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História

Goleiro à moda antiga

História de: Leonídio França
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento, Leonídio França nos conta como passou de jogador de linha nos campos de várzea para goleiro titular do Santos Futebol Clube. Entre histórias envolvendo jogos, títulos e companheiros de equipe, Leonídio fala sobre a prática do futebol na década de 40 e 50, sobre o time santista antes da chegada de Pelé e sobre sua atuação fora dos gramados, como diretor de futebol do clube.

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História completa

P/1 – Então, boa tarde senhor Leonídio!

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Eu queria, antes de mais nada, saber todo seu nome completo?

 

R – Leonídio França.

 

P/1 - A sua data de nascimento?

 

R – É 30. Aliás, eu nasci no dia 29 de novembro, mas o meu registro foi no dia 30, então eu tenho duas datas de aniversário: eu tenho 29 de novembro e 30 de novembro. Mas para efeito de documentos é 30 de novembro.

 

P/1 – De que ano?

 

R – De 1924.

 

P/1 – Em Santos?

 

R – Santos.

 

P/1 – E o nome do seu pai?

 

R – José França.

 

P/1 – O senhor lembra da data de nascimento dele?

 

R – Agora no momento não.

 

P/1 – Ele era de Santos também?

 

R – Ele... Olha, pra dizer a verdade eu não posso te afirmar, porque eu vim da cidade. O meu pai era comerciante na Rua Senador Feijó e nós viemos de lá para o bairro do Macuco, eu tinha 8 anos de idade. Então eu me formei ali no Macuco.

 

P/1 – Mas seu pai era brasileiro? Ele não era imigrante?

 

R – Português.

 

P/1 – Ah, era português?

 

R – Era português.

 

P/1 – E a sua mãe? Como chamava?

 

R – Diolinda dos Santos França.

 

P/1 – Ela era portuguesa também?

 

R – Não, paulista.

 

P/1 – Santista?

 

R – Paulista. Era de São Paulo.

 

P/1 – Ah, era de São Paulo. E ela era do lar?

 

R – Do lar.

 

P/1 – O senhor tinha quantos irmãos?

 

R – Nós éramos 11 irmãos. Espera um pouquinho... Faleceu... Nós somos vivos, hoje, cinco, seis. Morreram Irene, Joaquim, Nice. Nós éramos nove irmãos.

 

P/1 – Nove irmãos, contando com o senhor?

 

R – Comigo também.

 

P/1 – E o senhor é casado?

 

R – Casado.

 

P/1 – Como é que se chama a esposa do senhor?

 

R – Ela chamava-se Augusta Martins França.

 

P/1 – Ah, o senhor é viúvo?

 

R – Sou viúvo. Sou viúvo há 6 meses.

 

P/1 – Ah sim, e ela era de Santos?

 

R – É de Santos, santista.

 

P/1 – E ela era dona de casa?

 

R – Era do lar. Era formada professora, mas ela não exerceu a profissão.

 

P/1 – E o senhor tem quantos filhos?

 

R – Eu tenho três.

 

P/1 – Três. Qual o nome deles?

 

R – Leonídio... Primeiramente vamos pelos mais velhos: Leonice França, Leonídio França Filho e Lenice França.

 

P/1 – Tudo com L?

 

R – Tudo com L.

 

P/1 – E o senhor, lembra a data de nascimento deles?

 

R – Dos filhos.

 

P/1 – É.

 

R – Oito de... Espera um pouquinho, 27 de abril de 1948.

 

P/1 – É a Leonice?

 

R – A Leonice... Oito de novembro de 1950 é o filho e 19 de janeiro de 54 que é a filha. São todos formados: o filho é engenheiro, as outras são professoras.

 

P/1 – O filho é engenheiro e elas são professoras?

 

R – São professoras que exercem a profissão até hoje.

 

P/1 – E são professoras de quê? É 2º grau, 1º grau?

 

R – A Leonice é no 1º e 2º grau. A Lenice é do 1º grau e o meu filho é engenheiro mecânico.

 

P/1 – Jogou futebol também?

 

R – Tentou.

 

P/1 – Tentou?

 

R – Tentou não, ele tinha qualidades, tanto foi que ele foi titular da Seleção Paulista Universitária, no Campeonato Paulista. Mas o Zito e o Formiga insistiram que eu levasse ele pra treinar no Santos e como eu trabalhava eu não podia levar o menino lá pra ver treino de futebol, eu não podia ir lá. Então disse: “Olha, Leonídio, você vai lá no Santos e procura o Zito. O Zito e o Formiga. Conversa com eles, diz que é meu filho e você faz lá o treino”. Cheguei a noite em casa, disse: “Como é? Como foi o treino?”; “Ah, pai, eu não fui. Eu não quero jogar mais futebol. Eu vou estudar, eu quero ser engenheiro” e largou o futebol e foi estudar.

 

P/1 – Então, continuando, o senhor estudou até que grau?

 

R – Eu fiz até o ginásio.

 

P/1 – O ginásio. E qual foi a sua profissão?

 

R – Bom, eu, na firma em que eu trabalhava... Antigamente nós chamávamos de caixa, né? Caixa. E eu trabalhava também no setor de entrega direta, não sei, café negociado na bolsa. E a gente faz a entrega direta, faz a pesagem, entrega. E eu era o encarregado desse setor de fazer pesagens e vendas dos cafés.

 

P/1 – Então agora o senhor está aposentado?

 

R – Eu estou aposentado atualmente.

 

P/1 – Vamos resumir aqui que eu não entendo muito bem de café. Se pudesse falar, assim, o senhor trabalhou... Qual o nome técnico da profissão do senhor?

 

R – Nome técnico, eu seria auxiliar de escritório. Eu entrei na firma...

 

P/1 – Vamos por etapas. Qual foi o primeiro trabalho do senhor?

 

R – Meu trabalho no escritório foi menino de rua, com 13 anos de idade.

 

P/1 – Estafeta?

 

R – É estafeta e...

 

P/1 – Como chamava essa firma?

 

R – Era G. Lunardelli  S.A . Agricultura Comércio e Exportação, entendeu? Na época era o Rei do café.

 

P/1 – O senhor é de 1924, então foi em 37, foi isso? O senhor nasceu em 24?

 

R – Vinte e quatro.

 

P/1 – O senhor tinha 13 anos, então foi em 1937.

 

R – Na época eu fui registrado com 40, eu trabalhei um ano sem registro. Não, 13 anos eu comecei a trabalhar, mas não trabalhava no café ainda, trabalhava em outro ramo. Eu trabalhava numa indústria, porque a minha família era muito pobre. Nós éramos em muitos irmãos, o meu pai apesar de ter sido negociante, ele com a doença que teve, uma doença gravíssima, ele perdeu tudo. Então nós tivemos que trabalhar. Eu com 13 anos trabalhava numa indústria de carvão coque. Então nós fazíamos o carvão, o coque é aquele carvão de pó que fazia, punha na máquina e ele saía redondinho. Então eu comecei com 13 anos nessa firma, nessa industriazinha. Até era uma indústria é...

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Não lembro, era uma indústria pequena.

 

P/1 – E qual era o cargo do senhor?

 

R – Eu fazia carvão.

 

P/1 – Carvoeiro?

 

R – Não é carvoeiro. A gente pegava o pó e punha nas formas, como se faz um tijolo, põem na... E saía o carvão coque. Sai em tubos redondos entendeu? Essa eu comecei aí. Depois, posteriormente, é que eu fui trabalhar no comércio de café, isso em 1939.

 

P/1 – O senhor então começou como estafeta lá na G. Lunardelli?

 

R – É, na G. Lunardelli.

 

P/1 – E aí o senhor continuou lá?

 

R – E aí eu continuei na firma, aí com meu esforço e a minha dedicação eu fui procurando melhorar. No final da minha carreira eu era o gerente da firma.

 

P/1 – Antes de ser gerente o senhor foi o quê também, por exemplo?

 

R – Dentro da firma eu corri todos os setores, eu conhecia toda a engrenagem da firma. Comecei como estafeta, fui pra auxiliar de caixa, fui pra caixa, fazia programação de pagamentos, de recebimentos da firma, fazia uma programação pra diretoria, eu trabalhava com o diretor comercial, diretamente com ele. Então, eu fazia toda a programação da firma. Ia no setor de exportação ver o que estava vendido, o que estava por receber, ia na parte da comissária, ia vender, o que tinha de faturamento, o que nós tínhamos de compra de café, o que tínhamos que pagar, o que tínhamos que receber. Eu fazia então um cronograma de toda a situação e entregava de 15 em 15 dias. Eu entregava à diretoria pra poder trabalhar normalmente.

