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História

"A verdade ou mais ou menos?"

História de: Gleicy dos Santos Abreu
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Cidade de Deus - RJ. Brincadeiras de rua. Irmãos. Casa pequena. Tarefas domésticas. Adolescência. Dança. Baile Funk. Primeira namorado. Tráfico de drogas. Amor. Abandono escolar. Primeiro emprego. Vida profissional. Casamento. Relação paterna. Filha. Curso profissionalizante. Produção de sabão. Sonhos. 

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História completa

P/1 – Gleicy, você pode falar o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Gleicy dos Santos Abreu. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro dia 14 de setembro de 1987.

 

P/1 – Seus pais são do Rio de Janeiro?

 

R – São.

 

P/1 – Seu pai e sua mãe?

 

R – Meu pai e minha mãe.

 

P/1 – O que o seu pai faz, ou fazia?

 

R – Meu pai... Você quer a verdade ou mais ou menos?

 

P/1 – A verdade.

 

R – Ah, ele era enroladão. Mas ele tinha uma profissão mais ou menos. Ele dava aula de cavaquinho, ele era conhecido como Jorge do Cavaco. Ele trabalhou na Fia, só que aí foi mandado embora, depois ele começou a dar aula de percussão.

 

P/1 – Ele era músico?

 

R – É. Mais ou menos .

 

P/1 – Por que mais ou menos?

 

R – Mas era, era. É uma coisa assim, mas ele tinha noção das coisas. Sabia dos instrumentos.

 

P/1 – Sua mãe?

 

R – No momento?

 

P/1 – Ou na época...

 

R – Ela trabalhou em vários locais, trabalhou no Retiro dos Artistas. Lá ela era auxiliar de enfermagem, ela cuidava dos idosos, tal. Trabalhou em escola. Minha mãe fez de tudo na vida.

 

P/1 – Quando você nasceu o que ela fazia?

 

R – Não sei . Eu era pequena.

 

P/1 – Quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho seis.

 

P/1 – Do mesmo pai e da mesma mãe?

 

R – Não. Do mesmo pai eu tenho quatro, e por parte de mãe eu tenho três.

 

P/1 – E quando você nasceu vocês moravam onde?

 

R – Em Caxias.

 

P/1 – Você lembra como era essa casa?

 

R – Só sei porque tinha fotos e porque a gente falava, mas...

 

P/1 – Qual casa que você lembra, que você morou?

 

R – A que eu tô morando ainda hoje, minha infância todinha.

 

P/1 – Aqui em Cidade de Deus?

 

R – É.

 

P/1 – Como que é a sua casa?

 

R – Lá embaixo agora é da minha irmã, mas não mudou quase nada, mudou pouca coisa. É um quarto grande, uma sala também grande, dormia todo mundo na sala. A cozinha também é grande, banheiro, quintal. O quintal é feinho, não é grandes coisas não, mas dava pra viver. Em cima tinha um terraço. Tinha não, tem, que é no segundo andar.

 

P/1 – E como é que é? Você lembra das suas brincadeiras de infância?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Do que vocês brincavam?

 

R – Ah, a gente ia lá pra cima, no segundo andar, eu e meus colegas. A gente pegava um monte de tapete, fazia umas casinhas assim, umas cabaninhas, brincava de cabana, de casinha. Aí, na época vendia biscoitinho, descia o sarrafo , todo mundo comprava, agitava, botava nos pratos, comprava aqueles guaranás de garrafa. Ih, era a maior festa. E na rua a gente brincava de ‘o homem da rua’, ‘pique esconde’, ‘amarelinha’ ‘pique e bandeira’. A gente brincava muito, a minha infância foi uma delícia. Subia na árvore, pegava manga, ia pro Sítio do Coronel que existe ainda, a gente pegava jamelão. Nossa era muito bom, bons tempos.

 

P/1 – Como era na sua casa, quem exercia a autoridade? Seu pai ou sua mãe?

 

R – Sempre foi a minha mãe. Meu pai passava medo, a gente tinha medo. Maior negão, altão, fortão. Tudo “ão”. Mas, poder mesmo, quem alimentava, sustentava eu e minha irmã era minha mãe, que meu pai... Nossa senhora, não tenho boas lembranças do meu pai. Gostava dele, mas não tenho.

 

P/1 – Por que você não tem boas lembranças?

 

R – Não vou mentir. Porque ele não foi um pai de verdade, ele só serviu praticamente pra fazer os filhos. Ele nunca deu moral, nunca assistiu. Ele não me viu crescer. Fui conviver com o meu pai praticamente agora, que ele faleceu. Também porque precisou. Só foi na minha formatura obrigado porque minha mãe não pôde ir, aí eu tinha que ter algum representante alguma família, senão ele não ia também. Aí, eu fui lá chamar ele, e ele foi. 

 

P/1 – Ele ficava pouco em casa?

 

R – Ele nem ficava em casa.

 

P/1 – E com quantos anos você entrou na escola?

 

R – Ah, eu lembro quando eu entrei, aconteceu uma coisa engraçada. Antes de eu entrar, de começar, de ter idade para eu entrar a gente já brincava de escolinha. Tinha a irmã da minha colega, da Rafaele, que ela dava aula pra gente e ensinou a gente a escrever o nosso nome, ensinava a-e-i-o-u, contas de mais, de menos. Aí, a gente entrou na escola sabendo isso. Aí, na escola da minha filha, por incrível que pareça a minha filha estuda nesse colégio, a gente entrou e ficou um dia só , um dia nesse colégio porque a gente estava muito avançado. Não podia ficar, ali era só quem estava brincando, fazer essas coisinhas. A gente ficou muito revoltado. Falei: “Caramba, é escola bonitona, um monte de brinquedos!”. Tinha caminha, casinha. Minha infância foi boa porque eu vivi, mas minha mãe nunca teve condições de me dar as coisas. Nunca tive uma boneca, fui ter uma boneca com 12 anos. Eu me lembro da boneca . Eu fiquei revoltada, a gente foi pra Leila, aí ficamos também dois dias só no CA e já fomos direto pra primeira série, ficamos revoltados , mas foi legal.

 

P/1 – O que você mais gostava de fazer na escola?

 

R – Ah, de aprender. Não parece muito, não, mas eu gostava de estudar. Gostava mesmo.

 

P/1 – Tinha uma matéria que você gostava mais?

 

R – Ciências. Sempre gostei . Sempre tirei Bom, PS que era na época.

 

P/1 – O que era PS?

 

R – PS era Bom, não sei o que era não, sei que era bom. Era a melhor nota. E a pior nota era EP, mas eu não lembro agora. Tem muito tempo .

 

P/1 – Tem uma professora que tenha marcado?

 

R – Tem, duas.

 

P/1 – Quem são?

 

R – Duas não, tem três. Assim, no primário tem a Tia Lady, que hoje é diretora, me ajudou muito,muito, muito mesmo, me tirou todas as dúvidas, eu só sentava lá na frente, sabe? Sempre fui assim . Sentava lá na frente, aí todas as dúvidas que eu tinha ela tirava, foi uma ótima, ótima, ótima mesmo. Quando era pra puxar a orelha também ela puxava porque eu nunca fui essa aluna de ficar quietinha. Eu fazia, e fazia minhas bagunças, mas também sabia meu momento de parar. E ela puxava minha orelha quando ela via que eu estava demais: “Gleeeicy!!!”. Tem a tia Tania. A tia Tania, nossa, até pra casa dela a gente foi. A gente fazia parte do grêmio da escola, era muito bom. Ela levava a gente pro cinema, aí minha mãe não tinha condição, falei, não vou mentir mesmo. Ela dava roupa pra gente, levava a gente ao shopping. Nossa, não tem o que falar, ela foi ótima. Tania Maria, muito boa. E tem a Tia Lúcia também. Ela me deu aula, mas foi no finalzinho. A escola entrou em obra, reforma, e ela também, ajudou a beça. Ela foi mais professora do meu irmão, meu irmão foi da turma dela mesmo, mas quando faltava uma professora a gente ia pra turma dela, ficava lá, ela passava lição pra gente. Eu lembro, ela também foi muito legal.

 

P/1 – Você ia como pra escola, a pé?

 

R – É, ia só carré . Sempre.

 

P/1 – Era perto da sua casa?

 

R – Era. É perto, bem pertinho.

 

P/1 – E vocês tiveram na sua casa algum tipo de formação ou educação religiosa?

 

R – Sim . A minha família toda é espírita.

 

P/1 – E seus pais passavam isso pra vocês, seu pai, sua mãe, sua mãe era uma coisa dela?

 

R – É. Minha mãe é zeladora de santo. Eu tenho uma lembrança muito engraçada. Que batia na minha porta as pessoas lá de Testemunha de Jeová, esse pessoal de Testemunha de Jeová. Eu era bem novinha. Aí, eles iam lá e convidavam a gente. Eles faziam o convite: “Vamos lá  visitar a igreja, tal”, aí eles me davam uns cadernos, livros, eu começava a ler. A minha mãe ficava bolada. Ela era espírita, eu estava no meio do babado e ela ficava assim ‘não tô entendendo’. Eu lembro que uma vez eu comecei a mentir. Falei: “Mãe, eu vou pra casa da minha colega”, saía arrumada. Eu ia lá pra igreja . Aí, ela ficou muito revoltada comigo e não deixou mais eu ir.

 

P/1 – Pra igreja católica?

 

R – Não, eu estava indo. Passava o pessoal da Assembléia e me chamava, eu ia. Mas eu não falava pra ela que eu estava indo pra igreja. Eu lembro. Eu fiquei com raiva na hora porque eu acho que religião é questão de opção. Você tem que ir pra religião que você se sentir bem, acho que não tem que ser uma coisa obrigada. Não, porque eu sou cristã minha filha também tem que ser, eu sou espírita, minha filha também tem que ser. É opção, você se sente bem? Vai. Entendeu? Uso sempre de lição pra mim. Hoje em dia eu tô lá mesmo...

 

P/1 – Ela descobriu que você estava indo?

 

R – É.

 

P/1 – Como ela descobriu?

 

R –  Porque ela foi na esquina, ficou me esperando. Muito engraçado. Não é engraçado não, é ruim, é triste (emocionada). Vai, fala outra!

 

P/1 – Você quer um copo d’água?

 

R – Eu quero.

 

P/1 – A gente começa a lembrar e se emociona, é normal.

 

P/1 – Você ajudava a sua mãe em casa? O que você...

