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História

Gosto de contar a história de uma música

História de: José Domingos Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/02/2021

Sinopse

Seu Domingos conta uma história de muitas viagens. De Alexandria-RN, onde nasceu, foi ser policial na Paraíba e, após muitos perigosos anos, foi para o Maranhão trabalhar como motorista e condutor de máquinas pesadas. Domingos nos fala sobre como, nos intervalos dentro dos caminhões e escavadeiras, parava para escrever em seu caderno letras de canções que saiam da sua cabeça. Em seguida, nos narra sua ida para o bairro Anjo da Guarda, em São Luis, e de lá para a Vila Madureira. Seu Domingos conta com detalhes o processo de remoção para a Vila Nova Canaã. Por fim, ouvimos sobre seu sítio no polo agrícola HortCanaã, suas técnicas agroecológicas e a respeito do futuro da Vila Nova Canaã.

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História completa

P/1 - Seu Zé, qual o seu nome inteiro, local e data de nascimento, por favor?

 

R - Meu nome é José Domingos Augusto. Nasci em Alexandria, Rio Grande do Norte, no interior, e eu sou de 1951.

 

P/1 - Em que dia e mês?

 

R - Oito de abril de 1951.

 

P/1 - Seu pai e sua mãe falaram como foi o nascimento do senhor? Foi de parteira, em hospital? 

 

R - Foi de parto normal, ele falou que foi parto normal. Lá na cidadezinha... A cidadezinha não, que hoje é uma cidade grande, Alexandria, no Rio Grande do norte.

 

P/1 - E a sua mãe falou, alguém falou se foi difícil o parto, como foi o dia?

 

R - Foi um parto muito normal, ela falou que não tem burocracia nenhuma, não teve trabalho. Vamos dizer assim, não teve muito trabalho para a parteira, né? Porque nessa época era através de parteiras. 

 

P/1 - E qual é o nome da sua mãe?

 

R - Maria Basílio de Oliveira. E meu pai, Domingos Ferreira Augusto.

 

P/1 - E você conheceu seus avós?

 

R - Conheci. O nome da minha avó... Eu conheci da parte de pai e da parte de mãe. Eu esqueci o nome de todos.

 

P/1 - Tem problema não. 

 

R - Mas eu conheci, cheguei a conhecer todos.

 

P/1 - E você convivia com eles lá, enquanto você era menino?

 

R - Sim, quando eu tinha a idade de dezoito anos... Não, de quatorze anos, eu vivia mais com eles do que com a minha família, os meus verdadeiros pais.

 

P/1 - Você vivia mais com seus avós por parte de pai ou por parte de mãe?

 

R - Parte de mãe.

 

P/1 - E os seus avós parte de mãe, o que eles faziam, de que cidade eram?

 

R - Eles eram também de Rio Grande do Norte. Eles eram agricultores, tanto da parte de mãe quanto da parte de pai também.

 

P/1 - E esses avós por parte de mãe, o que que eles plantavam, o que eles faziam? Pescavam também?

 

R - Eles plantavam tudo, eles... Pra lá, sempre [se] planta feijão, milho e algodão. No Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Ceará é mais essa cultura, ou melhor, essa... Esse tipo de plantação que eles plantam na roça, milho, feijão e algodão. É o que eles plantavam. Criavam bode, galinha, essas coisas assim. Uma vaquinha pra comer leite e tal, também criava. E era assim o dia a dia. 

 

P/1 - Você consegue puxar as primeiras lembranças que tem de menino?

 

R - Sim, eu me lembro. Hoje a gente já tem essa idade, se esquece muito mais do que quando era bem jovem. Eu tenho muita lembrança da minha infância, das minhas brincadeiras, como eu brincava. Eu gostava de brincar com outras crianças. Brincava muito de carrinho, puxando aqueles carrinhos de bode, que se chama lá, lá eu botava.... Fazia aquelas rodinhas de cuia, essas coisas assim, enchia de terra e ali ia brincando, passando aquela infância assim, daquela maneira. 

Quando eu tinha dez anos, os meus pais me desceram, me levaram pra roça, para ajudar alguma coisa, e tinha que estar lá na roça mesmo; não tinha esse negócio não, não era ficar em casa brincando. Mesmo que não fizesse tanta coisa, tinha que ir. Era pra ir acostumando a trabalhar. E hoje eu agradeço muito o que eu sei não só da agricultura também, mas da parte profissional que eu tenho. 

Agradeço muito porque quando fui crescendo, eles sempre me diziam que agricultura era bom, mas não era o suficiente para gente, tinha que procurar outros tipos de... Um emprego, para ter a sua carteira assinada, para um dia estar mais tranquilo com a vida. E assim aconteceu comigo. 

A gente veio para o Maranhão, até... Foi em 59, _______ de 60. Eu estive aqui pro Maranhão, no Pau-de-Arara. Aqui no Maranhão a gente cuidou também da agricultura. Os filhos foram crescendo e foram se mandando, casando, arranjando família, e outros saindo, enfim. Eu fui...

 

P/1 - Quantos anos o senhor tinha, que o senhor veio pro Maranhão? Uns oito anos?

 

R - Foi em 59, eu estava com sete.

 

P/1 - Sete para oito, né?

 

R - É, sete pra oito. Isso aí, foi. Quando eu completei a idade, eu voltei para o Rio Grande do Norte e lá fiquei. Fui num passeio, nesse passeio fiquei mais oito anos lá. Aí voltei de novo para o Maranhão e hoje eu estou no Maranhão, mas sempre indo para lá. Eu vou, venho, assim... Em cinco anos eu fui três vezes lá.

 

P/1 - Pra Alexandria.

 

R - Porque eu deixei muita família lá ainda, eu tenho ainda família. Eu ainda tenho primos, primas, essas coisas. Até tenho tia lá ainda. Meus pais morreram aqui no Maranhão, meus avós morreram lá. 

 

P/1 - Em primeiro lugar, onde fica Alexandria no estado do Rio Grande do Norte?

 

R - Fica já na extrema de Paraíba. Tem um lugar, uma cidade chamada Souza, que é de Souza, [na] Paraíba, de Souza pra Alexandria, já Rio Grande do Norte. Dá trinta quilômetros, é perto. Extremo. 

A extrema do Rio Grande do Norte com Paraíba é uma ladeira. Subiu, desceu, ali é a extrema, Rio Grande do Norte e Paraíba do outro lado. E nós, riograndenses, íamos para a Paraíba fazer as férias do final de semana. A pé, de bicicleta - repara que não era perto, né? E assim, a gente... Eu me criei em... Eu nasci no Rio Grande do Norte, me criei na Paraíba e vim do Maranhão, os dois estados. A maior parte aqui no Maranhão. Aí vim para Miranda do Norte, em Miranda do Norte aí eu tive o primeiro emprego, depois...

 

(PAUSA)

 

P/1 - Estava falando de Alexandria, né?

 

R - Foi. Passei mais uma temporada no Rio Grande do Norte e voltei para o Maranhão. A maior parte da minha vida foi aqui no Maranhão mesmo. E aí começou, eu trabalhei no meu primeiro emprego, eu aprendi a profissão, algumas profissões. Motorista em primeiro lugar, trabalhei muito em carros pesados, esses caminhões, e depois fui para máquinas agrícolas, máquinas de estradas e terraplanagem, essas coisas - para mecânica, trator de esteira.

 

P/1 - Esse foi o primeiro emprego do senhor, basicamente?

 

R - Meu primeiro emprego foi... Foi como auxiliar de manutenção de máquinas pesadas. Serviço muito bruto, muito pesado. Enfrentei logo, porque a gente tem que enfrentar logo isso.

 

P/1 - No Maranhão?

 

R - No Maranhão. Foi aqui, perto de Caxias, presidente do... Dom Pedro e poucos lá. Aprendi essa profissão, primeiro [de] motorista, depois máquinas pesadas; aí tive empregado no Estado, eu passei 26 anos no Estado, depois sai, me empreguei em outras repartições particulares, sempre assim. 

Aí chegou a época da aposentadoria [por] tempo de serviço, contagem de serviço. Eu me aposentei cedo, [com] 53 anos, mas batalhando, nunca parei. Foi aí que começou a história da Madureira, para vir para cá. Comprei, através dos amigos, um pedacinho de terra lá, um sitiozinho. Comecei a ir aos finais de semana, sempre empregado, mas final de semana trabalhando lá. 

Foram doze, treze anos mais ou menos lutando lá, no Madureira. Chegou essa empresa, que é a MPX, aí disse: "Vocês vão ter que sair daqui." Eu disse: "Mas assim, saiu, desocupou?" Ele disse: "Não, não. Vocês vão ser indenizados aqui e  além da indenização vão ganhar muitas vantagens para poder desocupar aqui.  Faz muito tempo que estão aqui, já plantaram, já estão colhendo, então para onde vocês vão, vocês vão... Vai ser melhor para vocês, porque vocês vão receber o terreno [com] a medição do mesmo tamanho, até melhor porque vão receber com escritura -  porque aqui vocês não têm, só tem a posse, né?" 

Enfim, eu fiquei muito satisfeito. Disse: "Tá bom demais." Tudo que eu tinha feito foi contado através da empresa, pôs em contrato, foi feita a avaliação, mediram tudo. Justamente o que eles falaram, a gente alcançou. Eles deram casa aqui na Canaã, até com um pouco de bobeira, vamos dizer. Foi uma televisão, uma geladeira, um liquidificador, um fogão, e a casa [em] um padrão correto, que dá para gente morar. 

A contagem do que a gente fez lá eles contaram, avaliaram e pagaram. O tamanho do terreno que tinha lá recebemos nessa aqui também, tanto eu como os outros. Eu sei que o que eles prometeram, eles fizeram. 

Pra mim, foi uma coisa que aconteceu na minha vida que eu nunca pensei que ia acontecer, foi isso. Porque graças a Deus, hoje o que eu tenho… Um terreno tinha lá, tudo bem, mas o de lá era até mais ruim, esse aqui é muito superior. Eles prometeram ter um acompanhamento técnico, teve, [por] cinco ou seis anos. Ajudaram muito, fizeram as estruturas, fizeram muita coisa, dois poços artesianos. Muitas estruturas, casa de farinha, higienização, galpões para escritório, até isso. Casinhas de apoio, ajudaram muito até com condições financeiras depois, aquela gratificação nos finais de mês enquanto a gente se habituava ali, até "arrumar a mala", como diz o ditado. 

Foi uma coisa muito especial que eu achei, foi isso aí. Que tudo que eles prometeram, fizeram. E ainda hoje, estamos aí. Agora eles largaram de mão porque aquele contrato era de cinco anos, mas além de cinco anos veio mais um e de vez em quando eles ainda ajudam em alguma coisa. Além disso, né?

 

P/1 - Isso não é muito comum não, né? Em outras empresas.

 

R - Como?

 

P/1 - Não é comum as empresas fazerem isso.

 

R - Não, não é muito... Aqui não é muito comum assim não. Aliás, eu nunca ouvi, além dessa empresa, MPX - depois passou para Eneva e veio fazendo o mesmo que tinha que fazer. Ainda teve gente que [disse:] "Não, porque tinha que acontecer, porque tinha que fazer assim mesmo." Tudo bem, porque sair de lá, todo mundo já tinha... Tinha gente lá de trinta e poucos anos, já estava bem situada. Mas veja bem, ganharam casa, ganharam terra, acompanhamento gratuito, gratificações financeiras; ganharam mais umas coisas, materiais de insumo, essas coisas assim. Tudo prontinho, a gente recebeu já no ponto de trabalhar e ter. Se hoje ninguém tem, é porque não quis. Se nunca seguraram, é porque não quis. Se não fizeram nada é porque não souberam fazer. Mas de ter um acompanhamento, teve. Técnico, engenharia, essas coisas. 

