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Gerenciando o Social: Uma História de Bittencourt

História de: Depoimento de Antônio Carlos Bittencourt Goethel
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 10/07/2021

Sinopse

Bittencourt teve sua infância baseada em muito estudo e trabalho. Nos relata que o tempo que passou longe dos pais, no internato da escola técnica, agregou muito na sua vida, pois aumentou os laços afetivos com outras pessoas e ajudou no seu engajamento social. Como técnico agrícola, sempre procurou ajudar as pessoas com quem trabalhou a se desenvolverem. E quando chegou a gerência do Banco do Brasil não foi diferente. Ele reconhece o esforço do Banco em ajudar comunidades, através dos programas sociais, alguns dos quais ajudou a implementar: programas como Homem do Campo e Fundec. Para ele, o dever de um gerente é criar um laço entre a comunidade e o Banco, papel que cumpriu nos seus 12 anos de gerência.

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História completa

 

Projeto Fundação Banco do Brasil

Entrevistado por Aurélio Araújo e Eliete Silva

Depoimento de Antônio Carlos Bittencourt Goethel

Brasília, 27/09/2006

Realização Museu da Pessoa

Depoimento FBB_HV0026

Transcrito por Susy Ramos

Revisado por: Lara Eloiza Dan Della Mura

 

P/1 – Bittencourt, boa tarde!

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Para  registro nós gostaríamos que você falasse o seu nome completo, data e o local de nascimento.

 

R – Meu nome completo é: Antônio Carlos Bittencourt Goethel. Nasci em Taquari, Rio Grande do Sul, em 6 de maio de 1951. É essa a data.

 

P/1 – Bittencourt, qual o nome dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai é Ademar Goethel e o nome da minha mãe é Sila (?) Bittencourt Goethel, também ambos naturais de Taquari, Rio Grande do Sul.

 

P/1 – Qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – Meu pai sempre foi operário, ele nasceu no interior, veio pra cidade e exerceu as funções de operário em um seminário seráfico por 40 anos. A minha mãe sempre foi do lar e também exerceu paralelamente um serviço junto à Receita Federal, nos termos de limpeza, para auxílio na remuneração da família que, na verdade, os recursos eram parcos. Poucos pra atender os filhos, foi um auxílio que ela buscou junto a serviços externos.

 

P/1 – Qual a origem da sua família? Goethel é alemão?

 

R – É. O meu pai é de origem alemã, sendo que o meu bisavô veio da Alemanha e a minha mãe é de Porto Bittencourt que é de origem, segundo dizem, francesa. Tem uma descendência francesa. Na verdade, a vivência na região ali é praticamente de etnia portuguesa.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão chamado Edson, ele é nove anos mais novo do que eu. Ele trabalha hoje com uma casa de festas, faz programação de festas. Ele também trabalhou durante um bom tempo, junto à área de informática como programador de sistemas.

 

P/1 – Você viveu toda sua infância na cidade que você nasceu? Como foi isso?

 

R – Eu nasci em Taquari e vivi até os meus 15 anos lá. Estudei o primário e o ginásio em uma escola de freiras, da Congregação Imaculado Coração de Maria. Quando me formei no ginásio fiz um concurso, um exame seletivo pra Escola Técnica de Agricultura, no município de Viamão. Eu fui aprovado e fui estudar em Viamão, em 1966, momento em que eu saí da cidade de Taquari e fui para lá estudar três anos e meio em colégio agrícola. Retornando depois pra Taquari, em 1970, para fazer um estágio junto à Secretaria de Agricultura do Estado. Depois trabalhei por três anos na Secretaria de Estado e na Secretaria de Agricultura.

 

P/1 – Vou voltar um pouquinho. Como foi sua infância em Taquari? Você estudou em uma escola católica, era internato?

 

R -  Não, era o ginásio normal. Fiz do primeiro ano à quinta série, eram cinco anos até a quinta série. Depois fazia-se um exame de admissão, logo, mais quatro anos de ginásio. Foi uma infância normal, porque a nossa família é de poucos recursos então não é uma família abastada financeiramente. Todos trabalhavam. A gente sempre ajudava em casa, ajudava meu pai também no seminário onde ele trabalhava como operário. Foi uma infância normal, convivendo na própria comunidade junto com os demais amigos e colegas do colégio. Com 14 anos eu comecei a trabalhar num jornal com emissão semanal que tinha na cidade, “O Taquariense”. Eu trabalhava como tipógrafo, ia compondo as matérias e fazendo a paginação e semanalmente, a gente emitia o jornal. Uma tiragem de 800 a 850 exemplares. Trabalhei em 65 e 66 neste jornal, pra buscar recursos financeiros e depois eu fui estudar fora. Mas a infância foi tranqüila, eu ia muito pro interior nas casas dos meus parentes, aos finais de semana. Então uma vida bem regrada, bem tranqüila.

 

P/1 – E como foi sair de Taquari?

 

R – A oportunidade surgiu de demais colegas que estudavam no ginásio: “Ah, esse é o concurso pra escola técnica de internato”, e eu disse: “Quem sabe eu vou buscar essa alternativa pra mim também!”. Naquela oportunidade, fomos cinco colegas do mesmo ginásio, prestamos exame em Porto Alegre e, desses cinco, eu tive a felicidade de passar, de ser contemplado, o momento que eu deixei a minha cidade natal e fui pra lá em março de 67. Evidente, que há um descompasso nessa mudança de habitat. Você sai do seu local de vivência e vai pra um outro local até desconhecido e dentro de um grupo de 400 alunos, num internato. Mas eu vejo como um grande crescimento. Se tivesse que fazer, eu faria tudo novamente, porque foi um aprendizado. A gente buscou conhecer melhor a vida sem estar dependente do pai e da mãe. A gente conseguiu superar esses obstáculos naturais de um afastamento da família. Mas, isso foi um crescimento pra gente e até hoje me sinto satisfeito por ter feito esse curso, que foi Técnico em Agricultura. Por conseqüência, também dentro do mercado, como o Brasil é um país bastante primário. A gente teve facilidade depois de exercer a função de Técnico Agrícola. Tanto que quando fui pra Passo Fundo, fiz um Tecnólogo em Administração Rural, é um curso de licenciatura curta que era um complemento do Técnico Agrícola. Não chega a ser propriamente Agronomia, mas é uma das cadeiras da Agronomia que foi desmembrada. E a gente fez um curso de licenciatura curta que também veio somar para minha vida futura. É o caminho que eu procurei e tive a felicidade de ter êxito. Foi muito bacana, foi muito bom mesmo.

 

P/1 – Só pra gente entender um pouquinho: você saiu da sua cidade e foi pra Escola Agrícola estudar. E era onde? Em Viamão ou em Porto Alegre?

 

R – Viamão! Viamão dá uns 60, 70 quilômetros de Porto Alegre, se não me falha a memória.

 

P/1 – E como foi sua impressão de sair de casa, ir pra uma escola técnica, ir pra uma cidade maior, perto de Porto Alegre. Um outro contexto? 

 

R – Um outro contexto. Até uma curiosidade, naquela oportunidade os estudantes da escola eram todos de 22, 23, 25 anos praticamente e eu fui pra lá com 15, 16 anos. Eu e mais dois colegas fomos com 15, 16 anos então a gente encontrou uma dificuldade bastante forte porque nós éramos crianças dentro de um contexto de 400 alunos. Poucos tinham a idade bem nova, foi um momento que começou a abrir a idade limite.  Começou gente mais nova a crescer, digamos, no curso médio, com 15, 16  anos. Até então a grande parte do pessoal era tudo com 22, 23 anos e assim por diante. No primeiro semestre eu tive a oportunidade de conhecer uma família, por intermédio de um parente que era professor na escola.  E a gente fez um elo e eu parei na casa deles, fiquei num regime de semi-internato, então isso foi um elo de ligação pra que eu fizesse a mudança de sair da casa dos pais pra estudar num colégio estranho. Teve essa família que me acolheu e acabou formando esse elo de ligação, aí ficou bem mais fácil aceitar esse novo ambiente, esse novo cenário e admitindo, por exemplo. Lógico que a saudade bate, às vezes o desespero também de querer voltar pra casa, mas a gente superou essas pequenas barreiras e foi um crescimento. Foi muito bom isso aí, realmente foi bom.

 

P/2 – Como você costumava se divertir com os amigos na Escola Técnica?

