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Gol da vida

História de: Maria Albaniza Ribeiro Lopes Rebouças
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/06/2021

Sinopse

Dona Albaniza relata as dificuldades e o papel que ela e as mulheres de sua comunidade prestaram para que o poder público realizasse a fixação da Vila Planalto e desse melhores condições à população local. Em sua entrevista dividiu episódios com Governador do Distrito Federal e Presidente da República para exemplificar as atividades às quais se dedicou.

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História completa

Projeto Memória Compartilhada Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Maria Albaniza Ribeiro Lopes Rebouças Entrevistada por Inete Pereira Brasília, 09 de março de 2009. Código nº MDF_HV 015 Transcrito por Rosângela Maria Nunes Henriques Revisado por Marina Tunes P/1 – Dona Albaniza, bom dia. R – Bom dia. P/1 – Eu gostaria de agradecer a presença e pedir pra senhora falar o nome completo, o local e a data de nascimento? R – Meu nome é Maria Albaniza Ribeiro Lopes Rebouças, eu sou de Fortaleza, no Ceará, e tenho 69 anos. P/1 – Qual a atividade profissional da senhora? R – Sou costureira. P/1 – Qual o nome dos pais da senhora? R – Luís Ribeiro Lopes e a mãe é Francisca Ribeiro Lopes. P/1 – Qual era a atividade profissional deles? R – Do meu pai era mecânico e da minha mãe era do lar. P/1 – A senhora chegou a conhecer os seus avós? R – Conheci só minha avó. P/1 – A sua avó materna ou paterna? R – Materna. P/1 – E ela sempre foi de Fortaleza? R – Do interior do Ceará. P/1 – A senhora lembra o nome da cidade? R – Baixio das Cobras. P/1 – A senhora chegou a conhecer essa cidade? R – Cheguei. É uma cidadezinha assim muito... Uma corruptela como dizem aqui, né? P/1 – A senhora teve irmãos? R – Tenho, somos 11 irmãos. P/1 – A senhora poderia falar o nome deles? R – Eu sou Albaniza, o outro é Arnaldo, Arnold, Armando, Marialva, Maria Neude, Liduína, Maria José, Maria Estela, José Augusto. P/1 – Dona Albaniza, como foi a infância da senhora lá em Fortaleza com seus irmãos? R – A minha infância foi assim de periferia brincando de roda, brincado daquela amarelinha, brincando de boneca, porque hoje as meninas já não brincam mais, não é isso? Então foi assim, uma vida muito humilde, mas muito gostosa, muito boa, entendeu? A gente não tinha ambição por nada, naquele tempo não tinha rádio, não tinha televisão, mas aquilo tudo que estávamos vivenciando fazia a gente feliz. Meu pai era mecânico e ganhava muito pouco, mas a gente nem se preocupava com isso, tanto fazia... No dia que tinha comida tudo bem e também no dia que não tinha a gente se conformava com aquilo foi assim a minha vida de infância. P/1 – Lá em Fortaleza a senhora chegou a estudar? R – Estudei, eu estudava no colégio de freiras, eu fiz todo o primário lá nesse colégio, chama Patronatos. P/1 – E a senhora veio quando pra Brasília? R – Eu cheguei a Brasília em setembro de 1962. P/1 – Por que a senhora veio pra Brasília? R – Porque eu tinha um namorado aqui e eu vim pra casar, né? E quando falava assim Brasília, era meu eldorado, né? Eu achava que era uma coisa do outro mundo, então quando eu cheguei aqui, eu me decepcionei logo na chegada. P/1 – Por quê? R – Porque parecia uma cidade de bangue-bangue, né? Era muito barraco, era muita poeira, era muita obra, aqueles prédios só os esqueletos, muita poeira, muito frio e aquilo me decepcionou, sabe por quê? Eu vinha de uma cidade que nada disso existia, né? Era uma cidade melhor. P/1 – E a senhora tinha quantos anos quando a senhora veio cá? R – 24 anos. P/1 – E como a senhora veio a Brasília? Com qual meio de transporte? R – Eu vim de avião DC-3 da Varig, um bimotor, aquele pau de arara mesmo. P/1 – A senhora falou que tinha um namorado aqui, né? R – Que é o meu marido. P/1 – E a senhora chegou a namorar com ele lá em Fortaleza? R – Foram oito anos de namoro e ele veio