 

P/1 - Antes da gente continuar com essa parte, vamos voltar então lá na sua infância, por favor. O nome da sua mãe você falou, seus avós. Quando o senhor nasceu a sua família era como? Quem estava na casa do senhor, como era?

 

R - Quando eu nasci?

 

P/1 - É, e era criança lá em Alexandria ainda.

 

R - Como era? Quando eu nasci... A história vem assim: o meu pai, quando ele faleceu, eu estava com três anos de idade. Passou uns quatro ou cinco anos, minha mãe arranjou outro. Esse acabou de criar os filhos, que eram sete filhos - todo tempo assim na roça, na agricultura. Criava os bichinhos e tal. 

Sempre a vida da nossa família foi assim. Pai a gente... Eu não conheci o meu pai, não tenho lembrança; só tenho lembrança do segundo, que foi o que me criou. E lá eles tinham uns terreninhos, aí venderam pra vir aqui pro Maranhão. Essa é a história que eu sei.

 

P/1 - E onde vocês moravam lá em Alexandria era como? Como era a casa, a rua?

 

R - Era de alvenaria, era... Não era mesmo na cidade de Alexandria, era um município chamado Panati. Lá não chamava município, chamava Sítio Panati. "Você mora onde?" "Mora no Sítio Panati." Mas realmente era um povoado, uma comunidade. Hoje ainda é, nunca cresceu. Sempre aquela mesma coisa. Se aumentou, foi cinco casas, dez casas das famílias, mas sempre foi assim. E de lá que a gente veio para o Maranhão, mas era uma casinha mais ou menos. 

Quando meu pai morreu, ele deixou um pouco para minha mãe. Pelo menos essa casa, pelo menos esse terreno de três hectares. Tinha um açudezinho e tinha peixe, criava peixe e ela não ficou tão desamparada. Com quatro anos ficou... Ela era jovem, né? Arranjou outro. 

 

P/1 - Mas ela arranjou ele no Maranhão já?

 

R - Lá.

P/1 - Lá mesmo.

 

R - Lá mesmo. Depois foi que... Foi uma pessoa daqui, veio aqui no Maranhão e chegou lá contando como era, que o Maranhão era muito bom, era assim e assado. Ficou aquela influência de vir aqui pro Maranhão, aí [se] juntaram três, quatro famílias, [e de] pau de arara vieram pra cá. Nessa época não tinha nem pista, estrada; tudo era terra, buraco. Passou, sei lá, mais de uma semana pra chegar no Maranhão. Foram oito dias pra chegar no Maranhão. 

 

P/1 - O senhor se lembra dessa viagem?

 

R - Eu me lembro.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Vixe, foi uma... Pra mim tudo era bom, né, porque menino, criança, é assim. Tudo acha bom, tendo brinquedo para brincar e essas coisas, mas para mim foi bom, divertido. 

 

P/1 - Brincava no pau de arara?

 

R - É, pau de arara cheio de gente, quatro famílias. Um contava uma história, outro contava outra, fazia sorrir, e o tempo foi passando. Só viajava de dia, à noite parava para descansar. E eu tinha que a estrada era muito ruim - não tinha estrada, era ramal. 

Foi muito divertido, só que aqui no Maranhão... No Maranhão a gente enfrentou um pesadelo. 

 

P/1 - Ah, é? O que aconteceu?

 

R - A gente foi para o interior aqui de Presidente Dutra, Dom Pedro lá. Nessa época dava muito aquela malária, e eu peguei. Peguei a malária com nove anos de idade... Não, com onze anos. Sofri muito, porque a malária é perversa, a malária é pior do que esse tipo de coisa, como é que é? Chikungunya. 

 

P/1 - Qual é o sintoma de malária, como é que você ficou?

 

R - Eu acho que é febre, dor de cabeça, frio. Frio de bater queixo. Nós estávamos no meio do sol quente, e tem o horário certo dela vir. E nessa época... Em mim foi, toda uma hora da tarde chegava o frio. Todo dia. Foram quatorze dias assim. Desses quatorze dias, todo dia chegava aquela... Aquele frio, depois do frio, a febre. 

De tanto tomar remédio para... A gente chamava, nessa época chamava Larem, Camoquinho, a Larem. Eram os dois nomes, dois comprimidos que tinha, Camoquinho bem miudinho, a Larem, maior, mas amarga que nem sei o que. E eu, de tanto tomar esses comprimidos… Não tomava outra coisa. E chá de quebra pedra, essas coisas assim. Não ia ao médico, que nem o médico passava remédio, não sabia nem passar remédio. "Toma Camoquinho, toma Larem, chá de quebra pedra, toma isso aí". 

Meu bucho ia crescendo e eu ficando amarelo, sem sangue nas... Eu olhava pra minha mão, tudo era verde. Aqui tudo era amarelo. E eu apanhei... Se fosse hoje, talvez eu tivesse ido embora. Mas como era bem jovem, né?

 

P/1 - E o senhor se salvou como?

 

R - Eu era tão fraco que se me sentasse aqui e me levantasse, tinha que segurar nas paredes, seja onde for, pra não cair. A vista escurecia, de ficar estrelinhas. 

O que foi que eu fiz? Comecei a trabalhar, juntei um dinheirinho e tirei pro Rio Grande do Norte, Paraíba. Voltei pra lá, passei oito anos lá. Fiquei curado sem tomar um centavo de remédio. Só comendo bastante feijão, porque o foco lá, o principal da mesa lá é o feijão, farinha e cuscuz. Rapadura, mel de cana, essas coisas assim. 

 

P/1 - Então o senhor trabalhou, mesmo doente o senhor conseguiu trabalhar um pouco?

 

R - Trabalhando doente. Fraco, quando eu me levantava assim, que escurecia a vista, tinha que pegar em qualquer coisa. Mas com a alimentação de lá, que era forte, feijão, que tem muita fibra, e ossada de boi dentro do feijão, essas coisas assim, é mel de cana, rapadura, essas coisas assim, fortalece. Aí foi chegando, o sangue foi... Eu sentia que ia melhorando, melhorando, e aí fiquei bom, graças a Deus. Sem tomar mais remédio, porque se eu tivesse continuado, talvez não tivesse aguentado. 

 

P/1 - Quando o senhor era mais menino, o senhor brincava lá em Alexandria com quem? 

 

R - Eu brincava minhas brincadeiras com os coleguinhas. Puxando carrinho, fazia aquelas... Umas rodas, botava um eixo, pegava uma forquilhinha de madeira, um pau, bota na forquilha, botava uma cruzinha aqui pra direção. Botava aqui no ombro e às vezes até ajudava, botava uma lata aqui com uma corda pendurada no prego, que pregava na forquilha, ia buscar água, saía a lata cheinha. Já era uma ajuda, aquele carrinho. É bom, eu gostava demais. 

Quando não eram aqueles brinquedinhos que fazia, de caco de cuia, essas coisas assim. Eu sei que era muito bom.

 

P/1 - Você se machucava muito nessa época?

 

R - Eu cheguei até a quebrar um braço de tanto correr, de tanto... Com aquela brincadeira com os meninos, tinha uns dois jumentos. Nós fomos embora agarrados naqueles jumentos, menino você sabe como é. Peguei um, ele pegou outro, amarramos um cipó, não foi nem corda, na cabeça dele e montei. Quando eu montei, ele começou a saltar. Quando ele saltou, eu caí por cima desse braço aqui, ele é torto. Caí por cima, eu senti "pá". Aquilo, quando eu passei a mão, chegava a chiar aqui dentro. 

Comecei a sentir dor e chorei, me levaram, olharam. Não me levaram pro médico não, ali mesmo tinha um cara, um caboclo lá, disse "Eu vou fazer o serviço aqui." Pegou um bocado de talo, rodeou tudinho, amarrou aqui. "Pronto, ele vai ficar com o braço todo o tempo assim." Passei foi muito tempo, mas quando tirou... Passava mastruz, compressa, amarrava mastruz, até que colou, mas ficou torto. E não tenho muita sustância nele, porque ele quebrou e ficou com defeito. Fiquei bom. 

Eu fiquei com medo, fiquei cabreiro. Disse: "Não vou mais brincar nesse negócio de montar em jumento, um animal que eu não conheço."

 

P/1 - Você brincava com quem, com seus irmãos, seus primos?

 

R - Brincava muito. Até que... A gente brigava muito também, brincando. Porque um queria de um jeito, o outro queria de outro jeito, e a gente começava a discutir e jogava sopapo na cara do outro, terra nos olhos do outro. Era assim. 

 

P/1 - Como era o senhor nessa escadinha de irmãos?

 

R - Hein?

 

P/1 - Como que é o senhor na escadinha de irmãos, o senhor tá onde?

 

R - Eu fui o caçula, o mais novo. O mais novo dos sete sou eu. Só que minha mãe teve outro, ela teve sete com o meu pai, com o primeiro, e um com o segundo. E ele ainda é vivo, mora em Boa Vista, Roraima. Ele, da parte de mãe, é o mais novo. 

 

P/1 - E como era ser caçula?

 

R - Eu gostava porque a minha mãe sempre dizia: "Esse aqui é o meu caçula. Meu caçula, é o mais novo", e pra mim era uma honra. Se ela fosse viva hoje, acredito que ela ainda ia dizer isso, “meu caçula”, porque [quando] ela morreu eu estava com... O que? Ela morreu em 1997. 

Ela estava em Presidente Dutra. Quando eu saía daqui de São Luís ia pra lá, passear. Quando eu chegava lá ela me abraçava, me beijava e dizia: "Meu caçula, esse aqui é o meu caçula." Aquela coisa de mãe, sempre a mãe da gente tem filho que ela é mais apegada. Gosta de todos, é como a gente também, mas tem uns que é mais do que outro, mais chegado. 

 

P/1 - E qual a diferença de idade entre o seu irmão mais velho e o senhor? O senhor sabe?

 

R - A felicidade?

 

P/1 - Não, a diferença de idade. 

 

R - Ah, a diferença de idade. Porque... Eu não sei, acho que por causa de ser paparicado, né? Acho que a mãe e o pai olham assim… Pra gente é assim, né? Ou através de comportamento, um dos dois. Ou porque é o mais novo, ou por causa de comportamento. Mas eu acredito que seja por causa de comportamento, porque eu era muito bem comportado com a minha mãe e com o meu pai.

 

P/1 - Mas eu digo assim: o seu irmão mais velho tinha quantos anos a mais que você?

 

R - Quando eu nasci, o mais velho estava com sete anos. Oito, acho que era oito anos. Sete para oito anos, não tô lembrado bem. 

 

P/1 - Não é tanto assim, então.

 

R - Não, porque era um atrás do outro. Dizia a minha mãe que era um atrás do outro. 

 

P/1 - A mãe do senhor cozinhava bem, a avó também?

 

R - Sim. E muito limpa. A minha mãe, puxou à minha avó, porque toda a minha família… A minha avó [era] muito limpa, a minha mãe [era] muito limpa. Todo mundo tinha orgulho porque a minha avó era uma pessoa que se fosse pegar no copo de alumínio para dar água para uma pessoa, ou ela mesmo beber, que tivesse uma manchinha de nada, aquilo ali era meio mundo de confusão para ela. E dava para as minhas irmãs, que eram três - três mulheres, quatro homens. Ai ia brigar logo com ela, que não tinha areado o copo direito, e aquilo ali não era pra ser daquele jeito; botava o copo ali exposto para a pessoa chegar e tomar banho ou melhor, tomar água e ia olhar aquilo ali, brigava muito. Uma panela para botar comida no fogo do mesmo jeito, tinha que ser bem limpinha. E a casa tinha que ser bem limpinha, tinha que estar bem limpinha. Se ela pegasse no prato, qualquer coisa assim, que tivesse uma poeirinha, ela brigava com as meninas. 

