneira para ver aqueles que eram melhores e piores, mas sempre deu certo, a maioria foi beneficiada. Sabe que em qualquer lugar, em qualquer repartição ele tem que ter um pouco de jogo de cintura para agradar o maximo que for possível, e eu na minha época fazia o possível.

 

P/1 - O que significou para o senhor trabalhar no BNDES? O senhor que fez uma carreira como era isso? Tanto na vida pessoal, como na vida efetiva?

 

R - Foi o maior orgulho da minha vida, porque sempre fui muito bem visto no BNDE, todos os chefes, inclusive do presidente ao mais humilde funcionário eu sempre tive grande relacionamento, inclusive eu tive um grande relacionamento com o Dr. Marcos Pereira Viana, que foi um dos presidentes que teve o BNDE que esteve por mais de nove anos e até hoje eu sou amigo dele, com certas reservas de questão funcional, mas todos me tratam muito bem e tenho o maior orgulho de trabalhar no BNDE. E mesmo aposentado, eu hoje não posso ver nada sobre o BNDE porque não me interessa, qualquer assunto do BNDE que falam na televisão, no rádio, no jornal, eu quero sempre estar a par, porque eu me sinto, ainda hoje, apesar de aposentado, um integrante do BNDE, pela minha história de ser um dos primeiros que tem no BNDE e ser um órgão que até hoje deu o máximo que pôde. Inclusive até hoje os seus funcionários aposentados são muito bem vistos, tem uma assistência médica de primeira linha, não falta nada, qualquer coisa estão sempre dando assistência e não há o que se reclamar. É um orgulho ter pertencido e ainda me considero que pertenço ao BNDE.

 

P/1 - O senhor sempre frequenta o prédio?

 

R - Frequento. Tem a nossa FAP, tem o serviço médico, e nós também temos uma média, que nós recebemos um salário, né, e às vezes para visitar alguns amigos que ainda existem até hoje. Então eu estou sempre aí no prédio.

 

P/1 – Então para finalizar. O que o senhor achou de ter participado desta entrevista? E ter contribuído com o projeto Memórias de 50 anos do BNDES?

 

R - Eu fiquei muito orgulhoso em participar dessa entrevista. Porque num modo geral a pessoa quando se aposenta ele fica um pouco esquecido, então o BNDE como tem muitas atividades às vezes ele até esquece um pouco do pessoal aposentado, não que eles queiram, mas pela estrutura, né? Mas eu fiquei muito orgulhoso e sempre participei de grandes eventos do BNDE e sempre que for preciso eu venho e este caso das memórias do BNDE foi uma das melhores coisas que eles fizeram para recompor a história do BNDE e aquele pessoal que possivelmente poderia estar esquecido e agora tem condições de aparecer. Eu só tenho que dar grandes parabéns para o BNDE pelos 50 anos e pedir a Deus que estes 50 anos se reproduzam mais 10 ou 100 vezes.

 

P/1 - Obrigada por sua participação.

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