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Gosto muito de ser Vanda

História de: Vanda Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2009

Sinopse

Na vida da baiana Vanda Machado, as histórias do passado se confundem com as do presente e as do futuro. Ao se lembrar de situações de sua infância – do leite cru bebido de manhã, da casa de farinha, do rio em que brincava o dia inteiro –, ela fala de saudade, mas também dos motivos que a levaram a refletir sobre as próprias raízes e a traçar uma trajetória dedicada a transformar a educação no Brasil. Formada em História, Vanda criou com as irmãs uma escola infantil e, mais tarde, se pós-graduou com um projeto de ensino da cultura afro-brasileira que acabou se tornando referência no país. Cheia de sonhos, ela se recorda da falta de acolhimento que sentiu quando pequena, depois da morte do pai e da mãe, para explicar o desejo de que os professores ainda possam olhar para a criança como “uma flor que brota na frente da gente, que precisa ser regada, cuidada, ajeitada”.

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História completa

Eu gosto muito de ser Vanda Machado, e resolvi omitir o último nome, que é Silva. Eu gosto de Vanda Machado, é o nome do meu pai. Eu nasci em São Felipe há 65 anos, portanto, em 15 de abril de 1942. Sou ariana, filha de Oxum e Ogum. Sou a primeira de cinco filhas, matriarca. Meus pais morreram aos 35 anos cada um, e, daí em diante, me tornei a matriarca, criando a mim mesma primeiro, já que também era menina, e criava minhas irmãs. Isso é o início de tudo.

Nasci em São Felipe, é uma cidade que fica no Recôncavo do Sul, cidade fumageira. É uma cidade pequena. Às vezes, eu gosto de lá, às vezes, não gosto, mas é significativo para mim pensar em São Felipe. Lá eu tive uma infância pequena, porque a minha infância durou pouco, e, nessa infância pequena, foi muito importante a presença do meu pai. Meu pai continua sendo meu ídolo, ele era músico, ele fazia teatro, ele cantava, ele dançava, ele esculpia, pintava, e as melhores lembranças da infância são as que estão relacionadas a meu pai, às festas, às festas do lugar, às festas de São Felipe, às procissões, ao tempo que eu passava no engenho. Eu tive uns padrinhos muito queridos, e durante as férias eu ia para o engenho. É uma lembrança muito querida de Nicolau Barbosa e Iaiá Pinheiro, eles eram donos de uma fazenda linda, de engenho de açúcar, casa de farinha. As lembranças estão cheias de banho de fonte, caminho para fonte, do leite cru bebido de manhã cedo às vezes de má vontade e do carinho do meu padrinho, do cheiro da farinha, do cheiro do rio, do cheiro da mata, às vezes, do cheiro de mato queimado, cheiro de crianças negras, que era minha oportunidade de encontrar porque, perto de mim, só tinha minhas quatro irmãs mesmo. E as crianças lá no engenho eram maravilhosas. Brincar no rio era minha fascinação.

A casa de engenho, a casa de farinha, essas lembranças, elas foram me acompanhando e me dando caminho. Mais adiante, quando eu terminei o curso que naquele tempo era ginasial, eu pensava várias coisas, eu pensava em ser advogada, porque eu tinha um sonho, eu queria ser diplomata. Imagina? Aí, finalmente, eu disse: “Não, acho que não é nada disso, eu quero ser historiadora.” Quando eu pensei em ser historiadora, eu pensava exatamente no engenho, no rio, quer dizer, eu tinha uma história e uma geografia já marcadas dentro de mim, que eu precisava saber o que significava. Ainda não sabia nada sobre essa pluralidade étnica, mas eu tinha uma ideia de alguma coisa que eu precisava saber. E, aí, eu resolvi fazer um curso de História. Foi péssimo, péssimo. Quando eu terminei o curso de História, eu disse: “Meu Deus do céu, acho que eu vou entrar na universidade outra vez, fazer uma outra coisa, porque eu não caminho.”

As informações que me deram como aprendizagem para a vida, como aprendizagem que me serviria, que me serviria como educadora, como pessoa, nada disso eu tinha aprendido. Daí, eu comecei a pensar. Bom, é necessário um outro tipo de educação, fazer diferente. Nessa época, toda essa influência, toda essa paisagem que eu tinha na minha cabeça, pensava e servia para pensar, fazer a educação de outro jeito. E, aí, eu criei uma escola. Eu criei uma escola, e as imagens começavam, continuavam me acompanhando. Elas não eram imagens do passado. Na verdade, eu sempre tive essa ideia que existe um único tempo, que é o tempo presente, presente do presente, presente do passado e presente do futuro. Então, pensando nesses tempos, eu inventei uma escola, eu criei uma escola. Aí, começou a se realizar o meu sonho com as imagens da fazenda da minha madrinha, com a possibilidade de pensar uma história de vida.

E eu fui convidada para participar de um evento em Nova York, e eu fui. Eu ia falar exatamente de cultura afro-brasileira, mas na relação com as artes. E, quando eu estava lá, encontrei uma senhora, conheci uma senhora, Estela, uma mãe de santo. E eu estava com uma amiga, com a Marcélia. Ela disse: “Por que você não fala com a Estela, vai fazer a tua dissertação estudando as crianças lá da escola que existe no terreiro de candomblé?”