 

R – O quê? Tarefa doméstica? Nossa. Eu tenho trauma até hoje de banheiro. Era assim, dividido, uma irmã ficava com cozinha, louça e fogão, aí a outra arrumava sala, outra arrumava o quarto, e EU ficava com o banheiro e com o quintal. Só que o banheiro é enorme , eu tenho trauma de banheiro até hoje. E o problema não era bem o banheiro, era o quintal. O quintal tem aquelas pedras de mármore, em cada vãozinho era aquele monte de, como que se diz, um monte de pedrinha, um juntando na outra, só que tem os vãozinhos. Aí, as pedras eram brancas. Tu imagina, tinha que lavar banheiro, lavar quintal. Minha filha, eu sofria. E o meu pai, ele era tão de um jeito, porque não adiantava só você varrer, esfregar, ligar a água, tirar a espuma, não acabava, não. Você tinha que vir com uma espuma, eu lembro do tamanho da espuma que não cabia dentro da minha mão. Tinha que secar cada buraquinho pra você tirar a água. Ai de mim se eu deixasse um vãozinho daquele com um golinho de água. Pergunta lá na minha rua que todo mundo é prova disso. Cacete comia ali, e era o cacete .

 

P/1 – Você apanhava?

 

R – Demais. Era um pau, aquelas pernas de três? Sei que entrava tudo na roda, minha  filha lá. Um aprontava, descontava em todo mundo. Pensa.

 

P/1 – Um aprontava, ele batia em todo mundo?

 

R – Todo mundo. Era a roda. Era dez em cada mão. Dez, pernas de três, grossa. E a mão dele dá duas da minha, dava né? Agora tá só o ossinho.

 

P/1 – E aí, você lavava aquele quintal inteiro?

 

R – É, eu lavava. Aí, teve o dia que ele comprou uma cartolina e começou a desenhar lá, todo mundo bolado, o que ele tá fazendo ali? Começou a fazer umas tabelas mais de divisão, entrou o terceiro. Cada dia, ele botou, dia da semana, fez um tabuleiro, bonitinho.

 

P/1 – Ah, tinha o tabuleiro.

 

R – Tinha, na geladeira. Você não tem noção, menina, a vergonha que a gente passava. Aí botou dia tal. Por exemplo, segunda-feira, tarefa – Gleicy – lavar o banheiro, lavar o quintal e arrumar o barracão, que era lá em cima. Tal dia, aí ia. Aí na quarta-feira eu lavava louça, na quinta-feira eu arrumava a sala. Ainda tinha os tapetes, que todo mijava na cama, ai meu Deus, muito engraçado. Todo mundo mijava na cama, aí tinha que lavar e botar lá no terceiro andar pra estender, pro sol bater. De noite, meu pai sempre foi de chegar e pegar essas muambas, igual esse negócio de carnaval. Ah, esqueci! Ele também fazia samba. Ele tinha dois bonecos de isopor bem grandão em cima do terceiro andar, era um homem e uma mulher e todo mundo ficava falando: “Ó lá o Jorge e a Sueli!”. Eu ficava com muita raiva. Aqueles bonecos enormes de carro alegórico? Imagina, de noite, no escuro, eu ficava com pavor. Aí, tinha que buscar o tapete pra gente forrar na sala e todo mundo dormir. E quem queria subir lá? Passava, batia o vento, aquele boneco de isopor ficava se mexendo . Cara, como eu ficava com medo! Nossa, eu lembro hoje, eu morro de rir. Era muito engraçado.

 

P/1 – Vocês dormiam em cima do tapete?

 

R – Dormíamos. É . Sentava no travesseiro, ficava bem no alto.

 

P/1 – Lençol?

 

R – Um lençol, tapete, o lençol e um cobertor pra todo mundo. Todo mundo, juntinho. E eu gostava de ficar no meio. Porque ficava na ponta um puxava, o outro puxava, e quem ficava na ponta ficava descoberto. Eu ficava no meio . Eu lembro. Era bom. Quer dizer, olhando agora, hoje graças a Deus, minha filha tem o quarto dela, uma cama pra ela. Ela nem na cama dorme, ela prefere dormir comigo e com o pai dela. Eu lembro assim, eu olho, era engraçado. Eu desejava um quarto só pra mim, você ter um quarto, uma cama, um guarda-roupa tem tudo, menina, e não dá valor. Mas é assim mesmo. Aí, eu digo, com essas coisas que acontecem na vida da gente, a gente aprende.

 

P/1 – E a sua juventude, o que você fazia? Qual era a diversão?

 

R – Não tinha muita, não. Era bom quando a gente ia pra baile dançar.

 

P/1 – Sei, baile.

 

R – É, baile funk. Só que a minha juventude foi muito... Foi, sei lá, eu amadureci antes do tempo, entendeu? Não foi muito legal, não. Uma vez me falaram assim. Das minhas irmãs, tem uma que era capetinha, era não, é, ainda hoje. A gente ia pra baile, eu, minha irmã Jerusa, Vanique, aí saíam as três irmãs e iam pro baile. Então, minha mãe falava assim: “Ó, só vai entrar quando estiver todo mundo”. Aí, o que acontece? Eu ia pro baile, dançava, me acabava. Ficava a Vanique e a Jerusa que sempre saíam com algum garoto, ia namorar. Minha mãe falava: “Meia-noite dentro de casa”. Quem disse que a gente entrava meia-noite? Só ia entrar quando tivesse todo mundo. A gente ficava esperando horas, e a Jerusa lá, cadê a Vanique, cadê a Vanique... Quando não era a Jerusa era a Vanique, quando não era a Vanique, era a Jerusa. E eu tava com muita raiva, boladona, e ela lá perdia a noção do tempo. Eu ficava esperando ela lá, nossa, era terrível.

 

P/1 – Você dançava muito funk?

 

R – Nossa! Me acabava. A gente montou bonde!

 

P/1 – Tinha bonde?

 

R – Tinha, minha filha. Tinha. Inventava os passos, ih, fazia as montagens, eu e a minha irmã, ia e montava o bonde na pista, era sem limite . Sem limite nenhum, sem juízo, sem nada . Era muito legal. A gente fez um monte de apresentação, dançamos no Vidigal, aqui na Cidade de Deus, no Coroado, ih, um monte de lugar.

 

P/1 – Que música que você gostava mais?

 

R – Funk, deixa eu ver. Ah, pra cantar? Você não vai fazer isso comigo...

 

P/1 – Só pra eu saber qual que é.

 

R – Pera aí, deixa eu lembrar. Ah, tinha tanto, agora não lembro... Deixa eu ver se eu lembro de alguma. Tinha uma do balanço que eu gostava, não to lembrando agora.

 

P/1 – Do balanço, não?

 

R – Não to lembrando, deu um branco agora, você forçou a melhora.

 

P/1 – Espera esquentar. E vocês faziam apresentação, vocês ensaiavam em casa?

 

R – É. Era muito engraçado. A gente chegava cedo umas cinco horas. Eu lembro que a gente saía já era umas dez e pouco, onze horas. Tinha ensaio na água, nossa! Dos que eu olho assim pra traz dá até desgosto, eu falo, ‘no que eu me transformei, to acabada’ . 

 

P/1 – E você namorava no baile?

 

R – Não, eu sempre ia mais pra dançar. Você sabe que não? Não mesmo, eu ia pra dançar, me divertir.

 

P/1 – Quando você teve o seu primeiro namorado?

 

R – Com 12 anos .

 

P/1 – Como é que você conheceu ele?

 

R – Sabia que você ia querer tocar nisso, menina! Ai. Assim, meus pais se separaram, aí a gente que fez a mudança. Esqueci de contar esse detalhe. A gente fez a mudança, ia todo mundo no carrinho de mão. A gente tinha uma televisão enorme de 29 polegadas, e eu: “Ai Jesus, como eu vou fazer pra levar essa televisão sem deixar cair. Forramos o tapete no carrinho, botamos a televisão lá e fomos empurrando devagarzinho, fizemos a andança todinha. Que minha mãe não queria ver a cara do meu pai nem pintada. Aí, fomos pra casa onde minha mãe reside agora. Eu sempre gostei de tomar banho de sol, acordava cedo, nem escovar os dentes, lavar o rosto, nem nada. Eu subia lá pro terceiro andar e ficava pegando sol lá maior tempo. Aí, quando eu fui pra essa outra casa, que era a casa do meu avô, minha mãe fez um puxadinho lá atrás, nos fundos, foi todo mundo pra lá. Eu lembro que não cabia quase ninguém, mas aí foi aumentando depois . Eu ficava lá, fazia as mesmas coisas, só que lá não tinha nenhuma escada, era escada de madeira. Eu botava a escada, subia pro segundo andar e ficava lá pegando sol. Um belo dia, um belo dia não, um dia ruim, ficou um carinha lá em cima da laje, ele ficava me cantando toda hora, toda vida, e eu nem aí pra nada. Eu com medo já falei: “nossa, se minha mãe vê essa cara mexendo comigo, ela vai me matar”. Eu tinha 12 anos e ele tinha 25 anos. Aí, ele pulou de uma laje pra outra, eu falei: “Cara, sai daqui, tu tá maluco? Minha mãe vai me matar se te pegar aqui”. Aí tá, começou a rolar um sentimento. Babaca. Minha mãe trabalhava no Retiro dos Artistas. Eu comecei a namorar com ele. Eu lembro que ele passou de moto lá, a rua cheia, o meu coração tremendo, nossa, minha mão suava, eu ficava muito nervosa quando eu via ele. Eu lembro que eu dei o primeiro beijo muito engraçado, vocês vão rir. Ele chupava aquelas balas Halls com gostinho de morango, não sei o quê, não sei o quê lá, aí, eu nem queria. Ele falou: “Vem cá, deixa eu fala contigo, não sei o quê”, cheguei perto. Aí, ele foi, me deu um beijo, eu fiquei boba pra caramba: “Ih Vanique, que o beijo dele é doce” . Ela: “Que beijo, doce, menina?” “É, tem gosto doce”. Nossa, me encantei. Ali meu mundo acabou, minha filha. Aí fiquei como? Fiquei gamadinha, né . Em vez dele correr  atrás de mim, comecei a correr atrás dele, fiquei louca, aquele beijo, ‘beijinho doce que ele tem’ (cantando, risos). Nossa, mas aí eu saí com ele, aí rolou. Muito engraçado.

 

P/1 – Seu pai morava com vocês ou só morava sua mãe?

 

R – Não, minha mãe morava sozinha. Eu, minha mãe e meus irmãos.

 

P/1 – E a sua mãe não quis?

 

R – Não. Minha mãe, nossa, vou te contar. Aí, fui e me perdi com ele, comecei a me desviar dos meus estudos. Porque, maldita hora que aconteceu isso. Eu comecei a faltar a aula. Ele era traficante, envolvido. Comecei a me envolver com ele, comecei a matar aula, me envolver com pessoas que não prestam. A minha amiguinha, que se dizia minha amiguinha, ficava botando pilha, botando pilha, até que eu fui. Aí fui, lá pra Rocinha.

 

P/1 – Com quantos anos?

 

R – Com 12 anos. Fui lá pra Rocinha. Eu lembro que eu estudava, tava na quinta série, fui lá pra Rocinha. Fazer o quê? Lá na Gávea. Peguei um 1-750 que não chegava nunca. Eu falei: “Nossa que to com medo, vamos voltar Roberta, vamos voltar”. Aí fui.

