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História

Gostar de pessoas e trabalhar por elas

História de: Claudia Vidigal
Autor: Virginia Toledo
Publicado em: 17/04/2019

Sinopse

Claudia sempre gostou de gente. De estar rodeada delas, de todas. Claudia talvez não saiba, mas quem a vê de fora sabe que a maior missão dela é mudar o mundo.

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História completa

A casa onde eu cresci é um lugar é muito importante para mim e para as lembranças da minha infância, e tinha a rua, sempre foi uma rua sem saída, uma rua que moravam muitas crianças, que a gente brincava muito, então eu tenho a lembrança desse espaço, da minha casa, da minha rua, com meu pai e a minha mãe, e também das viagens, dos finais de semana e férias que nós sempre passamos no sul de Minas, que é uma referência de onde é a família da minha mãe, as maiores memórias da minha infância são da Fazenda da Onça, em Guaranésia. Então a minha memória de infância é muito feliz, de uma infância gostosa, de ter tempo; me lembro de uma apreensão, uma angústia, de um pai presente, uma mãe presente, uma avó muito presente. Minha avó teve 7 filhos, e a gente participava muito ativamente da vida dessa matriarca e do patriarca. Eu tenho referências muito boas e costumo dizer que eu só fui descobrir o que é passar por dificuldade depois da vida adulta, lá pelos 22, na faculdade.

 

Lá na fazenda em Minas Gerais eu tinha as minhas super amigas, éramos uma turma de quatro, era eu, a Tata, a Nilva e a Claudineia. e acho que ali começa a minha clareza de outras realidades. Eu até me emociono um pouquinho, porque a vida delas era dura, e para gente começar a brincar precisava fazer um monte de coisa antes de elas serem liberadas. Então eu acordava e a primeira coisa que eu fazia era ir para a casa da Tata e da Claudineia, que eram irmãs, e elas trabalhavam mais do que a Nilva, tudo isso com 10 anos, mas tinham várias coisas que elas tinham que fazer, colocar as roupas no varal, tinha que levar comida para os porcos, que era longe, e era uma comida chata de levar, e só depois que elas fizessem tudo aquilo elas podiam ir brincar. Eu lembro de acordar muito cedo e ter uma prontidão para ajudar, e resolver isso logo para ir brincar, e era todo um outro universo de valores se apresentando para mim, e me provocando muito desde muito pequena. Eu tinha o maior orgulho delas, eu achava muito legal, obviamente eu não tinha nenhuma dimensão de julgamento de trabalho infantil, muito pelo contrário, eu tinha uma profunda admiração pelas meninas, e um pouco vergonha do meu lugar, de que não precisava fazer nada daquilo, então eu me vi rapidamente como alguém que precisava fazer junto com elas, e essa vergonha do meu lugar foi crescendo. Tanto meu pai, quanto a minha mãe não participavam muito desse meu sentimento de vergonha, de que essa mundo não é justo, eu não acho que é uma coisa que veio deles, ou que eles julgavam isso, eu acho que era uma coisa muito minha, talvez tivesse um encontro importante com a minha avó, que tinha um lugar importante na fazenda, e era uma pessoa naquele modelo muito antigo de tentar ajudar, tinha aquele lugar da poderosa que ajudava os outros, chegavam aquelas pessoas muito vulneráveis, mas isso me causava um profundo incômodo, eu via com respeito e admiração, mas a vergonha também crescia desse lugar, daquela pessoa poderosa, que tinha o poder porque Deus havia dado quando você nasceu, e não por mérito ou por construção, mas o lugar que você nasceu te faz mais capaz de resolver muitos problemas, muito sérios, de muitas pessoas, e com um estalar ela era capaz de curar uma pessoa que não tinha como ir no médico, não tinha como comprar um remédio. Então com essa coisa de que com ações muito simples, a gente é capaz de promover grandes mudanças.