Pois era assim. A minha mãe era muito limpa, limpa, limpa. 

 

P/1 - O que ela cozinhava?

R - Ela cozinhava e bem. E era trabalhadeira, muito trabalhadeira. Que pena que era na roça, ela não estudou. A minha mãe não teve estudo, nem meu pai de criação. Meu pai de criação não sabia nem o que era um A, você mostrava para ele, dizia: "Não sei não, meu filho. Que letra é essa? Não sei." A minha mãe ainda aprendeu a assinar o nome, bem ruim, mas aprendeu, mas o meu pai de criação, não.

 

P/1 - Qual o nome do seu pai de criação?

 

R - Jovêncio Matias de Souza. Faleceu com 93 anos, na Boa Vista também. O filho dele, esse que eu tô falando, o mais novo, veio aqui pra Presidente Dutra e levou ele pra lá. E lá ele faleceu. 

 

P/1 - E como é que era ele?

 

R - Ele era alto, branco. Não era careca, era... Já tinha aquela idade, mas o cabelo era completo na cabeça. E trabalhador também. Muito paciente. Você podia... A minha mãe às vezes brigava com ele porque ele era muito lerdo, não sei o que, ele não estava nem aí. Cigarro de um lado, que era feito de palha de milho, enrolava aqui, botava na boca e ali ficava. Tomava o café. Enquanto não fumava ele todinho, ele não ia para roça. Tinha que fumar o cigarro todinho ali, sentadinho, tomando um café, quando terminava ele ia pra roça. Lá ele fazia o trabalho dele bem devagarinho e tal, não tinha avexe. E tinha as coisas. 

Com pouco tempo que viemos pro Maranhão, com mais ou menos uns oito, dez  anos, ele já tinha uma fazenda de gado muito bem organizada, uns quarenta e poucos gados já. Muita criação de bode, muito porco. Eu me lembro muito bem que ele tinha muita criação de bode e porco, mas veio uma peste suína, uma febre e matou para mais de cem porcos dele. Sobrou uns cinco, sobrou... Cem nada, foi muito mais de cem que morreram. E daí ele começou de novo. Repara a paciência dele. Ele não ficou assim, avexado pra se desfazer de tudo, não, vamos continuar. Eu sei que não vai morrer até o final. Continuou e fez de novo a fazenda de porco dele, fez de novo. E quando ele faleceu, deixou muita coisa para o filho.

P/1 - Mas deixou para o filho dele e da sua mãe?

 

R - Minhã minha mãe morreu primeiro que ele. Quando ele morreu, antes de ele morrer, ele disse assim: "Isso aqui vai..." Ele gostava muito desse filho dele, só tinha um dele mesmo. Ele gostava muito desse Sandir, que é o meu irmão por parte de minha mãe. Disse: "Eu vou deixar tudo para esse menino, mas eu só quero que você, meu filho, divida esses terrenos”, porque o terreno dele era grande lá em _____________ "para dividir com os filhos de Maria", que era minha mãe, que éramos nós. Mas aí o que foi que aconteceu? Ele fez essa viagem para Roraima, vendeu a propriedade com gado, com tudo, trocou numa caminhonete, uma D20, recebeu o dinheiro, outro dinheiro, mais dinheiro e pegou o navio em Belém. Botou a caminhonete dentro, tirou para Roraima, chegou lá e comprou duzentos hectares de beira do rio. E ainda hoje estão lá, os duzentos hectares. Tá pra lá. 

Eu não sei, ele me falou que tem... Ele plantou dois mil pés de limão taiti, dois mil pés de laranja enxertados e dois mil pés de mamão. Aí comprou um caminhão - a D20 já era. Ele tem dois caminhões, um baú e outro carroceria trucado. Uma leva para Roraima e o outro para Manaus, carregado de laranja, limão, mamão; divide [entre] Boa Vista, em Roraima, e Manaus.

 

P/1 - Isso quem fez foi o seu padrasto ou o seu irmão?

 

R - Não, ele pegou essa propriedade aqui em Presidente, vendeu com o gado e tirou para Roraima, e hoje lá ele comprou os duzentos hectares. [Foi] esse irmão meu, por parte de mãe. Esse terreno que o meu pai de criação, meu padrasto, disse que era para ele dividir entre nós, entendeu? Mas ele não fez, ele vendeu e foi embora. E lá ele comprou esse terreno. 

 

P/1 - Mas ele criava bem vocês, quando você era menor?

 

R - Sim. Ele... Foi uma coisa que ele fez, ele nunca bateu em nós, ele sempre aconselhava. Mas ele, para mim, teve um pequeno erro porque ele deveria ter dividido e não ter entregue para o filho dele mesmo. Ele teria feito uma divisão para cada um, na minha opinião era para ter sido assim. Mas não, ele primeiro deu para pedir para ele dividir entre nós, mas não era... Para mim, ele fez errado.

 

P/1 - E eles contavam histórias para vocês, dos mais velhos, para dormir? 

 

R - Não, isso não me lembro, essa parte aí não me lembro. Sempre aquelas conversas de pai pra filho, essas conversas, [ele] ensinava muito. Como era: "Olha, meu filho, eu sou muito bem vivido, já vivi muito, sei como é que é o dia a dia e vocês tem que seguir aqui também. Vocês têm que fazer assim, não é dessa maneira, é assim que é para se dar bem lá na frente. Vocês têm primeiro que nos respeitar, [os] mais velhos, vocês têm que ser... Vocês têm que trabalhar para não pedir nada a ninguém, nem roubar. Tem que trabalhar, gastar o suor de vocês para vocês poderem dar valor; tem que dar valor, porque se vocês ganharem fácil demais, vocês não vão dar valor. E se vocês trabalharem para derramar o suor, vocês vão saber dar valor ao que é de vocês", porque foi assim que ele arranjou as condições, foi trabalhando mesmo no suor. Essa era a história que ele contava pra nós, “e hoje ele sabe dar valor ao que é dele". E ter paciência com o povo, não é ser uma pessoa agressiva, não é ser ignorante, mesmo que você não estude, porque a educação também não vem só dos estudos. A gente aprende muito estudando, como viver, mas também a gente aprende ser educado sem estudo também, é só querer. Isso tudo ele ensinava a gente e assim por diante.

 

P/1 - Quando vocês vieram para o Maranhão, onde vocês ficaram?

 

R - Nós ficamos no município de Presidente Dutra, [num] lugarzinho chamado Palmas.

 

P/1 - É no interior daqui?

 

R - Interior do Maranhão. Daqui até lá, dá 460 km. 460 ou 480, alguma coisa assim. Já rumo a Imperatriz, pra cá de Imperatriz, metade da viagem. Esse lugarzinho chamado Palmas, que hoje cresceu muito. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - O senhor estava falando de Palmas, a cidade que o senhor foi morar lá ou que veio para cá, né?

 

R - É. Antes de vir pra cá?

 

P/1 - Isso. 

 

R - Madureira.

 

P/1 - Antes de ir para Madureira. 

 

R - Antes para Madureira, eu estava no Anjo da Guarda, um bairro de São Luís. 

 

P/1 - Mas antes ainda, quando veio com a sua família no pau de arara, o senhor ficou nessa cidade, no interior. 

 

R - Foi, se chamava uma vila, hoje é comunidade. Palmas, [no] município [de] Presidente Dutra. Lá foi onde nós ficamos. 

P/1 - O que tinha para fazer, por que o seu padrasto escolheu ali?

 

R - Porque era beira de estrada. Ele encontrou logo uma propriedade para comprar com o dinheiro que veio de lá. Eles venderam a propriedade lá e compraram logo aqui, para não gastar o dinheiro. 

Gostaram logo do município de Presidente Dutra porque, em primeiro lugar [era] beira de estrada, ali tinha um futuro. Se tivessem escolhido mais para fora, tinha tido dificuldade para vender depois. Caso tivessem vontade de vender, de se desfazer daquilo, ia ser mais trabalho porque era mais longe de cidade, povoados, essas coisas, então ele preferiu ali na beira da estrada. Não era estrada BR assim, de pista, mas é uma grande estrada principal, onde passavam todos os carros. Eles preferiram ali e deu certo. Lá ele gerou uma fazendinha, conseguiu as criaçõezinhas, e ali ficamos.

 

P/1 - O senhor ajudava ele no roçado, com os bichos?

 

R - Ajudava. Ajudei muito, mas só que quando eu estava com onze anos eu saí da casa deles, porque a minha irmã mais velha se casou. E esse marido dela, meu cunhado, era profissional, ele era tratorista; quando era empregado exigiam… Hoje estava aqui, amanhã tava ali, depois tava acolá, sabe como é isso. E ela... E eu acompanhando todo o tempo. Aí foi onde veio a minha profissão que eu mais queria, que aí eu aprendi justamente com esse cunhado meu. 

 

P/1 - Isso foi você voltando pro Rio Grande do Norte, é isso? Com onze anos?

 

R - Foi quando eu vim... Primeira vez vim menino, depois voltei [quando] já era adolescente. Quando eu completei... É por isso que aí partiu a história, com dezesseis anos, que eu não era nem registrado ainda. Foram me registrar aumentando, que era justamente para ir para a Polícia. Tirei cinco anos, aí deu baixa.

 

P/1 - Você ficou na Polícia?

 

R - Cinco anos, aí deram baixa. Eu pedi, porque não gostei.

 

P/1 - Então vamos voltar um pouquinho, antes o senhor... Em Palmas, ainda, o senhor...

 

R - Voltei para Rio Grande do Norte.

 

P/1 - Com que idade?

 

R - Com dezesseis.

 

P/1 - Você voltou para prestar o concurso para polícia, é isso?

 

R - Isso, lá. Já na Paraíba.

 

P/1 - Ah, na Paraíba.

 

R - Paraíba, foi.

 

P/1 - Em que cidade era?

R - Catolé do Rocha.

 

P/1 - Como o senhor soube que tinha um concurso lá?

 

R - É porque eu estava lá. Eu estava no Rio Grande do Norte, mas como eu falei, era a extrema lá, é assim... Lá chama "dependente das Águas", pra lá. Dependente das águas... Um ditado assim, só que é uma ladeira. Quem vem do Rio Grande do Norte sobe, quem chega lá na Paraíba, desce. 

Eu só vim à Paraíba. E a maior parte da minha família já era na Paraíba, não era mais no Rio Grande. Eu falei: "Vou pra Paraíba." Teve aquele chamado de Polícia, aí eu fui. 


P/1 - E o senhor tinha estudado antes disso já?

 

R - Já.

 

P/1 - Qual foi a primeira escola que o senhor frequentou?

 

R - Eu frequentei aqui em Presidente Dutra, em Palmas. Estudava de dia e estudava à noite. A minha influência mais dos estudos… Eu gostava muito de estudar. Comecei na tabuada, tabuada e... Era por isso que os estudos de antigamente são diferentes dos estudos de hoje. Antigamente, no meu tempo… Eu estudei até o quarto ano, mas não tenho inveja do que estudou e do que se formou, não. Não tenho inveja, porque eu estudei muito Matemática. Nesses tempos era aritmética, aí eu... E eu aprendi muito a Matemática porque eu gostava, eu tinha inveja, coisa que eu... De cabeça, eu era adolescente. Eu tinha inveja daqueles que tinha uma caneta aqui, num instante, tatata, fazia uma conta desse tamanho, conta de multiplicar, dividir, essas coisas. Eu ficava olhando… Poxa, como é que a pessoa sabe daquele jeito? Eu vou aprender. Graças a Deus, aprendi. E para eu fazer uma conta aqui na lapiseira é rapidinho, é bem rapidinho também. Tantas vezes tanto? É tanto. Soma tanto, tanto, eu vou aqui. Quando tá muito... Eu tô muito, meio embaraçado da cabeça, muito preocupado, eu vou na caneta, calculadoras, essas coisas assim; [mas faço] mais é na cabeça.