 

P/1 – Morar com ele?

 

R – Não! Fui procurar ele, que aqui como tava cheio de polícia ele ia pra lá, entendeu? Era assim. Quando lá também era a mesma facção que aqui, ia pra lá. Encontrei com ele a primeira vez, fui a segunda, fui na terceira vez a gente foi, saiu, num lugar reservado, aí aconteceu. Só que foi muito ruim. Assim, depois eu fiquei com um sentimento ruim, um sentimento de culpa, falei ‘meu Deus, o que eu fiz? 12 anos!’. E eu, caramba, fiquei com nojo de mim. Falei: “Cara, estraguei a minha vida, o que é isso?”. Sabe? Foi mais forte que eu, e eu, sei lá, me decepcionei comigo, fiquei assim sem entender. Aí, cheguei em casa. Engraçado, nesse dia que aconteceu, que eu tive a minha primeira relação, minha mãe sentiu, não foi mais ou menos no mesmo horário, uma cólica forte, você não tem noção. Ela chegou em casa já na minha sede, sabe? Coisa de pele? Foi. E eu cheguei em casa, já tinha tomado banho lá, mas cheguei em casa, tomei banho, e ela achou estranho. Ela abriu a cortina assim, “Ô Gleicy, o quê que você fez?”. Eu: “Como assim, mãe?”. E ela com a mangueira de botijão de gás. E eu toda molhadinha, no chuveiro . Falei: “Meu Deus, ela vai me matar agora!” “Gleicy, o quê que você fez, sua condenada?”. Eu falei: “Eu não fiz nada, mãe! Eu não fiz nada! O quê que eu fiz?”. Cara, foi o pior dia da minha vida. E isso foi faltando poucos dias pro meu aniversário. Ela não teve nem coragem, a decepção foi tanta que ela não teve nem coragem de levantar um dedo pra mim. Ela com a mangueira lá de botijão de gás, daquelas grossas.

 

P/1 – Ela não bateu?

 

R – Não bateu. Mas foi pior.

 

P/1 – Mas você assumiu?

 

R – Assumi. Falei o que tinha acontecido. Foi pior porque eu preferia que ela tivesse batido. Ela fez pior, ela me deu o desprezo. Passou o dia do meu aniversário ela não olhou pra minha cara, não me desejou nada, sabe? Como se eu fosse um nada. E ficou assim dando um gelo durante um bom tempo. E o mais engraçado é que ele era bandido. Quando a minha mãe descobriu, que eu falei pra ela, quando ela descobriu quem era a pessoa, ela falou: “Eu quero falar com ele”. Eu falei: “Não, mãe”. Eu com medo dele matasse a minha mãe, minha mãe falando um monte de coisa. Minha mãe parou, encostou ele no paredão, chamou ele lá na varanda. Minha filha, você não tem noção, ela só não chamou ele de santo. E ele tava com um fuzil, menina, enorme . E ela: “Seu desgraçado, você sabe quantos anos minha filha tem? Você acabou com a minha vida! Minha filha tem 12 anos”. E eu era corpuda mesmo, tinha um bundão, uma cinturinha. Minha filha, ele: “Quê??? 12 anos???”. 

 

P/1 – Ele não sabia?

 

R – Nem ele sabia que eu tinha 12 anos. O mundo dele caiu. Ele ficou ali, foi sujeito homem, assumir. Ela: “A partir de hoje eu não vou dar mais nada, eu não dou um absorvente pra minha filha. Todas as coisas dela são tua”. Como se diz, toma que o filho é teu. E assim foi. Eu me lembro que ele saiu dali, daquela varanda, com aquela arma enorme na mão...

 

P/1 – Ele tava com fuzil quando foi falar com a sua mãe?

 

R – Foi. Voltou pro alto e atirou pro céu. Como se diz ‘isso aqui é pra não dar na tua mãe’. Raiva, de ódio, sei lá que sentimento que foi. Eu fiquei com medo. Aí, a gente ficou, a gente ficou um bom tempo. E ele tinha mulher, ainda tinha isso.

 

P/1 – Ele tinha o quê?

 

R – Ele tinha mulher. E eu fiquei cinco anos fixo com ele, mas nunca teve caô, nunca teve, da mulher dele vir de caô comigo.

 

P/1 – Você sabia que era ela?

 

R – Sabia, sabia! Amante tem que saber, nega . Tem que saber onde tá pisando.

 

P/1 – Você já tinha visto ela? Você via ela?

 

R – E ela sabia também quem eu era, porque ela passava e fazia questão de me provocar, entendeu? Só que era de um jeito que ela tinha que abaixar a cabeça. Ih, ele andava de moto comigo pra cima e pra baixo, bandeirava pra cara dela. Foi nesse dia. Eu to lá discutindo com ela, eu: “O quê, o que você falou?”; “É isso mesmo, não sei o quê”. Mas não passava uma agulha. Porque eu, 12 anos, a mulher  tinha o quê? Uns 20 e poucos, 30 e poucos. Já dá pincha, a mulher vai me fazer de macarrão, vai me esmagar. Mas eu vou apanhar, mas eu vou bater. Eu não vou ficar morta. O que aconteceu? Ele foi e chegou de moto na hora, quando a gente ia se embolar. Assim, no meio das duas. Foi uma cena impressionante, ele foi, botou ela na moto, começou a discutir com ela lá: “É isso mesmo, não sei o quê”, e eu fui entregar o cigarro pra minha mãe. Gelada. Eu falei: “Nossa, eu vou apanhar muito aqui”. Ele foi, chegou, separou e foi embora. Depois ele voltou lá em casa, eu falei: “Você não passa essa mulher aqui na minha rua, não!”. Nossa, deu uma discussão! Muito engraçado. Eu olho assim agora e começo a rir, mas eu fui muito feliz. Ih, eu fui pra hotel quando eu tinha 12 anos, fui pra vários hotéis, curti muito. Andava de carro, sabe, a vida bandida?

 

P/1 – O que é essa vida bandida?

 

R – Eu só nunca usei drogas, tá? Mas eu bebi. Ele não deixava nem eu fumar. Eu lembro do dia que a gente foi sair, eu já fumava com esse negócio de tu acende, acende, eu acabei pegando um vício, tá? Não fui de curiosa pegar o cigarro, não. Ia acender pros outros, acabava dando trago. Eu tava com um maço de cigarro, ele tinha saído. Eu tava lá, a banheira cheia, ele pegou. Eu falei: “Cadê meu cigarro?”. Gente, eu procurando na minha bolsa e nada, e eu: “Fulano, cadê o meu cigarro?” “Vai lá no banheiro”. Eu fui, olhei, o maço todo esmagado lá na banheira . Fiquei com tanto ódio. Depois começou a me dar dor de cabeça, já viciada. A falta da nicotina no organismo, eu falei: “Caramba, que coisa”. Mas foi muito engraçado. Bons tempos. Não tive filho, era louca pra ter filho dele. Louca, louca, louca.

 

P/1 – E ele fazia transação de tráfico na sua frente?

 

R – Ah, eu já via. Já via. Várias vezes. Mas já sabia que ele era. Depois, antes não, quando eu conhecia não.

 

P/1 – O que ele traficava?

 

R – Droga. Pó, maconha. Só tinha pó e maconha, não tinha essas drogas novas, não.

 

P/1 – Ele guardava na casa dele?

 

R – Não sei, só não guardava na minha . Agora, onde ele guardava...

 

P/1 – Ele nunca te envolveu?

 

R – Não. Nunca. Teve uma vez que ele foi preso. Nossa, sofri muito. A gente era muito vítima de inveja, sabe? Eu lembro que a gente sempre teve mania de ficar conversando. Ficávamos eu, minhas irmãs, conversando até altas horas da madrugada, sentadas no portão. Sabe, o papo fluía, e a gente conversava à beça. E minha mãe sempre falou pra mim “Minha filha, é melhor dar mais preferência à amizade de homens porque, ou ele vai querer te comer, ou ele vai ser seu amiguinho. Mulher é sempre falsa, ela tá rindo com você, comendo com você, vestindo com você, e tá te metralhando pelas costas”. E sempre foi assim mesmo. Nossa, a gente tinha muita amizade de cada canto da Cidade de Deus, tinha um bonde, sabe? E ficava muito homem lá no portão, mesmo, mas sabe, só pra amizade mesmo. Nossa, era muito bom, a gente juntava, fazia churrasco, ia pra baile. Nossa, era muito bom, muito bom mesmo! Minha irmã, a Vanique, sempre teve amizade com mulher pra caramba, mas eu, Jerusa, e até a Roberta agora, sempre foi de homem. Porque é verdade, ou ele quer te usar ou é uma amizade boa. É isso. O que eu tava falando que eu esqueci? Eu flui na amizade.

 

P/1 – De uma vez que ele foi preso.

 

R – Isso! Uma vez, um desses meninos ficou dançando, ficamos eu e ele. Ele foi preso, eu menor não dava pra visitar ele, a gente ficava se comunicando só por telefone. To conversando com ele, tá lá, o papo fluindo. Foi um sábado, eu lembro como se fosse hoje. Eu fui pegar a cadeira, sentei, aí veio o menino, sentou, ficamos conversando. Aí, saiu a vizinha pra ir pro baile. A gente tá lá conversando, conversando, só levantei pra ir no banheiro fazer xixi e voltar.

 

P/1 – Conversando por telefone?

 

R – Não, eu com o menino.

 

P/1 – Ah, com o menino. E ele tava preso.

 

R – Isso. E ele preso. Não fui nem pra baile, parecia que eu tava de luto, tinha que ver, incorporei mesmo o personagem. Ela saiu, foi pro baile, viu a gente lá. Aí voltou, umas cinco e pouco assim, o dia já tava clareando e eu falei: “Caramba cara, a gente tá conversando há um maior tempão, vou entrar”. Quando eu falei ‘vou entrar’ apareceu a rapariga lá na esquina. Eu falei: “Eu não vou entrar agora senão ela vai pensar que eu to fazendo alguma coisa de errado. Eu não vou entrar, vou esperar mais um pouco”. Pronto. Ela foi né, visitar um dos irmãos dela e ele. Ela viu ele lá, viu eu e ele. Foi visitar ele, deve ter falado, ela falou pra ele que eu tinha saído com esse menino que eu tava conversando. De tardinha, umas duas e pouco ele tava me ligando. Minto, era umas quatro e pouco. Ele me ligou: “Gleicy, que história é essa que você tá saindo com o...?” “O quê? Saindo com quem? Saindo com quem, você tá maluco?” “É isso mesmo! Eu sei que eu to sabendo”. Eu falei: “É, quem falou? Foi a rapariga?”. Comecei a xingar. Desceu a favela em mim. Comecei a xingar. Aí, teve que mandar um outro bandido lá. Eu falei: “Manda vir aqui que vou lá. Fui, provei que eu tava inocente, porque você tem que provar. Provei que eu tava inocente.

