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Gol de raquete

História de: Jérémie Dron
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/01/2019

Sinopse

Jérémie vinha ao Brasil com a mãe para visitar a família, mas não saía da casa da avó e não sabia falar português. Após o mestrado na França, decide dar uma pausa: antes de começar o doutorado, quer realizar um trabalho voluntário. Decidiu vir ao Brasil e descobrir o país e a língua do zero. Nesse processo de descoberta do país, conhece a Fundação Gol de Letra e se torna professor de tênis voluntário. É o início de uma história que dura vários anos.

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História completa

 

P/1 – Bom dia, Jérémie.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Obrigada por você ter aceitado o nosso convite. Pra começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Jérémie Nicoläe Dron. Eu nasci na cidade de Melun, no dia treze de fevereiro de 1977.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é o Sever Constantin Dron e minha mãe é Alice Amália... Ai, desculpe. (risos) Alice Amália Samarão Guimarães.

 

P/1 – Como é que é? Alice...

R – Alice Amália Samarão Guimarães.

 

P/1 – Qual é a atividade profissional dos seus pais?

 

R – Meu pai foi jogador de tênis profissional, depois técnico e hoje está sempre nessa área do tênis, organizando torneios, cuidando desses assuntos. Minha mãe é aposentada hoje, ela foi... Trabalhou com contabilidade também numa... Na Federação de Tênis Francesa.

 

P/1 – E qual é a origem dos seus pais?

 

R – Meu pai é romeno, minha mãe é brasileira e... Bom, a minha família é um pouco... Uma história um pouco maluca: a minha avó mora no Brasil, é brasileira, só que meus bisavós eram russos...

 

P/1 – ... Peraí, sua avó materna, né?

 

R – Minha avó materna. Meus bisavós eram russos, fugiram da Rússia. No caminho, minha avó nasceu, em Berlim. Foram morar na França.

Na época da guerra, como a gente tem uma origem judaica, eles fugiram também da Europa e vieram pro Brasil. Encontrou um brasileiro e aí nasceu minha mãe no Rio, morou em São Paulo...

 

P/1 – Ah, seu pai estava por aqui então? Aliás, a sua avó estava por aqui?

 

R – A minha avó estava por aqui. Morou na França, depois foi pro Brasil e encontrou um brasileiro lá.

 

P/1 – É a sua avó então...

 

R – É minha avó.

 

P/1 – Isso. Você sabe como a sua mãe, o seu pai...

R – Olha, eu não sei exatamente, mas eu... Meu pai era jogador de tênis, então veio muitas vezes pro Brasil fazer campeonato, jogar a Copa Davis, campeonatos importantes... Minha mãe trabalhava numa companhia aérea, a Air France, e se encontraram numa das viagens do meu pai. Como o meu pai era romeno e na Romênia era uma ditadura muito forte, ele fugiu da Romênia e combinou com a minha mãe pra se encontrar numa praça em Paris. Acho que se encontraram e falaram: “Um ano depois a gente se encontra nessa praça.” E um ano depois se encontraram na praça em Paris. (risos)

 

P/2 – Que lindo!

 

P/1 – Nossa! Aí a sua mãe foi viver na França?

 

R – Foi viver na França.

 

P/1 – E aí depois que vão aparecer vocês?

 

R – Depois eu apareci, um pouco depois. (risos)

 

P/1 – (risos) E quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho um irmão da mesma mãe e do mesmo pai e um irmão do mesmo pai. Então são dois irmãos.

 

P/1 – Esse irmão do mesmo pai é o mais velho?

 

R – É o mais velho.

 

P/1 – Então ele casou antes e depois que ele...?

 

R – Ele casou na Romênia, teve um filho na Romênia. Quando fugiu não pôde levar a família junto, então a história dele acabou tendo um outro casamento com a minha mãe.

 

P/1 – E qual o nome dos seus irmãos?

 

R – O meu irmão mais velho é o Alessandro e meu irmão do meio é o Thomas.

 

P/1 – Então são só três mesmo?

 

R – Três.

 

P/1 – Pensando um pouco na sua infância, Jérémie, como era a casa? Você falou que tinha mudado muito. Quando você era pequenininho, como era a sua casa?

 

R – Eu morei em várias casas porque o meu pai mudava de local de trabalho, então a gente mudou bastante. Eu lembro de uma casa em particular, que era uma casa num vilarejo francês, no interior do estado de Paris, bem tranquilo, muitos poucos habitantes. Era uma casa de pedra, com dois andares e um quintal muito grande. A gente tinha até uma horta e uma pessoa que cuidava da horta. Eu lembro também de a gente ter uma outra casa no mesmo estilo e depois a gente foi pra apartamentos. A maior parte da minha vida eu morei em apartamentos, perto de Paris mesmo.

 

P/1 – E essas mudanças, como eram? Você fazia amiguinhos e já mudava... Você teve um grupo de amigos?

 

R – Não, era difícil fazer um grupo de amigos realmente. Os amigos próximos que eu tenho hoje são da parte da minha vida em que eu fiquei mais estável nesse sentido, que eu fiquei mais perto de Paris, lá no apartamento, aí estudei, fiz o colegial, essas coisas. Criei um grupo de amigos mais forte, mas nessa época não. Nessa época, lembro que me apaixonei pela professora, no maternal, como todo mundo se apaixona. (risos) Fiquei muito triste quando fui embora. Depois eu fui... Acabei o maternal numa outra cidade e lembro que me apaixonei também por uma menina lá. Foi um escândalo quando a gente foi embora. Mas eu acho que criou um certo desapego com as pessoas onde eu ia morar pra justamente não... Pra ir me acostumando com esse fato de mudar sempre.

 

P/1 –Você disse que essas mudanças tinham a ver com o trabalho do seu pai?

 

R – Tinham a ver com o trabalho do meu pai.

 

P/1 – E como era esse trabalho do seu pai?

 

R – Meu pai, depois dele ter encerrado a carreira como jogador de tênis, foi trabalhar como técnico e como professor. E nesses trabalhos ele sempre mudava os jogadores: era um jogador, dois meses depois era um outro jogador, então a base de treinamento, o clube de tênis onde ele atuava era sempre diferente. Então a cada... Não sei nem dizer, mas acho que a cada seis meses, alguma coisa assim, a gente mudava pra outro local...

 

P/1 – E de brincadeiras que você se lembra quando era pequenininho? Do que é que você brincava?

 

R – Eu não lembro muito bem do que é que eu brincava... Bom, a família sempre brincou de tênis (risos), isso é um fato, não tem como escapar! Eu não lembro muito bem, acho que eu brinquei de Lego, essas coisas, quando todo mundo brincava... Eu brinquei... Com meu irmão - no início a gente ainda brincava junto, porque a gente tem dois anos e meio de diferença, então a gente morou junto e ainda brincava muito junto. Hoje o que nos une mesmo é, além do laço familiar, o esporte. No resto, a gente seguiu caminhos bem diferentes, a gente não tem tantas afinidades em outras coisas. Mas brincadeira, não me lembro muito bem... Bolinha de gude na escola, eu lembro que a gente fazia campeonato disso no recreio...

 

P/1 – Você está falando de escola. Você lembra então da primeira escolinha em que você entrou? Ou também foram muitas escolas? (risos)

 

R – (risos) Foram muitas! A primeira escolinha em que eu entrei, eu não lembro muito bem dela, mas foi nessa em que eu me apaixonei pela professora. Eu lembro que era muito perto da minha casa, era aquela casa de pedra, a gente ia a pé e era um vilarejo tão pequeno, que em dez minutos de caminhada a gente estava em outro local...

 

P/2 – E o que é que a professora tinha de especial?

 

R – (risos) Não lembro, não sei... Ah, eu acho que o carinho que ela dava pra nós, provavelmente isso que fez que eu vinculasse uma paixão por ela. (risos)

 

P/1 – E isso foi o maternal, né?

 

R – É.

 

P/1 – Como foi o seu processo na escola, a sua evolução na escola?

 

R – Minha evolução em que sentido?

 

P/1 – É, do maternal você estava nessa escola, depois você fez o colégio...

 

R – ...Ah, o maternal... Aliás, nessa escola eu agora me lembrei de um acontecimento: o meu pai ia ensinar tênis nas escolas de vez em quando, ele ia fazer clínica, uma coisa assim. E uma vez veio na minha escola, então era o filho do professor, e eu fiquei muito bravo porque eu não consegui fazer as coisas...

 

P/1 – Mas foi uma surpresa, ninguém sabia que você era o filho...?

 

R – Não, todo mundo sabia...

 

P/1 – Já sabia antes, inclusive?

 

R – Não, antes acho que não. Acho que quando ele veio é que todo mundo ficou sabendo. Mas o meu percurso na escola foi... Eu não lembro exatamente, eu lembro que... No maternal acho que eu fui em duas escolas diferentes. Depois teve acho que foi o ensino médio...

 

P/1 – Que seria o tal fundamental, que a gente...

 

R – Fundamental eu acho que eu fui em duas também. Só no colegial que realmente eu fiquei no mesmo lugar. No colegial e... Isso! Aí eu fiquei na mesma escola. A gente já tinha se estabelecido mais. Meu pai tinha parado de ser técnico, trabalhava num lugar só, então foi mais estável essa época.

 

P/1 – Dessa época você tinha uma disciplina, uma matéria preferida, uma área que você já estava pensando...?

 

R – Bom, educação física eu sempre gostei... Não, acho que nessa época, até o colegial, início do colegial, os estudos eram uma coisa muito tranquila, muito fácil, não tinha nenhum tipo de dificuldade realmente. Não tinha também nenhum tipo de matéria que eu gostava mais. O que eu gostava menos, talvez, era História, Geografia, essas coisas, mas o resto era tudo mais ou menos tranquilo. Eu tinha facilidade em inglês porque viajava com meu pai, então aprendi a língua viajando, tinha mais facilidade. E... É, acho que é isso.

 

P/1 – E você tinha um grupo de amigos, então, porque estava mais estável a situação. Você tinha um grupo, vocês saíam?

 

R – Na época do colegial, sim. Comecei a ter um grupo de amigos que são meus amigos hoje, meus amigos mais próximos. A gente saía, a gente conversava muito... É que eu nunca fui muito de balada, dessas coisas, a gente gostava de se reunir num espaço, numa casa, puxar um tema e ir conversando, filosofando, pensando. Isso é que criava nossa grande comunhão no grupo.

 

P/1 – E teve uma formatura quando você saiu?

 

R – Não, não tem na França. Acho que depois do que seria o vestibular na França, nas escolas privadas tem uma formatura, uma coisa mais americana; lá na França, não. A gente passou no que chama de baccalauréat, o exame final do colegial pra poder acessar a faculdade e cada um comemora com seus amigos, mas não tem uma formatura, não.

P/1 – Então você saiu do colegial já prestando o vestibular?

 

R – É que o colegial, não sei se...

P/1 – ...é o Ensino Médio...

 

R – É, é tipo a oitava série, não, depois tem o primeiro colegial, segundo colegial, terceiro colegial... Isso, eu saí do terceiro colegial e fui já... No terceiro colegial você só pode acessar a faculdade se você passar nesse exame nacional, que é o baccalauréat. E passando esse...

 

P/1 – Como é o nome?

 

R – Baccalauréat. A gente chama, dá o apelido de...

 

P/2 – É tipo bacharelado...

 

P/1 – Sim...

 

R – ...A gente dá o apelido de “bac” e se você escolhe... Na época que eu fiz a gente podia escolher em três eixos: um era científico, outro era mais literatura e o outro economia.

 

P/1 – E você nessa opção...?

 

R – Científico! Porque nessa época eu já gostava mais de matemática, já mais de números, tenho um certo problema com números…

P/1 – Na área de Científico, foi aí que você optou por Física?

 

R – Não, não no primeiro momento. Na verdade, foi até engraçado isso porque num primeiro momento… Eu nunca pensei na minha vida que ia ser físico, porque na época do colegial eu era péssimo em Física. Eu brigava com a minha professora, fui até patético algumas vezes...

P/1 – Você lembra de algum caso?

 

R – Não lembro exatamente, só lembro que dessas brigas verbais virou um carinho dos dois lados muito forte, na verdade. A gente brigava e se gostava, então se tornou um carinho especial, mas eu não lembro exatamente de alguma coisa acontecendo.

Eu acho que eu era péssimo! Eu falava muito durante as aulas e a professora, claro, ficava brava com isso. Eu era um pouco… Quando eu era menino era um pouco nervoso, então eu respondia. Fui muito…

Esse ano eu até repeti o ano, não fui bem. Depois então, quando eu me formei e passei no baccalauréat, escolhi Matemática porque eu gostava de Matemática e escolhi esse lado. A minha ideia era mais ir pra astronomia e essas coisas que eu gostava muito. Ainda não sabia muito bem o que eu queria fazer porque eu me interessava por muitas coisas; pra mim era muito sério e eu não me achava pronto, maduro pra tomar uma decisão de saber o que queria fazer. Inclusive eu tinha escolhido esse baccalauréat científico não só porque eu gostava de matemática, mas porque era um dos que permitia abranger muitas coisas depois. Fiz acho que seis meses de faculdade de matemática e não gostei, não me encaixei, não consegui me disciplinar também. Aí parei, fiquei seis meses trabalhando um pouco com meu pai e achando um outro rumo pra minha vida.

