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História

Grandes realizações de uma simples jornada

História de: Euro Ribeiro da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Euro nasceu em Pernambuco, teve uma infância boa e decidiu migrar para São Paulo, com 16 anos, em busca de trabalho e independência. Depois de uma viagem de seis dias no caminhão de um conhecido, chegou à cidade e foi morar com uma tia. Trabalhou numa imobiliária e aos poucos foi descobrindo São Paulo, aprendendo a andar pelas ruas do centro. Serviu o exército e era soldado quando os militares chegaram ao poder em março de 1964. Em outubro, deu baixa do exército e foi trabalhar numa rede de lojas na qual ficou durante 23 anos. Foi auxiliar de balcão, vendedor, subgerente, gerente e representante comercial. Trabalhou em lojas na Rua Xavier de Toledo, Rua Augusta, no Shopping Ibirapuera, em plena época da Jovem Guarda. Em sua entrevista descreve com detalhes o cotidiano de uma das ruas mais movimentadas da cidade naquela época, a Rua Augusta. Conta como conheceu sua primeira esposa, mãe de três de seus filhos e de como resolveu voltar a estudar, já adulto. Fez supletivo e foi aprovado no vestibular de administração na FMU. Emocionado, lembra-se da morte da primeira esposa e dos sete anos que passou sozinho com os filhos até encontrar sua nova companheira, com quem teve uma menina e dois filhos gêmeos.

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História completa

P/1 - Então, Seu Euro, primeiro obrigada por ter vindo dar o seu depoimento, vou pedir pra você falar de novo seu nome completo, o local e a data de nascimento. 


R - Meu nome é Euro Ribeiro da Silva, nasci na cidade de Igarassu, no Estado do Pernambuco, dia 05 de dezembro de 1945. 

P/1 - Certo. O senhor fala pra gente o nome dos seus pais e a atividade profissional deles? 

R - Meu pai é Severino Sarino da Silva, ele era, na época… Ele trabalhou na Polícia Militar de Pernambuco, era guarda de presídio e trabalhava na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Minha mãe, Raimunda Ribeiro da Silva, atividade do lar, e teve onze filhos, dez irmãos, comigo onze e todos moram em Pernambuco. 

P/1 - Fala pra gente o nome deles na “escadinha”? 

R - Certo. O primeiro irmão Eurestáquio Ribeiro da Silva, Elias Ribeiro da Silva, Eurisete Ribeiro da Silva, Elizabeth Ribeiro da Silva, Ediene Ribeiro da Silva, Edilene Ribeiro da Silva, Edna Ribeiro da Silva, Selma Ribeiro da Silva e Clécia Ribeiro da Silva. 

P/1 - Quase todos com ‘e’? 

R - É, naquela época tinha assim uma... Acho que era uma tendência de pôr todos os filhos com a mesma letra, um ou outro que saiu, a Heda, eu falei Heda? 

P/1 - Acho que sim. 

R - Heda Ribeiro da Silva que saiu com ‘h’. 

P/1 - Ah, foi com ‘h’? E você sabe como seus pais se conheceram? 

R - Olha, eles… Pelo que eu escutava falar, meu pai era polícia militar, e minha mãe trabalhava na fábrica de tecidos Paulista, que pertence a rede das Pernambucanas, lá na cidade de Paulista, em Pernambuco. Meu pai, como policial, morava próximo e se conheceram em algum evento, alguma festa, ou através de parentes, não sei exatamente como foi, sei que eles se conheceram, namoraram, casaram, e viveram juntos até meu pai falecer e agora recentemente minha mãe faleceu. 

P/1 - Ta. Então vamos voltar um pouquinho na sua infância lá em Pernambuco. O senhor lembra bem da região como que era, aonde que o senhor morava... 

R - Sei, lembro, lembro... Meu pai era... Como disse, ele era guarda de presídio, era destacado pra penitenciária Agrícola de Itamaracá, era um local onde tinha um grande presídio, na época, e tinha um local que era a vila dos funcionários, que era uma vila especial para as pessoas que trabalhavam no presídio, era afastado, cinco quilômetros mais ou menos. Fui criado lá até os 14 anos, mais ou menos. 

P/1 - E como que era essa... 

R - Ah, era uma vila que era próximo de uma rodovia que seguia pra Ilha de Itamaracá, pras praias da Ilha do Itamaracá, praia de Itamaracá, praia do Forte de Orange, praia do Pilar. Ali era o caminho onde passava o ônibus, onde passavam os caminhões, os carros, a vila era bem na divisa da rodovia. E era um lugar mais ou menos movimentado, na época era bom, tinha uma certa qualidade porque foi projetado para os funcionários, pras pessoas, pros guardas que trabalhavam no presídio, né? Foi projetado pra isso... Umas casas com infraestrutura boa, com banheiro, água encanada, porque naquela época tinha, já tinha essa vantagem, né? 

P/1 - Nessa época de infância o senhor tinha liberdade de ir pra essas praias mais longe junto com os seus irmãos e tal? 

R - Tinha, o caminho da praia era mais ou menos a três... Quatro quilômetros da nossa casa estavam localizadas essas praias. Todas as praias ali até o final da Ilha a gente frequentava todo fim de semana, ia pra praia, né? Ou às vezes vinha pra Recife, vinha pra Igarassu. Nasci na cidade de Igarassu, mas logo meu pai foi destacado pra Ilha, então vivi assim até os 14 anos nessa cidade, 14, 15 anos. Estudei, lá tinha escola, escola primária. Fiz a escola primária até o quarto ano como é hoje, o primário. Naquela época tinha o exame de admissão ao ginásio, e depois desse período vinha o ginásio, que hoje é o primeiro grau, segundo grau, mais ou menos. Prestei o exame de admissão para o ginásio na cidade de Igarassu e fui aprovado, fiz o ginásio até o terceiro ano, depois começou a vir minha vontade de ir pra São Paulo. 

P/1 - Pera um pouquinho, vamos voltar mais um pouquinho. Ainda nessa época de infância, nessa vila onde o senhor morava com os seus pais... O senhor tinha um grupo de amigos, os filhos dos outros funcionários ali? 

R - Tínhamos, nós tínhamos amigos, amizade, porque era mais ou menos umas 60 casas, então são 60 famílias, tinha muita criança. Cada família, naquela época, tinham seis, sete, oito crianças, ou até mais, né? Na minha casa tinha oito, nove, depois que eu vim pra São Paulo nasceram mais dois ou três. Tinham muitos amigos, muitos colegas, tinha jogo de futebol todo domingo, a gente ia lá ver o jogo e tinha muito evento lá, cinema a noite, tinha um local onde passavam filmes. Também tinha o engenho de açúcar, o engenho chamava-se Engenho São João, hoje está desativado, há muito tempo ta desativado, mas era um engenho de açúcar que fazia tipo açúcar mascavo. Eles usavam... Aquilo era passado pros funcionários e pra alguns do presídio também. Tinha muita coisa, eles davam leite pras famílias, tinha o local pra ir buscar leite, tinha… Era muito bom naquela época, a vida de criança foi boa. 

P/1 - Então vamos no seu período de escola, o senhor estudou e não era dentro dessa vila, não tinha... 

R - Dentro da vila tinha a escola que era bem próxima a minha casa, e essa escola era assim, era um galpão grande, todas as salas estudavam naquele mesmo galpão, a professora era uma heroína. Ela dava a aula pra todas as séries, desde que você ta... Era só dividido uma parte, quem entrava tava se alfabetizando. Depois [teve] outra divisão que já estava melhor, no terceiro ano até o quarto ano, foram quatro anos de aula assim, todo mundo junto. Tinha um período da manhã e o período da tarde, eu estudava no período da tarde, entrava mais ou menos uma hora e saía às cinco e meia, seis horas. Então todas... Uma só professora dava aula pra todas as séries. 

P/1 - O senhor lembra o nome dela? 

R - Era Raimunda, uma senhora alta, loira, com uma fibra imensa. Naquela época tinha uma régua lá no quadro dela... Quem vacilasse ou quem fizesse bagunça ela dava uma reguada, mas era muito bom. Apesar das travessuras eu consegui me alfabetizar lá e consegui... Porque, naquela época pra passar pro ginásio tinha que fazer o exame de admissão ao ginásio. Era tipo um vestibulinho, né, e eu fui, quem não conseguisse não entrava na escola pública. A escola pública era só pras pessoas que queriam estudar mesmo. Foi bom essa época também, eu gostei, essa época de criança até uns 13, 14 anos, até 15 anos eu morei nesse local. 

P/1 - Mas aí o ginásio já foi em outra escola?

R - Sim. Saí de lá, era mais distante, mais ou menos uns seis quilômetros [de distância] a cidade de Igarassu que é a primeira cidade depois da ilha. Lá tinha o ginásio, já era um município mesmo, município grande e eu ia estudar todo dia lá, estudava de manhã. Entrava logo cedo, tipo sete horas, oito horas, até uma hora da tarde, e fiz o primeiro ano, o segundo, o terceiro. Aí no terceiro eu vim pra São Paulo, já estava com 15 pra 16 anos. 

P/1 - Mas só uma coisa, o senhor falou que era mais distante, como que o senhor fazia esse trajeto? 

R - Ah, a gente ia de ônibus, tinha um ônibus que passava. Ia e voltava de ônibus, né? Agora, como garoto é muito travesso, todos os caminhões que passavam lá ah ________ o cara parava, via estudante, parava. A gente ia em cima do caminhão, economizava o dinheiro do ônibus, tomava um picolé depois. A volta era a mesma coisa, a gente saía da escola, vinha seis, sete garotos, entre meninos e meninas e a gente passava um carro e pegava carona, descia lá, economizava o dinheiro do ônibus. O ônibus era o meu pai quem pagava, a escola era gratuita, mas o ônibus, o transporte, ele pagava. 

