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História

Graças a Deus que entrou um Governo que urbanizou tudo

História de: Antônio Alves da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/04/2002

Sinopse

O baiano Antonio Alves da Silva narra sua história desde a Bahia, passando por São Paulo, Amazonas e desembarcando no Rio de Janeiro em 1944. Descreve como era a vida no Morro dos Prazeres antes da chegada da eletricidade, água e telefone e resgata personagens e seus papéis nesta comunidade.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Antonio Alves da Silva. Ah, eu cheguei para aqui em 47. Que eu morei no Morro Turano e cheguei para aqui em 47. A data de meu aniversário é 10 de janeiro de 1923. Sou viúvo e tenho cinco filhos. Eu nasci em Senhor do Bonfim, na Bahia.

MIGRAÇÃO
Mudança para Rio de Janeiro Eu saí de Salvador fui para São Paulo, Ponteio. E de São Paulo eu vim para Salvador. De Salvador eu trabalhei no campo de aviação de Santo Amaro de Pitanga, em 42. Em 42 para 43 eu fui para o Amazonas que era seringal. Então eu vim, cheguei aqui no navio Almirante Alexandrino, no dia 10 de janeiro de 44. Aí eu vinha para casa da minha irmã daqui eu fui para o Turano. Do Turano eu arrumei um barraco aqui no Querosene e do Querosene eu vim para cá. Fiquei lá uns 3 a 4 mês. Aí vim para cá. Aí eu fundei, tinha o falecido Benevides. O João Benevides fazia cava aqui para vender por 100 mil réis. Cava era um trator para acertar o terreno. Acertar o terreno para fazer os barracos. Eu sofri aqui minha filha.

MORADIA
Bom. que eu vivo aqui há, esses anos todinho não tenho nenhum inimigo. Esse aí me conhece, o José Bernardo. Todo mundo me conhece. Na nossa casa morava eu e a minha esposa. O nome dela era Neuza da Costa Alves da Silva. Eu morei ali no falecido Cláudio. Fiz um barraco lá. tenho um barraco da Maria Soares. Maria Soares 27. De lá eu comprei isso aqui da Maria. É, só tinha um cômodo. Daí eu fiz a casa. É, eu mesmo que fiz. Atualmente só eu e o Moisés, meu filho que moramos nessa casa. É pintor. Ele se aliou agora. Só que tem que eu tive um derrame e tenho dificuldade para falar.

INFRA-ESTRUTURA
Transportes Eu já ouvia falar do Morro dos Prazeres que a irmã, Almira, morava aqui com o Zé Paulo que foi presidente aqui. Então quando eu cheguei para aqui não tinha caminho. Não tinha nada. Era buraco puro. Quando chovia a gente para descer era sentado. Escorregando. Para subir não tinha ônibus, não tinha bonde. Naquele tempo tinha bonde com dois reboque mas quando chovia não tinha ônibus. A gente tinha, eu trabalhava em Niterói lá em Piratininga e subia de pé. Não tinha água, não tinha. A gente carregava água lá do Xororó. Naquele tempo isso aqui foi feito com água do Xororó. Água e luz O fornecimento de água aqui antigamente era precário. A gente para ter a água aqui eu levo lá nos fundos. Fiz uma cisterna, tem as calhas que eu tirei as calhas essa semana. Aparava a água da chuva batia no telhado e parava a caixa. Às vez estava pelo meio quando era muita chuva então a caixa chegava ao meio. Mas quando era pouca, água nenhuma. A gente para beber tinha que pegar no Xororó. E interessante que eu trabalhava, a gente trabalhava chegava em casa pegava a balança d’água e dava duas viagens. Lá no Xororó, no Silvestre. A vida aqui foi muito difícil. Não tinha luz. A luz a gente para ter luz tinha o Severino lá em baixo, mudou daí. Eu acho que o Governo tomou uma iniciativa maravilhosa. Que a gente aqui não tem nada. E agora a gente tem tudo. Telefone passa aí na porta, água, luz, gás, entrega na porta. Naquele tempo a gente ia buscar longe. Nem era gás, era lenha. Fogão de lenha. Eu trabalhei muito aqui. A gente no tempo do José Paulo, esse presidente, nego que não pagava o Zé Paulo ali em cima com uma 765, “corta a água dele.” Quem não pagava, cortava. A Ação precisa pagar o manobreiro para jogar água para cima, pagar luz, pagar tudo e tudo não queria pagar 50 centavos? Na época era 500 réis. Nego, a gente ia lá cortava a água do cara e eu já como um cara saiu de lá de dentro com um 38 na mão, “se cortar meu cano cai.” O Zé Paulo arrancou a 765 disse: “Quem vai cair é você.” Aí o cara guardou. Cortamos a água. Ele pagou a água e religamos a água dele. Naquele tempo é que era tempo, né? Hoje em dia tem caçamba de lixo, a gente bota em um saco naquele da Casa da Banha, amarra o saco, o lixeiro vem e leva. Isso é uma maravilha, menina. Causos Severino Tatu, Severino Tatu é que eu tenho uma história para te contar. Quando o Zé Rei, o falecido Zé Rei estava na casa dele escutou um barulho em baixo da casa dele era o Severino fazia um túnel em baixo da casa dele para fazer quarto.