 

P/1 – Batia córner e cabeceava, não é mesmo?

 

R – Fazia de tudo, porque a gente começa... A gente que começa de baixo, você corre todos setores, você é estafeta, você passa a ser auxiliar, aí você já entra dentro do escritório, aí você trabalha dentro do escritório. Você dentro do escritório, tendo vontade, você progride. E eu procurava progredir, né? Tanto é que chegou no final eu cheguei a gerente, mas já no final da...

 

P/1 – O senhor lembra em que época mais ou menos o senhor era gerente?

 

R – Em 1970. Acho que foi 78, quando a firma encerrou as atividades em Santos. Se eu não me engano foi 78, 67, 70. Setenta eu me aposentei e trabalhei mais 9 anos ainda. Aí eu já trabalhava como chefe de escritório e depois passei a gerente.

 

P/1 – O senhor se aposentou em 70...

 

R – Em 70, continuei trabalhando na mesma empresa.

 

P/1 – E o senhor se aposentou como o quê?

 

R – Na carteira como gerente.

 

P/1 – Gerente, o senhor se aposentou como gerente e ainda ficou trabalhando mais 9 anos...

 

R – Ah, espera um pouquinho. Não, me desculpe, não é gerente. Eu me aposentei como auxiliar de escritório, como chefe de escritório. Depois que eu me aposentei é que eu galguei a aposentadoria de gerente, está entendendo?

 

P/1 – Em 78.

 

R – Foi até 78.

 

P/1 – Setenta e oito o senhor encerrou as atividades.

 

R – Encerrei as atividades, isso se não me falha a memória, né?

 

P/1 – E o senhor morou em outras cidades?

 

R – Não, só Santos.

 

P/1 – Qual a religião do senhor?

 

R – Católica.

 

P/1 – E o senhor tinha, assim, outras atividades? O senhor foi do Rotary, o senhor foi dirigente sindical, o senhor foi de irmandade religiosa?

 

R – Fui, e aí eu tenho um currículo grande.

 

P/1 – Ah, que interessante!

 

R – Independente de ter jogado, trabalhado, jogado futebol no Santos, eu fui conselheiro do Santos; fui diretor do Departamento Amador do Santos, da gestão do Rui Mesquita; fui diretor do Departamento Profissional na gestão do Rui Mesquita; Campeão Paulista em 78, com os meninos da Vila Belmiro; eu era o diretor de futebol da época do Juarez, Zé Carlos, Claudinho, Pita, todos aqueles meninos, eu era diretor do Departamento Profissional.

 

P/1 – Ah, que beleza! Então temos duas épocas aí boas pra se falar, né? Então pra terminar, o senhor teve alguma atividade de lazer específica?

 

R – Olha, o meu lazer era futebol, eu gostava de futebol. Eu fui dirigente de liga de bocha, fui presidente do meu sindicato do comércio cafeeiro, fui presidente do Sindicato dos Auxiliares da Administração do Comércio Cafeeiro de Santos.

 

P/1 – Isso em que época?

 

R – Acho que foi em 67. Foram 3 anos que eu fiz de gestão. Deixa eu ver, 70.

 

P/1 – Sessenta e sete a setenta?

 

R – É, fui membro da Confederação em Brasília.

 

P/2 – Nessa época não era fácil ser sindicalista?

 

R – Eu já tinha me afastado do Santos naquela época.

 

P/2 - Não era fácil ser sindicalista nessa época?

 

R – Ah, nós pegamos a revolução de 64, era uma espionagem tremenda. Está gravando, né? Entendeu? Corta. Eu fui presidente nessa época, né, então. Fui presidente de clubes.

 

P/1 – Ah, de clubes amadores?

 

R – De clubes amadores.

 

P/1 – De qual?

 

R – Botafogo Atlético Clube, que até hoje sou diretor. Hoje sou vice-presidente do conselho. Fui diretor durante uns dez ou 12 anos seguidos, presidente diversas vezes.

 

P/1 – Isso nos anos 60?

 

R – Não, o Botafogo ele foi fundado em 1944, e até hoje...

 

P/1 – O senhor foi presidente...

 

R – Fui presidente, fui tesoureiro, fui secretário, presidente do Conselho, vice-presidente do Conselho, entendeu? Quer dizer que no Botafogo eu nasci mesmo, eu gosto muito do esporte amador.

 

P/1 – O Botafogo é onde?

 

R – Ele é aqui no... Ali já é... Aquilo é propriamente Macuco, ali é Boqueirão. Nós temos uma sede muito bonita que nós fizemos lá, né?

 

P/1 – Então, agora nós vamos pra entrevista propriamente dita, depois que nós já fizemos a ficha.

 

R – Bom, se puder, esse negócio de sindicato...

 

P/1 – Ninguém esquenta com esse tipo de coisa.

 

R – Porque eu fui presidente justamente numa época difícil que era...

 

P/2 – O senhor começou a jogar no próprio Santos, no começo?

 

R – Não, eu comecei na Várzea. Nem goleiro eu não era, eu era um médio volante e jogava muito bem nessa posição. Mas jogando num campo encharcado, numa época de chuva, eu levei um arranhãozinho na perna. E eu de momento não me preocupei. E esse arranhãozinho na perna infeccionou e eu passei por sérias dificuldades, porque não fechava, criou uma carne esponjosa tão grande que me comeu a carne toda fiquei no osso. E eu como gostava muito de futebol, isto aqui levou anos pra cicatrizar, levou tempo.

 

P/2 – Isso nós estamos falando de 1900 e?

 

R – Isso quando eu era garoto, eu tinha 17 anos, 16 anos mais ou menos. Nós tínhamos um juvenil que a gente brincava todo jogo, todo final de semana num campinho de futebol. Devido a essa batidinha aí, eu não me preocupei.

 

P/1 – Juvenil do bairro?

 

R – É do bairro, que nós tínhamos um “timizinho” que era o “juvenil brinca no couro”, até o nome do Clube era Brinca no Couro. E nós tínhamos uma equipe mais ou menos, todo final de semana a gente jogava. E eu levei essa pancada aí, nem senti, não senti a pancada, lavei, tomei o meu banho normalmente. Mas ficou aquela lama naquela batida e infeccionou e foi alastrando, alastrando e não havia remédio que desse jeito. Minha mãe me levou no médico, ele disse que precisava cortar a perna, ela ficou assustada, eu também fiquei. Aí nós fomos indicados a um farmacêutico ali na Rua Santos Dumont, Sr. Belmiro. Aí sim esse farmacêutico acertou. Ele fez um nitrado de prata, era um pó preto, cheirava muito mal, pra queimar aquela carne esponjosa e queimou a carne, queimou toda aquela carne esponjosa, porque aquele líquido corria pela perna, conforme ele corria ele ia alastrando. Aí como o nitrado de prata, ele queimou. Aí tinha um problema pra fechamento da ferida que não fechava, estava no osso, pode ver que está no puro osso aí, puro osso.

 

P/1 – Mas isso não impediu o senhor de jogar bola?

 

R – Isso, eu jogava como volante, mas como eu gostava de futebol eu passei pro gol.

 

P/2 – Pra não forçar muito a perna.

 

R – Porque ali eu tinha menos contato com a bola e com o adversário também, né, num choque, e fui pro gol. E comecei a brincar no gol, brincar. Aí eu estava jogando no Vasco da Gama da ponta da praia. Tinha futebol, me convidaram pra jogar, fui lá pra jogar, joguei. No ano seguinte o Praticagem, que é o Clube da Praticagem aqui em Santos, eles tinham um time de futebol, me chamaram pra lá e eu fui. Em 44 nós fomos campeões santistas invictos, tomei 5 gols durante o campeonato todo. Foi quando o Athié, que era o presidente, foi me procurar pra eu vir para o Santos.

 

P/2 – O Athié que era goleiro, tinha esse dom.