P/1 - E nessa época de ginásio tinha alguma matéria que o senhor gostava mais? 

R - Assim, sempre gostei muito de matemática, gostava muito de história, né, todas as matérias em si, em geral eu tinha assim... Às vezes você passa a gostar da matéria com mais afinidade ao professor, né, você simpatiza mais com o professor, o professor simpatiza mais com você e você acaba gostando mais daquela matéria, aí... Mas matemática, geografia e história era muito bom pra mim. Naquela época o ginásio tinha francês, inglês, e latim. Ainda tinha latim naquela época, me enrolava todo (risos). Francês e latim não conseguia dominar, nunca consegui, também nunca procurei me aprofundar. Mas foi bom, não repeti nenhum ano, três anos com nota e não repeti, essa época foi a época do ginásio. 

P/1 - E quando terminou o ginásio? 

R - Não cheguei a terminar, porque o ginásio eram quatro anos, aí eu... No terceiro ano eu tava impaciente, né, queria trabalhar, aí meu pai falava comigo “olha meu filho, aqui não tem muita chance”, pra ir pra Recife morar sozinho também não via muita possibilidade, ou você deixa terminar o ginásio e o colégio pra poder pleitear alguma coisa de emprego, e trabalhar já com uma base, né? Tinha na família três tios que já estavam aqui em São Paulo, eles mandavam cartas, escreviam, os três se colocaram na Polícia Militar aqui de São Paulo. Já estavam fazendo curso pra cabo, pra sargento. Os três chegaram até suboficial,  seguiram a linha deles na polícia militar e chegaram a suboficial. Tinha uma vontade imensa de vir pra São Paulo, mas imensa mesmo, escrevia pra minha tia, tinha uma outra tia também que morava aqui em São Paulo, o marido dela era taxista e ela sempre escrevia, essa tia era a minha madrinha. Eu escrevi pra ela, falei pra ela: “tia, tenho muita vontade de ir pra São Paulo”, [perguntei] se ela me acolheria durante um certo tempo e ela fez uma... Me recebeu positivamente, me recolheu, ela escreveu pra mim que eu poderia ir. 

P/1 - Mas só uma coisa antes de continuar. O que o senhor esperava de São Paulo, o que tava escrito nessas cartas que te davam essa vontade? 

R - Era trabalho, trabalho. 

P/1 - E porque essa vontade de trabalhar? 

R - Vontade de trabalhar pra ter a minha independência financeira ou sei lá, independência... Satisfação pessoal, né? Progredir na vida… Eu lá em Pernambuco não via muito, tinha 16 anos e não via muita profundidade pro negócio, pra uma outra coisa, pra emprego, pode ser até que se tivesse ficado [lá] estaria melhor do que estou aqui, mas não via essa expectativa. Meu pai também não via muito isso, meu pai falava, você vai ser policial - o que ele não gostava muito - ou vai ser político. Eu também não via essa possibilidade de chegar a isso, a um vereador, começar a carreira política, alguma coisa assim desse tipo, não via essa possibilidade. Então a minha vontade era vir pra São Paulo, aí diante da afirmativa da minha tia, resolvi vir. 

P/1 - E como é que foi essa vinda, esse caminho? O senhor veio como? De ônibus? 

R - Eu vou te falar. Nós tínhamos um vizinho que também era da Polícia Militar, ele tinha um caminhão que transportava aqui pra São Paulo, ele vinha uma vez por mês pra São Paulo e voltava, e trazia cargas, e voltava com carga pra Pernambuco. Ele fazia isso nas horas de folga, nos dias de intervalo de trabalho. O meu pai tinha muita influência, em nome da amizade, foi conversando com ele, ele falou: “seu Sarino, quando o senhor precisar, se ele quiser ir eu levo ele, não tem problema, é um garoto”. Eu ainda lembro até hoje (FNM?), chamava (Fenemê?) que a gente chamava de (Fenemê?), grande, aí ele avisou pro meu pai “olha, em janeiro eu vou pra São Paulo”, isso no ano de 1961, “eu vou pra São Paulo, o menino quer ir?”, até escutei ele falar, aí meu pai falou “quer”. Marcaram o dia e eu já tinha comunicado pra minha tia que vinha, ela já tinha dado todas as coordenadas pra quando chegasse aqui em São Paulo. Subi no caminhão, ele transportava pra Transportadora Cinco Estrelas, era uma transportadora na Barra Funda em São Paulo. Ele falou pra mim: “olha, a transportadora é na Barra Funda”, eu não sabia nem o que era isso, Barra Funda, mas minha tia mandou uma carta dizendo pra ele “deixa o Euro na Avenida Celso Garcia, em frente a Pirane”, era uma loja famosa na época, uma loja grande e famosa, tipo magazine que existia na Avenida Celso Garcia. Ele conhecia a Pirane, empresa grande, uma loja grande, me deu o número do ônibus e o lugar onde descer do ônibus, era no ponto final. Naquela época era o ônibus Vila Sabrina, Praça Angelo (Comte?), a Ruaque a minha tia morava era no terminal do ônibus, saía do terminal do ônibus. Então pra mim foi fácil, dito e feito, peguei o caminhão, foi mais ou menos seis dias de viagem, naquela época caminhão grande, lento, né? E viemos de lá pra cá, foi divertido, eu era garoto, 16 anos, ele dirigindo o filho dele também dirigindo e eu, parávamos nos lugares, tomava café, almoçava, jantava e dormia nos hotéis, nas pousadas que existiam na estrada. Chegamos a noite aqui na transportadora, não sabia de nada, fiquei no caminhão, na cabine e ele foi, descarregou o caminhão, no outro dia de manhãzinha, tipo sete horas, oito horas saiu com o caminhão e me deixou no lugar combinado em frente a Pirane, a loja Pirane. Daí fui embora, agradeci tudo e não demorou muito passou o ônibus, era o Vila Sabrina, eu peguei, desci no ponto final, logo assim, oito, dez casas era a casa da minha tia, aí passei a morar com ela.

Morei durante uns seis, sete meses com ela. Ela me apoiou muito, me deu muito apoio, muito carinho. Depois disso veio mais um primo, também tinha a maior vontade de vir pra São Paulo, chegou esse primo também, ele foi morar na casa de um outro tio, de um dos meus tios que é Polícia Militar, que morava próximo. Ele morou uns dois meses, mais ou menos, e depois ele falou: “Euro vamos morar juntos?”, naquela época já tava trabalhando... 

P/1 - Trabalhando aonde? 

R - É, a história do trabalho é assim, eu fazia várias coisas. Primeiro quando eu cheguei, logo que eu cheguei, na primeira semana, o vizinho, os amigos, os colegas, pessoal amigo do meu primo falava: “tem uma imobiliária aí que dá emprego pra fim de semana”, emprego assim, faixas na rua, naquela época as imobiliárias faziam os loteamentos nos bairros e botava faixa na rua, então eu ficava numa daquelas faixas esperando os candidatos pra verem o loteamento. Chegava a pessoa: “onde é esse loteamento?”, “é em tal lugar”, até lembro de um deles, era no Jardim Picanço, em Guarulhos. Lembro desse loteamento grande, hoje é um bairro estruturado, um bairro grande em Guarulhos. Eu ficava naquela faixa, tinham seis candidatos ali esperando, daqui a pouco passava uma Kombi levava todos aqueles candidatos pra ver o terreno, o local. Comprava ou não, a minha posição ali era ficar esperando os candidatos, né, esperando os candidatos na faixa, isso era o trabalho de rua. De vez em quando eu ia também ver o loteamento, ia junto e voltava,  fazia isso de sexta, sábado e domingo. Depois um dos meus tios falou “olha, vamos procurar um emprego mesmo, você pode ficar fazendo isso de fim de semana e arrumar um emprego”, aí nós fomos. Tínhamos um jornal, naquela época o Diário Popular, né, era o jornal que dava emprego, jornal mais popular, nós fomos ver um emprego na... Ali na... Perto da Praça da Sé, na Rua Conde de Sarzedas, era uma marcenaria. Entrei lá pra lixar peças, fazer acabamentos com verniz, lixamento, só não lidava com máquinas de corte porque eu não tinha prática. Trabalhei lá, nessa marcenaria durante uns, sei lá, uns oito meses, de segunda a sexta. Sábado e domingo eu continuava nas faixas, na rua. E foi, dali eu fui pra outra imobiliária, também pra esse trabalho, fui pra outra e sempre ficava nesse trabalho de faixas, né? E trabalhando na marcenaria.

