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História

"Gerenciar é se comunicar com as pessoas"

História de: Vicente Bernardes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Vicente fala sobre a infância, as brincadeiras e a relação com os irmãos, os pais e com o que trabalhavam, além de como viviam. A vez em que foi assistir Pelé jogar quando criança, as escolas e os professores que marcaram a sua vida. O estudo em Ouro Preto para ser Técnico em Mineração e após se formar, o trabalho que fez pela Companhia Meridional, subsidiária da US Steel, na parte de prospecção mineral, que envolviam muitas vezes trabalhos no meio da mata fechada e com recursos escassos. A volta para Ouro Preto para cursar a faculdade de Engenharia de Minas, a ida para Santa Catarina em uma empresa de carvão e após esse período, a oportunidade de ir trabalhar na Vale do Rio Doce quando passou no processo seletivo da empresa. O estabelecimento na Companhia na função de controle de qualidade de mina e as atividades correlatas tanto em Itabira quanto em Carajás. As mudanças que a Vale passou e toda sua estrutura de funcionamento.

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História completa

P/1 - Paula Ribeiro

P/2 - Rosana Miziara

R - Vicente Bernardes


P/1 - É... Bernardes, Vicente. Você prefere que chame de Vicente?


R - Pode ser Vicente.


P/1 – Vicente, vou começar pedindo para você falar seu nome, local e data de nascimento.


R - Meu nome é Vicente Bernardes, eu nasci em 18 de maio de 1945, na cidade de Cássia, sudoeste de Minas Gerais.


P/1 - Seus pais são dessa mesma cidade?


R - Meus pais são de uma cidade próxima, que [se] chama Capetinga. Nasceram na, nasceram em Capetinga.


P/1 - Os dois nasceram lá?


R - Os dois nasceram em Capetinga.


P/1 - Se conheceram na cidade?


R - Sim, se conheceram lá na cidade e casaram, ele com 19 anos e minha mãe com 18 anos.


P/1 - E você sabe um pouco a atividade, o que ele fazia lá em Capetinga?


R - Bom, meu pai foi sempre ligado à atividade agropecuária, ele sempre trabalhou nessa atividade. Eu quando comecei a entender da vida assim como um todo, né, que eu comecei perceber o que ele fazia: ele era administrador de fazenda e trabalhou como administrador de fazenda até 1979. A partir daí, eu comprei uma pequena fazenda e ele, então, trabalhou nessa fazenda, administrando, evidentemente, né? Mas ele não tinha aquela função de ser um empregado administrador, ele trabalhava na fazenda como se fosse a fazenda dele. Eu comprei para ele trabalhar, tá entendendo? Ele só não podia vender a fazenda. Então ele trabalhou lá até ficar doente, em 1992, e depois faleceu em 1994.

P/2 - Sobre a sua família, você conhece um pouco a origem da sua família?


R - Bom, a minha família, partida das pessoas que eu tive mais acesso, né? Os meus bisavós eram da região, eles tinham fazendas, um no município de Cássia e outro no município de Capetinga. Ambos [eram] fazendeiros da região, lá. Depois, à medida que foi passando o tempo, eles andaram vendendo essas fazendas. Vendeu parte da fazenda. Às vezes, parte foi dividindo com os filhos, né? Sei que no final, quando eu conheci, ainda tinham algumas pessoas, alguns parentes que tinham terras nessa região. Então eles viveram ali. Aí ficaram, vieram os filhos, né, dos meus bisavós [que] ficaram na região. Eu conheci todos. E depois os filhos da geração dos meus pais continuaram na região. Aí, essa, a minha geração, uma boa parte já saiu [de lá], trabalham em São Paulo [e] outras cidades do Brasil, mas ainda temos bastante ligação com a região. Por coincidência, eu, hoje, comprei... Hoje tem dez anos, né? Eu comprei uma fazenda que está dentro da área que foi fazenda dos meus bisavós.


P/1 - Você comprou?


R - Comprei, não foi...


P/1 - Herança?


R - É, eu comprei de terceiros que não tinham nada a ver com a família.


P/2 - Você conheceu seus avós?


R - E não comprei por nenhuma, não foi intenção de comprar porque foi do avô, [porque] foi do bisavô, não. Comprei porque estava comprando, queria comprar uma fazenda.


P/1 - Mas foi uma coincidência saber que exatamente aquele trecho...


R - Foi uma coincidência. Foi uma coincidência de ter comprado na região, né? Inclusive, a primeira terra que eu comprei não foi nessa região, foi numa outra região que estava fora, num outro município. Depois que eu resolvi vender esta primeira e comprar uma segunda, e no comprar a segunda, fui comprar logo parte do que tinha sido do meu bisavô.


P/2 - Você conheceu seus avós?


R - Os meus avós, eu conheci os pais do meu pai, e os pais da minha mãe, eu não conheci.


P/2 - E quais são suas lembranças dele?


R - Olha, o vovô, né, como nós chamávamos, era uma pessoa muito amável com a gente, né, com os netos. Eu, particularmente, acho, era o neto, o segundo neto dele, dos homens, né, o mais velho e tínhamos uma, um relacionamento muito bom. É, a gente conversava muito, muito mesmo. Acho que poucos netos... Acho que ele tinha uma ligação tão grande com o avô como eu tinha com ele. E com minha avó a gente tinha também, mas era um relacionamento um pouco diferente. Com o meu avô era bem mais forte o relacionamento. Já os pais da minha mãe faleceram ainda cedo, né, e eu não os conheci. Acho que a minha mãe não era casada quando eles faleceram.


P/1 - E sua mãe... É... Desculpa, você ia completar.


R - Não, pode continuar.


P/1 - Não, e sua mãe? Qual que é a atividade dela? [Diga] um pouco o que ela fazia.


R - Bom, minha mãe sempre foi uma pessoa que cuidou da casa. Era uma, era a dona da casa, mas, além disso, aí, ela era uma, ela é até hoje... Ela é viva ainda, fez 79 anos agora recentemente, em setembro, e ela é uma costureira. Pra época de, ela desde moça ainda, moça de 15 anos, ela já era, já costurava. Evidentemente que o conceito que você tem de costureira hoje é um pouco diferente né? É uma costureira com, cheio de modas e tal. Mas ela trabalhava naquela região. Na época, ela costurava muito bem. Até hoje ela ainda faz costura, ainda. De vez em quando, eu chego lá em casa [e] ainda encontro ela querendo costurar ainda. Eu já falei com ela: "Olha, para com isso. Você vai começar [a] estragar a roupa de alguém aí..." Mas ela ainda insiste. Sempre. Eu chego lá e ela está fazendo algumas costuras, né, e fazia vestido, camisa, calça. Então ela, parte da vida dela foi dedicada a isso. Então ela fazia o paralelo, né, cuidava da casa e fazia esse tipo de trabalho.


P/2 - Mas essa era uma forma de ajuda financeira em casa?


R - Sim, ela trabalhava, ela já veio... Antes de casar, ela já fazia isso. Então ela continuou fazendo [costurando] e de certa forma isso contribuiu para a manutenção da casa.


P/2 - E suas lembranças de infância. Como é que era a sua casa? Vocês tinham uma vida mais urbana, mais rural? Como é que era, um pouco, a casa que vocês viviam?


R - Poderíamos dividir aqui em duas fases: eu, quando eu nasci, morávamos numa fazenda próxima à cidade. Então minha infância até os 10, 11 anos, foi muito ligada à fazenda. Meu pai, nesse período aí, eu me lembro dele trabalhar numas três fazendas diferentes, administrando as fazendas. É, ele administrou fazenda no município de Cássia, depois uma outra num sítio em Capetinga. Depois, nós fomos para perto de Franca, já é uma cidade no interior de São Paulo, próximo a divisa de Minas com São Paulo. Ali ele ficou mais alguns anos. Eu, aí, terminei meu curso primário num grupo escolar, Grupo Escolar Barão de Franca era o nome. Existe lá até hoje. Então, terminei meu primário lá e depois, nós voltamos e fomos morar, é, numa chácara próxima à cidade de Capetinga. Era uma propriedade que a gente morava e meu pai administrava uma fazenda deste proprietário lá. Só que não era ligada a este local, era um pouco afastada. Mas, este lugar, era bem próximo da cidade; Era uma continuidade, uma continuação da cidade. E depois, tempo depois, nós mudamos para a cidade de Capetinga e lá eu fiquei até 1966. Foi quando eu saí de lá, minha família continuou lá, e fui para Ouro Preto estudar.


P/1 - É, quantos irmãos vocês... Quantos filhos?


R - Nós somos seis irmãos, mais um adotado, então somos um total de sete.


P/1 - É, e como é que era essa convivência em casa, assim, [com] sete filhos?


R - Sem babá, né? Naquela época não, se usava babá.


P/1 - É. Sem babá, sem faxineira, empregada, cozinheira...


R - Não, naquela época lá, acho que a gente tinha uma vida normal para os padrões da época, e minha mãe conseguia administrar bem isso aí. Eu tenho uma irmã mais velha do que eu, - eu sou o segundo filho da família - e tivemos uma infância normal. Meu pai [era] muito voltado para questão de educação, questão de escola, sempre cobrando, né, como que a gente estava na escola e tal. E a minha mãe, uma vez ou outra, ela arrumava alguém para ajudar e tal, mas não tinha empregada regularmente, nem usava muito isso naquela época. Daí a pouco... Você sabe como funcionava, né? A filha mais velha começava a ajudar os meninos, começava a ajudar a cuidar das crianças mais novas e tal. A diferença era: o meu irmão, depois - eu tenho irmão que é 11 anos mais novo que eu, sabe? Então a família não foi, assim,... Tinha uma certa distância entre um filho e outro, né? Então acho que foi bem conduzido.


P/1 - Desculpa, eu ia falar: E a sua mãe... Seus pais adotaram essa outra filha por alguma razão, alguma coisa, assim, especial?


R - Essa menina, ela era filha de um irmão da minha mãe, que a esposa dele faleceu e ela era uma menina ainda nova, menina de dois anos, então estava difícil para ele tomar conta da menina porque ele tinha outros filhos também. Pela idade dele, estava meio complicado. Então minha mãe pegou, levou para casa e adotou. Hoje ela tá casada, tem filho de quase vinte anos.


P/2 - Em relação às brincadeiras, que é que vocês brincavam? Que é que tinha de brincadeira?


R - Naquela época, a gente tinha muito... As brincadeiras eram diferentes, né, principalmente as brincadeiras de fazenda, de roça. Naquele tempo, era raro você comprar uma bola, né, você não tinha muito acesso a brinquedo. Você tinha que criar muita coisa para, criar brinquedo, mas a gente brincava muito de uma coisa que a gente fazia muito. Era, naquela época lá... Naquela região, a gente usava muito esse negócio de nadar em córregos, né? Então, isso era uma coisa que todo menino gosta, de água, né? Então a gente estava sempre querendo ir para córrego nadar. Depois, mais tarde, é que começou a ter acesso a piscina, essa coisa toda. Mas era muito brinquedo. Outra coisa que eu gostava muito era de montar a cavalo, né? Eu, desde [a] idade de 8 anos, fui muito, é, toda oportunidade que eu tinha, eu queria fazer isso: cavalgar. Então foi uma infância muito interessante. As brincadeiras normais da época a gente tinha, a gente aproveitava muito, tá? E tinham muitos vizinhos também. A gente estava sempre junto, brincando e aquelas brincadeiras começavam e [com] ação mesmo, tá, de inventar brinquedo, assim.


