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Golden Boys Futebol Clube

História de: Francisco Regis Benicio Crus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/06/2014

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História completa

  Eu sou mais um pássaro que sempre voa, né? Voa para o mundo pra poder sobreviver às dificuldades da vida, à divisão social do nosso país. Fica muito difícil pra quem vive na pobreza.  Eu não conheço meus pais biológicos, isso me afeta muito, eu fico muito emocionado. Na época quando comemora o Dia das Mães, Dia dos Pais e também no Reveillon, os outros eu tiro tranquilamente, mas são as datas que me marcam muito porque eu não conheço a minha família biológica. Eu sempre busco, mas eu não encontro. Agora, a família que me criou, me adotou, me tiraram do orfanato lá de Maranguape. Inclusive eu sou fanzão do Chico Anysio, sou de lá, né? (risos) E me tiraram de lá e me trouxeram pra Fortaleza, capital. Como ele tinha uma fábrica me levaram também pra morar no interior, que é Pindoretama, e me registraram lá. Enfim, eu fui me adaptando com a cidade, criança, tal. Depois fiquei adolescente, trabalhei no canavial, ele tinha fábrica de produtos, de doces, minha família adotiva. E com o tempo a família foi evoluindo, teve muita prosperidade. São Paulo, Belém, Recife, Natal, tudo comprava os produtos dele, mas depois, com o tempo, eu fiquei assim meio afastado porque eu queria trabalhar. Ele me tirou muito cedo da escola para trabalhar no pesado, foi um grande erro da vida dele, mas, mesmo assim, eu sempre o respeitei e dei valor aos conselhos dele. A grande falha dele foi essa, ter me tirado da escola e tirou do que eu gostava também, o futebol. E a vida ficou por isso mesmo. Depois a minha mãe faleceu, a minha família adotiva foi muito cruel comigo, mas por causa disso eu não tenho receios, pelo contrário. No tempo eu achava bem melhor, hoje não, hoje tá mais difícil criar os filhos. Depois eles foram embora pro outro lado da vida e eu vim pra Fortaleza tentar uma vida melhor. É muito difícil morar na capital com pouco estudo. Quando eu estava com 19 anos eu que cuidei da fábrica dele, fui o gerente, fui tudo pra ele. Mas houve desentendimento das filhas dele, as cinco filhas que são minhas irmãs, achavam que eu ia usar de má fé. Então eu saí fora sem problema, pedi pra Deus ajudar elas todinhas e eu vim pra cá pra Fortaleza por esse motivo. E até hoje estou aqui.

  Quando cheguei aqui eu tive que morar na rua, passei 15 dias na rua, na Praça Coração de Jesus que fica ao lado da Praça da Criança e foi uma vida difícil. Uns 15 dias depois apareceu um cidadão que teve compaixão de mim e abriu uma porta para eu morar, reservou um quarto e eu fiquei lá uns dois anos. Eu consegui trabalho de contínuo, deu certo aqui no centro e eu comecei a evoluir toda a credibilidade, tudo. Depois eu consegui um trabalho melhor, de balconista em supermercado. Depois saí de lá, fui trabalhar de vendedor. Depois de vendedor tive que ir pra São Paulo, pra conhecer São Paulo, passei lá oito anos, aí tinha uma namorada aqui, então nós fizemos uma família. Eu fui primeiro pra depois meu filho mais velho poder ir. Eu não poderia levar ela assim, né? Eu saí sem dizer nada pra ela e ela perdeu o contato por causa disso. Aí pronto. Quando meu filho completou um ano eu paguei a passagem, trouxe, dei todo o amparo pra ela ficar bem confortável, aluguei uma casa. Depois ela entendeu, pensava que eu tinha abandonado eternamente e aí fiquei. Depois veio nascer outro garoto, nasceu lá em São Paulo. E de repente bateu a saudade da família dela e ela resolveu vir pra cá e eu tive que vir pra cá. E foi pior ainda porque eu tive que criar sozinho os dois filhos porque ela abandonou, né? E ficou por isso e pronto. E hoje eu estou com eles, virei pai, mãe, já estão rapazes. Eu fiz esse projeto Golden Boys Futebol Clube e pra mim é uma satisfação imensa ter esse projeto, não só para eles, mas para todas as famílias, porque é um exemplo.

  O Golden Boys surgiu no meio da pista, na periferia É muito complicado lá em Messejana, muito complicado. Era a terceira mais perigosa do Brasil, levada com São Miguel. São as duas facções, Conjunto São Miguel, mas tem várias facções que dominam aquele território e aí se expande na capital. Já vi muitos garotos de oito anos, já cuidei de filhos dos outros, fiz de tudo pra poder ajudar eles. E por aí se vai, meus filhos foram. Eu tive essa ideia. “Puxa vida, se Deus me deu um emprego, acho que eu tenho que falar mais alto nessa cidade”. Então eu resolvi fazer isso, arcar do meu bolso todo o amparo e começou a evoluir. Comprei as travinhas. E o que chamou mais atenção das famílias foram as músicas que eu fiz e as famílias foram agregando, gostando. A gente ficava no meio da pista, as famílias sentadas, tudo. Foi muito bacana, foi gratificante. Depois eu tive que mudar para outro bairro porque eu ganhei uma casa, Deus honrou esse compromisso comigo, e eu fui evoluindo mais ainda. Fui para o campo de futebol, saí das travinhas e fui para o campo. E agora eu to aí cuidando de crianças, adolescentes e talvez vá ter o time feminino. Que esse projeto veio pra resgatar os valores do passado, das décadas de 60, 70, 80 porque hoje não tem mais os valores, é muito difícil hoje encontrar um valor de família, né? Porque pra colocar um filho no mundo é bom, agora cuidar é uma coisa muito especial, né? Eu tive a coragem de fazer isso, as crianças estão comigo.

  Das músicas tem o hino oficial “Golden Boys Futebol Clube, guardo sempre no meu coração. Tu tens glória e tradição, és amado, aplaudido por essa nação. Golden Boys garoto travesso, sua vida é jogar e vencer também. Tu tens fabuloso esquadrão, onde estiveres contigo eu estou, sempre te amarei”.

  O meu sonho é de levar um filho meu pra ser profissional, sabe? Atleta cidadão profissional. E levar também os meus filhos do futebol, que eles chamam de pai, né? O meu sonho é esse, realizar esse projeto para o Brasil inteiro conhecer esse projeto. Eu gostaria que o Golden Boys estivesse lá em São Paulo. Eu gostaria que o Golden Boys Futebol Clube estivesse lá no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, tivesse em Belo Horizonte, enfim, em todo Brasil. E ano que vem estamos com um projeto de ir pra Recife. Estou juntando dinheirinho do meu bolso pra pagar o transporte, nós vamos bater lá, certo? Então nosso sonho é esse, de levar, crescer...

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