Depois disso eu apanhava o ônibus perto de casa, descia naquela época na praça Clóvis Bevilacqua, é uma praça que não existe mais hoje, foi demolida pra fazer o metrô Sé. Tinha um prédio grande ali em cima, que dividia a Praça da Sé e a Praça Clóvis Bevilacqua, não sei se [ainda] é ali onde tem os bombeiros, mas naquela época o ponto de ônibus era embaixo daquele prédio. Um fato curioso, eu me guiava por aquele prédio, porque não conhecia São Paulo, não conhecia a cidade, tinha uma vontade imensa de entrar ali pro lado da Rua Direita, Boa Vista, aí antes de ir pro ponto de ônibus eu dava uma esticadinha e ficava olhando o prédio pra me guiar, porque sabia que o ônibus estava ali, naquele local. Aí me guiava, comecei a entrar um pouco, entrar pra Rua Boa Vista, entrar pra Rua Direita, olhava e tinha uma estrela da Mercedes Benz que girava, em cima desse prédio, era um prédio de... Acho que, de 20 andares, era muito alto. Me guiava por aquela estrela. Chegava a ir até a Praça do Patriarca e voltava, e ficava olhando se via a estrela, onde eu via a estrela eu ia indo, que eu sabia que voltava por ali. Era fantástico naquela época, porque a Rua Direita era uma rua muito movimentada, era um ‘frisson’ tremendo, e toda hora tinha gente andando pra lá e pra cá. Essa época de garoa, garoava muito, as pessoas rápidas pra lá e pra cá andando e eu, às vezes, ia olhar pra estrela assim, batia de frente com tanta pessoa, trombava com outra pessoa. Cansei de trombar com as pessoas pra me guiar pela estrela, né? Foi assim que eu fui aprendendo, foi na Praça Patriarca, depois eu já sabia que dali eu ia... Atravessei pro outro lado do viaduto do Chá, onde tem o teatro municipal, comecei conhecer por ali, né? Depois fui pro outro lado da praça do Correio, tudo isso me guiando, começando a aprender a andar na cidade. Tinha uma outra linha de ônibus que saía da praça do Correio, era mais próximo da minha casa, daí eu passei... Quando eu sabia ir pra Praça do Correio pra Conde de Sarzedas, pegar aquele ônibus porque eu gostava mais daquela região. Andar naquele pedaço, aprender hoje onde é o metrô São Bento, subia por ali e tal, saía na Praça da Sé. E foi assim durante uns oito meses, aí nisso, nesse andar, nesse conversar com as pessoas conheci um rapaz que “olha, você ta precisando de emprego?”, ele me convidou “você ta precisando de emprego?” eu falei “to”, “ah, tem um escritório aí, você não quer ir lá trabalhar no escritório comigo?”, eu falei “o que é?”, “ah, uma empresa de telefones” aí eu falei “vamos lá”. Um belo dia fui lá com ele, era na Rua 24 de Maio, já mais pra frente, quase chegando na República, como eu já sabia andar por ali, atravessar o viaduto, fui com ele. Cheguei lá, era uma empresa de limpeza e manutenção de telefones, chamava Desinfeta Fone, a empresa. Então, o que era isso? No telefone... Eu ia visitar os escritórios. Ali no Centro era imenso, então eles tinham um contrato. O telefone quebrava ou caía, porque eram aqueles telefones pretos, antigamente batia e quebrava o “fone”. Eu trocava a parte interna, né, trocava, as vezes, o local onde a pessoa falava, ou trocava até o aparelho todo, fazia a manutenção e passava um Lysoform pra desinfetar, limpava, deixava tudo organizado. Quando não tinha nada pra trocar, só limpava o telefone, tinha uma fichinha, a pessoa assinava, levava pra empresa e era o controle deles pra depois cobrar o serviço, era uma limpeza, uma coisa paralela, só não fazia a parte técnica do telefone, mas a limpeza e manutenção a gente fazia. Através dessa empresa conheci ainda mais São Paulo, comecei a andar pelos bairros, tinha a Barra Funda, Santo Amaro, Brooklin, Cambuci, eles davam dica de qual era o ônibus que pegava, [pra] ir e voltar. Fiquei... Nessa época já era ano 1962, 1963, nessa empresa eu trabalhei uns três anos mais ou menos, 1962, até 1963. Daí chegou a época de servir o exército, né? 

P/1 - Então só um pouquinho, parar um pouquinho. O senhor gostava.... Como que eram esses trajetos todos por São Paulo, o senhor descreveu muito bem, o senhor gostava? 

R - Ah, era fantástico pra mim, eu descobri o desconhecido né, era uma satisfação pessoal... 

P/1 - Não assustava o tamanho da cidade? 

R - Assustava, assustava, assustava muito, tinha muito cuidado porque muita gente contava histórias, “olha cuidado porque tem pessoas que enganam as pessoas, matam”, tinham muito aqueles jornais que saíam notícias de pessoas que morriam, de pessoas que eram enganadas, mas eu me esquivava muito dessas coisas, e procurava ir pro trabalho, voltar e ir conhecendo. Era assustador, mas era prazeroso enfrentar o desconhecido, né? Aquilo que eu não sabia o que era, às vezes onde eu ia sair pra voltar pra onde eu conhecia, mas eu tava sempre... Eu lembrava das aulas de História, dos desbravadores que iam pro interior procurar minérios, essas coisas… To desbravando São Paulo. A minha idéia era essa de que tava desbravando, conhecendo São Paulo, desbravando a cidade. E foi assim durante todo esse período até chegar a hora do exército. Me apresentei, local de apresentação no quartel do Ibirapuera, fui lá, me apresentei, ele falou “olha, o mês de dezembro ta dispensado, aí você pode vir pegar...”, mas eu disse: “não, mas eu quero servir”, “ah, você quer ser voluntário pra servir?”, “quero”, “então entra naquela outra fila”. 

P/1 - E por que o senhor queria servir? 

R - Porque eu achava que iria fazer uma carreira no exército né, tinha expectativa de ficar no exército. Daí eu fui pra aquela fila que era dos voluntários, ia lá, dava o nome, isso era fim do ano de 1963. Aí tal dia se apresentar no Quartel de Quitaúna, trem militar sai da Praça Júlio Prestes, tal dia se apresentar em janeiro de 1964. Continuei trabalhando no mesmo emprego que trabalhava até chegar o dia de... Informei pra empresa olha, to... “Vou servir o exército”, “não, fica por aqui até chegar a época, ganha seu dinheirinho”, ficava lá, né? Nessa época a gente tava morando sozinho, esse primo que veio comigo... A gente alugou um quartinho, um anexo de uma casa que tinha em frente a casa da minha tia, tinha um anexo, a gente alugou, comprei os móveis da cozinha, meu primo comprou os móveis do quarto. A gente passou a morar junto, meu primo trabalhava em tecelagem, ele era tecelão, ainda é, eu acho, deve ta aposentado e eu trabalhava nessa empresa, nessa atividade. Nós moramos juntos uns dois anos e meio, três anos mais ou menos, depois meu primo resolveu sair, mudou de tecelagem, porque ele trabalhava no Tatuapé mais ou menos, naquela região, aí ele mudou pra lá e eu fiquei sozinho. Aí minha tia falou: “ó, se quiser voltar pra cá sozinho, você ta aí só e tal, pode voltar”, falei “não, vou ficar mais um tempo aqui”, fiquei até casar depois, que é outra história.

No dia de apresentação no exército... Fui me apresentar e entrar na fila, corta o cabelo, raspa a cabeça, raspou, ainda tinha cabelo naquela época, tinha o cabelo tipo militar, entra em forma e foi aquela, aquele processo de pegar material no depósito, material pessoal, sapato, coturno, farda, farda de sair, farda de ficar no exército, boné de ficar lá dentro, depois tinha outro de sair, tinha roupa de folga e tinha roupa interna. Cada um com a chave do cadeado do seu armário, tinha a numeração, o número que você recebe lá você põe no seu armário, daí a responsabilidade é sua no quartel. Tudo o que você perder você vai ter que pagar na hora de sair do exército. A minha expectativa era servir um ano, mas eu falei não, vamos ver se eu fico por aqui pra fazer carreira. Continuei morando lá com a minha tia... Lá sozinho e com a minha tia, porque morava... Tava sozinho, ia fazer as refeições na casa dela, depois ia dormir só, e continuei ali. Entrei no exército e continuei morando no mesmo local. Comecei a conhecer as garotas, vizinhas, amigas, naquela época tinha muito bailinho nas casas, a diversão eram os bailinhos no fim de semana, né? Quando tinha aniversário, algum evento, aproveitava e fazia um bailinho e o aniversário, quando não tinha aniversário era só bailinho, chamava-se bailinho antigamente. A música na época era Roberto Carlos, Ronnie Von, Ronnie (Cor?) e todo esse pessoal da Jovem Guarda, né, era o que dominava nos bailes, Ray Coniff, Jhonny River, a gente escutava muito essas músicas nos bailes e conhecia muitas garotas, namorava com uma, namorava com outra, saía, passava um tempo ficando, né, como hoje diz ficando, namorando e depois foi passando esse tempo.

Depois comecei a servir o exército,  aí começou... Entrei no exército e ficamos um período interno, acho que, se não me engano, 40 dias interno, só pra aprender a marchar, aprender a doutrina militar, as ordens, obedecer as ordens e conhecer os superiores, conhecer as pessoas pelas insígnias, sabe? Às vezes não sabe nem o nome da pessoa, mas sabe que ele é um capitão, um tenente. Passou o tenente você levanta, faz a reverência pra ele e quando ele vai embora você volta a sentar. A vida de quartel é isso, tem aquela disciplina militar, comecei a não gostar muito daquilo não. Terminou essa quarentena de entrada, aí a gente poderia vir pra casa todo dia, de segunda a sexta, quatro horas era dispensado o pessoal, quem tava normal ali, quem não dava alteração. Quem desse alteração, perdesse alguma coisa ou desobedecesse um superior ficava de serviço, ficava no castigo. Se o oficial passasse e não levantasse e cumprimentasse, ele... “soldado se apresente lá, seu nome, seu número e tal” aquele já tava de serviço, não saía. Além disso, tinham as escalas, porque tinha a vila militar, tinham vários postos e cada posto ficavam três pessoas fazendo guarda. Justamente essa guarda era pras pessoas que davam alguma alteração durante o dia, e durante a noite ficavam lá. Eu procurava nunca dar alteração pra vim embora todo dia, segunda a sexta era essa rotina, sábado não ia no quartel, domingo não ia, na segunda-feira se apresentava de novo. 

P/1 - Então você tava falando que segunda-feira se apresentava de novo no quartel... 