P/2 - Qual... Por exemplo, [tem algum] brinquedo que você se lembra?


R - Não, a gente tinha muito esse negócio de balanço, é, fazer carrinhos. A gente fazia carrinho para andar, fazia com rodas de madeira. É... A gente falava de cavalo de pau, era um tipo de brinquedo. E tinha muitos outros brinquedos, viu, a gente brincava muito, assim. Futebol, a gente jogava muito, né? Já, naquela época, a gente já gostava muito de futebol.


P/2 - Você torcia por algum time na sua infância, em especial?


R - Eu comecei, tá... Já, ainda jovem, na adolescência aí, comecei [a] torcer. Naquela região, o time que daquela época era mais, tinha mais influência na região, era o Santos Futebol Clube. Santos Futebol Clube, mesmo, né? (risos) Aquela região tinha muita influência de São Paulo. Então você vê, é, poucos... Alguns torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro, né, [e] poucos flamenguistas. E a maioria de torcedores era do Santos, e alguns raros corintianos, poucos São Paulo [são paulinos]. Mas era a gente naquela época, já discutia bastante sobre os times de futebol.


P/2 - Tinha algum jogador que você, como jovem, idolatrava? 


R - Bom, naquela época o grande ídolo de futebol foi o Pelé, né? Depois veio aquele, aquela turma, aqueles... O pessoal lembrava muito do chute forte do Pepe, daquele pessoal ali do Santos. Depois tinha Garrincha, aqui no rio, né? Mas a principal figura do futebol, naquela época, era o Pelé.


P/2 - Você viu ele jogar?


R - Vi. Eu assisti algumas partidas dele. Teve uma partida que o Santos ganhou de onze a zero, parece, do Botafogo de Ribeirão Preto. E ali fica perto. Você não [se] lembra disso, né?


P/1 - Não, mas eu sei dessa partida, cresci com isso...


R - E, então, eu assistia. Sempre que tinha oportunidade, a gente ia, né? E nesse dia, eu estava presente.


P/1 - Você estava, você foi ao campo assistir?


R -  Fui a Ribeirão Preto assistir o jogo. E depois, aí que mais adiante, lá por volta de 60 e alguma coisa lá... Início da década de 60, aí é que começou [a] surgir o futebol em Minas com mais presença no cenário nacional. Aí o Santos, o Botafogo, o Atlético Mineiro e o Cruzeiro, surgiram depois com o evento lá do Mineirão, né? Eu sei que eu era muito torcedor, assim, fanático mesmo, né, de perder sono. Eu lembro que naquela partida em que Santos estava ganhando do Cruzeiro e, depois, no final, o Cruzeiro inverteu. É, virou, né, e acabou que ganhou do Santos. E a partir daquela época ali, eu continuei torcendo, mas já não fui mais aquele torcedor apaixonado que eu era antes, né, porque você vai começando [a] entender melhor as coisas. Também, você vê que não tem muito sentido perder sono por causa de time de futebol. (risos)


P/1 - Como é que era na sua casa, assim, quem exercia autoridade? Seu pai ou sua mãe, que era...


R - Olha, eu acho que era um negócio bastante equilibrado, sabe? A mãe fica mais dentro de casa e mais junto com as crianças, né, então ela chama atenção toda hora. O pai, normalmente, chama atenção menos vezes, mas com mais rigor, né? Então acho que era mais ou menos por aí.


P/2 - E educação religiosa, vocês tiveram?


R - Tivemos. Todos lá em casa iam à missa, fizeram primeira comunhão; São católicos, né? Hoje, eu continuo católico e não tenho essa questão de ir à missa todos os domingos, porque parece que tem gente que faz isso que é uma regra, né? E eu não tenho isso, mas todas às vezes que eu tenho, é, que eu sinto necessidade de ir à missa, eu vou. Eu sou católico, acredito em Deus, e mantenho todos os princípios católicos, exceto ir à missa todo os domingos.


P/2 - Alguma festa que tenha, que você se lembra mais na sua casa, assim, como, a Páscoa, um Natal, ou alguma dessas comemorações maiores? Como que acontecia, que é que vocês comiam, como é que vocês curtiam essas festas?


R - A festa de Natal lá em casa, ela já é... Desde quando a gente era criança minha mãe sempre procurava fazer, e Natal para menino [criança] tem um sabor especial que são os presentes, né? E o que se fazia em questão de comida eram [as] comidas tradicionais mesmo que se fazem no Natal, né? Você faz leitoa assada, frango, doce. É, essas comidas comuns mesmo, não tem nada muito sofisticado, não. Coisas normais.


P/1 - E sua entrada na escola, como é que foi, assim, entrou em que série? Na primeira?


R - Eu entrei. [O] interessante é o seguinte: a minha irmã começou a estudar e eu ia junto com ela para escola, mas eu ia mais por curiosidade, eu não tinha compromisso, eu não era aluno da escola, tá entendendo?


P/1 - Entendi.


R - Então comecei a frequentar a escola dessa maneira. (risos)


P/1 - Ótimo.


R - E aí nós começamos assim.

 

[Pausa]


R - E aí eu comecei [a] estudar, foi dessa maneira. Mas, assim, aí você vai, eu ia lá, ficava brincando com os meninos, com as professoras lá também e começou, a história começou por aí. Mas aí, depois veio, na época certa, veio a primeira série e tal.


P/1 - Ah, quando ela entrou na primeira série, você era menor, aí você ia ficar com ela?


R - Aí eu ia ficava com ela, ia junto com ela, voltava junto com ela, ficava por lá [e], às vezes, voltava mais cedo também. Mas, normalmente, a ideia era essa, era fazer companhia. E, mas aí, quando chegou na minha idade, eu entrei regularmente na primeira série. Naquela época era primeira série, né? Pessoal falava primeiro ano, sei lá.


P/2 - É, mas isso era um grupo escolar que tinha na...


R - Era o grupo escolar daquela época. Que na escola você tinha, a professora dava aula pra quatro séries, como que seria hoje, né? Primeira, segunda, terceira e quarta série. Aí depois, quando eu terminei, quando eu fui para esse grupo em Franca, eu estava na terceira série. Aí você já tinha separado. Nessa altura, já tinha separado. Era um grupo mais estruturado, evidentemente, né? Aí você já tinha sala de terceira série, sala de primeiro, sala de segunda e quarta série.


P/2 - Tinha alguma matéria que você gostava mais?


R - Olha, eu sempre gostei mais de matemática, da área de ciências exatas, né, e sempre fui dos melhores alunos da escola. Nessa fase aí de grupo escolar, como se chamava antes, né, que são os quatro primeiros anos, eu sempre tive uma tendência, é, em ir para esse lado de ciências exatas, né? E depois, no ginásio, continuou também a mesma tendência.


P/2; O ginásio você fez em Franca, também?


R - Não, o ginásio eu fiz em Capetinga.


P/2 - Ah, fez em Capetinga...


R - Eu tinha morado em Capetinga e fiquei lá.


P/2 - Voltando um pouco atrás, você nasceu no ano de 45, e o senhor comentou que seu pai foi, foi à Segunda Guerra, é isso? Como é que foi isso, um pouquinho? Conta para gente?


R - É. meu pai, ele foi convocado para [a] Segunda Guerra. Ele esteve, acredito que um ano e pouco, né, foi já no final, né? Ele foi preparado para ir para as frentes de batalha, só que ele ficou um tempo aqui no litoral brasileiro. Aí até [de] Aracaju, ele contava, às vezes, de Aracaju. Ele foi, eles foi para a unidade do exército de Pouso Alegre, interior de Minas Gerais, e de lá ele trabalhou aqui na costa brasileira. Ele não chegou a ir para Itália, Europa, tá? Ele participou mais de um ano nessa região aqui. Ainda tem aquela fase de preparação e depois vai, é, distribuindo o pessoal para as diferentes frentes, né? Mas ele esteve trabalhando na costa brasileira.


P/2 - Como era o nome dele?


R - João Bernardes Filho.


P/1 - E como é que ficou em casa, assim, com a saída dele? Como é que vocês viveram?


R - Não, eu não era nascido ainda, né? Foi antes, né, ele foi... Tinha a minha irmã...


P/1 - Tinha a sua irmã.


R - Tinha a minha irmã mais velha, que era ela mais velha que eu [por] três anos. Olha, eu não tenho muito esse detalhe, tá, mas na época minha mãe nunca reclamou de ter faltado nada para ela, então eu imagino que devia ter uma estrutura qualquer que desse um apoio para a família das pessoas que estivessem servindo ao exército naquela época, né? Aliás, uma coisa interessante: eu nunca perguntei isso para minha mãe, (risos) como que foi aquele período, né, como que ela sobreviveu, mas eu acredito que devia ter um apoio, né, do governo. Sei lá se tinha tipo um salário, né, devia ter. Eu não sei te dizer, não.


P/1 - Bom, voltando aí um pouco ao seu período escolar. Teve, assim, algum professor, uma professora que você tenha se identificado, que marcou, assim, essa sua formação escolar? 


R - Apaixonado pela professora? (risos) Tem esse negócio de se apaixonar! Não, eu tive, eu sempre tive um relacionamento muito bom com todos os professores, né? Desde essa professora, que era professora da minha irmã, eu tive muito, relacionamento muito bom com ela. A Dona Helena é viva até hoje ainda. De vez em quando, eu visito ela ainda; Tá bem velhinha. Depois eu tive a Dona Teresinha que era brava para danar, mas tinha uma história muito interessante. A gente combinava muito. E eu, às vezes,... Ela gostava muito de andar a cavalo, de cavalgar, né, só que ela não conseguia cavalgar sozinha, então, eu, às vezes, andava com ela no cavalo, né? Então acontecia muito isso aí. Depois ela saiu, casou-se, aí veio uma irmã dela. É, foi uma passagem muito rápida. Depois eu tive uma outra professora chamada Dona Gilda, [que] foi também uma pessoa muito legal com a gente, até de visitar nossa casa e tal. Depois eu tive dona Dirce, que foi um bom relacionamento, mas um relacionamento mais formal assim. Depois eu tive o Professor Hélio Palermo, isso já foi lá em Franca. Dona Dirce foi a Franca também. O doutor, o Hélio Palermo, era um professor bravo para danar, mas nunca tive problema com ele também não. Tinha relacionamento bom com ele, é, e ele era uma pessoa bastante conhecida lá na época. É político de Franca. Inclusive, foi prefeito de Franca logo depois que eu fui aluno dele, então era uma pessoa bastante conhecida lá na região. Esse foi talvez o professor mais bravo que eu tive em toda a minha história de escola. Olha, talvez também pelas características do professor, talvez pela idade dos alunos, eu não sei, fosse necessário ter um comportamento daquele, né, mas eu nunca tive problemas. Naquela [escola] usavam castigo para menino, né, e eu nunca tive esse tipo de problema. Sempre...