 

R – Quer dizer, de médio volante eu fui passar pra goleiro (riso). Aí eu vim para o Santos, jogando no aspirante. Depois, então, com o transcorrer do tempo é que eu assumi a posição de titular. Em 46 já joguei o primeiro jogo como profissional contra o Vasco da Gama aqui na Vila Belmiro. O Vasco da Gama veio a convite do Jabaquara aqui, porque o Jabaquara comemorava o seu aniversário e jogou numa quinta-feira, o Vasco deu de oito a zero no Jabaquara e nós íamos enfrentar o Vasco no domingo. Uma passagem até engraçada foi o nosso treinador, Abel Picabéia. Ele, na preleção no vestiário, ele chega pra mim: “Olha Leonídio, vamos jogar pra perder de pouco.” Ganhamos do Vasco de quatro a um, com aquele time todo do Vasco.

 

P/2 – O senhor lembra o time?

 

R – Eu tenho aí no jornal do recorte. Ganhamos de quatro a um, Adolfrizes dois, Caxambu, o outro gol não sei se foi o Odair quem fez, mas está aí no recorte do jornal. Alguma coisa eu guardei, outras coisas eu perdi.

 

P/1 – Então, senhor Leonidio, o senhor estava dizendo que vocês venceram o Vasco e tinha alguns jogadores conhecidos naquela época. Craques como...?

 

R – Isaías, Jair, se eu não me engano o Jair também jogou.

 

P/2 – Jair da Rosa Pinto?

 

R – O Lelé. Eram os 3 patetas que chamavam no Rio: Isaías, Lelé e...

 

P/1 – Friaça. O senhor falou, Danilo...

 

R – Danilo, Danilo jogou, Friaça jogou nesse jogo, jogou.

 

P/1 – E como foi? O senhor dormiu a noite anterior? Ia estrear no gol do Santos! Como que foi isso?

 

R – Olha, eu fiquei surpreso quando eu fui escalado, eu não esperava ser escalado, eu era aspirante. Tinha três goleiros na minha frente, né: Robertinho, Joãozinho, Chiquinho. Mas como eu vinha me destacando no Aspirante, né, eu fui lançado e, graças a Deus, me saí bem. Depois dei uma paradinha, saí do time, aí quando Oswaldo Brandão voltou, veio para o Santos, eu jogava no Aspirante e eu estava fazendo boas partidas no Aspirante. Tinha enfrentado um São Paulo com Ieso, Teixeirinha, Barrios, Leopoldo, tinha o André, o Gigio jogava no gol do São Paulo às vezes, no Aspirante. Então eu me destaquei nesse jogo. Aí, contra o Nacional aqui, antigo S.P.R., né, eu ia me preparando pra me trocar para jogar, o Oswaldo Brandão disse: “Olha tu não vai jogar, você espera.”, eu pensei que tinha sido barrado no time, né? “Poxa vida!” Aí, quando foi na hora da preleção ele disse: “Olha, você vai jogar”, eu fiquei meio assim, porque estava chovendo, campo escorregadio, eu fiquei preocupado. De princípio eu fiquei nervoso, isso é normal, fiquei nervoso. Depois, com o transcorrer da partida, eu fui me adequando e fiquei normal. E ganhamos naquele dia: dois a zero do Nacional. Daí pôr diante eu não perdi mais a posição.

 

P/2 – Só voltando um pouquinho, o jogo contra o Vasco, como é que um time que entrou pra perder de pouco ganhou de quatro a um? Qual é a explicação?

 

R – Não, a explicação... Porque o Vasco tinha uma grande equipe, essa que era a verdade. Nosso time não era um grande time, era um time, o Santos era Clube que era 6ª, 7ª classificação no Campeonato, não tinha uma projeção grande. E o treinador, receoso de tomar uma goleada, pediu que a gente jogasse pra perder de pouco, mas deu tudo certo pra nós e nós enfiamos quatro bolas no gol do Vasco e ganhamos o jogo de quatro a um.  Aí veio uma excursão do Santos para o Norte, que o Santos fez uma campanha invicta no Norte. E eu não fui, porque o meu pai estava doente e eu ia casar no sete de dezembro. O Santos embarcou parece que no dia 20, uma coisa assim, de novembro pro Norte, então eu fiquei. No meu lugar o Santos requisitou emprestado o Osni, do América. Então o Osni foi me substituindo.

 

P/2 – Nós estamos falando de que anos aí?

 

R – Aí agora, acho que estamos falando em... Eu casei em 46, então estamos falando em novembro de 46.

 

P/2 – Então o Santos era um time que estava sempre em 7º, 8º...

 

R – Era essa classificação, daí pôr diante então, com a vinda do... Nós tivemos grandes treinadores aqui. Aymoré Moreira era um excelente treinador. Era muito técnico, ele fazia todo o esquema do jogo no quadro, o Aymoré Moreira. Ele era bom treinador, ele entendia. Oswaldo Brandão já era mais objetivo, ele não pegava no quadro, ele dava as instruções verbalmente pra todo jogador. Tivemos o Niginho, que jogou na Itália, foi treinador aqui do Santos também, um excelente treinador. Tivemos um treinador Luiz Comitante que a gente dava até risada porque ele era um treinador que ele não dormia, ele ficava passeando no corredor a noite toda preocupado com  o jogo, então eu chegava pra ele: “Sr. Comitante, o senhor não se preocupe”.

 

P/2 – O nome dele é?

 

R – Luiz Comitante. Ele veio do Rio Grande do Sul, com fronteira com Uruguai, então ele veio de lá, eu não sei quem... Era aí só. Entendia pouco, entendeu? Não sei como ele veio a ser treinador aqui. Sinceramente eu não sei como ele veio ser treinador e ele se preocupava muito. Então eu dizia: “Sr. Comitante, o senhor pode ficar tranquilo. Nós vamos ganhar a partida, o jogo é fácil pra nós hoje”, então eu dava aquela tranqüilidade pra ele. Ele, ao invés de dar pra nós, nós que passávamos pra ele, (riso) entendeu? Era um treinador muito bom, bondoso, atencioso com o jogador, mas algumas vezes deixava a desejar.

 

P/3 – O senhor, permaneceu no Santos em 42?

 

R – Eu vim para o Santos em outubro de 44. Fiz um contrato até 48. Em cinquenta eu fiz um contrato profissional, porque os contratos eram no amador e eu tinha um contrato especial com o Santos, como eu já tinha dito antes.

 

P/2 – É bom repetir essa história agora que está gravando.

 

R – Como eu tinha um contrato especial com o Santos, eu não concentrava, não excursionava, não treinava fisicamente com os companheiros, eu só fazia o coletivo. O coletivo da semana eu participava. Dos outros treinamentos eu fazia ou na parte da manhã antes de entrar para o tal do escritório, ou quando eu saía do escritório. Eu saía às cinco e meia ficava até às sete horas aí com Oswaldo Brandão treinando. E os jogadores reclamavam, os colegas de profissão reclamavam, porque eu não treinava com eles, não participava dos treinos e eu era o titular.

 

P/3 – E era uma situação comum, ou só era um caso de exceção?

 

R – No meu caso era específico, porque eu trabalhava. Eu trabalhava e eu não ia deixar a minha função, porque eu estava bem empregado, pra jogar futebol. Então eu fiz esse contrato especial com o Santos.

 

P/3 – Eu fiz essa pergunta porque o senhor citou três técnicos.

 

R – Ah, nós tivemos mais técnicos.

 

P/3 – Nesse período?

 

R – Tivemos. Nesse período em que eu estive no Santos, passou por aqui o Luiz Comitante, passou o Niginho, passou Oswaldo Brandão, passou Aymoré Moreira, Caetano de Domenico se não me falha a memória. É, Caetano de Domenico também. O Artigas também chegou a ser treinador do Santos. O Artigas, no final da carreira dele, depois que saiu Oswaldo Brandão, veio o Artigas, que era o zagueiro.

 

P/2 – Quanto ganhava um jogador na época, que só se dedicava ao futebol?

 

R – O meu contrato era especial, tanto é que quando eu fazia os contratos eles reclamavam comigo. Eu digo, eu também não posso exigir porque eu tinha regalias aqui. Então o salário maior na época, se não me falha a memória, era do Antoninho, acho que era sete ou oito.

 

P/2 – Mil réis?

 

R – É.

 

P/2 – Contos de réis, né?