R - Se apresentava de novo no quartel e foi isso até chegar fim de março de 1964, que foi a época da revolução, né? Começou a dificultar a saída em meados de março, não lembro bem quando, uma semana antes do fim de março, no dia 20 por aí, às vezes a gente ficava sem sair, às vezes saía só na quarta-feira. Quando chegou na última semana de março, prontidão geral, todo mundo aquartelado lá, superiores, soldados, todo mundo, quartel cheio, as camas, o dormitório lotado, e ficamos lá. Sei que no dia 30 de março a noite tocou o que chamam de alvorada, todo mundo [tinha que] levantar na situação que estiver, botar a roupa e se apresentar no pátio. Foi feito isso, tocou a alvorada, deviam ser umas quatro horas da manhã, três horas, quatro horas da manhã, todo mundo em forma, entramos num caminhão e rumamos aqui para o ginásio do Ibirapuera. Viemos e não sabíamos o que tava acontecendo, naquela época, politicamente eu não tinha muito interesse nas coisas, era garoto, tava preocupado com outras coisas, mesmo servindo o exército não sabia o que tava rolando, o que tava acontecendo. Os superiores não “transpiravam” nada, ninguém avisava, ninguém falou o que era, entrar em forma, é ordem, entrou em forma, sobe no caminhão e vai embora. Viemos pro ginásio do Ibirapuera, chegamos mais ou menos umas sete, oito horas da manhã no ginásio, aquela fila de caminhões, porque lá tinha o quarto Regimento de Infantaria que era onde eu servia, tinha o (Gcam 90?) que era a companhia antiaérea ao lado. Esses dois quartéis unidos de Quitaúna até chegar aqui no ginásio do Ibirapuera acho que tinham uns 70 caminhões, 80 caminhões, ônibus, jipes, enfileirados. Chegamos no ginásio do Ibirapuera, ficamos nas arquibancadas, cada um com o seu material. Esperamos vir a cavalaria de Pindamonhangaba e mais dois quartéis de Pirassununga, outros que eu não lembro bem, mas sei que o ginásio lotou de companhias, os soldados todos ali, ficamos o dia 30 todo, dia 31 de março foi quando eclodiu a revolução de 1964, né? Quando foi... Por lá a gente já começou a saber o que tava acontecendo, alguns ficavam desesperados que ia ter guerra, outros pensavam que... Mas os superiores não transmitiram nada, a ordem era: chegou a hora vamos rumar. Chegou a hora certa, todo mundo de volta pro caminhão, cada companhia em tal caminhão, aí rumamos pra Curitiba. Fomos apoiar o quartel de Curitiba, saímos daqui de madrugada também. Primeira parada em Registro, cidade de Registro, era mais ou menos uma hora da tarde nós paramos lá, descemos pra fazer o lanche, hora do almoço, já deveria ter o campo avançado que já estava lá preparando a refeição. A refeição era uma refeição balanceada, era um saco de papel, tinha ovo cozido, pão com manteiga, uma caneca de chá, isso foi o nosso almoço lá, aquela refeição que eles chamam de ração. Em tempos de guerra eles não vão ta ali cozinhando, esquentando, é uma coisa prática, então nós comemos aquilo, né? Ta tudo bem pra mim... Gostei. Soldado tinha que servir. Ali nós fizemos aquela refeição e rumamos pra Curitiba, chegamos lá de madrugada também. Chegando lá ficamos no pátio do quartel de Curitiba, foi servida uma refeição mesmo, quente, comida, carne, salada, tudo, almoçamos e no outro dia de madrugada também, de manhãzinha assim, antes de amanhecer o dia nós fomos ficar num ponto estratégico. Lembro que era perto da rodovia, não sei, era, senão me engano, a rodovia que vai pro Rio Grande do Sul. A gente descia num lugar alto e a gente via a cidade de Curitiba ali embaixo, a uns quatro, cinco quilômetros e ficamos naquele ponto onde cruzava a rodovia, era um ponto estratégico dele. Ali ficou a minha companhia, que era o exército (quarto ______?) completo, o (Gcam 90?) que era a companhia antiaérea, tinha uns canhões antiaéreos e os outros, a cavalaria também tava num ponto mais pra frente, outra infantaria também tava mais pra frente e nós ficamos ali durante uns 15 dias. Tinha um galpão, tipo de uma escola, acho que tava desativado, quando tínhamos que descansar ou dormir ia pra lá pra se proteger da chuva e da garoa. Era uma garoa imensa, interminável, nunca parava de garoar e frio, lá havia muito frio, dia muito frio lá. Apesar da roupa, capa, de tudo, botina... Sentia muito frio, ficamos assim uns 15 dias. Também não sabia o que tava rolando, o que tava acontecendo, ninguém falava nada, tal grupo fica lá, tal grupo chega e aqueles vão descansar, era só isso que acontecia e ninguém falava nada. Depois disso acho que quando abrandou mais a coisa nós voltamos, voltamos pra Osasco, pra Quitaúna, pra companhia, ficamos em Quitaúna, chegamos lá e ficamos durante uns 15 dias sem sair do quartel de novo.. Daí lá fazia esporte, aprendia a lidar com armas, tinha aula todo dia, instruções todo dia, tinha esporte, criaram olimpíadas interna pra gente, só assim pra desenvolver quem gostava de futebol, gostava de corrida, mas não saía do quartel, ficava lá. Depois de um período, não sei quantos dias mais ou menos, uns 15, 20 dias, durante esse período um belo dia a gente tava lá no pátio, chegou um soldado lá e falou: “olha, o oficial de dia ta precisando de dois voluntários pra se apresentar lá”, aí ninguém queria, né, porque era pra ir buscar coisa pro tenente, pegar e carregar uma coisa que tava fora do lugar, serviço de voluntário era isso, era fazer o que chegava lá e... Eu falei pra um colega meu que tinha o armário junto com o meu, falei: “vamos lá, Vieira?”, “Vamos lá Ribeiro”, a gente foi, eu e o Vieira nós fomos lá, nos apresentamos, ele falou: “olha, nós estamos precisando de duas pessoas pra trabalhar aqui no cassino dos oficiais”, eu falei: “tudo bem”,“vocês querem?”, “querem”, falei: “o que é pra fazer lá?”, “pra servir os oficiais, o que eles quiserem”, “tá bom”, falei: “como é?”, “ah, vocês estão dispensados de serviço, de tirar plantão e pode ir embora todo dia”, porque tinha uma turma que ficava durante o dia e outra turma que ficava a noite, aí falei: “pra já”, peguei meu material. Tinha um alojamento no cassino dos oficiais dos soldados, eu e o Vieira pegamos o nosso material, tiramos de lá e ficamos no cassino. Foi uma beleza aquilo lá, porque nós passamos a fazer a refeição dos oficiais, né, naquela época eu comia muito porque era garoto e gostava, tinha muito fome, porque garoto tem muita fome. Nós ficávamos lá, aí o que aconteceu? O cassino dos oficiais lotado, tinha assim uns 30, 40 oficiais, aspirante, tenente, capitão, major, todo mundo, quando nós chegamos lá nós falamos: “nossa, quanta gente”. Tinha um barzinho, com a máquina de café, sempre cheia, refrigerantes, você ficava ali dentro daquele espaço, o oficial levantava a mão, “sim senhor”, “traga um refrigerante”, levava, “me traga um café”, levava, “me traga o jornal”, você levava, “me traga..” qualquer coisa assim que ele desejava, um jogo de xadrez, porque lá tinha muito jogo de xadrez, esse eu não to gostando e levava, recolhia outro, depois que ele tomava o café recolhia as xícaras e levava pra lá, tava sempre de atenção ali a serviço dos oficiais. Depois que eu fui saber que os oficiais ali estavam presos, recolhidos, tinham mais ou menos uns 70, 80... 

P/1 - Mas recolhidos por quê? 

R - Pela revolução, por causa da revolução de 1964. E os oficiais na situação que eles estavam ali… Eles eram muito amáveis com a gente, era muito diferente do outro tratamento, soldado e tal, a gente ia... Não, não precisa, né? Precisa toda hora fazer a reverência, continência, não, vem aqui e tal. Aí a gente... Pra atender tinha que botar o boné “não, não precisa pode ir sem a cobertura”, chama-se cobertura, né, “pode vir”, aí chegava lá e depois criando aquela amizade, aquele vínculo com eles e de um tempo ficava até mais amigos da gente. Sempre respeitando o padrão deles, a posição deles. Fiquei nesse cassino até chegar outubro, foi mais ou menos de abril a outubro, foi uma beleza, chegava, não tinha hora pra chegar, podia chegar... Combinava com o outro, com outro da outra turma, podia chegar nove horas lá no quartel e saía às quatro horas todo dia, todo dia. Fiquei esse período, até outubro que é a primeira baixa, é o que eles chamam, a primeira turma que sai do quartel naquele ano, cumpre sua obrigação militar. Nisso teve uns cursos pra quem queria seguir pra cabo, fazer curso pra sargento, eu pensei não vou fazer, não quero. Achei que não deveria ser aquilo pra mim. 

P/1 - Só uma coisa antes de prosseguir. Nesse período todo de março a outubro que teve... Os militares chegaram ao poder e o que se ouvia dentro do quartel, o que se falava? 

R - Nada. 

P/1 - Nada? 

R - Nada. Dentro do quartel nada, alguma coisa que eu ouvia era fora do quartel, quando saía escutava no rádio, já tinha televisão naquela época, escutava na televisão, escutava as pessoas falarem, mas lá dentro era prontidão. Eles não comentavam nem mesmo os que estavam ali, quer dizer, a gente tinha acesso de ta conversando, sentava com o oficial pra conversar, tava lá pra servi-los. Eles não “transpiravam” nada ali dentro, a gente não sabia. Depois comecei a saber que o Miguel Arraes foi preso, que outros governadores foram presos, outros estavam exilados e sabia por fora, comprava jornal, lia, saíam as notícias, também não saía muita coisa, né, mas o que saía a gente lia e começou a ficar... Quando comecei saber disso aí eu desisti de fazer carreira mais ou menos... 