P/2 - Quais eram os castigos que se davam naquela época?


R - Ainda é coisa que, às vezes, usa até hoje, ainda, de depois... Se fala que põe menino para pensar, né? Aí você colocava menino, às vezes, separado do grupo, às vezes, não ia para o recreio, às vezes, você deixava de fazer uma tarefa, aí você tinha que escrever não sei quantas vezes, não sei o que lá. Coisas desse tipo assim. É, o pessoal falava em palmatória naquela época. Em todas as escolas que eu passei, eu nunca vi palmatória, que bate na mão, né? Então, nunca vi. Agora, esse professor, Hélio, eu já me lembro dele ter puxado a orelha de menino, de colega meu. Ele era uma pessoa, como uma pessoa era bom, mas aí já é ginásio, né? Você começa a ter, o número de professores aumenta. Um professor para cada cadeira, né? Mas eu tive uns professores muito interessantes, professores que despertaram muito a gente, né, para a vida: o lado político, o lado profissional. Eu tive um professor, né, ele era advogado. [Se] chamava José Teodoro de Souza, era, morreu precocemente também, mas era uma pessoa que me, ele conversava muito comigo sobre política, sabe? Eu lembro uma vez, o José Maria de Alckmin foi passear em Capetinga... Eu, era no ginásio, né? Ele me convidou para ir lá na casa dele para conhecer, né, o político que estava visitando a cidade. Então ele despertava muito esse lado aí, sabe? E tive outros. Professor Djalma, que era professor de matemática. Acho que, pelo fato de eu gostar de matemática, a gente tinha uma, se identificava muito, né? A gente conversava muito, discutia muito, sobre matéria e... Né? Já se teve professores depois. Quando eu fui pra Escola Técnica, teve uma série de professores muito bons.


P/2 - Ah, você fez Escola Técnica. Você fez o segundo grau e o seu segundo...


R - É. Quando terminei o ginásio, aí eu fui fazer essa Escola Técnica, Técnico em Mineração. Fui fazer em Ouro Preto.


P/2 - E como é que você se despertou para esse curso? Você gostava? Por que é que você teve interesse em fazer esse curso?


R - Olha, eu estudei ciência no, é, ginásio [e a] gente acabava vendo alguns pontos da matéria. Eu lembro que no livro tinha uma lá, [uma] fotografia com, tinha um corte de rocha [e] eu achava aquilo muito bonito e tal. E depois, naquela ocasião, a Escola Técnica, era uma escola... A Escola Técnica, ela é de 1942, 42? 68... É, acho que é 1942. Então era uma escola relativamente nova que formavam poucos alunos, naquela época, e os alunos que saíam dali, a gente ouvia falar, né? Muito distante, que a gente não tinha muita ligação, mas ouvia contar algumas histórias, tal, que o curso era muito bom. E, naquela época, tinham poucos engenheiros, né, então os técnicos saiam e [se] sobressaíam muito. Eu andei conhecendo umas histórias de técnicos que eram [do] curso, e se você fizesse aquele curso e acertasse bem, desse certo profissionalmente, você teria, assim, uma vida tranquila, né, vamos dizer assim. Então, isso aí me despertou um pouco também, porque a gente, nós, por questão de educação no Brasil, é... Eu não sei se pelo fato da gente viver num país com muita, muita instabilidade, é, a gente tá sempre querendo ter alguma coisa que nos dê segurança, né? E esse era um curso que, por tudo que eu via na época, era um curso que me daria segurança, daria oportunidade de emprego. Eu estaria empregado, ganhando bem. Dá para ter uma vida.


P/1 - Que oportunidade, assim, que tinha?


R - Tinha, era fácil arrumar emprego. A escola era uma escola de projeção, conhecida no Brasil inteiro, [e] talvez tenha sido a melhor escola que eu estudei a até hoje. Eu até diria que, naquela época, ela era uma escola muito bem estruturada, talvez até mais bem estruturada que a própria escola de engenharia. Muito boa mesmo. Então, essa escola toda aí, me fez ir para outro... Eu fui, fiz o curso e trabalhei, depois de fazer o curso, dois anos como técnico. Foram dois anos muito interessantes profissionalmente para mim. Só que aí, quando eu saí para começar a trabalhar, eu já pensei em voltar para fazer engenharia, tá? E, realmente, foi o que aconteceu. Trabalhei durante 2 anos, é, foi uma fase realmente muito boa. Eu saí de Ouro Preto, fui para Amazônia trabalhar numa empresa que era subsidiária de uma multinacional americana, fazendo prospecção mineral. Trabalhei com o grupo que descobriu Carajás, embora o evento de descobrir Carajás foi um pouco antes. Na ocasião, essa companhia, essa Companhia Meridional que era subsidiária da US Steel, americana, né? É, eles formaram um grupo de prospecção no Brasil para, eles eram donos de uma mina de manganês, tinha, ainda tem hoje um resto lá, um remanescente de minério,  mas muito pouco. Mas, naquela época, eles lavraram uma mina que chamava Morro da Mina, na região de Lafaiete. Eles tinham manganês, não sei se na Venezuela, algum lugar desse aí, e o manganês é um minério escasso. Eles estavam procurando mais manganês, então formaram um grupo de prospecção [procurar jazidas em um terreno] pra trabalhar na Amazônia, para prospectar manganês. Esse grupo, é, trabalhou nesse pesquisar [de] manganês, prospectar manganês [e] eles encontraram Carajás. Foi a descoberta, eu acho que a grande descoberta, né, dessa segunda metade do século passado. Então, é, quando viu aquela reserva enorme de minério de ferro, o grupo, - aí vem a associação com a Vale do Rio Doce - cria-se um grupo para pesquisar essa área. E o grupo do manganês, o grupo que prospectava manganês, continuou sob a gerência do Breno, que era o geólogo formado em São Paulo [e] trabalhou na Vale até recentemente. E aí, eu fui trabalhar com esse pessoal. Aí ficamos lá 2 anos. Trabalhei naquela época, né? Pela idade que eu tinha, era uma aventura interessante trabalhar na Amazônia, né? Trabalhamos, eu participei de trabalhos no território do Amapá.


P/1 - Já pela Vale?


R - Não.


P/1 - Pela Meridional?


R - É.


P/2 - Mas como é que se dava esse convite? Vocês eram técnicos em Ouro Preto, quer dizer, as empresas iam à escola?


R - As empresas iam fazer concursos...


P/2 - Conta um pouquinho, por favor, Vicente.


R - Olha, naquela época, as empresas iam à escola, até hoje vão, né? E vão. A Vale vai a essas escolas, vai... Não, ela vai e faz a seleção. Aí, por exemplo, vamos pegar estagiário, estagiário de mineração - aí a Vale vai, tem uma empresa contratada, pega as principais escolas do Brasil, de mineração, vai lá e faz a seleção, sabe? Então, naquela época, quando nós formamos, para você ter uma ideia, você tinha lá três, quatro empresas para cada formando. Era um negócio impressionante. Eles iam na escola, faziam exame de Seleção lá e aí iam pegando, né, faziam entrevista e tal. E aí levava. Naquela época, a escola técnica de Ouro Preto, ela formava técnicos em metalurgia e técnicos em mineração. E era sem dúvida...


P/2 - Qual era o ambiente dessa escola?


R - Ah, o ambiente da escola era primeiro o nível dos professores. Essa escola, ela foi criada como um anexo da escola de engenharia, ou seja, era quase que um curso antes da engenharia, né, mas eu acho que os professores, os profissionais da época, deviam levantar essa demanda que tinha no Brasil e criaram a escola. A escola funcionava dentro do prédio da escola de engenharia [e] os professores eram professores da escola de engenharia. Só que esse foi crescendo muito. Em 1964, é, tinha uma unidade do exército que tinha, ficava em Ouro Preto. Aí acho que tiraram eles de lá e todas as instalações, que ficam hoje num lugar chamado Morro do Cruzeiro. Todas as instalações foram usadas para Escola Técnica, porque a escola estava crescendo e diante da demanda que tinha na época, era necessário que crescesse mesmo, sabe? Então, aí pegaram aqueles galpões todos que tinham lá, alojamento, aquele negócio todo, refeitório, - era uma série de galpões que tinham - aí adaptaram [para] sala de aula, laboratório, biblioteca, secretaria, alojamento, enfermaria, cozinha, restaurante, quadra de futebol, ginásio coberto. Foi tudo adaptado a esse lugar. Então, é, quando eu fui para Ouro Preto, em 67, esse lugar, ainda estava funcionando a escola nesse local e ainda sendo feitas muitas adaptações, né, porque era uma obra grande. Se a gente for lá hoje, tá completamente diferente do que era naquela época. Então, naquela época, tinha alojamento na escola para os alunos [e] tinham 152 alunos que moravam na escola. É, e parte morava, às vezes, pessoas da cidade de Ouro Preto ou pessoas que vinham de fora. Mas como a escola não tinha alojamento para todos, moravam em repúblicas lá em Ouro Preto. E aí, então, o pessoal vinha, estudava... A escola tinha uma carga horária de 45 horas semanais; Você tinha aula até sábado, ao meio dia, né? Era uma escola pesada. Pesada, mesmo. Lá você tinha que estudar o dia todo e à noite, você estudava para rever a matéria. Aquele negócio todo, né? E aula prática. Naquela época, já tinha...


P/2 - Você morava em república?


R - Não, eu morava no alojamento. Naquela época, tinha [um] pessoal [que] fazia estágio. Sempre tinha o estágio de férias dos alunos, já no último ano, de preferência no último ano, né, fazia estágio, mas podia fazer desde o primeiro ano, desde que houvesse disponibilidade de estágio, né? E ali formaram excelentes profissionais, pessoas que como técnicos viraram até empresários. Foi uma escola que [era] muito, muito importante. Eu acho que para essa área mineral [que] - aí - ela contribui bastante. Hoje, em todo lugar que você vai dessas empresas siderúrgicas, você encontra técnicos metalurgistas daqueles que se formaram na Escola Técnica Federal de Ouro Preto. Depois, aí foram criando outras escolas, né? Mas foi realmente, era uma escola muito bem... Os professores, os diretores da escola foram, eram professores da Escola de Minas [de Ouro Preto], escola de engenharia. Ainda tinha muito professor. Depois, à medida que a escola foi crescendo, aí você começou a ter professores [que eram] alunos da escola de engenharia. Inclusive, eu fui ser professor na escola. Já, depois que eu trabalhei, [então] voltei [e] fui ser professor. Aí foram criando outros cursos e a escola hoje tem mais de mil alunos. Então, hoje mudou um pouco a escola, né? Aquela escola é interessante até no seguinte: os alunos que faziam curso técnico, apesar de ser um curso técnico, tinham uma base de matemática, de física [e] de química, é, muito boa. O pessoal até brincava [com] o seguinte: se na escola de engenharia tivesse 50 vagas no vestibular, e tivesse 10 vestibulandos oriundos da escola técnica, então você contava 40 vagas, porque os 10 já estavam lá dentro garantidos. Não tinha, né? O objetivo não era esse, o objetivo era formar técnicos. Mas acontece que sempre acontecia, é, o pessoal acabava, acho que pelo fato de estar naquele ambiente, você conhecendo a escola e não sei o que, e até tem um pouco a ver isso comigo, eu fui para Ouro Preto para fazer o técnico, e depois fiz engenharia, entende? Acho que mais fui em função do conhecimento, da convivência, né?