 

R – Na Escola Técnica era interessante, porque lá na escola tem os – não sei se vocês já conheciam isso – existem ranchos, agrovilas, são pequenos ranchos em que se familiarizaram, alguns têm maior identidade, afinidade e formam os grupos. A gente participava desses ranchos, são 23 ranchos, na oportunidade que tinha lá e a gente convivia ali. Fazia o cafezinho no fim da tarde, estudava à noite, às vezes fazia alguma sacanagem, pegava algumas galinhas da vizinhança, matava e à noite fazia brincadeira com a turma. Inclusive, tinha um rancho lá que era uma amizade, tinha uma cinta na parede e cada ave que era roubada a gente colocava um furinho naquela cinta. Aquela cinta já estava comprida, quase toda ela tomada de tanta galinha roubada da vizinhança. Passo do Vigário, que é o nome da localidade da escola. São fatos pitorescos. Outro fato curioso, em casa sempre tinha alimentação a qualquer hora do dia e lá não, lá tinha que respeitar os horários e a comida era feita para 400 alunos. Eram aquelas autoclaves. Imagina aquelas comidas como vinham. Tem momentos que servia até de recreação, o pessoal da cozinha se perdeu uma vez lá e botou água demais no arroz e pôs farinha junto no arroz e ficou uma paçoca. Fomos pro refeitório, botamos tudo lá no meio. Batia panela. Tinha umas velas... Sabe essas coisas de piazada. Realmente eu vejo como a escola, no meu caso, ela serviu para o meu crescimento profissional e educacional. Mas também serviu pro meu crescimento pessoal de interação, de integração. E eu acredito que isso aí foi a base da gente poder ter hoje um melhor meio de comunicação. Onde a gente passa, a gente sempre consegue interagir melhor no meio onde está. Talvez, foi baseado nesse processo. Também, tinham as aulas práticas, a gente ia pro interior colher enxames de abelha pra fazer novas colméias. Você passava o dia num piquenique, isso sempre foram recreações. Às vezes ia na horta, roubava uma cenourinha; roubava um aipim; fritava de noite, no rancho. Eram essas coisas assim, de piazada mesmo, nada com maldade, mas não era aquele certinho, ritual. Foi interessante.

 

P/2 – No internato vocês visitavam ______ cidade? Que espaço vocês freqüentavam?

 

R – Viamão, na verdade, é um município bastante extenso e Passo do Vigário, é uma localidade, é um distrito, dava oito quilômetros distantes de Viamão em direção a Palmares. A escola ficava em uma vila, Vila Passo do Vigário, ela não ficava diretamente dentro do município. Às vezes a gente vinha de fim de semana, pra reunião dançante, pras boates. Eles brigavam com o pessoal da cidade, porque na cidade onde tem gente nova, gente diferente, as meninas estão sempre dando prioridade para aquelas pessoas de fora e não pros da casa. Santo de casa não faz milagre. Então dava aquelas brigas, brigávamos nós, grupo da escola, com o pessoal da cidade. A escola também tinha uma grande penetração, o Centro Desportivo de Cursos Agrotécnicos, nós tínhamos uma organização muito bem estruturada e o nosso centro era muito bem visto pela própria URDS (?), pela organização. E a gente participava bastante de torneios de integração com as demais escolas agrícolas. Uma de São Leopoldo, de Cachoeirinha, do próprio bairro agronômico de Porto Alegre. E também, fins de semana, pela escola ter tido uma boa repercussão, tinha seguidamente excursões de estudantes da Grande Porto Alegre, inclusive meninas iam pra lá pra passar o dia conosco. Tinha à tarde a nossa reunião dançante, a domingueira. Então abria o refeitório, tirava as mesas, botava um som mecânico e ficava até anoitecer, aqueles ônibus com as meninas lá e os demais iam jogar futebol. Era essa a integração que se tinha. A própria comunidade, era muito pequena, a vila, então não se interagia muito com a localidade e sim mais com as excursões que iam pra lá. E às vezes a gente ia até Viamão, mas como nós tínhamos poucos recursos financeiros, a gente não podia sair seguido. Tanto que grande parte dos fins de semana, a gente ia trabalhar no interior plantando capim pangola, capinando lavouras de milho pra ganhar um dinheirinho, pra gente ter o sustento da gente no dia-a-dia. Porque os pais da gente não tinham como mandar recursos financeiros. A gente buscava essa fonte alternativa de renda nos finais de semana, trabalhando para agricultores da região lá que eram produtores de leite, gado leiteiro, pecuaristas. E a gente ia trabalhar com eles. Eu cansei de passar, digamos, em dezembro, dia 8 de dezembro terminavam as aulas. Eu ficava até o dia 20 nas casas dessas famílias trabalhando por dia. Naquela época eram Cr$ 4,00 por dia, com cama e comida junto. Eu ia pra casa depois com um bom dinheirinho no bolso, faceiro. E chegava em casa, como eu já tinha trabalhado no jornal antes, eu já voltava a trabalhar de novo. A minha infância e a minha juventude foi toda ela alicerçada em cima de estudo e de trabalho, não tinha folga. Quando eu voltava nas férias de julho, eu ia trabalhar no jornal; quando voltava nas férias grandes, que era em dezembro; janeiro e fevereiro, ia pro jornal de novo. Mas com isso eu conseguia recurso pra fazer meu carnaval, pra comprar minhas roupas, pra gente poder formar a vida sem ficar dependendo do pai e da mãe. Desde cedo a gente procurou ter a independência financeira pra gente poder administrar melhor o nosso dia-a-dia. Acho que é gratificante esse ponto, é um crescimento e graças a isso acredito que eu tenha conseguido bons postos dentro do banco no decorrer da vida.

 

P/1 – Legal! Depois da escola técnica você foi trabalhar? Você foi pro mercado de trabalho, como foi isso? 

 

R – Quando concluí o curso técnico, eu concluí em julho de 1970 e eu tive que fazer seis meses de estágio. Aí eu fui fazer estágio junto à Secretaria de Agricultura do Estado, no Núcleo de Reforma Agrária, em Taquari, no entorno de Taquari. Nós tínhamos lá uma agrovila, 36 famílias, que eram os assentados, e nós tínhamos um centro que tinha um agrônomo, eu, mais um outro técnico, médico e um administrador. Nós tínhamos um centro de assessoramento junto a essas 36 famílias que lá moravam, cada um com seu lote, 12 hectares e outros com 24 hectares. Foram essas famílias e eu trabalhei por seis meses como estagiário e depois continuei trabalhando lá por três anos como funcionário do Estado. Como técnico agrícola, nesse Núcleo de Reforma Agrária, em Taquari. Eu voltei pra minha terra natal, trabalhando lá nesse núcleo de Reforma Agrária por três anos, como Técnico Agrícola. Naquela oportunidade surgiu um concurso, junto ao sindicato e junto à FETAG  e a Secretaria da Agricultura do Estado. Eu fiz um teste e passei pra trabalhar no Sindicato dos Trabalhadores Rurais num convênio sindicato, FETAG e Secretaria da Agricultura. Foi o momento que eu saí de Taquari, em setembro de 1973, e fui morar em Não-Me-Toque, que é perto da região de Passo Fundo. Como Técnico Agrícola do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da região. É o momento que eu casei naquela época, em setembro também, casei e fui morar lá em Não-Me-Toque. A minha esposa, na época, era professora, concluiu o curso e fez depois Língua Portuguesa. Era professora de Português lá na oportunidade. Lá que eu morei, tive dois filhos, lá da minha primeira família. Então depois, em 82, me acidentei. Perdi a esposa num acidente. Mas até 73 foi em Taquari e depois eu fui pra Não-Me-Toque fazer minha vida independente, bem longe dos familiares tanto da minha esposa como da minha própria família. Fui morar em Não-Me-Toque, que dista mais ou menos 245 quilômetros  de Taquari, em direção ao Planalto Central.

 

P/1 – Como foi trabalhar em Não-Me-Toque?

 

R – Também foi desconhecido o local, o ambiente totalmente diferente, pessoas diferentes. Foi um grande desafio. Eu fui trabalhar no sindicato como Técnico Agrícola, trabalhei em 73 e 74 junto ao sindicato e depois o sindicato extinguiu o convênio com a FETAG e saí do sindicato. Essa adaptação foi difícil, realmente é o desconhecido, os novos desafios. Tanto eu como a minha esposa, depois nós tivemos um filho também, então todos esses valores foram bastante contundentes no nosso dia-a-dia, porque as dificuldades eram bastantes. Nossos salários não eram tão grandes assim, mas superamos esse estágio. A gente formou uma amizade, a gente formou um núcleo. Moramos por 18 anos em Não-Me-Toque, então formamos uma nova família de amigos lá. Tanto que hoje tenho um filho que mora lá, casou e mora lá. E a minha menina veio pra Passo Fundo que também é distante 70 quilômetros de Não-Me-Toque. Foi assim a nossa segunda etapa depois da escola técnica.

 

P/1 – Bittencourt, como era o seu trabalho como técnico agrícola ali junto ao Sindicato, existia conflitos rurais?