 

Então desde pequena, a vulnerabilidade humana nunca passa despercebido para mim, nenhuma cena, e eu acho que tem a ver com essa infância, que a vulnerabilidade se apresentava, e que eu via que para muitos era muito normal, entrava, vinha, pedia, mas para mim vinha com uma carga emotiva muito grande, sempre, e continua. Na adolescência, eu entrei em um serviço voluntário do colégio, que toda sexta feira a tarde eu fazia um trabalho voluntário, e aquele choque de realidade para uma menina de 14, 15, 16 anos, eu estou lá nas festas preocupada com a roupa que eu estou vestindo, se aparece uma espinha ou não no rosto, e ao mesmo tempo vai lá para a favela toda sexta, e vamos ver qual a realidade, sobe a ladeira, e olha para aquilo, e me tocava, desde os 12 anos eu fui fazendo esse trabalho voluntário na sexta feira de tarde, que era um dia importante, era o começo do final de semana, tinham sempre outros programas. Não tenho uma referência daquele momento como eu fazendo algo de bom para alguém, eu tenho muito mais a referência de eu estando em um espaço que me formava como uma pessoa que era quem eu queria ser, então eu acho que foi muito mais um processo de formação pessoal, Aí eu fui aprendendo a olhar e ir conhecendo as vulnerabilidades, mas me aprofundando nas possibilidades, eu enxergava aquelas crianças muito como um poço de dificuldades, e depois quando você vai chegando mais perto, você vai vendo que é um ser humano como você, com dificuldades e com muitas coisas boas, lindas, Já no final do colégio tinham mil coisas que eu queria fazer, eu gostava de direito, eu queria ser promotora, eu queria ser juíza, eu queria fazer psicologia, eu queria fazer pedagogia, mas tinha sempre essa coisa da justiça.

 

Quando eu entrei na psicologia na PUC e na pedagogia da USP, eu comecei a fazer as duas, e fiquei um pouquinho mais de tempo na pedagogia da USP, e entendi que era na psicologia que eu queria estar, e a psicologia da PUC foi o máximo, acho que é uma faculdade que quebra um monte de paradigmas, que nos ajuda a pensar em diversas formas de atuação, acho que é uma formação humanista, Aí na faculdade eu entrei no abrigo, ali eu comecei a trabalhar na Sampaio Viana, que era a grande organização que acolhia, inclusive, meio que por acaso, porque tinha uma unidade da Sampaio Viana ali no Pacaembu, uma unidade da FEBEM no Pacaembu que chamava Sampaio Viana, eu fui lá fazer trabalho voluntário, e na hora que eu entrei naquela casa, de verdade, eu sabia que eu nunca mais ia sair desse universo, mas foi uma coisa que me convocou muito fortemente, é aqui que eu quero trabalhar, tem muita coisa para fazer. Era uma casa com 450 crianças de 0 a 7 anos, e estavam pensando como é que iam fazer casas pequenas, ainda muito sem saber como ia acontecer, e eu entrei em um projeto que tinha, que era um projeto de estimulação de bebês, que era uma possibilidade de uma trabalho individualizado com uma bebê, que foi com quem eu trabalhei por um bom tempo, e que me impactou demais,, era uma infância muito triste, aqueles berços enfileirados, aquelas fotos que a gente vê e parece que é de outro mundo, mas que é de onde eu estive na minha juventude, e pegando bebê, e tinha todo um desejo de construir os prontuários melhor, porque ninguém sabia direito a idade, quando tinham nascido, eu lembro das técnicas procurando projetos para ter mais identidade, nome, que pudesse ter idade, estavam tentando fazer com que cada uma tivesse o seu bercinho, não tinha nem um ursinho individual, as roupas muito coletivas, e eu pensava que aquilo não era bom, eu era uma das poucas coisas que a Natali, a menina que eu acompanhei, tinha, que era só dela, e eu ia acho que 2 ou 3 vezes por semana, para passar 2 horas, e levar ela no sol, pisar na grama, ficar ali fora, dar risada, brincar, aquelas coisa, e ela foi mudando muito, de um bebê triste, com carinha de doente, ela tinha uma cara de criança adoecida mesmo, e com essas visitas, com envolvimento, afeto, eu realmente me envolvi muito, gostava muito dela, e queria estar junto, ali foi muito marcante para mim, essas relações, o quanto que esses encontros humanos, afetivos são transformadores, e quanto afeto tem no mundo para ser vivido conjuntamente, eu acho que aí começa a minha vontade de promover mais encontros, de pensar como fazer mais isso.