P/2 - Mas além do estudo, por exemplo, era um ano, quer dizer, politicamente complicado. Vocês participavam, vocês tinham uma atividade política? Vocês, como estudantes, se engajavam em algum tipo de atividade política, por exemplo?


R - Olha, na época, da escola técnica, eu até era, vamos dizer assim, eu tinha uma certa liderança dentro do alojamento, sabe? E isso, eu tinha um relacionamento, só que eu não, eu já era uma pessoa, acho que eu amadureci muito cedo, tá? Então, eu tinha um certo equilíbrio, que eu tinha uma certa liderança, mas, vamos dizer assim, não era para fazer coisas de revolução, não era por esse lado, entendeu? Eu tinha um certo, uma certa liderança com as pessoas, mas eu era muito, acho que, equilibrado naquela época, tinha um relacionamento muito bom com as pessoas. Inclusive, tinha o... Aliás, até um ex-combatente, - esse foi na Itália, até - o senhor Amaral... Eu não me lembro o nome dele inteiro, não. O seu Amaral mora até hoje, ele fez uma casa perto da escola e mora lá. E ele era, vamos dizer assim, o inspetor dos alunos. Eu tinha um relacionamento muito bom com ele, com o diretor da escola, com a secretária, que era uma secretária que mandava quase na metade da escola também - era uma secretária antiga, lá. Então, naquela época, teve muito movimento estudantil mas na área de engenharia, na área da Escola Técnica não tinha, tá entendendo? O pessoal, é lógico que a gente sabe que tem pessoas que tinham ideia diferentes e tal, mas não teve nenhum caso dentro da Escola Técnica de aluno ser preso, esse tipo de coisas; Já na escola de engenharia teve. Então, eu tinha um acesso muito bom, tanto no meio dos alunos quanto como na diretoria da escola. Eu não fui em nenhum ponto a pessoa para levar informação para um lado e para o outro, essa era uma liderança natural que eu tinha, sabe? Eu consegui, aí participei de diretoria de grêmio, lá na época. A gente fazia um trabalho muito... Aliás, eu, desde a época de ginásio, já gostava um pouco de, essa questão aí de política estudantil, sabe? Eu sempre tive um certo, uma certa tendência a mexer, a trabalhar um pouco nessa área.


P/1 - Mas essa liderança você exercia sobretudo em relação a assuntos da própria...


R - Assuntos da própria classe, entendeu? Não era para questões políticas.


P/1 - Relação com a direção, com o professor...


R - É, eu conseguia ter um bom trânsito com a diretoria e conseguia ter um bom trânsito com os alunos também, tá?


P/1 - E aí essa, aí na Meridional, fala mais um pouco dessa sua, desse emprego na Meridional.


R - Bom, quando eu entrei para Meridional, é, passei pelo Rio, né, fiz o processo de admissão, foi pelo Rio de Janeiro, e aí fui para, peguei um avião aqui, nunca tinha andado de avião, né, e o avião veio para Belém. Então foi um, foram dois anos muito interessante. Eu cheguei em Belém por volta de 2 horas da manhã, sei lá, aí fomos para o hotel e tal. No dia seguinte, quando eu acordei de manhã, estava aquele, parecia que o pessoal na rua estava tudo cantando, né? Eu nunca tinha ouvido aquele sotaque do pessoal de Belém, era impressionante. Você sente aquele impacto, assim, né, [o] pessoal conversando uma voz completamente diferente. Acho que eu nunca tinha andado por aquela região, mas aquilo ali foi muito, você se adapta muito rápido, né? E dali você sai, aí já fomos para o escritório e depois,... Nós fomos naquela época em quatro técnicos de Ouro Preto. Tinha um que tinha formado um ano antes da gente e três eram da minha turma de formando. Aí fomos cada um para um lado, cada um foi para uma frente de trabalho. Impressionante, né? Você chega, aí vai e o negócio vai só complicando. Por que complicando, assim? Porque você sai de uma região que tem um nível de, é outra, vamos dizer assim, é mais civilizado. Aí você chega em Belém, então já sente aquela mudança. Depois de Belém, meu primeiro trabalho foi no Amapá. Aí vou para Amapá. Fui para Macapá, né? Aí chega lá, nós fomos para uma, um campo de pouso na mata lá no interior do território, nas margens do Rio Araguarí. Aí você pega aquele avião e voa o tempo todo em cima da mata. Você desce e dali você vai para, aí você desce e dá uma caminhada, já está carregando a mochila nas costas, tá? Então você vai até um acampamento que tinha, tinha um acampamento central que era até um acampamento mais decente. Aí, deste lugar, no dia seguinte, peguei um barco [e] entramos parte do Rio Araguarí, depois entramos no Rio Santo Antônio e aí pegamos uma frente de trabalho. Eu fiquei nesse lugar. Esse lugar tem uma mata muito densa e muito alta, e isso foi no mês de, abril de 70. Eu fiquei 30 dias nessa mata fazendo trabalho, sem ver o sol. Era uma época de muita chuva, e mesmo quando o sol abria, a mata é muito alta. Então, a cada 30 dias, a gente tirava uma folga, né? Mas é impressionante o trabalho, viu? O primeiro dia que eu trabalhei, é muita chuva e você... Porque lá é o seguinte: você fazia uma picada no meio da mata, que a gente chamava de uma picada central, e depois você fazia picadas laterais. Picadas é uma abertura que você faz na mata só para a pessoa circular. E quando você fazia essas picadas, pegava e passava dentro de igarapés, - aquele negócio que chamam de igapó - não sei se você sabe o que que é isso, que a gente chama de brejo aqui no interior, mas para o sul, né, a gente chama de brejo; [E] eles chamam de igapó. E você ia andando por aquele negócio todo e eu me lembro num dia [que] eu fiz uma caminhada e essa caminhada era: sobe, salta tronco de árvore e aí vai, né? Eu sei que no final do dia quando eu voltei, que eu cheguei no acampamento, eu estava morto. Era impressionante, foi uma caminhada de mais ou menos uns dez quilômetros, porque a gente - ia - fazia um levantamento topográfico, ia até no final e depois voltava, né? Eu, na hora que eu cheguei no acampamento, aquele dia eu só não voltei para casa porque não tinha como voltar, viu? O negócio era bravo. Você chegava cansado, mas cansado mesmo; E olha que eu fui uma pessoa, fui, [que] jogava bola, esse negócio todo. Tinha um bom preparo físico, mas [o] negócio não era fácil, não. Mas aí só vai ficando um pouco mais e tal, conversando e vivendo naquele acampamento. Era um acampamento feito com uma coberta [cobertura] de plástico. Você chegava no local, cortava as árvores, abria tipo uma clareirazinha, assim, cortava madeira, fazia o acampamento e ficava lá.


P/2 - Além de você, quem ficava nesse acampamento?


R - Normalmente, ficava o geólogo, eu como técnico, ficava um cozinheiro, um enfermeiro e as pessoas que faziam, que abriam as picadas, os ajudantes, os mateiros de lá, né?


P/2 - Que é que vocês comiam, Vicente?


R - Olha, a empresa dava uma assistência muito grande. A gente podia levar o que a gente conseguisse para lá, mas só que você não conseguia levar verdura, não conseguia levar carne. Então você comia era muita conserva na época, biscoito “cream cracker”, (risos) carne viandada [enlatada], salsicha. A gente levava doce em compota, porque isso ajudava, né? Carne viandada e salsicha você come uns 15 dias [e] depois, você não aguenta nem olhar mais, né? E ficava... Agora, o pessoal caçava muito também, sabe? Quando a gente saía na cidade, levava um pedaço de carne e, é, aquela carne acabava rápido, né, porque não ia adiantar se não tinha geladeira, se não tinha nada. Mas aí depois o pessoal caçava, caçava mutum, não sei se vocês conhecem, é uma ave grande que o peito dele dá bife, porco do mato, jabuti, que é um tipo de cágado, né, é, veado, esses tipos de caça toda. É, paca [espécie de roedor]. Tudo quanto é tipo de caça. A gente comia naquele lugar lá. Uma coisa que impressionava, né, quando eu cheguei lá, [é que] o pessoal levava carne, é, charque - levava muito - e colocava, assim, no feijão. Eu não era acostumado a comer feijão com carne de charque, né, questão de regionalismo. E até é bom, né, só que no início eu estranhava muito, aí depois eu acostumei e passei a gostar. Ficava muito interessante. Então, essa experiência aí de alimentação foi muito boa. A convivência com aquelas pessoas foi, assim, muito rica, apesar das aventuras, né? Naquela época, era a idade. Mas aí depois, nós fizemos outros trabalhos, fizemos trabalhos no estado do Pará, trabalhei em umas 3 regiões diferentes: na divisa do Pará com Maranhão, trabalhei também no Rio Gurupi, fizemos um trabalho grande ali. E era uma, você fazia um trabalho no campo, aí voltava para o escritório [e] a gente tinha uma república. Tinha uma casa, não era [bem] uma república - aquilo não [se] chamava de república. Tinha uma casa que a Companhia alugava para a gente em Belém.


P/2 - Bom, Vicente, então você trabalha durante 2 anos na empresa Meridional, depois volta a Ouro Preto, onde você vai cursar a faculdade de Engenharia de Minas, é isso? Que período foi esse, por favor?


R - Bom, eu saí da Meridional no final de 1971, fiz vestibular em dezembro de 71 e comecei a faculdade em 72, né? E aí fiz o curso em 5 anos de 72 a 76.


P/2 - Mas, por que essa vontade de fazer o curso superior? Ou era uma necessidade do mercado de trabalho?


R - Não, na época, quando eu comecei conhecer a realidade da área mineral, na qual eu estava inserido ali pelo curso técnico que eu tinha feito. Eu primeiro senti que estava dentro da minha vocação, depois eu vi como uma oportunidade [de] ter um curso superior. Eu achei que fosse interessante e aí parti para isso. Fiz uma carreira como técnico, uma curtíssima carreira, né, de dois anos, foi uma carreira bem sucedida e aí achei que podia ir um pouco além disso. Aí voltei, fiz vestibular e o curso.


P/1 - E nesse período, você já tinha assim alguma pretensão? “Quando eu me formar vou trabalhar em tal empresa...” Já tinha alguma ideia do que você pretendia?