aqui pra trabalhar, né? Peão de obra. P/1 – Qual era a construtora que ele trabalhou? R – Ele trabalhou na construtora Pacheco, construtora Rabelo, a Nacional. P/1 – E a senhora chegou e já foi direto pra Vila Planalto? R - Não, eu vim “pra aqui” com a irmã dele e mais uma amiga, que os pais dela moravam aqui. Aí eu vim pra casa dela, eu cheguei em setembro e em dezembro eu me casei. Aí fiquei morando dois anos em Taguatinga num barraco lá alugado, depois meu marido desempregou e tivemos que ir para uma chácara depois de Formosa. No início tudo foi muito bom, entendeu? Muito frango, era tipo uma granja, muita planta, mas passaram dois anos a coisa complicou e ficou muito ruim lá a situação da gente. E um dia me deu uma dor de dente assim muito grande, sabe? E eu fiquei pensando “Nossa! Eu nunca morei em roça e o que eu estou fazendo aqui com tanto sofrimento?” Aí eu arrumei lá os meus filhos= eu tinha dois filhos na época- e o dente doendo pra caramba, entendeu? E ele estava trabalhando no laranjal, me arrumei e disse: “Hoje eu vou-me embora daqui e se eu morrer, e minha alma tiver vergonha, não volta mais aqui nesse lugar.” Ele de longe me avistou com uma sacola e o menino no braço e perguntou aonde eu ia, eu disse: “Eu vou embora daqui e não volto nunca mais, porque eu estou com muita dor de dente e não tenho recurso.” Aí, na época, a minha cunhada morava na Vila Planalto e nós pegamos lá um jipe e fomos até Formosa e, em Formosa, nós pegamos um ônibus pra Brasília. Aí ele até me perguntou “Pra onde você quer ir?” Eu falei: “Eu quero ir para um lugar mais perto, eu quero a Vila Planalto.” E daí nós chegamos já à noite na casa da minha cunhada na Vila Planalto e no outro dia cedo eu fui tirar o dente que me perturbou muito e daí nós ficamos morando com ela um tempo. Foi quando ela e meu marido montaram uma cantina lá no Itamaraty, que nessa época estava sendo construído, e era muita gente trabalhando, parecia até aquele filme Os Dez Mandamentos, tanto homem pra todo lado, que você olhava era gente pendurada trabalhando. E aí nós ficamos com a cantina e tudo corria bem, eu lavando roupa para os peões, cuidando dos meus filhos e dos filhos dela, e fazendo marmita pra outros peões que chegavam meio-dia pra almoçar e batiam... Batia a cachorra que diziam lá, né? Batiam lá na enxada, fazia aquele barulho na hora que chegavam, eu ia correndo com as marmitas entregar pra eles e sempre tinham outros também que almoçavam lá na casa. Eu sei que era assim uma vida muito difícil, mas tudo eu superava, entendeu? P/1 – A senhora ia a pé da Vila Planalto até ali a construção do Itamaraty? R – Às vezes a gente ia, meu marido tinha uma lambreta na época, mas ele saía às três horas da manhã, ele e minha cunhada, pra levar leite, carne e essas coisas e eu ficava em casa. Essa época, na Vila Planalto, tinha um supermercado e daí cedo eu deixava os meninos... Quatro crianças eu deixava dormindo e ia lá ao mercado comprar carne e outras coisas que faltavam na cantina pra levar pra ele. Quando fosse dez horas, ele vinha pegar o feijão cozido, o leite e mais outras coisas pra levar pra cantina. Daí quando chegava seis horas da tarde eles voltavam pra casa. Foram quase dois anos nessa luta, né? P/1 – O horário de trabalho dos trabalhadores era o quê? Era o dia inteiro? R - Era o dia inteiro e entrava pela noite. Não tinha esse negócio de noite, o pessoal fazia serão na época, né? P/1 – Entrava até a noite? R – Não tinha horário pra terminar, era o grupo da noite, era o grupo do dia, era muita gente trabalhando, viu? E existia aquela coisa... As mulheres temiam até passar perto de uma obra, porque eles ficavam gritando “Maria, vem cá, Maria.” P/1 – Tinham poucas mulheres? R – Tinham poucas mulheres aqui, eram muitos homens, muitos mesmos. E foi assim que a gente foi vivendo desse jeito, e se conformava com aquilo, achava interessante, né? P/1 – E a diversão? Como o pessoal se divertia, Dona Albaniza? Porque