Resolvi fazer… Aqui na França a gente tem umas formações técnicas que duram dois anos, que permitem já ter um diploma que permite trabalhar. Então eu resolvi fazer uma formação dessas, escolhi fazer Mecânica e foram dois anos difíceis porque eu não me interessava pela matéria... São coisas que... Eu sempre fui uma pessoa muito idealista e coisas materiais assim sempre foram muito difíceis pra eu lidar! E uma formação de dois anos pra ser técnico são só coisas materiais, então pra mim foi muito difícil! Mas lutei, conversei muito com meus pais, meus pais me deram muito apoio, aí eu encerrei esses dois anos com muita alegria. (risos)

Foi muito bom, a formação é muito boa, mas acho que eu não me encaixava com esse tipo de formação. Foi depois, na verdade, que veio essa vontade de estudar física, porque depois desses dois anos eu pensei: eu não quero trabalhar nisso e não quero parar de estudar, eu quero continuar a fazer um... Procurar, pesquisar. Eu quero usar o estudo, na verdade, não pra... Eu acho que uma coisa que eu fiz durante esses dois anos era usar estudo pra conseguir emprego, pra conseguir dinheiro pra viver. Eu quis sair disso. Eu quis entrar, não pensar mais assim, quero usar o estudo pra aprender o que eu quero saber da vida. Eu tenho uma vida só, então vou usar a faculdade pra me ensinar o que eu quero saber. E o que eu quero saber? Eu quero saber tudo (risos): de onde a gente vem; qual foi o processo da criação da vida; qual foi o processo da criação do estado, do universo, da terra, de tudo... Daí a minha paixão pela astronomia e o meu caminho rumo à física. Acho que foi isso que me encaminhou para esse lado.

 

P/1 – Você fez quantos anos?

 

R – De Física, acabei fazendo três. Deviam ser dois, mas como eu vinha de uma formação técnica pra uma formação de um lado mais puro, fundamental de ciência, eu tive que me adaptar. Perdi um ano pra me adaptar, repeti um ano e aí eu fiz licenciatura. Fiz um mestrado, mas que não é exatamente um mestrado lá na França, que é um pouco diferente.

Foram três anos estudando Física, mais os dois que eu tinha feito. Depois eu me especializei em História da Ciência.

 

P/1 – Até então você só estudava ou você chegou a trabalhar nesse período?

 

R – Sempre trabalhava como professor de tênis, sempre! Isso foi uma coisa que...

 

P/1 – Era de onde você tinha grana mesmo pra ir levando?

 

R – Grana, paixão, amor pelo ensino, amor por estar com grupos de crianças e jovens... Era mais com... Uma coisa que me descreve bem é que eu nunca fui atraído pelo dinheiro. Sempre fiz as coisas pela paixão ou por querer fazer, pra aprender fazer, mas não muito pela recompensa material, financeira.

 

P/2 – Aproveitando que a gente está falando do tênis, recupere um pouco dessa sua trajetória com o tênis. A gente viu as fotos desde menino, né?

 

R – (risos) Com o tênis a trajetória, na verdade, acho que é um pouco como a física: a física a gente tem o “big bang”, mas a gente não sabe o que teve antes. Tem uma foto comigo com uma raquete, mas eu não sei o que é que teve antes. (risos)

Não sei quando eu comecei a jogar, quando segurei uma raquete a primeira vez. Eu só sei que os meus pais nunca, nunca tentaram impôr isso pra mim ou pro meu irmão. Eu sei que a gente gostava e... A gente estava com o meu pai o tempo todo, era uma vontade de brincar forte e a gente acabou brincando.

A minha vida inteira eu fui jogando tênis, mas acho que demorei pra perceber uma coisa: a minha relação com o tênis não era uma relação de competição, era uma relação de ensino. Eu gostava de ensinar, eu gostava de usar a ferramenta do tênis pra ensinar outras coisas: valores, outras coisas pros meus alunos... Competição eu tive uma relação muito difícil, eu era muito nervoso... Meus pais me contam umas coisas que eu esqueci, por exemplo: uma raquete, nem me pergunta se eu quebrei uma raquete porque eu quebrei e não lembro do número da raquete que eu quebrei. Eu usava óculos, um óculos grandão assim, também não me lembro do número de óculos que eu quebrei. (risos) Eu já cheguei a jogar, errar uma direita ou uma esquerda, que eu achava tão fácil de não errar; eu ficava bravo, jogava o óculos e pulava em cima. (risos) Isso já aconteceu.

Uma coisa que eu acho o auge dentro da minha carreira de tenista, se posso falar assim, foi um jogo que meus pais me contaram que eu entrei na quadra, comecei a sacar, fiz uma dupla falta, não gostei e fui embora. (risos) Simplesmente joguei a raquete no chão, saí correndo da quadra, chorando... Acho que me colocaram muita pressão em cima dos ombros, uma coisa desnecessária. Demorei pra perceber, eu acho [que] meu caráter também: eu era muito nervoso, não era pronto pra competir. E também essa questão, eu demorei para entender que competição não era... Eu não queria ser jogador de tênis, queria outras coisas. O tênis eu gostava, gostei muito, inclusive... Mas o que eu acho que puxei do meu pai não é esse lado de ser jogador, competidor; é esse lado, esse amor, essa paixão que ele tem por ensinar, por transmitir o que ele sabe. E não só no tênis, como [em] todas as coisas que ele me ensinou. Acho que foi essa a mudança.

 

P/1 – Você se lembra da primeira vez que começou a trabalhar mesmo, dando aula de tênis?

 

R – Eu não lembro exatamente... Acho que eu tinha quinze anos. A primeira vez, não é que eu fui trabalhar, mas faltou um professor; não tinha ninguém, aí meu pai falou: “Tá faltando, a gente precisa de alguém. Você não precisa fazer nada demais, é só ficar na quadra junto com eles, dar algumas dicas.” Aí eu falei: “Eu vou.”

Fui lá e adorei! (risos) Adorei, simplesmente...

 

P/1 – Aí você ficou...

 

R – Aí eu fiquei, sempre foi depois... Só uma época que eu tinha que estudar muito, aí eu deixava de dar aula, mas sempre estava lá. Gostei disso, é uma coisa que sempre... Me apaixonei por isso!

 

P/1 – Como era a sua rotina? Você estudava à noite e trabalhava de dia, como era isso?

 

R – Na França a gente tem a sorte de ter os estudos de graça, então a faculdade era de graça, colegial era de graça. Minha família tinha condição boa pra sustentar a gente sem a gente precisar trabalhar, mas a gente... E a gente tem estudo integral, então a gente estuda das oito da manhã até às cinco da tarde, mas tem dois períodos que a gente não estuda, que é quarta-feira à tarde e sábado à tarde. Nesses dois períodos eu ia pro clube e dava aula de tênis. Sábado de manhã, uma época também, então eu usava esses dias, esses espaços pra dar aula.

 

P/1 – E quando você se formou, você entrou na área do que tinha se formado?

 

R – Quando eu me formei... Na verdade, eu... No decorrer do meu percurso na faculdade de física, eu descobri um lado da física que eu nunca tinha ouvido falar, que era a pesquisa de obras de arte. Eu tinha uma professora de eletrônica, eletricidade - aliás, era uma matéria que eu nunca gostei, que eu nunca fui bom. Mas ela trabalhava no laboratório do Museu do Louvre e sugeriu pra gente ir visitar uma vez o laboratório. Fui lá, interessado. Visitei o laboratório e achei incrível, incrível tudo que estava sendo feito lá.

No ano seguinte, pra fechar, conseguir o diploma, a gente tinha que conseguir um estágio num lugar que trabalhasse com física. Fui conversar com essa professora, falei: “Quero fazer esse estágio com você no laboratório do Louvre.” E ela falou: “Mas você entende de arte?” Eu falei: “Não entendo, mas eu vou fazer um curso. Vou fazer o que precisar fazer pra entrar lá.”(risos)

Fui fazer um curso de História da Arte pra poder justamente conseguir a vaga de estagiário lá. Eu consegui, fiquei dois meses e pouco fazendo esse estágio e foi uma das experiências mais incríveis!

 

P/1 – Mas o que era o trabalho?

 

R – Isso é realmente engraçado, porque sempre quando eu falo isso, as pessoas falam: “Mas como assim trabalhar com física e obras de arte, como isso é possível?” Eu também estava com essa dúvida, mas é mais ou menos assim: todas as ferramentas de física que existem, seja raio X ou ultravioleta, infravermelho, todos esses tipos diferentes de exposição, são usadas nos laboratórios, nos museus.

Por exemplo, você pega um quadro de um pintor, joga um raio X nele e tira uma foto, uma radiografia. A radiografia vai mostrar o esboço que foi feito por trás, então vai atrás da pintura, atrás da tela e pega o esboço que foi feito. Às vezes o esboço não tem nada a ver com a pintura que está... Às vezes foram encontrados outros projetos, outros desenhos de artistas famosos porque tinham começado, não tinham gostado e tinham feito outro por cima. O raio X permite ver isso.

O infravermelho, por exemplo: a gente joga uma luz infravermelha sobre uma pintura também e o infravermelho destaca todos os retoques que foram feitos, todos os retoques aparecem brilhando no infravermelho. Bom, tem um monte de técnicas. A química também usa muita técnica, mas eu gostei do lado da física, porque a química permite muitas informações sobre as obras, mas na maioria das vezes tem que pegar uma amostra da obra, que é uma coisa que eu não consigo assimilar, não pode pegar uma amostra! (risos) E a física não, ela propõe algumas técnicas que permitem estudar a obra sem tocar na... Sem pegar amostra.

O estágio que eu fiz foi com colorimetria. Colorimetria é estudar a cor da pintura, então a gente joga uma luz branca nela, recupera a luz refletida e essa luz refletida vai dar um espectro. Esse espectro capta características do material que foi usado pelo pintor, então do pigmento, todas essas questões... Quando é ouro a gente sabe que tipo de ouro foi usado também. Trabalhei com isso, fiquei nessa parte, usando um ícone russo de uma virgem com uma representação meio bíblica e eu fazendo essas pesquisas. O que eu gostei mais foi da parte de análise mesmo, parte de pegar os resultados; escrever relatórios, eu não sou muito disso. As descobertas, analisar...

 

P/1 – Teve uma que foi marcante pra você?

 

R – Ah, sim, acho que teve... Acho que marcante foi depois, porque eu cheguei a trabalhar com isso também em São Paulo, na USP; a gente trabalhou com peças pré-colombianas e tem umas coisas maravilhosas que a gente achava. Quando a gente achava um ouro, por exemplo, parece que não tem ouro, aí é uma coisa emocionante pra nós!

 

P/1 – Só pra situar um pouquinho: você estava mais ou menos com que idade quando você estava fazendo esse estágio?

R – O estágio... Foi em 2002, então eu estava com uns 25 anos. 24, 25...

 

P/1 – Até então você estava por lá, mesmo. Você não tinha ideia de vir ao Brasil, nada disso?

 

R – Não, não tinha ideia de vir ao Brasil. Sempre vim ao Brasil em férias com minha mãe. A gente vinha aqui em São Paulo, mas eu ficava sempre na casa da minha avó, nunca saía de lá...

 

P/1 – Não saía...

 

P/2 – Em São Paulo mesmo?

 

R – É, São Paulo mesmo... Não conhecia São Paulo, não conhecia o Brasil. Não conhecia a língua, minha mãe nunca falou português comigo... Ouvia a língua, entendia algumas coisas, mas não falava nada. Realmente, foi depois que veio essa vontade de vir pro Brasil.

Quando eu recordo todo o percurso de estudos e... Eu sempre estava com uma vontade forte por dentro, que era de dedicar, ter um ano da minha vida, pelo menos, de ser voluntário. Ajudar, trabalhar com crianças, um pouco também explorar essa paixão do ensino, dessas transmissões de sabedoria e conhecimento. Aí veio esse fato da minha família brasileira, eu perceber que a minha família brasileira fazia parte da minha vida que eu não conhecia. Inclusive minha identidade brasileira, não conhecia, não sabia qual era a minha parte da identidade brasileira. Então resolvi juntar as duas coisas.

 

P/1 – Isso quando você estava terminando já o estágio?

 

R – Terminei o estágio e depois desse estágio eu fiz um ano de tipo um mestrado de História das Ciências, sobre a história do laboratório do Louvre. Fiquei lá um ano estudando a história do laboratório, pegando os arquivos, estudando as técnicas que foram usadas... Mas durante esse ano, acho que foi ali que eu percebi... Depois eu acabei o ano e pensei assim: “Agora eu tenho duas escolhas.” Estava acho que com 27 anos... “Ou agora eu paro tudo, saio um ano e trabalho de voluntário, faço essa coisa que está tão forte dentro de mim que eu tenho que explorar, ou eu vou pro doutorado, que vai durar três anos, vou sair de lá com trinta e seria tarde demais pra fazer isso.” Então resolvi não fazer o doutorado, deixar pra depois e ir viajar...

 

P/1 – E como foi essa ideia de viajar? Você pensou direto em vir, aproveitar que tinha família aqui?

 

R – Aproveitar que tinha família! A minha intenção era também conhecer, conviver com minha família aqui. Trabalhei muito lá na França pra juntar dinheiro. Claro que a minha família me ajudou muito aqui, porque eu morei com eles, eles abraçaram a causa também de um ano trabalhando voluntário no Brasil, adoraram essa ideia, então foi... Esse lado foi mais tranquilo. Pra me sustentar aqui eu dava aula de francês, então foi um ano assim...

 

P/1 – Quando você veio pra cá, qual foi o lugar em que você foi morar?

 

R – Eu fui morar na Cidade Jardim. A casa do meu avô fica perto do rio mesmo, na [Avenida] Cidade Jardim, perto do Clube Paineiras, que é um lugar bem alto padrão. A casa da minha avó não é tão alto padrão, porque é a mais antiga do bairro, mas o bairro é.

 

P/1 – Você chegou em 2002?

 

R – Em 2002 eu fiz esse estágio; [em] 2003, até junho, fiz esse mestrado da História da Ciência. Foi em novembro de 2003, no dia quinze de novembro.

 

P/1 – Como você tinha falado, você vinha aqui de vez em quando, ficava preso. Você chegou aqui e quando começou a sair, qual foi a impressão, o que é que você achou?

 

R – Na verdade, cheguei em 2003 e pensei assim: “Bom, agora não tem mais como ficar dentro da casa.” Eu não falava a língua ainda, sabia falar “obrigadô”, “bom diá”, “boa noitchê” e “bom apetite”. Eu tinha que fazer alguma coisa pra resolver isso e tinha que fazer a minha documentação brasileira, então tive que sair na rua. E a minha intenção era essa mesmo, era pegar o ônibus, fazer parte do cotidiano do paulistano pra aprender a língua, pra me virar.