 

P/1 - Teve alguma professora que você gostava mais, professor?

 

R - Professor? Eu estudei mais foi com professores e o professor que eu estudei a segunda... O segundo professor, esse era duro, ele não recebia... Tinha um negócio de receber lição. "Vê a lição aí que eu passei pra você, essa folha todinha aí." Tinha que estudar, no livro. "Lê aí pra mim." Aí eu: "Tal, tal, é..." "Não, você tá gaguejando. Vai estudar de novo. É pra ler correto, como se estivesse conversando assim, uma história que você já gravou na sua memória." Quando eu aprendia, eu chegava: "Pronto, professor, gravei." "Lê aí."  Pegava a história, até chegar sem gaguejar. "Ah, agora sim, vamos passar pra outro." 

E era assim, tabuada, ou melhor, carta de ABC, ele fazia uma rodinha num papel e cobria toda. Só ficava uma no meio, pra saber se eu conhecia mesmo a letra. "Que letra é essa?" "É O." "Certo." Puxava lá pro X: "Essa aqui?" "É o X." "Essa aqui?" "É um Z." Aí ia pra letra minúscula: "Esse aqui? "O J", que é diferente do maiúsculo, ou outra letra diferente, aí eu ficava “É... É..." "Ah, não, vai estudar." É pra quando olhar você dizer logo, aí sim você tá memorizado. O estudo era assim. 

 

P/1 - Você foi alfabetizado lá, então. 

 

R - Fui. Além disso, lá eu estudei ainda, no Rio Grande do Norte. Eu estudava mais à noite. Só que eu sabia mais do que a professora. A professora do interior, às vezes eu sabia… Eu dizia: "Passa umas contas pra eu fazer aí." Ela passava, quando eu... "Isso aqui não dá não, tem que ser maior assim", e ela ficava... Ela mesmo se perdia. E ali eu estudava. 

 

P/1 - E quando teve esse chamado pra Polícia, o senhor foi.

 

R - Fui. Estavam precisando mesmo. 

 

P/1 - Conta essa história pra mim do senhor ter sido registrado, então.

 

R - É porque não tinha que fazer... Vamos dizer, pra ir pra polícia, curso não tinha. Nessa época, não tinha. Eu estava com uns cinquenta e poucos anos. Não tinha que passar [em] concurso, fazer isso, isso não existia. A aula a gente fazia lá mesmo, a aprendizagem, aprendia lá mesmo. Fizesse assim, tinha que fazer assim, tem que fazer assado, tem que fazer desse jeito, tem que obedecer, tem que ser assim.

 

P/1 - Mas aí você não tinha o registro, é isso? Você não era registrado. 

 

R - É, registro, fui registrado com dezesseis anos. Aumentando. Botaram pra 49, mas na verdade, sou de 51. 

 

P/1 - Para poder...?

 

R - É, para poder chegar lá no emprego. Mas não foi por mim não. Eu vim saber... 

 

P/1 - Quem fez isso então, pro senhor? Quem teve essa ideia?

 

R - Foi minha mãe com meu padrinho, parece que foi. Minha mãe e meu padrinho, porque meu pai já era falecido e ela ainda não tinha casado. Foi meu padrinho de batismo e minha mãe. 

P/1 - E aí o senhor chegou lá, como é que foi? Se alistou, começou...

 

R - Fiz o alistamento, aí mandaram eu voltar para casa e aguardar o chamado. Foi uma semana. Tive umas provas que eu fiz lá, altura, peso, essas coisas assim, aí voltei com uma semana. Fiquei à paisana durante uns oito dias, só aprendendo, [como] aluno lá dentro. Não recebia farda. Ia aprendendo as coisas lá, que também não é, a pessoa porque tá na polícia ele não é... Ele tem que ser valente e tem que ser também... Ele tem que ser também uma pessoa honesta, viu, tem que ser também... Ele tem que cumprir o mandado do comandante, tem que cumprir. Tem que ser bravo, tem que ser uma pessoa brava, mas não é pra chegar e dizer assim: "Porque eu sou bravo, eu vou fazer isso assim." Não é assim não. Tudo isso a gente aprendeu. Depois recebe a farda, aí vamos para o campo.

 

P/1 - Em que cidade que o senhor foi policial?

 

R - Rio Grande... Foi [na] Paraíba, [em] Catolé da Rocha. 

A vida da polícia é assim. A gente tem que ser... Tem que cumprir com o mandado, tem que fazer. A gente se lasca, mas tem que fazer. E eu enfrentei muito perigo, risco. Lá tem serra alta e ali muitas e muitas vezes a gente ia à noite, [de] madrugada, buscar pistoleiro, bicho treinando mesmo, pistoleiro lá só matava por empreita. Dois revólveres aqui. Nesse tempo chamava parabellum, dois parabellum aqui. Acabei de enfrentar um homem desse, sangue frio, era ruim.

 

P/1 - Conta uma história então disso, que o senhor teve que subir. Como foi?

 

R - Uma história de?

 

P/1 - De que o senhor teve que subir, ir na serra atrás desse homem. 

 

R - Ah, através de um caçador. Caçador de tatu, cachorro. Uma espingarda, espingardinha bate-bucha. E a gente tava na... A gente estava querendo capturar uns quatro pistoleiros. Esses quatro pistoleiros eram muito procurados, muito perigosos. Quando atacavam, eles atacavam bem. E eles só matavam por brincadeira, por empreita, para ganhar dinheiro. Estavam fazendo muita bagunça, e estavam numa serra. Lá tinha uma caverna, lá em cima, umas pedras; a caverna de lado já era escura, mas eles usavam lampião lá dentro. De lá eles desciam de noite para fazer o que quisessem. 

Através de um caçador, o caçador com cachorro... Tatu e cachorro, bateram lá onde eles estavam. Eles não queriam, o cachorro acuou eles, mas eles não queriam matar o cachorro para não fazer zuada, barulho, senão sabe como é que é. O dono do cachorro subiu e viu o cachorro na caverna, mas ______ que tinha um do lado de fora, querendo mostrar o cachorro. Ele viu, conheceu que aquele dali não era, era coisa de, era... Nessa época chamavam lá [de] pistoleiro ancorado - escondido, chamavam [de] ancorado. Ele desceu. Quando ele desceu, o cachorro acompanhou. Lá mesmo ele registrou uma queixa, que tinha visto assim, assim e assim. Aí fomos. 

 

P/1 - O senhor foi sozinho?

 

R - Não, não. Nós éramos dezoito. Não era viatura não, [era] jipão. Jipão era um jipe grande, que cabia doze, quinze. Fomos dezoito, em dois jipões, nove em cada. O comandante mandou subir de um lado, subir de outro, de outro, pra cercar, fazer o círculo. De madrugada. Aí cercamos, dezoito policiais. 

O comandante gritou, mas já receberam com bala, eles mandaram bala de dentro da caverna. Eles estavam bem armados e bem munidos de munição. Aí foi bala, mas ninguém atirou. “Deixa eles gastarem munição.” Tatatatata... Aí subimos quatro em cima de uma pedra grande, do tamanho dessa casa aqui. Quatro lá em cima, quatro para acolá, seis pra ali, três pro outro lado. Eu sei que dividimos. Quando eles gastaram muita munição, muita mesmo, aí chegamos junto. 

 

Tinha um material do delito. Quando o comandante, tenente, gritou, deu voz de prisão, aí saíram mais dois. O tenente nem olhou, grampearam o tenente e botou o parabeno no ouvido, e mandou: "Bote seus macacos pra botar as armas tudinho aqui." Só que a gente já era treinado e sabia como era pra fazer; caso acontecesse isso, não era para todo mundo chegar lá, era para ir dois, três, e pronto. E assim fizemos. "Vem pra cá, meninos." "Nós somos só quatro, eu e mais três, vem pra cá.” Os três foram e o resto ficaram lá. O atirador deles meteu a lanterna, já de madrugada; quando meteu a lanterna e se virou para tirar, ele atirou mesmo na cabeça. Tava perto. Aí o resto foi vivo: três algemados, rapamos fora. 

Se não tivesse treinamento? Se não fosse treinado para isso, não tinha todo mundo chegado e botado as armas ali? Mas só foram três, com ele quatro; chegaram, botaram as armas como ele pediu, mas quando ele pensou que não, já tava morto. Ai o resto foi fácil. 

Assim aconteceu muitas vezes - não desse jeito, mas [de] outras maneiras. Acontecia. Tinha caboclo ruim, instinto ruim. Quando a gente descia do carro, ele já estava com a arma na mão pra atirar. Aa gente rolava no chão e quebrava uma perna dele, se entregava logo.

 

(PAUSA)

 

P/1 - Pode continuar o que o senhor estava falando, que tinha outras situações também, não é?

 

R - Tinha muito risco, aí eu passei só cinco anos. Vim embora pro Maranhão de novo. Eu me empreguei, tive essa temporada no Estado, depois saí essa temporada e trabalhei na área da Vale do Rio Doce. E aí surgiu… Eu comprei esse sitiozinho, aí começou tudo, veio tudo para cá. É onde eu tô, contando a história. Graças a Deus.

 

P/1 - Conte uma coisa: você já teve que derrubar homem, quando policial?

 

R - Não, não. Teve uma culpa, botaram culpa em cima de mim, mas eu não fiz. Atirar, a gente atirava. Atirava, quebrava perna, mas pra dizer assim: "Eu vou executar aqui", não. Comigo não aconteceu. Quebrar a perna tudo bem, pro cabra não correr muito, mas depois levava pra se tratar também. Se aconteceu é porque tinha que acontecer, quando o cabra recusa a prisão o cara tem que fazer. E se ele correr, é pior. Ele tá preso, queria correr; não, corre não, peraí. 

 

P/1 - Você voltou para o Maranhão por conta disso, então?

 

R - Não, não foi. Saí numa boa. E numa boa mesmo, porque a minha família, os meus pais, a minha mãe ainda era viva, meus irmãos. Eu [era] muito jovem ainda, queria estar no meio deles. Eu gostava muito dos meus irmãos, a gente não foi criado não muito assim… Por isso que eu gostava muito, porque não foi criado todo mundo junto assim, sempre foi... Só no tempinho de criança. 

Eu gostava muito de tocar um violão, aí veio aqueles sucessos daquele pessoal, de Waldick Soriano, Jerry Adriani, Nilton César, José Roberto, Zé Ribeiro, e eu comecei cantar. Comecei a imitar Waldick Soriano, cantar aquelas músicas de Nilton César, de Jerry Adriani, aquelas músicas que eu gostava muito, comecei a cantar e a tocar um violão. Hoje não, porque meus dedos já não têm mais sustança, dá logo câimbra. Comecei também a fazer, compor as músicas.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Sim. E hoje eu ainda faço, ainda componho músicas e eu ainda gravo CDs. Eu tenho umas quatro gravações de CDs, esse menino acho que ainda deve ter por aí, aqui. Mas eu ainda gravei uns quatro CDs; gravação minha, composição minha.

 

P/1 - O senhor se lembra da primeira que o senhor compôs?

 

R - Eu me lembro. 

 

P/1 - Como era?

 

R - Primeira música que eu... Ainda tá gravada aqui no carro.

 

P/1 - O senhor pode mandar uma palinha pra gente?

 

R - Posso. A primeira música que eu gravei... Espera, deixa eu ver se... Eu me lembro da letra, vamos ver se vem a recordação agora. Espera aí. 