P/1 - Não concordava? 

R - Não, não concordava, achava que era muito opressivo, né, me sentia oprimido com aquilo, com aquela situação, mas a gente era muito bem vindo, os soldados eram muito bem vistos pela população. Quando você entrava no ônibus todo mundo olhava pra você com olhar de gratidão, de confiança, e a gente vinha pra casa com uniforme, né, uniforme de saída, novo, bonito e a gente vinha pra casa com esse uniforme, bonito e todo mundo dava muito valor ao exército naquela época, como hoje ainda dá, mas naquela época acho que as pessoas tinham mais confiança, né? E mesmo assim não quis ficar não, resolvi dar a baixa, a primeira baixa é pras pessoas que nunca tiveram nenhuma alteração, nunca foi preso, nunca ficou de serviço, não tem nada na ficha, a ficha ta limpinha, sai na primeira baixa, que foi no dia 25 de outubro, que é dia do soldado. Naquele dia eles botam todo mundo em forma e o boletim do dia, soldado tal, tal, tal, tal, tal e tal, cumpriram a sua obrigação, aí o oficial do dia vai lá, cumprimenta a gente, vai lá o comandante também, entrega o diploma pra você, que é a baixa do exército, cumpriu sua obrigação. Saí do exército, fui pra casa, voltei a minha vida de procurar emprego. Lembro que era numa quarta ou quinta-feira, nós saímos, comprei o jornal, na sexta-feira fui ver uma vaga na Rua Xavier de Toledo, era uma empresa e tinham várias lojas, quatro, cinco lojas, fui lá, me apresentei pro gerente, fiz uma pequena entrevista e ele falou: “olha...” falei: “acabei de sair do exército”, “ah, você saiu do exército agora? Garotão do exército tal. Vai fazer um teste lá na fábrica”, que era na Vila Guilherme, a fábrica da empresa, tinha loja e fábrica. Fui lá, me apresentei pro departamento pessoal e fiz um testezinho de matemática, alguma coisa de matemática, alguma coisa de conhecimentos, escrevi alguma coisa lá no... Ele falou “na segunda-feira você se apresente lá na loja pra ver se você passou ou não, se vai começar ou não”. Na segunda-feira da outra semana me apresentei “ah, você ta aprovado, você vai ficar aqui, você vai ficar como auxiliar de balcão”, era uma loja, tinham vários balconistas, fiquei lá pra ajudar, começar a ajudar os vendedores a fazer pacotes, aprender a atender o cliente. Fiquei lá na Rua Xavier de Toledo, ao lado do Mappin, a loja, aí fui lá, fiquei muito tempo nessa loja, aprendi, depois de três meses fui promovido a vendedor, fui registrado. Trabalhei lá durante mais ou menos cinco anos. Aprendi a fazer tudo, tudo referente a atendimento de cliente, atendimento de balcão, sempre vendia bem e era sempre elogiado porque batalhava pra vender, tinha minha ... Ganhava, naquela época, fixo e comissão sob as vendas.

Naquela época a empresa tava em fase de crescimento, empresa instituiu uns prêmios, os melhores vendedores de cada loja, porque tinham três, quatro lojas, os primeiros vendedores ganhavam um curso no Senac naquela época, era no Senac da 24 de Maio. Fiz curso de vendedor interno, externo, balconista, empacotador, vitrinista, porque tudo isso era necessário nas lojas, né? Apesar de que a empresa tinha um vitrinista que fazia todas as coisas, mas eu ajudava o vitrinista, fiz... Até noção de como expor mercadoria, deixando mercadoria melhor exposta, chamar atenção do cliente pra determinados detalhes. Como eu tinha uma letra mais ou menos boa, com esses pincéis mágico fazia preços, todos os preços da loja eu que fazia, além de trabalhar e continuar vendendo. Depois de uma época surgiu uma vaga, necessidade na filial da Rua Augusta, fui transferido pra Rua Augusta, transferido pra lá, era uma loja grande, mas tinham menos vendedores, tinham uns quatro ou cinco só, era eu, o gerente, a sub gerente, e três vendedores, fiquei ali trabalhando na Rua Augusta, naquela época Rua Augusta era o point de tudo que acontecia. 

P/1 - Descreve um pouquinho a Augusta. 

R - Ah, Augusta naquela época era aquela onda de carros correndo muito, subindo... Porque eu trabalhava lá no número 2500, mais ou menos, e é aquele ladeirão até chegar na Paulista, né, os carros subindo a toda, tinha aquela música “quando entro no meu carro, não vejo ninguém pela frente...”, a moçada daquela época subia aquela rua toda, os trólebus... Naquela época subiam troleibus, o pessoal agarrava atrás, aquela garotada e ia agarrado naqueles troleibus subindo, tudo que acontecia na época tinha muita loja de disco, perto da loja que eu trabalhava tinha o Museu do Disco, era uma loja grande de discos e ali iam os artistas, ia Gilberto Gil, Caetano Veloso,  Rita Lee e de vez em quando aparecia uma figura lá diferente, um cantor diferente, Ronnie Cord, Jairzinho. Naquela época eles estavam começando aí você ouvia muito, porque a loja era do lado. Música da Wanderléia, Roberto Carlos, ouvia direto, porque a loja era vizinha a nossa. De vez em quando tinha aquela promoção, aquele monte de gente era algum artista que ia chegar lá, né? Chegava lá, fazia uma visita na loja de disco, saía e a Rua Augusta, que era movimentadíssima. Era o que acontecia, muitos bares, lanchonetes, gente circulando e muitos carros. Tinham aqueles carros grandes, aquele pessoal que chamava os “playboys da Rua Augusta”. O movimento acontecia naquele pedaço que eu trabalhava. 

P/1 - E o senhor frequentava essas lanchonetes? 

R - Frequentava. Na hora do almoço a gente ia almoçar nesses lugares, quando saía da loja ficava por ali fazendo uma paquera, né? Agora a noite eu não frequentava, porque a noite ia pra casa, nessa época já tava namorando, já tava firme assim pra... Querendo casar, né? Daí acontecia assim, durante o dia trabalhava das nove até as 18 horas, foi muito bom, trabalhei durante uns cinco, seis anos, aí nessa época já, nos anos 1970, 1971, casei... 

P/1 - Então peraí, como é que o senhor conheceu a sua esposa? 

R - Minha esposa eu conheci... Era a minha vizinha, morava num anexo, numa casinha, ela era vizinha em frente a casa da minha tia. Namorei com todas as outras vizinhas e deixei aquela por último (risos), porque eu tinha mais intenção de namorar certo, falava namorar firme naquela época com ela. As vizinhas, nos bailinhos... Namorava uma semana com uma, outra semana com outra. Chega uma época que eu falei não, agora eu tenho que tomar a decisão, acabou o repertório por aqui (risos), todo mundo já tava me olhando meio assim, né, ah, ele namorou fulana, a menina gostava dele e ele largou. Aí falei não, agora vou começar a namorar firme. Um belo dia, acho que foi até num aniversário de uma vizinha também, começamos a namorar. Era bailinho, a gente frequentava os bailinhos das casas, na casa dela, em outras casas e era aquela paquera, né, era gostoso, depois como já era muito conhecido da família, eles me acolheram muito bem, fui falar com o pai dela, com a mãe dela, que eu ia começar a namorar com ela. Aí tudo bem, ele falou: “olha, eu quero uma coisa séria” “não, tudo bem”, eu já tava trabalhando, já tinha a minha renda, trabalhava registrado e tudo, já tinha trabalhando uns cinco anos na Rua Xavier de Toledo, mais uns três ou quatro na Rua Augusta, né? Dito e feito em janeiro de 1970 casei. 

P/1 - Como é o nome dela? 

R - É Vera Lúcia, ela era... O pai dela era húngaro e a mãe dela alemã, era loirinha, loirinha mesmo sem água oxigenada (risos), de verdade. Casei, tivemos três filhos. Em 1972 nasceu a minha primeira filha, nome dela Suzane, 1973 nasceu o primeiro filho, Euro, botei o meu nome, e em 1973 nasceu o Edson, tivemos três filhos seguidos. 

P/1 - Só uma coisa, vocês casaram e foram morar onde? 

R - Ah, sim. Nós casamos, aí nesse período de namoro e de noivado - porque  teve o noivado - nós estávamos procurando casa, até tinha me inscrito no sindicato dos comerciários, saiu a casa, mas aí um dia nós fomos ver e era um lugar meio complicado, onde eram as casas e era um lugar assim... Não sei hoje onde era, mas era pro lado da Cachoeirinha, naquela época era considerado um lugar distante, hoje não, né?

