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História

Guaranazal: minha segunda casa

História de: José Francisco Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

José teve dois grandes momentos em sua vida: quando o filho nasceu e quando viu seu guaranazal cheio de fruto! Com muita delicadeza e paixão, ele narra sua história, saindo de Maués para estudar em Manaus e como foi a volta e a descoberta de sua paixão pela zona rural da Amazônia.

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História completa

Deixei a cidade de Maués na década de 1959, motivado pela vontade que a minha mãe tinha de eu estudar. Como a minha irmã mais velha já estava em Manaus, fomos pra lá. Manaus tinha pouco mais de 300 mil habitantes, era uma cidade pequena. Era muito melhor estar numa capital pequena como Manaus, onde a fartura, principalmente de comida, era abundante, do que estar aqui em Maués.

 

Voltei para Maués em 1993, com 34 anos. Como aqui é minha terra, não vou deixar de falar bem dela: as praias lindas de Maués, a zona rural. Aqui eu posso ganhar pouco, posso até não ganhar nada, mas eu tenho vida. O interior do Amazonas, aqui, na nossa cidade, você ganha vida, porque é um município com pouca violência, um município que não tem crise de epidemias. No meu interior, nunca adoeci nos últimos anos que eu voltei. Por que que eu vou sair daí? Não há motivo. Gosto de ouvir o canto dos pássaros, o coaxo dos dos sapos… Essas coisas do interior! E hoje eu tenho amor à cultura do guaraná. O meu pomar de guaraná é a minha segunda casa, eu gosto de estar lá com eles. Eu me sinto fortalecido junto desse vegetal chamado guaraná.

 

O guaraná de Maués tem uma qualidade especial por causa do trato na hora da colheita: não deixamos ele fermentar, nós torramos ele muito bem no forno de barro. Nosso guaraná tem durabilidade até de mais de um ano dependendo do condicionamento dele, ele permanece com as suas características de origem.  Nós temos que fortalecer essa cultura tão bonita que herdamos dos índios. Guaraná é uma bebida indígena, né? Eu tenho sangue indígena na veia! A minha avó era índia, por parte de mãe, meus avós por parte de pai deviam ser negros na Bahia, mas por parte da minha mãe eram índios, eram sateré-mawé, que tinham o hábito de tomá essa bebida: o guaraná.

 

A minha maior alegria foi quando nasceu o meu filho. Depois eu vim ter uma alegria muito grande também, que foi num certo dia eu vi o meu guaranazal cheio de frutos, era aquela coisa maravilhosa e só quem sente aquela emoção de ver o fruto do seu trabalho, o resultado, é uma emoção! Quando se faz alguma coisa com uma expectativa não de ganhar de dinheiro, nem de ser o melhor, mas quando você vê a natureza lhe devolver uma coisa que você não sabia se ia acontecer e acontece, essa é uma história que eu não podia deixar de registrar! Por isso que eu trabalho com guaraná. A nossa maior alegria é ver o pomar no período de colheita e as árvores todas cheias de frutos!

 

Olha, eu quero que fique registrado. Tudo o que eu falei aqui foi baseado nas minhas experiências e pouca coisa foi da literatura. A história do nosso município é muito rica em alguns aspectos, mas quanto ao da cultura do guaraná ela é muito pobre ainda. Todos os boletins da Embrapa que diz respeito ao guaraná eu já li, mas eles são muito, muito limitados. Eles divulgam o quê? Como se planta, quanto se aduba, o qual é a perspectiva, mas não diz: “Olha, o guaraná isso, assim, assim, assim...”, detalhar quando começou, por que começou, não tem. Então, meus amigos, eu quero que fique registrado que no município de Maués existe uma cultura maravilhosa que é o guaraná e ela não deve ficar sem registro. Ela está aqui desde que o homem começou a beber a bebida, que foram os índios muito tempo atrás, há muitíssimo tempo atrás e que hoje está sendo levado para todo o Brasil e alguns outros países, mas tudo começou aqui em Maués!


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