Eu estava dormindo sozinho, eu estava dormindo sozinho na minha cama. 

Hoje, de repente…

 

Eu esqueci da letra, vou cantar outra aqui então. Essa foi a primeira, aí tem essa outra. 

Eu não vou querer você sofrendo assim por mim

Eu só quero é viver bem feliz, muito feliz até o fim. 

Diga com toda a verdade que não fui o culpado do que aconteceu. 

Sempre eu tive esperanças que para mim ela não morreu. 

Volte, estou te esperando, sorrindo e cantando, o prazer é todo meu. 

Vem, fica ao lado, esquece o passado, feliz você e eu. 

Venha e fique ao meu lado, esqueço o passado, é feliz você e eu. 

Aguardo a sua chegada porque a nossa morada não saiu do lugar.

Te espero é com toda certeza, com o vinho na mesa, só nós dois para tomar. Também quero sentir seu calor, dormir em seus braços para me conformar

 

Essa é de minha composição. Tenho 42 músicas de minha composição. Tem muitas bonitas, muitas histórias bonitas, as letras muito boas. Só nunca nunca fiz sucesso com elas porque nunca tive uma mão de força para me dar, porque para gravar um CD hoje profissional é caríssimo. E para fazer a mídia também precisa de dinheiro. E é por isso que eu nunca fiz um sucesso, mas sempre bota essas rádios aí comunitário, até no interior. Santa Inês, Miranda do Norte, Vitória do Mearim, todas tocam minha música.

 

P/1 - Que o senhor gravou. 

 

R - Que eu componho, gravo e deixo pra lá. Mas nunca fiz sucesso com elas porque nunca teve mídia.

 

P/1 - O senhor começou ouvindo música onde, no rádio, no LP?

 

R - Foi. Primeiro eu gostava muito das músicas de Luiz Gonzaga. Depois veio de Waldick Soriano. Waldick Soriano era o rei do bolero, gostei muito da música. Nesse tempo eu bati um violãozinho, acompanhava meio fraco, mas acompanhava, e cantava as músicas de Waldick Soriano. 

 

P/1 - Você pode cantar uma para mim que o senhor gosta?

 

R - De Waldick Soriano?

 

P/1 - É. 

 

R -  Eu sou pobre, mas te amo cegamente

Por eu ser pobre não devias me deixar

Um moço pobre poderá ser bom esposo

Nem só os ricos têm direito de amar

Com o dinheiro não se compra um lar feliz

Com dinheiro só se compra ilusão

Quem despreza um grande amor pelo dinheiro

Só tem no peito um malvado coração

Um dia saberás que estás errada

E talvez enfrentarás a realidade

Podes voltar que os meus braços te esperam

Só não posso te oferecer conforto

Pois junto a mim tu terás felicidade.

 

Ai emenda outra:

 

Sua beleza com o tempo vai embora

Em vez de rir você virá chorar comigo

O nosso amor durou somente uma semana

E eu que pensava conservá-lo a vida inteira

Eu não contei que você fosse leviana

Pois leviana faz amor por brincadeira.

 

E assim vai indo. Sei de muitas músicas de Waldick Soriano, do Zé Roberto, Carlos Alexandre, Nilton César.

 

P/1 - Isso tudo o senhor ouvia na rádio?

 

R - Sim. 

 

P/1 - De pequeno.

 

R - De pequeno pra cá. Comecei a compor já com vinte e poucos anos, vinte e dois anos. Disse: "Vou largar de cantar música alheia, de cantor. Eu vou cantar as minhas mesmo."

 

P/1 - Isso logo que o senhor saiu da polícia? 

 

R - Exatamente. Comecei, aí peguei a tomar umas bicadazinhas, umas cachacinhas temperadas, mas eu nunca me viciei não, tomava por esporte. Achei muito bom, eu dizia: “Rapaz, eu tenho muita... Eu tenho muito talento para fazer a música", porque todo mundo gostava. [Diziam:] "Rapaz, você é um profissional, você é um artista." Porque a pessoa ter uma memória dessa, ter um talento desse para fazer uma música, uma história… A música é assim, você começou a história, sei lá que for, uma história que você mesmo vem de inspiração ou que aconteceu - eu faço os dois, vem aquela inspiração eu faço e vem a história de fulano de tal, minha mesmo. Eu tenho muitas músicas feitas que faço vendo às vezes até uma briguinha de casal, como eu já fiz até que... Essa música que tocava aqui nessa rádio poste que tinha aqui, mas tinha a filha de Zacarias que nunca botou ela porque falava o nome dela. Eu nem conhecia ela, mas eu fiz essa música falando de Patrícia.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É. E ela não botava porque falava em nome de Patrícia, ela não gostava da música. Mas rodava muito aí, era bom o xote. 

 

P/1 - Como era? 

 

R - Não vale a pena você ficar aqui atrapalhando a minha vida

Eu não gosto mais de ti, Patrícia, seu amor foi uma mentira 

Eu não gosto mais de ti, Patrícia, seu amor foi uma mentira 

Você parece com a bruxa feiticeira me atormentando noite e dia sem parar

Eu não como, não durmo, não faço nada, estou arrasado sem poder me controlar

Eu não como, não durmo, não faço nada, estou arrasado sem poder me controlar

Oh, mulher, eu nunca vou te perdoar

Você só quer me maltratar, malvada, também só quer me ver chorar

Você só quer me maltratar, malvada, também só quer me ver chorar

Eu não aguento com a sua falsidade, a sacanagem que você sempre me faz

Eu te prometo que eu só vou falar a verdade, Patrícia, me deixa em paz.

Eu vou dar parte na polícia, viu, bichinha? Eu vou dar parte na polícia.

 

E assim, do nada, eu faço a música bem romântica, do que aconteceu, do que deixou de acontecer. Vem a inspiração, eu faço. Faço o reggae, faço o baião, faço forró. 

 

P/1 - O que você quando era pequeno... O que você acha que você ouviu em Waldick Soriano que você falou: "Poxa, isso aqui é legal"?

 

R - Waldick Soriano porque é uma voz muito bonita, eu gostava muito da voz de Waldick Soriano. E todas as músicas dele tinham sentido - aliás, tem, porque ainda hoje roda, hoje toca por aí só. Tem sentido a música dele, a letra das músicas dele, tudo tem sentido. E eu, quando comecei a compor as músicas, também as minhas, as histórias das minhas músicas têm um sentido. Tudo tem um sentido. Começou, findou com o mesmo sentido do começo. Não adianta você fazer uma letra bem aqui e não ter... “Poxa, não tem sentido nenhum. Você terminou ela, qual…?” Não tem. Então não vale nada, para mim não vale nada, a letra não vale nada. 

Todas as músicas de Waldick Soriano têm um sentido. Era só uma música apaixonada? É. Eu também fiz muitas músicas apaixonadas, que até muitos ainda hoje dizem assim: “Se você for, ou ainda é, um cara muito apaixonado, porque até uma música que você faz é apaixonado..." Não é não. Como essas músicas de Waldick Soriano, tudo é brega romântico. As músicas do Waldick Soriano são uns bregas românticos. 

 

P/1 - O que é ter um sentido pra você, a música?

 

R - O sentido é a história seguinte, o seguinte é... Você contou uma história e lá na frente você se perdeu, então aquilo nem combina com o que você começou. Você tá entendendo, né? Pois assim é a história da música: você tem que escrever ela do começo, o meio, terminou tendo aquele sentido, daquela história. Oxe, rapaz, a história disso é bem contada, viu? Na música, ele contando e na música também, é o mesmo sentido. Pois é, se a música não tem sentido daquela história, para mim não é música, porque tem muitas músicas hoje que eles cantam aí, que tanto... Só vê... Você só vai ouvir porque tem aquela batucada de bateria, tem aquele instrumento, mas a letra não vale nada. 

Antes daquele cantor morrer, aquele Nelson Gonçalves, eu vi uma entrevista dele que a mulher perguntou assim: "Nelson, o que você acha dessas músicas de hoje para as músicas antigas, da jovem guarda?" Ele disse: "Pra mim não valem nada. Essas músicas de hoje, pra mim não valem nada." Que letra que tem? Não tem letra. Só porque fala disso, e fala... Mas não tem letra, não tem combinação, não combina nada; você começou aqui, terminou, mas não combinou nada. 

Essa mesma pergunta que você fez pra mim, o locutor da Rádio Mirante AM [fez]. Eu dei uma entrevista esses dias lá. Fui lá, me chamaram, ele me fez essa mesma pergunta. E eu respondi. Ele disse: "Pois você tá certo", porque não adianta você cantar uma música com a letra... Com os instrumentos fazendo uma introdução tão bonita, mas a letra não presta. 

 

P/1 - Posso te pedir uma coisa então?

 

R - Pode. 

P/1 - Escolhe uma música pro senhor cantar, uma música sua, e me conta a história dela, por trás. 

 

R - Sim, tenho. Tenho.

 

P/1 - Pode ser?

 

R - Deixa eu ver se eu me lembro aqui. Mas tem, e essa que eu cantei agora, esse xote, é uma história de uma pessoa que eu... Justamente eu ia para o serviço, nesse dia o carro não foi me pegar lá em casa e eu tive que até pegar o transporte lá fora. E [eram] cinco horas da manhã. 

Chegou um camarada da rua, saber o que tava fazendo eu não sei, só sei que ele chegou naquela hora. E aí começou uma briga, ele e ela, a esposa dele. Aí eu parei, "Poxa, o que vai acontecer ali?" Eu parei, e aquela discussão entre eles dois: "Você vai embora, você não presta, você não sei o quê", e aí eu continuei a minha viagem, fui embora. Na hora que eu cheguei eu fui pensar naquilo e comecei a escrever. Só fiz cabeçote, cabeceei. 

Eu andava com um caderno e uma caneta, todo o tempo ali do meu lado. Eu era motorista, caçambeiro, era tudo do meu lado. Quando eu parava, quando vinha aquela meditação aqui na minha memória, eu escrevia rapidinho. E ali ia emendando, até que eu fiz essa que chama Patrícia

Aquilo foi uma história de outra pessoa. A história que aconteceu comigo, deixa eu ver, eu fiz ela tá com um ano e pouco. Começou uma história daqui mesmo, aqui na Pindoba, e eu fiz ela. Ela é muito bonita, tá até aqui no CD. Vou ver se me lembro do começo dela; eu sou ruim assim, tem que estar com a lista aqui para poder me lembrar. 

 

Mulher, eu não quis te ofender com as minhas palavras de modo algum

Eu só quis que você compreendesse que esse meu jeito de falar é tão comum

Eu só quis que você compreendesse que esse meu jeito de falar é tão comum

Ora, eu não quis te machucar. 

 

Errei a letra. 

 

Olha, eu não quis te ofender com as minhas…

 

Eu já esqueci da letra. Eu vou... Depois eu vou me lembrar dela aqui, depois eu vou cantar pra você. Tem várias, eu... Cantando assim, sem um acompanhamento, principalmente, aí que eu me esqueço mesmo. Tem que ter um acompanhamento, com aquelas introduções, que é pra eu chegar e entrar direitinho. Mas eu vou escolher uma que já tô bem acostumado. 

Essa aconteceu, essa que eu cantei.

 

Mulher, eu não quis te ofender com as minhas palavras, de modo algum

Eu só quis que você compreendesse que esse meu jeito de falar é tão comum

Olha, eu não quero te magoar... 

Olha, eu não quero te ofender... 