a senhora falou que era muito trabalho, né? E a diversão? R – O divertimento mais sabe o que era? Um radinho debaixo do braço ouvindo música, essa era a vida das pessoas que trabalhavam na obra, né? P/1 – Mas não tinha dia de folga? R – A televisão, esse era o nosso divertimento, não existia nada... Tinha um clube lá na Vila Planalto, mas era para o pessoal da classe A, né? Então a gente nem chegava lá, era para os engenheiros, as esposas dos engenheiros, a família deles. Você sabe, a plebe sempre fica isolada. P/1 – A senhora sentia muita diferença entre a vida que os peões tinham e o relacionamento entre os peões e os engenheiros? Ou até políticos que chegavam a Brasília pra construção? R – Naquela época até que não tinha muito contato com políticos, entendeu? Era assim, como um deus, a gente na ignorância da gente. Porque hoje em dia não existe isso, hoje em dia a gente passa por um político é coisa comum é normal, né? Mas naquela época era mais complicado. P/1 – Agora, Dona Albaniza, a senhora ficou aqui e chegou a morar numa espécie de chácara, né? Perto de Formosa, morou em Taguatinga e depois veio pra Vila Planalto. Qual foi, assim, o impacto... O significado de Brasília pra senhora, pra vida? R – A minha vida, o impacto maior... foi uma conquista muito grande. A gente... Nós fomos ficando na Vila Planalto e daí veio aquela... Eu sempre tive muitas ideias, entendeu? Aí eu ouvi falar que ia ser construída uma cidade nova que seria a Samambaia e havia os boatos que ia retirar e colocar a gente na Samambaia. Eu disse: “Mas isso aí é injusto, a gente trabalhou tanto aqui nessa vila, meu marido está aqui há muitos anos, trabalhou na construção civil e a gente ser retirado daqui pra ir para um lugar que a gente nem conhece.” Eu já sabia como era a situação, porque retiravam a gente e jogavam assim no meio... Tipo, limpavam, e às vezes nem limpavam aquele cerradinho, né? Colocavam lá os barracos e eu disse: “Isso não está certo, a gente vai ter que formar alguma coisa aí.” Aí já havia um grupo que já tinha começado pra criarem um posto de saúde e tirar as crianças da desnutrição, era casa de uma amiga minha, inclusive o nome dela era até Maria do Chapéu, porque o marido dela usava chapéu, era um pioneiro e ela ficou como Maria do Chapéu. E o posto seria na casa dela, num galpão que ela tinha, então ali as crianças consultavam, pesavam, mediam, né? E um dia, eu conversando com ela, eu falei: “Oh, dona Maria, essa coisa da gente sair daqui, isso não está certo não, a gente tem que criar uma luta aqui pra gente fazer um jeito de ficar aqui na Vila Planalto, porque eu acho isso injusto nos tirarem daqui...” P/1 – A senhora lembra quando foi isso? Que eles estavam querendo retirar pra Samambaia? R – Eu sei que foi na criação da Samambaia. Antes de criarem a Samambaia e aí a Leiliane, na época, era menina, ela tinha dez anos. E nós tínhamos lá o Cose [Centro de Convivência], que é um centro onde crianças vão brincar, estudar e tinham duas assistentes sociais muito legais com a gente. E daí a gente passou o assunto pra elas e elas se interessaram, porque elas já vinham de uma comunidade que elas tinham criado, assim, uma luta pra fixar também lá pro lado de Taguatinga. E aí a gente ficava pensando: “A gente tem que fazer alguma coisa” e elas nos orientavam, né? Elas diziam que a Vila Planalto era o coração de Brasília e que a gente deveria lutar. E foi orientando a gente e aquilo foi despertando a ideia da gente lutar mesmo e tentar ficar na Vila Planalto. Daí, eu conversando um dia na reunião delas, e no caminho a gente sempre formava aqueles grupos e ficava conversando, né? A respeito das coisas que poderiam acontecer que não deviam, né? Das injustiças. Aí me deu, assim, uma ideia. A Leiliane falou: “Mãe, a gente deveria ir ao Presidente”, eu falei: “Sabe que é mesmo, Leiliane.” E na época eu tinha escutado uma reportagem que tinha uma menina... Que descia assim a rampa, o Presidente e a