 

R – Em Taquari, no núcleo agrícola, nós apenas éramos orientadores técnicos para que o pessoal cultivasse a sua lavoura de soja, de milho, as suas culturas de subsistência. Então nós, como técnicos, íamos orientá-los, acompanhá-los. Não havia conflito porque todos eles já estavam cada um com seu quinhão de terra definido. Tanto que em 1968 o Secretário da Agricultura do Estado, _________, emitiu já o título definitivo de propriedade para essas pessoas, lá porque hoje ninguém mais mora lá. Todos eles venderam e foram embora novamente, não perpetuou esse Núcleo de Reforma Agrária em Taquari. Eles só ficaram lá enquanto não tinham a posse da terra, no momento que eles tiveram a posse da terra eles efetuaram a venda e rumaram de volta pra outros locais. Talvez até pra esses acampamentos. De vez em quando ocorria uma briga lá entre os posseiros, a gente trabalhou inclusive de enfermeiro fazia curativo, dava remédio. Uma vez um cara brigando levou uma foice na mão, quase fraturou a mão. A gente deu ponto, a gente botava borra de café pra poder estancar o sangue.  Essas coisas todas, de forma não, digo, tão empírica mas no nosso dia-a-dia lá no Núcleo de Reforma Agrária. Quando eu fui embora pra Não-Me-Toque, pra trabalhar no Sindicato, também fui como orientador técnico no sentido de que o pessoal se conscientizasse. Foi a época da explosão do cultivo da soja. Cultivavam soja até dentro de casa praticamente, até a porta da cozinha então não se tinha uma horta, não se tinha uma galinha, não se tinha uma árvore frutífera, não se tinha nada, só aquilo. Isso é uma monocultura de alto risco. No momento que deu uma estiagem, deu uma _____ de safra ou que o mercado oscile como ocorreu nos últimos anos com queda de preço, o pessoal não tinha como sobreviver. Constantemente se viu o próprio agricultor indo à cooperativa comprar aipim, comprar ovos, comprar verduras sendo ele próprio agricultor. Nós, do sindicato, tínhamos essa função de tentar conscientizá-los, mobilizá-los para que cada um fizesse a sua própria horta, mantivesse o seu gado de subsistência familiar, que tivesse suas pequenas aves e pequena horta pro dia-a-dia. Essa era a nossa função dentro do sindicato. Como o ser humano é perseguido pelo dinheiro, naquela época quem plantava soja ganhava muito dinheiro. E como nunca nós éramos ouvidos, porque o pessoal queria ter resultado imediato, era money, era dinheiro e isso tudo dificultava esse trabalho.  Tanto que não surtia efeitos. A gente optou por fazer cotas coletivas nas comunidades do interior, porque Não-Me-Toque é município de 360 quilômetros quadrados, são _____ hectares e tinha em torno de 15, 16 localidades. A gente começava a trabalhar em cada localidade no centro, cercava uma parte e fazia uma horta comunitária, pra fazer com que as mulheres começassem a trabalhar e ter um refúgio, no caso de não ter recursos pra comprar. Também não evoluiu muito,

 algumas _________ Doce e São Pedro, uma localidade, foram duas que aderiram é idéia e fizemos uma horta comunitária. Mas também não foi muito extensa e depois com o tempo o sindicato deixou de atender essa parte e rompeu o contrato com a FETAG. E a gente foi demitido do sindicato, momento que eu comecei a trabalhar como autônomo, técnico agrícola fazendo projetos para o Banco do Brasil. De 74, 75 eu já trabalhava para o Banco do Brasil como terceirizado, fazendo projetos técnicos para o setor da carteira agrícola.

 

P/2 – O senhor foi demitido pelo convênio? Como foi essa transição? Como você se sentiu? Foi rápida essa chegada no Banco?

 

R – Quando a gente percebeu que já estava no prazo final desse convênio, a gente começou a ser pró-ativo. A gente começou a manter contato, porque nesse meio tempo eu fazia projetos pra uma outra empresa chamada Protec, que é um escritório de planejamento para o setor primário, então já tinha um relacionamento com agrônomos da praça. Na região do Planalto Médio, Não-Me-Toque, por exemplo, foi um local de destaque no cenário estadual. Porque em 1975, nós já tínhamos um trator pra cada 25 hectares. Nós, a comunidade. Com a chegada dos holandeses em 1950, 55. Naquela localidade, expandiu com bastante expressividade a tecnologia. Então aqueles agricultores, todos eles já tinham uma situação financeira bastante abastada, em que eles já despontavam de toda a região de Passo Fundo. Não-Me-Toque já era um celeiro, com uma agricultura de alta rentabilidade ou produtividade e cada propriedade já tinha um trator: a cada 25 hectares, na década de 70, já tinha um trator pra você cultivar esses hectares. Era fato bem chamado a toda a região que ia visitar esses holandeses, que vieram na década de 50 e trouxeram a tecnologia deles e foram implementando. Aí Não-Me-Toque cresceu, tinha uma série bastante grande de agrônomos que iam pra lá e a gente formava essa cadeia de relacionamento com os técnicos e com os agrônomos. Quando eu senti que nós íamos perder o vínculo com o sindicato, a gente já começou a trabalhar no campo paralelo que era fazer projetos técnicos. E nesse intercâmbio eu conheci outros agrônomos que faziam projetos pro Banco do Brasil e eu já me encostei ali e a gente começou a fazer projetos. Comecei a trabalhar com projetos de financiamentos agrícolas pra compra de máquinas e equipamentos e correção do solo, financiados via Banco do Brasil na década de 70, no período de 74 a 75. Em 75 eu fiz o concurso pro Banco do Brasil, tive a possibilidade de passar e fui chamado pelo Banco em 10 de novembro de 1975. Então foi um período bastante interessante desde o tempo que eu saí de Taquari, fui pra escola técnica. Voltei pra Taquari pra trabalhar no Núcleo de Reforma Agrária. Fui pra Não-Me-Toque, trabalhei no Sindicato e depois trabalhei como autônomo. Tudo isso eu digo que foi crescimento. Depois eu entrei no Banco, em novembro de 75, e logo em seguida já fui aproveitado na carteira agrícola, porque eu tinha um conhecimento. Não era um grande conhecimento, mas tinha conhecimento da atividade: setor privado, cultivo de milho, de soja, de linhaça, cevada, de ___, enfim, tudo isso aí a gente trabalhava e o Banco financiava bastante essa área.

 

P/1 – E você foi trabalhar em Não-Me-Toque?

 

R – Eu assumi 10 de novembro de 1975, em Carazinho, que dista 25 quilômetros de Não-Me-Toque. Carazinho é um centro maior. Eu tinha prestado concurso lá em Carazinho e fui chamado em Carazinho. Trabalhei um ano. Quando fechou um ano, dia 10 de novembro de 76, eu fui transferido pra Não-Me-Toque, aí eu voltei pra Não-Me-Toque pra trabalhar lá. Nesse período de um ano eu fiz a ida e a volta diariamente de carro. Como tinha mais duas colegas que moravam em Não-Me-Toque e também trabalhavam em Carazinho, então nós formávamos um grupo e uma semana um ia com o carro, na outra semana outro ia também. Então nós fizemos um trabalho de intercâmbio entre os três que reduzia custos. A gente começava a trabalhar uma hora da tarde e ia até às seis e meia, era um turno só.

 

P/1 – Bittencourt, qual era a imagem que se tinha do Banco do Brasil na época? Trabalhar no Banco do Brasil.

 

R – Naquela oportunidade ainda o Banco mantinha dentro do cenário da sociedade, como se fosse uma instituição de elite. Quem estivesse lá, no Banco do Brasil, não precisava mais se preocupar em trabalhar. Nem em trabalhar, estava no Banco do Brasil. Estava com estabilidade, altos salários, com status... Porque geralmente nas pequenas comunidades onde tinha Banco do Brasil, as melhores casas eram dos funcionários do Banco do Brasil. Era o prefeito, o padre, depois o gerente do Banco do Brasil, às vezes tinha delegado, delegado também. Então tinha esse status naquela época ainda. Sempre diziam os pais que se tivessem uma filha casada com um Banco do Brasil, ou com a Petrobrás, ou com o Exército, estariam tranqüilos, a filha estaria muito bem encaminhada para o fim da vida. Hoje não é mais esse cenário. Nós estamos com a Petrobrás hoje, depois de privatizada que deu esse estrondoso resultado ano passado, de 20 e tanto bilhões. O Exército nós sabemos como está. E o Banco do Brasil todo mundo sabe, uma maravilha. Mas é bom de trabalhar, é uma instituição séria, uma instituição muito boa, se eu tivesse que voltar, voltaria novamente a trabalhar no Banco. Evidente que os tempos são outros, as normas são outras, as regras de mercado são outras. Em termos de competitividade o Banco teve que se moldar senão ele perderia o espaço. Naquela oportunidade, quem passava no Banco do Brasil estava realizado, então na comunidade que a gente morava: “O Bittencourt está tranqüilo, está no Banco do Brasil”. Era visto assim.

 

P/2 – Com quantos anos você veio pro Banco do Brasil e pra você o que significou o primeiro salário do Banco?