 

P/1 – E como você provou?

 

R – Ah,  não gosto muito de adentrar, não, porque é sinistro. Ah, eu fui lá com esse cara que ele mandou, da confiança dele.

 

P/1 – Ele mandou o cara?

 

R – Mandou, minha filha. Preparado. Preparado mesmo, fortemente. Eu fui lá na casa do menino, falei: “Ih, fala com ele”. Nem falei nada, falei: “Fala com ele aí”. Ele foi e falou: “Vem cá, tu tá saindo com a Gleicy, sabe que a mulher do cara, não sei o quê”. Porque é assim, mesmo você sendo a amante você é a mulher dele, não tem essa não, não é amante, lanchinho, não. Você tá com o cara... E todos têm um monte de mulher, é tipo o Cadinho agora da novela. Ele foi e falou: “Que é isso? A gente tava conversando, não sei o quê. Não, quem falou?”. Aí, foi que ele ligou pra ele né, lá dentro. Dentro da cadeia, pra ele. Daí eu falei: “Vem cá, quem falou pra você?” “Não! Falo o milagre, mas não falo o nome do santo”. Eu: “É, o nome do santo é tal”, e falei o nome dela. Ele: “Não, não sei o quê”. Eu falei: “É mesmo, sabe o que você faz? Agora que eu já provei, se você quiser acreditar acredite, se não quiser, dane-se. Olha só, sabe o que você faz? Pega ela, come ela, engole ela e me esquece”. E ele tinha poder, ele era tipo gerente, tá entendendo? E na época dava muito dinheiro, e quando tinha polícia eles arregavam, davam dinheiro, sabe como é que é. Desliguei o telefone. Ele ficou ligando a noite toda, ficou ligando durante uns dois meses seguidos.

 

P/1 – Dois meses? E você não atendia?

 

R – Diante de Deus. A minha mãe viu, é só ir lá e perguntar. Dois meses seguidos ligando direto, dia e noite, dia e noite e eu não atendia. Ligava, não atendia. “Ah Gleicy, o Fulano” “Eu não quero saber, não quero saber, não quero falar, não quero saber e não quero falar”. Comecei a trabalhar em trailer, ganhando 50 reais por semana, feliz da vida. Aí, chegou perto do Natal, eu fui e comprei minha roupa com meu dinheiro, com meu suor.

 

P/1 – O que você fazia no trailer?

 

R – Eu vendia. Fazia hambúrguer, cachorro quente, vendia cerveja, essas coisas assim. Era legal. Foi isso.

 

P/1 – E aí, ele não sai da cadeia?

 

R – Aí ele saiu. Quando ele saiu, ele fugiu. Foi com roupa de presidiário, uma roupa cinza, muito engraçada, estranha. Acho que sei lá, não sei o que eles fizeram naquele dia, não. Foi ele e um outro gordão amigo dele. Ele pulou na laje e pulou lá em casa. Antes dele sair ele ligou, falou que ia. Eu falei: “Mas você não vem na minha casa, não. Eu não quero saber, não tenho nada com você”. Eu já nervosa, varrendo o quintal, quintal de novo . “Ai Vanique, eu to nervosa, não quero”, não sei o quê. Ela: “Ah mona, agora já era”. Eu to lá dentro, fui e entrei, não quero ver, não quero ver. Aí ela: “Ó lá Gleicy, tá te chamando lá” “Quem tá me chamando?”. Pensei que era alguma menina, alguma colega de escola, sei lá. Aí ela: “Não, é o fulano”. Eu falei: “Ai, ah não, não vou lá, não”. Aí eu fui, abaixei lá assim , que eu fui de cabeça baixa, não queria nem olhar pra cara dele. Eu com medo, ficou muito tempo lá. Eu falei: “Ah não, deve ter mudado alguma coisa, não sei o quê”. Eu suava muito, nervosa, era um sol. Aí ele: “Vem cá, garota! Olha pra mim!”. Eu: “O que é? Fala? Eu falei que não queria tu aqui”. Aí ele foi decidido, sabe, a largar a mulher dele pra ficar comigo. Eu falei: “Não, vai ficar com a tua mulherzinha. Vai ficar com tua piranha, tu acredita nela, prefere acreditar nela do que em mim”. Ele: “Não, vou largar ela, vou ficar contigo” “Vai o quê, cara. Isso é promessa. Gosta de vagabunda na sola do pé. Tu acha que eu vou acreditar?”. Aí, ele foi e largou ela mesmo, só que eu não quis. Aí, foi quando eu separei de verdade.

 

P/1 – Será que você não gostava mais dele?

 

R – É porque eu fiquei muito magoada, que ele acreditou numa estranha e não em mim, que estava envolvida. Eu estava apaixonada, eu tava cega. Não tinha olhos pra ninguém, só pra ele. E ele acreditou nela e não acreditou em mim. Eu fiquei balançada. Mas eu não quis. Aí, ele foi, se envolveu com uma outra garota, uma branca, com um cabelo enorme , cacheado. Ih, ela passava seca, passava na minha frente, e eu nem tchum. Curtia a minha vida, dançava, continuei trabalhando.

 

P/1 – E você não ficou com medo dele fazer alguma coisa com você?

 

R – Não. Em nenhum momento. Porque a lei é o seguinte: tu não pode se envolver com outro, entendeu? Com outro bandido. Tu não pode se envolver. Mas um trabalhador. Mas mesmo assim gente, eu não queria não, tava revoltada da vida. Aí, comecei a trabalhar no Bob’s. Fiquei maior tempão separada dele. To lá, um belo dia, to lá trabalhando, eu tinha até esquecido, nem lembrava mais.

 

P/1 – Você foi trabalhar no Bob’s?

 

R – Isso. Fiquei mó tempão. Mas antes de eu trabalhar no Bob’s eu continuei trabalhando. Passou o maior tempão mesmo, uns dois, três anos, depois desse dia que eu falei que eu não quero, eu não quero. Ele foi ter a vida dele com essa menina e eu fiquei na minha. Fui, terminei, fiz até o primeiro ano. Eu tinha parado na quinta série, eu fui terminar, eu estudei. Aí, eu vi se dava pra conciliar, não dava. Foi quando eu entrei no Bob’s.

 

P/1 – Ele te sustentava antes?

 

R – Claro! Claro.

 

P/1 – Ajudava a sua mãe também?

 

R – Claro. Claro Operadora . Com certeza . Claro que ele dava. Todo mundo arrancava, por que eu não ia arrancar? Claro. Dinheiro é bom, minha filha, não me incomoda, não. Pegava livre e bela. Ih minha filha, na época eram altas marcas, caríssimas, se todas botavam por que eu não podia botar? Claro que eu pegava, toda semana. Pegava mesmo, ia pro salão. Comecei a ficar chique, bem. Pegava. Aí, comecei a trabalhar no Bob’s. Aí comecei a estudar de noite. Comecei a trabalhar, sendo que eu comecei de tarde por um milagre, que eu chorei muito pro gerente lá, foi época de dezembro. Assim, só temporário. Eu consegui, fiquei fixa. Entrou janeiro, fevereiro, comecei a estudar, só que não dava tempo porque eu trabalhava em Madureira, até eu chegar, aquele engarrafamento, aquele trânsito, chegava tardona e cansada, não tinha mês mais pra nada, tava na pior, daí não consegui. Por isso que eu bato a cabeça pra quem consegue trabalhar e estudar porque não é brinquedo. E no Bob’s puxa muito, pega peso...

 

P/1 – O que você fazia lá?

 

R – Pega peso, você fica fazendo sanduíche, você fica botando molho em sanduíche, você limpa chão, você vai lá e tira a lixeira. Ih filha, é uma loucura. Tem que cortar tomate, corta isso, faz aquilo, fica no caixa. É uma loucura, não tem paradeiro. E cansativo, a gente fica exausto. Saía, tomava banho, saía com aquele cheiro de gordura que fica impregnado em você, aquele cheiro de hambúrguer . Pegava a mochila e vupt. Nos primeiros meses ainda deu, mas depois... Cala a boca, Gleicy. Aí, eu tive que dar preferência em trabalhar porque eu tinha que me sustentar, eu tinha que contribuir dentro de casa. Na época o salário era 200 e pouco. Eu tinha que dar cem reais dentro de casa, entendeu? Não podia ficar sem dar. Ou você dava, ou você come. Se der come, se não der, não come. Tinha que ajudar dentro de casa. Eu tinha que trabalhar. Eu sempre fui uma boa aluna, entendeu? A minha mãe nunca foi no colégio pra receber reclamação minha. Nunca. Eu sempre fiz de tudo, sabe?

 

P/1 – As suas irmãs trabalhavam também?

 

R – Trabalhavam. No Bob’s.

 

P/1 – Todo mundo no Bob’s?

 

R – É. Só que uma era à noite, fechamento, eu era abertura porque eu entrei de menor.

 

P/1 – Você estava com quantos anos?

 

R – 17. 16, 17.

 

P/1 – Foi bem quando você separou dele. Aí que você foi trabalhar.

 

R – Isso, 16, 17. Eu acho que foi isso. Eu lembro que eu entrei de menor.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou no Bob’s?

 

R – Fiquei uns oito meses.

 

P/1 – E aí, por que você saiu?

 

R – Ah, eu saí por quê? Eu pedi pra eles pra ser mandada embora, ninguém queria me mandar. Aí eu comecei a aloprar, faltar, dar um monte de atestado, tal. Mas eu saí por quê? Eu tava numa equipe ótima, o gerente era ótimo. Pegou e mudou a gerência, aí a gerente que entrou não foi com a minha cara. Entendeu? Foi pessoal mesmo. Eu comecei a aloprar pra ser mandada embora. Aí, quando mudou o gerente de novo , pro meu azar daí era uma bacaninha, era mulher. Pelo histórico de faltas eles tiveram que me mandar embora, quando eu tava gostando de novo. Falei: “Ah, mandaram embora, não tem problema”. Saí, belíssima, feliz, comprei um celular que tirava foto na época. Ih, saí por cima da carne seca. Comprei tênis, comprei um monte de coisa, ajudei lá na minha mãe, e fui arrumar outro. Fiquei recebendo seguro-desemprego, não sou boba. Tive que respirar. Daí depois eu entrei em outro. Trabalhei.

 

P/1 – Onde você entrou?

 

R – Também foi muito bom lá . Não, eu entrei em outro, bate e pula, passa essa.

 

P/1 – Não, não.

 

R – Tem que passar, é muito íntimo.

 

P/1 – Esse outro trabalho?

 

R – É!

 

P/1 – O que você fez?

 

R – Não vou dizer! 

 

P/1 – Eu não conto pra ninguém.

 

R – Não, mas isso daqui vai parar onde? 

 

P/1 – Não, a gente edita.

 

R – Então, desliga aí.