É uma letra, uma passagenzinha assim. Começou [com] o seguinte: eu convidei ela pra almoçar comigo. Ela disse que não ia aceitar não, porque não gostava de sair para almoçar com... Sair para almoçar com ninguém, não gostava. Aí eu pensando, eu digo: "Mas rapaz, ela me rejeitou", o convite. Pensei que ela não ia rejeitar esse convite. Eu fiquei triste, eu não esperava. Aí eu fui, pensando, veio a inspiração em mim e escrevi essa música. Escrevi pra ela. É muito bonita. Eu tô esquecido da passagenzinha da letra aqui, mas eu vou me lembrar ainda direitinho.

 

P/1 - Isso aconteceu aqui?

 

R - Aconteceu aqui na Pindoba. Eu fiz ela aqui mesmo, tá com um ano e pouco, já tá gravado num dos CDS que tem aí, toca. E assim foram muitas. Muitas com acontecimento, que aconteceu com fulano e eu faço a música. Outras não, vêm como eu digo, vem de repente aquela inspiração, porque eu compositor é assim: você tá aqui, conversando, de repente chega aquilo. É um dom, chega aquilo. Mas ali, de repente, você tem que gravar. Eu tenho muitas gravadas aqui, lá lá lá, que é para não esquecer da melodia, que é pra justamente colocar letra. E é assim que eu faço.

P/1 - Qual é a que o senhor disse que estava muito segura, que o senhor já cantou bastante? O senhor falou isso.

 

R - É, sim. Eu faço a música, tá pensando que eu faço e já... Não, eu faço ela, monto ela todinha, termino. Depois eu vou corrigir, [ver] se tá tudo certinho. Aí eu vou aprender ela, como se fosse de outra pessoa. Como esse... Tem um forró que também…

 

Ontem cinco horas da manhã o meu amor me disse adeus

Foi embora me deixando na solidão, isso doeu

Doeu demais meu coração, quase lhe parou

Por causa daquela ingrata que me abandonou

Ela me disse que voltava, mas até hoje não voltou.

 

[É]  um baião, aí repete. 

Tem outros também. 

 

Falei com ela e ela não olhou para mim

O jeito dela de quem não vai dar um sim

Eu gosto muito dessa linda moreninha

Pois um dia vai ser minha, porque amo essa mulher

Meu coração bate forte todo dia

De viver nessa agonia, e não consigo o que quero

Tempo passa, eu fico desesperado

Nem que o mundo então se acabe, mas com ela eu me caso.

 

Essa é a história. É uma história que eu criei, eu mesmo, só mesmo pra fazer, mas que não aconteceu com ninguém. E assim por diante. As minhas músicas são assim.

 

P/1 - E qual foi o lugar que o senhor achou mais inusitado de estar com papel e uma caneta na mão e escrever? 

 

R - O lugar, né?

 

P/1 - É, uma situação. 

 

R - Foi lá na área da... Foi lá no Itaqui-Bacanga, porque lá era beira-mar. Sempre olhava... [Por] falar em beira-mar, eu fiz música referente ao dia que eu tava na praia, na Ponta da Areia. Eu olhei aquele vento, aquela onda do mar, fiquei olhando. Aí entrei para dentro do carro, peguei o caderno e comecei a pensar. Fui começando. 

"Se eu fosse o vento eu te soprava..." Comecei assim a primeira linha, porque eu vi o vento forte na praia, fazendo aquela onda. Disse: "Oh, rapaz, é muito bonito, é muito gostoso." Aí eu comecei, cabeceei. 

 

Se eu fosse o vento, eu te soprava

Se eu fosse o fogo, eu te queimava

Se eu fosse a água, eu te molhava

Se eu fosse o sol, eu te secava

Como eu não sou nada disso, não tenha medo, venha pra cá 

Não tenha medo

Como eu não sou nada disso, não tenha medo, venha pra cá 

Venha matar..." 



Eu já esqueci também. 

Eu não posso muito sorrir, porque eu tô fazendo um tratamento da dentadura. No sorriso eu não posso abrir assim, porque ainda tô começando. 

Pois bem, e assim por diante. É porque faz tempo que eu canto, as músicas que eu canto, as vezes esquece. 

 

P/1 - Mas o Itaqui foi o lugar...

 

R - Foi o lugar mais adequado para mim, porque lá eu sempre trabalhava à noite. [De] madrugada, às vezes, parava para dar um tempo; eu ficava ali meditando, ali dentro da máquina, que já... Às vezes, quando eu não trabalhava na caçamba era numa máquina, era numa pá mecânica - ar condicionado, tudo fechadinho ali, no frio beleza, tomando um cafezinho ali e escrevendo. De vez em quando vinha um e eu escrevia ali; no outro dia só era juntar aquilo e preparar a música. E assim por diante, assim ia acontecendo.

 

P/1 - Teve alguma que o senhor fez que marcou sobre o período em que estava aqui na vila, ou lá no polo?

 

R - Teve. Ixe, agora para me lembrar delas… São duas. Mas para me lembrar dessas, só se eu rodasse um pouquinho ali para me lembrar. Mas teve umas que eu fiz aqui no Canaã e fiz umas cinco lá no polo. 

 

P/1 - O senhor fez alguma sobre a sua vida aqui?

 

R - Ainda não. Todo mundo me pede aqui. "Poxa, tu faz as músicas e não fez uma ainda de acontecimentos, do que aconteceu com a gente?" Eu digo "Rapaz, pra gente montar isso aí, uma música dessa, precisa muita paciência, né? Precisa ter tempo." Nós temos o tempo todo, é só querer, digo, é só querer mesmo. Mas eu não tô lembrando... Mas eu fiz umas duas, quase parecendo essa mudança... Nossa, quase.

 

P/1 - E sobre a vida no campo, sobre roçar?

 

R - Ainda não.

 

P/1 - Mais casos amorosos, que o senhor gosta?

 

R – É, casos amorosos tem também, eu tenho música que tem casos assim. É como eu digo: só se estivesse no repertório, para eu me lembrar assim.

 

P/1 - Quer que eu faça uma pausa, então? O senhor pode, se quiser. Eu gostaria muito de registrar porque não é todo dia que a gente consegue registrar, então vou aproveitar enquanto eu estiver aqui.

 

(PAUSA)

 

R - Ok, esse... Eu estava falando sobre as músicas, né? 

Eu gosto muito de compor músicas e gosto mesmo de contar [a] história da música,  o que aconteceu ou por através de inspiração. Eu sei que vem esse dom da gente, que Deus deu para gente; eu acho muito bonito esse lado, a pessoa ter esse talento.

Eu cantava, fazia seresta, cantando músicas alheias, de outros artistas. Quando eu comecei a compor, aí eu sim eu montei meu repertório. E vieram muitas... Muitas,  eu digo, várias luzes que eu faço, às vezes aconteceu comigo há tempos atrás, mas é como se fosse hoje e eu faço. Aconteceu, faço, aconteceu com... Entre mim e mulheres, faço também, monto. E assim por diante.

Eu fiz uma, não tá muito recente, mas bem faz um ano e meio, mais ou menos. Eu fiz isso porque aconteceu comigo. E outras também, [com coisas] que aconteceram quando eu tinha quinze anos de idade. Quando comecei a compor me lembrei dessa história, aí também fiz a música. Botei o título de Meus quinze anos. 

Eu me lembro quando eu tinha quinze anos, me apaixonei sem declarar.

Eu me lembro [que] quando eu tinha quinze anos me apaixonei, mas não tinha coragem de me declarar para ela, me faltou aquela coragem. Aconteceu mesmo, com quinze anos de idade me apaixonei por uma pessoa, uma moça, mas quando que chegava nela e dizia assim: "Eu tô apaixonado por você"? Não tinha essa coragem. Mas através de uma amiga, uma colega da gente - a gente [quando] adolescente sempre tem aquelas, para dar um empurrãozinho e tal. 

Eu estava numa missa, mas você sabe como é, o adolescente não vai assistir, não tem nada... Eu tava [ali] só pra olhar ela. Chegou uma colega dela, e essa colega dela sempre colega minha também. 

Ela disse: "José, você tá com problema." Eu disse: “Mas quem foi que te falou?"  "Mas quem que não conhece? Vai, desembucha pra mim. Nós não somos colegas, não somos amigos? Vai, eu sei por que, eu quase tô sabendo por que." Eu disse: "Pois diga." "Você tá apaixonado, não tá?" "Eu tô.” “E é por..." O nome dela era Lindé. "E é por Lindé que você tá apaixonado." Falei: "Quem foi que te falou?" "Eu sei." Eu disse: "É mesmo."

Contei a história pra ela. Ela disse "Ah, mas isso é fácil demais." Chegou lá, contou a história para ela; ela não sabia, não sabia de nada. "José está apaixonado por você. E era melhor se você interessar nele, conversa com ele, que ele tá muito triste acolá." 

Saíram as duas pro meu rumo, e eu fiquei gelado. Quando eu olhei, que vinham elas duas para o meu rumo, eu fiquei gelado. Falei: "Pronto, e agora? Eu vou tremer a fala", como de fato né? Ela chegou, disse: “Você tá passando... Você está bem?" Eu digo: "Tô, mas parece que não.” “Você está chorando, não tá?" Eu disse: "Não", mas era na brincadeira, porque eu não tava chorando. Aí eu me desembuchei, criei aquele pouco de coragem, enfrentei ela. 

Conversando com ela, a outra deu um tempo, saiu. Ficamos só eu e ela, conversei, deu tudo certo. 

Começamos a namorar muito adolescentes, não sabia de coisa de conversa, não tinha conversa nenhuma. Eu sei que a gente ainda passou um bom tempo se gostando. 

Pois bem, quando comecei a compor música me lembrei dessa história dos meus quinze anos e fiz. Eu vou dar só uma palinha. 

 

Eu me lembro quando eu tinha quinze anos, me apaixonei sem declarar

A menina que eu gostava até chegou…

 

Não. 

 

A menina que eu amava até chegou me reto…

 

Todo tempo eu tô me esquecendo da letra. Ah, eu já esqueci da letra. Bom, depois eu canto ela. Mas foi um fato muito bonito, muito gostoso. Depois eu canto, porque faz muito tempo que eu... 

Agora vou contar outra, que eu fiz, que aconteceu comigo. Essa foi assim: eu olhei para essa pessoa e fiquei muito... Muito chegado, eu fiquei: "Opa, se eu pudesse ter essa menina do meu lado, eu teria." Sei lá, pensando nisso eu fiz e montei a música, fiz a letra da música. 

 

Rose, fica aqui perto de mim

Gosto muito de você, desde a primeira vez que vi

Rose, eu estou apaixonado

Quero estar sempre ao seu lado, para nunca te esquecer. 

Para nunca te esquecer, me dê um dos seus retratos

Guardarei como lembrança, juro que não vou perder

Vou guardar dentro do peito, acho que tenho direito

Eu preciso de você 

Eu preciso de você, eu preciso de você

 

Certo. Aí fui dizendo que eu... Poxa, desde a primeira vez que eu te vi… Eu tava conquistando ela, na música. Preciso de você comigo, eu tô apaixonado, preciso de você. Aí montei a música, só de ver a pessoa. 

 

P/1 - Isso não aconteceu, você não teve nada com ela?

 

R - Não, aconteceu porque eu vi a pessoa. E sei como é o nome. Aí fui e fiz, mas nunca aconteceu. Como se tivesse chamando para acontecer. Você entendeu agora, né? E assim por diante. 

Todas as músicas que eu faço têm um sentido, por isso que eu lhe falo, tem um sentido dela, não é à toa. Quando é não tem um sentido, como eu digo, é porque é inspiração, mas quando tem um sentido é porque aconteceu. 

 

P/1 - Agora eu poderia lhe perguntar sobre a Vila Madureira, pode ser?

 

R - Pode. 

 

P/1 - Por conta do tempo, né? O senhor foi morar em Vila Madureira quando e por que foi pra lá?