 

R – Como fiz o concurso em abril de 1975, agosto veio o resultado, era pra assumir imediato. Eu ainda consegui postergar até novembro, porque eu já trabalhava como técnico. E trabalhando como técnico ganhava quilometragem e ganhávamos um percentual: 0,13% em cima do valor do projeto que você fazia. Isso dava um rendimento! Nesses dois anos que eu morei lá como autônomo, eu ganhei, pra você ter uma idéia, em 1975, eu fechei o ano com cinco mil e poucos cruzeiros. Quando entrei no Banco do Brasil entrei ganhando dois mil e poucos cruzeiros. Então eu tive uma oportunidade, naquele ano de 1975, fazer um trabalho fora em que eu tive um rendimento superior. Mas a gente sabia que isso era sazonal. Aquele momento era oportuno, aquele era o momento da agricultura, estava em expansão. ________, Delfim Neto dando todos aqueles exemplos, então a agricultura, na década de 70, foi uma ascendência forte. Então todos os segmentos que estavam em volta do setor primário ganhavam dinheiro, mas isso era temporário. Quando fui pro Banco do Brasil, eu fiquei super contente porque sabia que ia ter uma estabilidade. Sabia que trabalhar numa instituição de nome, enfim Banco do Brasil, dá pra encher a boca: Banco do Brasil! E eu estava com 25 anos naquela época, fechei 25 anos. Eu entrei com 24 anos, pra 25. Eu estou com 31 anos de banco agora, estou com 55, 24 anos eu tinha na oportunidade de entrar no Banco do Brasil. Diria assim: deixei de trabalhar como técnico autônomo, passei a trabalhar no Banco do Brasil. Mas dada a relação que eu tinha com os amigos lá, eu continuei fazendo projetos técnicos em vistoria de lavoura até metade do próximo ano de 76 para o Bamerindus, para o Bradesco, para o Banrisul. Através do escritório de planejamento, que tinha na cidade de Não-Me-Toque. Eu já trabalhava com eles antes, então entrei no Banco. E aos finais de semana, eu ia fazer vistoria de lavoura até _________ ia planejando _____. Ganhava mais um paralelo. Aí, depois da metade do ano seguinte, eu não consegui mais porque ficou muito desgastante. Eu não tinha mais vida em casa. Eu trabalhava fora, de noite batia laudo e de tarde ia pro Banco, final de semana ia pra lavoura. Aí, a gente voltou só a ficar no Banco. Diria assim: o momento que eu passei no Banco, me senti realizado, porque eu sabia que dependia só de mim a minha sobrevivência futura. O meu lastro de patrimônio futuro dependia só de mim. Eu acho que o patrimônio hoje, é a educação dos filhos depois o material. Então tive um período, logo que eu fui pra Não-Me-Toque, de dificuldades financeiras porque o sindicato pagava na época Cr$ 400,00. E eu pagava cento e poucos cruzeiros de aluguel, eu, esposa, mais um filho, a gente tinha dificuldades financeiras. Sempre digo, toda crise é sempre um aprendizado. À a gente tira o S e cria alternativas; a gente sempre foi buscando alternativas através do trabalho evidentemente. Dedicando sempre tempo integral ao trabalho e a gente conseguiu superar. E graças a Deus, hoje estamos aqui.

 

P/1 – Logo que você ingressou no Banco, você foi trabalhar na carteira agrícola? O que você fazia?

 

R – Logo no início, eu comecei a trabalhar em Carazinho. Como eu já conhecia toda aquela região de Carazinho, da Grande Não-Me-Toque. Vamos dizer assim, porque eu fazia projetos, fazia vistoria de lavoura, eu fui trabalhar na carteira agrícola no setor de propostas. Antigamente o Banco do Brasil tinha _____ que nós chamávamos, geralmente o banco tinha dois pavimentos. O de cima sempre era carteira agrícola, carteira de crédito, que era crédito geral e mais o cadastro. Tinha um balcão grande, os funcionários ficavam lá dentro e os agricultores, os clientes, fora daquele balcão que separava. A gente chamava por ordem do dia, entregava fichinha e fazia coleta pra fazer a proposta para custeio de lavoura, para custeio agropecuário, para investimentos agrícolas, para ________ de sol... Tudo que se tinha afim agrícola, a gente trabalhava com a coleta de proposta. Eu fazia a coleta de proposta e encaminhava pro setor de estudos depois. Tinha um fluxograma de atividades: escolher a proposta, passar pro setor de cadastro, pra fazer a avaliação do cliente. Se realmente o cliente não tivesse restrições, aí voltava para o setor de estudos e depois para o setor de contratação. É toda segmentada a carteira agrícola. Eu comecei trabalhando na coleta de proposta, depois passei pra época de expedição de contrato. O que era expedição de contrato? Era chamar o cliente; pegar assinatura; mandar fazer o registro; verificar se toda a documentação estava em dia. Operação concluída, contratada, passar pro setor de liberações que era a contabilidade. Eu passei grande parte do meu tempo no setor rural, inclusive quando fui pra Não-Me-Toque. Continuei na carteira agrícola, passei a ser assistente de supervisão da carteira agrícola. Passei a supervisor da carteira agrícola, porque eu conhecia o conteúdo, os termos utilizados, porque era técnico agrícola. Depois eu fiz uma faculdade em Passo Fundo, que eu falei antes, de licenciatura curta. Que é extensão. É Tecnólogo em Administração Rural, que estava voltada pra propriedade agrícola.

 

P/2 – Quanto foi a duração do curso superior?

 

R – Foi de três anos, foi de 78 até 80. Eu fazia em Passo Fundo, à noite.

 

P/2 – Você ia todo dia pra Passo Fundo estudar?

 

R – É, são 70 quilômetros de distância. Eu já estava morando em Não-Me-Toque. Eu trabalhava oito horas por dia, começava oito e meia, saía às 11. Voltava a uma e saía direto do Banco, pegava o ônibus e ia pra Passo Fundo. E sábado tinha aula prática, na Faculdade de Agronomia em Passo Fundo. Então toda a semana tinha aula à noite e sábado passava o dia na aula prática, só tinha o domingo livre. Foram três anos assim. Como naquela época eu já era investigador de cadastro, como já estava como assistente de supervisão, já tinha uma remuneração um pouco melhor. Talvez, até compensasse em casa com uma qualidade de vida melhor, depois. Eu fazia um churrasquinho no domingo. Saía nas férias, levava a família pra praia, para Tramandaí; depois pra Imbé; depois pra ____ Ventos e assim a gente fez essa vida. Porque, a gente tinha um recurso financeiro que poderia, talvez, nos dar um pouco mais de alento, nas nossas faltas da semana. Mas foi interessante, porque foram anos bastante batalhados pra gente buscar um espaço no mercado. Cada dia que passa as dificuldades são maiores, a concorrência é maior. Naquela época também já era assim, talvez não com tanta ênfase como tem hoje, mas a gente tinha que batalhar.

 

P/1 – O Banco do Brasil, na época, oferecia cursos? Dava oportunidades? No momento que você estava assistindo aula à noite, fazendo faculdade, existia uma compreensão na sua agência ou existia uma política de incentivo?

 

R – O nosso gerente que estava lá, ele dava oportunidade. O primeiro gerente que inaugurou a agência de Não-Me-Toque, ele tinha um foco voltado especificamente voltado pro Banco do Brasil. Era Banco do Brasil, família e depois os outros cursos. Ele não admitia que se fizesse faculdade, quem estava no Banco do Brasil não tinha mais porquê estudar. Olha a mentalidade em 76, depois que ele assumiu a gerência lá. Tinha que valorizar os médicos da cidade, tinha que conviver com a cidade e não tinha porquê estudar mais, porque você já estava no Banco do Brasil. O importante era executar as tarefas do Banco do Brasil. Nós éramos quase que robotizados, porque o Banco tinha já até os formulários prontos pra você trabalhar. Hoje o banco mudou bastante, hoje tem sua criatividade. Mas eu cansei de ter o modelinho pronto na gaveta: “Ah, esse processo tal”. Já puxava lá, batia o modelinho, o memorando já pré-estabelecido, pré-formatado, só preencher os dados e mandar embora. Mais ou menos era assim, seguia aquele tom. Ele não queria que se estudasse, tanto que eu fui começar a estudar depois de 79. Ele já mudou um pouco os conceitos e a gente conseguiu administrar de não fazer cursos internos do Banco nesse período. Quando ia, a gente perdia aula. Então não dava pra fazer. Eu consegui contornar esse momento e fiz a minha faculdade trabalhando na agência, no Banco, sem fazer cursos que o Banco oferecia. Depois eu fiz vários cursos. Se você olhar a minha ficha hoje lá, não é uma ficha policial. Mas é uma ficha de cursos, tem bastante curso lá, realmente foram vários. Em Florianópolis fiz o DSG que é Desenvolvimento de Sistema Gerencial, fiquei 15 dias lá em Florianópolis. Era uma maravilha porque os outros cursos eram em Porto Alegre, Bento Gonçalves, Passo Fundo. Os cursos a gente entendia como uma premiação, porque fazer o curso, na oportunidade, era sair daquele habitat do dia-a-dia. Era sair daquele cenário, que às vezes você tinha que estar trabalhando de cabeça baixa: “Vamos executar a tarefa, vamos atender o cliente...”. Essa pressão. Então fazer o curso fora passava a ser um tipo de prêmio pra gente dar uma aliviada na cabeça: “Vou fazer um curso, vou ver coisas diferentes, vou fazer uma imersão diferente dessa do dia-a-dia aqui”. Interessantes, os cursos, o Banco sempre primou, e hoje ainda mais, ele incentiva bastante os cursos. Hoje o Banco deu um giro de 180 graus dentro do processo. Hoje quem não se aperfeiçoar, quem não se especializa perde espaço. Não só os cursos do próprio Banco, ele tem que buscar ele mesmo o auto-desenvolvimento. Isso é fundamental, senão você vai perder o espaço.