menina, eu acho que pediu uma casa e ele deu uma casa pra ela, né? P/1 – Qual era o Presidente? R - Sarney. Aí eu falei: “Sabe de uma coisa, é mesmo, Leiliane, vamos botar uma carta aqui pro Presidente”. A Leiliane tem até a cópia dessa carta. E nós fizemos essa carta e aí fomos numa sexta-feira, era sexta-feira que ele descia a rampa. E tinha um amigo meu, que chamava Zé Ramalho, e ele me encorajou muito, porque na hora de ir, no dia de ir, eu estava com medo, podia não dar certo. Eu falei: “Ai, meu Deus, isso não vai dar certo", tanto que eu nem convidei as outras mulheres que participavam do grupo. E ele chegou a minha casa cedo e falou: “Dona Albaniza, você vai agora.” Eu falei: “Não, senhor Zé, agora não.” “Nós vamos é agora.” Aí nós fomos a pé, porque nesse dia nós não tínhamos nem um centavo pra pagar ônibus lá pra Esplanada. Aí chegamos lá, tinha muita gente, porque era muita gente que toda sexta-feira na descida dele da rampa ficava ali em volta, né? Na época, o governador era o Aparecido, e aí nós ficamos lá. E na época, eu fumava, eu acendi um cigarro atrás do outro, fumando nervosa, né? Como é que eu tinha que fazer: “Meu Deus, será que ele vai atender a gente?” E aí eu botei a carta na mão da Leiliane e falei: “Leiliane...” pra não pensarem que podia ser uma bomba ou alguma coisa, eu abri a carta, assim, e entreguei a ela e falei: “Você entrega a carta desse jeito assim aberta.” Ele descia sempre às seis horas da tarde e nesse dia ele atrasou mais, eu botei os pés assim e falei: “Leiliane, senta no meu pé, na hora que ele tiver no meio da rampa, eu dou um chute assim, e tu sai correndo.” E ela ficou sentada assim no meu pé, e, quando ele veio, eu falei: “Leiliane, é agora”, chutei ela assim e ela quase caiu correndo e gritando: “Presidente, me atenda, por favor, eu tenho aqui uma carta pra entregar pro senhor” e ele tinha muita gente do lado dele, né? Aqueles seguranças dele, aí ele entrou no carro e os seguranças vieram deixar ela onde eu estava, aí ela chorando, ela ficou tão emocionada que ela fez xixi, eu falei: “Mas não é possível uma coisa dessas.” Aí, de repente ele saiu do carro, mandou buscá-la e falou: “Olha, Leiliane, pode deixar que eu vou ler a sua carta.” E aí foi embora e era tanta reportagem, tanta fotografia em cima da Leiliane pra saber por que e nesse dia... O engraçado é que quando ela voltou pra mim tinha muita gente, tinha bem umas três mil pessoas que gritaram: “Atende a menina, covarde, atende a menina,” todo mundo gritando. Então isso acho que ajudou mais ainda e aí... P/1 – Ela tinha quantos anos? R – Ela tinha dez anos na época, aí nós fomos pra casa, felizes, né? Reunimos a noite o grupo das dez. P/1 – Esse grupo das dez, eram mulheres? R – Eram mulheres. P/1 – Que se reuniram pra fixação... R – Fixação da Vila Planalto. Antes eu até me esqueci de falar, nós começamos a fazer um grupo de oração, porque o Donizete, ele já vinha de Goiânia, e ele já trazia essa experiência. Então a gente ia todas as noites e se reunia numa casa, rezava o terço e aí depois disso a gente começava a conversar com aquela pessoa daquela casa orientando, despertando nelas a ideia, o valor que a Vila Planalto tinha pra gente, né? P/1 – O Donizete era o quê? R – Era um membro da comunidade, mas assim muito destemido, daqueles que não mede esforço pra ajudar, pra falar, entendeu? Era o mais falador do grupo, né? Então as ideias a gente sempre levava pra ele: “Donizete, o que você acha disso?” E ele falava: “É ótimo, vamos fazer”, era sempre assim. P/1 – Era um grupo de oração católica? R – Era um grupo de oração católica, toda segunda-feira a gente fazia oração nas casas e aí depois da oração a gente entrava no assunto da Vila Planalto. Aí voltando, né? Quando entregamos a carta, aí à noite nos reunimos e passamos pra todo mundo o que tinha acontecido, eu não levei nem o grupo, porque eu fiquei com vergonha, eu achava que não ia conseguir entregar a carta. Aí, passado