R - Não, eu nunca cheguei a pensar em qual empresa eu ia trabalhar. O que na realidade a gente observava é que, naquela época, o campo de trabalho estava muito bom para essa área. É, mas eu nunca cheguei a pensar: vou trabalhar na área de carvão, de ferro ou na área de ouro. Nunca cheguei a pensar nisso, não, sabe? O que aconteceu quando eu [me] formei, é [que] ainda era uma época boa... Já não estava tão boa como quando eu comecei o curso, mas ainda tinha opção de escolher onde ia trabalhar e tal. Naquela época, eu formei, participei de um processo seletivo na Vale do Rio Doce, e ficou aquela questão de: a Vale é uma empresa grande e tem lá aquela parte que até você concluir um processo, dizer que vai contratar e tal, demora um pouco, né? E eu sei. Aí eu fui trabalhar em uma empresa de carvão em Santa Catarina [e] o gerente de operação lá era o Ruiter Antonio Borges, que foi meu professor na Escola Técnica Federal de Ouro Preto e, na ocasião, ele estava precisando de engenheiro de minas lá. Eu fiquei sabendo, aí me candidatei à vaga, apesar de estar participando de processo na Vale do Rio Doce, e ele me chamou imediatamente para ir trabalhar. E eu saí no dia, logo em seguida, que eu comecei a trabalhar. Aí eu já tinha feito psicotécnico e uma entrevista, mas aí a Vale me chamou para fazer entrevista: só que eu não estava mais na região de Belo Horizonte. Eu já tinha ido para Criciúma, aí eu não podia voltar já naquela época, né? Aí fiquei e tal. Quando foi num feriado que teve ou num fim de semana aí, que... Eu não me lembro exatamente se foi num feriado ou num fim de semana, só sei que eu saí e fui fazer a entrevista. Aí fiz entrevista e fui chamado para trabalhar na Vale.


P/2 - Como é que foi, um pouco, essa entrevista? Quem é que te entrevistou, quais eram as perguntas que foram feitas? Você lembra um pouco disso?


R - Lembro. Acho que naquela época quem me entrevistou foi o Guilherme Gazolla. Você conhece ele? Pois é, ele que me entrevistou. Eu tinha feito estágio na Vale, na área de planejamento de minas com um geólogo, que é o Haroldo Londero, Haroldo Ney Londero. E ele, a gente tinha feito um trabalho muito interessante. Eu tive, assim, um bom relacionamento com ele na época. Ele estava, acho que, no segundo, terceiro ano de escola. E essa área de planejamento estava na área do Guilherme, só que daí para frente, eu andei tendo alguns contatos com ele. Eu tinha amigos em Itabira, __________ férias passeando, tal e andei encontrando com ele. Depois, quando eu voltei, por coincidência, fui ser entrevistado por ele. Aí, entrevistamos, ele [fez] essas perguntas típicas, né, [do] porquê quer trabalhar na Vale.


P/2 - Que é que você respondeu, você lembra?


R - Então, uma pergunta muito interessante que ele fez para mim na época, que, qual era o melhor aluno da minha turma. “Se eu tivesse que contratar, quem eu ia contratar?” Umas perguntas desse tipo, assim, sabe? E conversamos, eu acredito, que uma hora, mais que uma hora. Ele fez perguntas técnicas, fez perguntas mais relacionadas ao lado social, mais de relacionamento. Sei que foi uma conversa muito interessante. A conversa com ele foi, assim, muito rica de detalhes, mas foi muito bom e ele me contratou logo em seguida. Isso era um sábado. Eu tinha viajado à noite, de Criciúma a São Paulo. De São Paulo, eu peguei um avião, fui à Bahia, aí eu peguei [e] fui para Itabira. Ele estava trabalhando no sábado, eu fui lá no escritório, ele me entrevistou, e logo depois da entrevista ele falou que estava “ok” e que eu podia vir trabalhar. Aí voltei para Criciúma, acertei o que eu tinha que acertar, daí eu vim para a Vale do Rio Doce. Comecei no dia 10 de março de 1977.


P/2 - O que que significava para você ir trabalhar na Vale do Rio Doce?


R - Olha, naquela época, a Vale era uma empresa já razoavelmente conhecida, né? A Vale era uma empresa que, de certa forma, a gente via como uma grande oportunidade profissional. É, por ser uma empresa de ponta, vamos dizer assim, e também, porque a Vale investe muito nas pessoas. Naquela época, já investia muito em treinamento das pessoas. Então, é, e a gente via a Vale crescendo. Na época, eu sabia do relacionamento da Vale com Carajás, por exemplo, eu via que era uma empresa sólida que te dá muita segurança, te dá oportunidade de crescimento. É, uma empresa conhecida, né, em qualquer lugar que você chegar. No Brasil, você fala em Vale todo mundo conhece, né? No exterior, em muitos lugares, conhecem também. Então eu acho que é uma realização profissional muito interessante. Hoje, nós passamos por esse processo todo de privatização, já estamos com 4 anos, né, [de] pós-privatização. A Vale mudou muito, é uma empresa bem diferente do que era naquela época e continua uma empresa boa, continua crescendo e vai crescer mais ainda. Então, aquela visão que eu tinha há 24 anos atrás continua confirmada e até melhor do que eu imaginava na época. Realmente, foi uma realização grande, está sendo uma realização muito grande estar trabalhando na Vale.


P/1 - Quando você entrou, você entrou para fazer exatamente qual função? Para exercer qual função?


R - Eu entrei para ser gerente da seção de controle de qualidade de Conceição. A Vale...


P/1 - Já entrou com essa função, para ser gerente?


R - Com essa função, é. A Vale, ela tinha, naquela época, duas grandes minas em Itabira: a mina do Cauê e a mina de Conceição. Na mina do Cauê, já tinha uma usina de concentração de minério, onde já estava, toda área ali, como mina, já estava bem estruturada. E a de Conceição era uma mina grande também, menor que Cauê, mas também uma mina grande, e tinha, é, uma instalação menor, onde só se trabalhava com hematita, e tinha um projeto que estava começando a ser implantado, que era usina de concentração da mina de Conceição. Então, eu entrei para trabalhar, é, para estruturar o controle de qualidade da mina para atender a usina de concentração. Entrei, este trabalho já estava, já havia sido começado no anterior, mas o engenheiro que estava lá saiu. E aí, eu fui contratado para essa função. Eu fiquei nessa função durante uns quatro ou cinco anos, por aí, quatro para cinco anos. É, montei uma equipe. Foi um trabalho bom, considero um bom trabalho. É, aprendi a trabalhar com controle de qualidade. Controle de qualidade você não aprende na escola, né, você aprende fazendo mesmo [e] depois lá, se usa as ferramentas que você aprende na escola. Mas, é, tinha uma distância grande entre o controle de qualidade de uma mina com aquilo que você aprende na escola.


P/1 - Como é que é? Descreve um pouco essa atividade [do] controle de qualidade?


R - Controle de qualidade de mina é o seguinte: você tem que conhecer todas as frentes de minérios e não são frentes, assim, homogêneas. Você tem diferentes tipos. É tipo assim: você tem 2 tipos básicos de minério na mina. Você tem itabirito e hematita, mas esses minérios, eles variam de qualidade ao longo das frentes. Então, o que você tem que fazer é conhecer aquilo ali. E como conhecer? Através de dados de Geologia, através de amostragem e conhecendo as frentes - você trabalha em diferentes frentes, simultaneamente, - e forma uma pilha de minério - que a gente chama [de] uma pilha homogênea de minério - para alimentar a usina de concentração. Porque a usina tem que ser alimentada com o minério homogêneo; Você não pode a cada hora jogar minério, é, alimentar a usina com uma qualidade diferente. Então, aí você tem parâmetros químicos e vai compondo essa pilha de acordo com as informações que tem na mina. Em resumo, é isso aí. Eu trabalhei nessa área. Depois, eu, uns quatro anos, quatro a cinco anos, saí e fui ser o gerente de controle de qualidade da mina do Cauê.


P/1 - Como é que se deu, como é que se dava esse convite, assim, para você trocar. Isso significou uma ascensão na sua carreira?


R - É, na época, eu acho que, acho não, [o] Cauê era uma mina maior, um pouco mais complexa, então, de uma certa forma, precisava de uma pessoa mais experiente. Então, eu saindo de Conceição para o Cauê, acho que foi uma ascensão. Não subi hierarquicamente, não. O nível era o mesmo, mas eu estava tendo atribuições mais complexas, né? Aí trabalhei lá, acredito que - esses números eu não guardo, não tenho muito certo, mas - deve ter sido uns três anos. Aí depois... A estrutura daquela época era bem diferente, né? Tinha o setor de controle de qualidade, aí quando eu falo em setor de controle de qualidade [significava que] você pegava todo o controle de qualidade das duas minas. Aí você já tinha um engenheiro em Conceição, tinha um engenheiro no Cauê, e eu ficava gerenciando as duas áreas. Aí eu fiquei nessa função mais um certo tempo. Depois, já no final da década de 80, 87, por aí, eu fui trabalhar com área de compra de minérios e mineração contratada. Aí já era uma outra função. Eu olhava a parte de qualidade também, mas aí já tinha [a parte] de negociação, de compra de minérios.


P/1 - Quer dizer [então que] da sua área técnica, você foi entrando para essa área mais gerencial?