 

P/1 – Depois que você trabalhou na carteira agrícola, você alcançou outras posições no Banco? Você mudou de área?  Como foi depois?

 

R – Como falei anteriormente, trabalhei grande parte do tempo em Não-Me-Toque, na carteira agrícola pela afinidade que eu tinha com o segmento, mas dentro do Banco você tem vários escalões que com certeza o tempo vai passando e o objetivo da gente é o crescimento também. Eu passei pro setor de cadastro, depois passei pro setor de retaguarda, que é onde trabalham os caixas, e no atendimento. E trabalhei até como gerente adjunto, na oportunidade fui supervisor. Fui gerente adjunto e subgerente. Então todo o período que eu trabalhei em Não-Me-Toque, eu cheguei até a gerência, trabalhando como substituto no caso. De 92 a 94, a estrutura da agência era gerente; depois gerente adjunto; depois tinham os GerEx, gerentes de expediente, e as assistências. Então cheguei na gerência média e substituí o gerente adjunto. E quando foi extinta a figura do gerente adjunto eu substituí o gerente também. Fiquei até 94, no final de 94 houve uma redução na época que chamava-se o novo rosto. O Banco passou por uma série de reestruturação que reduziu o quadro, que enxugou funcionários, que redimensionou os segmentos, os setores. As agências enxugaram, foram feitos dois ambientes suportes que eram só pra atendimento interno, só atendimento que era o PPMA, Programa Permanente para Melhoria do Atendimento, que só atendia público. Houve uma série de mudanças no Banco justamente para se adaptar ao mercado. À evolução do mercado. Aí, houve uma redução de gerência média. E eu perdi a gerência média por ser o mais antigo da agência. Foi feito uma enquête interna e eu fui o preterido, os outros dois permaneceram e eu fui preterido. Nesse momento, como eu sempre tive um bom relacionamento com a superintendência. E a gente sempre participava das reuniões. Eu fui até a super e consegui pegar uma nomeação como gerente em Água Santa, foi a primeira agência. Dado o trabalho de intercâmbio, de relacionamento com os demais segmentos da superintendência, né?

 

P/2 – Que ano foi?

 

R – Isso foi em 94, que eu assumi. Eu assumi em 1º de maio de 94, em Água Santa.

 

P/2 – Foi a primeira vez que você pegou cargo de gerente?

 

R – Foi a primeira vez que eu peguei cargo de gerência efetivo, antes eu substituia lá em Não-Me-Toque quando o gerente estava fora, em férias ou quando estava afastado.

 

P/2 - _____________________ até?

 

R – Se eu comecei a trabalhar lá. Assumi em Carazinho em 75, vim pra Não-Me-Toque em 76 e saí em 94, então fiquei 18 anos em Não-Me-Toque. Realmente foi muito tempo. Dentro da vida profissional hoje do Banco, a gente jamais permite permanecer todo esse tempo numa agência só porque você perde, perde tempo. Se você quer crescer no Banco hoje, ter ascensão profissional, você tem que ser despojado do local onde reside e viajar. Passar por outros lugares. Eu saí de lá em maio de 94, fui trabalhar em Água Santa. Eu trabalhei um ano e 11 meses em Água Santa, aí em abril de 96 eu fui nomeado pra Nova Roma do Sul. Onde nós temos o “homem do campo”. Desse tempo que eu trabalhei lá em Não-Me-Toque eu trabalhei em todos os setores dentro do Banco. Todos os setores. Até de caixa eu trabalhei numa oportunidade. Como a retaguarda é assistente de supervisão de caixa, como supervisor do caixa, como tesoureiro também. Todas as áreas de uma instituição bancária eu trabalhei em todas elas, desde a rural até a gerência. Eu saí com uma bagagem, uma visão holística de uma agência bancária, passei por todos os setores da agência, isso só somou.

 

P/1 – Na época em que você trabalhou em Não-Me-Toque, você chegou a ouvir falar de algum projeto da Fundação, ou até do Fundec [Fundo de Desenvolvimento Comunitário], do Sipec [Sistema Pessoal Civil da Administração Federal], desses fundos que depois ______ a Fundação?

 

R – Não. O que nós trabalhávamos bastante, porque eu fui Presidente da BB, e depois estava no Conselho.  A Agência do interior tem essa coisa de bom, que é (?) todo colega de fora e se une bastante, forma uma família. A BB passa a ser o grande elo da família e eu fui Presidente duas ou três vezes. Participei do Conselho de Administração, então nós trabalhávamos muito com a (FENAV) [Faculdade de Engenharia Naval] ?. A gente tinha um elo com a FENAV, a gente participou de várias reuniões em Erechim, em Passo Fundo. Mas da Fundação Banco do Brasil e do Fundec eu não tinha esse conhecimento.

 

P/1 – Tinha uma BB lá em Não-Me-Toque?

 

R – Tinha, tem até hoje. Está em situação delicada que eu sei, mas até hoje está existindo.

 

P/1 – Como foi essa história do “homem do campo”? Até então você não tinha ouvido falar da Fundação?

 

R – Talvez possa até dentro do dia-a-dia ter lido alguma coisa, mas não que tenha chamado tanto a atenção pra gravar essa sigla. Quando fui pra Nova Roma, aí que surgiu: a Nova Roma é pioneira em modelo no Fundec, Fundo de Desenvolvimento Comunitário. Foi implantado lá em 1985, 1986, nesse período que foi implantado, pioneiro realmente e o modelo. Quando eu fui pra Nova Roma, aí que eu fui me inteirar realmente bem amiúde o que era Fundação Banco do Brasil. Qual era o programa que tinha acontecido lá e qual era a repercussão que isso tinha dentro da comunidade e o que tirar de proveito. “Vamos ver o lado profissional que a gente podia negociar junto à comunidade, à prefeitura através do Fundec pra _______.” A gente começou a ter um conhecimento mais profundo e diria, sem medo de errar, que Nova Roma, vinha passando por uma situação dificílima. Em 85 fechou um frigorífico que tinha lá, um tal de Beethoven. E mais uma cooperativa, Guararapes, e isso deu um índice de desemprego bastante forte no município e desestruturou o setor primário do município. Porque todos eles comercializavam seus produtos e entregavam nesse frigorífico e entregavam nessa cooperativa, e esses dois segmentos romperam diante das dificuldades econômicas do país, do cenário econômico. A própria má gestão administrativa, que não se adequou aos novos tempos da economia acabou falindo. Então o Fundec, veio muito bem a calhar às necessidades que Nova Roma estava passando. Houve um desordenamento do setor primário, porque não tinha mais pra quem vender. Através do Fundec foram criadas associações lá e essas associações começaram a ter mais força. Foram comprados equipamentos mais pesados como retroescavadeira; tratores; trator de esteira, pra poder fazer subsolagem melhorar a infra-estrutura do solo das pequenas propriedades e buscar uma diversificação de atividades. Porque até então era mais produção de leite, porque a cooperativa pegava o leite. Produção de trigo que a própria cooperativa comercializava e produção de suínos que o frigorífico pegava. Tanto que o gado, a maior parte do gado vinha de Vacaria, outras regiões para esse frigorífico. O pessoal se valia muito desses dois segmentos, pra sobrevivência deles. No momento que fechou aquilo lá, é a mesma coisa que ter uma colméia que você tirou a abelha rainha, toda a colméia se perde e lá também foi muito parecido, assim. O Fundec, trouxe, digamos, para o município um novo ânimo, uma nova era pra eles, com novos objetivos. Onde começou a entrar o hortifrutigranjeiro, seria uma fonte alternativa de renda e com essa melhoria de qualidade das propriedades. Já com o ingresso de maior tecnologia de correção do solo, de adubação, de manutenção e de tratos culturais. Através das próprias maquinarias que foram colocadas, isso fez com que desse uma rentabilidade maior, uma produtividade melhor e, por conseqüência, um resultado financeiro melhor pra eles. Tanto que hoje, na época que nós abrimos, 70% de toda a comunidade ganhava mais que três salários mínimos. Eu me lembro que eu trabalhava na agência lá, Nova Roma do Sul tinha um valor consubstancial no depósito da poupança. Porque o italiano ali, a etnia predominante era a italiana, tinham alguns russos, alguns polacos e suecos, mas eram pequenas famílias. O que predominava era o italiano que, por natureza, é bastante econômico. Tudo que ele vendia ele pegava e botava no banco como poupança. E a agência de Nova Roma sempre teve destaque, porque tinha essa captação boa e também, em contrapartida, o próprio Fundec conseguiu financiar mais operações de custeio dos próprios investimentos de infra-estrutura, como currais;  cercas; porteira pro pessoal; compra de animais. Tudo isso porque havia toda uma união entre eles, através da organização. Isso, não digo perpetuou porque hoje está bem menos a intensidade do Fundec. Mas ainda existem tratores lá, hoje dentro desse programa do Fundec. Então a Associação tem o seu presidente, tem o seu tesoureiro, tem o secretário, tem uma secretária atendente, que faz sempre a escala dos serviços a serem realizados nas propriedades, todos os sócios Então a atividade ainda continua, talvez não com o mesmo enfoque, mas ainda tem o seu efeito lá, na casa do agricultor. Depois, por coincidência, entrou o Homem do Campo, que é o novo programa em que o Banco do Brasil, através da Fundação Banco do Brasil, vem desenvolvendo com grande peculiaridade. Porque as empresas hoje têm que estar focadas na responsabilidade social e ambiental, e o Banco do Brasil já vem fazendo isso há anos. Só que não dando essa ênfase, esse enfoque do social e do ambiental. Mas o Banco já vem através da Fundação Banco do Brasil, já tem seus 20 anos, foi em 1985 que começou a Fundação Banco do Brasil através desses programas. Foi quando foi implantado, em Nova Roma. O Homem do Campo lá, foram atendidos três municípios no Rio Grande do Sul: Nova Roma do Sul, que foi contemplada, Canguçu e Frederico _____. Esses três municípios que foram contemplados, com o Programa Homem do Campo. Eu estava quando aportou lá o Silvio, Silvio Sanduba, e a Maria Helena. Por que Silvio Sanduba? Porque vivia comendo só sanduíche, ele só comia sanduíche. Eles aportaram lá, eu não me lembro se isso foi abril ou maio, não tenho lembrança da data, aí apareceu o casal de Brasília pra poder fazer o trabalho.

