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História

"Gosto de trabalhar com cultura popular"

História de: Elson Pedro de Orlando Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/08/2014

Sinopse

Elson Junior é um entusiasta da cultura popular. Ao contar sua história ao Museu da Pessoa, ele recorda sua infância na cidade de Guaxupé, MG e o envolvimento de sua família com a cultura popular. O carnaval e o reisado sempre foram importantes em sua família. Ele relata que para pagar uma promessa feita por sua avó começou a atuar como folião na Folia de Reis. Foi se envolvendo com a música e com o reisado até que resolveu mudar para São Paulo. Em seu depoimento, recorda como começou a trabalhar no Espaço Criança Esperança na Vila Brasilândia e os trabalhos desenvolvidos como arte educador e ator.  

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História completa

Meu nome é Elson Pedro de Orlando Júnior, nasci em Guaxupé, sul de Minas Gerais, no dia 29 de outubro de 1977. O meu pai é de Passos, morou em Itaú de Minas, depois foi pra Guaxupé, onde conheceu minha mãe e se casou com ela, que é nascida em Guaxupé. O meu avô paterno é de Passos, a minha avó, eu não lembro se ela é de Passos ou se ela é de Itaú, porque eu não cheguei a conhecê-la, quando eu nasci, ela já tinha falecido. O meu avô também não conheci, ele trabalhava na estação da Mogiana, se instalou lá e viveu uma boa parte da vida dele em Guaxupé. Os meus avós maternos eram de Guaxupé, minha avó era do lar, e meu avô trabalhava com a lavoura de café. Ele trabalhava com cultura popular, que era o reisado, tanto do meu lado paterno e do lado materno, só que o meu avô materno era mais. O meu pai era músico, então ele fez amizade com o irmão da minha mãe, o meu tio, que era músico também, então primeiro eles se conheceram os dois, e depois de muito tempo o meu tio apresentou minha mãe pro meu pai. Depois de um bom tempo, o meu pai pediu a minha mãe em namoro. Eles ficaram morando em Guaxupé mesmo e passou um ano de casado, eu nasci e depois, após mim, nasceu mais três irmãos. Eu morei em Guaxupé até os 25 anos. 

Quando eu tinha seis anos de idade, eu estudava no pré e tive um choque com um menino, correndo no pátio da escola e batemos a cabeça. E, nesse bater a cabeça, a professora colocou nós dois de castigo. A hora que acabou o recreio estava armando um temporal muito forte e elas: “Vamos todo mundo pra sala”, o menino estava sentado do meu lado e ele levantou e foi, eu não consegui levantar, eu tentava levantar e não conseguia. Ela me ajudou a levantar com muita dificuldade, eu fui indo pra sala e eu não conseguia me locomover direito, os meus pés foram abrindo assim, e ela mandou chamar a minha mãe, urgente. Quando a minha mãe subiu pra pegar a gente, minha mãe levando o meu irmão no colo e eu andando, e ela viu que eu estava andando com uma certa dificuldade. Eu fui tomar banho, e começava a doer muito as minhas juntas. E meu pai chegou, nessa época o meu pai trabalhava na Telemig, que hoje é a Telemar em Minas. E daí ela falou: “Olha”, o Júnior não está bem, bateu a cabeça na escola e tal”. E aí naquele dia eu fiquei com aquelas dores, no outro dia da cintura pra baixo eu não tinha movimento mais, e aí correram comigo pro médico e tal, aí eu fiquei acho que uns 15, 20 dias assim, de cama e sentindo muitas dores nas juntas. E daí, depois de vários exames de sangue, constataram reumatismo no sangue, o médico não sabia se era por conta da batida. Eu fiz um tratamento até os 18 anos. Mas aí, a partir disso, a minha avó, que ainda estava viva, fez uma promessa, falou que se eu me curasse, a partir daquele momento eu ia ser um folião da Companhia de Reis. E aí, quando completou os sete anos, eu me inseri no reisado. Então eu passei por todo o processo do reisado, que tem o embaixador, tem o bastião, tem tipe, contratipe, que são as vozes, são separadas, eu passei por todos ali, e fui ensinando os meus irmãos e aí eles aprenderam, foram aprendendo e eu fui me distanciando.