acho que uns dez dias, eu estou lá em casa e de repente entrou a Leiliane com um jornalista lá que já tinha passado no colégio, tinha pegado a Leiliane e tinha ido lá em casa pra me conhecer e já trazia uma carta que o governador queria a nossa presença naquele dia. E tinha um assunto muito importante e que aquele dia era um dia muito importante na vida da Leiliane. Aí eu saí correndo pra avisar todas as mulheres que eu tinha recebido essa carta lá do governador. Menina, foi uma alegria tão grande pra todo mundo, porque aquele dia era um dia decisivo na vida da Vila Planalto, né? A gente ia resolver alguma coisa, aí todo mundo vestiu sua roupa melhor, ninguém nunca tinha entrado no gabinete do governador, era a primeira vez. Aí quando foi três horas da tarde foi todo mundo… Quando nós entramos no gabinete dele já eram umas seis horas. Aí estavam a Márcia, estava o Carlos Murilo, tinham vários políticos lá, entendeu? Eu esqueço o nome deles, a Leiliane tem uma boa memória, ela se lembra de todo mundo. Ele sentou a Leiliane nas pernas dele e começou a explicar o que era um tombamento, uma preservação, como se a Leiliane entendesse, porque ela só tinha dez anos, ela não entendia nada de preservação, tombamento e nós ficamos isolados lá num canto, né? Nós levamos um documento também pra ele, aí nesse momento o telefone toca e era o Presidente Sarney querendo falar com a Leiliane, até nós devemos esse grande favor a ele, que se não fosse por eles dois a Vila Planalto não estaria fixada. Aí ele perguntou a Leiliane se ela tinha sido bem recebida pelo Governador, né? Aí a Leiliane conversou com ele e isso deu uma força maior pra nós pro Governador atender a gente. E dali nós saímos muito confiantes e ele falou que conhecia a situação e tal, mas sempre se fazendo assim de difícil... Aí nós fomos recebidos e fomos pra casa confiantes e felizes, as mulheres ficaram muito felizes porque aquilo era um chute, era um gol na vida da nossa história. P/1 – Mas o Governador chegou a dizer alguma coisa de tombar a Vila Planalto? R - Tombar a Vila Planalto como patrimônio histórico e preservar também, porque ainda era um reduto, assim, histórico, né? A Vila Planalto tem a história dela, foi onde os primeiros peões instalaram, era lá e no Bandeirantes, que era Cidade Lírio na época. E nós começamos a fazer reunião. Aí entrou o Roriz e o Roriz era mais maleável, porque quando a coisa estava ficando mais difícil pra gente, alguma coisa que a gente queria pra Vila Planalto, pra fixar mesmo a assinatura dele, então a gente reunia o grupo todo e outras pessoas da comunidade e, às vezes, às cinco horas da manhã nós já estávamos lá na porta da casa dele. Quando ele saía, que avistava a gente, o pessoal do Planalto, aí ficava aquele converseiro lá, a gente mostrava a situação da Vila, como estava e tal, mas só ficava em conversa, em promessas. Um dia nós fizemos lá um abraço, a coisa estava ficando complicada de novo no esquecimento, aí fizemos um abraço da Vila, acordamos cedo e todo mundo de braços dados circulando a Vila Planalto, e foi um dia assim muito bonito. Aí alguém, acho que ligou pra ele e aí ele veio, né? Então ele fez uma promessa muito boa pra gente e depois daí foi assinada a fixação da Vila Planalto, que foi um dia assim... A maior conquista, do mundo, que eu já tive na minha vida, e alguns moradores de lá que reconhecem isso, porque hoje em dia ninguém reconhece não, ninguém nem sabe como foi que a Vila Planalto foi fixada, principalmente as pessoas que estão comprando lotes, casas lá. Eles não têm conhecimento e nem procuram saber, entendeu? E é até interessante porque a Leiliane quando criança foi uma pessoa que lutou muito, quando tinha comício, ela acompanhava todos os comícios da Márcia e de outros políticos, a gente ia pra todos os cantos, pras cidades satélites onde tinha um comício, que estava o Roriz, que estava a Márcia, que estava a patota toda, né? Engraçado, e muitas pessoas