 

P/1 – E como foi isso, Bittencourt? Eles chegaram lá pra fazer uma avaliação de qual era a necessidade da comunidade, pra implementar o Homem do Campo? Como foi? O que significou o Homem do Campo ali?

 

R – Como nós, eu na função de gerente, dava grande ênfase ao Fundec e buscava uma relação bastante estreita com a prefeitura, valendo-se desse ferramental que nós tínhamos que era o Fundec. Quando surgiu a oportunidade, de que Nova Roma seria também contemplada com o Homem do Campo, a gente foi até a prefeitura e deu destaque: “O Banco do Brasil, novamente, escolheu Nova Roma para aplicar esse programa tendo em vista o grande êxito obtido com o Fundec”. A gente fez um trabalho voltado naquela base do Fundec e que Nova Roma tinha sido escolhida. A gente conversou com o prefeito, para ver quais seriam as áreas a serem atendidas e eles compareceram lá, o Silvio e a Maria Helena. E eles levaram mais ou menos as linhas dorsais do que era o Programa Homem do Campo, quais eram os pilares que deveriam ser atendidos e foi elaborado conjuntamente com as Secretarias do Município, com a administração do Município, aqueles pontos que eles entendiam ser de melhor resultado o Homem do Campo. Foi trabalhada saúde, educação, agricultura e área social, que era o centro de idosos. Então foram quatro pilares atacados lá e, dentre esses, a reciclagem do lixo. Até hoje, foi feita na região e é modelo. Tanto que as escolas da região, da micro-região, foram lá para conhecer o projeto feito em 1998 - 97, 98 ali,  mas eu acho que a implantação da reciclagem de lixo já tinha saído de lá. Foi em 98, 99 que eles concluíram o processo. Nova Roma teve um destaque, tem sido até hoje como um exemplo. As próprias escolas levam os seus alunos pra mostrar como devem ser reaproveitados os restos que se têm na nossa casa, orgânicos e inorgânicos, e como devem ser processados e o reaproveitamento. Tive a oportunidade de falar com o prefeito da época,  que agora é vereador. Essa semana, casualmente, nos encontramos numa pescaria. E ele estava colocando que tem sido um grande feito a reciclagem do lixo e o centro do idoso. Que foi construído justamente pra resgatar essas pessoas de idade que até então, no nosso dia-a-dia, são deixadas de lado às vezes. Esse Centro de Idoso fez com que o pessoal tivesse um ponto de referência e resgatar essas pessoas de maior idade pra ______ experiência deles. E o ponto de convergência, pra eles terem as realizações, as confraternizações deles. Então tem sido um grande feito esse Centro de Idoso, lá em Nova Roma. Evidente que teve outros programas, como o raio-X, que foi comprado pra saúde também. Tem tido sua valia, com certeza. Foi feita uma câmara fria para armazenamento por até 60 dias de peixe, frutas, hortifrutigranjeiros para o município. A própria cooperativa lá fez essa câmara fria com os recursos do Homem do Campo. Foram vários os projetos em que a Fundação entrou com em torno de 64% e os outros 36% foram a contrapartida da prefeitura, para a execução desses programas. Isso também elevou bastante o nome do Banco do Brasil dentro da comunidade. Foi um refortalecimento porque o tempo, embora você tenha os registros, o tempo passado enfraquece esses elos. Embora o Fundec, a gente falasse do Fundec, mas já era um pouco esquecido. Já era passado, então esse Homem do Campo veio a refrescar a memória da nossa população nova romense, que o Banco do Brasil também estava inserido no contexto.

 

P/2 – Como funciona o seu papel de gerente nesse processo? A Fundação Banco do Brasil tem na agência o seu contato com a população local e você, na postura de gerente, qual o seu papel nesse programa?

 

R – Um dos principais agentes dentro de uma agência, agente de desenvolvimento, agente de comunicação, é o gerente. Se o gerente hoje dentro de uma agência, não se preocupar em interagir se integrando com a comunidade, eu acho que perde o papel dele. E a Fundação Banco do Brasil com certeza vai ter que se valer sempre desse gerente lá na ponta, pra que ele dê o pontapé. Para que ele faça essa ligação, para que ele dê a ênfase necessária para que os programas novamente atinjam seus objetivos. Muitas vezes no contexto do dia-a-dia os demais funcionários estão com muitas atribulações das tarefas, das metas, em atingir as vendas dos produtos. Enfim, o Banco hoje trabalha com dois focos bem distintos: ele tem a área social, que nós temos que fazer a ponte, e tem a área negocial que tem que dar resultado. As agências têm que ter o VPM, que é o valor de produtividade média por funcionário dentro dos patamares estabelecidos pela diretoria, senão você está sendo cobrado. O Banco não pode deixar de lado, mas tem a área __________ social, que é a responsabilidade social, ambiental das empresas dentro da sociedade como um todo. Eu vejo que o gerente é a mola propulsora do sucesso ou insucesso desses programas. Eu vejo isso, na minha concepção, eu vejo que ele é o responsável direto para que esse programa possa ter êxito.  Diria, aproveitando esse ferramental pra estreitar mais a relação negocial com a comunidade ou, principalmente, com o ente público, que seria o Executivo e o Legislativo. Eu vejo nesse enfoque. E assim a gente teve a oportunidade de fazer um bom relacionamento com a prefeitura na época. Tanto que a minha esposa, como ela era funcionária do Ministério da Educação, ela foi cedida para a Prefeitura de Nova Roma do Sul. Ela trabalhava no setor administrativo do gabinete do prefeito. Então a gente tinha um bom contato, bom trânsito e isso veio a fortalecer mais o trabalho da agência dentro da comunidade de Nova Roma. Fechando um pouco o mercado pra que os demais concorrentes não entrassem. Porque eu digo assim: “Se o outro está entrando é porque estou dando espaço pra ele”, eu penso assim. Eu tenho que fechar todas as lacunas para que não deixe o concorrente assumir, botar as asinhas dele lá. É assim que a gente pensa.

 

P/1 – Bittencourt, você continua gerente na agência?