Eu ia na escola com a minha mãe levando, a escola era sempre no bairro, as três escolas que eu estudei, nos três períodos, foram ali no bairro em Guaxupé aonde eu morava. Então a minha mãe no começo me levava e depois, a partir do momento que estava já na terceira série, já não precisava mais, que a escola era perto, então a gente já ia com aquela turma de amigos e tal pra escola, ia conversando e brincando e tudo, pra aula e voltava pra casa. Na escola foi onde eu comecei a minha carreira como músico, em 94, quando o Brasil foi campeão, a gente montou na escola, no intervalo da escola, a gente era acostumado a ir pro intervalo com instrumentos de música e tocar pagode, tocar samba, porque era da raiz da família e tal, dos amigos. A partir daí, a gente fundou um grupo que no começo chamava Sedução, depois chamou Inspiração.  Eu fiquei à frente desse grupo durante 15 anos, e a gente veio, na verdade, parar com o grupo depois que eu vim embora pra São Paulo, praticamente. Foi na escola, no Polivalente, Doutor André Cortez Granero. Eu tinha 16 anos e a gente ensaiava na minha casa, e me tornei vocalista desse grupo por livre e espontânea pressão. Ficamos um bom tempo com o grupo e na verdade o grupo só parou porque eu resolvi vir embora pra São Paulo, porque eu queria estudar mais, eu queria estudar música, queria estudar teatro e tal, queria ter uma busca maior, que já na minha cidade já não tinha mais, não tinha tanto. Quando eu vim pra São Paulo tinha 24 pra 25 anos. Formei no colegial, fiz o técnico ainda em Contabilidade, servi o Exército. Eu trabalhava desde os 11, mas fui indo, trabalhando de balconista na padaria, saí, depois trabalhei numa empresa de água mineral e tudo, trabalhei numa distribuidora de bebidas. E depois comecei a trabalhar, com a idade, um pouco já depois de ter até servido o Exército, na área administrativa, então eu precisava de me especializar, então eu falei: “Vou ter que ser Contabilidade pra mim fazer”.  E na verdade, até na faculdade que tinha na minha cidade, que era a única faculdade, os cursos que tinha era Contabilidade, era Administração, tal, eu falei: “Meu, não quero”, e eu queria fazer Jornalismo, tanto que quando eu vim pra São Paulo eu comecei a fazer Jornalismo e não consegui pagar, porque na época eu não consegui bolsa e tal e era caro, então eu comecei no primeiro ano e já parei. Eu falei: “Não, eu vou ter que começar a trabalhar, começar a correr atrás”, foi quando eu comecei a fazer o teatro e me especializar.

No começo, que eu vim pra cá, eu não trabalhava, eu comecei a estudar, a fazer teatro aqui, e eu queria começar a trabalhar e a minha tia, ela tinha um restaurante, então eu comecei a trabalhar no restaurante dela, a gente entregava marmitex, eu e o meu primo, a gente saía pra entregar marmitex. Então eu fiquei durante o tempo que ela tinha esse restaurante, fazia entrega de marmitex. Eu só fui parar de trabalhar com ela depois que eu saí da casa dela e fui morar com uns amigos de Minas, justamente da minha banda, que veio pra cá alguns amigos e a gente foi morar na Saúde, no bairro da Saúde, juntos ali. E ficamos por um ano morando juntos ali e os outros dois não: “Ah, eu não vou conseguir ficar, eu não vou conseguir ficar”, voltaram pra Guaxupé, eu fiquei sozinho aqui, depois veio um outro amigo de lá, a gente começou a morar junto. A partir daí que eu comecei a trilhar a minha vida aqui em São Paulo, tirando a dependência da minha tia, de estar morando com ela e tal. Eu fiquei trabalhando com teatro mesmo, então, exemplo, tinha as peças que estavam, eu entrei num grupo na época, da companhia chamada Afrogueto na época, depois que virou, se transformou em Omoaiê, que é aonde que eu comecei a fazer parte de uma peça que chamava Odara na época, que era um espetáculo afro e eu me interessava. O meu pai era muito militante, assim, da questão racial, então ele participava daquele movimento MMU e, assim, a militância dele a vida toda, trabalhando nessa questão e assim foi acabando que nós lá de casa começamos a trabalhar muito com a cultura afro-brasileira.