Então peguei o ônibus e saí na rua. Foi engraçada essa época porque... Ainda bem que o povo brasileiro é acolhedor, é generoso, porque eu saía na rua e ia falando palavras em francês com sotaque brasileiro - que eu achava um sotaque brasileiro, na época. E eu percebia se as pessoas estavam me entendo ou não... Foi engraçado! Eu lembro uma vez, por exemplo, que tinha que tirar o RG e precisava de fazer cópia, tradução juramentada da minha certidão de nascimento na França. Fui lá no cartório (risos) e eu falei num francês abrasileirado: “Eu preciso fazer...” A moça não entendeu nada do que eu falei, mas ela viu o documento e foi muito paciente comigo. Se fosse na França, uma coisa burocrática assim, nossa! A pessoa não ia nem me dar atenção! Ali ela me deu muita atenção, consegui fazer meu documento e fiquei todo feliz! E aí voltei pra casa feliz que eu tinha conseguido minha primeira missão no Brasil! (risos)

 

P/2 – Mas Jérémie, o que você ouvia falar de São Paulo? Apesar dessas vindas pra São Paulo, o que você ouvia falar? De cidade grande?

 

R – Eu acho que eu não tinha noção da grandeza, do tamanho de São Paulo. São Paulo pra mim era a casa da minha avó, quintal da minha avó, isso é que era São Paulo. Eu ouvia muitas coisas que se ouvem na Europa, que são preconceitos: “Não sai na rua”, “quando escurece, volta pra casa logo”... Muitas coisas preconceituosas mesmo! “São Paulo não tinha praia”, por exemplo, “por que sair de casa?” São coisas assim bem ridículas, mas que são fortes preconceitos, umas imagens muito fortes.

Hoje ainda minha mãe liga, quando sabe que eu estou andando à noite em São Paulo; ela fica super preocupada, e ela morou no Brasil. Isso mostra o quanto um preconceito influencia até uma pessoa que morou aqui no Brasil, então são coisas que realmente...

Comecei a descobrir o tamanho em São Paulo e isso foi uma das minhas primeiras... Eu estava resolvido a descobrir São Paulo, então disse assim: “O que...”. Eu precisava de um objetivo pra descobrir, não podia sair na rua, só sair andando, aí resolvi criar descobrir São Paulo através dos sebos. Peguei uma lista dos sebos; gosto de tocar violão, então estava procurando partituras e essas coisas, daí fui atrás dos sebos de São Paulo.  [A] cada semana eu escolhia um bairro; descia de um ponto de ônibus, de metrô e ia a pé no bairro, descobrindo o bairro através dos sebos. Entrava nos sebos, pegava alguns livros, algumas partituras... E assim eu descobri São Paulo. Até tenho orgulho de dizer que eu conheço mais de São Paulo do que muitos amigos meus paulistanos. (risos)

 

P/1 – Nesse percurso você lembra de coisas e pessoas com quem você conversou, conheceu?

 

R – Eu acho que... Essa pessoa do cartório foi uma pessoa muito marcante pra mim, porque realmente me ajudou bastante. Foi a primeira pessoa que realmente teve paciência comigo, então é uma pessoa que me ajudou muito.

Uma pessoa que me ajudou - bom, toda minha família me ajudou muito, mas meu tio em particular, o Roberto, Robby… Nossa, ele fazia tudo pra mim: me ajudava, não faltava, mas se organizava no trabalho pra ir comigo em alguns locais porque… Por exemplo, eu queria ir sozinho em algum local que não conhecia, então ele vinha comigo e... Nossa, me ajudou muito! E a minha avó, minha tia... Todo mundo me ajudou muito nessa... E eu acho que...

Uma coisa que me marcou muito, uma pessoa acabou me marcando e não é a pessoa, mas é a situação: é que pra tirar a minha documentação brasileira, eu tinha que ter toda a documentação brasileira! Inclusive a carta de reservista. Pra fazer carteira de reservista, como é que a gente faz? Tem que se alistar, então eu estava lá, com 26 anos, me alistando pro Exército Brasileiro e isso foi uma coisa... Porque eu nem entendia direito, não sabia nem direito o que eu estava assinando. Eu achava impossível fazer o Exército Brasileiro, mas eu tinha que fazer isso pra tirar CPF e o CPF pra tirar o título de eleitor, título de eleitor pra tirar não sei o quê... Então vamos lá, lá fui eu! Não entendia direito o que acontecia, que... Eu não entendi nem o mês que era pra vir pegar o documento, porque tinha uma chamada pra você ver naquele dia e eles vão falar o que você tem que fazer pra depois [informar] o próximo passo. Parece que estava escrito junho e entendi julho, aí fui em julho, um mês depois. E o cara falou assim: “Você foi convocado em junho.” Eu falei: “Puxa, eu não sabia. Eu não falo muito bem a língua, eu não sabia, desculpa.”

Eu estava de óculos aquele dia - incrível, eu sempre andei de óculos na minha infância porque tinha hipermetropia; a hipermetropia acabou resolvendo, só que virou uma miopia fraquinha, então é muito raro eu andar com o óculos. Naquele dia eu andei com óculos, graças a Deus. Não sei que… Acho que tinha uma luz e andei com óculos.

Fui lá, sentei na frente dele. E aí ele falou: “Então você vai ter que ir lá pra Osasco e fazer um exame médico pra servir pro Exército, blá, blá, blá.” Quando ele falou Osasco eu nem sabia o que é que era Osasco. Me desculpe, eu sei que você mora lá, mas naquela época era um palavrão pra mim: “Eu vou ter que ir pra Osasco”, era tipo ir pro inferno pra mim. (risos) Aí eu falei: “Mas Osasco, eu não conheço nem direito São Paulo, como é que eu faço pra ir lá?” Ele olhou pra mim e falou: “Você usa sempre o óculos?” Falei: “Eu uso.” “Você tem o quê?” “Eu tenho miopia.” “Você tem miopia de quantos graus?” Falei: “Ah, não sei, um, um e meio, alguma coisa assim.” Falou: “Ah, tá bom, vai...” Carimbou reservista e falei: “Nossa!” Foi tão simples assim, uma situação que eu fiquei tão preocupado e foi tão simples ao mesmo tempo.

Isso foi um alívio bastante importante. Porque lá na França já não tinha feito esse ano, que era obrigatório até uma certa época e não foi obrigatório quando foi a minha vez de fazer. Fiquei muito feliz, porque sou absolutamente contra guerras, uso de armas, essas coisas, então eu acho ridículo a gente ter que usar um ano da nossa vida pra esse tipo de coisa. Meu irmão fez e foi um ano perdido pra ele, então eu não queria fazer. Eu tinha escapado na França, chego no Brasil e vou ter que fazer! (risos)

 

(pausa)

R – Vamos lá acabar essa história do Exército, não sei se já...  

Depois de ter me alistado, eu tinha que voltar um dia pra jurar bandeira. Falei: “Poxa vida, como é que eu vou jurar bandeira no Brasil, não sei nem o Hino Nacional direito.” E aí estudei o Hino Nacional, estudando, estudando…

Duas semanas passaram. Quando eu cheguei lá pra jurar bandeira, tinha um monte de pessoas pra jurar no mesmo dia e a primeira coisa que a moça falou foi assim: “A gente vai jurar bandeira. Eu sei que muitos de vocês não conhecem o Hino Nacional, vocês só colocam a mão no peito e respeitam os que estão cantando.”. Eu falei: “Ufa, ótimo, ótimo!” Pior que eu tinha tentado decorar, mas ainda não falava a língua direito, não conseguia decorar. Tinha umas palavras que eu nem sabia o que significava, então eu coloquei a mão no peito e comecei; cantei duas frases que eu conhecia, as duas primeiras frases, depois um branco, eu não conseguia mais cantar nada. Abaixei um pouco a cabeça e deixei os outros cantarem. Mas eu virei brasileiro naquele dia e foi uma emoção muito forte pra mim.

 

P/1 – Jérémie, e a sua missão de procurar atividades como voluntariado, como foi isso?

 

R – Quando eu cheguei em São Paulo, a minha intenção era ficar seis meses em São Paulo e ir seis meses pra Amazônia, porque na minha pesquisa eu queria voltar à essência das relações humanas. Acho que eu morei muito, a maior parte da minha vida na Europa, onde as relações humanas, inclusive Paris, são coisas mais frias, mais... Eu quero voltar a uma coisa mais simples, que não sejam poluídas por várias coisas materialistas; uma coisa mais perto da essência. Por isso que eu tinha essa intenção, essa vontade de ir pra Amazônia. Visitei algumas ONGs, alguns projetos sociais em São Paulo e conheci alguns, conversei com várias pessoas e conheci a Fundação Gol de Letra.

 

P/1 – Você nunca tinha ouvido falar?

 

R – Já tinha ouvido falar um pouco, porque o Raí jogou lá no Paris Saint-Germain, então a gente sabia que ele tinha uma fundação. Não sabia direito o que fazia, mas sabia que tinha alguma coisa... Mas não foi nem por ele, não foi nem por isso, foi realmente porque eu visitei. Não falava a língua, então mandei um e-mail em francês e foram os sócios que receberam o e-mail. A minha sorte na época é que tinha uma voluntária lá francesa que trabalhava na parte financeira, que chamava Valerie, e o sócio encaminhou pra Valerie. A Valerie me respondeu e falou: “Então, vamos combinar um dia pra você conhecer.” Isso foi uma sorte mesmo, porque naquela época, quem estava cuidando do voluntariado era o Eduardo Atada e eu tinha mandado um e-mail pra ele. Entrei no site e mandei um e-mail [dizendo] que queria ser voluntário; naquela época tinha tanta demanda de voluntários que não tinha vagas pra voluntários, então ele respondeu gentilmente que infelizmente não tinha vagas, mas que assim que abrisse... Fiquei um pouco decepcionado de não poder ir conhecer, mas como a Valerie era francesa ela sugeriu de eu ir lá conhecer. Fui lá conhecer e encontrei um pessoal de lá, encontrei Cristina Saito também, que trabalhou lá e comecei a trabalhar como voluntário com eles.

P/1 – Mas logo que você chegou lá, você tinha ideia... Como é que foi a sua impressão?  Como você chegou lá? É bem distante, né?

 

R – É muito distante. Atravessei a cidade, atravessei São Paulo inteiro pra fazer isso.

Quando eu cheguei lá, na verdade, não era pra ser voluntário na Fundação Gol de Letra de primeira. Era mais pra conhecer a Fundação Gol de Letra, ver se eu me identificava com o projeto, a metodologia e aí eu resolver, porque eu tinha visitado também outros projetos. Aí conheci e cheguei… Acho que a Cristina Saito me levou num dia que foi apresentação de final de ano, então tinha todas as apresentações das crianças, umas coisas bem diferenciadas e dava pra ver o trabalho inteiro. E realmente me identifiquei, me apaixonei totalmente pela pedagogia, a metodologia, a filosofia. Falei pra Cristina: “Olha, eu quero. Minha vontade é trabalhar com criança, mas eu queria ser voluntário com vocês. Aguento trabalhar com vocês na parte do administrativo e tudo, mas...” A minha história com a fundação começou assim, acho que no dia dezenove de dezembro de 2003.

 

P/1 – E o bairro, você estranhou o bairro quando você chegou?

 

R – Acho que eu não estranhei tanto. Uma das coisas que me... Acho que eu estava pronto pra receber esse tipo de informação, estava pronto pra acabar com todos os preconceitos que estavam poluindo a minha mente. Quando eu vi o bairro acho que eu estava esperando... Não sei como dizer, eu estava com muita expectativa de conhecer o bairro, de ver qual é a realidade, qual é o grau de pobreza, o grau de dificuldade dos moradores do bairro. Mas não foi uma coisa que me chocou, até porque na Europa a gente vê programas, vê reportagens de pobreza do povo brasileiro. Eles mostram umas favelas bem mais problemáticas do que esse bairro em que eu cheguei naquele dia. É um bairro que de uma certa maneira, quando você chega na rua onde tem a fundação, é uma rua mesmo; você não vê os becos, não vê as vielas, então não é uma coisa que assusta no primeiro momento. Mas quando eu entrei como voluntário, uma das primeiras coisas que a gente fez é que levaram a gente pra fazer um tour na comunidade, aí eu vi realmente o que era a comunidade: eu vi realmente as condições de vida, as casas muito pequenas, sem luzes, onde a maioria das crianças mora...

Naquela época ainda tinha uma favela que [se] chamava Vila Nova, que ficava um pouco afastada, um pouco... A gente ia de carro, de ônibus ou de carro lá. Era uma favela de madeira mesmo, num terreno que era de terra, mas que estava deslizando, então depois foi removido de lá. Foi uma coisa que me marcou muito nos primeiros momentos em que eu conheci a fundação.

 

P/1 – Quando você começou, você foi aceito? Como foi? Você veio, conheceu, como é que foi esse processo da aceitação?

 

R – É, esse... Um dos primeiros momentos na fundação que foi nesse dia dezenove de dezembro, quando eu visitei os trabalhos… Visitei inclusive os trabalhos de leitura e escrita: lá tinha uns livrinhos, com desenhos das crianças. Eu lá lendo, vendo, ninguém se aproximava muito de mim, porque eu não me aproximava também. A Valerie tava cuidando das coisas dela, a Cristina também, então estava meio sozinho naquela sala e aí comecei a folhear um livro, ver um pouquinho as historinhas. Veio do meu lado uma criança e eu olhei pra criança, ela olhou pra mim. Continuei lendo o livro e ela falou pra mim: “Vamos ler, você lê uma página e eu leio uma outra.” Primeiro que eu fiquei super emocionado, a primeira pessoa que estava me acolhendo na fundação [era] essa criança... E eu falei pra ela: “É que eu não falo muito bem. Eu não sei se vou conseguir ler muito bem, mas a gente pode tentar.” A gente ficou lá lendo o livro, eu uma página, ela uma outra página.