 

P/1 – Desliga.

 

R – Ah não, não quero falar!

 

P/1 – Tá bom, ela não quer, deixa.

 

R – Não quero... Vai, entrei em um outro, aí desse outro fiquei muito tempo.

 

P/1 – Nesse que você não quer falar?

 

R – É. Fiquei muito tempo.

 

P/1 – O quê que é, garota de programa?

 

R – Mais ou menos.

 

P/1 – Mas pra algum lugar ou pra alguma pessoa?

 

R – Mais ou menos.

 

P/1- – Entregadora de pizza.

 

R – É, entregava pizza . Aí, saí desse e fui pra outra. E dentro desse trabalho que eu não tava matando, roubando, nem destruindo, eu conheci um rapaz que trabalhava numa agência de empregos. Ele falou: “Tu é muito bonita, sai dessa”. Me prostituía. Aí, ai, tem que lidar com isso, é foda! Vamos falar. Entrei, comecei a trabalhar. Foi muito estranho, foi muito ruim.

 

P/1 – Dar depoimento é forte porque você fica vivendo mesmo. Faz parte, querida.

 

R – Então, vou falar. Pode?

 

P/1 – Claro.

 

R – Quando eu comecei a me prostituir, tudo foi assim, obrigada, sabe? Obrigada por quê? Eu, dentro de casa eu sempre tinha que dar as coisas, todo mundo sempre foi assim, todas as meninas. Essa minha irmã mais velha, ela falou assim pra mim… tinha uma outra coleguinha dela, e ela falou assim: “Pô, vamos lá na casa da Mel porque ela trabalha lá na… sabe, né? Roupa de marca. Aí, eu: “Pô, vamos”. Só a via bem arrumadona, saltão, roupão, tal. “Ah, deve trabalhar bem. Quando você trabalha numa loja você usa a roupa da loja pra você fazer a propaganda”. Falei: “Vamos lá”. To lá, fui, botei a minha melhor roupa, vou lá, conhecer a gerente . Ai, meu Deus! Tem que tomar cuidado com as amizades. Aí fui com ela, fui eu, ela, minha irmã, uma outra menina lá que tinha, e mais uma. Fomos todas pra lá, to vendo, andando, andando, andando, andando, e nada de chegar. Eu falei: “Pô, tem que ser num shopping, alguma coisa”. Quando chegou bem pertinho, ela falou: “Gente, eu vou falar a verdade pra vocês. Eu não trabalho na loja, sou garota de programa. Ganho uns quinhentos, seiscentos, dependendo do dia, por semana. Eu sustento a minha filha”, porque ela tem duas filhas, agora tem mais. “Sustento minha filha, pago meu aluguel, mas assim, tudo com meu suor, não dependo de ninguém, não devo nada a ninguém. Mas é assim que eu ganho a minha vida”. Lá. Quase na porta do local. Eu levei um choque. Não é por preconceito, tô nem aí, mas pô, tipo assim, cara, me enganou, me fez andar pra cacete, andei muito. Chegou lá, eu falei: “Ai, vamos embora”. Aí, ela, começou né, capetinha, a atentar: “Vamos lá ver como é que é, não sei o quê”. Eu: “Ai Vanique. Ah não, cara”. Aí pronto, fui. Aí tinha uma lá, a tal da tia. Aquela experiente no bagulho, vai te passando. Vai te dar um manual de instrução, vai te explicando, é isso, ‘é tua primeira vez’. Daí deu uma acalmada, deixa eu ver como é que é. Aí elas entrevistaram. Tudo bem. Tu tem que fantasiar a coisa. Se vem o cara mais feio do mundo, tem que pensar que é o Reynaldo Gianecchini, o Cauã Reymond , acabou. Aí tá, bota a roupa assim, assim, assado. Daí bota, toda trajada, aqueles saltos enormes. Tem local que tem roupinha, tem uns que não tem. Aí tá. Eu, “Ai meu Deus isso não vai dar certo”. Fui lá. Ela: “É com você!”. Aí fui, botei a calcinha . To com vergonha. Falei assim: “Vamos lá, pô, vamos tentar”. Fui lá, fiquei lá paradinha no canto. Aí chega muito homem, cara. Loucura. Aí, tu faz. A minha primeira experiência não foi nada boa, eu peguei um cara mais velho, tinha um mau hálito terrível! Você não tem noção, parecia que tava falando com o bueiro. Mas assim, foi super hiper, mega carinhoso, sabe? Mas eu lá, depois me senti muito suja. Mas como eu tava precisando do dinheiro. Tu tem noção, a necessidade obriga. Não é assim, ‘ah, uma piranha’. Não é, cada um quer o teu, entendeu? Você tá dando o que é teu, entendeu? Você não tá dando, você tá vendendo. Tu vai lá, compra a mercadoria e acabou. Tu recebe. Não tem muito mistério. Aí, e pra falar pra minha mãe? Não falamos. Ela descobriu da pior maneira possível. 

 

P/1 – Como ela descobriu?

 

R – A gente falou que... Nesse primeiro dia...

 

P/1 – A sua irmã foi também?

 

R – Foi. Pra tu ver como o diabo atenta, desde o primeiro dia que a gente foi, você não tem noção do que a gente faturou. Eu falei: “Nossa, é assim? Fácil?”. Cara, o dinheiro fala mais alto, sabe? E tu aí, a necessidade, sabe? Eu tava precisando. Eu falei, vou dar mesmo, muito dinheiro. Aí pronto, fui o primeiro, o segundo, sabe, quanto mais eu ia mais eu ganhava. Eu falei: “Cara, que trem bom”. Aí, no segundo dia minha mãe descobriu. “Vocês não trabalham nada em trailer nada, que trailer, que trabalho é esse de vocês? Chegam uma hora dessas?”. Porque a gente teve que falar que tava trabalhando no trailer, tinha que dar satisfação. Era num trailer, à noite, fazendo hambúrguer. Pensamos que ia colar porque eu já trabalhei, ela já viu. Aí, ela descobriu. Minha irmã era mais velha. Eu entrei de menor, tá? De menor . Porque eu fiquei mais ou menos uns oito meses, nesse tempo eu saí e fui pra lá. Mas recebendo o seguro-desemprego e tal. Fui pra lá, falei com a minha irmã. A minha irmã já era de maior, foi, ela era assim, não liga pra nada, até hoje ela é assim. E eu não, ela ficou assustada: “O quê que vão falar? O que vão pensar de mim? Vocês não pensam no irmão de vocês?”. Mas sabe, foi aquele drama mesmo porque não liga pra mim, não. Foi mais pelo que os outros vão pensar, não foi por você. “Você tem futuro, você pode estudar”. Não foi por isso. “O que vão pensar?”. Não se preocupou com a gente, se preocupou com os outros. Eu fui, me revoltei. No outro dia tinha que ir, se você falta você paga uma multa, tá? Minha irmã saiu cedo, umas duas e pouco, três horas.

 

P/1 – Sempre que faltar paga multa?

 

R – Paga.

 

P/1 – Você assina um contrato?

 

R – Não, é de boca. Mas funciona muito bem, tá?

 

P/1 – Eles pagavam quanto? Porque é assim, a pessoa paga um valor...

 

R – É, depende da casa. Tem lugar que é meio a meio, mas não é nada justo, quem sofre é você. Tem lugar que, por exemplo, se o programa é 50, você fica com 30 e a casa fica com 20, entendeu? Mas você ganha mais quando faz por fora. Tem muitas que fazem, muitas. Mas eu acho muito, muito arriscado. Eu só fiz uma vez. Chamam de PF. Prato feito, não, programa fora . Ai, é muito engraçado. Mas eu me diverti, sabe? Depois que tu entra no personagem, e que, tu já viu o filme da Bruna? É aquilo ali mesmo. Você entra no personagem, tu encontra a pessoa e vai pra cama. Você vê pessoas que tu nunca ia imaginar que ia fosse, entendeu? Da mesma forma que tu fica meio que com o rabo preso, não é assim rabo preso, é que as pessoas têm preconceito. Na verdade você não tá fazendo nada demais, você tá dando o que é teu, a vida é tua, ninguém tem nada a ver.

 

P/1 – Por quanto tempo você ainda trabalhou assim?

 

R – Então, eu não fiquei muito tempo. Por causa desse menino. Desse menino que eu conheci.

 

P/1 – O seu namorado, o outro, ficou sabendo?

 

R – Eu acho que sim. Eu acho. Mas até hoje eu não tenho certeza. Porque mudou tudo. Eu lembro que eu tava trabalhando lá, tava vindo de madrugada, com mochila. Depois você já começa a se cuidar, comprar coisa cara, sabe? É igual uma droga, essa vida é uma droga. É igual vida bandida, sabe? Porque você ganha muito dinheiro, mas você gasta muito dinheiro. Você quer fazer presença, vem as tuas amiguinhas, sabe que tu tá ganhando dinheiro e tão ali te sugando, sabe? Maior sanguessuga. Por isso que eu falo. Teve um dia que eu tava vindo de madrugada, eu e minha irmã, com a mochila. Por sorte, olha só, ele tava com um carro lá na minha rua. Aí, a Vanique: “Ih Gleicy, é o fulano!”. Eu falei: “Ai, e agora?”. Ela: “Me dá aqui a mochila, me dá aqui”. Ela foi e pegou a mochila de mim. Ele: “Tá vindo da onde?”. Eu falei: “Não te interessa, não tenho nada contigo”; “Vem cá garota, vamos dançar!”. Eu gostava dele, ele na dança era uma fera. “Vem cá, vamos conversar!”. Eu entrei no carro da pessoa, ele acelerou, ele me levou pra um lugar, escuro, eu lembro que a gente era coisa de pele, era uma química muito brava. Rolava em qualquer lugar . Aí, pegou fogo. Aí, ele viu que tava diferente a coisa. Eu não sabia o a-e-i-o-u, ele só tinha me apresentado as duas primeiras vogais. Eu tava sabendo o alfabeto, tava ensinando mandarim pra ele, nega . Ele comigo no colo de muambeira, ele: “Gleicyyyyy o que está acontecendo??? Tá pegando fogo”. Eu acho que ele desconfiou. Porque tem uns que falam que dão umas comentadas. Pois é . Aí, foi. “Mas vamos voltar de novo?”; “Bofe, já era, tô em outra!”. Muda tudo, tu se torna mais mulher, é muito estoque. Quando tinha festa, tu conhece muita gente bacana, bacana mesmo. Mas tu conhece muito cara bruto, ogro. Eu ganhava presente. Nossa, tinha uns que eram um amor. E tem rivalidade das colegas. Que eu cheguei tomando de geral ali . Não é pra me gabar não, mas meu nome fictício tem história .

 

P/1 – Qual que era o nome fictício?

 

R – Era Chica, Neguinha .

 

P/1 – Chica?

 

R – Chica da Silva.