 

Tinha um núcleo na PUC e eram vários estágios, e ali, acho que um pouco pela minha experiência na Sampaio Viana, era muito claro que a melhor oferta que a gente podia fazer para esses meninos e meninas. Era uma experiência mais individualizada, valorizar singularidade, cada um era cada um. E a gente foi tentar fazer isso, mas eu não lembro exatamente por que, eu lembro que eu saí de lá frustrada, eu não fiz um trabalho bem feito. Mas mobilizada para falar: “bom, eu devia ter feito, então eu preciso fazer”. Elas começaram a falar das suas histórias e do que elas esperavam para as histórias dos bebês, então o primeiro álbum que veio a mente era o do bebê, o álbum do bebê. Então vamos pensar, como é que a gente ajuda essas mães a investirem nesse serzinho que está chegando ao mundo, através desse álbum? Só que quando a gente começou a fazer esses álbuns, tinha muito da história das meninas, e muitas histórias que elas precisavam contar para essas crianças que estavam chegando, para explicar quem elas eram, por que elas estavam naquele lugar, naquele espaço; como elas esperavam reverter a situação de vulnerabilidade que elas se encontravam com a chegada deles.

 

Eu lembro de uma mãe, uma menina que devia ter uns 15 anos e que era muito agressiva com o filho. Ela brigava, ela xingava, ela batia. E eu lembro dos encontros que a gente foi tendo, em que eu perguntei para ela: “Mas você gosta de ser assim com eles? É assim que você quer ser ou é assim que você está conseguindo?” E aí ela falou muito da mãe dela e da história com a mãe dela, que era o jeito que a mãe dela sempre tinha sido com ela, por isso que ela estava no abrigo, e que era assim mesmo. Até o momento que ela deu uma desmontada e chorou muito, falou: “Não, eu não gosto, não queria ser assim”. E para mim ficou muito palpável, como a gente ter consciência, olhar para nossa história e perceber de onde vem o jeito que a gente é, nos permite também fazer novas escolhas. . E aí eu pensei, bom, qualquer criança pode ir transformando seus sintomas e palavras se a gente cria um espaço em que ela possa falar sobre quem ela é e o que ela espera, os medos, os desejos. E o Fazendo História começava aí.

 

Na verdade, acho que naquele momento o projeto chamava-se Fazendo História, que depois virou Fazendo Minha História, e depois o instituto emprestou o nome. Mas era Fazendo História, então vamos ler histórias, ouvir histórias, contar histórias, registrar histórias, A metodologia do Fazendo Minha História era legal para os adolescentes, mas não o suficiente, precisava de mais, o que mais que a gente pode oferecer? Então aí a gente está falando de 2002 até 2005, eu atuando com o Fazendo Minha História e vendo essa demanda crescer e conversando com outras colegas que trabalhavam com formação de educadores, ficavam pensando em psicoterapia, outras questões. E aí é que a gente se junta e fala: “Vamos fundar uma organização que possa unir essas estratégias e atuar de forma mais conjunta dentro de um serviço de acolhimento, transformando aquele espaço institucional também? Oferecendo uma coisa mais holística?”. E em 2004 foi um ano já de reuniões, da gente pensar como que ia ser, vamos fundar juntas, como é que vai ser a governança, estatuto. Organizar. E a gente pensou que seríamos nós quatro fundadoras e a gente ia convidar pessoas que tinham a ver com as nossas trajetórias. E aí foi super bonita a composição do conselho, porque aí vem. Vem o meu chefinho lá da empresa que apoiou o Fazendo História. E em uma das reuniões a gente falou: “Se a gente tivesse um milhão de reais, o que a gente ia fazer?”, fizemos um planejamento para se tivéssemos um milhão de reais. E depois de dois anos a gente tinha um milhão de reais.