Naquela época os sindicatos faziam casas pros sindicalizados, como era do sindicato do comércio comprei essa cota. Ela ficou preocupada porque não tinha gostado muito do local. Em conversa com o pai e a mãe dela, no fim de semana a gente conversando ele convidou pra fazermos uma casa anexa a dele, ele morava e tinha um terreno grande, tem duas divisas ele falou: “olha, se quiser você vende essa cota e faz um... Constrói uma casa aqui do lado e fica aí”, construímos numa divisa da dele e tinha um corredor comum no meio. Construímos a casa com dois dormitórios, cozinha, quarto e uma área... Casa pequena, construímos. A família toda ajudou, aquela época chamava de mutirão, né, era muito popular esse mutirão e tudo... Um tio era encanador, outro era pedreiro, outro era eletricista, pai dela também sabia de tudo um pouco. Peguei aquele dinheiro da cota, vendi a cota que tinha do sindicato, peguei aquele dinheiro, compramos o material, terreno já estava lá, né, era um quintal. A gente ergueu a casa e quando eu casei a casa tava pronta. Fomos morar nessa casa, no mesmo terreno dele. Isso foi no ano de 1971, 1970, 1971. Fizemos um acordo verbal com o meu sogro, que era uma pessoa muito boa, eu falei: “olha, vou morar aqui até eu poder comprar outra casa e mudar” ele falou: “você mora aí o tempo que você quiser, não tem tempo determinado, você mora o tempo que você precisar”, aí falei: “quando eu sair daqui o senhor faz da casa o que quiser, aluga, faz uma renda pro senhor”, aí fizemos essa troca verbal e realmente isso aconteceu. Tivemos os três filhos lá, eles cresceram e continuei trabalhando na mesma empresa. Depois dessa época, já nos anos 1973, 1974 voltei pra Rua Xavier de Toledo, para matriz da empresa, voltei pra lá e fui promovido a subgerente dessa loja, porque o gerente tinha sido transferido. Surgiu o Shopping Iguatemi, e o gerente tinha sido transferido pra lá, o subgerente assumiu a loja e fui de vendedor para subgerente. Fiquei lá trabalhando durante mais uns cinco, seis anos na loja Xavier de Toledo, voltei pra lá como subgerente. Passei a fazer todo o movimento burocrático da empresa, registro de notas fiscais, compras, avaliação de pedidos, comecei a fazer toda a parte burocrática, o caixa da empresa, fazia tudo isso e o gerente assinava, passava pra diretoria. Cresci lá, nisso meus filhos também crescendo, foram pra escola, começaram a se desenvolver e eu trabalhando na mesma empresa. Chegou na época que surgiu o Shopping Ibirapuera, uns anos depois, e fui candidato a assumir a loja do Shopping Ibirapuera, candidato firme, tinham várias outras lojas, cada loja tem o seu subgerente, né? E tinha um pessoal, às vezes, até mais antigo que eu, mas acabou ficando comigo. Tinha uma certa afinidade com os donos da empresa e gostavam muito de mim, sentia isso, aí fui, recebi a loja com o gerente nos anos... 1978, porque abriu o Shopping Ibirapuera. Continuei trabalhando na mesma empresa, fui transferido, passei a ser gerente e trabalhei lá até o ano de 1988. Entrei em 1964 nessa empresa e saí em 1988, trabalhei 24 anos numa empresa só, só que mudando de loja pra loja. Às vezes o gerente de uma loja tirava férias e eu ia cobrir, enquanto eu era subgerente ia cobrir. Trabalhei em todas as lojas da empresa, Rua Augusta, tinha na Celso Garcia, no Shopping Iguatemi, no Centro, quando o gerente do Centro tirava férias, quando do Iguatemi tirava férias eu ficava, quando do Brás tirava férias eu ficava. E fui aprendendo tudo... A parte de todas as lojas eu conhecia tudo, por isso que fui candidato e recebi a gerência dessa loja. Trabalhei de 1978 até 1988, nesse período teve uns problemas na família, a fábrica se desligou das lojas, família se dividiu um pouco, aí nos anos 1986, 1987 começaram a ter umas mudanças e começou... Acharam que o negócio não era muito mais viável, venderam as lojas, venderam do Centro, do Shopping Iguatemi, do Brás, só ficou a minha loja, do Shopping Ibirapuera, durante o ano. Chegou no fim só aquela loja, também eles acharam que o negócio... A economia teve aquelas viradas, né, do Plano Collor, Plano Bresser, plano isso, plano aquilo, as dificuldades foram aumentando, os aluguéis crescendo muito, a inflação corroendo muita coisa. Resolveram passar o ponto também. Daí saí da empresa, saí em 1988. Como tava prevendo que isso ia acontecer há mais de um ano antes, nesse período também resolvi voltar a estudar, porque tinha parado no ginásio. Nos anos 1970 já, anos 1978, não, nos anos 1970 sob a influência do gerente da Rua Augusta, ainda naquela época, ele era árbitro de futebol de salão, era juiz de futebol de salão, ele falou: “Euro, você não quer fazer um cursinho também pra ficar como auxiliar?”, hoje chama bandeirinha, né, “depois você passa a árbitro”, eu falei: “vou”. Fui, fiz o curso na Federação, fui aprovado, passei a ter o emprego da loja e o emprego de árbitro e auxiliar. Tava gostando, trabalhei uns cinco, seis anos lá como... 

P/1 - No futebol de salão? 

R - Futebol de salão, naquela época era Federação Paulista de Futebol de Salão, tava se estruturando, crescendo e fazia jogos em todos os clubes de São Paulo. Fiz jogos, na Penha, Hebraica, Palmeiras, Corinthians, Ipiranga, no interior de São Paulo todo, viajamos pro interior de São Paulo todo, porque tinha um campeonato municipal e tinha um campeonato estadual de futebol de salão, Santos, Itapeva, Votorantim, todo lugar tinha os clubes. A gente fazia, eram filiados da Federação. Depois fiquei meio assim, me envolvia muito, aquilo me deixava muito apreensivo, daí eu falei: “vou sair, não vou ficar mais não, vou ficar só com a loja mesmo”. Fui lá conversar com o diretor e ele falou: “olha Euro, fica aqui como representante, que é mais calmo”, falei: “então eu vou ficar como representante”. O representante era aquele que anotava os nomes dos jogadores que iam participar da partida, dos dois clubes que iam participar, o nome dos reservas, recolher... Quem tava (olhando?) recolhia a carteirinha, ficava comigo aquele jogador, e cronometrava o tempo do jogo, porque naquela época o cronômetro era na mão. O representante tinha o cronômetro na mão pra ver o tempo, o juiz tava apitando e “quanto falta?”, “falta dois, falta três”, aí o juiz apitando, anotava todos os ocorridos, fulano fez duas faltas, fez três faltas, fez quatro faltas, fulano foi expulso, quando dava alguma alteração. Tudo aquilo depois eu fazia um relatório atrás da... A súmula do jogo e o relatório atrás do que aconteceu. Alguma alteração que dava... Quando a gente viajava, recolhia as taxas do jogo, distribuía pra equipe porque era o juiz, dois auxiliares e o representante. Nessa época eu comprei o meu primeiro carro, falei vou trabalhar pra comprar um carro, no futebol de salão. Dito e feito, com o dinheiro do futebol de salão comprei o meu primeiro carro, não usei nenhum centavo do dinheiro da loja, só dava... 

P/1 - Que carro que era? 

R - Era um fuscão, comprei no ano de 1972, um fuscão 1971, laranja, aquele que tinha um farol grande atrás, era uma máquina aquele carro, motor 1.5. Viajava eu e mais três pessoas daqui pra Jundiaí, daqui pra Campinas, daqui pra Jales, daqui pra São José do Rio Preto, a gente saía, fazia o jogo e voltava, porque no outro dia de manhã tinha que ta na loja, né? Durante a semana era perto, a gente ia em Jundiaí, Sorocaba, São José dos Campos, Santos, porque voltava rápido, fim de semana ia pros lugares mais longe. Era escalado pra Jales, São José do Rio Preto, Votuporanga, Olímpia, todos esses lugares mais longe, né? São Carlos que era mais longe um pouco eu era escalado em fim de semana. Ia fazer esses jogos, domingo ainda fazia jogos aqui do campeonato estadual, do campeonato municipal, e trabalhei até o ano de 1977, 1978, no esporte e na loja. Como eu, as vezes, precisava sair mais cedo, fazia um acordo com o gerente e falava: “olha, sábado preciso sair mais cedo”, “ah, então você entra mais cedo durante a semana, uma hora, no sábado eu te dispenso”, e era assim que acontecia, sempre num acordo a gente conseguia um horariozinho melhor pra poder fazer o outro trabalho. E foi sendo assim até quando chegou em 1978, falei vou voltar a estudar. Dei uma parada com o futebol de salão, como eu já tinha até o ginásio, terceiro ano do ginásio, aí naquela época tinha o curso de Madureza. Tinha... Chamava-se Madureza, que é o supletivo de hoje. Conheci um primo que tinha trabalhado num desses cursinhos, daí eu fiz... Fui fazer as aulas, saía da loja e ia fazer aula no cursinho, fiz seis meses, prestei primeiro Grau, porque eu não tinha terminado o primeiro Grau, prestei o primeiro Grau e passei. Mais seis meses fiz o Segundo Grau, passei também, os exames eram em maio e junho, passei todas as matérias e fui aprovado. Me candidatei a fazer o vestibular, falei agora vou fazer faculdade.

P/1 - (Pausa) Então o senhor resolveu prestar vestibular... 

R - O vestibular… Na época fazia isso, fazia aquilo e gostaria de fazer Contabilidade, aí não, conversando resolvi fazer Administração. Como eu não tinha muita vontade de fazer na GV ou na São Luiz, porque era pago né, e eu não tinha condição de tomar conta da família com o que eu ganhava. Apesar de já estar numa posição melhor na empresa, não dava pra pagar essa faculdade e nas faculdades toP/1 daquela época. Falei ah, vou tentar a USP/1 e mais uma, essa mais uma foi a FMU.  Prestei na USP, não fui classificado, primeira fase o corte era 42, fiz 39, aí num fui, falei vou esperar um pouquinho, vou prestar na FMU. Aí FMU naquela época tava evoluindo muito, tava grande, hoje ta bem maior. Era uma faculdade meio de elite, ali na Rua Faria Lima. Falei vou prestar na FMU. Prestei na FMU e fui classificado, bem classificado lá e aí fui fazer a... Era pago também, mas era um preço menor do que era a GV ou era uma São Luiz, né? Falei vou ficar, fiz inscrição, encarei, parei com o esporte pra poder estudar. 