PROFISSÕES
Vendedor de miudeza/parteira Tinha o Zé da Mala. Ele vendia miudeza. Rezadeira? Tinha a dona Carmelita. Que morava aqui em cima, que tinha nessas casas de lá isso aí era um canavial. Então a rezadeira que tinha aqui era ela. Não tinha médico. A parteira que tinha morava lá no campo. Era a mulher do seu..., já morreu. Morreu ele e morreu ela. Que ela é a parteira que até veio pegar o Moisés aí, esse meu filho. A parteira aqui era ela. Parteira Meus filhos foram nascidos com essa parteira, a mulher do seu Augusto. Aquele que trabalhava que era administrador daqui da Eqüitativa. O nome dela eu não me lembro não. É, uma branca. Muito vistosa.

CASARÃO DOS PRAZERES
Eu tenho lembrança do Casarão dos Prazeres, e tenho lembrança do hotel velho. Era ali do lado da Escola Júlio Lobo. Ali era o hotel velho. Isto aqui está tudo mudado. Graças a Deus que entrou um Governo que urbanizou tudo. Botou luz nas casas. Cada um tem o seu relógio. Ele fez caminho, fez escada, botou água. Aqui em casa não falta água, viu? Já, eu estive lá agora pouco. Eu vim, eu me encontrei com o Zé Bernardo lá. Ah, o casarão era dos alemães. Era. Aquele casarão era dos alemães. Então um casarão grande que tinha derrubaram agora, fizeram aquela beleza que está lá.

ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES
As pessoas envolvidas na fundação da Associação eram o Zé Paulo, Zé Flamengo. Antonio Alves que sou eu. Tinha o Laureano Nascimento, João Loriano. Era cabo da polícia. É, tinha o Humberto Siqueira que tinha aquela tendinha lá em baixo. Baiano velho, Zé Gonçalves. Zé Gonçalves foi presidente lá. Eu lembro de tudo. Eu tenho fotos, mas está lá em Engenheiro Pedreira. Eu vim de lá ontem. Se a gente tivesse comunicado antes eu trazia.

SONHO
Eu ainda hoje eu estava falando com o Zé Bernardo o que eu posso fazer hoje em dia é ser vigia. Só. Que eu não espero mais nada, né? Mais nada. Eu tenho o sonho de ter uma Kombi. Para mim trabalhar. Carregar. Que eu tenho até aqui... Fui encarregado, se eu conseguisse essa Kombi, rapaz. Mas o que vai fazer? Já estou... agora dirigir eu dirijo. Eu fiz exame lá a minha vista está boa. Passar marcha eu sei. Eu sempre dirigi: kombi, pick-up, dodge, volks. Eu dirijo tudo.

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