 

Então a gente foi atrás, vamos buscar isso, dois, três anos talvez, para chegar no um milhão. Mas eu acho que é assim, a gente fez um plano, o que a gente quer fazer, como é que vai fazer e foi fazendo. Em 2002, não existia um instituto, eu não tinha um compromisso com uma organização. Eu tinha um projeto que eu queria fazer, me trazia alegria, felicidade, uma possibilidade de fazer. E não era um projeto grande na minha cabeça, nem sabia, nem imaginava e nem desejava ou planejava que ele fosse grande. Ele era um projeto, e que já era maior do que o meu outro, porque eu falei: “Não, dá para fazer mais, está fácil”. De novo, eu acho que também essa sensação de está fácil fazer mais e o instituto tem isso. E bastante coisa do Instituto tem a ver comigo e vice-versa. Eu acho que eu tenho um jeito de ser no mundo que acabou passando para esse instituto. Por exemplo, a franqueza nas relações é uma marca da minha pessoa no mundo e que eu acho que, hoje, é uma marca do instituto para além da minha pessoa. Mas, que se fosse outro fundador ou de outro jeito, eu não sei se isso seria um valor. Então, esse é um valor que é muito óbvio para todo o mundo como um valor institucional que não tem nada a ver comigo mais. Mas, eu sei que tem. Então, acho que hoje, de verdade, a identidade do instituto é muito maior do que a dos programas e isso para quem chega agora é óbvio, mas para quem olhasse 2010, 11, 12, era quase impossível.

 

O instituto era uma tentativa de agregar programas, no início. E, hoje, é muito bonito ver que o instituto é maior do que os programas. Assim como o instituto ganha uma força maior do que os programas, eu acho que os voluntários têm uma força maior do que a equipe técnica, porque hoje a gente tem voluntários tão qualificados, tão comprometidos e tão envolvidos com as crianças que já não tem mais nada a ver com aquele primeiro voluntário de 2002 que ia 1 hora por semana Então, veja, o instituto é especial, mas essas pessoas que vão chegando, elas são mais, ainda mais, mesmo, de verdade. Acho que isso é um DNA do instituto também, olhar onde tem potência. Não adianta vermos um problema gigantesco onde vamos ficar dando murro em ponta de faca. Vamos buscar onde temos potência, onde atuamos e fazemos uma diferença. Colocando nesse cenário, sempre temos planejamentos estratégicos formais mediados em que vamos olhar o que temos no cenário, quais os problemas que enfrentamos, quais são as oportunidades, as fortalezas, vamos mapear e vamos definir meta. Acho que a equipe se organiza em torno disso e acho que agora estamos na vida adulta, o instituto já não é mais uma criança ou um adolescente, temos experiência acumulada. Então o desejo do instituto de trabalhar com incidência política, claro tem um pouco a ver com a minha trajetória, mas sobretudo tem a ver com os atravessamentos que as questões da política pública trazem no cotidiano do nosso trabalho. Quer dizer, você está lá trabalhando com educadores e de repente você descobre que eles não receberam salário faz três meses porque não tem recursos porque a prefeitura não fez o repasse.

 

Não conseguimos ficar em uma bolha do Fazendo Minha História, tentamos uma bolha do Fazendo História no primeiro momento para construir histórias e viu que tinha que trabalhar com os educadores. Aí a gente tenta uma bolha com os educadores e vê que tem os gestores e tem que trabalhar com as lideranças. E vamos para o município e percebemos que há leis, legislações. Então não há como ficarmos nessas bolhas, acho que foi muito bonito isso que veio da equipe inteira, era um desejo da equipe inteira. Estamos no primeiro ano, é nosso ano um de advocacy e incidência política. Resumindo minha história: não existe cuidar de mim e cuidar do meu mundo; meu mundo e outro é tudo uma mistura só. Realmente não existe. A dor do outro é uma dor que é minha mesmo. Eu me assusto. Eu falo, será que não vou amadurecer, será que existiria um amadurecimento possível? Mas aí fico pensando nos dez anos que fiz de encontros com os voluntários que em toda roda eu chorei e me emocionei. Chorei no sentido de me emocionar com as pessoas saindo das suas casas e vindo colaborar e contribuir. Então eu fico aliviada de me emocionar tanto com a história de novo.

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