 

P/1 – Era Chica da Silva? Quem que te deu esse apelido?

 

R – Foi na época, tava reprisando . É, muito engraçado. Minha irmã era Capitu, o meu era Chica. Chica.

 

P/1 – Quem foi que começou a te chamar de Chica?

 

R – Não, você tem que escolher um nome porque você não tem que entrar com o seu, entendeu? Não é legal. Por exemplo, tu tá passando na rua ou no mercado e tu vê um cliente seu, ele vai te chamar pelo teu nome? Nada a ver, ali dentro é uma coisa, saiu da porta pra fora é outra. Ele tem que te respeitar como uma pessoa qualquer, entendeu? Por isso que não é legal você dar o seu nome. Por exemplo, teu nome é Débora, tu dá o teu nome lá dentro, aí lá fora: “Débora!”. Vai falar o quê, assunto com você? O único assunto que interessa é aquele. Então, é melhor nem falar, por isso que você dá um nome fictício. Dá um nome, inventa um nome, um nome que você gosta, um nome da moda, inventa. Foi isso.

 

P/1 – Tinha os que voltavam sempre?

 

R – Tinha. Conheci um delegado, sabe? Muito bacana. Tem uns que você não faz nada, vem conversar, de verdade. Tem muitos que choram. Tu chora? Poxa, chorei muito já. Sabe, um papo bacana, de ficar ali, a hora passa, o caramba. Vai lá pra baixo. Às vezes tem cliente que só quer fazer bar. 

 

P/1 – E aí você conheceu esse rapaz que tinha uma agência de empregos.

 

R – Isso. Conheci ele lá, foi meu cliente.

 

P/1 – E aí?

 

R – Aí ele falou. Foi quando eu tava desanimada já, louca já, muito a fim de sair. Aí, ele falou.

 

P/1 – Você usava drogas?

 

R – Não. Nunca usei. Só fumava, até hoje. Nunca usei drogas. E não era por falta de oportunidade, não. Porque surge sim, muito. Muita droga. Aí fui, aconteceu o fato . Ele foi e falou: “Pô, sai dessa vida, caramba”. Na terceira vez que a gente foi se encontrar. “Pô, sai dessa vida, eu posso te ajudar”. Eu falei: “É mesmo?”. Ele: “É”; “Tu trabalha em quê?”; “Trabalho em uma agência de emprego, tal. Eu posso te ajudar, cara. Eu posso te dar uma carta, você vai lá, vê um emprego”; “Ô cara, eu to afim mesmo, mas...” . É difícil, cara, por isso que eu falo, tem que querer muito, porque eu não tinha mais como andar de bacaninha. Pra arranjar um emprego que ganhasse bem, você tinha que estar com a formação. Eu só tinha o primeiro grau. E o que eu ganhava, o que eu ganhei de salário não era nem o que eu tirava por semana ali. Então, foi muita vontade mesmo de eu sair dali, de eu querer sair. Porque era trezentos e pouco. Eu falei: “Cara, ganhar isso por mês? Como é que eu vou me virar? Não dá pra mim” “Não cara, é pouco, mas é digno”. Eu falei: “Ué, e o que eu faço não é?”. Mas eu tava a fim de sair. Foi quando eu saí. Aí fui lá. Falei, o que eu vou fazer? Daí tinha uma roupa bacaninha lá, eu fui lá na agência, ele me deu a carta e eu fui lá. Aí consegui emprego.

 

P/1 – Em quê?

 

R – Era caixa numa empresa terceirizada de alimentos. Aí fiquei lá um bom tempo também. Fiquei uns seis meses, era pra ficar mais. Só que eu tive um problema, caí lá de joelhos e fiquei cinco dias. Era pra ter processado, mas eu não quis. O médico me deu cinco dias, tinha que fazer fisioterapia, ondas leves, ondas não sei o quê lá, e eu não fiz porcaria nenhuma e me mandaram embora. Desses cinco dias, quando cheguei já ganhei o aviso prévio. Cumpri num outro local, na Johnson. Me amaram, nossa, amei aquele equipe também, todo mundo queria que me contratassem, aí ela foi conversar com a outra, e a outra não deixou. Aí, fui embora mesmo. Fui, comecei a vender lingerie. Aí, tu não para, tu dá um tempo, aí fiquei fazendo uns por fora, depois que eu saí.

 

P/1 – PF?

 

R – É . Mas não fui pro… tem só uns contatos, sabe? Foi quando eu conheci o cara que eu to até hoje, meu marido.

 

P/1 – Você foi fazer um programa?

 

R – Não, não com ele.

 

P/1 – Como é que você conheceu ele?

 

R – Ah, ele vende mercadorias, esses paneleiros. Ele foi vender pra mim, eu comprava direto do colega dele.

 

P/1 – Comprava o quê?

 

R – Mercadoria. Edredon, lençol, essas coisas. Aí, eu comprei com ele um edredon. Comprei um edredon não, um jogo de lençol. Paguei todinho, aí eu era freguesa boa. Toda semana tinha dinheiro. Eu comprei um edredon, quando eu comprei o edredon ele começou a me cantar. Aí começou, ele me chamou pra sair. Foi muito engraçado, ele é muito engraçado. Até hoje. Ele me chamou pra sair, eu falei: “Pra onde?”; “Pro hotel” “Fazer o quê lá?” e ele “Rezar que não é”. E foi engraçado, eu fui. Foi, fui com ele. Foi muito engraçado. Eu morro de rir. Aí saí com ele, fiquei saindo, saindo, saindo... 

 

P/1 – Mas você vendia lingerie.

 

R – Isso.

 

P/1 – Você continuava fazendo programa ou você parou?

 

R – Aí eu parei.

 

P/1 – Ele sabia que você fazia?

 

R – Sabia. Eu fiz questão de contar tudo. Falei: “Olha só, Ricardo, vou te passar o meu passado todinho, tá? Aí, você olha o presente e vê se dá pra pensar no futuro”. Aí eu contei. “Ó, já fiz isso, já fiz aquilo, já me envolvi com Fulano, Sicrano...” . Contei minha história toda: “me prostitui, tá”. Ele falou: “Não, eu já sei já. Mas e aí, o quê que tem?”. Falei: “Sério, cara?”. Porque você fica com esse preconceito, sabe, o que vão pensar? Tu fica, não adianta. É fato. Aí, começou. Aí é um tipo de parceria muito bacana. Aí, me deu vários conselhos. Sabe, eu não tive namorado como as adolescentes têm, de tu ir na casa do namorado, ou ficar na esquina, beijinho, abraço. Não. Eu com 12 anos já tive a primeira relação, o primeiro cara tinha 25 anos, eu tinha 12, foi tudo muito rápido na minha vida. Eu não tive. Com ele eu tive. Eu namorei com ele, a gente ficava no carro, sabe essa coisa boba de adolescente? Que eu não vivi. Então, acho que foi isso que me encantou nele. E ele é mega carinhoso. Sabe, foi uma coisa tão rápida eu fico assim até hoje, parece até alma gêmea. Ele tem 40 anos já , eu tenho 24. Aí foi. A gente se envolveu, sabe, de um jeito. Quando a gente tava saindo assim, namorando, muito engraçado! Ele foi lá, pediu a minha mãe pra namorar. Eu falei: “Caramba cara, eu to arrombada já, o que você quer? Viaja”. Eu já era porra, dona do meu nariz, me bancava, tu entendeu? Eu achei assim, que coisa, que cara engraçado. Então tá. Pô, eu não quero pra me usar. Aí começou a namorar, a gente ia. O que gravou, o que marcou tudo isso mesmo foi na época de Jeito Moleque, na época todas as músicas do Jeito Moleque a gente curtia, fomos pro show do Jeito Moleque, Roupa Nova, sabe, a gente saía igual namorado, ia no cinema, ficava dormindo na cadeira. Vimos o Zuzu Angel, bati tanto nele, menina, muito engraçado. Eu vendo lá o filme, ‘tu não viu essa parte?’. Quando eu olhava, ele dormiu. É ruim quando tu quer comentar alguma coisa não dá. Era engraçado. Eu lembro a primeira vez que ele dormiu lá em casa, eu enchi de vergonha . Dorme, o que é que tem? Nossa, fiquei toda sem jeito. A gente curtiu um monte de coisa. Eu chamei ele pra dormir a primeira vez lá em casa. Tá já mora. Ele morava distante, aí, minha mãe falou: “Deixa ele dormir aí”; “Tá, vou falar com ele”. Eu falei  com ele, ele sem jeito de dormir. Eu lembro da beliche, que juntou todo mundo lá pra comprar, quem pagou mais fui eu, tava podendo. Ele sem jeito de dormir, todo sem graça. Aí, eu fui fazer uma brincadeirinha e ele não quis. Ele respeitou legal, respeitou a casa, sempre foi sério. Ele arrasou. Aí fui na casa dele. Sabe, nunca tinha ido na casa de um namorado assim. Fui na casa dele, fazia baião de dois, me levava pra lugares que eu nunca tinha ido, me tratava hiper mega bem. Eu comecei a me envolver. E foi tudo muito rápido, sabe? Dentro de um mês tu se envolve, tu tem um sentimento forte, uma coisa assim que tu não entende. Eu falei: “Caramba, como é que pode?”. E eu olhava assim, falava na minha cara. Eu falava: “Nossa, nunca que eu ia me casar com um velho, eu tava louca! Eu, novinha?”. Não sei o quê, moderna. E ele é mais velho que eu, bem mais velho que eu. Eu via, preconceito meu, cuspi pro alto e caiu na cara, pô, sabe? E eu lembro também que antes disso eu decidi parar com tudo, parei mesmo. Eu fui jogar búzios. Aí, essa mãe de santo que leu lá, ela falou que eu ia me envolver com um cara mais velho. Eu falei: “Eu? Duvido!”. E deu tudo certinho! Falou que eu ia ser muito feliz com ele, que eu ia ter uma filha. Eu falei: “Filho? Nunca tinha engravidado”. E eu dava à beça sem camisinha pro outro, queria engravidar dele, meu primeiro homem. Nunca, nem suspeita. Nunca tinha engravidado dele, a primeira vez que eu engravidei foi a minha filha. Nesse tempo todo, fui engravidar agora, poucos anos atrás. E é isso, to com ele até hoje. Graças a Deus. Aos trancos e barrancos.

 

P/1 – E quando é que você entrou pro Bolha Colorida?