P/1 - E estudava a noite? 

R - Não, aí era assim, conversei com o pessoal da empresa, como aqui eu já estava no Shopping Ibirapuera...  Shopping tinha um horário das nove às 22 horas, fiz um acordo, entrava às 14 e ia até as 22, estudava das nove às 12, das oito às 12 aqui na Faria Lima, na FMU. Dito e feito, fiz... 

P/1 - Como é que foi esse período de faculdade? 

R - Foi muito bom, nossa, conheci muita gente, pessoal muito assim... Condições muito melhor do que eu, né, porque eram filhos de empresários, filho de pessoal que tinha condição, eu pagava, mas pagava as “duras penas”. Vendi o carro pra poder... No segundo ano tive que vender o carro pra poder custear. O segundo, terceiro e quarto a pé, vinha... Morava lá na Vila Sabrina, saía cedinho, vinha aqui pra FMU, na Faria Lima, saía daqui e ia pro Shopping Ibirapuera. Como tinha muita amizade, tinha muitos amigos que moravam no Brooklin, no Jardim Paulistano, aí eles me davam carona até o shopping, quase todo dia tinha um “ô, vai pro shopping? Eu te levo”, a gente tinha um grupo de estudos, fizemos um grupo de estudo, como eu estudava até o meio dia, aí tinha aquele período até meio dia, uma hora, uma e meia, porque entrava as duas horas. O subgerente entrava às nove, abria a loja, quando eu chegava ia almoçar. E aí tocava a loja e depois a gente ficava... Ele saía às seis horas e eu saía às dez. Sempre tinha um grupo de estudo que a gente tinha muita dificuldade, porque eu vinha vindo de supletivo, muita dificuldade em entender a matemática né, entender essa parte mais profunda. Comecei a aprender matemática financeira e tinha muita dificuldade. Fizemos um grupo, tinha um japonês na época que era o crânio de matemática, nós fizemos um grupo, eu, ele e mais dois, a gente estudava do meio dia até uma hora lá. Sempre um desses que tava comigo tinha carro e me trazia pro shopping. Quando não tinha ninguém pra trazer eu ia embora rápido pra chegar às duas horas no shopping, o trato era duas horas. Fizemos isso no primeiro ano, segundo ano, terceiro ano, quarto ano, entrei em 1978 e me formei em 1983. Nunca fiquei numa dp, queria os quatro anos sem nenhuma dp e me formei em 1983, fui da turma de 1983 aqui em Administração. Nessa época que comecei a cursar a faculdade a empresa me abriu mais um espaço pras compras, passei a ser comprador também, gerente da loja, ainda tinham duas lojas a mais… Gerente e comprador pras três lojas. Eu auxiliava a dona da empresa a fazer compras e gerenciava a loja, dava um tipo de supervisão informal, mas dava uma supervisão pra ela. Fiquei esses últimos anos de empresa com esse a mais, porque tava estudando. Me formei e continuei trabalhando na empresa até que em 1988 eles resolveram que o negócio não tava mais sendo viável pra eles, aí passaram o ponto. Nessa época comecei a fazer muita amizade com os compradores, com os vendedores aliás, eu era gerente, comprador tinha muita amizade com os vendedores, os representantes. Todos, “Euro se acontecer alguma coisa fala comigo que eu te apresento na empresa, te apresento, levo você em uns clientes, né?”, dito e feito, quando, no último ano mesmo, em 1988 já próximo... Sabia que a empresa ia passar o ponto, ia acabar, aí eu passei já a ter aquele tempo de manhã, eu entrava só as duas horas, aí comecei a visitar clientes junto com um dos vendedores, os amigos representantes, né? Me apresentavam, “olha, aqui é o Euro, ele vai trabalhar de representante quando ele vier aqui atende ele e tal”, dito e feito, peguei duas empresas para trabalhar meio período, como representante, sem registro, sem nada, era só uma coisa informal, mas efetivamente eu tava trabalhando. Saía de casa cedo e visitava as lojas até meio dia, uma hora, duas ou três por dia, porque dava, depois ia pra loja, trabalhava e fazia o meu trabalho na empresa como gerente. Quando saí, quando a loja resolveu fechar mesmo, estava já com duas empresas trabalhando, representando, aí não foi difícil, peguei mais uma, comecei a conversar com a pessoa e peguei mais outra. Já tava isso com 23 anos de carteira assinada, de tempo de trabalho e tava numa situação mais ou menos estável, né?

Também nesse período estava procurando uma casa, porque eu já morava lá com o meu sogro há 17 anos, 16 anos, 17 anos morando com o meu sogro, no terreno dele, na casa que tinha construído. Fomos... Tava vendo apartamento, vendo casas, alguma coisa assim pra comprar e sair de lá, como tinha prometido pra ele que ia sair de lá quando comprasse a minha própria casa. Como a gente tinha uma poupança, naquela época tinha uma poupança, houve aquele Plano Collor que trancou a poupança, foi um desespero, né, pô você ficar tantos anos poupando, vai perder tudo, aqueles boatos todos, toda aquela especulação em cima do que era o Plano Collor aquela coisa toda. Daí falei, sabe de uma coisa, não vou me desesperar, vou lá falar com o gerente da Caixa, era na Caixa Econômica Federal da Vila Maria. Fui lá um dia, pedi pra falar com o gerente, ele falou “olha, eu não.... não se preocupe com isso, você não vai perder o seu dinheiro, esse dinheiro ta aí, é garantido, é seu, ninguém vai tirar ele de você. Dá mais um tempo”. Naquele tempo tinham aqueles boatos, não, vai desbloquear, não desbloqueia, pode tirar 50 reais, pode tirar 20 reais, cada CPF podia tirar um tanto se precisasse. Ele falou: “não tira nada, tem mais alguma coisa pra pôr? Pode continuar depositando, acredite em mim”, de fato continuei depositando, muita gente falou que eu era louco, “nossa, você vai perder tudo, isso aí eles vão dar um golpe”, nada disso, dito e feito, quando chegou na época que o gerente percebeu que ia desbloquear, que ia liberar esse dinheiro ele falou: “o que você ta procurando?”, eu falei “olha, to procurando uma casa, ou um apartamento, não precisa ser zero, pode ser... Desde que caiba a minha família, tem uma mulher e três filhos”, já estavam ficando adolescentes, já tinham 14, 15 anos. Isso foi no ano de 1988, 1987, 1988 que daí ele falou: “olha, eu tenho uma casa que ta com inquilinos em Santana, no Bairro de Santana, se você... Eu vou tirar os inquilinos e vou vender, porque eu ia reformar pra morar lá, mas minha esposa não quer...”, porque ela morava aqui na Pedroso de Moraes, era professora aqui na região, “... aí minha esposa não quer mudar pra lá, mas eu gosto de lá, mas ela não quer mudar, você não quer ver? A casa, quando estiver sem os inquilinos eu te dou a chave e você vai lá ver”. Um dia ele me ligou “olha, os inquilinos saíram, quer ir ver?”, fui lá, peguei a chave com ele e ele: “pode ir, olhar, ficar uma semana, duas, o tempo que você quiser pra você fazer uma avaliação”. Fui lá, vi a casa, levei meu sogro que mexia... Sabia de pintura, sabia de eletricidade, mexia com tudo, né? Fui lá, olhei a casa e falei nossa, a casa é grande, tem uns cômodos grandes, é boa, vai precisar fazer muita coisa, porque os inquilinos tinham detonado a casa. Janela quebrada, vitrô amassado, porta sem tranca, tudo improvisado, já tinham passado uns seis inquilinos que tinham deixado a casa... Só não derrubaram as paredes, né, mas o resto tava tudo... O chão com azulejo solto, tinha que mexer muito, meu sogro falou: “olha, eu ajudo você, só que não tenho dinheiro pra te ajudar financeiramente. O que você acha?”, falei: “olha, eu acho que eu vou topar”, aí levei a minha esposa também pra ela ver, ela adorou a casa, gostou. O sonho dela ir pra uma casa grande, um quarto pra menina, outro quarto pros meninos, um quarto pra gente, três dormitórios. Topei, falei com ele: “quando é que esse dinheiro vai desbloquear?”, ele falou: “logo, logo”, falei: “qual é o negócio?”, ele falou: “olha, é x, a casa eu to pedindo x”, não lembro quanto era, na poupança eu tinha mais ou menos a metade daquele “x” que ele pediu aí eu falei: “olha, eu tenho essa poupança aí”, fiz uma avaliação, achei que o negócio era bom, quando saiu o dinheiro, desbloqueou passei pra ele, ele passou a escritura pra mim e fizemos a outra metade. A outra metade fizemos, naquela época em, ORTN, são 48 promissórias em ORTN, fui pagando, fui pagando, fui pagando, depois de 12 meses mudou pra OTN, não tinha mais reajuste, ficou bom demais pra mim, porque ORTN tinha reajuste mensal, né? Mudou pra OTN sem reajuste, ficou tipo um congelamento daquela dívida. Ele ficou meio impaciente, falou: “poxa, agora eu vou perder, porque não tem correção, tem inflação, mas não tem correção”. Aquela época eu tava como representante, tava indo bem, vendendo bem, recebendo bem, comecei a falar pra ele: “olha, eu posso ir adiantando, eu pago a duplicata desse mês, promissória desse mês e pago a ultima”, fui fazendo assim, quando faltava dez, doze ele falou: “poxa, você não quer negociar o resto de uma vez?”, eu falei: “não tenho”, mas ele: “fala com as empresas”, fui lá pra uma empresa, tinha a receber de um, tinha a receber de outro, tinha uma promessa mais pra frente, cada um adiantou um pouquinho. Ainda tinha um saldo quando saí da empresa, recebi o fundo de garantia, recebi a indenização, décimo terceiro, juntei aquilo tudo e negociei as últimas duplicatas que faltavam. Negociei, pedi um desconto, ele fez um desconto, negociei tudo aí transferi a casa pro meu nome. E essa é a casa que eu moro até hoje, aqui no Bairro do Chora Menino em Santana. To até hoje lá. Bom... Nessa época, 1988, 1989, mudamos no fim de 1988, minha esposa muito feliz, as crianças jovens, um com 15, outro com 16, outro com 17, estudando e trabalhando, começaram a trabalhar cedo também. Em 1991 minha esposa faleceu, teve um AVC e não teve retorno, foi pro hospital e ficou. Aí fui viver com três jovens numa época difícil. Minha filha... Ela tava fazendo técnico em enfermagem, fazia no Brás, ali no Pari, fazia técnico de enfermagem. Meu filho fazia técnico em administração e o outro fazia técnico em desenho. Os três nessa faixa mais difícil assim, né, de cuidar, fiquei cuidando deles durante um bom tempo, uns cinco, seis anos nessa luta. Trabalhando como representante, chegou uma hora que eu resolvi reorganizar a minha vida, refazer tudo de novo, porque passei um período muito difícil, muita emoção, muita tristeza, né? Fui fortalecendo, me fortalecendo, comecei a conversar com pessoas, comecei a reativar a minha vida. Daí conheci a minha atual esposa, que por coincidência era vizinha minha, morava em frente a minha casa, até bem parecido como da outra vez né. Era uma vizinha que eu não conhecia, um belo dia ela cumprimentou e puxou uma conversa, aí... Isso foi em 1998. Então fiquei 1991, 1992, até 1997 assim… Viúvo, com três filhos, já minha filha casou, mudou de casa, o outro casou e mudou de casa, outro ficou em casa mais um tempo, já tava querendo casar, aí conheci essa atual esposa, mais jovem. Naquela época eu já tava com 40 e poucos anos, 47, 48 anos, ela tinha 28... 27, 28. Nos conhecemos, começamos aquela fase de adaptação, de conhecimento, levei ela pra conhecer a minha família lá em Pernambuco, fui conhecer a família dela também, que morava no Interior de Pernambuco, lá em Caruaru, fui lá, visitei, fui recebido muito bem. Ela também foi recebida bem na minha família, voltamos e resolvemos morar juntos, falei: “olha, eu preciso de ficar, se você quiser a gente na volta já fica aqui, fica comigo, casa”, porque eu sentia muita solidão. Fiquei seis anos, sete anos, não sei como sozinho, sozinho assim, em termos né, tinha namoradinha pra sábado e domingo, saía, às vezes durante a semana ia no teatro, no cinema, procurava ir em algum evento, mas aquilo não preenchia o que eu queria. Queria mesmo uma companheira definitiva, uma pessoa pra preencher o dia a dia, pra conversar, até pra brigar, sentia muita falta daquilo, era um vazio que não acabava mais. Ela topou, voltamos de lá das férias, tipo umas férias, fim de ano, fomos visitar meus parentes, os parentes dela, voltamos pra casa e ela ficou em casa comigo. Passamos a viver juntos, nisso o filho que ainda morava comigo casou também, saiu de casa, comecei a vida e depois... Isso já foi em 1997, 1998, aí em 1999 nasceu a minha primeira filha do meu segundo casamento, chama-se Mariana, hoje ela ta com 11 anos. To muito feliz com ela, com... No ano de 2000 nós casamos, casamos no civil, na Igreja, porque não tinha impedimento nenhum né. Casei na igreja, no civil e continuamos, no ano de 2005 nasceu gêmeos, Igor e Caio, dois meninos, já fazendo um prézinho, terceiro estágio do prézinho, ano que vem eles vão pro primeiro ano.