 

R – É, depois tinha o Nenê, tinha os demais. E o Élvio, quando eu fui renovar o meu contrato, disse: “Pô Leonídio, pediu isto? Tu vai estragar o nosso pedido, tinha que pedir 100 contos!”, digo: “Oh, Élvio, eu tenho um contrato especial com o Santos, eu não posso exigir se eu não presto todo serviço ao Santos.” E eu fiz um contrato de 30 contos.

 

P/2 – Ao ano?

 

R – Não, em 50.

 

P/2 – No ano, 30 contos pelo ano?

 

R – Não, por dois.

 

P/2 – Ah, por dois anos.

 

R – Por dois anos.

 

P/2 – Os 30 contos era o valor que o senhor receberia por mês?

 

R – Não, de luvas. Eu receberia luvas fora o salário que eu recebia mensalmente. Trinta contos foi de luvas, o Élvio achou que eu deveria ter pedido 100, porque eu era o titular com nome.

 

P/1 – E só pra ter uma comparação, quanto, mais ou menos, o senhor ganhava no trabalho lá na Lunardelli?

 

R – Eu ganhava bem menos do que eu ganhava no futebol, eu ganhava três contos e 500.

 

P/1 – Por mês?

 

R – Por mês. Naquela época, no escritório, eu não tirava isso.

 

P/1 – Ah, o senhor ganhava no Santos três contos e 500 pôr mês?

 

R – É.

 

P/1 – Não tirava isso no escritório?

 

R – Eu acho que não tirava não, só vendo a minha carteira profissional.

 

P/1 – Lá era mais seguro, né?

 

R – Lá era seguro, né, era uma empresa de porte, uma empresa exportadora, comissária exportadora de café, e a diretoria gostava de mim, não sei por que.

 

P/1 – Mas liberavam o senhor... O senhor não trabalhava o dia inteiro lá na empresa?

 

R – Não, eu saía às três horas da tarde pra fazer o coletivo, três horas. Um por semana. E os individuais eu fazia ou na parte da manhã ou na parte da tarde, depois que eu saía do escritório. Eu saía às cinco e meia, eu tinha um horário no escritório das oito e meia às onze e meia, da uma e meia às cinco e meia, então...

 

P/1 – Aí o senhor vinha pra cá?

 

R – Então eu vinha pra cá, eu vinha pra treinar.

 

P/1 – E como que era o Vila Belmiro naquela época? Nos anos 40?

 

R – Olha, a Vila Belmiro não tinha essa arquibancada aqui, era de madeira, o campo era ripado, a lateral era toda ripada. Você pode ver nas fotografias aí que o campo era cercado por aquelas ripas em volta, né? Tanto é que, não lembro agora de momento em que ano foi, veio o Portsmouth da Inglaterra aqui. Eles tinham jogado com Palmeiras, parece. Se eu não me engano tinham ganhado do Palmeiras, tinham ganhado do Botafogo no Rio e vieram jogar aqui com o Santos. Então eles colocaram cadeira de pista em volta do campo. (risos) Porque era um time inglês, e aqui em Santos tinha muita firma exportadora de café inglesa também aqui. Então foi um jogo... Eles colocaram essa coisa e nós tivemos a felicidade de ganhar de quatro a zero do Portsmouth da Inglaterra. Tinham ganhado do Palmeiras, ganhamos de quatro a zero. Eles tinham ganhado do Palmeiras em São Paulo, tinham ganhado do Botafogo, se eu não me engano no Rio, e perderam aqui pra nós.

 

P/2 – Me diz uma coisa: o senhor faz parte de uma época em que o Santos começa a deslanchar?

 

R – O Santos, pra ser sincero, o padrão de jogo, nós não tínhamos uma grande equipe, mas tínhamos um bom conjunto. Nós jogávamos com a bola no chão, essa que é a verdade. Não tinha balão pra frente! O time saía jogando. A base do Santos de 55, a formação da equipe, do padrão de jogo, saiu dessa equipe que eu participava. E daí, então, foi quando começaram a chegar os valores novos.

 

P/2 – Me diga uma coisa, só explorando esse ponto, o senhor falou que o Santos tinha um jogo de jogar, mas passaram vários treinadores...

 

R – Passaram.

 

P/2 – Cada treinador geralmente tem seu jeito e seu mérito. Como é que permanecia, digamos, esse estilo com vários treinadores?

 

R – Porque o treinador depende de resultado, todos nós sabemos. Se não tiver resultado, ele cai, e isso é ponto pacifico. E o Santos começou a ter esse padrão de jogo com Aymoré Moreira e com o Brandão, mais como o Brandão. Então o time é um time assentado, jogava bem, jogava bonito, não era de chutão. Aí, em 53, começou aparecer os novos jogadores: Del Vecchio, Pepe, essa rapaziada nova que formou... Então veio o Pelé em 55. Então que formou essa grande equipe do Santos.

 

P/2 – E como era então o trabalho que fez aparecer o Del Vecchio, o Pepe?

 

R – Eles nasceram do departamento amador.

 

P/2 – Mas ele era muito forte, havia a dedicação do time naquela época? É uma coisa que o senhor está querendo refazer hoje? Como é que funcionava na época os...

 

R – O departamento amador, eu não fazia parte do departamento amador, porque eu era profissional. Mas quem cuidava do departamento amador era o China. O China quem cuidava dessa rapaziada toda: Del Vecchio, Pagão, Pepe, Del Vecchio.

 

P/2 – O Vasconcelos?

 

R – O Vasconcelos veio do Rio. Bom, eles começaram a formar essa garotada e foram sendo lançados na equipe de cima. Em 53 eu já não jogava, eu já estava afastado, devido a minha contusão.

 

P/2 – É bom o senhor contar, que agora é gravado, a contusão?

 

R – A contusão foi: jogava Santos e Ipiranga no Parque Antártica e numa bola dividida... Eu não culpo o Walter, porque não foi proposital. Numa abafada de bola, no instante que eu abafei a bola ele chutou, quer dizer que a bola estava dividida. Ele chutou, conforme ele chutou o braço rompeu os ligamentos e o braço veio aqui, veio aqui pra trás. Aí eu fui medicado, tomei uma injeção e voltei a jogar, terminei a partida. Foi zero a zero o jogo. Eu joguei porque ainda estava quente, o sangue estava quente, eu não senti aquela dor, porque rompeu os ligamentos, mas eu não sentia dor. Depois que eu parei, uma dor insuportável! Eu fiquei 3 meses só de braço na tipóia, sem fazer um curativo, um medicamento.

 

P/2 – Hoje o senhor teria tratamento.

 

R – Hoje tem, parece-me, não vou afirmar. O caso do Oberdan: com o rompimento de ligamento, também parou. Renganeschi, que jogava no São Paulo, depois veio pro Jabaquara aqui, também teve esse problema. Porque a Medicina Esportiva, na época, não é o que é hoje. Hoje você opera um tendão de Aquiles. Você fraturava um tendão de Aquiles, você parava o futebol. Hoje você opera e joga.

 

P/1 – O senhor chegou a dizer que jogava enfaixado...

 

R – Isso foi um caso interessante, porque eu não estava jogando porque tive esse rompimento do ligamento da clavícula. E o Jabaquara, o Doutor Odemir Washington Geovani, queria que eu fosse pro Jabaquara e eu disse: “Ô Doutor, eu não estou jogando no Santos porque estou machucado e não tenho condições de jogar”; “Não, porque se você for pro Jabaquara, nós sabemos que se você não pegar uma bola é porque não pode pegar. Não é como aquele que nós temos lá”; “Bom, então...”

 

P/2 – Ele não quer contar.

 

R – Não quer contar ou não quer dar o nome do jogador, porque...

 

P/1 – Conta o milagre, mas não conta o Santo.

 

R – Entendeu? Aí disse: “Ô Doutor, o senhor quer ir, vamos lá no escritório do Modesto Roma”, ele tinha o escritório ali na Internacional, na Praça Barão do Rio Branco. Fui eu, Doutor Mimi, fomos lá com o Modesto Roma. Aí o Mimi disse ao Modesto Roma que queria me levar pro Jabaquara, porque o que ele tinha lá não inspirava confiança. Aí o Modesto “Não, o Leonídio é prata da casa, não sai daqui. Leonidio não sai!” (riso) E no Santos estava jogando o Robertinho. Não sei se era o Robertinho ou o Joãozinho no gol. E no Pacaembu, realmente, tomaram uns gols que a gente até fica admirado de como que um goleiro desse, como Robertinho... Não sei se era o Robertinho ou o Joãozinho, não tenho certeza, não vou dar nome porque eu não tenho certeza. E tomou uns gols que prejudicaram o time, né? Aí o Roma me chama pra eu voltar a treinar. Aí eu jogava, treinava enfaixado, fui treinando todo enfaixado, aí ele disse: “Olha, tu vai jogar assim mesmo.” O Roma falou pra mim “Olha, Leonídio, você vai jogar.” E eu, pra jogar, entrar em campo, ele me enfaixava todinho, jogava aqui. O falecido Macedo...