Eu lembro muito bem dela, porque era uma criança que tinha uns problemas de crescimento, acho que por causa de alimentação, ela [se] chamava Monalisa. Hoje acho que ela está, se não me engano, no projeto esportivo da fundação; eu a encontrei há pouco tempo numa inauguração de uma quadra do projeto esportivo. Ela tinha crescido já, mas está com quatorze anos, baixa pra idade dela. Acho que ela não lembra desse momento, mas pra mim foi um dos momentos mais marcantes pra mim com a fundação, digo no início.

 

P/1 – E você entrou como voluntariado mesmo, né? (...) Como passaram a ser suas atividades? Mas antes disso, uma curiosidade: você falou que tinha visitado várias ONGs; qual foi a diferença que você achou em relação à fundação?

 

R – Eu achei que… Uma das coisas que eu achei muito diferente na fundação... Primeiro foi o profissionalismo, porque muitas ONGs que eu tinha visitado eram baseadas muito no voluntariado, então umas coisas muito feitas… Não de rascunho, mas coisas feitas pelo amor, pela paixão de ajudar, sem muita organização e estruturação. Quando eu cheguei à fundação eu percebi que não: é estruturada, é profissional, uma coisa realmente muito séria.

Outra coisa foi o ambiente, sentir essa união, essa comunhão... Tem um clima tão particular lá na fundação... Ver as crianças, ver os rostos das crianças, não só sorridentes, mas curiosos, querendo conhecer, interessados, que é uma coisa que a gente não espera. A gente vê alguns deles nas ruas, não estão interessados em conhecer, não tem essa curiosidade que lá na fundação eu achei que essas crianças tinham, uma curiosidade muito forte, muito grande!

Fui me interessando mais pela metodologia, pela filosofia da fundação e aí realmente falei: “É isso mesmo, é exatamente isso em que eu acredito!” Acho que nesse ponto é que eu a diferenciei das outras: no profissionalismo e nessa metodologia, que são duas coisas realmente que eu achei muito fortes. Forte por acreditar que é o caminho certo. Eu não vou dizer que esse é o caminho, mas eu, pelo menos, acredito que esse é o caminho.

 

P/1 – Você falou da metodologia. Quando você fala metodologia, você pode explicar um pouco pra gente o que é que...?

 

R – O que eu gosto mais da metodologia da fundação é não esse lado assistencialista e construtivista. São duas coisas que pra mim são fundamentais pro desenvolvimento do ser humano, pro desenvolvimento da criança, do jovem, que a gente atende lá, mas principalmente do ser humano; é esse fato de “eu não vou te dar as respostas, mas eu vou te dar as ferramentas pra você buscar as respostas.” Isso pra mim é uma coisa muito forte.

Em algumas ONGs, por exemplo, que eu visitei, dão as respostas, dão o auxílio, a comida, a roupa, essas coisas, mas eu não acredito nisso. Eu acredito realmente em deixar nas mãos da pessoa, da criança, do jovem, deixar na mão dele as ferramentas pra ele correr atrás; ele vai buscar o que ele quer, ele vai correr atrás dos seus direitos, correr atrás de perspectivas na vida. A gente vai abrir caminhos, vai mostrar pra ele que ele, por si, vai se incluir.

É é uma coisa muito forte essa questão da exclusão desse jovem, dessa criança. A gente inclui e mostra pra ele todos os caminhos que ele pode usar, abranger, e isso é uma coisa pra mim muito forte: essa construção pessoal do indivíduo.

 

P/1 – Legal. Você entrou em 2003. Como foi a sua trajetória ali na ONG?

 

R – Em 2003, entrei em dezembro, mas já estava nas férias coletivas. Voltei, na verdade, em janeiro na fundação pra começar a trabalhar realmente. Por ser francês, eu comecei a fazer tradução dos projetos, dos programas em francês...

 

P/1 – E você sabia que tinha a associação na França, na...?

 

R – Não sabia. Não sabia que tinha no Rio também, na época, sabia só São Paulo.  Comecei a fazer essas traduções e ficava no computador, mas pensando. No fundo da cabeça tinha essa ideia de trabalhar com crianças também, mas eu sei que não é qualquer um que vai trabalhar com criança. Tem que provar que sabe, que tem uma experiência, então comecei primeiro fazendo essas traduções, algumas coisas ajudava também de registro, de técnico, de sócio-titular, essas coisas.

Depois de uns três, quatro meses, também sugeri que queria participar de atividades com crianças; durante as semanas são coisas muito organizadas, estruturadas, então não dá pra encaixar uma pessoa simplesmente que quer participar. Tinha a possibilidade de trabalhar no lazer aos sábados, porque são as atividades de lazer, abre a comunidade aos sábados e eles fazem atividades de lazer pras crianças. E aí eu resolvi, eu falei: “Se vocês me aceitarem, gostaria de participar nisso também.” E eles toparam. Eu encontrei duas pessoas na época, que era o Alessandro e uma menina, acho que é Renata, se não me engano, e conversei com eles; eles estavam organizando essa parte de lazer. Eles falaram então: “Tudo bem, mas o que você vai fazer? Qual que é sua proposta?” Na época eu não queria trabalhar com tênis, eu queria outro tipo de experiência, mas quando eles perguntaram isso, estava com tanta vontade de fazer e a única coisa que eu sabia realmente fazer bem era ensinar tênis. Falei: “Posso fazer uma clínica de tênis, pra começar, depois a gente vê...” Aí eles toparam, no sábado seguinte voltei lá e fiz a minha primeira clínica de tênis com crianças.

 

P/1 – É clínica de tênis que se fala?

 

R – É clínica de tênis. Aula de tênis acho que é uma coisa mais com grupo reduzido; uma clínica é uma coisa pontual, com várias pessoas, vários alunos. E aí enfrentei os primeiros problemas, porque primeiro tênis, que é um esporte elitizado, num lugar que só se joga futebol… Aprendi muitos xingamentos em português nesse dia, eu acho, porque a quantidade de jovens reclamando porque: “O que é que isso? Usar a quadra pra esse... essa modalidade!” Nem sabiam o nome direito. Então foi muito engraçado.

Naquela época, pra dar aula, pra fazer essa clínica, eu tinha achado quatro raquetes que a minha família tinha me emprestado, uma era de madeira, e quatro bolas. Eu falei: “Bom, vou tentar me virar com isso.” Engraçado porque na época a gente fazia contagem das crianças que passavam pelas atividades e nesse dia passaram oitenta crianças. Oitenta crianças jogando com quatro raquetes e quatro bolas.

Foi uma coisa desgastante, mas um prazer, uma maravilha! Pra mim foi tudo, porque nesse momento eu tinha conseguido o que eu queria realmente, que era trabalhar junto com crianças. Foi um dia muito bom, depois voltei todo sábado fazendo minha clínica lá; o grupo aumentando, diminuindo, mas sempre voltei lá. Tanto é que numa época do lazer aos sábados foi decidido que não iam mais trabalhar com voluntários, porque trabalhar com voluntários é difícil, “porque voluntário não vem, a gente nunca sabe…” Fiquei preocupado, falei: “Mas eu sou voluntário, eu quero continuar trabalhando”. E eles falaram: “Não, você não é mais voluntário, você está sempre aqui, a gente pode contar com você. Pode ficar tranquilo que você continua!” Isso pra mim foi um alívio porque, nossa, não trabalhar mais ia ser difícil.

 

P/1 – Só um paralelo: eu quero voltar na fundação, mas você estava trabalhando como voluntário. Como é que você estava fazendo pra viver, mesmo: pra se deslocar, grana?

 

R – Essa parte da grana… É que eu tinha trabalhado bastante na França antes de viajar pra guardar uma grana; segundo, que eu estava morando com a minha família, então não pagava hospedagem, não pagava a comida das refeições. Eu ajudava um pouco com dinheiro, mas também tinha pouco; e eu dava aula de francês, pra conseguir alguma coisinha, pra essas coisas...

 

P/1 – E esses alunos, foi fácil você conseguir esses alunos?

 

R – Pela curiosidade foi fácil. Eles estavam muito curiosos, especificamente os pequeninhos...

 

P/1 – ...Você colocou alguma plaquinha na casa...

 

P/2 – ...Não, de francês...

 

R – Ah, de francês!...

 

P/1 – ...Não, mas calma, eu vou voltar...

 

R – Ah, os alunos de francês? Foi mais ou menos fácil. Minha avó dava aula de francês e eu cheguei numa época em que infelizmente ela começava a ficar um pouco com visão prejudicada, ouvido prejudicado. Ela não conseguia mais dar aula, então eu peguei a sequência, peguei os alunos dela... Então isso foi... Não posso dizer que foi uma sorte, porque foi infelizmente uma situação ruim pra minha avó, mas foi graças a essa situação que eu consegui alguns alunos facilmente. Depois eu tinha uma amiga que era professora de francês, que me encaminhou pra alguns alunos também.

 

P/1 – Beleza. Então agora voltando pra fundação. (risos) Fala dos aluninhos que você estava falando...

 

R – ...(risos) Os alunos da aula de tênis são assim: ninguém sabia muito bem o que é que era o tênis. Eu achava que: “Ah, [tem] o Gustavo Kuerten, o Guga, todo mundo já está sabendo o que é o tênis.” Na verdade, não; apesar do Guga, o Brasil não aproveitou, não soube aproveitar essa imagem boa, positiva pra divulgar essa modalidade. Mas eles estavam muito curiosos, então vieram à oficina, na atividade, vieram querendo participar.

Foi o primeiro susto que eu tomei porque [foi] muito engraçado. Eu cheguei com as quatro raquetes, com as quatro bolinhas, pensando: “Vou explicar pra eles que é pra ir lá e aquilo lá e depois vou jogar a bola e...” Imagina! Abriu o espaço e “vuuuu”, todas as crianças em cima de mim pegando as raquetes, as bolinhas. Quase perdi o controle de tudo, mas foi um primeiro ensino pra mim. (risos) Eu estava acostumado a dar aula, mas num estilo de condição e estilo de público... Então foi uma descoberta. Realmente foi muito engraçado, e especialmente... Todos jogaram, mas especialmente os pequenininhos adoraram! Foi muito, muito bom!

Eu lembro muito bem do Alessandro, que estava cuidando desse lazer aos sábados; [ele] escreveu uma matéria no boletim da fundação e na matéria estava escrito... Eu não lembro exatamente qual foi a matéria, qual foi o conteúdo, mas eu lembro que ele falava que eu falava “raquetaz” na época, que eu não sabia falar “raquete” direito e eu falava “raquetaz”. Ele comentou isso no artigo e eu achei engraçado, porque depois eu tive várias testemunhas dos meus alunos da época e até um pouco depois, que a gente fazia avaliação com eles - não nessa época do lazer aos sábados, quando eu comecei a trabalhar depois no programa esportivo, mas ainda na época não falava muito bem. E os alunos meus, na avaliação, falavam assim: “Olha, eu gosto do tênis, eu gosto muito do professor, mas às vezes eu não entendo nada do que ele fala.” (risos) Isso pra mim foi o máximo!

 

P/1 – (risos) E como é que eles te chamavam? De professor, mesmo?

 

R – Tio. Não se costuma chamar tio lá na França, que a palavra é oncle. Oncle é pro tio mesmo, irmão do pai ou da mãe. Quando me chamaram de tio, quando eu cheguei na fundação, eu viajei um pouco, fiquei pensando: “Nossa, eles chamam todo... Eles me chamam de tio, então eles devem achar que o Raí é o pai e que eu sou tio, todos os professores são irmãos do Raí.” (risos) Fiquei pensando isso até perceber que era uma coisa muito comum, na escola todos chamam de tio, mas isso foi engraçado.

 

P/1 – (risos) Bom, e como é que continuou sua trajetória de voluntário... Porque depois você passou a fazer parte do quadro da Fundação, né?



R – Então, na verdade a minha ideia era [passar] seis meses em São Paulo, seis meses na Amazônia...

 

P/1 – A Amazônia dançou nisso?

 

R –  A Amazônia dançou - por enquanto, porque ainda vou pra lá um dia! Mas me apeguei tanto com o pessoal de lá, com as crianças... E uma coisa: você começa um trabalho, você não pode deixar no meio [do] ano, senão não faz sentido; começar um trabalho com a criança e no meio do ano ir embora assim, sem ter concluído de certa forma o processo, não faz sentido nenhum em termos pedagógicos, então não pude sair de lá e fiquei. Fiquei e deixei a Amazônia pra um outro momento da minha vida, mas eu fiquei...

Era resolvido que depois desse ano eu ia voltar pra França; esse ano era a resolução, daí voltei pra França. Fiquei dois meses lá pensando: “Vixe, e agora? Será que eu vou fazer meu doutorado mesmo?” Estava lá com todas as lembranças lá da fundação e eu não sabia muito bem... Eu fiquei dois meses, porque eu tinha colocado... Eu tinha que comprar uma ida e volta que me pressionou um pouco, aliás: ida e volta, tinha uma volta marcada já pro Brasil. A ideia de voltar pro Brasil estava presente, tanto é que eu resolvi voltar.

Voltei em março de 2005. Voltei pro Brasil, mas não pra trabalhar direto com a fundação; eu não tinha vínculo empregatício com a fundação, fui só voluntario. Mas pra trabalhar no Brasil, então fui lá, deixei mil currículos, pegando aulas de francês de novo pra me sustentar um pouco... E uma coisa eu lembro, que o Raí tinha perguntado pra mim de escrever um projeto de tênis pras escolas. A fundação, na época, tinha uma ideia de fazer parceria com as escolas públicas pra ensinar modalidades esportivas e eu tinha escrito esse projeto de tênis.

Então março, abril, passado metade de maio… Eu não encontrava emprego se não fosse dar aula de francês, [algo] que eu não queria mais fazer, na verdade. E aí eu recebi uma ligação do Sóstenes. A atual professora do programa esportivo de tênis ia sair e eles tinham pensado em mim para substituí-la. Eu fui lá falar com a Ângela Bernardes, que é a coordenadora do projeto.

Antes de falar isso eu acho que preciso falar uma outra coisa, porque eu tenho uma história com essa... Trabalhar no projeto de Jogo Aberto não foi uma coisa tão fácil...