 

R - Quando? Foi em 96, 1996 que eu fui morar. Eu não morei lá, eu morava no Anjo da Guarda, mas eu comprei, como eu falei, um pedacinho de terra lá, dois hectares. Comecei a plantar aqueles pés de frutas, já tinha um bocado plantado. 

Eu botei um caseiro lá para tomar conta e nos finais de semana eu ia para lá fazer alguma coisa, ajeitar e tal. Mas quando eu tinha um tempo, porque eu era empregado. Quando eu tinha um tempo, eu ia lá dar uma olhada, se o caseiro já tinha feito alguma coisa que eu mandei, se tinha feito do jeito que eu mandei, e deixar também alguma coisa para ele comer, pra ele poder trabalhar. 

[Isso aconteceu] durante oito anos, só que lá foram doze anos que eu passei, [de] doze a treze anos, parece que foi uma coisa assim, que eu estive lá. Surgiu essa, a MPX, que veio [com] a negociação com todos que estavam lá; não era só eu, eram noventa e poucas famílias que vieram para cá. Começaram a indenizar, fizeram essa vila aqui, esse conjunto aqui, e veio todo mundo para cá.

 

P/1 - O senhor veio visitar antes de mudar para cá?

 

R - Vinha eu e Zacarias, que era o presidente da.... Nós fizemos, montamos... Quer dizer, criamos uma associação lá, Associação dos Moradores de Madureira e Camboa. Quem foi o presidente foi Zacarias, eu o vice, [durante] oito anos. Viemos para cá, ele sendo presidente e eu vice. 

Bom, aí terminou o mandato de oito anos dele. Vamos montar outra lá no polo agrícola, porque foi também a área lá - cinquenta e poucos hectares, 56, parece, que era justamente para colocar os agricultores lá. E nós fomos pra lá, lá nós montamos também outra associação. Quem foi o primeiro presidente lá fui eu. E o menino vice, aqui, um evangélico que tem aqui, o irmão Evaldo. Passei cinco anos como presidente lá, dos agricultores e agricultoras do Polo Agrícola Horta Canaã. 

Foi assim, a saída de lá para cá. Fomos para o polo, vinha para cá… Todo dia ia para lá e para cá, mas aí a gente começou a fazer uma casinha, porque ao invés de... Porque lá tá debaixo dos pés de árvore, essas coisas assim. A gente montou, fez umas casinhas de madeira, outros fizeram umas casinhas de tijolo. Eu, no meu caso, fiz de madeira, coberto de telha de tabira. 

Comecei a plantar fruta, essas coisas assim: manga, caju, tamarindo, abacateiro, limão, laranja. Hoje já é _______, todos eles estão produzindo. E aí ficamos, já está com dez anos, onze anos, só no polo. Muita gente já veio embora, largou de mão. Hoje lá só tem vinte agricultores; os outros venderam a parte para eles mesmo lá dentro. Aqueles pedaços, aquelas areazinhas pequenas - 360 metros, outros de um hectare, meio hectare, essas coisas assim - todo mundo foi vendendo um para o outro; quem tinha menos comprou de outra parte e ficou maior. Foram tirando para fora e eu ficando todo o tempo lá; eu, Zacarias e mais outras pessoas. 

Já teve muitos que morreram que vieram de lá, chegaram aqui e já morreram; teve uns quatro ou cinco que já morreram, no período desses dez anos. E graças a Deus a gente ainda tá vivo aqui, contando a história. Ainda hoje a gente tá lutando lá; a gente planta, colhe, mas ninguém vive só daquilo. Tem muitos também que já são aposentados - Zacarias já é aposentado, eu sou aposentado, o Paraíba já é aposentado. Estão lá porque gostam de lá, porque lá tem sossego, no polo agrícola tem sossego. Ali ninguém ouve nem diz, a não ser os de dentro. [Em] primeiro lugar, ali não existe dizer assim: "Eu vou deixar aqui, tem que deixar isso aqui trancado por causa dos ladrões." Não, isso não existe lá. Vamos dizer que acontece, porque lá não é o Jardim do Éden para não entrar o pecado, mas é difícil. Lá é calmo, eu gosto muito de lá, gosto muito mesmo. 

É como eu digo, agradeço a Deus isso ter acontecido. Foi Deus que botou esse pessoal para tirar nós de lá, eu acredito, porque a poluição ali é muito... Em primeiro lugar, a poluição para lá. Eu não tô dizendo poluição da MPX nem da Eneva, hoje Eneva; não tô dizendo dela não, eu tô dizendo de outras coisas. A própria poluição do pó de minério, na Vale. Tem muito no verão, aquilo atinge tudo, manguezal lá tá tudo morrendo já, de tanto pó de minério. Lavoura, o cabra planta, morre por causa do minério. Não pode guardar um... Estender uma roupa branca no varal do lado de fora, porque de tarde já tá vermelho. Por isso que eu digo, para mim foi uma benção ter saído daquilo. Pode até ter acontecido, ter vendido, mas eu achava difícil, porque lugar poluído, quem ia comprar, para quê? Por isso que eu digo, graças a Deus que eu saí de lá, me tiraram de lá, hoje eu tô aqui.

 

P/1 - E vocês escolheram a região aqui porque?

 

R - A região que a gente escolheu, foi eu e Zacarias, nós escolhemos... Isso combinando com eles, o pessoal da empresa. "Acolá tem uma propriedade para vender para vocês. Vamos colocar vocês lá, mas primeiro vocês vão olhar, [pra ver] se agrada vocês ou não." 

Nós fomos em três lugares, eu, Zacarias e eles. Quando a gente verificava, eu e mais Zacarias: "É, aqui tá dando muito certo", ou “não dá”. A gente chamava os outros para olhar. "O que vocês dizem?" E aí por diante. Teve um aqui em Itaguaçuaba, outro na mata, que a gente olhou e ninguém gostou. Aí viemos para cá, aqui a gente gostou porque o terreno é plano, calmo, não tem aglomeração de nada. Mora um aqui, passa vinte, cinquenta metros para morar outro, não tem aquela... A gente gostou muito daqui, e aqui ficou. 

Aí disseram: "Pois então a gente vai comprar, tá pra vender mesmo." Compraram a área, até grande, 56 hectares. Fizeram aqui o conjunto, compraram lá [o terreno do polo] e pronto, a gente ficou trabalhando. Até hoje trabalhamos lá. 

 

P/1 - Vocês decidiram fazer o que no polo, plantar o quê?

 

R - Hortaliças. De tudo, hortaliças em primeiro lugar. Aí começamos a plantar essas outras coisas: banana, mamão, maracujá, manga, caju, goiaba. E cada um fez um tanquinho para criar peixe, para comer o seu peixinho. 

Ainda tem muitos que trabalham com hortaliças ainda, eu parei.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Parei porque eu comecei a plantar bananeira, depois mudei para maracujá, de maracujá para mamão - ainda hoje eu tenho a plantação de mamão. E tem um tanque também, criando peixe para consumo. Criava muita galinha também, mas aí tem muito bicho do mato que come. Comiam muito, aí eu parei também de criar. Só numa noite me deu um prejuízo de quinze, o gato do mato. Matava só mesmo para achar bonito, porque comer ele não comia. Matava e deixava, só ia matando, parece que veio mandado, só numa noite. Eu tinha duzentas e poucas galinhas. Disse: "Rapaz, não dá certo. Eu vou vender." Vendi e parei de criar.

 

P/1 - E como surgiu essa opção por fazer a plantação sem agrotóxico, sem veneno, essas coisas?

R – É porque veio primeiro um conselho, um treinamento, esse acompanhamento que a gente teve. Sempre teve umas pessoas que diziam: "Olha, não usem agrotóxico porque isso faz mal para vocês, vai fazer mal para outros que compram. Aí o que é que vai acontecer? Não adoece de hoje, de 24 horas, mas isso vem, pode adoecer outra hora. Vai passar mais um, dois anos, mas vai adoecendo, aí o médico vai dar um diagnóstico que gerou naquele veneno, então era melhor vocês não colocarem agrotóxico.” Teve uns que começaram a colocar o agrotóxico, mas pararam. 

Hoje ninguém usa agrotóxico. Se usa, eu não sei. Eu nunca usei. Se quiser prestar sem o agrotóxico, que preste, mas de botar, não bota, porque daquela fruta eu vou comer. Se eu botar o agrotóxico só porque um besouro chupou, uma mosca veio, eu vou meter o veneno? Amanhã eu vou comer aquela fruta e vai me fazer mal. Não me serviu de nada, vai me fazer mal, então não uso. 

Plantei trezentos pés de mamão. Hoje não tão botando os trezentos, uns cento e pouco tão botando mamão, mas nunca botei um veneno lá para dizer assim: "Eu botei esse aqui para matar essa mosca." Todo mamão que eu tô colhendo é limpo, sadio, porque eu fiz uma irrigação com umas espessuras altas, para quando ele bater a água já ir lavando o mamão. O que tiver ali de ovo de mosca, essas coisas, a água limpa tudo. Nunca criou nada de ovo de inseto, porque a água tá lavando a todo tempo. Isso foi ideia minha, o mamão começou a aflorar, começou a botar. A irrigação dava embaixo do mamão, subi mais um pouco, até que deu em cima. A irrigação bate em cima do mamão, lavando o mamão. Trinta, quarenta minutos, lavando todo tempo o mamão. Nunca criou um inseto. Ideia minha. 

 

P/1 - E os mamões do senhor são mais gostosos?

 

R - Bem docinho, bem gostoso, viu? 

 

P/1 - Você sente a diferença?

 

R - A diferença é grande. O que eu fiz de errado, que não era para fazer, até me arrependi, foi porque eu usei o estrume da galinha. Eu mandei botar e o menino botou muito próximo ao tronco. Tem uns já morrendo, dá na broca e cai, mas aquilo é a bactéria dele, eu sei que é, a bactéria do próprio estrume. Eu me arrependi quando fiz isso.

 

P/1 - Como vocês tomam as decisões lá no polo, como é a organização?

 

R - É através de associação. Quem faz a organização é a associação. A associação tem o presidente, que é o comandante, ele tá ali para alinhar as coisas. Quando nós queremos fazer uma mudança de alguma coisa, nos reunimos e ali vamos falar, combinar - quem concordou, quem deixou de concordar. Uma opinião, aproveita uma opinião de um, de outro. Se essa opinião tá certa, a gente leva em conta. Se não tiver, vamos estudar outra coisa.

 

P/1 - Cada um tem um voto, por cabeça?

 

R - Cada um tem, a maioria que vai valer. Se a gente combinar: "Nós temos que fazer assim, assim, assim", dois não querem, mas oito querem, então valeu o oito, entendeu? E assim por diante. "Rapaz, vamos fazer isso assim e assim, será que vai dar certo?" "Não sei, vai dar certo, fulano?" "Rapaz, acho que não vai dar não." "Vai dar certo, fulano?" "Rapaz, acho que isso daí não vai dar não." "Vai dar certo, fulano?" "Dá, assim dá." "Assim dá.” Oito, três... Não, então valeu esses oito. Vamos fazer, aí vamos ver se vai dar certo ou não, né? E assim vai.

 

P/1 - E vocês vendem pra onde, geralmente?

 

R - Como?

 

P/1 - Pra onde vocês vendem, geralmente?

 

R - Vende?

 

P/1 - É.

 

R - Feiras. Eu trabalhei, até antes de chegar a pandemia, na feira, com verdura, eu comprava a eles mesmo. Eu plantava, também cheiro verde, eu plantava mamão, plantei o mamão, maracujá. Essa parte aí era eu mesmo [que] levava, mas o resto das coisas… Eu vendia de tudo, até acerola também. Eu não botava agrotóxico. 