 

R – Hum, tá. Depois que eu adivinhei, fiquei com ele, tal, tive a minha filha, aí comecei a ter obra lá em casa, quando a gente começou a entrar em casa, lá na casa do meu pai em obra, e eu fui pra casa da minha mãe. Tava na casa da minha mãe, aí vem a minha colega, uma que participava do projeto também, a Maria. Aí, ela: “E mulher, tá fazendo o quê?”. Eu falei: “Ah, to aqui parada, com filho.” Não tem muito o que fazer, filho pequeno, tava só vendendo lingerie, roupa, continuei a ter uma renda. Aí, ela: “Tem um projeto aí, não sei o quê”. Eu falei: “Ah Maria, que projeto, não quero saber de projeto, eu quero é dinheiro”; “Então, vai dar dinheiro! A gente montar alguma coisa assim”; “Ah Maria, não quero saber de nada, não”; “Vamos lá, vamos ver. Tu vai hoje, hoje é o dia de inscrição, tá, você vai lá, vai ter um dinheiro do governo”. Ela tinha falado que era do governo. Eu, ah, eu vou lá, não to fazendo nada mesmo, vou lá. Fui lá. Aí, fui nessa reunião, logo de início eu não fui com a cara de uma garota, ela também não foi com a minha, começou a me metralhar lá. Nossa, foi um inferno aquele dia (suspiro), garota insuportável. Começou com problema comigo, cara. Eu não tinha falado nada. “Ah não, ela não falou isso, não falou, agora tá falando”. Eu falei: “Não é não, é assim mesmo, tem que aprender a se controlar, aqui você fala as coisas mas não leva pro pessoal, entendeu?”. Aí foi, fui gostando, fui olhando, saiu agora o projeto. Tinha um monte de suposições do que poderia fazer, tinha ideia do sabão, torta, doceria, tudo.

 

P/1 –A gente tava falando do projeto, como é que você foi parar no projeto?

 

R – Então, a Maria, que fazia parte do projeto, me chamou, eu fui e conheci. Tinha uma menina que não se dava muito bem comigo. Aí, já estavam escolhendo já se ia fazer uma fábrica de sabão feito com óleo, ou uma doceria de tortas, a gente via o que não tinha dentro da comunidade pra gente poder colocar. Tem salão à beça, lanchonete, creche, surgiu um monte de coisa. Aí, a gente decidiu. Teve uma espécie de votação e a gente decidiu montar a fábrica do sabão. Foi uma correria, ver espaço. Tinha muita menina que tava desistindo, tinha mais de 60 mulheres se não me engano, muita mulher. Aí, os fortes sobrevivem. Isso foi uns oito meses, aí, tiveram aquelas oficinas.

 

P/1 – Oficinas de quê?

 

R – Cursos de preparação, aí teve várias experiências. Teve aula de como lidar com cliente, enfim, essas coisas que você precisa pra você poder abrir um empreendimento. Uma noção, um curso básico. A gente foi pra experiência, aí começamos, pegamos um monte de receita na internet, de como faz sabão, fazia, tudo, e nada dava certo. Nenhuma. E quase perto de abrir o empreendimento, aí, eu fui juntando uma coisa com a outra, tal, e bum, saiu o sabão! Conseguimos acertar. Porque na internet tem uma monte de receita, mas você pega lá, o pulo do gato ninguém dá. Dão a receita, mas é você que tem que se ligar ali na hora. Aí, deu certo. Foi quando a gente conseguiu, mas foi muita luta, receita conturbada.

 

P/1 – Você que achou o ponto?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Ah, foi na hora, nega! Foi dar a forma, textura, ficar meio grossinho, homogêneo. Aí, bota pra secar e espera lá. Agora é facinho, facinho.

 

P/1 – O que o projeto mudou na sua vida?

 

R – Mudou muita coisa. Mudou meu modo de ver, mudou a minha personalidade. Porque hoje eu não preciso, sabe, igual eu falei, não preciso mais ficar sendo mandada, tendo que ficar obedecendo direto. Hoje eu trabalho pra minha melhoria, sabe? Pro meu entendimento. Tudo o que eu for fazer é em prol da minha empresa, do projeto. Tudo o que eu faço. Hoje eu posso, daqui a pouco eu vou poder contratar. Muita coisa, são muitas coisas envolvidas.

 

P/1 – Na sua personalidade por quê?

 

R – Porque eu vejo hoje em dia que eu sou capaz. Eu tô, eu e as outras meninas, estamos batalhando pra gente poder crescer, sabe? A gente sonha alto, não custa nada sonhar. Mas a gente tá fazendo um esforço muito grande, enorme, pra gente poder fazer acontecer, ter várias filiais, mostrar esse projeto pro mundo inteiro, que é um projeto bacana. Vai acontecer. E eu tenho uma filha, eu quero que amanhã ou depois, se eu morrer, vai ter alguma coisa pra ela, entendeu? Ela vai poder entrar se ela quiser, se ela optar, vai ter uma coisa já formada, ter uma empresa pra poder ter o meio de sobreviver. Esse mundo é um mundo de cão, bicho comendo bicho.

 

P/1 – E você já tá conseguindo ter retirada do projeto?

 

R – É, mais ou menos. Não é um lucrozão, a gente encontra muita dificuldade. Quando teve aquelas reportagens não tinha nada, nada sobre óleo aqui na comunidade, nada. Quando teve a reportagem começou a aparecer gente recolhendo óleo. A gente não faz uma troca, você traz o óleo e ganha o sabão. Não. A gente recolhe o óleo porque a pessoa já tinha o destino de jogar fora, jogar na pia ou jogar no lixo, ou jogar no rio. Então, o que a gente fez? Em vez de jogar fora a gente está só reeducando a população. Que o óleo é um vilão, ele bate no rio e causa um estrago enorme. Então, invés de você poluir, a pessoa vai estar ajudando a gente, com o quê? A gente precisa do óleo, o óleo é a nossa matéria prima, e o óleo, pra pessoa comum, é um lixo, não vai servir, não tem mais utilidade. Então, o mínimo que eles podem fazer é colocar numa garrafa e trazer pra gente. Ou, se for uma grande quantidade a gente ir buscar. Só que com isso tudo aparece pessoa aí já comprando óleo, dando uma gratificação, detergente, pano de chão, alguma coisa, entendeu? Pensaram que poderiam nos abalar, mas estamos aí, com força total!

 

P/1 – E vocês recolhem quanto de óleo?

 

R – Agora... Por semana eu não tenho noção porque depende, tem semana que a gente recebe muito, mas tem semana que é normal. Assim, por mês eu sei que a gente tá recebendo quinhentos litros. Quinhentos litros de óleo por mês.

 

P/1 – E qual o tamanho da fábrica? Como vocês fazem de sabão por mês?

 

R – Então. Assim, a gente fabrica de acordo com o que vai saindo, sabe? A gente sai na rua pra vender, faz a venda de por em porta. Só que tem ficado esse mês, o tempo tá ruim, com chuva, daí a gente não tem como sair muito. Se sair vai estragar tudo. Aí, as pessoas vão lá na loja comprar.

 

P/1 – Vai bastante?

 

R – Vai... Tem muitas pessoas que fazem a propaganda pra gente, vê que o produto é bom e já fala pra vizinha, conhecido. A gente pode produzir em um dia um mil e duzentos barras de sabão.

 

P/1 – No dia?

 

R – No dia.

 

P/1 – Tem capacidade pra isso?

 

R – Tem capacidade. Só que não adianta a gente fabricar de montão e ficar parado, então, a gente vai fabricando de acordo com o que vai saindo.

 

P/1 – E você acha que o projeto modificou a comunidade?

 

R – Com certeza! Sem sombra de dúvidas! Só o fato de entrar a consciência ambiental, da pessoa não poluir mais. Só isso, isso já basta. Hoje tem criança que vai lá levar o óleo, tem criança que fala pra mãe: “Não mãe, não joga aí não, bota na garrafa”. Tem criança que vai levar, leva a mãe pra mostrar o projeto, tem muitas mães curiosas: “Mas isso funciona mesmo? Não sei o quê”. E a gente dá aquela garantia: “Não, funciona, pode dar que funciona. Desengordura mesmo, limpa mesmo”. Homem é que é problema, só vai e compra uma vez. É vício, filha, o Bolha vicia.

 

P/1 – E o seu marido, o que ele acha disso?

 

R – Ah, ele me dá força. Sempre pede, não tem rolado tanta coisa. A gente procura focar, a princípio, na empresa. De conseguir pagar os custos da loja, custos fixo. Sobra alguma coisa pra gente, trezentos, quatrocentos, depende do mês. Aí, quem segura o resto das pontas é o meu marido mesmo. Porque eu to abafada por enquanto, não dá não.

 

P/1 – O que você comprou com o dinheiro que você tirou aqui, já?

 

R – Ah, eu já ajudei ele pagar conta. Comprei coisas...

 

P/1 – O que você comprou com o primeiro dinheiro que você tirou aqui?

 

R – Não... Ah, lembro! Foi eu e a outra sócia, eu, a Iara e a Maria, vamos pra uma loja de roupas, fizemos a festa. Compramos roupas a beça, eu lembro. Felicíssima! Foi na hora do almoço, a gente almoçou, parou e foi lá comprar. Compramos. Foi muito bom .

 

P/1 – Quais são as suas perspectivas em relação a esse projeto?

 

R – Bom, eu quero muitíssimo mesmo que dê certo, que continue dando certo, porque dar certo, dá. Mas não depende só de um. Depende de todos, e a gente precisa de ajuda ainda. Como a gente tem há um ano, é como se a gente fosse um bebezinho, sabe? Que precisa da mãe, dos pais, pra ensinar a andar. A gente precisa, tem muitas coisas que a gente não tá ligado. Tem muitas pessoas maldosas lá. Já foi pessoas de prefeitura lá querer saber da receita, sabe? Como quem não quer nada. 

 

P/1 – Nesse tempo todo que você tá no projeto, qual foi o dia mais marcante pra você?

 

R – O dia da inauguração. Com certeza!

 

P/1 – Me fala.

 

R – Teve muitos momentos. Foi muito engraçado. E você conviver com as pessoas, você sabe como é que é tem aqueles quebra-pau, as histórias. Mas com certeza foi o dia do projeto, que todo mundo tava empenhado, o tempo todo. E deixava filho em casa, vamos lá, agita isso, conta aquilo. No dia que tava tudo certo ali, a gente, caramba, aumentou a responsabilidade, aumentou tudo. A gente viu que, nossa, agora só depende da gente. A gente precisa, sabe? Agora tem que segurar. Foi o dia. O empreendimento era nosso.

 

P/1 – E como é que foi a inauguração?

 

R – Ah, foi uma explosão de choro. Todo mundo chorou. Veio meu marido, meu enteado, minha filha tava na escola. Só. Eu chamei todo mundo, ninguém quis vir. Ninguém. Vieram só o meu marido e o meu enteado. E as meninas. Veio a família de todo mundo. Foi uma festa, foi legal! Entrevista à beça, me sentia uma Beyoncé, impressionante. Muito bom. E o melhor é porque nós somos mulheres, e tem muita gente que boa a gente pra baixo “você não é capaz”, não sei o quê. Só que vê aquilo montado, pronto, inaugurou. A partir de hoje a gente vai vender, vai vir pra loja, não vai brincar, vai recolher o óleo, tá entendendo? É um tapa na cara de todo mundo que falou que não ia dar certo. E não foi uma, duas, não, foram várias pessoas que falaram: “Não vai dar certo, gente. Isso é uma sociedade, um monte de gente, não dá certo”. Foi um tapa na cara pra muita gente. Que foi? .