 

P/1 – Então já existia o projeto Jogo Aberto?

 

R – Já existia o projeto Jogo Aberto, ele foi inaugurado quando eu voluntário ainda.

P/1 – Hummm... Você lembra dessa inauguração, só um parênteses, você lembra?

 

R – Eu lembro, eu fui lá. Eu lembro da inauguração, foi bem bacana, tinha muita gente. Eu lembro de uma coisa - não sei se eu posso falar, se é pra gravar isso, mas eu vou falar mesmo assim. Naquele dia tinha o Robinho e um outro jogador que eu esqueci quem era...

 

P/1 – Não é o Ronaldo?

 

R – Não, não foi o Ronaldo. Foi um outro que jogava com Robinho naquela época, acho que no Santos, alguma coisa assim... E não foi o Diego, foi algum outro... (...) Ricardo, alguma coisa assim... Enfim, são muitos anedóticos os nomes deles porque a presença deles foi muito anedótica também: a gente lembra deles como cones nos dias, porque a ideia era fazer uma demonstração da aula de futsal. Eles [ficaram] brincando com os meninos e ficaram parados, só puxando a bola pro menino bater nela.

A gente achou assim... Foi uma imagem marcante do dia, marcante negativamente essa imagem... “Ah, eu acho que a próxima inauguração não precisa deles, então podemos fazer uma inauguração nossa.” Enfim, isso foi uma... (risos)

Uma outra coisa que também eu fui conversar com a Ângela Bernardes na época e foi muito engraçado… Aliás, eu soube que era a Vanessa Mengel a professora de tênis que tava trabalhando no lugar do projeto, ela ia sair. Eu pensei: “Bom, já que estou trabalhando no lazer aos sábados com tênis, vão pensar talvez em mim pra ir trabalhar lá” - eu era voluntário ainda na época. Mandei um e-mail pra Ângela Bernardes, falei: “Ângela, você não me conhece, sou voluntário, blá, blá… A gente se conhece muito pouco, mas eu queria te dizer que eu soube que a Vanessa vai sair e que talvez vocês pensem em mim pra trabalhar como professor de tênis, então antes de você pensar eu gostaria de falar que por razões pessoais eu não quero.” Ela recebeu esse e-mail e nem me conhecia! (risos) Ficou pensando: “Nossa, o que é esse moleque quer? O que é que está passando na cabeça dele?”

As minhas razões pessoais, na época, que depois eu esclareci com ela… E ela me convenceu depois pra trabalhar, porque quando eu voltei pro Brasil e fui chamado pelo Sóstenes, eu ainda estava com essas questões pessoais e fui lá conversar com ela. Ela falou: “Então, fala pra mim.” E eu falei: “Ângela, é o seguinte: eu não quero trabalhar com a Nike. Eu não quero trabalhar com um projeto financiado pela Nike, é um problema ético pra mim.” Ela falou: “Eu entendo suas razões, entendo suas preocupações, mas...”. A gente conversou bastante, ela acabou me convencendo e acabei trabalhando, ingressando como professor e educador de tênis lá no projeto. Mas isso foi muito engraçado, porque ela não me conhecendo, eu mando um e-mail já dizendo: “A vaga que vocês vão me oferecer, eu não quero.” (risos) Isso foi muito bacana.

 

P/1 – (risos) E como foi esse trabalho?

 

R – O trabalho foi muito bom! Muito desafiador, muito! Todo dia é, mas no início foi bastante, inclusive eu acho que tinha uma facilidade pra lidar com crianças pequenas...

 

P/1 – Com que faixa etária você trabalhava?

 

R – Eu trabalhava de doze a dezesseis, dezoito... Contando os jovens monitores também. Isso é uma coisa que eu tive dificuldade... Duas dificuldades que eu encontrei: uma era trabalhar com adolescentes, não conhecia muito as condições dos adolescentes com quem eu estava lidando, então eu não sabia por que caminho, que tipo de caminho usar pra conversar, falar com eles, conseguir uma comunicação; outra foi lidar com grupo, porque individualmente eu conseguia alguma coisa com o jovem, uma criança... Mas quando ele estava dentro do grupo, não era a mesma pessoa e eu tinha que lidar com grupo e não mais com uma pessoa individual. Isso foi uma aprendizagem bem longa, demorada, mas que valeu muito.

Eu lembro muito bem de uma conversa com a Ângela Bernardes, que era a coordenadora, hoje é minha grande amiga no Brasil. A gente sempre comenta, nossa amizade começou em uma conversa. Ela é psicóloga e eu sou físico. Fui a uma mesa porque eu estava ali tentando lidar com os jovens, os monitores; eu entrei na sala dela umas cinco, seis vezes naquele dia. Ela falou: “Jérémie, mas o que é que eu posso fazer a mais?” Eu falei: “Ângela, eu sou físico, eu preciso de resposta!” Ela falou pra mim: “Jérémie, eu sou psicóloga eu preciso de tempo.” Essa conversa, pra gente… A gente hoje fala que é o início da nossa amizade porque é uma coisa que marcou a gente muito. E isso foi realmente uma coisa que eu aprendi: as coisas não têm resposta, as coisas precisam de tempo. Acho que ela aprendeu também que algumas coisas precisam de resposta. (risos) Mas isso pra mim foi muito importante, muito forte essa aprendizagem.

 

P/1 – E as aulas que você dava eram todos os dias? Como era a rotina?

 

R – Se não me engano, era segunda-feira o dia inteiro, que era o tênis; os outros dias... Nessa época, eu trabalhava só meio período, vamos dizer assim, na fundação, então segunda-feira eu dava aula de tênis na sede do projeto. Tinha dois outros dias - não lembro exatamente qual foram, acho que terça e quinta -, que eu dava aula nas escolas, nesse projeto, nas escolas públicas.

 

P/1 – Então esse projeto conseguiu ir pras escolas?

 

R – Conseguiu ir pras escolas. Não especificamente o meu projeto de tênis, mas o projeto foi incluído dentro de um projeto financiado por uma empresa francesa que [se] chama Decathlon, que é uma empresa de material esportivo. O projeto foi criado, e o projeto de tênis que eu tinha escrito foi encaixado dentro do...

P/1 – Mas a ideia que se passava era: Gol de Letra nas escolas?

 

R – Isso.

 

P/1 – E como era nas escolas, essa ideia da Gol de Letra?

 

R – Não é tão fácil, não! As escolas… Eu percebi primeiro o quanto eram difíceis as condições de educação no Brasil. Eu não sabia na época, pelo menos nessa região. Quando eu entrei nas escolas… Uma das primeiras coisas que eu vi numa escola que eu fui trabalhar: entrei num corredor e vi três alunos com as mãos nas paredes, de frente pra parede. Pensei: “Nossa, o que é que é isso? É polícia aí?” Não era polícia, a professora que tinha castigado eles estava andando atrás deles com o cigarro na boca. Nossa, foi uma das imagens mais fortes que eu vi na... Que eu vi, primeiramente, e por ver isso numa escola! Por ver um ‘educante’, deixar o educando nessa postura. Pensei: “Nossa, que lugar que eu estou? Onde que eu...?” Mas ao mesmo tempo em que eu pensei “que lugar que eu estou”, ainda bem que eu estou aqui, porque aqui a gente vai atuar e vai conseguir tentar, pelo menos conseguir trazer outros valores.

Isso mostra o quanto a relação com as escolas são difíceis, porque quanto às condições dos professores… Eu tenho certeza depois, fui atrás também, e “não jogar pedra”, expressão brasileira: não joga pedra nos professores, em cima dos professores. Eu acho que as condições estão muito difíceis! A gente tem um ensino diferenciado na fundação e também tem condições diferenciadas; acho que provavelmente tem coisas pra melhorar nas escolas, mas antes de tudo tem que melhorar a infraestrutura da escola, porque é uma coisa terrível. Foi sempre assim: a gente usava a quadra, precisava da chave, a chave tinha que buscar lá, buscar aqui, mandava pra lá... Precisava de um material, não tinha material; precisava da quadra, mas a quadra estava sendo usada - tinha sido combinado, mas estava sendo usada. Ninguém fazia um esforço realmente disso acontecer!

A gente teve que lutar, brigar, mostrar que a gente estava sempre presente, pra criar nosso espaço. Isso é uma coisa que foi até... Testemunhos de crianças que foram importantes. Uma criança que na segunda, terceira aula eu a chamei: “Ricardo, vem aqui!” Ele veio assim e falou: “Como você já sabe o meu nome?” “Ah, eu já te dei duas aulas, já sei seu nome.” “Mas a minha professora que eu tenho aula todo [dia] não sabe o meu nome!” Eu falei: “Bom, isso foi já um retorno bastante forte.”

Outro retorno é que a gente está sempre presente, a gente nunca falta. Isso é uma coisa também que marcou não só as crianças, mas a escola. A escola acabou aceitando nossa atuação porque a gente estava firme, sempre lá, firme, aguentando todas as brigas, as coisas… A gente ouviu muitas coisas dos professores, ouviu mais de uma vez… São coisas que aconteceram com professores - não é pra criticar, eu sei que as condições deles são difíceis, mas essas situações aconteceram nas escolas. Uma vez eu estava com meus alunos lá, a professora veio e deu uma bronca na minha frente pros alunos. E na bronca chamou os alunos de animais, ela falou: “Vocês são animais, vocês não entendem nada!”

Eu costumo não falar nada porque costumo sempre respeitar. Apesar de não concordar, eu costumo sempre respeitar quando uma professora fala, uma outra pessoa fala; não quero interferir porque eu não quero, não acho adequado. Eu acho que o adequado é deixar a pessoa falar, fazer o seu papel, vamos dizer assim, e depois ter uma conversa com eles pra eles entenderem o por quê que ela estava falando assim. Mas acho que nesse momento eu não me segurei, eu falei: “Não. Desculpa a senhora, vocês podem falar tudo o que quiserem, mas não chamar esses alunos de animais na minha frente. E nem chamar eles de animais nunca.”  Ela ficou um pouco, claro, abalada com o que eu falei, mas achava importante falar. Depois me reuni com os alunos também, pra explicar por que é que ela falava assim, pra eles entenderem um pouco a situação também.

 

P/1 – Esse projeto durou quanto tempo?

 

R – Esse projeto? Ele está acontecendo ainda.

 

P/1 – Ah, ele continua... E é nas escolas dali em volta... Quantas escolas são?

 

R – São três escolas. As escolas vão mudando, teve uma hora que, se não me engano, foram quatro. Mas essa escola, em particular, que eu comentei essas coisas... A gente acabou saindo dessa escola, porque realmente mudou a diretoria e depois eu tive que dar aula de tênis numa sala de vídeo, por exemplo... Que eu dava, eu dava! Mas a gente concorda que são condições de trabalho, de aula que são difíceis, então a gente resolveu sair pra entrar numa outra escola que estava mostrando mais interesse. Hoje a gente trabalha com três escolas, já com mais... Com uma relação um pouco mais adequada também.

 

P/1 – Hoje você sente que depois que a Gol, ela praticamente entrou nessas escolas… Você sente que mudou a relação dos alunos, mesmo dos professores? Você sente uma mudança?

 

R – Senti, a gente sente bastante. Umas escolas… A Fundação Gol de Letra está chegando e as crianças já estão prontas, organizadas... As diretoras falam: “Não...” Nas nossas aulas é difícil manter a organização, mas quando chega a aula da Fundação Gol de Letra, as crianças já estão se organizando sozinhas. São coisas assim, bem... São testemunhos que a gente recebe que são bem fortes pra gente.

 

P/1 – Essa coisa dos valores também vocês sentem?

 

R – Sente também, muito! Mesma coisa: testemunhos, as próprias professoras falam, as famílias falam, as crianças também. A gente percebe uma mudança, uma vontade de ajudar que se desenvolve nas crianças também, de apoiar uns aos outros... E que é uma coisa muito, muito interessante.

 

P/1 – Nessa sua trajetória na Gol, o que é que você destacaria de eventos marcantes, de atividades que a Gol promoveu que foram marcantes?

 

R – Pode ser situações também?

 

P/1 – Pode...

 

R – Teve uma situação que eu escrevi no folder. Eu era voluntário ainda na época, fazia o lazer no sábado. Um certo sábado encerrei a aula, estava na hora de encerrar, só que tinha um menino que brincava comigo – um menino desse tamanho assim e não queria sair da quadra. Fui lá e falei: “Por favor, sai, sai!” E ele não saía. Como era criança e estava brincando, resolvi fazer que nem com criança: vou pegar no colo e colocá-lo pra fora. Eu o peguei no colo assim, com a cabeça pra baixo e estava bem pertinho, brincando com ele. Só que aí eu percebi que ele não estava brincando. E quando eu o peguei no colo e a cabeça dele estava aqui ele me mordeu; mordeu tão forte, mas tão forte que eu tive que deixá-lo, não cair, mas segurar, aguentar até ele pôr os pés no chão e pra eu soltar, aí ele foi embora. Mas, nossa, a marca ficou uma semana, dez dias quase.

 

P/1 – Tudo bem?

 

P/3 – Falta um minuto...

 

R – Tá, em um minuto eu vou acabar essa história então.

Esse menino se chamava Nandinho. Eu não conversava com ele, eu não falava nada, não conseguia conversar com ele. Depois, o ano inteiro encontrei com ele, não conseguia conversar com ele.

Alguns anos depois, acho que um ano ou dois anos atrás, ele ingressou no programa “Virando o Jogo”. Depois de dois meses no “Virando o Jogo”, tinha uma ação da cultura indígena, a gente comendo milho, essas coisas. Ele sentou na mesa na minha frente. Eu falei: “Oi, Nandinho.” Ele falou: “Oi.” Eu falei: “E aí, tá gostando?” Falou: “Tô gostando, tô gostando.” Foi a primeira vez que eu conversei com ele. Foi uma coisa emocionante, eu até mandei um e-mail pra todos os educadores, a coordenação do “Virando o Jogo” e falei: “Quero dar meus parabéns.” E aí contei essa história: esse é o Nandinho quando eu conheci, esse é o Nandinho hoje, parabéns! Isso foi uma coisa muito forte pra mim.

