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História de: Cecília Machado
Autor: Nádia Lima
Publicado em: 05/02/2019

Sinopse

Cecília de Lourdes Fernandes Machado, nasceu em 11 de fevereiro de 1967 em São Paulo, é de família portuguesa, seu avô era militar, seu pai também foi militar. O pai dava aula de história e era  muito carinhoso. Quando tinha 11 anos já queria fazer história para mudar o mundo, acredita que herdou isso do pai. Estudava em colégio de freiras e começou a fazer ações sociais nas periferias junto com as freiras. Nesse período percebeu uma intensa atividade política que permeava o trabalho das freiras e não gostava muito. Trabalhou com resgate da memória de idosos ferroviários, junto com as freiras e atuava junto com o MOP (Movimento operário), que  acabou sendo a gênese do PT , ela era meio rebelde e sentia que não se enquadrava  nas regras dos movimentos políticos e depois foi fazer História na PUC, que naquela época que era um lugar de resistência contra ditadura militar. Sempre foi anarquista, participava de invasões a reitoria, foi levada pela política para a delegacia várias vezes.  Saiu da PUC e fez uma pós em Museologia na FESP. Quem a leva para museologia de verdade é o Emanoel Araujo. Trabalhou em 1992 na Secretaria de Cultura do Estado, no Sistema Estadual de Museus e depois no Itaú Cultural, depois abre uma empresa e começa a trabalhar com projetos museológicos, trabalhou no Arquivo Público, com a responsabilidade de recepção e abertura de documentos do DOPS. Junto a Secretaria de Cultura ela é convidada para dar aula no curso técnico de museologia da ETEC Parque da Juventude e logo assume como responsável pelo curso na ETEC Parque da Juventude, onde está o mesmo até hoje e onde está localizado o Espaço Memória Carandiru.

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História completa

Meu nome é Cecília de Lourdes Fernandes Machado, nasci em 11 de fevereiro de 1967 em São Paulo, na maternidade Cruz Azul.


Meu pai foi Adriano Augusto Machado; minha mãe: Terezinha Fernandes Machado. Eles são de família portuguesa. Meu avô paterno veio para o Brasil com uma missão específica - ele era militar. Já casado, a minha vó Cecília - daí que vem meu nome. E meus avós maternos foram: vó Herminda e meu avô José. As coisas mais legais que eu lembro é na casa da minha avó materna, Herminda, tinha um monte de primos e era uma família muito grande e a gente brincava muito e se sujava muito na terra.


Meu pai também era militar. Uma pessoa extremamente carinhosa e inteligente. Uma das memórias mais fabulosas que eu conheci. Ele dava aula de história e prosseguiu na carreira militar em função do meu avô. O meu avô materno veio para o Brasil pela atividade de marcenaria. Ele veio para uma colônia...o bairro de Santa Terezinha era o sítio dos padres salesianos. Aí eles decidiram construir em 1929 a a igreja e vieram algumas famílias contratadas, para esse ofício de construir. E meu avô foi um dos marceneiros responsáveis. Então era uma colônia, da fazenda. E a casa dele, enfim, até bem pouco tempo estava lá, mas agora são prédios. E para mim é interessante porque é nessa casa da colônia que a gente passa a infância, e a igreja era assim, o fundo da nossa casa.   O marido da irmã da minha mãe foi outra referência, porque ele é o idealizador do centro de memória do MMDC. E aí tinha muito livro e eles circulavam muito mesmo, livros sobre arqueologia, aí ele comprava muitos livros para eu ler - tenho uma biblioteca fabulosa em casa até hoje, porque não consigo me desfazer. A gente precisa dar um jeito na biblioteca, ou os livros ou eu. Minha mãe sempre falava isso.