 

R – Não, eu estou exatamente num hiato! Eu trabalhei até 8 de setembro e entreguei minha carta de aposentadoria. Então já estou aposentado mas não ainda oficializado pela Previ, estou num interstício de bancário e de aposentado. Momento engraçado agora, né? Eu estou saindo do banco, aposentado agora, vou morar em Florianópolis ________, e  estou aguardando a definição da Previ. Mas eu já tenho tempo tanto de INSS como de Banco e idade mínima necessária, todos os pré-requisitos já estão preenchidos. Mandei toda a documentação pra Brasília e já estou afastado do Banco desde o dia 8 de setembro. Sinto saudades da equipe, da turma, mas aquela pressão, aquele desespero das metas estou deixando meio de lado agora. Trabalhei até agora como gerente, são 12, de 94 a 2006 foram 12 anos na gerência. Trabalhei em Água Santa, Nova Roma, Salvador e Triunfo, quatro agências eu peguei com a função de gerente.

 

P/1 – Então, você não terminou como gerente da agência de Nova Roma do Sul? Você trabalhou em outras cidades depois?

 

R – Trabalhei. Vou fazer um rápido itinerário da minha vida: eu assumi em maio de 94 em Água Santa, que é um município próximo. 54 quilômetros de Passo Fundo, também super pequeno, tinha 1800 habitantes, tipicamente agrícola, italianos. Trabalhei lá até 96, em abril de 96 eu fui pra Nova Roma do Sul, trabalhando de maio de 96 a agosto de 98, eu trabalhei em Nova Roma do Sul. A partir de agosto de 98, eu fui pra Salvador do Sul, que é um município próximo de Carlos Barbosa. Vocês já ouviram falar em Carlos Barbosa? É um município bastante próspero ali, também de italianos, próximo de Caxias do Sul. Trabalhei de 24 de agosto de 98 até 12 de agosto de 2002 em Salvador do Sul. Em 12 de agosto de 2002, faltavam 12 dias pra completar quatro anos, eu fui trabalhar em Triunfo. Sempre na função de gerente. Em agosto agora, fechei quatro anos na função de gerente em Triunfo, aí início de setembro, metade de setembro, eu entrei com a carta de aposentadoria e saí na função de gerente de lá, aposentado.

 

P/2 – Qual o significado dessas ações da Fundação Banco do Brasil pra Nova Roma do Sul? Como você vê? O que representa a ação direta, a visita do pessoal da Fundação lá, como você vê o reflexo disso na comunidade?

 

R – Eu vejo positivamente. Porque a gente, percebia junto aos contatos que se tinha no interior com os agricultores que a gente visitava, nas festas de igreja no interior, sempre enaltecendo a figura do Banco do Brasil pelos programas até então realizados, o Fundec e naquela oportunidade o Homem do Campo. Eu vejo, por exemplo, que o Banco focou com grande propriedade nesses segmentos e que não só Nova Roma do Sul como não só em ______, mas em outros estados. No país o Banco tem trazido ou tem levado, vamos dizer assim, é um grande feito para as comunidades, principalmente as comunidades mais carentes, em que o Banco estimula. Uma coisa muito importante que a gente tem que enaltecer, o Banco não dá o peixe, ele ensina a pescar. A gente passa a ser um parceiro, busca parcerias para que os projetos sejam realizados por essa parceria e que então haja um comprometimento da comunidade em desenvolver os projetos. Isso com certeza tem um efeito modificador muito mais benéfico para a comunidade. Amanhã ou depois. Vamos dizer assim, que o Banco, por uma razão totalmente extrínseca à sua vontade, deixa de atender esses segmentos. Eles vão ter as suas próprias condições, as suas próprias formas de se sustentar, de continuar o projeto. Lá em Nova Roma do Sul, tanto que já entrou agora a ______, está indo agora o _______ pra lá também, porque Nova Roma do Sul cresceu e com a diversificação. Com as atividades primárias que são o foco: produção de vinho, salames, gado leiteiro, hortifrutigranjeiro, tudo isso foi projeto desenvolvido com o Fundec e, talvez, até aprimorados com o Homem do Campo depois. Foram lapidados alguns projetos que foram implementados inicialmente, principalmente a parte de hortifrutigranjeiros. E através desse novo ânimo, embora os pilares atingidos não foram exatamente lá na propriedade, mas o efeito multiplicador. Isso trouxe, um grande resultado pra comunidade de Nova Roma e que até hoje tem sido, Nova Roma, um exemplo na região dos trabalhos desenvolvidos. Tanto que está saindo lá uma hidrelétrica no Rio das Antas, inclusive aumentou em quase mil pessoas. É um município de 2800 habitantes hoje, bota quase mil pessoas lá. Isso daria uma mudança brusca na comunidade, mas estão bem estruturados e inclusive acolheram essas pessoas e hoje tiram proveito financeiro, alugando imóveis e tal. Porque já vinham bem estruturados, são propriedades bem estruturadas. Praticamente todos eles têm automóvel. As propriedades, todas elas com televisão, as casas bem construídas, bem higienizadas, com bastante higiene. Um trabalho bem ordenado por eles mesmos lá, porque tiveram um crescimento bastante forte através desses programas que o Banco fez lá. Eu acho que o Banco, acho não, acredito que o Banco tem um grande papel de fundamental importância nessas comunidades. Se aqui na nossa região Sul, que talvez esteja um pouco mais desenvolvida, surgiu um grande efeito, imagina se nós pegarmos as regiões, em nível de país ,que são com uma maior carência. Os efeitos serão muito mais expressivos.

 

P/1 – Como gerente em outras agências, você teve conhecimento de outros projetos da Fundação?  

 

R – Uma das atividades que têm dado grande ênfase, é a BB Comunidade que a Fundação Banco do Brasil participa bastante. Na região, por exemplo, de Montenegro, às vezes eu visito lá, nós temos um trabalho feito junto com a BB Comunidade. E isso tem dado um ganho em escala, porque traz esses menores que, às vezes, estão ociosos na rua, pra ter um momento de comprometimento, de responsabilidade, de organização, de senso crítico, de busca da cidadania através desses projetos, desses convênios junto com as prefeituras. Eu vejo com grande ânimo também esse programa aí. E o próprio Memória hoje está resgatando grandes figuras nacionais, que muitas vezes ficam esquecidas no tempo e que isso também, dentro da cultura do nosso país, do resgate dessas culturas, tenho certeza que o próprio Ministério da Ciência e da Cultura têm dado grande ênfase nesse trabalho que o Banco faz, no resgate dessas memórias desses personagens. Eu diria assim, a Fundação Banco do Brasil tem que perpetuar como um braço do Banco do Brasil, naquele campo da responsabilidade social, cultural, ambiental e no resgate da cidadania das nossas comunidades mais carentes. Levando pra eles uma qualidade de vida melhor que tanto almejamos, ter um país mais homogêneo. Não sei se vão conseguir, acho que não, mas pelo menos vamos perseguir esse pensamento, esse objetivo.

 

P/2 – Você poderia traduzir pra gente a Fundação Banco do Brasil em poucas palavras, nesse contexto?

 

R – Nesse contexto aí? Olha, pra nós, assim como funcionários do Banco, às vezes lá na ponta a gente não tem o conhecimento mais detalhado, mais profundo do que é a Fundação Banco do Brasil. Então chega lá: “Mais um programa pra nós fazermos aqui!”. É  o que falamos antes, mais uma coisa pra fazermos aqui e eu tenho minha atividades negociais. Mas no momento que você analisar dentro de um contexto, eu vejo que a Fundação Banco do Brasil tem sido um grande elo em que, o Banco do Brasil possa hoje exercer a sua função de empresa, de instituição empresarial e ao mesmo tempo exercer a sua função de instituição dentro da sociedade. Digamos assim, de estimular, de incentivar a busca da cidadania através da Fundação Banco do Brasil. Eu vejo a Fundação Banco do Brasil como um ramo dentro do próprio Banco, um ferramental do Banco pra que ele possa exercer essa função não negocial na comunidade. Mas exatamente nessa busca da melhor inserção na sociedade, a empresa dentro do contexto social, porque nós temos às vezes um efeito muito pejorativo: “Banco do Brasil deu um lucro de três bilhões”. Veja só: tirando nosso ______comunidade, o banco privado também está tendo lucro de tanto. Então a gente pode canalizar uma informação de que a Fundação Banco do Brasil está devolvendo, através do resultado desse lucro obtido, ações em benefício daquela comunidade, ações em benefício da sociedade ou daqueles  segmentos que estão mais carentes. Eu diria que a Fundação Banco do Brasil seria, na minha concepção, uma válvula em que nós colocaríamos parte do lucro retornando a essas comunidades que às vezes criticam o resultado obtido.

 

P/1 – Só pra gente registrar, aquele caso curioso da chegada dos funcionários em Nova Roma do Sul, pra tentar implementar o Programa Homem do Campo, você pode contar pra gente?