desvalorizavam o trabalho da gente, o pessoal da comunidade achava que a gente não tinha o que fazer, porque se tivesse o que fazer não ficava daquele jeito andando, eles não acreditavam, entendeu? E também não valorizavam o trabalho da gente. P/1 – Mas, Dona Albaniza, só pra gente entender mais, quando estavam construindo a Samambaia, vocês chegaram a receber algum ultimato, um aviso de retirada da Vila Planalto? R – Não, só havia boatos, só zum-zum-zum. Algumas pessoas falavam: “Olha, vão retirar a Vila e vão colocar lá na Samambaia”, era isso que nos amedrontava, mas nada concreto, mas, você sabe, quando a gente está num lugar que acha que não está bem plantado tudo que acontece a gente já fica assustado, não é isso? Quando surgiu Superquadras Planalto, que seria em volta da Vila, aí isso também nos amedrontou, porque eles iam construir esses apartamentos lá, e eles diziam que ia ser muito bom pra nós, porque ia ter creche, ia ter farmácia, loja e tal. Mas aí a gente pensou, o grupo, né? “Nós vamos ficar aqui cercados por blocos e depois o que vai acontecer?” Tudo que acontecer lá, eles vão dizer que são os favelados daqui de dentro. Aí nós começamos outra luta, a gente trazia a imprensa, era a Globo, era o Correio do Brasil, Correio Braziliense, juntava grupos de manhã cedo, um grupo ia pra Rádio Planalto, outro grupo ia pra Rádio Nacional e metia a língua, entendeu? Eu sei que, graças a Deus, esse projeto do Lúcio Costa não aconteceu, graças a Deus, porque senão nós teríamos ficado cercados, né? Ficava assim, aquelas ilhas do lago e eles queriam colocar rodeando a nossa vila. P/1 – Essa era a Superquadra? R - As superquadras do Planalto, graças a Deus, esse projeto dele foi ao chão. Eu sei que foi muita luta, sabe? Muita luta, e fomos lutar por um posto de saúde na Vila Planalto, o mesmo grupo, a gente... Na época era o Frejat que era secretário de saúde. A gente ia lá no gabinete dele e conversava e levava documento e daí foi... Tinha a Doutora Jacira, que era diretora do HRAN [Hospital Regional da Asa Norte] na época, ela também me deu uma força muito grande, aí nós conseguimos o posto de saúde da Vila Planalto. Fomos lutar também por uma escola, a nossa escola era de madeira na entrada da Vila Planalto, e estava muito capenga, muito feia, a madeira apodrecida. P/1 – Era de primeiro grau essa escola? R - Era de primeiro grau e havia um problema, porque as crianças atravessavam a pista, era muito perigoso, inclusive, até um filho meu uma vez foi atropelado. E daí nós fomos lutar por essa escola com o Roriz. Teve uma vacina lá, e ele foi vacinar os netos lá na Vila Planalto, lá na escolinha e, a Leiliane já estava ali na frente, foi mostrar a situação da nossa escola pra ele: “Olha só, Governador, a situação da nossa escola. Quando chove aqui a gente tem que ficar debaixo da mesa por causa das goteiras e está muito próximo do asfalto, é perigoso pra gente e, um barraco desses estragado é perigoso dar um incêndio.” Aí ele prometeu que iria fazer uma escola nova pra gente e fez, fez uma escola de alvenaria, porque não era pra ser de alvenaria, era pra ser de madeira, toda da madeira, né? Foi preservada, mas só que acontece que a escola eles construíram de alvenaria, o posto de alvenaria. Então o que fez tirou toda aquela responsabilidade dos moradores de fazer construção de madeira e, quando foram entregue os lotes, muitas pessoas tiveram que ser remanejadas de um lugar pra outro. P/1 – Por quê? R – Porque havia lugares que eram, por exemplo, dois lotes e estavam divididos em três barracos. E lugares assim, muito ruins, e aí eles entregavam o lote e o documento que a gente recebia, era pra ser construído de madeira e, de repente, a gente começou a ver alvenaria, né? “O negócio não está certo, porque o próprio Governo entra aqui na Vila e faz de alvenaria, por que nós temos que fazer de madeira?”