Fui estudar no colégio de freiras e aí com 11 anos - em plena ditadura militar, Bem pequenininha, me chamavam de Maria Machadão. As meninas da escola começaram a zoar por causa do meu cabelo. Ficava triste, chorava em casa, “por que é assim a vida?”, mas aí lia um livro e já ia para outras histórias. Victor Hugo,  foi uma grande paixão, mas eu ainda não identificava, sua obra, sem dúvida que eu sinto vontade de dialogar com o próprio Victor Hugo. Tem essa história na minha vida também: todos os personagens que eu vou pesquisando muito profundamente e me apaixono, eles começam a fazer parte como se eu tivesse alguma relação com eles. Eu tinha uma professora de história que já estava dando os primeiros indícios de uma atividade política importante, e eu era muito dedicada à história. Desde os 11 anos que eu já falava, escrevia e todo mundo sabia que minha história era fazer história. E eu tinha pretensão de fazer arqueologia como pós-graduação, mas a vida levou por outros lados.


Então, em 1982 a gente já tem a preparação das Diretas Já e eu lembro de algumas coisas...porque eu tenho minha memória também um pouco organizada dessa época. 1982 a gente tinha uma máscara que a gente grafitava, que era do movimento operário - se chamava MOP. Eu lembro que a gente fez várias inserções na cidade, e aí essa mascarazinha...era um stencil, hoje, do grafite. E a gente manifestava publicamente. O Movimento operário, que acabou sendo a gênese do PT, mas a gente era pirralho ali. Mas eu lembro de muita gente que depois protagonizou muita coisa legal. Então, eu amava o engajamento, as formas de transformação...por isso que desde sempre elas falaram: “não precisa ser freira. O que você quer é outra história; é uma carreira política que você vai ter”. Mas eu nunca tive liderança, como falei. Não sou uma pessoa que lidera. Eu sou uma pessoa que faz seu trabalho e compartilho muito mais do que lidero. Isso eu sinto desde sempre. Por exemplo, junto a asilo, que era uma atividade que, mas nos asilos a gente tinha uma outra questão também, de pegar memória de como era. E a gente trabalhava muito com memória de ferroviário no asilo em que trabalhávamos. Depois a gente trabalhou com essa questão das comunidades carentes eram um subterfúgio da escola para gente inserir já algumas ideologias. A gente percebia isso também.


Então era assim: a gente tinha aulas de como proceder em relação àquelas comunidades com as quais a gente trabalhava. Então a gente tinha que ensinar esse povo a se organizar; ensinar não sei o que...e isso é muito incipiente, de verdade, porque eu não tinha a menor referência teórica sobre isso, mas eu achava que a gente não ensinava nada - desde cedo mesmo, juro para vocês. Eu falava: “ensinar nada. Estou aqui muito mais para aprender”. Essa dinâmica era outra para mim. Tinha muita regra. E aí a regra me incomodava um pouco. Entrava porque assim, “tinha que dar aula na favela não sei o que”, e eu “vamos lá, que legal”, e aí eu ia junto. E aí a atividade dentro disso era assim: “vamos dar aula”, mas a aula não era aquela aula de marxismo, stalinismo, trotskismo...pouco me importavam esses “ismos”. Mas era uma coisa que a gente fazia…


Mas aí eu já tinha lido muito também sobre anarquismo. Então quando eu cheguei na faculdade eu já sabia meio por onde eu ia caminhar. E a PUC, naquela época que era um lugar de resistência.. eu tinha alguns amigos que eram do movimento punk, eu ainda era uma anarquista fora do movimento. A gente tomou o CACS - centro acadêmico de ciências sociais.. A gente tinha uma rádio pirata, que um importante político até que deu várias coberturas, porque a gente acabava via de regra sendo preso. Então a gente dava umas passeadas lá na delegacia da 23ª. Eu me identifico até hoje com isso. Eu acho que é muito melhor a gente conversar e não protagonizar nenhum tipo de predominância de uma ideia em relação à outra. As pessoas expressam que eu tenho um certo autoritarismo quando falo. Mas de fato na minha cabeça é exatamente o contrário.  As minas punks são super importantes para mim, pela postura.