 

R – Sim. Geralmente essas localidades menores não têm uma infra-estrutura adequada, a começar por Nova Roma, não tinha hotel. Quando eu fui pra Nova Roma fiquei morando três meses numa rodoviária, aquelas casas antigas, em que no primeiro piso era rodoviária com um bar e em cima eram aposentos para o pessoal que passava e dormia lá. Com o passar do tempo houve em cidades mais próximas, Antônio Prado; Caxias, então deixou de ter aposentos e a proprietária tinha umas, digamos, uns quartos. E quando cheguei lá não tinha casa pra morar, eu fui morar naquele prédio junto com a família – já era uma viúva – morava num quarto separado, evidente, mas morava junto quase por seis meses. Aí vi uma casa que estava sendo construída, já antecipou o recurso financeiro e concluíram a casa pra depois fazer a minha mudança. Eu levei minha mudança de Água Santa, pra Nova Roma do Sul quase seis meses depois que eu tinha ido embora pra lá. Quando a Maria Helena e o Silvio chegaram lá, a cidade muito acolhedora, lugar bem pequeno, não chega a dois mil habitantes. Aí, chegaram as duas pessoas de Brasília: “O que viemos fazer aqui em Nova Roma?”. Não tinha hotel, estava construindo um hotel. Na verdade, era um filho dessa senhora que citei antes, que tinha os aposentos anteriores, o bar e a rodoviária. Aí eu fui falar com eles: “Nós estamos trazendo pessoas de Brasília que vão implantar um programa junto ao município, o Homem do Campo, então você vai ter que abrir pra nós pra colocarmos esses dois colegas lá”. Porque não tinha lugar na cidade e a minha casa também não tinha acomodações suficientes pra colocar, até porque não eram casados, duas pessoas distintas, então tinha que botar um em cada quarto. Fui falar com ela, ela falou com o filho e eles abriram pra nós uma exceção. Já tinham os quartos pré-estabelecidos, já estavam pintados, parece que já tinham camas. Então o Silvio ficou em um quarto, só ele em um quarto, e a Maria Helena em outro quarto.  Mas só os dois que dormiram lá, não tinha mais ninguém porque não estava ainda aberto ao público, não tinha sido inaugurado.

 

P/2 – Você tinha comentado que tinha a chave do hotel?

 

R – Eles tinham chave sim. Diante daquele fato pitoresco de nós termos um restaurante, que não tinha todas as acomodações ou que a qualidade talvez não era tão esperada. Aí, a minha esposa se propôs de fazer o almoço ou a janta em casa, porque o pessoal do restaurante não tinha tempo, às vezes, de fazer um trabalho diferenciado. Então a minha esposa se propôs, falou com o prefeito e ela começou a fazer comida em casa. Aí foi quando a Maria Helena e o Silvio almoçavam em casa e jantavam lá em casa, eles ficavam com a chave do hotel. Nós negociamos um preço bem acessível e, curiosamente, os quartos eram pequenos, os banheiros também eram pequenos e um dos banheiros – acho que não foi o Silvio, talvez tenha que contar pra ele – teve um colega que veio de Porto Alegre, _______ que trabalhava na parte _________ que era o Antonio Carlos Lopes. Ele ficou hospedado nesse apartamento em que o banheiro era um vaso e junto o chuveiro, então podia fazer um banho completo: barba, cabelo e bigode! Bem pitoresco isso, saiu de lá todo emocionado do quarto: “Que espetáculo! Coisa diferente, um hotel novo com essas acomodações”. O Silvio, toda vez que ele descia pro hotel, levava a garrafinha de água mineral pra noite, porque lá não tinha nada. O hotel era só os dois que dormiam, eles tinham a chave, até no outro dia de manhã às vezes a filha dessa senhora ia fazer a limpeza dos apartamentos, mas era só os dois que  residiam. Eles ficaram 15 dias lá: eles vieram, foram, fizeram o trabalho e depois voltaram pra concluir o trabalho. Mas eles acabaram gostando, porque a gente fez um itinerário bastante extenso na região, pra eles conhecerem aqueles cânions, pra eles conhecerem as cachoeiras. Caxias, o shopping, enfim, a Zona da Serra. Tenho certeza que o Silvio – nós chamávamos ele de Sanduba porque ele só queria comer sanduíche – e a Maria Helena gostaram bastante daquela região lá.

 

P/1 – Legal! Bittencourt, eu vou fazer uma pergunta já que você está saindo agora, está se aposentando do Banco do Brasil. Como você avalia a sua trajetória no Banco e essa oportunidade de você ter acompanhado um projeto da Fundação?

 

R – Bom, no banco eu diria assim: são milhares de pessoas que almejam essa instituição. Se eu tive a possibilidade de desfrutar dela por 31 anos, é sinal de que eu fui um dos privilegiados dentro do nosso cenário brasileiro. A juventude hoje tem uma ansiedade por emprego, nosso índice de desemprego  está cada vez maior. Por ter trabalhado nessa instituição séria, transparente, com tradição, enfim, ainda que hoje o Brasil pode ter várias dificuldades. Mas o Banco do Brasil tem sido sempre um exemplo de instituição, não só no cenário interno como no cenário externo. Tanto que o Banco do Brasil, já foi inclusive avalista do Tesouro em busca de recursos externos no passado. O Banco do Brasil, datado de 1808, Dom João VI, hoje já quase 200 anos. Daqui a dois anos fecha 200 anos, é uma instituição de renome e que qualquer pessoa que for trabalhar vai se sentir gratificado. Eu tenho certeza que grande parte da nossa população gostaria de trabalhar no Banco do Brasil, então eu me sinto satisfeito e agradecido por ter tido essa oportunidade há 31 anos  atrás e pude usufruir por esse período todo. A pergunta seguinte era?

 

P/1 – Como você avalia o contato que você teve com esses projetos da Fundação?

 

R – Tenho ainda a acrescentar nesse privilégio de trabalhar no Banco do Brasil de passar na hora certa, no lugar certo, que foi exatamente Nova Roma do Sul, e ter a oportunidade de vivenciar a participar desse Programa. Como nós falamos anteriormente, de alto cunho social para a instituição Banco do Brasil e que a gente teve a felicidade de conduzir e aqui estar hoje colhendo os resultados desse trabalho. Oxalá que outros companheiros, outros colegas também tenham essa oportunidade de desfrutar desse momento e levar adiante, avante esses projetos que o Banco coloca na área social que, reforçando, ratificando, são de grande ênfase pra instituição. Eu me sinto muito gratificado de poder estar contribuindo com a minha modéstia, com a minha força de trabalho, mas também colaborando para que esses projetos tenham tido êxito. Principalmente em Nova Roma do Sul, onde eu atuei principalmente. Espero que a gente possa no futuro olhar e mostrar pros demais parentes, amigos: “Aquilo lá tem uma pequena parcela minha de contribuição, para aquele êxito que alcançaram na Nova Roma do Sul”, a 750 metros de altitude.

 

P/2 – Pra você, qual a importância de um trabalho como esse de registrar a memória da Fundação Banco do Brasil?  

 

R – Registrar a memória dos 20 anos de existência? Eu vejo, por exemplo, dentro do próprio cenário brasileiro, no passar do tempo muitas vezes os fatos e as resoluções são esquecidos e até deixados de lado. E o Banco do Brasil, volto a frisar, é uma instituição de 200 anos e eu entendo que a Fundação Banco do Brasil deverá perpetuar junto, lado a lado ao Banco do Brasil para que venha continuar fazendo esse trabalho na instituição. Resgatar os 20 anos, nada mais é do que você colocar hoje presente todos os fatos que já foram realizados, todos os eventos realizados, todos os projetos concretizados. Você  trazer para o presente aquilo que a gente já exercitou no passado, e quem sabe, com esse presente a gente poderia já então elaborar novos projetos para o futuro. De tal forma que a gente possa perpetuar no tempo, sempre trazendo para o presente tudo que a gente já fez no passado. Não deixar no esquecimento. Essa memória, nada mais é do que trazer para o presente tudo aquilo que nós já realizamos no passado e que teve grande ênfase naquele momento. E que com o tempo, às vezes cai no esquecimento. Isso realmente acho que seria um marco bastante expressivo, altamente expressivo de trazer para o presente o que se realizou como base pra gente projetar o futuro.

 

P/2 – O que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Em primeiro lugar, fiquei surpreso de ter sido convidado. Porque no momento que você está exercendo a atividade é mais um que está realizando o processo lá. Não é o Bittencourt, é mais um funcionário do Banco que está fazendo. E eu fiquei surpreso e muito gratificado por poder estar aqui agora dando o meu registro, da minha vivência e daquilo que a gente conseguiu compartilhar naquele momento, um processo de parceria entre Banco do Brasil, Fundação e a comunidade. Todo processo hoje é por parceria, então o que estou exercitando agora aqui nada mais é do que uma parceria com o Museu da Pessoa em registrar os fatos do passado. Me sinto lisonjeado pela deferência com que fui convidado, estar aqui presente. Espero que tenha alcançado o objetivo traçado no programa.

 

P/1 – Bittencourt, nós, do Museu da Pessoa, em nome da Fundação Banco do Brasil agradecemos pela sua entrevista.

 

 

Fim da entrevista       

 

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