No Criança Esperança tinha uma professora que dava aula de dança afro lá e eu dava aula de dança afro, e essa professora tava de saída, que era a Soraia, e ela fazia parte de um grupo chamado Afro Dois, eu acho que tem até hoje, um grupo de dança afro, teatro, ballet, e eu fazia parte do Omoaiê. Então eram dois grupos diferentes, mas que a gente se conhecia, as pessoas, só que eu não conhecia ela, e daí tinha, como eu morava e moro na Brasilândia até hoje, e o Espaço Criança Esperança é na Brasilândia. Tinha o Jairo, que ele prestava serviço, era um terceirizado, ele prestava serviço ali pro Criança Esperança, o Instituto Sou da Paz, e ele comentando um dia comigo, ele falou: “Olha, eu fiquei sabendo que você dá aula de dança afro” e na época não era a minha esposa, era a minha namorada, ele falou: “Você e a sua namorada, tal, tal”, que eu conheci ela lá. E ele falou: “Nossa, por que eu você não vai lá no Criança Esperança pra dar aula lá?”, eu falei: “Não, mas já tem gente dando aula”, ele falou: “Não, mas ela está de saída, está procurando alguém que possa entrar no lugar dela, né”. Eu falei: “Ah, tudo bem”, ele falou: “Eu vou ver com ela, depois eu te falo” e daí ele falou com a coordenadora pedagógica, que era a Joana, ele falou com a Joana, que ela falou: “Ah, legal, vai ter um processo do Instituto Sou da Paz, então pede pra ele ir lá e levar o currículo, tal, mandar o currículo pra gente”, tanto que mandou currículo até, na época, eu e a minha esposa, porque ela também dava aula. E ele falou assim: “Ó, se não for, de repente eles não queiram ficar com um homem e queiram ficar com uma professora, não querer um professor, fica com uma professora”. E chegamos lá nesse processo, nessa seleção lá no Instituto Sou da Paz, tinha, era, tinha eu, ela e mais duas pessoas pra fazer essa entrevista e a gente fez a entrevista e fizemos a entrevista com a Beatriz Miranda, e com a Joana, e elas disseram: “Ó, na próxima semana a gente vai ligar pra vocês, entrar em contato pra ver quem foi aprovado e tal”. E eu aguardei, eu tava me desligando lá de São Bernardo, que eu estava dando aula lá num projeto chamado PET, que era da prefeitura lá, a gente trabalhava tirando menores da rua, e tal, e eu já estava me desvinculando do projeto lá e recebi a ligação da Bia. E fui lá pra fazer a entrevista com ela no Espaço Criança Esperança e elas falaram pra mim: “Olha, a vaga, pela a sua grade, tal, pelo seu currículo que a gente viu, é o que a gente estava pensando pra cá, pra como educador”, ela falou: “Então a vaga só não é sua se você não quiser”, eu falei: “Ah, legal”, eu falei: “Eu quero a vaga”, então foi onde eu entrei. Foi em 2009, 2009, eu fiz a entrevista, assim, foi um processo. O Sou da Paz é uma instituição, que ela, é assim, ela administra o Projeto Criança Esperança aqui em São Paulo, ela é responsável pelo projeto.

Na minha linguagem, que era dança afro, tinha as crianças, como eu trabalhava com, eu vim com a dança um pouco diferente, que ela trabalhava dança afro específico, e eu trabalhava a cultura popular brasileira, então eu queria apresentar não só a dança afro pra eles, mas eu queria apresentar também um pouco de todo Brasil pras crianças pra ele terem essa oportunidade.  Porque muitas crianças não tinha oportunidade a partir do Criança Esperança de sair do bairro pra ir pra um museu, pra ir pra uma exposição, pra ir assistir um espetáculo, então eu falei, já que o Criança Esperança tinha essa condição de dar isso pra esses assistidos. Então o público ali que eu atendia eram crianças de todas as faixas etárias, que era acima de sete anos, então eu tinha educando ali de sete anos até 25 anos. Eu cheguei ter turmas, assim, uma turma no período da manhã com 20 e outra turma no período da tarde com 25, e assim, faixas etárias diferentes e depois uma outra turma com 30, outra turma com 18, assim, mas vamos lá, eu acho que umas 70.  O impacto, eu falo que na verdade a gente simplesmente, é o que eles já têm, que a gente simplesmente ajuda a eles trazer o potencial, mostrar o potencial que eles têm, que às vezes está ali parado, escondido. Eu sempre costumava falar: “Gente, o talento de vocês, o conhecimento de vocês”, eu falei: “O caráter de vocês, vocês já têm aí”, eu falei: “Eu sou apenas uma pessoa que vai lá e aperta a tecla SAP”, eu falei: “Algumas pessoas de alguém apertar a teclinha SAP, alguns já saem com a tecla SAP acionada, vocês, algumas pessoas precisam”. E o que eu queria dizer com isso? É porque às vezes a gente falava assim: “Não, mas eu fui lá, a gente transformou”, não, a gente não transformou, a gente simplesmente ajudou a eles desenvolver uma coisa que eles já tinham dentro deles, a pessoa, os valores que eles já tinham, a gente simplesmente só fizemos isso, ajudar, foi uma ajuda de chegar e falar: “Olha, é por aqui, o caminho é esse”.

Então, é que na verdade eu queria, aqui, na minha vida, como eu comecei criança trabalhando, por meu pai trabalhar com carnaval, e minha mãe com reisado, ou seja, a cultura popular brasileira ser muito viva lá em casa e a gente trabalhava muito com isso, a questão do artista, por meu pai ser músico, essas coisas e vir da família de músicos. Na minha família ninguém era ator, então a gente falava, o único ator era eu, depois, mas eu comecei a ver, eu falei assim: “Eu acho que se surtiu efeito na minha vida a questão de eu trabalhar com a música, trabalhar com a arte, e me levou em lugares que eu nunca imaginava que eu poderia chegar, eu acho que com essas crianças pode fazer o mesmo efeito que fez na minha vida ou até maior”. Então eu queria passar um pouco do que eu vivi, das oportunidades que eu tive.  Eu tive um ótimo crescimento, como educador, como pessoa, porque a gente passou a ver coisa mais de perto, coisas mais a fundo, como chegar num bairro mais precário.

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