. Então havia desobediência total e todo mundo começou a fazer de alvenaria. P/1 – Isso foi depois do tombamento da Vila Planalto? R – Depois da fixação, porque tombada ela já é, inclusive a Vila é patrimônio mundial de Brasília, né? P/1 – Depois da fixação, que foi mais ou menos da época do Aparecido? Ou do Roriz? R - Do Roriz, foi ele que assinou a fixação. Aí eu sei que o pessoal começou aquela ganância pra ver o dinheiro, né? Comprar carro… Na minha casa, na época, eu vendia até pão, não era padaria não, eu pegava de um padeiro e vendia, né? Deles lá que venderam o barraco, aí já tinha comprado um carro, não descia nem do carro pra pegar o pão, né? Comprou logo um chapéu, fumando um charuto todo vaidoso, e pedia pão e eu ia lá entregar no carro, aí as pessoas até diziam assim: “Dona Albaniza, deixa de ser boba, deixa ele descer do carro”, eu digo: “Não, deixa ele com a vaidade dele.” Depois ele passou lá na minha casa, na minha porta numa carroça, porque o carro começou a quebrar, ele perdeu dinheiro, né? E já estava de carroça e muitos outros que ficaram vendendo achando que o dinheiro nunca acabava, né? Muitos lotes lá já foram vendidos, muitos parcelaram lotes. E depois eles vão pra Santa Maria ou pra Agrovila, aí gastam o dinheiro, ficam insatisfeitos com o local, porque não é como a Vila Planalto, porque ali é um paraíso, e aí voltam e vão morar de aluguel nos fundos dos lotes dos outros, né? É isso que acontece. Então isso... A gente fica muito revoltada e triste porque não era assim pra continuar a Vila Planalto, e nós, lá na Vila, éramos uma irmandade, havia muita união entre as pessoas, é como eu vinha te contando. Se a gente estendesse uma roupa no varal e a gente não tivesse em casa e se tivesse chovendo, o vizinho ia lá e pegava a roupa da gente, a noite se adoecesse, qualquer pessoa, ninguém nem se acanhava de chegar à porta e bater: “Dona fulana, você tem um remédio tal pra arranjar”? Então a pessoa levantava feliz pra entregar pra gente, havia tudo isso era uma irmandade, entendeu? Agora já não existe mais isso, a gente passa até 30 dias sem ver nem a cara do vizinho, por quê? Por causa dos muros, ficou todo mundo isolado por causa dos muros, porque antes era cerquinha baixinha, não era pra... E no decreto há proibição de muros, teria que ser cerca viva, mas ninguém... E também tem isso, acontece tudo isso de errado, porque não tem fiscalização, as pessoas estão fazendo do jeito que querem e o que bem entendem, três pavimentos, dois pavimentos, muro alto, por quê? O Governo proíbe, mas não tem fiscalização. P/1 – Agora, Dona Albaniza, qual a diferença entre um candango e um pioneiro? R – O candango é o mesmo pioneiro. P/1 – É a mesma coisa? R – É a mesma coisa. P/1 – E me diz uma coisa, Dona Albaniza, o seu marido ficou lá na casa da cunhada, né? R – Isso da irmã dele. P/1 – Da irmã dele. Vocês chegaram a adquirir uma casa? R - Por morar com ela, nós conseguimos o lote na Vila Planalto, porque moramos com ela muito tempo e depois ela estava desgostosa de lá da Vila Planalto e foi morar no Braguetos. Você sabe onde é, aquela ponte do Braguetos? Lá desocupou um barraco melhor do que o que nós morávamos na Vila Planalto, e nós ficamos lá dois anos. Aí quando um fiscal da Terracap [Companhia Imobiliária de Brasília] comunicou com ela: “Olha, tem um barraco muito bom que desocupou na Vila Planalto, você quer ir pra lá”? Aí foi quando nos deu a oportunidade de ir lá pra Vila Planalto, aí nós ficamos na Vila. E daí, depois que foram entregues os lotes, foi que passamos a ter o direito, porque nós já permanecíamos lá na Vila Planalto. P/1 – Agora, Dona Albaniza, a senhora acompanhou um pouco as eleições pra Deputados Federais? A primeira eleição em que Brasília participou votando pra Deputado Federal e pra Senador? R - Eu votei, mas sabe como era? Eu votava, mas não estava nem... Eu não tinha conhecimento, entendeu? No tempo que eu era moça, na casa do meu pai, a gente votava porque meu pai... No tempo de Getúlio e tal, porque todo mundo votava em quem meu pai