R - É. Aí eu trabalhei nessa área durante um ano e pouco, dois anos. A Vale, em 88, ela começou a passar por um processo de mudança, um processo muito grande [de] mudanças muito profundas, talvez. Talvez tenha sido uma das maiores mudanças que eu vi dentro da Vale, foi em 89. Mudou, foram reduzidos os níveis hierárquicos, tinha uma estrutura completamente diferente da que tinha anteriormente. E nessa ocasião, já no final de 89, aí eu fui trabalhar na área de operação de minas. Então, aí eu fui ser, nesse tempo que eu trabalhei na área de compras de minérios e mineração contratada, eu era gerente de visão, aí eu fui ser gerente de comportamento da mina do Cauê. Eu operava a mina do Cauê, toda a parte de operação e dava manutenção em todos os equipamentos da mina do Cauê. Só a parte de mineração. Então, tudo que tinha do britador primário para a mina era de responsabilidade minha, gerente de departamento. Aí sim eu tive um salto profissional dentro da hierarquia da empresa, [isso] quer dizer [que] quando eu saí de sessão para setor, de setor para divisão, eu tive também, mas acho que esse aí foi mais significativo até então, né? Aí, trabalhei um tempo e depois a Vale nunca mais parou de mudar, né? Daquela época para cá são mudanças sempre. De repente, eu fui para Conceição, fui trabalhar em Conceição também na mesma função, trabalhei mais algum tempo. Depois, em 94, eu fui chamado para trabalhar em Carajás para ser gerente geral [e] aí foi outra ascensão hierárquica. Eu fui trabalhar em Carajás para ser Gerente da Mina de Carajás. Eu pegava toda parte de mineração, a parte de manutenção, dos equipamentos de mina, tudo, geologia, toda essa parte, planejamento. E daquela ocasião, lá também, ficava na minha área. A parte de suprimentos tá de acordo com a estrutura lá, suprimentos ficava ligada à minha área. Então aí eu fiquei nessa estrutura até como gerente geral de mineração, até início de 97. Aí houve uma certa, umas pequenas mudanças [e] eu andei pegando algumas outras áreas. A parte de suprimentos saiu da minha área, eu peguei outras áreas e, ficamos, eu fiquei lá ainda até 99. Em 99, no início de 99, tipo abril de 99, aí teve uma outra mudança, né? O pessoal resolveu fazer uma mudança [de] mandar algumas pessoas do sistema sul para o sistema norte e do sistema norte para o sistema sul. Aí, que o nosso diretor de sistemas lá, que era o Juarez Saliva, ele vinha vindo para o sistema sul [e] me chamou para vir também. Então, minha estada em Carajás foi de quatro anos e meio, e aí eu voltei para Itabira, fui ser gerente de minas. Aí já pegando a... Aí em Itabira, a estrutura mudou um pouco também. Então toda a parte de mineração, - aí já não era só Cauê e Conceição - toda a parte de mineração de Itabira, que pegava também as minas do meio, que a gente chama... Não, não do meio ali, é de Cauê até Conceição, porque antes não tinham aquelas minas ali. Aquelas minas foram abertas já no início da década de 90. Aí, trabalhamos lá, eu fui trabalhando, já faz dois anos e pouco que eu estou lá, né? No início deste ano, teve uma pequena mudança [e] eu fiquei como coordenador da área de Itabira. Tinha um gerente geral de usina, tinha eu, gerente geral da mina. E eu, além de [ser] gerente geral da mina, era o coordenador, quer dizer, a pessoa que representava a Companhia lá na, junto à comunidade. Agora, em maio, tivemos uma outra mudança, que é uma mudança de diretor, né, e agora eu fiquei com toda a parte de produção de Itabira. Então foi, é uma estrutura diferente. Temos lá um gerente de produção em Itabira, um em (Itibopeva?) e um outro na área de minas centrais. E eu fiquei em itabira, estou até o momento lá.


P/1 - Deixa eu voltar agora, só um pouquinho. Foi bom que você deu um apanhado geral. Como é que foi se dando esse crescimento da mina do Cauê e Conceição, quer dizer, como é que foi se dando essa exploração? Lembra que a gente falou um pouco dessa relação [de] Itabira com as minas: como é que foi acontecendo esse crescimento, como é que ele foi sendo planejado?


R - Bom, na realidade, a Vale tinha, inicialmente, áreas do lado do Cauê, onde é a mina do Cauê - foi a primeira mina que ela começou a trabalhar naquela região. Aí, no meio, ali tinham algumas áreas, ainda jazidas, da Acesita [siderúrgica brasileira]; E no final, lá na frente, já tinha uma parte que era da Vale, que é a mina de Dois Córregos, e depois vinha Conceição. Então, a Vale desenvolveu Cauê primeiro, depois desenvolveu Conceição - onde era a mina de Conceição, propriamente dita, - e a mina de Dois Córregos. Dois Córregos. Aí, a Vale comprou as, essa área que era da Acesita. Comprou no início da década de 80, e isso era para ser, é, operado futuramente, quando necessário e tal. E, na medida que foi sendo necessário, foi abrindo aquelas minas. Hoje, quando você olha, você vê toda a área aberta do Cauê até Conceição [com] uma distância, uma extensão de 12 quilômetros - todo sendo trabalhado simultaneamente. Cauê vai acabar agora, no final de 2003, [a] mina do Cauê. Porque a usina de Cauê vai continuar rodando ainda, vai continuar operando com o minério das minas do meio que a gente chama, né?


P/1 - Esse minério das minas do meio, qual que é a projeção?


R - Itabira tem para o nível atual de produção, - e sem contar com o aproveitamento de itabirito duro - temos até 2015 operando a usina do Cauê e até 2025 operando a Usina de mina de Conceição. Esse é o horizonte - sem considerar itabirito duro. Agora, se houver alguma novidade aí de aumento ou diminuição de reserva, esse horizonte aí poderá mudar, né, mas, à luz das informações que nós temos hoje, esse é o quadro.


P/1 - É, deixa eu te perguntar - como é que era, na época que você entrou? Já que você fez esse paralelo, eu quero tentar pegar, assim, uma transformação geral. Como é que era esse relacionamento do gerente com o diretor, nessa hierarquia? Até levando em consideração 88, que você se diz que dá uma diminuída no nível hierárquico da empresa, mas, como é que era essa relação [entre] gerente [e] diretor?


R - Não, era o seguinte: o diretor...


P/1 - Quais as principais mudanças também, se puder?


R - A estrutura da Vale... Naquela época, ela tinha um presidente, tinham diretores que ficavam no Rio de Janeiro, aí tinha diretor de produção, - acho que era produção ou operação, não lembro mais o nome - diretor de desenvolvimento, e tinham várias diretorias. E nas minas, você tinha, ou nas minas, nas áreas operacionais, você tinha uma superintendência de porto, uma superintendência das ferrovias e a superintendência das minas. Na superintendência das minas, você tinha, na época, gerente de departamento, tinha gerente de divisão, gerente de setor e gerente de sessão e supervisão - supervisão geral e supervisão. Quando, em 1998. [Não, era] 1988. A gente tinha em Itabira acho uns 800 cargos de gerente, quando você contava. Gerente de, é, supervisor, supervisor geral, gerente de seção, gerente de setor, e tal. Aí o pessoal começou a ver que estava muito, a estrutura estava muito pesada. Aí teve a grande mudança de estrutura, quer dizer, a diretoria continuou diretoria, né, até o superintendente, então mudou do superintendente para baixo. Aí você diminuiu uma série de níveis hierárquicos [e] ficava com superintendente, gerente geral, gerente de departamento, gerente de divisão e supervisor. Deu uma redução. Depois, uns dois anos depois, cortou mais um nível, que foi o gerente de divisão. Aí ficou superintendente, gerente geral, gerente de departamento e supervisor, tá? E, com isso aí, o nível, o número de gerentes - quando eu falo gerente, são [as] pessoas que gerenciam alguma área, um grupo de pessoas, tá? É um engenheiro, pode ser um engenheiro, pode ser um técnico de nível médio, que gerencia operadores e mecânicos, sabe, que tem subordinados. Esse número caiu de 800 e pouco para 200 e tanto, então deu uma enxugada na estrutura da empresa. Por isso que eu falei que acho que foi a mudança mais profunda que teve na Vale nos 24 anos que eu conheço. Desde que eu conheci a Vale, esta [é] para mim, foi a mudança mais pesada que teve. Tanto que Carajás já passou também por mudanças, mas em Carajás já teve uma mudança menor, porque lá já tinha sido criada com os níveis um pouco diferentes.


P/1 - Quais foram as principais transformações tecnológicas dentro da sua área de atuação?


R - Olha, na minha área...


P/1 - De quando você entrou, pensando na sua trajetória?


R - Olha, o que a gente tem procurado fazer dentro da Vale do Rio Doce, - isso não é eu, é a própria empresa - a gente procura ser uma empresa atualizada em todo nível de, com o melhor nível tecnológico que existe. Nós, hoje, Vale do Rio Doce, não devemos nada a nenhuma empresa de mineração do mundo. Nós somos uma empresa que contamos com todos os recursos necessários para operar bem e nós não somos de esperar tecnologia bater na nossa porta, nós vamos atrás, estamos sempre atualizando.


P/1 - Mas lá atrás já era assim? Como é que foi se dando isso, esse investimento na tecnologia?


R - Eu acho que isso aí é uma vocação da empresa, você tá entendendo? Eu acho que a Vale, ela foi criada e com vistas [plano] a vender minério, a exportar, tá entendendo? E o fato de exportar, você vai concorrer com pessoas, com empresas multinacionais, empresas que são, que tem acesso, né, a tudo qual, é, tipo de tecnologia. Então, o fato de estar com esse pé lá fora no mercado, e, você tem obrigação, é questão de sobrevivência da empresa. A área nossa de trabalho, o mercado onde nós vendemos nosso produto, é um mercado de alta concorrência, sabe? Ou você trabalha com tecnologia e consegue ter custo, ou então a empresa vai desaparecer, certo? Então, é, todas essas mudanças, elas ocorreram e vão ocorrer daqui para frente, porque nós temos a obrigação de estar atualizados. E, se possível, na frente.


P/1 - Entendi, mas você consegue me explicar, assim, um pouco, antes, vamos supor, para fazer o controle se utilizava tal instrumento que hoje já não existe mais e é feito de uma outra maneira?