To tocando minha vida, continuo trabalhando como representante, em 1997 aposentei por tempo de serviço, porque já tinha tempo pra aposentar, naquela época que tava mudando a lei, o governo Fernando Henrique teve aquele negócio que ele falou: “ah, brasileiro não gosta de trabalhar muito, quer se aposentar cedo”, mas a gente tinha o direito porque tinha o tempo pago, era 30 anos pra mulher, 35 anos pra homem. Com uma conversa com um amigo meu, que era advogado, um dia ele falou: “como é que ta o teu tempo de serviço?”, “ah, ta tudo aí, acho que uns 30 anos”, eu tinha aberto empresa e tava pagando como autônomo, quando saí da empresa logo abri... Quando saí do registro formal logo abri empresa pra recolher, porque eu não podia perder tempo de serviço, né? Já tinha 23 anos, paguei carnê como autônomo durante oito anos. Nessa conversa com um amigo ele falou: “olha, traz todos os documentos que eu quero ver”, ele lida com aposentadorias, é o escritório dele. Levei os documentos todos, traz o documento do exército também, levei, ele falou: “Euro, você tem 23 anos só nessa empresa, tem oito anos de carnê, dá 31, tem mais um ano de exército, dá 32, faltam dois anos e pouco pra você trabalhar. Essa lei vai mudar, já ta no Congresso, vai mudar e você só vai poder aposentar com 65 anos, quer aposentar compulsório? Com 32 anos e oito meses?”, falei: “quero”, “pode parar esse mês que você já não paga mais o carnê”. Deu entrada na aposentadoria, aposentadoria compulsória e eu passei a receber 88% do que eu tinha direito do integral. Faltava os 12%, era justamente esses dois anos que faltava, aposentei, e até hoje eu sou beneficiário e continuo trabalhando como representante. Agora a coisa ta mais leve, ta mais informal, porque não tenho mais... Aí depois que aposentei fechei a empresa e passei a trabalhar informal, tenho representante, tenho visitas pra fazer pros meus clientes, trabalhando... Continuo trabalhando e tenho o meu benefício, não é grande coisa, mas dá pra manter assim, dá um equilíbrio, né? 

P/1 - E uma coisa, o senhor falou que voltou pra Pernambuco pra apresentar essa nova esposa, mas o senhor voltava pra lá com uma frequência? 

R - Ah, sim, mesmo no primeiro casamento, quando eu tirava férias. De dois em dois anos, de três em três anos eu ia, levava a família toda pra lá, pra casa da minha mãe e ia pra lá, aqueles irmãos, aquele movimento todo, levava as crianças, a gente voltava pra aquelas praias que eu citei antes, né? As praias todos os dias, ia pra outras praias também, porque lá é litoral mesmo, então toda direção que você vai tem praia, você vai pro Sul, pro lado de Boa Viagem, Porto de Galinhas, Boa Viagem, Sul, ou vai mais pro Norte, que é a Ilha mesmo, é o final do continente lá... Depois vem Paraíba, logo depois de Pernambuco vem Paraíba, final de Pernambuco já é lá na Ilha de Itamaracá. A gente ia com essas crianças, ia e voltava, fazia assim, trabalhava… No ano não tirava férias, trabalhava o segundo ano, as vezes não tirava férias, no terceiro ano tinha uma lei que se trabalhasse três anos seguidos a empresa pagava uma multa, uma coisa assim, aí no terceiro ano eu vendia uma das férias. Vendia uma das férias e as duas férias vencidas, e tirava a terceira, pegava esse dinheiro pra comprar passagem, pra ir, pra custear as férias, né? Ficava 20 dias na casa da minha mãe, 30 dias, as vezes até 30 dias e era muito bom, era muito prazeroso, muito gostoso ta lá com os meus irmãos. Continuei assim, depois que fiquei só quase tudo... Passei ir quase todo ano, porque tinha uma solidão grande, ia lá no colinho da mamãe, ficava lá. Depois fui apresentar a minha esposa, continuei indo, minha mãe faleceu esse ano, em janeiro desse ano, mês passado, ela já tava com 84 anos, 80 e poucos anos, faleceu. Agora tem meus irmãos que moram lá, tem uma referência lá, hora que eu quiser voltar, quiser ir lá tem... O que não falta é irmão pra visitar, né? E tem os parentes da minha esposa também que moram no interior, próximo a Caruaru. E hoje tenho mais três filhos pequenos, a menina com 11 anos e os meninos com cinco anos, esse ano eles completam seis. To tocando. 

P/1 - Tá ótimo. Você tem alguma pergunta Mariana? 

P/2 - Não. 

P/1 - Então vamos encerrando. O que o senhor achou de estar aqui dando esse depoimento, contando...? 

R - Muito bom, o que eu tenho a dizer é que a minha relação com São Paulo, com a cidade de São Paulo, a minha vontade foi cumprida, ta sendo cumprida, porque eu vim aqui pra trabalhar. Nunca tive aspiração de ficar milionário, de ser um milionário, eu queria trabalhar, a vontade que eu tinha era vir pra trabalhar, vir pra ter as minhas coisas, formar família, tudo isso aconteceu. Até hoje não tenho uma situação financeira muito grande, mas tenho aquilo que eu quis, trabalho até hoje, trabalho todo dia se eu quiser, também se eu não quiser um dia não vou, tenho o domínio daquilo que não tenho vínculo obrigatório com nenhuma das empresas, né? Se eu quiser hoje não ir, não vou, também não ganho né, a coisa é mais ou menos assim, nesse nível. Mas eu to feliz de ter saído de Pernambuco com 16 anos, vindo pra São Paulo, ser bem recebido em São Paulo, respirar o ar de São Paulo, a garoa, depois a poluição, congestionamentos muito grandes e tudo que acontece em São Paulo. Eu acho que eu to feliz por tudo isso. 

P/1 - Que bom. Então a gente agradece o seu depoimento, muito obrigada. 

R - Obrigado vocês.

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