 

P/2 – Ele mudou mesmo?

 

R – Mudou, mudou muito. Tá dando problema, claro, ainda. (risos) Ele é danado, mas ele conversa, fala “bom dia”. São coisas já maravilhosas!

 

P/1 – De valores, né, que foram...

 

R – Exatamente.

 

(pausa)

 

P/1 – Deixa eu falar um pouco mais sobre as atividades. É porque tem algumas atividades na pesquisa, nós localizamos lá como Dia da Diferença, teve o Dia da Faxina... Você chegou a participar dessas atividades?

 

R – Ah, eu participo quase de todas! (risos) Eu fiz uma oficina de pães também, com __________ lá. E eu participo de todos os... Teve dia de... Com a parceria com a Odontoprev, teve o Dia da Higiene Bucal, participei também...

Na verdade eu não sei nem enumerar [de] quantas coisas eu participei. Eu participava de tudo quando era voluntário. Nossa, eu não perdia nada: saraus, fóruns... Aliás, eu descobri o sarau pela Fundação Gol de Letra. Na época chamava de FAC, o programa de jovens. Nossa, eu me apaixonei por saraus também por causa disso, eu descobri na fundação. E muitas coisas de... Meus amigos brasileiros acabaram sendo pessoas que são dos arredores da fundação, então tinha grandes amigos que eram jovens que participavam das oficinas de música, outros da oficina de teatro, então eu sempre estava nos arredores da fundação.

 

P/1 – Mas de programa mesmo, que você esteve mais envolvido, foi com o Jogo Aberto?

 

R – Envolvido diretamente foi o Jogo Aberto. Mas, por incrível que pareça, quando o Jogo Aberto foi iniciado, criado, eu tive minhas dúvidas. O que eu gostei na Fundação Gol de Letra também [foi] porque, apesar de ser do Raí, do Leonardo, não era um projeto esportivo, era um projeto cultural; é isso o que eu achava a coisa mais forte, profunda, realmente uma coisa que destacava a fundação.

Quando foi criado o projeto esportivo, eu fiquei pensando: “Ah, eles estão vindo agora pro lado esportivo. Eles estão perdendo um pouco a identidade que fez a fundação.” Mas depois comecei a trabalhar também com esse projeto. Conversando muito com a Ângela Bernardes, eu percebi que na verdade a metodologia da fundação dentro do projeto esportivo vira totalmente outra coisa: não é um projeto esportivo, é um projeto educacional também e isso faz uma grande diferença!

 

P/1 – É porque você estava comparando com o Jogo Aberto, era essa a comparação que você estava fazendo quando você pensou o esportivo... Quando apareceu o Jogo Aberto, você estava pensando no Virando o Jogo, aliás...

 

R – Virando o Jogo é programa de jovens, o FAC, na época. Eu tinha muitos amigos que faziam a oficina de música, de teatro... Foi quando eu descobri o sarau, por exemplo. A parte cultural que eu achava tão forte, tão boa, a parte de expressão,  seja corporal, vocal, artística... Eu achava a mais pertinente no projeto.

 

P/1 – Essas atividades continuam?

 

R – Continuam.

 

P/1 – Nesse período todo que você tem trabalhado lá, como você localizaria pra gente as principais mudanças na fundação?

 

R – As principais mudanças... Eu acho que... (suspiro) Uma das mudanças foi a criação desse projeto esportivo, que já ‘delocalizou’ a fundação pra outro espaço. Eu acho que as mudanças pra mim foram essas de localização, o aumento dos espaços usados pela fundação para atuar, então a sede, onde foi criado o projeto esportivo; as ações nas escolas públicas, que criou outros espaços, a gente conseguiu abranger mais pessoas. Acho também que a fundação, ela passou por... A gente está com uma ONG de projeto social que passa por muita luta e por crises também. A fundação passou por crises, eu acho que uma... Justamente no ano em que eu saí do projeto esportivo, a fundação passou por uma crise.

 

P/1 – Em que ano você saiu?

 

R – Foi 2007. Na verdade, eu tinha achado que um ciclo tinha se acabado pra mim. Fui educador, trabalhei três anos e pouco e aí pensei que tivesse acabado, porque eu queria um cargo de coordenação e eles não tinham como me oferecer na época, até que apareceu uma outra oportunidade que eu vou contar, que foi um pouco maluca, também.

 

P/1 – Mas na fundação?

 

R – Na fundação. Enfim, o ciclo tinha acabado, então eu resolvi voltar pra França. Passei nove meses na França até me chamarem de volta, porque justamente o Eduardo Atada estava saindo e tinha que ter alguém pra cuidar do evento, que é o Torneio Gol de Letra. Como eu participei da criação do torneio, desde o início até hoje, acharam que eu poderia ser a pessoa certa, então eu voltei. Mas aí eu perdi o rumo da pergunta... (risos)

 

P/1 – (risos) Não, tudo bem, pode ser por aí mesmo. Deixa eu só entender: essa crise em 2007 foi… Você lembra como foi isso, exatamente?

 

R – Então eu não lembro exatamente porque, na verdade, a crise não foi realmente em 2007, foi em 2008. Eu saí, voltei pra França e fiquei sabendo que no início do ano eles tinham cortado bastante coisa por causa desses problemas financeiros. Eu não sei exatamente o que aconteceu, agora que eu estou começando a entender mais. Acho que foi um período de transição para todas as ONGs, na verdade; foi um período difícil não só pra fundação, mas pra várias, e aí a fundação acabou ficando nesse bolo de problemas.

 

P/1 – Isso em 2008?

 

R – 2008.

 

P/1 – Aí você recebeu o e-mail pra voltar?

 

R – Recebi. (risos)

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – Isso foi muito engraçado... Eu vou voltar só... Quando eu saí em 2007, porque isso também...

 

P/1 – Aliás, como foi essa saída?

 

R – A saída [foi] assim: eu achei que o ciclo tinha acabado. Queria voltar pra França, eu queria outra coisa, buscar outra coisa... E aí eu falei com a Ângela, ela concordou, aceitou: “Ah, eu entendo, entendo muito bem.” Falei com os sócios, falei com o Raí. Só que na época tinha uma proposta, uma ideia maluca de fazer um projeto lá no fim do mundo, lá na Nova Caledônia, que fica perto da Austrália, da Nova Zelândia. Nova Caledônia fala francês e eu ia sair da fundação, então juntou as coisas. Falaram: “Jérémie, você está procurando um cargo de coordenação. A gente tem esse projeto aí, a gente só toca esse projeto se você topar, se não a gente não vai.” “Claro, é meio maluco fazer isso.” E eu sou um pouco maluco nesse sentido, quando eu aceito propostas... Eu não sei se vão divulgar isso, mas quando eu aceito proposta de emprego eu fico pensando: “Eu sei fazer ou não sei fazer?” E aí eu fico: “Não sei fazer, ah, então eu topo!” (risos) É um pouco isso, é o desafio que me move. Aí eu topei fazer esse projeto.

Foi um processo complicado, mas penso [que era] muito forte; o projeto acabou não acontecendo, mas mesmo assim fui pra lá, pra Nova Caledônia. Eu viajei trinta e poucas horas - aliás, passei por um momento muito forte pro físico, passei pela linha do tempo da Terra. Eu viajei, estava no sábado, de repente eu passei essa linha do tempo e estava no domingo... Nossa, o físico que faz isso é o máximo! E na volta viajei 33 horas: saí de lá sexta-feira às oito da manhã e cheguei na sexta-feira às 10 da noite. 33 horas de viagem! Isso foi muito bacana.

Mas o processo em si foi difícil, foi complicado, porque foi muita aprendizagem ao mesmo tempo e uma pressão forte. Eu tive que lidar com o que eu chamo de tempo empresarial. Tem o tempo social e o tempo empresarial: a empresa quer fazer um projeto, mas a gente, que entende desse tempo social, sabe que demora pra fazer um projeto! Tem que fazer uma pesquisa de campo, tem que fazer entrevista, tem que encontrar as pessoas, tem que fazer relações com as redes locais, antes de fazer, de instalar um projeto. Mas não, eles queriam um projeto pronto, então foi um pouco difícil essa relação de tempo social, tempo empresarial.

O projeto, em si, era mais pra cá, né? Era trabalhar com os nascidos, os nativos da Nova Caledônia, que são tribos que têm ainda tradição, que têm... Que moram, que vivem da pesca, da cultura e que estavam perdendo um pouco desses vínculos com essas tradições ancestrais por coisa de uma fábrica de níquel, querem extrair níquel aqui perto. Então eu sabia que era um meio polêmico, eu sabia que era uma crise, até uma crise mundial essa situação, porque pesquisei bastante. Eles me colocaram num local de muita luta pelo terreno de extração de níquel, então eu sabia de tudo isso. E acho que isso me deu ainda mais vontade de fazer o projeto, porque justamente está no meio de uma crise, no meio de um processo difícil. Pensei que  ia aprender muito, então resolvi topar. Só que depois o projeto acabou não acontecendo por vários motivos, claro que eu nunca vou ficar sabendo... Não aconteceu e quando eu soube que não aconteceria eu já estava procurando emprego na França. Então esse processo já foi pra lá...

 

P/2 – Mas você chegou a ir pra Nova Caledônia?

 

R – Fui.

 

P/2 – Descreve como é o lugar...

 

R – Nova Caledônia é uma ilha meio pequena, tem pouquíssimos habitantes, uns... Acho que ao todo trezentos mil habitantes. Tem uma cidade principal, a capital, que é Noumeá, que deve ter uns 250 mil e o resto são tribos espalhados pelo território. É uma região que tem ciclones, tufões; é uma região que tem tubarões, então teve uma praia que eu fui com uma placa: “Tubarão, não tomar banho.” Eu fiquei assim... Mas ao mesmo tempo, engraçado, porque é do outro lado do mundo e tem uma cultura francesa que é presente, porque é um território francês. É uma cultura francesa muito forte, então eu achava queijos franceses, eu achava coisas... Eu achava a coisa mais absurda num lugar desse, mas eu fiquei feliz porque estava com saudade também. Foi muito interessante essa ida lá e... Ah, não sei, foi... Não sei mais o que falar...

 

P/1 – E quanto tempo você ficou?

 

R – Fiquei cinco dias.

 

P/1 – Cinco dias?

 

R – Cinco dias, pois é... Pois é, Nádia, cinco dias e escrevi um projeto social. (risos) Não dá!

 

P/1 – É o tempo empresarial mesmo...

 

R – Não dá. Tanto que eu escrevi um pré-projeto, falei pra ele: “Não tem como escrever um projeto, precisaria de mais estudo no campo, mais pesquisa...” Falaram: “Não, a gente quer um projeto pronto, então...” Eu estava na França e me chamaram pro Rio de Janeiro, que é a sede da empresa e falaram: “Você vai vir pro Rio de Janeiro e vai escrever esse projeto.” E fui eu, foi a Mônica e o Felipe do Rio de Janeiro, os dois da fundação. Fomos os três lá no Rio de Janeiro, dois dias e meio escrevendo um projeto pra Nova Caledônia...

 

P/2 – É a Vale que está lá, né?

 

R – É. E aí... Bom... Ridículo! Acabei pensando assim: “Bom, finalmente, muito bem que não aconteceu.” Ia ser um aprendizado, mas ia ser tanta pressão, tanta...

Acho que uma das coisas que fez que não funcionasse, não desse certo, foi porque eu acompanhava as notícias lá. Sempre que tinha uma polêmica eu mandava um e-mail pra essa pessoa, minha referência na empresa, e falava: “Então, me explica o que é que está acontecendo aí!” Chegou uma hora que [ele] falou: “A gente tem a impressão que se acontecer alguma coisa lá, você vai estar do lado da população e não do lado nosso.” Eu não sabia o que responder, porque ia responder uma coisa óbvia, então eu não respondi nada, mas era óbvio... Enfim, esse projeto acabou por lá...

 

P/1 – Aí você voltou pra França?

 

R – Aí eu voltei pra França. Isso já foi em fevereiro de 2008, eu já tava na França, me chamaram eu fui pro Rio, e voltei pra França. Aliás, foi muito engraçado isso também, essa ida pro Rio, nessa...

Acho que as coisas, elas têm um sentido, na verdade. O projeto não aconteceu, mas quando eu fui pro... Eu ia pro Rio, o meu voo foi cancelado no dia. E aí foi um... Eu tive que mudar o dia do voo e tive que sair no dia seguinte, só que eu não tinha como voltar pra minha casa, porque o voo era muito cedo e o aeroporto muito longe pra eu voltar pra minha casa, então resolvi ficar lá. Não tinha hotel, não tinha nada pra dormir...

Mas o que aconteceu? Meu irmão mais velho, que a gente tem o mesmo pai, estava viajando pro Canadá e o voo dele foi cancelado também. A gente se encontrou no aeroporto – não, peraí que não acabou ainda! (risos) A gente se encontrou no aeroporto, acho que no primeiro de março de 2008, que era o aniversário dele, os quarenta anos do meu irmão. A gente se encontrou no aeroporto, por acaso, por dois vôos terem sido cancelados, nos 40 anos do meu irmão! E a gente não se via há um ano e meio, dois anos, talvez...

 

P/2 – Nossa, que presente, hein?

 

R – Foi incrível!

 

P/1 – E aí vocês comemoraram?

 

R – Comemoramos...

 

P/1 – E você lembrava que era o aniversário dele?

 

R – Lembrava, claro, lembrava! Já tinha falado com ele: “Eu tô no aeroporto, tô indo embora, sem...” Ele falou: “Eu vou estar no aeroporto também, só que bem depois.” Aí cheguei lá, o voo dele tinha sido cancelado e o meu também. A gente acabou comemorando lá, então foi maravilhosa essa parte! Bom, mas depois eu voltei pra França, trabalhei na França com uma associação também, que já fez um tipo de intercâmbio com a fundação...