 

P/2 – Massagista?

R – Massagista. Se ele fosse vivo hoje ele contava a história melhor do que eu estou contando, que ele viu como eu entrava em campo, todo amarrado pro braço não cair. Joguei cinco partidas, ganhei cinco partidas, mas aí tinha um jogo...

 

P/3 – No gol?

 

R – No gol.

 

P/3 - Mas sofreu gol nessas partidas?

 

R – Sofri, sofri muito, sofri. Nessas cinco partidas eu sofri gols, mas ganhamos os jogos.

 

P/3 – Mesmo com o braço enfaixado deu pra se defender?

 

R – Deu. Aí jogava Santos e Palmeiras na Vila Belmiro. E era um jogo de responsabilidade, quem está na arquibancada não sabe o estado em que o jogador está jogando, se ele está jogando porque tem condições. Lá, o espectador, o torcedor não quer saber. Então como era um jogo de responsabilidade, eu disse: “Hoje eu não jogo, eu não vou por a minha reputação nesse jogo.” E não joguei. Aí eu parei de vez e não joguei mais. Aí fui indo, foi terminando o meu contrato, treinava, caía o braço. Fui fazendo, terminei meu contrato. O Santos me pagou direitinho, não tenho nada contra o Santos, todo o compromisso foi cumprido, apesar de eu não ter servido ao Santos. O Santos cumpriu com as suas obrigações, me pagou direitinho.

 

P/2 - E qual é o sentimento de parar assim?

 

R – É duro, é triste. Você... Parece mentira. Quem falar que não é, é mentiroso. Você convive no esporte, você está sempre no futebol com os colegas e aí você para. Eu ficava em casa. Eu tinha vontade de jogar, mas não podia. Eu fiquei frustado de não poder jogar. Passei uns meses meio doloridos, vamos dizer assim, porque eu gostava de futebol, aí eu parei de vez. Eu ainda vinha ao campo de futebol. Uma ocasião... Eu não sei se devo contar...

 

P/2 – Conte.

 

R – Nós estávamos na concentração do Santos. Eram os meus colegas que estavam aqui, né, e a gente vinha com eles jogar um... Aí, na Vila Belmiro, aqui tem as mesas de jogos, jogar bilhar, como normalmente se faz. Aí eu escutei uma palavra que eu não gostei: “Ah, eles ficam aqui pra aliciar jogador.” Escutei aquilo, nunca mais! Nem voltei mais ao campo de futebol. Eu falar: “Ah, eles vem aqui pra aliciar jogador”, não é do meu feitio. Isso eu peguei, nunca mais participei não. Porque eu acho que a gente vai lá pra ver os amigos, não é pra aliciar jogador. Eu escutei essa palavra, peguei e me afastei de vez.

 

P/1 – E assim, o senhor tem um jogo assim que marcou, que o senhor teve uma grande atuação? O senhor se recorda disso?

 

R – Eu tive grandes atuações. A que mais marcou mesmo foi Santos e Corinthians, três a dois no Pacaembu. Nós perdíamos por dois a zero no primeiro tempo. Modéstia à parte, eu, se estou num dia infeliz, a gente saía no primeiro tempo com oito, seis, mas graças a Deus eu estava numa boa tarde, né, e pegava tudo. Sofremos dois gols, mas garanti dois a zero que poderia ser cinco, seis. E voltamos pro vestiário, o Brandão era o treinador, o Brandão dando aquela força pra nós, né: “Não, eles fizeram dois, nós podemos fazer três! Vamos que dá!”, porque nós estávamos na cabeça do campeonato, nós estávamos pau a pau com o Palmeiras na ponta.

 

P/3 – Que ano esse campeonato?

 

R – Em 50.

 

P/2 – Foi a época que o Santos começou a ser muito vice, né?

 

R – É, fomos vice em 48, fomos vice em 50, perdemos o campeonato pôr falta de retaguarda. Acho que o senhor me entendeu, né? Por falta de retaguarda, se nós temos...

 

P/2 - O senhor não está falando em defesa?

 

R – Não.

 

P/2 – Em retaguarda.

 

R – Retaguarda, bem entendido. Se nós tivéssemos retaguarda, nós teríamos ganhado o campeonato em 48, 50. Haja visto, eu vou falar, não vou dar o nome do árbitro. Nós estamos jogando no campo do Nacional, nós estamos em primeiro lugar no campeonato, o jogo está zero a zero, faltam mais ou menos uns dez minutos pra terminar a partida. Houve um escanteio contra o Santos, eu perguntei ao árbitro: “Quanto falta?”, sabe que ele me respondeu: “Hoje vocês não ganham o jogo.” Zero a zero. Por isso que eu digo: se nós tivéssemos uma retaguarda, nós não perdíamos o campeonato.

 

P/1 – Você tá contando da virada do três a dois.

 

R – Ah, do três a dois foi o Santos. Então, aí nós voltamos ao campo e logo tivemos a felicidade de fazer um gol, né? Aí fizemos o 2º, empatou, e fizemos o 3º. Eu, nesse dia, tive uma grande atuação.

 

P/1 – Isso foi no Campeonato de 48?

 

R – De 50. Tive uma grande atuação também no campo do Corinthians, lá na Fazendinha. E aquilo estava um lamaçal, choveu uma semana antes, era barro lá, né? Era tudo barro, as dependências lá eram “tudo barro”. Choveu, um lamaçal. E chovia. E nós jogamos lá, empatamos o jogo e eu tive uma grande atuação naquele jogo. Contra Palmeiras também eu tive uma grande atuação no Pacaembu.

 

P/2 – Eu estava justamente falando do Santos contra o trio de ferro, né?

 

R – O Santos estava junto não era... Porque o Santos nunca chegou. A classificação do Santos era 6º, 7º, 5º,  6º, 7º. Depois de 48 pra cima, aí o Santos começou a chegar perto. Em 48 fomos vice-campeões, 50 fomos vice-campeões. Não fomos campeões devido às circunstâncias de arbitragem, né?

 

P/3 – O senhor chegou a comentar sobre uma excursão que teve pro Norte, Nordeste.

 

R – É. O Santos jogou, eu não fui, eu não participei porque eu casei. O Santos embarcou no dia... Jogamos contra o Vasco, aqui, em novembro. O Santos embarcou, se eu não me engano, dia 20 de novembro. E eu casei no dia sete de dezembro de 46. Estava com o casamento marcado.

 

P/3 – O senhor participou de alguma excursão que o Santos fez?

 

R – Não, eu só participei quando fui diretor do Departamento Amador. Eu levei o juvenil ao Chile, a convite da Universidade Católica. Nós fomos convidados pra fazer um jogo lá com o juvenil da Universidade Católica. Eu chefiei a delegação do Chile e, nessa época, eu era diretor do Departamento Amador.

 

P/1 – Voltando um pouco nessa época de 50, veio muito jogador do Fluminense pra cá, né?

 

R – Veio, vinha muito.

 

P/1 – O Tite veio.

 

R – O Tite veio. Não, primeiramente... Quando o Picabéia veio, não. Foi em 46, se eu não me engano. Eu servi o exército em 46 e houve o Campeonato Paulista das Forças Armadas e eu prestava serviço no Gemac. Então, tinha a seleção do Gemac, do bombeiro então da região, em São Paulo. E o campeão de São Paulo jogou com o campeão em Santos. O Gemac foi campeão em Santos. Então jogava eu, jogava o Cassiano que jogou no Santos, jogava o Nelito do Jabaquara, jogavam diversos jogadores que jogavam nos clubes aqui. E nós fomos campeões estaduais e o Picabéia era treinador. E eu jogava no aspirante e o Picabéia então me viu jogar e gostou, tanto é que foi ele que praticamente me lançou, porque ele pediu a minha renovação de contrato ao Santos devido aquele jogo. Aí foi, então, quando eu comecei.