votasse, entendeu? Então, quando eu vim pra Brasília, nas primeiras eleições, eu votava, mas não tinha nenhum interesse de nada, entendeu? Eu não procurava saber quem era, né? Mas na época do Roriz, aí já foi diferente, a gente já ficava... Nós votamos no Roriz mais por interesse, porque só ele poderia nos ajudar. Mas, assim, política, eu não gosto muito de me envolver, porque a política tem decepcionado muita gente, entendeu? Eu, desde que me entendo no mundo por gente, eu ainda não vi político fazer o que promete. Porque enquanto eu vejo filas enormes nos hospitais, a segurança precária, as escolas precárias também... olha, eu só voto porque votar é necessário, mas não com confiança. P/1 – A senhora sentiu algum impacto lá na Vila Planalto, da Câmara Legislativa? R – Sentimos, porque é o seguinte: eles só aparecem na Vila quando é pra adquirir voto e depois somem, ou então quando tem uma festa. Assim mesmo tem uns puxa-sacos lá, que quando acontece uma besteirinha, quando eles trazem assim: uma fita pra passar falando de Brasília e tal. Aí no outro dia já tem uma faixa grande “agradecemos ao político fulano de tal.” Eu tenho até nojo disso, entendeu? P/1 – Bom, Dona Albaniza, como a senhora vê o futuro da Vila Planalto? E do Distrito Federal? R - O futuro de Brasília é o crescimento, cada vez vai crescer mais ainda, né? As mudanças, não é isso? E a população, cada vez maior. E eu acho que mais pobreza e mais dificuldades. P/1 – Dona Albaniza, a senhora é casada? R – Sou sim. P/1 – E a senhora é casada com o seu mesmo esposo que... R – Isso. Há 47 anos. P/1 – E quantos filhos a senhora tem? R – Tenho seis. P/1 – Todos nasceram em Brasília? R – Todos nasceram em Brasília. P/1 – E como foi o casamento da senhora aqui? R – Eu casei na igrejinha da Vila Planalto. P/1 – A senhora casou na igreja, a senhora fez festa? R – Não, não fiz festa porque minha família, ninguém estava aqui em Brasília, né? Então, como eu estava na casa de uma família amiga, eles também, parece, que estavam assim meio... Porque eles não queriam que eu casasse com esse meu marido, havia partido melhor pra mim, e aí estava tendo a indiferença… Eles não fizeram nada, e, na época, meu marido tinha só uma amizade com um italiano que morava na 105 Sul. Aí lá fizeram um coquetelzinho pequeno mesmo. Então a gente não estava nem interessado nessas coisas mesmo. P/1 – Fizeram uma recepção simples assim? R – É simples, muito simples. P/1 – E, Dona Albaniza, como a senhora vê a sua vida aqui em Brasília? Seria muito diferente se a senhora estivesse lá em Fortaleza? R – Eu acho que sim, porque a minha família está toda lá, e aqui a vida da gente é só trabalhar, aqui não tem domingo, feriado, dia santo, é trabalhando. Quando tem um domingo, um feriado, aí são os sobrinhos, os netos, os genros, tudo na minha casa. Aí o trabalho dobra, né? A minha casa é assim: vive cheia de gente principalmente no final de semana, então a gente fica... Eu passo a semana toda trabalhando e no domingo a gente não pode sair, porque a família toda se encontra. É Natal, é Ano Novo, a festa é toda na minha casa. P/1 – A senhora chegou a voltar pra cidade da senhora? R – Não, só passear mesmo. P/1 – Dona Albaniza, como a senhora avalia o esforço de registro da memória? Assim, da Vila Planalto? Da senhora como candanga, como pioneira? R – Olha, eu acho isso de uma importância muito grande, porque isso marca, né? Daqui mais uns anos eu já não estou mais nesse planeta, mas a minha história está aqui, não é isso? Então isso é uma conquista. P/1 – Bom, Dona Albaniza, nós do Museu da Pessoa, da Abravídeo e da Fundação Banco do Brasil agradecemos a entrevista da senhora. R – Obrigada. É um prazer muito grande estar aqui hoje, dando essa entrevista pra você, falando da Vila Planalto que eu adoro, que eu amo. P/1 – Nós que agradecemos, obrigada. ------------------------------- Fim da entrevista --------------
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