 

P/1 – Você falou de outros dias também, que teve alguns dias que foram marcantes, teve algum outro além da inauguração?

 

R – Ah, eu falo assim. Coisas da vida. Tem uns que a gente não pode falar muito mesmo, senão vocês iam botar lá na internet. É isso.

 

P/1 – Mais alguma coisa. Tem algumas coisas da sua vida que ficaram...?

 

R – Não, acabou.

 

P/1 – Você tava falando da tua irmã que você tem problema com ela. Ela tem problema, aliás.

 

R – Não, ela tem problema com ela. Ela é...

 

P/1 – É aquela que trabalhava com você.

 

R – Isso. Pode parar, não vou falar mais não.

 

P/1 – Tá bom. Se você, olhando toda a sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa você mudaria?

 

R – Muita coisa.

 

P/1 – O que você faria de diferente?

 

R – Às vezes eu penso que mudaria, às vezes eu penso que não. O principal, eu mudaria foi o fato de eu parar de estudar, com certeza. Teria mudado. Sim, eu teria mudado muita coisa, por mim eu teria mudado muita coisa. Eu não seria tão boba. Porque, ou você é boba, você tem que saber distinguir. O ser boa do ser boba. Porque você ser boa, as pessoas se aproveitam de você e fazem de você uma boba, uma otária. E você quer ser tão prestativa, quer tentar fazer tudo, agradar de todas as formas, que a pessoa acaba, sabe, você dá a mão, quer o corpo todo? É isso, eu mudaria isso. Eu não seria tão mão aberta. Com certeza. Expressaria mais um sentimento, muitas vezes eu engoli sapo demais, sapo, perereca e rã. É. Nossa, mudaria tanta coisa... Mas são suposições ou você vai me dar uma varinha de condão? Ó, sinceramente, se eu pudesse mudar? Eu teria tido minha primeira relação com o meu marido. Sabe? Ia ser tudo isso, do começo até agora. Não queria ter conhecido ninguém, não queria ter passado por nada. Isso que eu queria.

 

P/1 – O que você achou de ter contado o seu depoimento?

 

R – Depende. Se vocês cortarem uma parte eu vou achar ótimo.

 

P/1 – Como foi pra você dar esse depoimento?

 

R – Não, foi bom. Foi bom porque eu estou me sentindo leve , por mais que eu esteja acima do peso. Mas estou menos aflita, mais segura, sabe? Tem momentos que tu não conta nada, fica lá guardadinho. Tu pensa que esqueceu das coisas, mas sabe? Você vai conversando vai fluindo, você vai revivendo o passado, revivendo as coisas. Tu vê assim, “caramba, parece que eu vivi tudo de novo, sabe?” Você vive tudo de novo, vem real. Aflora assim na pele, tu sente, tu vê. Tu não precisa mexer o olho pra você sonhar, você imagina as coisas, você vê. Foi comigo que eu vivi? Tem situações que eu me lembro e fico assim: “Caramba!”. Eu fui muito forte de ter segurado tudo isso porque não é pra qualquer um, não. Acho que Deus não te coloca numa prova que você não possa suportar e vencer. É igual aquele ditado, Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. É desse jeito que eu me vejo, desse jeito que eu vejo esse depoimento, desse jeito que eu vejo o meu futuro.

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho?

 

R – Principalmente ser uma boa mãe, que eu acho que mãe é tudo, sabe? Eu poder dar caminho, explicar, ter paciência com minha filha. Eu desejei muito, demais, minha filha. Demais. Pensava que eu não podia engravidar. Dizia, ah, tudo com tanto amor, meu sonho. Pode lembrar, cara. Muito bom, a vinda da minha filha, eu vi ela pela primeira vez. Foi uma sensação única, sabe? Tudo o que eu passei, que eu sofri pra caramba. Lembro. Eu tive cesárea, dela foi cesárea. Minha cesárea, poxa, eu peguei infecção, tive ela dia 20 de dezembro, fui pra casa dia 22, dia 25 voltei pro hospital, peguei uma infecção, tiveram que drenar. Cortaram a minha barriga assim, a sangue frio, rolava pus com secreção. Sofri muito. Teve médico que arrancou o meu ponto, sabe? Arrancou assim. Enfiava o dedo e puxava. E eu gritava ali de dor. Sofri demais. Aí, fui pra casa. Não passava uma semana e voltei de novo pro hospital. Aí, costurava de novo, eu voltava pra casa, costurava de novo. Costurei a cesárea três vezes. Aí, fui pra casa e abriu de novo. Meu pai ia lá, tava morando na casa da minha irmã porque meu pai tinha me expulsado da minha casa. Aí...

 

P/1 – Por que ele expulsou?

 

R – Expulsou por olho grande. Ele me deu autorização pra eu fazer minha casinha lá no terceiro andar, eu fiz com meu marido, e ele queria me botar pra fora pra poder alugar lá, entendeu? Porque o terreno é dele. Aí, me botou na justiça. É. Aí eu saí, tive que sair. Só que ele tinha que me ressarcir tudo o que eu gastei. 

 

P/1 – Ressarciu?

 

R – Não, morreu. Agora eu voltei . É lei, minha filha. A vida é uma roda gigante. Minha filha, me botou pra fora com a minha filha, minha filha tinha um mês. Me botou pra fora estava chovendo. Estava eu, minha filha e meu marido. Depois de ter gastado ali, pra morar de aluguel. Ele quebrou meu ar-condicionado, quebrou minha porta, sabe? Acabou com a minha vida. Foi quando eu fui pra casa da minha irmã, depois tinha passado pela internação de novo porque abriu os pontos de novo, aí fui pra casa da minha irmã. Ele foi lá me atentar, sabe? Me infernizar. Eu falando: “Pai, eu to de resguardo, me respeita me deixa em paz. Eu já saí da tua casa”. Eu lembro que saía tanto sangue, tanto sangue, que eu tava com um vestido que lavou o vestido todo de sangue. Daí nesse dia eu tive que voltar pro hospital. Eu com medo de morrer, deixar minha filha lá, meu marido, minha vida. Nossa... Aí voltei pro hospital de novo, foi quando o médico falou: “Se você quiser costurar você pode correr o risco de abrir de novo”. Mas. Ou você costura ou você deixa aberto. Aí, eu falei: “Deixa aberto”. Quando a minha filha estava com seis meses a minha cesárea ainda estava aberta. Tava usando pomada, porque tinha que fechar de dentro pra fora. Foi isso. Aí fechou assim. Minha madrinha, minha falecida madrinha que ia lá, fazia curativo, me ajudou muito. Por isso que eu falo que a vida é uma roda gigantes. Que depois dele ter feito tudo isso comigo, fora as fofocas que ele falava, que ele fazia pra minha mãe. Família. Aí, ele foi, ficou doente, quando eu tava morando lá. Ah, por isso que isso tudo começou. Ele ficou doente, aí começou a sair um monte de ferida na perna dele, a barriga dele começou a ficar inchada. Eu olhava e falava: “Pai, o senhor tem que ir no médico”. Meu marido falou: “Seu Jorge, o senhor tem que ir no médico. Se quiser eu te levo tenho carro”. Aí ele: “Não, não. Não precisa, não”. Aí, o meu marido foi e comprou povidine, comprou pomada, comprou um monte de coisa pra ele fazer o curativo. Ele falou que a gente queria tomar a casa dele. Até hoje, esse assunto de tomar a casa me persegue. Ele foi, ficou doente. Daí, minha irmã mais velha, a Jô, foi, levou ele pro hospital, internou ele. Só que ele fugia do hospital. Aí, tinha hospital que não aceitava mais ele. Chegou a esse ponto. Todo mundo tinha que ir com ele. Aí, foi quando todo mundo falou: “Você não quer ajuda, não tem problema”. Ele ficou lá, secando, secando, e ficou cheio de problemas. Ficou com doença renal, coração grande, hipertensão, diabetes. Quando ele adquiriu tudo isso que ele foi sozinho e se internou. Aí, ficou mais de um mês sumido, e todo mundo: “Cadê seu Jorge? Cadê seu Jorge? Cadê seu Jorge?”. Quando eu comecei eu falei: “Babaca.” Comecei a ficar preocupada e fui correr atrás do hospital. Quando alguém lá da direção do hospital ligou lá pro menino lá da rua, que mora lá próximo de casa e falou que ele tava internado lá. Eu falei: “Agora?”. Aí eu fui e ele não tava do hospital. Só que ele não tinha fugido, ele tinha sido transferido. Aí, do hospital que ele foi transferido ele fugiu. Meu marido foi e internou ele, de novo. Só que dessa vez ele ficou, aí ficou lá, sendo tratado. Nenhum dos filhos mais queriam ir, porque ele ia de um jeito, pessoa boçal, sabe? A minha irmã mais velha largou. Minha irmã mais velha é doente, ela tem problemas renais, faz hemodiálise, tem uma filha de 15 anos. Ela não ia ficar se acabando por causa dele, uma pessoa que não quer ajuda. Aí, a babaca aqui, como a filha que mora de aluguel começou a ir lá visitar, arrumar roupa, porque a pessoa não tinha nada mais. Ia visitar, perder tempo. Lá na Gávea. Deixava minha filha com um, com outro, e ia lá ver ele. A pessoa que me expulsou da minha casa, eu com meu marido, minha filha. Ficou lá, só regrediu. Aí, ele me fez sofrer à beça. Por isso que eu falo, as pessoas hoje em dia aprontam comigo eu não falo nada, deixo na mão do Poder Superior que é Deus. Deus sabe o que faz. A justiça da gente é nada. Eu tinha mania de falar assim:  “A justiça de Deus tarda, mas não falha”, não sei o quê. Aí, veio uma colega minha, depois de tudo acontecido porque ele faleceu. Eu não tinha dinheiro nem pro enterro, quem pagou o enterro foi o meu marido, a pessoa que ele mais crucificava na vida. Meu marido levava mingau pra ele. Se você dava um café puro, não, ele ainda vinha com ironia: “Não, só bebo café com leite”. Pão com manteiga, “só como pão com queijo!”, sabe? Pessoa assim, ignorante puro. Cara, muito engraçado, e a pessoa, além de estar ajudando ele. A minha colega falou depois que ele faleceu, eu sofri com tudo, ainda senti muito, chorei muito. Porque ele teve aquela melhora da morte, porque tem a melhora da morte, a pessoa fica boa. Ele ficou bom, queria me ajudar lá: “Não, muda pra lá”. Eu tive que jogar a laje, ele disse: “Pô, se eu tivesse bom eu ia lá e te ajudava”. Aí perguntava como tava minha filha, sabe, era uma maravilha tudo.

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