 

P/1 – E eu queria que o senhor falasse um pouquinho do Antoninho, né? O senhor jogou com ele?

 

R – Ah, o Antoninho era um jogador fora de série, né? Excelente jogador. Tanto é que ele sempre foi convocado pra Seleção Paulista. Eu só não fui convocado pra Seleção Paulista porque eu trabalhava. O nosso diretor, que era José Aflalo... Lembra do Aflalo? Ele disse: “Leonídio, olha, o teu nome foi cogitado pra Seleção, mas eu disse a eles que você não podia participar porque você trabalhava e não tinha condições de estar permanentemente lá em São Paulo. Você não foi convocado porque eu apresentei as razões pelas quais você não poderia participar, mas o seu nome foi cogitado pra Seleção Paulista”.

 

P/2 – Mas devia ter deixado perguntar pro senhor.

 

R – Mas eu não tinha condições mesmo de sair do escritório, pela função que eu exercia dentro do escritório.

 

P/1 – E senhor Leonídio, o senhor está tentando fazer um perfil do Antoninho a partir da recordação de pessoas que conviveram com ele. O senhor podia contar alguma passagem, algumas coisas que o senhor recorda?

 

R – Olha, passagem assim, essa passagem é triste porque nós perdemos praticamente o campeonato nesse dia. Jogava Santos e Portuguesa dos Desportos e dependia desse jogo pra nós ganharmos o Campeonato. Foi um sábado a tarde, jogava Santos e Portuguesa dos Desportos. Não vou comentar, como eu disse ao senhor não vou falar porque esse jogo deu uma série de atritos, entendeu? Porque eu chegava, eu ia entrar no escritório: “Leonídio o jogo está ganho, o jogo está ganho”; “Mas o jogo é sábado, onde que está ganho?”; “O jogo está ganho, o jogo está ganho!” e fomos pra São Paulo jogar. “O jogo está ganho.” Aí a Portuguesa dos Desportos, com aquele grande time que tinha... Fomos pro Pacaembu. Logo ali aos 8 minutos o Pinga... Um a zero. Entrou sozinho na minha cara chutou, fez o gol: um a zero. E nós estamos aí batalhando e a bola vai pra lá e bola vai e pá, pá, pá. O senhor está entendendo que eu estou falando? E a bola não entrava. Um a zero Portuguesa. Terminou o primeiro tempo um a zero. Vamos pro segundo tempo, o Alemãozinho empata a partida, mas depois de bater, bater até que saiu o gol. Está um a um o jogo e pá, pá e o Antoninho foi reclamar do juiz de uma jogada e o João Antonio foi expulso. Já uma partida difícil pra nós e o Antoninho foi expulso. Um a um e nós com dez, faltavam três minutos pra terminar a partida, vem o 109 lá da ponta direita, faz uma falta na entrada da grande área. Simão bate, o Nininho entra de cabeça: é dois a um. Perdemos o jogo. Menino, o que aconteceu! Um bate boca tremendo, porque todos pensavam que o Santos, com o time que tinha, tinha por obrigação ganhar o jogo e perdemos. Essa que foi a realidade. O Antoninho expulso de campo era... O melhor jogador do time era o Antoninho e perdemos o Antoninho na metade do segundo tempo. Quer dizer, fez uma falta enorme. E com isso nos prejudicou, porque se nós tivéssemos ganhado aquela partida, provavelmente seríamos campeões. Porque o último jogo era aqui na Vila Belmiro contra o Ipiranga. Quer dizer que tinha toda possibilidade de ganhar o jogo.

 

P/2 – Qual a sensação de tomar um gol?

 

R – Olha, a sensação é a seguinte: quando é uma bola indefensável, você se conforma. Agora, quando você falha é triste, viu: “Pô, como eu fui deixar passar essa bola! Uma bola fácil de pegar!” Entendeu? Isso dá reflexo nos companheiros, como também quando você faz uma boa defesa reflete lá nos companheiros na frente. Então dá aquele ânimo de você jogar porque: “Bom, lá atrás é...” Eu, quando entrava em campo eu dizia: “Olha, vocês fazem um gol na frente que eu garanto aqui atrás.” Eu dizia pra eles: “Faz um gol lá que eu garanto aqui”.

 

P/2 – E a sensação de defender um pênalti?

 

R – Ah, é formidável!

 

P/2 – O senhor defendeu?

 

R – Defendi. Jogava Santos e Juventus na Rua Javari, houve três pênaltis: dois pro Juventus e um pro Santos. O primeiro pênalti a favor do Juventus eu defendi, aí houve um a favor do Santos, o Odair chuta, o Caxambu, se eu não me engano acho que era o Caxambu o goleiro, defende. Terceiro pênalti contra o Santos já quase no final da partida, não lembro quem bateu. Quem bateu chutou fora. Três pênaltis, não entrou nenhum. Ficou zero a zero.

 

P/3 - O senhor lembra o ano do título?

 

R – É, foi nessa época mesmo, desse campeonato mais ou menos em 50.

 

P/1 – E qual é o segredo de defender um pênalti?

 

R – É você ter intuição, porque hoje o goleiro se mexe pra cá pra lá. Antigamente você ficava plantado ali, você ficava só assim. E você diz: “Bom, ele vai chutar no canto direito.” Você vai no canto direito. Se pegar, você pega, se não... Porque defender pênalti é loteria.

 

P/2 – O Taffarel sai antes, pula, né?

 

R – Você fica assim, você ficava parado assim entendeu? Pra tirar a visão do atacante, né?

 

P/2 – Como é que o goleiro jogava com bola de capotão sem luva?

 

E – Ah, veja bem, antigamente não tinha luva. O Santos era um... Na época o Santos tinha dificuldade até em material. Eu não vou falar... Nós não tínhamos nem material pra treinar, jogava com camisa, com roupa. Se vocês vissem as minhas camisas aí que eu treinava, aqui tudo rasgada. O Santos não tinha poder aquisitivo naquela época, entendeu? O Santos tinha dificuldades pra manter, porque não havia patrocínio. Hoje o futebol, os clubes tem patrocínio. Então o clube praticamente, em material de esporte, não gasta nada. O patrocinador oferece tudo: é bola, é camisa, é chuteira, é meia, é roupa de treinamento. O que nós não tínhamos naquela época.

 

P/1 – E como é a coisa de, que ele tinha perguntado, como é jogar sem luva? Faz diferença?

 

R – Olha, eu acho que com luva complica mais, viu! Porque eu jogava sem luva e com o campo molhado, bola de capão, como se chamava na época, né? Aquelas bolas que você passava o cordão no bico. E aquelas bolas eram bolas ovais. As bolas que a gente jogava não tinha condições de jogar assim. Ela fazia bico. Se ela não fosse bem amarrada ela formava bico. Até pra pegar tinha dificuldade, se ela batesse de bico ela fazia efeito. Hoje não. Antigamente a posição de goleiro...

 

P/1 – Só gostaria de fazer uma pergunta. Eu queria saber do senhor quem são os atacantes da época mais perigosos que o senhor já enfrentou?

 

R – Ah, nós tínhamos grandes equipes, São Paulo.

 

P/1 – Leônidas?

 

R – Enfrentei o Leônidas aqui na Vila Belmiro. Palmeiras com Lima, Canhotinho, Waldemar Fiuno, Oberdan. Tem outros mais, porque a equipe do Palmeiras é uma senhora equipe. Do São Paulo, do Corinthians também eram grandes equipes. Então... O próprio Ipiranga tinha uma boa equipe que dava trabalho pra nós. Então, independente dessas grandes equipes, as equipes de menor categoria, quando nós íamos pro interior era difícil pra nós também. Em Piracicaba, naquele campinho pequeno que o alambrado é quase dentro do campo, você sofre muito ali. Eu, pessoalmente, sofri muito ali. Xingaram a minha mãe de tudo quanto era nome, entendeu? Mas a gente está na profissão, está jogando, né? Você tem que aceitar o que eles falam, o que não é... Mas tem grandes equipes.

 

P/1 – O senhor manteve alguma escrita, assim, em relação ao atacante que nunca conseguiu fazer gol no senhor?

 

R – Ah, não.

 

P/1 – Não se lembra, né?