Eu tinha um amigo, que é um amigo de vida, que é o Charles Boneti, a gente fez uma prova para fazer a pós em arqueologia na USP, ele passou porque ele foi na prova, eu dormi demais, não fui, eu acho que teve uma festa um dia antes, acabei faltando, e eu acabei levando ele para museologia, porque alguns meses depois a gente viu um folheto promocional da FESP, e eu falei assim: “Nossa, museologia, topa?”, ele falou assim: “Eu topo se você for dessa vez”. A gente entrou na Museologia, então ele acabou fazendo duas pós juntas, coitado do Charles. Até hoje eu adoro o museu de arqueologia, mas eu também adoro museu de mineralogia, de ciência, ferrovia, e tem uma coisa importante, retomando a ferrovia, na minha trajetória, dentro da museologia, tem um assunto que me interessa que é a formação do Estado de SP.


Quem me leva para a museologia de verdade é o Emanuel Araújo, ele me acha e a gente começa a conversar sério sobre museu.  Em 92 eu sou convidada a trabalhar no sistema estadual de museus, dentro da secretaria do Estado da Cultura, e vou trabalhar com o interior do Estado, no interior do Estado você vê primeiro os museus histórico pedagógicos: Que acervo é? O acervo das classes abastadas daquele município. Que tem a ver com o município? Nada. São lugares de desolação com teto caindo, a gente quase sempre tinha que ir lá para recolher coisas ou de incêndio, ou de inundação, era esse o dia a dia da gente, qual era o diálogo? Essa realidade era um conflito e a gente começa: “vamos melhorar tudo isso”, e a gente trabalhou com capacitação desde esse momento, em 84, capacitação de equipes, formação. Fui trabalhar no Itaú Cultural, trabalhei com museus de artes, me especializei em uma série de outras questões museográficas, o projeto do Catálogo Raisonné Tarsila do Amaral que eu participei ativamente como museóloga, aconteceu dentro do prédio do Dops, recém inaugurado, e a exposição que reabre o Dops, era uma exposição minha, a pedido do então Governador. Lembro que em 85 a Maureen já tentava fazer o centro de memória, falando outras pessoas na secretaria da cultura, quando eu vou para lá em 94 já tem vários e vários documentos sobre intenção de fazer o espaço, já depois do massacre.


Em 2005, a Secretaria de Estado da Cultura, chama o Centro Paula Souza para criar um curso técnico de museologia, porque os museus do Estado precisam dessa mão de obra qualificada, então eu sou chamada para fazer parte desse grupo, como Professora, não sou uma das estruturadoras do curso em 2005, em 2006 sai o primeiro grupo, o curso é configurado como um projeto político, o Governo do Estado de SP precisava qualificar a mão de obra dos museus do Estados. Para esse curso são convidados profissionais que já atuavam em museus da secretaria, então os museus escolhiam o profissional que iria fazer o curso e esse profissional sairia como técnico, o curso ia acabar, e a ETEC Parque da Juventude está sendo inaugurada, em 2006, justamente, a Márcia Loduca, professora da ETESP, me conhece, e fala: estamos pensando em levar esse curso para a ETEC Parque da Juventude, lá para o Carandiru”, eu falei: “nossa, que interessante, vamos juntos”.

 

Na secretaria da Cultura, nenhum outro profissional quis continuar com a coordenação e do grupo da secretaria da cultura, me chamam “Você assume isso, porque você está disponível nesse momento”, a ETEC falou: “Você vai fazer o concurso para se efetivar como professora na ETEC”. Não tinha lousa, não tinha carteira, a gente era a primeira turma. Começamos a trabalhar o Espaço Memória Carandiru dentro do curso técnico de Museologia, então esse espaço, inicialmente, ele era usado como laboratório. A Maureen, em 2012, quando se aposenta do Memorial da América Latina, ela então transfere tudo aquilo que se está sob a sua tutela para esse espaço de uma forma que a gente possa utilizar esse acervo com pesquisa, mas o objetivo dela é que esse acervo tenha acesso público. Em 2014, com o Museu da Casa Brasileira, adotando, dentro do projeto do Museu da Casa Brasileira, casas do Brasil, ela é convidada para participar com a experiência, da vivência do Carandiru. Então ela leva essa exposição para lá, essa exposição é montada de uma maneira que quando ela fosse desmontada, ela viesse para cá, para ser remontada; isso demora dois anos para a gente conseguir, então, em 2018, né, em abril de 2018, a gente consegue abrir essa exposição para o público de fato. São dez anos de luta.

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