R - Olha, os próprios materiais que você usava... Na época, quando começou a operação de mina em Itabira, o que é que você produzia em Itabira? Você produzia hematita, tinha uma grande reserva de hematita e trabalhava com hematita, hematita granulada. Então você vendia granulado, produto oriundo de hematita, [mas] e aí, a hematita granulada, ela foi diminuindo não só em Itabira, mas no mundo todo. Porque, lógico, a tecnologia que foi desenvolvida para fazer aço é uma tecnologia com vistas a trabalhar matéria prima - minério granulado. Aí, como o minério granulado foi ficando escasso, e aí você tinha minério fino, que a gente chama de “sinter-feed”? Aí veio o desenvolvimento das próprias siderúrgicas com base nas informações, que o minério granulado estava ficando escasso, mas que tinha muito minério fino, tinha reserva agora era de minério fino. Aí foi desenvolvendo processos para aproveitar o minério fino, a parte fina do minério, da hematita, que é a sinterização: você pega o minério mais fino, coloca numa máquina que faz “sinter” e transforma ele, faz uma semifusão e transforma ele num tipo de um granulado, vamos dizer assim. Bem, isso aí sobreviveu por algum tempo. Só que chega numa certa época, o minério fino de hematita, ele continua, existe, mas também vai ficando mais escasso. Mas, aí tem as grandes reservas de itabirito, que são minério de ferro com teor de sílica mais alto. Aí, então, veio a necessidade de concentrar esses minérios, para aproveitar uma grande parte de pellet-feed. Pellet-feed é a matéria prima para produzir “pellets”. Então você teve essas três grandes fases aí. O mercado de minério de ferro, ele antes trabalhava com fornos menores; Depois, os fornos foram mudando de porte. E aí você tem que ter também matéria prima com qualidade mais homogênea. Uma coisa é você alimentar um forno pequeno, outra é alimentar um forno de 800 metros cúbicos. É diferente, tá? Então, aí você começou ser mais exigido. O minério tinha que ter uma granulometria mais, tinha que ser mais rigoroso. A qualidade química já tinha que variar menos. Então aí vem os processos de classificação; Junto com classificação, vem concentração. E com isso aí, a gente vai procurando sobre dois aspectos: um é atender a área siderúrgica com a matéria prima que eles, que a área quer, que atenda de modo a que eles tenham um custo menor, porque no resumo, tudo isso é custo, então a gente tem que produzir matéria prima que atenda eles. Aí tem que produzir com baixo custo, porque para vender para eles com um custo também que permita a eles continuarem sobrevivendo e crescendo também, né, porque nós dependemos deles, não adianta a gente querer vender o minério por um preço muito alto. Primeiro, eles não vão comprar porque eles têm outras opções de compra, né? E o minério, se o nosso minério não atende, eles vão comprar de outro, tanto se tratando de qualidade e de custo. Então, o processo vai indo assim. Agora, você tinha... Por exemplo, olha bem, quando você começou a operar uma mina em Itabira, você já deve ter visto fotografia disso aí, você tinha, quebrava hematita com marreta. Era um processo manual, tá? Quebrava, pegava pedaços de determinados tamanhos, fazia ali uma catação, aí você gerava um granulado. Aí, daí a pouco, surge uma grelha, você já passa de uma gralha, já pega determinado tamanho, você já elimina, aí depois, vem peneiras, vem caminhões, né? Você já usava carroça, pô, puxava minério com carroça, burro, tração animal. Aí depois vêm os caminhões, então você vai lá: "Ah, tem caminhão?" "Tem" "Então nós vamos comprar caminhão", "Tem perfuratriz?" "Então vamos comprar perfuratriz". E aí você vai [e] compra caminhão pequeno. Aí vai crescendo, você partiu de um caminhão - que eu nem sei qual a capacidade inicial dos primeiros caminhões que a Vale utilizou - para ter hoje caminhões de 280 toneladas. Então isso não saltou de um caminhão de 5 toneladas para um de 280. Você foi para 5, para 8, para 10, para 12, para 15  e etc. Trinta e cinco, 50, 100, 70, 100, 120, 150, 190, 240 e hoje estamos com 280. Isso foi uma evolução do tamanho do caminhão. As escavadeiras, também foram crescendo, as pás carregadeiras, os tratores, todos os equipamentos de mineração foram crescendo em tamanho e em tecnologia. Antes, você comprava caminhão, escavadeira com uma tecnologia, com corrente contínua. Hoje, você já tem equipamentos que trabalham com corrente alternada. É outro conceito de equipamento. O porte dos equipamentos mudaram completamente. Eu já cheguei a trabalhar em Itabira com máquina de 6 jardas cúbicas. Hoje, nós temos escavadeiras no mercado para trabalhar com 50 jardas cúbicas de minério, sabe? Então, tudo isso aí foi mudando. E aí vem, mudou muito na parte eletrônica, controles, automação, os próprios britadores que usavam, que eram usados há 50 anos atrás, 40 anos atrás. Hoje você tem equipamentos completamente diferentes. Aí vem concentração, aí tem concentração. Uma área interessante. Você trabalhava 30 anos atrás com concentração magnética. É, esse mesmo material que concentrava magneticamente, 30 anos atrás. Hoje, vocês tem flotação. Tem diferentes tipos de flotação. Você tem flotação convencional, você tem flotação é, nas celas de flotação. Você tem flotação por colunas hoje, que é a mais recente, como que você classificava. Então, aí você, aí eles foram introduzindo, né, você classificava com peneira, peneira a seca, quer dizer, a seco, porque ela peneira a seco, hoje. Aí depois vem peneira com água, aí você já peneira o minério com água [e] depois ciclones, vem classificadores de espiral. Hoje você tem diferentes tipos de ciclones. Depois vem (Gigs?), que você já faz uma classificação, uma concentração gravimétrica. Então tudo isso aí foi acompanhando. Os caminhões, no início... Eu lembro que 20 anos atrás, você tinha uma frota de caminhão que trabalhava na mina [e] esses caminhões eram fixos numa escavadeira. A escavadeira número 30 [ou] então o caminhão A, B, C e D vai trabalhar na escavadeira de número trinta. Então ele ia do britador para aquela escavadeira, ele ia e voltava. Ou você tinha... Ou então vai trabalhar com estéreo. Então ele pegava, ele ia trabalhar daquela máquina para o depósito de estéril o tempo todo. Há 20 anos então surgiu os primeiros sistemas de despacho. O que que é despacho? É um sistema de alocação dinâmica de equipamentos. Então, quando um caminhão sai de uma escavadeira e vai para o britador ou para o depósito de estéreos, na próxima viagem dele, ele pode ir para outra escavadeira; Você tem uma central que indica o destino de cada equipamento da mina. Então tudo isso aí foi, foram evoluções.


P/1 - Que é que permaneceu, assim, que se fazia de um jeito e continua até hoje? Que etapa do processo que mudou pouco?


R - Eu diria para você, se pegasse uma, os princípios são os mesmos, né, mas eu não vejo muito é, coisas que usavam, é, tecnologia de 50 anos atrás, que você fazia há 50 anos. Praticamente, você não faz mais hoje, sabe? O meio ambiente, questão de depósito de estéril, tudo isso aí foi mudado. Planejamento de mina foi completamente mudado, as técnicas que tinha... Você trabalhava com informações completamente diferentes do que trabalha hoje.


P/2 - Em relação a essa questão ambiental, por exemplo, você acompanhou um pouco isso, como é que a Vale...?


R - A Vale sempre foi uma pessoa... Ah, uma pessoa! Uma empresa, né? (risos) Foi uma empresa muito preocupada com o meio ambiente. A Vale sempre procurou trabalhar com, de acordo com a melhor técnica.


P/1 - Mas [e] em Itabira, já tinha essa preocupação? Antes, vamos dividir em dois: antes de Carajás e o momento de Carajás.


R - A questão não deve ser dividida [entre] antes e depois de Carajás. Acho que não é bem isso. A questão é o seguinte: a Vale sempre procurou trabalhar com a melhor técnica. As técnicas melhores de 60 anos atrás, hoje já não são aceitas mais. Como você fazia um depósito de estéril há 60 anos, hoje faz completamente diferente. Antes de ter Carajás, Itabira já fazia depósito de estéril controlado. Eu me lembro [que] os primeiros depósitos foram feitos controlados. Carajás foi depois. Isso começou em Itabira, essa questão de meio ambiente, assim, ela começou a ser olhada com mais cuidado - não é porque a Vale estava fazendo errado, a Vale estava fazendo aquilo que todas as empresas faziam. Talvez até estivesse fazendo um pouco melhor, mas era aquilo que era aceito na época. Só que aquilo hoje não é mais válido, né? E aí ficam as pendências, né, que você tem [que] corrigir. Agora, a questão de Carajás, é, Carajás foi uma mina aberta numa época diferente, foi um projeto que você estava começando, na década de 80, é, onde foi colocada as melhores técnicas. Primeiro, porque, na época, já se falava nisso aí. A visão das pessoas já era diferente, tanto que este trabalho já tinha começado ser feito em Itabira. Aí Carajás era na Amazônia. Ninguém acreditava, naquela época, que você podia abrir uma mineração na Amazônia do porte que nós abrimos, e não ter nenhum problema com o meio ambiente. Então tudo que foi feito ali, foi feito rigorosamente dentro dos padrões de boa prática ambiental. Então você tem, o Projeto de Carajás hoje é um projeto referência para o mundo. Não é referência dentro da vale ou referência para o Brasil, o projeto de Carajás é referência para o mundo, tá? E qualquer projeto que a Vale abrir daqui para frente, o que já abriu nesse período aí, ele é feito com a melhor [utilizando] as práticas idênticas de Carajás. Carajás marcou porque já foi feito, começou corretamente dentro daquilo que é exigido hoje. Itabira já tinha começado a fazer trabalhos que hoje são válidos. Só que você tem aquela parte que foi trabalhada no passado, que está sendo corrigida hoje, e tem a parte que você fez, tem depósito de estéril.


P/1 - Que é que tá sendo corrigido hoje?


R - Tem depósito de estéril em Itabira, que se eu lá chegar e mostrar para você e falar: "Olha, isso aqui foi depósito de estéril", você nem acredita. Tem árvore já...


P/1 - É isso que tá sendo corrigido agora?


R - Não, [são] depósitos que foram feitos dentro da melhor técnica, da técnica atual. Você vê hoje, já não percebe que ali era um depósito. A gente sabe porque a gente viu como começou, né? Então hoje, a questão dos depósitos de estéreis de Itabira, que às vezes não foram feito dentro de uma técnica atual, foi feito dentro de uma técnica daquela época que era aceita, então eles carecem de algumas correções que estão sendo feitas, e isto você não faz, não adianta você chegar: "Ah, vou fazer no próximo ano, eu vou resolver todo o problema." Você não resolve, né? Agora, o problema hoje, [é] que às vezes o pessoal reclama muito em Itabira, [e] não é isto. O problema que o pessoal reclama em Itabira, hoje, é de poeira. Por que poeira? Porque a mina está encostada na cidade e por mais que a gente gaste dinheiro com a tecnologia que nós temos hoje, nós não vamos acabar com poeira. Eu já falei várias vezes sobre isso, já falei com as autoridades de Itabira, com prefeito, promotora. Já falei muito isso. E o pessoal, porque que o pessoal acha que tem poeira hoje e eles não reclamavam no passado? Primeiro porque as próprias pessoas no passado talvez não estivessem muito atentas para isso aí. É. Segundo porque a área exposta aumentou. Agora, o que é que eu falo com eles? Eu falo: "Olha, nós estamos com o máximo de área exposta em Itabira [e] daqui para frente esta área vai diminuir." Porque na medida que vai chegando no final dos pits, aí você vai revegetando, tá entendendo? Então é aquele lugar que você coloca capim, você coloca árvore posteriormente. Coloca capim, forma lá o suporte orgânico, depois você vai lá plantar árvores, planta mudas que viram árvores posteriormente [e] essa área não terá poeira mais. Então, a cada ano que passar daqui para frente, esta área vai diminuindo. Essa área exposta vai diminuindo. A tendência é diminuir a área exposta em Itabira. Agora, eu vou dizer que vou acabar com poeira? Não vou dizer, porque não vou acabar. Não existe tecnologia para isso. A gente gasta uma “baba” de dinheiro todo ano lá e não vamos acabar com isso. Só vai acabar, na medida que for, [se] a gente diminuir. É lógico que se nós não tivéssemos o cuidado que temos, não gastássemos o dinheiro que gastamos, com certeza a história seria muito pior. Teria muito mais poeira.


P/2 - Já que você está falando de Itabira, como é que é, um pouco assim, essa interseção entre a Vale do Rio Doce e a cidade de Itabira?


R - Ah, Itabira é uma cidade que viveu muito em função da Vale nos últimos 40, 60 anos, né? Então todas as grandes obras de Itabira tiveram a participação da Vale. A Vale é responsável por 90% da arrecadação da prefeitura. E eu acho que teve, assim, alguma mudança entre a Vale estatal e a Vale empresa privada, tiveram mudanças, mas a Vale não deixou em momento algum de cumprir com as obrigações dela junto à cidade.


P/2 - Você pode apontar uma dessas mudanças, que você percebe?