Eu levava pra feira [a] minha produção, mas muitas e muitas coisas eu comprava deles. Quando a minha produção era pouca, eu comprava deles mesmo para levar para feira; hoje eles plantam e levam para feira, são... Acho que são três feiras por semana que eles vão: o Zacarias, Gelsina, e mais uns três lá ou quatro. 

Eu parei de ir para a feira por causa da pandemia, pra não... Porque você sabe que ali tem aquela aglomeração de gente, e eu disse: “Rapaz, eu vou me aquietar aqui, passar a quarentena por aqui mesmo.” Passei aqui mesmo. Pronto, não fui mais.

 

P/1 - Mas que feiras que dá pra ir aqui?

 

R - Eu ia na feira do Anjo da Guarda, mas aqui eles vão na feira do Maiobão, vão na feira daqui do... Perto aqui do Vassoural, parece que é um nomezinho aqui, perto de Paço do Lumiar. São duas feiras no Maiobão e uma aqui, são três feiras que eles vão. Eu sei que eles estão vendendo o que é deles. E outros levam para restaurante, levam de encomenda porque é orgânico, não tem... A produção aqui é orgânica, não tem agrotóxico, e eles gostam muito. "Ah, eu vou comprar desse aqui, porque esse aqui não contém veneno. Vou comprar aqui nem que seja mais caro”, e compra porque sabe que ninguém usa o veneno. 

Tem um projeto... Um projeto não, uma organização de um pessoal que veio, daqui da prefeitura, para se inscrever. Aquela pessoa que não usa agrotóxico, para se inscrever para vender para fulano, ciclano, beltrano, porque não tem agrotóxico. E se botar, eu já... Se botaram agrotóxico, foi examinado; [se] tinha agrotóxico, eles cortam. Aquele programa eles cortam. 

Por exemplo, PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar]. A gente trouxe esse projeto, esse programa. Todos os anos a gente bota, vende as coisas pro PNAE. Seis, sete meses, cinco meses. A gente vende mais caro, são trinta, quarenta dias para receber o dinheiro, mas a gente vende mais caro, que é  justamente para o fornecimento das escolas - frutas e verduras, essas coisas assim, folhagem. Vendemos para... Agora mesmo, esse mês, a gente ainda tá vendendo, vai terminar em dezembro. Já é um avanço, a gente já tem uma certeza pra quem fornecer. 

 

P/1 - E você acha que é bom pra saúde de vocês e de quem come?

 

R - Com certeza. [Em] primeiro lugar, a água. Ali a água tem 80% [de] mineral, não tem bactéria nenhuma. A água nossa ali não tem bactéria, já foi examinado não sei quantas vezes. 80% mineral, o que é que falta de 100% mineral ali? É só passar no filtro. 80% sai do poço, vai para o filtro, filtrar aquela água, aí dá 100%. Eu só bebo água 100% mineral, porque eu tenho um filtro. Pego daqui do poço, boto dentro do filtro. Eu só bebo água filtrada, então é 100%. Você bota no copo, você vê, chega cristal. Água boa, ali.

Nós temos essas vendas assim, em feiras e PNAE. PAA [Plano de Aquisição de Alimentos] é mais difícil, não é todo o tempo. O PNAE é todas as horas, o PAA esse ano já falhou.

 

P/1 - E fazer sem agrotóxico, você acha que é mais seguro para vocês também?

 

R - Fazer sem o agrotóxico é mais seguro. É aquela coisa, quem trabalha com veneno, ainda vive o veneno. E quem come aquele produto, misturado, pulverizado com agrotóxico, diz: "Não, mas passou três dias ali, molhado. Ele sai." Sai não. Fica pelo menos um ou dois por cento, com certeza fica. Lá no interior, uma vez foi diagnosticado um caso que uma pessoa teve câncer. O diagnóstico dele foi o veneno, de tanto ele botar veneno nas frutas e usar. E ele foi... O médico disse pra ele: "Você tá com câncer, e o que gerou esse câncer foi o agrotóxico." Ele botava muito agrotóxico nas coisas lá, usava muito, comia, e foi gerando, com cinco, seis anos mais ou menos, um câncer nele. Motivo: o agrotóxico. Por isso eu não uso. E se eu souber que eu tô comendo alface, uma couve, qualquer folhagem de uma horta que eles botam, eu também não compro. Deixo de comer, eu não compro. Planto, com trinta dias tá ai. Planto e como, porque ali eu tô molhando, tô vendo se tem alguma bactéria de mosca, alguma coisa. Eu vou catando, vou limpando, vou molhando, mas não boto.

 

P/1 - E como você vê o futuro do polo e da Vila Canaã? Como é que você vê, o que que você espera?

 

R - Eu espero que seja... Eu espero uma coisa boa, mas o polo agrícola era para ser mais bem cultivado, era para ser muito bem controlado ali. Eu acredito porque… Acho que é por causa que teve muita gente que veio para cá que não era da agricultura, não sabia nem o que era hortaliça, muito menos trabalhar na agricultura. Quando começou a trabalhar na agricultura, achou estranho, aquilo ali não dava para eles. E também condições financeiras, porque ali nunca entrou uma pessoa [para] fazer empréstimo para fazer grandes coisas ali, não. Mesmo aqueles que fazem empréstimo, é besteira - dois mil, três mil reais, é só pra gente começar a cavar as covas para plantar. Eu acredito que se ali entrasse um projeto para gerar... Em segundo [lugar], não tem trabalhador, porque mesmo que a gente queira arranjar uma pessoa para trabalhar para a gente, não querem. Não arranja. A gente sozinho para enfrentar uma coisa dessa, não pode, não tem como, por isso que não tem como crescer - por duas coisas, entrar dinheiro para a gente trabalhar [e] trabalhador, que ninguém encontra. Porque quando bota um, eles querem: "Eu quero entrar trabalhando, mas recebendo por mês, como se eu fosse empregado", e assim nós não podemos fazer. Quando um trabalha três meses, já quer fazer tudo para sair, para receber indenização. Por isso que não vai para frente. Nunca foi para frente por causa disso. 

Quando eu era presidente da associação, eu sempre dizia isso e ainda hoje eu digo: “Gente, se aqui nós não tivermos dinheiro para tanger isso para frente, nunca vai para frente.” “Vamos botar mutirão..”. Mutirão não, vamos botar... Como é que se diz? Grupo. Vamos fazer grupo. Dez, quinze pessoas trabalham para mim, amanhã trabalham para outro, trabalham para outro. E disse: "Não dá certo." "Por que não dá?" "Porque não dá. Porque são quinze ou vinte; começou aqui, daqui a vinte dias vai voltar para mim. E quando voltar, não vêm todos.” Às vezes faltam quatro, cinco, seis, e aí não tem condições. 

O que vai para frente aqui é se cada um tivesse dinheiro e tivesse duas, três pessoas para trabalhar ali todos os dias, a diária. Terminou o dia, tá aqui sua diária. Para quando der um ano, não contar nada. Porque se der um ano, seis meses, e contar aquela a produção que ele fez, só dá para pagar ele mesmo, a indenização, então é por dia, vamos na diária. Quando chegar no final do ano, dizer assim: "Eu quero a minha indenização" - não, isso aqui não existe. E aí eles não querem, não aceitam. Só aceitam se for como emprego, que é para justamente quando der três, quatro meses, cinco meses, pedir conta para ter a indenização, e se a pessoa não der, eles dão parte, como já aconteceu. Trabalhou seis meses, [eu] disse: "Olha, não vou querer mais você porque não tá dando mais certo." "Pois eu quero a indenização. "Não, mas você já recebia todo final de semana." "Mas com tudo isso." "Não, mas eu não pago não", "Paga não?" Acho que com dez dias veio o chamado, teve que indenizar. Aí de que adianta? Não adianta. É pagar a diária, recebeu, final do dia tá aqui o seu. Se eu precisar de você amanhã, eu lhe chamo. Como eu tô precisando, vem amanhã. Terminou o dia, tá aqui seu dinheiro, da sua diária. Terminou, você trabalhou um ano? Já era. Recebeu todo dia, tem nada desse negócio de indenização. 

Ninguém nunca teve dinheiro ali para enfrentar nada. Se eu tivesse um dinheiro ali, desde o início, e o controle da água, que ali sempre... Agora tá controlada, mas antes não era controlada. Porque trinta minutos molhando para gente, aquilo molhava dois dedinhos assim no chão e não molhava nada; se eu plantasse um pé de maracujá, aquilo não ia molhar a raiz. Se plantasse um pé de mamão, não ia molhar a raiz lá embaixo. Um pé de laranja também não. Bananeira, pior. O que foi que eu fiz, na minha gestão? Todo mundo vai fazer seu tanque; aquele que tiver condições de cimentar, cimenta, se não tiver, bota uma lona. Compra sua bomba, manda instalar, a Cemar bota o contador. Você vai usar aquela água daquele tanto. A bomba vai encher a noite, tem um período, os minutos que vai encher seu tanque. Sua bomba vai molhar o que é seu, você gasta o tanto que você quiser, porque quem vai pagar é você. 

Uns fizeram, outros não. Se todo mundo tivesse feito e todo mundo estivesse usando como eu fiz esse planejamento, hoje era diferente. Hoje tem muitos que têm, mas tem uns que não têm, mas aí não tem a condição financeira para chegar... "Eu quero plantar mil pés de mamão, mil pés de laranja, mil pés de limão, mil pés de bananeira, mil pés disso." Não tem, quem tem condições lá de fazer isso? Não tem, por isso que não vai pra frente. Quem tem condições de mandar cavar dois, três tanques, 10x25 para criar peixe? Ninguém tem. Pra enlonar, porque cada um tanque desse enlonado vai pra dez mil reais? Quem tem? Então se tivesse um projeto, um dinheiro, um banco que fornecesse o dinheiro… "Tá aqui, cem mil para cada um de vocês trabalhar aqui, vocês vão começar a pagar daqui a um ano", aí sim, quem tinha cabeça no lugar ia fazer e ia ‘enricar’, porque ia criar peixe, muito peixe, fazer seus tanques, comprar suas bombas para fazer. E criar galinha, vender bastante ovo, porque teria como fazer, mas ninguém tem.

 

P/1 - E essa ideia do cacau? 

 

R - Eu tô achando que essa ideia do cacau... Em primeiro lugar, nenhum agricultor vai ver dinheiro, só vai ver as plantas. Como é que vai cuidar desse cacau sem o dinheiro? Comercializar… Não é todo mundo, não é todo comércio que quer o cacau; tem que ter uma empresa, um começo, para comercializar. 

Eu não sei. Pode [ser] que dê certo, mas eu não tenho muita certeza não. Eu não vou correr com medo de um bicho sem eu ver ele, eu tenho que ver para saber se ele é mais forte que eu, ai que eu vou correr. Por isso que eu digo, eu não sei se vai dar certo ou não porque não sei como é que é. Eu só tô dando uma opinião. 

 

P/1 - Seu Domingos, como é que foi contar um pouco dessa história hoje pra gente?

R - Da minha?

 

P/1 - É.

 

R - É aquela coisa, a infância… A minha história. 

Eu gosto muito de ser alegre, gosto muito do que eu faço porque eu não faço nada errado - quer dizer, fazer, faz. Não são coisas erradas que dê para assustar ninguém, mas eu gosto muito do que faço. Gosto de cantar, eu gosto de compor músicas, eu gosto de brincar com as pessoas. Gosto de trabalhar, gosto de ter as... Eu gosto muito de comer bem, me alimentar bem, acho bom. A minha vida é assim: eu gosto de ser alegre, brincalhão. Essa é a minha história. 

 

P/1 - Obrigado, viu, seu Zé Domingos. Obrigado pelo tempo.


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