Primeiro, eu acho que eu nem acreditava que ela me aceitasse para fazer esse trabalho lá no terreiro, mas ela aceitou. E eu fiz uma dissertação de mestrado que, por dez anos, ninguém compreendeu, por dez anos ficou lá na academia, até que, um dia, encontrei um antigo professor. “Onde está sua dissertação?” Poucos dias depois, eu recebi um parecer lindíssimo, sem assinatura obviamente – a gente não fica sabendo quem é que fez o parecer –, e o livro foi editado. Tem 21 anos de editado, é um dos livros mais vendidos, por ele estar completamente atual, levando em consideração a lei 10.639, que obriga o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira, na escola.

Eu voltei novamente para a mesma escola, a escola Eugênia Anna, a escola que existe no terreiro de candomblé. Voltei para a mesma escola e criei um projeto, o projeto Irê Ayó. “Irê ayó” significa caminho de alegria. Projeto Irê Ayó. E, aí, apresentei à Prefeitura Municipal, e a Prefeitura Municipal apoiou e começou a achar que era uma coisa muito boa para fazer, e aí continuou. Continuei com o apoio da Irmã Estela, do povo da comunidade. E, de repente, a escola passou a ser escola de referência nacional.

Começou a florir de verdade, não mais a floricultura, mas a ideia de novamente eu pensar numa educação diferente daquela que eu tive, pensar numa educação em que eu acolhesse as crianças. Depois que a minha mãe morreu, ninguém tocava na gente, ninguém tocava em mim e nas minhas irmãs, ninguém tocava. Isso é uma coisa que me fez uma falta imensa. Eu tinha que pensar: “Bom, eu devo fazer com outras pessoas.” Eu achava que era como se eu buscasse uma espécie de cura para o isolamento que eu tive. “Não, eu preciso pensar numa pedagogia de acolhimento, de tocar, de brincar.” Meu marido era ator, ator de teatro, e ele começou a gostar de teatro. “Teatro vai dar esse tom nesse trabalho, que pensei fazer.” E era bacana. O teatro na escola não faz somente representar peças, mas o teatro é o que no teatro eu respeito: a presença do outro. Eu respeito a fala do outro, o olho do outro, o jeito do outro, que mostrasse um para o outro. Toda a criação converge para o acolhimento e para o jeito de se mostrar bonito para o mundo.

Na escola, a criança não aprende muito, porque a gente ensina demais. Você quer que a criança aprenda História, Geografia, Ciências, Matemática, Língua Portuguesa, tudo num dia só. Você quer que a criança fique quatro horas sentada na sua frente, quando você sabe que uma criança não tem mais que 15 minutos de atenção absoluta por alguma coisa, se for de fato interessante. Você quer que ele passe quatro horas? Então, é melhor fazer como no terreiro: “Você agora só precisa disso. Eu só te dou isso.” E você vai aprender para sempre aquilo. É muito melhor do que eu te ensinar um montão de coisas, e entrar por aqui e sair por aqui.

E os meus sonhos? Todos os sonhos. Eu sonho com uma escola que seja diferente da escola que eu tive, eu sonho com a escola que acolha a criança do jeito que ela é. Uma escola em que as escolhas pessoais da professora não impliquem educação dessas crianças, que as suas escolhas afetivas, que as suas escolhas religiosas não impliquem nenhum desastre para a criança. Que a criança seja uma criança, como uma flor que brota na frente da gente, que precisa ser regada, cuidada, ajeitada, que seja mostrando sempre para ela que existe o lado do sol, para que ela brilhe. Que ela não tenha nenhum lado escondido, que ela seja vista por inteira, que se mostre para ela, que ela seja mostrada nas suas diversas faces, nos diversos jeitos que ela está no mundo. Que ela não seja uma criança da fotografia, que tem o pai, a mãe e o filho, que ela não seja uma criança fotográfica, mas uma criança que está no mundo, que às vezes ela muda de pai, ela muda de mãe, ela muda de família, ela muda de religião, ela muda de jeito de ser no mundo e que a gente tem que estar sempre amparando. Amparando essas pessoas, esses jovens, essas crianças. Meu sonho é que isso não seja só responsabilidade da gente, educador, mas uma responsabilidade do poder público, das políticas públicas.

Naturalmente que precisa se pensar uma educação com saúde, com cultura, com meios econômicos, e não é com uma bolsa aqui, com uma bolsa ali, não é com um pró-jovem aqui, um pró-jovem ali que a gente vai resolver. Formar esse país é uma missão de todos. E a gente está vendo uma coisa significativa. Olha quem está na Ação Griô, olha quem está educando! Gente, isso é uma coisa significativa demais. Isso é o país dizendo: “Se vocês não estão sabendo educar meus filhos, somos nós mesmos que vamos fazer essa educação, somos nós mesmos que vamos cantar, dançar, brincar e pensar nesses sujeitos como solidários, como coletivos, como gente que pode pensar com autonomia, como gente que está disposta a caminhar, caminhar até rasgar as sandálias, mas caminhar para encontrar uma coisa que a gente não sabe o que é, mas deve ser um lugar que não tenha tanta fome e tanto medo.” Eu acho que a gente tem dois inimigos nesse momento que a gente precisa se libertar: da fome, e que inclui essa forma de saber, essa fome de viver junto, essa fome de ser livre. A gente precisa se libertar dessa fome. Essa fome não vai sumir com uma sacola. Essa fome precisa de muito mais, precisa de coragem e precisa da gente pensar nessa imensidão de gente que a gente encontra pela rua, não é só nas escolas, que está pela rua, que não está vivendo, que não tem esperança. A gente precisa se livrar do medo e da fome.

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