 

P/1 – Peraí, uma associação já da Gol de Letra?

 

R – Não.

 

P/1 – Uma outra associação?

 

R – Uma outra associação que trabalha com Ciências. É o ensino da ciência pras crianças através de brincadeiras lúdicas, científicas e que fez intercâmbio inclusive com a fundação.

 

P/1 – Posteriormente?

 

R – Anteriormente.

 

P/1 – Anteriormente? Mas você já tinha ideia quando você foi pra essa associação?

 

R – Já sabia porque eu tinha acompanhado...

 

P/1 – Ah, então você foi conhecendo essa associação?

 

R – É, eu fui já conhecendo essa associação, então já fui ali pensando: “Bom, eu acho que tem chances.” Tenho experiência no terceiro setor, eu sou físico, conheço o trabalho que eles fazem, acho que tenho chances de trabalhar com eles. E aí realmente consegui trabalhar com eles - não um cargo de coordenação que eu queria, mas era bom, era um quebra-galho naquela época também.

Tinha uma outra associação na França que eu conhecia também, que era os Sport Dans La Ville, que a gente fez um intercâmbio também, uma associação esportiva. A gente fazia um intercâmbio todo ano. Esse foi engraçado também, a minha descoberta do Brasil passou um pouco por esse intercâmbio porque foi um ano que o intercâmbio era só com Rio de Janeiro. Um dia o responsável do Rio de Janeiro estava em São Paulo e a gente deu carona pra ele até o aeroporto. No caminho ele falou desse intercâmbio e falou que eles não tinham intérprete pro intercâmbio. Eu estava no carro, dirigindo. “Como assim não tem intérprete? Tô aqui do lado!” (risos) Falei: “Então, se quiser eu posso ir, pra mim não tem problema...” Ele topou e aí eu fui. Fui pro Rio, pra Paraty com o grupo; até acabei indo pra França, acompanhando o grupo brasileiro pra ir pra participar desse intercâmbio... Tanto é que me apeguei muito a esse intercâmbio, hoje eu... Esse ano eu coordenei o intercâmbio inteiro. Não vou viajar, mas eu coordenei o intercâmbio. Foi uma história bem forte também com essa associação na França, em particular; até pensei em trabalhar com eles, mas eu estava numa outra cidade...

 

P/2 – Como chama essa associação?

 

R – Sport Dans La Ville, quer dizer “esporte na cidade”.

 

P/1 – Eu só perdi uma coisa: você falou que tinha ido ao Rio com a Mônica e o Felipe. Em que ocasião, o que foi essa ida?

 

R – Foi a... O projeto da Nova Caledônia, [eu] tinha escrito um pré-projeto, só que eles queriam um projeto pronto, então chamaram os três pra escrever um projeto inteiro.

 

P/1 – Ah, entendi. Isso foi antes de você sair da Gol mesmo?

 

R – Não, já tinha saído.

 

P/1 – Você tinha saído, mas você ainda estava trabalhando com a Mônica e o Felipe?

 

R – Porque esse projeto estava pendente ainda. Eu não estava trabalhando diretamente com o Felipe, diretamente com a Mônica. Na verdade, nessa época eu já estava... Eu já quase nem estava mais pensando nesse projeto, porque eu não tinha notícias nem dessa empresa, nem da Fundação Gol de Letra. Eu já estava meio que encaminhado pra trabalhar na França e achar outra coisa lá. E daí veio de repente um... Tudo é de repente, tudo!

 

P/1 – Você ficou com a associação na França durante quanto tempo?

 

R – Durante... Parte do mês de abril de 2008 até o mês que eu voltei... Setembro...

 

P/1 – Alguns meses...

 

R – Alguns meses.

 

P/1 – E como foi essa volta... Antes, o e-mail “volte”, como foi isso?

 

R – (risos) Isso é engraçado porque os e-mails são assim, não é? “Jérémie, a gente está pensando em você porque patatata-patata, pensa bem porque daqui três meses vai começar...” Não, é: “Jérémie, a gente está precisando de você porque daqui a uma semana vai...” (risos) Eu estou lá na França e eles estão me chamando de volta, na maior loucura, pra coordenar esse evento de captação de recurso, que é o Torneio Gol de Letra e o Torneio ia acontecer daqui um mês e pouco. Ou seja, uma coisa que eu [fico] pensando: “Será que eu sei fazer isso?” (risos) “Não? Então vamos!”

Falei assim: “Eu preciso de uma semana, pelo menos uma semana pra pensar.” Os sócios me responderam: “Entendemos. Pensa, mas por favor pensa rápido, porque a gente tá precisando muito urgentemente.” Aí eu fiquei pensando: “Nossa”... Não me deram resposta da Nova Caledônia, agora eles querem que eu chegue no dia seguinte pra organizar o evento. Tem que ir com calma, agora! A minha relação nessa época com a Fundação Gol de Letra não era tão mais um… Como fala? Uma simbiose, existe essa palavra?

 

P/1 – Sim.

 

R – Não era mais uma simbiose. Eu já estava meio afastado filosoficamente, então não foi uma decisão fácil, mas sempre acreditei no trabalho da fundação. Eu sei que a fundação passou por uma crise, pensei comigo que esse era o momento de eu voltar e ajudar também. Só que eu não queria voltar a organizar o torneio e voltar pra França. Eu ia ficar na mesma situação, procurando emprego e não adiantava, então eu falei: “Olha, eu volto. Eu sempre acreditei, eu volto, mas eu quero uma proposta de médio ou longo prazo.” Eles não esperavam que eu quisesse voltar pra trabalhar de novo com eles, aí eles falaram: “O Eduardo Atada tá saindo e a gente pensou em você pra tomar o lugar dele.” Mais uma vez um desafio grande! Maior porque eu não conheço, maior porque eu estou apanhando, lutando, gostando...

 

P/1 – O projeto estava mais ou menos pra você implementar, não era isso? Você chegou e já...

 

R – Praticamente isso. A parte mais cansativa, vamos dizer, que eu tinha menos experiência, que era a parte de venda com as empresas já tinha sido completada, então era mais uma parte logística, uma parte de acompanhamento, de relacionamento. [São] coisas que eu gosto de fazer, só que eu cheguei três semanas antes do evento.

 

P/1 – Conta pra gente um pouco o que é esse evento, qual a importância dele.

 

R – Esse evento foi criado em 2004 pra arrecadar recursos pra fundação. Basicamente, é um evento de futebol, que na época que eu fui, foi ampliado... Um dia, um campeonatinho de futebol para empresas. No final do dia, a empresa que tinha ganhado o campeonato jogava com celebridades, com Raí, Leonardo, Sócrates... Isso foi a ideia inicial.

A ideia inicial, na verdade, surgiu da França; é um evento que acontece na França, de captação de recursos lá. Foi trazida essa ideia aqui no Brasil, aí a ideia pegou e cresceu, tanto é que a gente começou com seis empresas e já chegamos a trabalhar com 22 empresas num evento, num ano. A gente percebeu que foram muitas, a gente perdeu um pouco de qualidade e resolvi baixar pra dezesseis.

Hoje, esse evento é o maior evento de captação de recursos da Fundação Gol de Letra. Era um dia, hoje são três: dois dias que a gente chama de “classificatórios”, num centro de treinamento, com áreas de lazer bem legal, onde as empresas disputam o campeonato o dia inteiro... Tem entretenimento, lanche, café da manhã, tem tudo lá pra eles e o terceiro dia, o dia das finais, no Estádio do Morumbi. A gente tem também no Rio, é no Estádio do Maracanã, no mesmo formato... E hoje é o maior evento de captação de recursos da fundação, então hoje é um evento grande mesmo. E...

 

P/2 – Essas empresas que participam...

 

R – ...Elas fazem uma doação. (...) Uma doação a título de inscrição, que elas podem até abater em... Tem um... Por a fundação ser sem fins lucrativos, elas podem abater no Imposto de Renda também. Elas fazem uma doação, esse ano são 23 mil reais e acaba participando...

 

P/1 – E é todo ano que acontece?

 

R – Todo ano que acontece.

 

P/1 – Então desde que você voltou você está nessa área, você está atuando...

 

R – Agora eu estou... O ano passado eu coordenei, esse ano vou coordenar também. Estou na parte de captação de recursos e na parte de organização do intercâmbio; relação com pessoas físicas e jurídicas, que doam mensalmente ou anualmente; e a parte mais chata, vamos dizer assim, é a relação com os ministérios, prefeituras, pra escrita de projetos via leis de incentivo, que é uma coisa que toda hora tem que fazer. É um processo burocrático, muito...

 

P/1 – Você também tem a relação com a associação da Gol na França? Como é isso?

 

R – A relação com a associação Gol de Letra na França ficou comigo agora, por falar francês, por conhecer Paris... Mas na verdade é bem espalhado pela área, porque o pessoal fala português. Uma das pessoas que trabalha comigo, que é a Ângela Romã, ela já foi estagiária lá na França. Ela morou em Paris, foi estagiária da Association France e hoje está aqui. Basicamente ficam comigo as relações, mas é uma coisa meio que natural dentro da área.

 

P/1 – Entendi. Aliás, como a associação está lá? Ela está lá pra captar recursos ou tem uma atividade específica?

 

R – Só captar recursos. A única atividade anual, periódica que ela tem é acolher o grupo do intercâmbio. O grupo vai pra essa associação Sport Dans La Ville que fica em Lyon, no sul da França, mas antes eles passam dois ou três dias em Paris, então a associação francesa acolhe o grupo e faz as visitas.

 

P/1 – E na Itália também tem essa relação?

 

R – Na Itália, não. A gente tinha um vínculo mais forte com a Itália antigamente, hoje em dia a gente não tem mais tanto vínculo assim...

 

P/1 – E esse intercâmbio também é anual? É uma atividade anual?

 

R – É anual. Ele tem dois momentos no ano: um momento, que geralmente é em abril, que são os franceses que vêm pra fundação, pra São Paulo e Rio de Janeiro; e outro momento, em julho, que são os brasileiros que vão pra França.

 

P/1 – E geralmente os que vêm pra cá, como é essa seleção, como funciona isso?

 

R – A seleção de lá, dessa associação, eu não sei exatamente como funciona, mas os critérios que a gente usa são... Bom, critérios básicos de frequência, de assiduidade, de comportamento... E depois... Na verdade, vem quase que naturalmente pros educadores. A associação pede pros educadores indicarem alguns nomes e aí vem quase que naturalmente, sempre tem uns que se destacam, então a gente acaba priorizando essas escolhas.

Mas a gente não vê essa viagem, esse intercâmbio como uma premiação pra eles, a gente vê como uma grande responsabilidade pra eles. Eu sempre falo isso pra eles, lá eles não vão representar só a fundação, vão representar o Brasil, que é uma responsabilidade grande, então é uma escolha que a gente faz sempre pensando nisso. A gente nunca premia, não tem sentido em termos pedagógicos de premiar com uma viagem, mas uma viagem educativa, pedagógica, no sentido de responsabilizar o jovem, aí sim é importante. Tudo isso são critérios que a gente usa pra escolher.

 

P/2 – Quando eles chegam lá, quais são as atividades que eles fazem?

 

R – Geralmente em Paris tem umas visitas na cidade, alguns pontos turísticos, então o Museu do Louvre, a Torre Eiffel, o Rio Sena. E lá em Lyon eles vão direto para um acampamento, onde ficam duas semanas juntos com vários jovens e educadores franceses e participam de várias atividades: tem treino de futebol e de basquete, que é o foco da associação lá; tem uma descoberta da região dos castelos e das cidades medievais e tem uma parte de atividade mais de natureza, de canoagem, trilhas nos rios, de arvorismo... Tudo isso é uma convivência muito grande.

 

P/1 – Você chegou a acompanhar o intercâmbio?

 

R – Acompanhei.

 

P/1 – E como foi essa experiência? Você contou um pedacinho, mas...

 

R – Foi muito boa... A primeira vez...

 

P/1 – Você não levou nenhuma mordida?

 

R – Não, nessa não, levei outras coisas... Essa ida pra lá, na verdade, foi um pouco inesperada pra mim, porque foi depois de ter encontrado o pessoal do Sport Dans La Ville no Brasil, os acompanhei voluntariamente lá uns dois, três dias. Eu os deixei lá; passei três dias com eles, deixei acabarem a estadia no Brasil e voltei pra São Paulo, tinha meus compromissos aqui. Aí recebi um e-mail do Rafael, que na época era um dos diretores do Sport Dans La Ville.

A gente tinha criado uma amizade; apesar de dois, três dias, a gente viu afinidade muito forte. Recebi um e-mail dele dizendo assim: “Olha, Jérémie, a gente gostaria que você viesse também para o acampamento, junto com os dois educadores que vão estar da fundação. A gente gostaria que você viesse também, então vê, por favor, o preço da passagem de avião pra você vir pra cá.” E aí eu fiquei: “Nossa, eu ganhei uma viagem pra França.” (risos) Fiquei todo emocionado, e mais emocionado ainda por ser convidado por amigos e não... Num clima, num ambiente que eu queria conhecer: um intercâmbio, que é uma coisa que eu tinha muita curiosidade de conhecer.

Fui lá, eu busquei as passagens e... Bom, primeiro foi uma decepção, porque as passagens estavam caras e eles falaram: “A gente não pode pagar tudo isso.” Acho que a passagem estava tipo mil euros e eles tinham concordado de pagar seiscentos. Eu não tinha... Se eu pagasse quatrocentos euros do meu bolso, eu ia ficar com poucas coisas, mas pensei: “Bom, vale a pena!” E aí eu resolvi pagar. Falei: “Vamos combinar assim: eu vou, abro mão desses quatrocentos euros, abro mão de ser pago essas duas semanas, aliás. (risos) Vou voluntariamente, mas vou deixar um pouco mais pra frente, ou minha volta um pouco mais pra frente pra poder visitar minha família.” Aí eles falaram: “Tudo bem, beleza!” E aí eu fui.

