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História

Grandes, afáveis e bonitas

História de: Vinicius Lelli
Autor: Vinicius Lelli
Publicado em: 15/09/2020

Sinopse

Diário de Vinicius Henrique Gomes Lelli, 20 de agosto de 2020. Jornada, dia 2.

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História completa

Se de repentemente tudo mudasse e o meu normal não mais existisse e tivesse que fugir, sair correndo, com todos o sonhos dobrados nas malas, tentando escapar de dias que se fazem escuros a cada dia, de ter que botar o pé no mundo imaginando um futuro onde a matéria bruta das ideias insistem em gerar sonhos e nada mais palpável que isso, querendo mais viver do que sonhar, como Belchior dizia, se tivesse que me mudar às pressas, sem mais, nem menos, nem tchau?... Eu acho que levaria comigo, não, tenho certeza, levaria o semblante calmo, centrado e alegre de meu pai, movendo as peças do xadrez com sua mão grande, afável, bonita, lembro de olhar suas mãos e querer ter mãos iguais, grandes, afáveis e bonitas quando assim atingisse a idade adulta. As partidas aconteciam enquanto ouvíamos Belchior como fundo musical do roteiro que ali escrevíamos juntamente, lembro até hoje a cor, a capa do "cdzinho" com fundo azul-céu e Belchior sentado, olhando para o lado, de camisa branca, com as bocas da calça dobradas e com pés descalços. Mesmo não tendo combinado, inevitavelmente Bel fazia sempre a trilha sonora de nossos jogos, além de outros cantores, claro, mas Bel é quem reinava. O time era cada um por si, eu contra meu pai, meu irmão contra mim e meu pai contra meu irmão. Com o tempo, os times foram crescendo e outras pessoas vieram aprender e participar, era o início dos campeonatos, quando percebemos, a casa estava lotada de crianças sedentas por disputas eletrizantes e demoradíssimas, outras nem tanto, pois é, não tínhamos o tal do reloginho marcando a duração das jogadas, o engraçado era que não ligávamos para o quão tudo aquilo demorava, não ficávamos pensando na durabilidade da coisa-tempo que consumíamos vorazmente. Para as acirradas competições na época, o tempo era o menor problema. Para lá, onde fosse, levaria o gosto doce da tubaína e das bolachas que rolavam não só para os vencedores, pois no final todo mundo ganhava, ou melhor, comia. Levaria as risadas das vitórias, e dos desgostos das derrotas, ninguém queria perder, éramos demasiado competitivos. Comigo guardaria a imagem de meu irmão mais novo, todo pensativo, igual meu pai, apoiando com uma das mãos a cabeça e a outra coçando para me dar um xeque-mate, lembro dele apostando tudo em cada movimento, vivendo com intensidade a magia que eram aqueles instantes, pois a composição dos elementos daqueles momentos seriam algo a perdurar, nunca mais se esquecer, para todos nós. Comigo, abraçado no colo, como meu objeto afetivo, levaria nosso tabuleiro com as peças de madeira, que felizmente carregam nas costas o tempo, os gostos alegres, que só o xadrez em nossa família consegue guardar, muito obrigado por começar a escrever as páginas desta querida memória meu pai, também te amo.

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