 

R – Não lembro não. Tinha, na época em que nós estávamos jogando, tinha um jogador, se eu não me engano até ele dava um prêmio pro goleiro que defendesse chutes. Não lembro quem era o jogador, não lembro não. Mas grandes equipes, não só profissionais como aspirantes, tinham grandes equipes. O time aspirante do São Paulo era hoje uma equipe de Palmeiras, São Paulo, Corinthians. Ieso foi pra França, Teixeirinha, Leopoldo, André, Jacó - lateral esquerdo. Então eram grandes equipes no aspirante do São Paulo, tanto é que todos jogadores foram profissionais. O Ieso foi pra França e fez nome na França, Ieso Amalfi.

 

P/1 – Ieso Amalfi.

 

R – É.

 

P/1 – Jogou na Argentina.

 

R – É, então. Nós tivemos grandes jogadores aqui no futebol paulista.

 

P/2 – Se o senhor não tivesse se contundido, o senhor tinha jogado até 56, 57 né?

 

R – Eu naturalmente pegaria a época do Pelé, com certeza.

 

P/2 – Chegaria lá.

 

R – Chegaria lá.

 

P/2 – E como foi com os meninos do juvenil? Vamos falar aí quando o senhor era diretor. Como que se formou esse time?

 

R – Não, nós tínhamos...

 

P/2 – Tinha sido 73, 74.

 

R – Era o juvenil 78, que eu falei sobre 78. Começou quando nós tínhamos um... Era chamado Aspirante e o nosso Aspirante era bom: Joari, Pita, Zé Carlos, Claudinho. Bom, agora me falha a memória. E jogou Santos e Náutico no Pacaembu e o Santos perdeu pro Náutico, se eu não me engano dois a zero ou dois a um.

 

P/2 – O time titular?

 

R – Titular. Aí foi quando houve a renovação: tiraram os titulares e puseram toda a garotada e deu certo.

 

P/2 – Os titulares eram o pessoal do mesmo time de 74?

 

R – Tiraram e puseram Vítor no gol, que o Vítor veio de Minas, né? O Vítor no gol e mesclou com essa garotada nova aí. Deu certo e o Santos foi campeão.

 

P/1 – Qual a função do senhor aqui no clube na época?

 

R – Na época eu era diretor do Departamento Profissional na gestão do Rubens Quintas. Eu, Rubens Marino também.

 

P/1 – O que fazia um diretor de futebol?

 

R – Bom, o diretor de futebol ele tem um relacionamento com o atleta. Eu praticamente, eu vinha quase todo dia aqui pra... Vinha aqui e saía a noite. Saía quando o presidente chegava à noite, que era o Quintas, então eu esperava. Eu conversava com ele a respeito do departamento, o que tinha acontecido, o que não tinha acontecido, o que o jogador pediu, o que ele não pediu, o que ele estava precisando. Então é um assessor do presidente dentro do futebol, entendeu? Essa que é a função.

 

P/2 – O que mudou entre o seu tempo, que o senhor era jogador, fim da década de 40, e os jogadores...

 

R – Não, 40 não. Eu comecei em 44 né.

 

P/2 – Fim da década de 40, 44... Entre seu tempo e o tempo desses jogadores que o senhor dirigiu, quando o senhor era dirigente. Qual era a diferença, o que tinha mudado aí, ou não mudou nada?

 

R – Não mudou. Do jogador de 78 já era mais exigente do que o jogador de 44. Hoje o clube já tem mais condições para oferecer ao jogador, naquela época não tinha. Quando o jogador era convocado pra uma Seleção, quando ele retornava ele exigia reajuste. Nós tivemos jogador que disse que nós tínhamos prometido pra ele um aumento de contrato, coisa que ninguém ventilou nem cogitou. Quando ele veio da Seleção, disse que nós tínhamos prometido pra ele um reajuste. Absolutamente nem vou dizer o nome do jogador, não vou falar porque... Mas foi jogador que foi convocado pra Seleção Brasileira e no retorno ele estava exigindo coisa que nós nem oferecemos.

 

P/2 – O pessoal tinha menos amor à camisa do que na sua época?

 

R – Jogava-se com mais amor à camisa na época em que eu joguei. Hoje prevalece o dinheiro, porque hoje o jogador ele quer dinheiro. Na nossa época não era assim, era diferente, jogava com amor à camisa. Eu joguei nove anos no Santos por amor a camisa. Eu não jogava por jogar, eu jogava porque gostava de jogar pelo Santos. Hoje não, hoje o jogador vem aqui, faz seis meses... Tanto que o contrato hoje é de três, seis meses. Jogador joga aqui, pega dinheiro aqui, vai lá, amanhã está lá pegando dinheiro lá. Não sou contra isso, porque é a profissão dele, ele vive disso. Jogador de futebol tem um tempo determinado, principalmente se você sofrer uma contusão como eu sofri que você é obrigado a parar. Hoje o jogador é mais instruído. Antigamente não era. Viviam só do futebol e não faziam nada, ficavam numa vida ociosa. Então você treinava duas vezes por semana, o resto ficava aí. Hoje não, hoje o profissional é tempo integral, é concentração. Até eu acho que hoje o jogador sofre mais, porque hoje é regime profissional, hoje você vê que tem jogador aí que fica semana e semana sem ver a família. É concentração, é viagem, concentração, viagem. Hoje é profissionalismo.

 

P/1 – E o futebol é melhor ou pior?

 

R – Olha, eu não vou dizer se é melhor ou pior. Eu acho que é de época. Na minha época o futebol era bom, era gostoso de se ver, era gostoso de assistir. Não havia tanta falta, não havia tanta expulsão, não havia tanta agressão. Então eu acho que na minha época o tipo de futebol era gostoso de se apreciar e de se ver. Hoje o sistema também... A tática hoje também influi muito. Hoje jogam com dois volantes, jogam com quatro zagueiros. Hoje é diferente o futebol, o treinador joga pra não perder o emprego, (risos) essa que é a verdade.

 

P/2 – Pensei que era pra não perder o jogo.

 

R – Não, pra não perder o emprego, porque se ele perder dois jogos ele está dispensado. Essa que é a verdade. A não ser que ele tenha um contrato que a multa seja muito elevada, então o clube pra dispensar tem que dar o que estiver no contrato.

 

P/1 – Senhor Leonídio, a gente vai fazer a entrevista com o Rubens Quintas, a gente tem poucos dados sobre ele ainda, estamos levantando. O que é que o senhor nos poderia falar sobre ele?

 

R – Bom, ele era um presidente que gostava das coisas certas, ele exigia do atleta, porque o Quintas nunca atrasou pagamento do jogador. O Quintas nesse ponto era firme, era honesto, entendeu? E eu lembro até uma passagem que o Nilton Chaves era o treinador do Santos, eu era diretor do Departamento Profissional. Nós estávamos concentrados, se eu não me engano em Bauru, e um determinado jogador foi reclamar. Estava eu e o Quintas tomando um aperitivo num apartamento e foi um determinado jogador falar com o Quintas que ele queria saber porque que o treinador não escalava ele. A resposta do Quintas: “Você vai perguntar ao treinador, não a mim. O treinador é que vai te dizer porque que não joga, não sou eu.”, foi a resposta do Quintas pra ele. Por que é que o treinador não escalava ele, foi perguntar pro Quintas: “Então vai perguntar pro treinador! O treinador que escala o time. Não sou eu”.

 

P/1 – E qual é o temperamento dele?

 

R – O Quintas?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, ele é muito brincalhão. Bom, o que tem que falar ele fala, mas é uma excelente pessoa. O Quintas é uma excelente pessoa, é assim.

 

P/1 – Ele também teve um passado assim de futebol, ele jogou bola também?

 

R – Olha, se ele jogou eu não sei, ele pode ter praticado na várzea também, como eu pratiquei. Não sei se ele praticou, mas eu não tenho a mínima idéia se ele foi jogador de futebol, não tenho idéia mesmo. Nunca perguntei pra ele se ele tinha sido jogador de futebol. Porque ele tem seus afazeres, é diretor de uma firma, de uma loja em que ele não tem tempo, né?

 

P/1 – Ah, ele era diretor de uma loja?

 

R – Da Quintas.

 

P/2 – Eu fui colega do filho dele.

 

R – Da Quintas e Companhia Ltda. São diversos irmãos, eram três. A mulher do Quintas era crooner, de orquestra, mas é assim.