O primeiro momento foi muito engraçado, porque chega lá na França, de novo... O que foi mais incrível é que eu fui à França e não fui ver minha família, porque a viagem era: pousou um avião, peguei um trem pra ir já pra Lyon. Então eu estava na França sem estar perto dos meus amigos, da minha família; estava muito esquisita essa situação, mas vamos lá, vamos em frente.

Fui lá e descobri como era o acampamento, descobri a convivência com os jovens franceses e brasileiros... E percebi logo o meu papel, que era de fazer o máximo possível o intercâmbio acontecer, no sentido da comunicação entre eles acontecer. Então eu não me cansei de traduzir, de puxar as conversas, de tentar fazer os jovens franceses falar com os brasileiros e vice-versa, pra não ficar uma situação de... Bom, deles não conversarem e não aprimorarem as relações, não aproveitarem o intercâmbio. Como eu também toco violão, nas noitadas eu pegava o violão e tocava; todo mundo gostou ali.

Tem uma música que virou quase um hino no acampamento, que é “A Novidade” do Gilberto Gil; eu ouvia os franceses voltando nos corredores pros quartos e cantando a música, porque tem uns agudos bem agudos no início, e cantar a música foi muito engraçado! Foi muito legal.

No final desse primeiro acampamento fui conversar com o... Na verdade, eles me chamaram pra conversar de dinheiro, porque eu não consigo puxar esses assuntos. Na época, pelo menos, eu não puxava esses assuntos. Aí me chamaram e falaram: “A gente resolveu pagar pra você a passagem inteira e não os seiscentos euros que a gente tinha combinado, porque você ajudou bastante. Graças a você, a comunicação foi direta e a gente não esperou uma semana pra acontecer. Você animou as noites. Você foi precioso nesse intercâmbio, então a gente não quer te prejudicar, a gente quer te presentear com isso!”. Aí falei: “Ah, beleza, perfeito.” Pra mim estava no bônus, eu nem esperava isso. Depois eu peguei o trem e fui ver minha família e meus amigos e foi uma coisa muito linda.

 

P/1 – Ah, então você conseguiu fazer isso?

 

R – Consegui depois, O estranho foi não poder ir logo de cara, mas depois eu consegui.

Isso foi no primeiro ano. No segundo ano voltamos a conversar e eu já trabalhava na fundação no projeto esportivo - nesse primeiro ano eu era voluntário ainda. [No] segundo ano já trabalhava na fundação no projeto esportivo, mas eu era autônomo. Não, desculpe, acho que estou me enganando... Não, é o contrário: nesse primeiro ano eu já trabalhava no projeto esportivo, mas era autônomo, então pra eu ir lá era mais fácil. Como autônomo eu combinei com a Ângela Bernardes e falei: “Estão me convidando, posso ir?” Ela falou: “Você é autônomo, faz o que quiser. Pela fundação ok, pode ir, deixa as suas aulas bem prontas.” No fim, eu não perdi muitas aulas porque pega bem a época das férias, então foi tranqüilo.

No ano seguinte eu era funcionário contratado, CLT da fundação. Dessa vez eu fui como educador da fundação e não mais convidado pelos Sport Dans La Ville. Fui dois anos seguintes como educador - na verdade, um como educador, realmente; no segundo ano eu já fui meio que como coordenador de intercâmbio. E no ano seguinte eu estava na França, só encontrei o pessoal lá; quando o pessoal chegou de São Paulo pra Paris eu estava lá no aeroporto, os encaminhei pro trem, deixei uma lágrima cair, porque eu não ia com eles. Sabia que iam aproveitar muito e fiquei feliz com isso. Esse ano estou coordenando, mas não vou mais viajar.

 

P/1 – Sim, tá bom. Deixa eu só perguntar uma coisa, que talvez nem tenha a ver com você: você tem algum acesso à Rede Vila Albertina, a RVA?

 

R – A RVA?

 

P/1 – Se você participou de reunião ou não, não tem nada a ver com a sua área de atuação?

 

R – Não, não, a rede é mais a parte social, que participa...

 

P/1 – É só pra tirar a dúvida mesmo, então tá bom.

Olhando a sua trajetória na Gol de Letra - tô quase fechando, tudo bem? O que você diria que mais aprendeu com essa trajetória na Gol?

 

R – Eu acho que eu… Ah, o que eu mais aprendi com a... Acho que na parte do ensino que eu… Basicamente, quando a gente dá aula, a gente chega e acha que já sabe tudo, com prepotência. Acho que eu me desafiei indo pra fundação e aprendi muito nesse sentido, porque realmente eu não sabia nada. (risos) Eu tinha muito pra aprender, então isso foi uma coisa muito forte pra mim, impressionante!

De um ponto de vista geral, eu acho que o que aprendi e continuo aprendendo na fundação é que a mudança é possível, que o trabalho que a gente desenvolve dá resultado, que o caminho, o lugar que eu estou, o caminho está certo. Inclusive teve uma... Eu comemorei os meus trinta anos no Brasil, trabalhando na fundação. Eu lembro quando tinha 27, que não sabia se ia fazer o doutorado ou não e eu ficava pensando: “Eu quero chegar com trinta anos olhando pra trás e não me arrependendo de nada que eu fiz.” E quando eu comemorei trinta anos, trabalhando na fundação, eu olhei pra trás e falei: “Eu não me arrependo de nada, eu fiz as escolhas certas.” Então isso pra mim foi uma coisa muito forte, foi uma coisa importante.

Aprendi também que as histórias de amor viram ódio ou viram paixão, ou viram amor... Eu tive essas relações com a fundação: amei a Fundação, odiei a fundação, me apaixonei por ela... Eu acho que a gente tem essa relação no dia a dia.

Acho também que é uma luta de cada dia. Quando eu era educador, costumava brincar falando que trabalhar na fundação é voltar à noite pra casa e escrever a sua carta de demissão; acordar de manhã, ver a carta em cima da mesa, rasgá-la e ir lá trabalhar. Isso foi pra mim uma certa época, de tão desafiador que era o meu trabalho. É uma imagem forte, eu nunca pensei em me demitir, nunca! Só no final que realmente achei que o ciclo tinha se fechado, daí foi uma demissão muito mais pensada, elaborada... Mas a questão da luta, da briga, de todo dia ser um desafio diferente, está muito presente, muito forte...

 

P/1 – Se você pudesse traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, como você traduziria?

 

R – Bom, nossa... Não está tão fácil, eu acho que... Uma das palavras eu acho que é educação, uma das palavras pra descrever a fundação, mas não é a palavra que pra mim faz mais sentido. Acho que na minha vida o que faz mais sentido é... Acho que é encontro, uma palavra… Foi um encontro importante não só a fundação, mas com todas as pessoas que trabalham lá... Reencontro também, foi um reencontro com uma parte minha que eu estava deixando de lado porque eu não tinha como explorá-la, essa vantagem de trabalhar em projetos sociais, de ajudar, então isso foi importante. Eu acho que uma outra palavra seria aprendizagem, porque acho que eu aprendi muito, tanto é que muitas pessoas com quem eu falo falam que a fundação é uma escola, não pras crianças, mas pros funcionários. (risos) Eu acho realmente uma escola. E desafios... Eu acho que é isso... Traduz muito meu percurso na fundação: muitos desafios e que valem bem! São muitas lutas, brigas, mas que valem a pena!

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado, que a gente não tenha te estimulado a falar?

 

R – (risos) Não. Tem uma coisa aí que eu esqueci de falar.  Quando eu cheguei na fundação com... Não sei se [com] bastante preconceito ou realismo, eu ficava pensando assim: “Bom, o Raí tem dinheiro, abriu uma fundação, colocou dinheiro, mas o cara não tá nem aí.” Isso [é o] que eu pensava, não sei se é preconceito ou realismo, porque acho que eu falei bastante isso e foi uma grande surpresa pra mim ver que o Raí está sempre lá. Sempre presente, sempre atuando, tomando as decisões, fazendo os contatos ele mesmo com as empresas, com algumas coisas…

Isso foi uma coisa que me marcou muito, até uma vez... Eu lembro de um evento, aliás, que eu fui, que foi um show da turma da música. Acabaram criando um CD e  foram apresentar o CD em shows. Tinha uma parceria com uma... Acho que um bar, alguma coisa assim... E foi o pior evento da Fundação Gol de Letra, ao meu ver, foi o pior: no meio de um bar, jovens menores tocando, enquanto tem pessoas tomando cerveja, ninguém ligando pra eles, quando já estava combinado pra eles jantarem. O bar colocou duas mesas lá fora de madeira e uma panela de macarrão e pedindo pros jovens fazer a fila e jogando, “frrrruuu”. Falei: “É o maior desrespeito pra eles...” Pra mim foi o pior evento que a fundação fez. Não foi a fundação que organizou, mas eu acho que foi... Nesse momento, eu enviei um e-mail pros sócios e pro Raí. Aliás, eu não escrevia muito bem, passei por um tradutor, virou uma coisa superformal, ficou ridículo! Mas, enfim, a mensagem passou: contando um pouco dessas coisas, dizendo o quanto eu estava decepcionado com esse evento e que eu esperava que eles fossem tomar a decisão certa. Isso eu estou falando porque a ligação com isso, com o Raí… Nesse e-mail também eu falava pro Raí que eu não respeito o Raí - não que eu não respeito o Raí, eu gosto, o respeito, porque foi jogador profissional e fez não sei quantos gols pra seleção, Corinthians, tudo isso... Assistia os jogos dele… Mas não é por isso que eu gosto dele e que eu respeito; eu tenho uma profunda admiração e respeito por ele pelo que ele fez pra fundação, com a fundação. É isso que faz pra mim o Raí uma pessoa diferenciada. Que ele jogou tênis ou futebol, pra mim não tem a menor importância, mas ele e os sócios também que estão lá, não porque... Lógico que o Sóstenes está lá porque... O projeto estaria num outro lugar, estaria muito mais... Mas ele está lá porque ele acredita no trabalho também. Ele é um ótimo diretor, então pra essas duas pessoas, nesse momento, nesse e-mail, eu quis falar isso pra eles também: o quanto eu respeito e admiro o que eles resolveram fazer.

 

P/1 – E esse e-mail que você mandou você obteve uma resposta, um retorno disso?

 

R – Tive resposta... Não sei se só o Raí respondeu primeiro, mas o Raí falou que entendia, que outras pessoas já tinham relatado esse fato e que realmente era uma coisa que não era pra acontecer, que foi um evento péssimo, que eles iam fazer tudo pra não acontecer de novo... E a outra pessoa, não sei se foi o Raí ou o sócio que falou a mesma coisa, fez...

 

P/1 – Interessante. É porque, só aproveitando isso, eu vi lá numa reportagem do lançamento do CD, e eu não sei se foi antes, mas deve ter sido depois desse episódio, porque teve um que o Raí foi lá junto com o pessoal no lançamento do CD.

 

R – O lançamento foi já num teatro no Jardim São Paulo, se não me engano... Foi num palco no Jardim São Paulo e o pessoal tocou lá. Mas acho que foi depois esse evento que eu estou falando não foi lançamento... É que chega uma hora...

 

P/1 – Pra divulgar o trabalho...

 

R – Pra divulgar o trabalho...

 

P/1 – Tá legal... Então agora a gente está fechando mesmo, tudo bem?

Esse trabalho de resgate da história do Gol de Letra, pra inclusive a gente fazer o livro, registrar a história, o que é que você acha desse... Da importância desse trabalho?

 

R – Nossa, eu acho muito importante em dois aspectos: o primeiro é pra história da fundação, pras pessoas que trabalham pra fundação, pra todas as pessoas envolvidas na fundação saberem qual foi a história dela, como ela cresceu, como se desenvolveu. Eu acho que não só... A gente fala da fundação e a gente sempre fala das coisas boas, mas eu acho que é importante falar das coisas difíceis que a fundação passou, acho importante todo mundo saber do processo que foi chegar onde a gente está hoje, saber que foi difícil, saber que realmente foi uma luta federal; acho que isso pras pessoas que participaram, participam ainda da história da fundação, é importante.

A segunda coisa que eu acho: num plano muito mais amplo, acho importante essa história ser retratada porque hoje em dia muitas ONGs procuram a gente, muitas empresas também procuram pra gente dar auxílio sobre essa questão [do] terceiro setor, projeto social, de criação de projeto... A gente sabe que hoje a Fundação Gol de Letra é uma referência nesse sentido, a gente até levou o reconhecimento da Unesco, a gente sabe que não é só o reconhecimento no Brasil, mas é reconhecido internacionalmente. Então eu acho que esse retrato da história da fundação é importante nesse sentido, que vai ser uma... Uma referência pra muitos outros projetos que possam ser criados depois, vai ser uma referência pra muitas pessoas que queiram se envolver num projeto social e vai ser uma base muito forte de um projeto que está funcionando, que está sendo reconhecido… Então acho que essa história é imprescindível!

Ao meu ver, é uma coisa que tem que ser feita e tem que ser divulgada... A gente já teve pesquisas feitas, mas que não foram divulgadas da forma certa; eu acho que essa tem que ser feita, divulgada e aproveitada! Muito bem!

 

P/1 – E o que você achou de estar contribuindo, fazendo parte aqui com o seu depoimento?

 

R – Ah, eu me sinto super honrado! É engraçado, porque eu entrei na fundação há quase seis anos agora, sem pretensão nenhuma. Eu ia ficar seis meses, e olha eu, quase seis anos depois, dando depoimento da minha história com a fundação. É engraçado que, dando esse depoimento, eu percebo a história que tenho com ela. Porque é uma coisa que no dia a dia a gente não...

Eu sou muito desligado das histórias... Por todas as mudanças - fiz muito [isso] na minha vida -, minhas histórias de vida nunca passam de três, quatro anos... Hoje eu já estô há cinco, quase seis [anos] com a fundação, então é uma coisa forte pra mim também, eu não sei... Eu estou feliz de poder participar do retrato dessa história. Espero que eu participe de alguma forma e espero poder participar mais anos depois, pro próximo passo do retrato da história, eu espero estar lá também!

 

P/1 – É isso aí! Obrigada pelo...

 

P/2 – Obrigada!

 

R – Imagina...




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