R - Não, teve mudanças. Isso até já tinha conversado. A Vale foi pra Itabira, começou as atividades em Itabira em 1942 [e] a Vale foi crescendo em Itabira até 1960 e poucos, por aí. Então as pessoas iam pra Itabira, as pessoas trabalhavam na Vale, os filhos passavam a trabalhar na Vale, porque a Vale estava crescendo. Tinha emprego para as pessoas que nasciam em Itabira e para mais algumas pessoas que vinham de fora, só que, é, a Vale parou de crescer em Itabira, a Vale chegou num limite. Não teve emprego para todas as pessoas mais, então esse é o primeiro sentimento que o pessoal tem e o fato da Vale ter privatizado a Vale. Parece que o pessoal tem um sentimento de perda, apesar da Vale continuar, é, a Vale não tem nenhum objetivo de [se] afastar de Itabira, ela continua investindo em Itabira. É, continua fazendo obras em Itabira. Você sabe que obra nunca acaba, né, sempre tem modificações, adequações e tal. Então isso continua, só que o pessoal não vê isso. Às vezes, a Vale está gerando empregos, está crescendo, está gerando emprego, só que está gerando em outra área, não está gerando em Itabira e não tem, para o negócio da Vale, não tem como ela investir mais em Itabira. Então, aí vem a reclamação do pessoal. Agora não existe, porque a Vale pagava os impostos e continua pagando, continua ajudando, ainda, viabilizando negócios para Itabira, mas o pessoal tem aquele sentimento, esse é o problema.


P/2 - Você mora em Itabira? Você gosta de lá, da cidade?


R - Eu moro em Itabira, gosto de lá. Morei antes de ir pra Carajás quase 18 anos lá. Casei em Itabira, minha esposa é de Itabira e acho Itabira um lugar muito bom para viver, tenho muitos amigos em Itabira [e] acho um lugar excelente. Eu acho que o pessoal de Itabira precisa ter um sentimento diferente da empresa, sabe, eles tem que reconhecer a Vale como uma empresa itabirana e ter orgulho de ter uma empresa itabirana do tamanho que é a Vale, com a projeção que tem a Vale. Eles não conseguiram dar esta virada e nós não conseguimos também. Acho que o dia que fizer isso aí, o problema está resolvido, tá, acho que precisa disso aí. Itabira é um excelente lugar.


P/1 - Como é que foi sua ida para Carajás, quer dizer, essa mudança de você ter saído do sistema sul e ir para o sistema norte? Como é que foi essa experiência? O impacto que você teve, quer dizer, você já devia conhecer, mas o fato de estar lá...


R - Olha, foi profissionalmente uma experiência excepcional, viu, foi um negócio assim muito importante, é, Carajás deu uma visão muito boa como gerente. Certamente, se eu tivesse saído de Itabira e tivesse ido para outra área, a experiência teria sido boa também. A conclusão que eu cheguei de tudo isso aí é que a pessoa não pode ficar num lugar a vida toda, pior coisa profissional é você ficar num lugar, sem mudar. E a empresa do tamanho da Vale, com a estrutura que a Vale tem, ele tem que ter um sistema de rotação de pessoal. Eu acho que foi um crescimento. Eu já conhecia Carajás, de 1970, né, quando passava por lá. Nunca trabalhei, nunca tinha trabalhado em Carajás, mas eu imagino que a experiência em Carajás foi muito boa. Agora, teria sido boa se eu tivesse para Vitória ou um outro lugar também. Não sei se na mesma proporção, na mesma direção, mas foi muito boa.


P/2 - Você está há 25 anos trabalhando na Vale, quer dizer, desse período, existe algum desafio profissional maior que você teve que tenha lhe marcado muito? Você teve em várias funções, em vários cargos, né, algum que tenha lhe marcado mais?


R - Eu acredito que a ida para Carajás, talvez, tenha sido o maior desafio que eu tive, não pelo técnico, tá, mas pelo de você sair de um lugar, tirar a família de um lugar, onde tem, apesar de eu não ter tido problema nenhum com a minha esposa, mas ela saiu do meio familiar dela, do meio das tias, das primas, das amigas e tal, para ir para um lugar igual Carajás. Com relação aos meninos não teve problema, porque os meninos eram pequenos. [Para] menino de 2 e 4 anos não faz muita diferença nisso aí, né? Agora, Carajás é um lugar diferente, muito bom para viver, [com] um clima, talvez o melhor clima que eu já vivi. Quando você desce a serra esquenta, né, mas lá no alto, na serra, é melhor. É muito bom. Talvez, a questão na época, era eu, era esse lado aí ser resolvido. Apesar de Valmira trabalhar na Vale também, hoje ela já se aposentou, mas na época ela trabalhava.


P/2 - Em qual atividade?


R - Ela trabalhava na área de RH.


P/1 - Vocês se conheceram na Vale?


R - Conheci ela na Vale. Aliás, eu conheci quando eu fiz estágio lá na Vale, antes de formar em engenharia. Antes de terminar meu curso de engenharia, eu já conhecia ela. Então, talvez o grande, porque tecnicamente gerenciar, para mim, não teria sido nenhum problema, eu não teria tido problema e isso é [em] qualquer lugar que eu for. Eu gosto muito de trabalhar na área gerencial, acho que se eu não tiver trabalhando na área gerencial, eu não vou estar bem, tá? Então eu acho que a grande dúvida na época, era essa aí. E, mas, aí eu perguntei para ela [e] ela falou que não, que ia, que topava e tal, e nós fomos.


P/2 - Mas ela também foi trabalhando pela Vale?


R - Foi trabalhando pela Vale também. E é lógico, não foi fácil, mas para ela adaptar, eu acredito,... Mas deu tudo certo e acho que fomos muito bem recebidos, fizemos muitas amizades. É, o pessoal em Carajás... Carajás é [de] uma característica diferente, né, porque é um lugar fechado, e as pessoas se relacionam o tempo todo, né? Você vai no trabalho, no clube, na padaria, na farmácia, no boteco, todo o pessoal está ali. As pessoas, a escola, é uma escola, é uma igreja, então está todo mundo junto. Isso cria um vínculo muito forte entre as pessoas. E acho que nós inserimos neste contexto muito bem. Encontrei em Carajás pessoas chamadas de pioneiros. Pioneiros são as pessoas que, funcionários da Vale que foram para Carajás começarem a obra.


P/1 - É uma associação até, né?


R - É, entre os pioneiros, eu encontrei pessoas que tinha conhecido quando trabalhei como técnico. É um negócio interessante. Tenho até uma fotografia deles e entre eles tem pessoas que trabalharam comigo...


P/1 - Você trouxe essa foto?


R - Trouxe.


P/1 - Ah, que legal!


R - Tinha trabalhado nessa época, ó. Tem gente até hoje lá. Acabou?


P/1 - Deixa eu só fazer a última pergunta dentro disso, daí a gente vai para aquelas finais: Você, pegando a sua formação [e], na Vale, foi seguindo uma carreira gerencial, crescendo dentro da companhia, dentro disso. Você teve alguma espécie de incentivo ou formação para ir desenvolvendo, quer dizer, esta atividade gerencial?


R - Esta atividade gerencial é o seguinte: é, ela vai acontecendo naturalmente, né, porque o líder nasce. Você melhora, mas não cria, tá? Você pode pegar uma pessoa e consegue fazer a pessoa melhorar alguns aspectos e tal, mas se uma pessoa não tem tendência para liderar, não tem tendência para ser gerente – porque gerente ganha... Eu acho, tem que mais é [que] liderar mesmo – você nunca vai ter seguidores, tá entendendo? Então o que eu fiz [foram] muitos treinamentos. Muitos. Eu fiz treinamento, mestrado em economia mineral, muito curso na área de gerenciamento de pessoal, tenho bastante treinamento que eu fiz muito voltado para essa área, mas fiz porque era uma tendência minha mesmo, né? Eu acho que na medida que você vai indo para esse lado aí, vai sentindo necessidade. A gente lê muito, né, procura conhecer. Eu lembro que quando nós começamos a trabalhar com GQT (Gestão de Qualidade Total), eu lembro que em uns dois anos eu li mais de 30 livros sobre. Eu leio muito sobre alguns trabalhos, procuro me atualizar com relação ao gerenciamento de pessoal, sabe? E procuro gerenciar de uma maneira bem simples, né, eu acho que sem complicação. Gerenciar é [se] comunicar com as pessoas e eu acho que eu consigo fazer isso. Hoje eu tenho, procuro estar sempre no meio do pessoal. A minha área hoje... É lógico que eu não tenho... Mas eu tenho uma área hoje que tem 1800 funcionários, é lógico que eu não converso com todos eles, né, mas eu procuro, sempre que possível, estar no meio deles.


P/1 - Com a privatização, quais foram as principais mudanças para essa área gerencial, assim, para sua área de atividade?


R - Olha, eu... A Vale já vinha investindo muito em treinamento nessa área, e com a privatização, eu acho que esse investimento, ele continuou, talvez, até um pouco mais do que já era antes. Você tem feito cursos regularmente, temos uma grade de curso que é feito no exterior, no Brasil e no exterior. Programas que a Vale compra, monta programas para atender determinada área. Mas, tem mandando gente para fazer curso, MBA de gestão. E tem feito isso no Brasil e fora do Brasil também. Então a Vale está investindo cada vez mais - eu acho que tem que investir mesmo, né? Eu acho que essa área, é... O grande patrimônio da empresa são [os] recursos humanos, né? Então se você não cuidar do seu grande patrimônio, como é que, como vai ficar? Então eu acho que a vale já era uma empresa que investia e agora ela tá investindo talvez de uma forma mais, eu não sei se organizada ou mais orientada, sabe? Então, nessa área, eu acho que tá indo muito bem. Aliás, a Vale tá indo bem como um todo, não é só nessa área.


P/1 - Vicente, pensando na sua trajetória de vida. Se você tivesse que mudar coisa, você mudaria?


R - Olha, eu... (pausa) Não, eu acho que, dentro, é, das condições, das minhas condições, eu acho que eu não teria, eu não teria mudança, não. Talvez, uma coisa que eu pudesse é... Talvez eu fizesse, se eu tivesse que voltar um pouco atrás, eu não teria ficado 18 anos em Itabira, sem sair de lá, tá? É o que eu acho que todos os funcionários da Vale, principalmente, na área que vai mais para essa área gerencial. Porque quando você fala, por exemplo, de operador de mecânico, aí a coisa é diferente, né, mas [para] o pessoal de certo nível, eu acho que tem que rodar mais, sabe? (pausa) Talvez a minha trajetória dentro da Vale poderia ser um pouco diferente.


P/2 - Como é um dia seu hoje?


R - Um dia meu hoje? Bom, é um dia de no mínimo 12 horas, né? Eu estou com [uma] área operacional muito grande, procuro quase todos dias, - exceto quando eu vou viajar, ou às vezes por uma reunião que eu não possa deixar de marcar - na parte da manhã, tenho procurado dar uma passada pelas áreas operacionais, conversar com as pessoas, é, saber o que que está acontecendo. Depois eu vou para o escritório [e] aí é reunião o tempo todo: telefone, correio, relatórios. E aí vai até 8 horas da noite.

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