 

P/1 – E ele tinha um perfil mais de político, de administrador...

 

R – Administrador. Ele sendo dirigente de uma empresa ele tem que ser administrador não político. Ele nunca foi político, acredito eu.

 

P/1 – E senhor Leonídio, pra gente terminar a nossa conversa que foi muito boa, nos elucidou muitas coisas do Santos, que conselho, que mensagem o senhor passaria aí pros futuros goleiros do time do Santos?

 

R – Olha, é meio difícil de dar essa mensagem porque...

 

P/1 – Com o que é que eles têm que se preocupar mais?

 

R – Eu acho que você, pra vencer, não só o goleiro como o atleta, ele tem que ser humilde, respeitar as instruções do treinador e dos seus dirigentes. Isso é importante pro atleta. Ele fazendo isso, ele está conquistando um grande caminho. Não adianta ser rebelde, não leva a nada, entendeu? Eu fui jogador, fui goleiro, fui humilde, quando era afastado da equipe não reclamava, eu apoiava meu companheiro, desejava sorte a ele. E quando retornava eu tinha o mesmo carinho, teve... Está gravando? Ah, então não vou falar. Quando eu assumi... Que eu era o reserva, eu era o 4º goleiro. E quando eu assumi o time de cima, o jogador que estava na posição chega pra mim e diz: “Olha, vamos dividir o bicho.”, eu digo: “Pô, você jogou aí, ganhou. Eu era o 4º goleiro, vocês não se lembraram de mim, agora quer que eu rache o bicho contigo?” Eu disse: “Luta pela posição!”. Foi que eu respondi pra ele. Queria que eu dividisse o bicho com ele, porque ele perdeu a posição e peguei. E respondi pra ele isso aí: “Luta pela posição!”.

 

P/2 – Ficou bravo.

 

R – É, quer dizer, eu era o 4º goleiro, ninguém se lembrava de mim, que eu era o titular do Aspirante. Depois que eu assumi o time de cima, ele vem pedir pra eu dividir bicho. Não tem nem cabimento! Eu disse: “Luta pela posição!”. Foi o que eu respondi pra ele. São coisas que a gente passa. Eu também não fiquei zangado com ele, acho que ele está no seu direito de pedir, de solicitar, só que eu não aceitei a proposta dele.

 

P/1 – E nesse tempo de Santos o senhor lembra de alguma situação engraçada, anedótica, que o senhor presenciou, que ouviu contar?

 

R – Olha, anedota não tenho, mas quando eu era diretor de futebol nós tínhamos um goleiro que veio do Rio que ele chegava sempre atrasado pra embarcar. E eu estou sentado do lado dele no ônibus. Nós íamos viajar e ele chegou atrasado. Quase que nós embarcávamos sem ele. Nós íamos até pegar um goleiro do amador, estava na concentração lá, porque o amador ficava na concentração. Ele ficou todo nervoso: “Essa porra!”. Ele chegou atrasado, quando nós passamos ali pela Rua Eurico Murça, ele pegou o relógio e pá, jogou dentro do canal: “Pô, esse relógio aqui não sei o que... Porque estou sempre atrasado”. Então ele jogou a culpa no relógio. Pegou o relógio, jogou dentro do canal ali na... Quando o ônibus passou ali na Eurico Murça, ali que ele fez o contorno que ia pra São Paulo, ele jogou o relógio dentro do canal. Isso foi pra justificar o atraso dele, né! Sabe quem foi? O Paz. (risos) Foi o Paz. Lembra do Paz, o goleiro? Ele veio do Rio, né?

 

P/1 – Veio.

 

R – Veio do Rio. São coisas que acontecem. Ele, pra justificar o atraso, disse que foi o relógio: “Essa porcaria!”, pegou e jogou o relógio no canal.

 

P/1 – Está lá até hoje.

 

R – Está lá até hoje.

 

P/1 – Seu Leonídio, eu queria agradecer então aí seu depoimento, vai ser muito aí pra história do Santos.

 

R – Não sei se essa entrevista é aquilo que vocês esperavam, eu contei aquilo que...

 

P/2 – Olha, o senhor tem uma visão boa dentro de um período importante, que pouca gente tem informação dessa fase. Pessoal fala do tempo do Pelé.

 

R – Tem que falar de mais atrás, né?

 

P/2 – Pois é! O senhor deu informação de 44 até, que é uma fase importante, informação antiga e que pouca gente é que sabe.

 

R – É porque a base, a base nasceu desse período. A base pro Santos ser o que foi e o que é, nasceu dessa equipe, a base.

 

P/1 – Agora, a última coisa, pra gente encerrar mesmo: como que o senhor se sentiu sendo entrevistado pelo Museu do Santos e contando aí a sua história?

 

R – Olha, sinceramente, eu vou falar a verdade, eu não sou de mentir, porque eu não gosto de mentira. De principio eu não queria fazer essa entrevista, não queria. Eu resolvi fazer essa entrevista hoje.

 

P/2 – Que sorte a nossa.

 

R – É, não porque eu não quisesse fazer, a minha filha que disse: “Poxa pai, o senhor vai deixar de fazer essa entrevista? Seus netos, isso é uma recordação pra eles! Vai pai!”. Porque eu não era amigo de entrevistas, porque eu não gostava de falar em rádio. Eu me esquivo. Quando vinha um repórter tal, eu já procurava me esquivar, porque eu não queria ser entrevistado. Uma que eu não tinha intimidade com o microfone...

 

P/2 – Engano seu.

 

R – Não tinha intimidade com o microfone não, porque a gente é garoto, é inexperiente. Você fala às vezes que você não deve falar, às vezes eu falo aquilo que eu não devo falar. Então eu tinha medo de fazer entrevistas com medo de fazer qualquer coisa que pudesse ofender alguém ou prejudicar alguém. Aí minha filha disse: “Poxa pai, o senhor tem tanto recortes lá em casa, por que é que o senhor não apanha, não leva?”. Aí eu disse, porque eu tinha... Eu disse pra Márcia que eu tinha consulta médica marcada e que eu transferi. Tanto é que transferi pro dia um e dia dois, está marcado até aí no envelope, porque fiz... Não está gravando, né?

 

P/1 – Está.

 

R – Porque todo ano eu faço um check-up, já está chegando numa certa idade que você precisa ver como está o seu organismo, a situação. Todo ano eu faço check-up. Este ano, infelizmente, meu check-up acusou alguma coisa que eu fiquei até admirado, porque eu acredito que estou com boa saúde e o resultado me deu anemia no sangue e eu... Tanto é que vou pedir ao médico pra fazer um novo exame. Porque todo check-up que eu tenho o médico fica admirado: “Pô, Leonídio, você está com uma saúde de jovem!”. Eu não tenho colesterol, não sou diabético, não tenho ácido úrico, estão aí os meus exames todos. Não tenho nada! E agora, nesse ultimo exame que eu fiz agora em janeiro, ele deu uma pequena alteração no sangue. E o médico diz que é anemia, então pediu outros exames. Agora estou meio preocupado porque nunca tive esse problema. Todo check-up meu é normal, pressão 12/8... Desde que me conheço é 12/8, nunca houve alteração. Não tenho colesterol, estou abaixo do normal, não sou diabético, não tenho ácido úrico, não tenho nada e agora deu uma pequena...

 

P/1 – Mas o senhor, apesar de não querer dar a entrevista, deu uma boa entrevista.

 

R – Não acredito que tenha sido tão boa assim.

 

P/1- Foi, foi muito boa! Nós entrevistamos vários jogadores, a do senhor foi da média pra cima.

 

R – Está bom.

 

P/1 – A gente agradece muito o senhor.

 

R – Muito obrigado então pela entrevista, né, porque sinceramente eu sou avesso a essas coisas, eu não gosto de aparecer. Eu gosto de fazer as coisas do meu modo. Tem pessoas que assumem uma função, querem aparecer. Fui presidente do sindicato e eu não ia em jornal, eu não ia em televisão, eu fazia minha função dentro do sindicato. Fui diretor de futebol do Santos, a mesma coisa. Teve um repórter aqui que chegou a dizer...

 

P/1 – Vamos terminar a entrevista aí com o Seu Leonídio França e esperamos aí encontrar com o senhor mais vezes para ouvir mais histórias.

 

R – Eu que agradeço e deixo a disposição dos senhores qualquer coisa que venham precisar de mim.

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