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História

Gerar energia é gerar História

História de: Gildo Magalhães dos Santos Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/07/2016

Sinopse

Gildo Magalhães dos Santos Filho é professor livre-docente de História da Ciência na USP e é especialista em história da energia elétrica no Brasil. Fala sobre o surgimento e desenvolvimento da transmissão de energia no país e trabalha a importância do estudo da área para a compreensão da história cultural, social e econômica brasileira.

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História completa

Meu nome é Gildo Magalhães dos Santos Filho. Nasci em 23 de novembro de 1948, em São Paulo. Me formei em Engenharia Eletrônica na Escola Politécnica da USP em 1972. Realizei meu doutorado em História Social trabalhando o desenvolvimento da política de informática no Brasil e meu pós-doutorado foi sobre a história da eletrificação na República Velha. Em novembro de 2001, passei em um concurso e acabei me tornando professor de História da Ciência do Departamento da FFLCH-USP.

 

A eletricidade, e de forma mais ampla o eletromagnetismo, deu origem à grande indústria do século XIX que foi a indústria elétrica. Isto veio para o Brasil ainda no tempo do Dom Pedro II e mais tarde aperfeiçoado foi a origem das nossas usinas elétricas. Na República isso vai se desenvolver mais ainda porque tem início a industrialização mais intensa, não pesada, que ocorreu no Brasil, mais especificamente ainda em São Paulo. Aqui, uma série de indústrias que já existiam e que funcionavam na base da roda d’água ou da máquina a vapor viram a oportunidade de substituir essa força motriz, água ou vapor, diretamente por eletricidade. Quando chega o século XX elas se expandem graças, aqui em São Paulo, à riqueza do café. Então o café atrai imigrantes, o café faz as ferrovias andarem para o Oeste e junto com a marcha para o Oeste vai a luz elétrica, vai a tração elétrica na forma de bondes. Muitas cidades do interior do estado vão querer ter o transporte do bonde elétrico e a força motriz para motores, oficinas, fábricas inteiras.

 

Nós fizemos um projeto de pesquisa que demos o nome de Eletromemória porque percebemos que exatamente a geração de energia elétrica acompanhou o Estado de São Paulo nessa marcha para o Oeste. Então tudo isso que vai ter impulso a partir dos 1890, 1900 significou levar atrás a energia elétrica. As fazendas de café, as ferrovias, a imigração, os italianos, japoneses, todos que vieram primeiro pra trabalhar nas fazendas de café, mas depois se transformaram em classe média e pequenos agricultores, etc. Tudo isso fez com que o Estado de São Paulo tivesse uma importância econômica ímpar comparado com outros estados da federação, quer dizer, São Paulo logo passou a ser o concentrador de riquezas nacional, a ponto de mais ou menos 50% da riqueza estar concentrada em São Paulo. E a energia elétrica acompanhou essas porcentagens. Portanto, ao fazer a história da geração elétrica nós também temos que fazer a ligação de tudo isto com esses movimentos econômicos e sociais que formam a história do estado. Basicamente é essa a ideia.

 

E com base em algumas informações que eram inéditas na época, pude perceber que nós tínhamos já muito interesse e pessoas trabalhando, e às vezes até inventando dispositivos que tinham bastante importância como, por exemplo, um tenente da Marinha que inventou e patenteou uma bateria de longa duração pra submarino. E há muitas outras aplicações da eletricidade, por exemplo, pra fornos elétricos, tudo isso no início do século XX. Todas essas informações me deram uma certa ideia do que era a história da eletricidade no Brasil nessa época. E fizemos todo esse trabalho envolvendo também a história da parte da transmissão, as linhas de transmissão.

 

E a nossa proposta era vir desde o início, que é praticamente com o início da República, dos anos 1890. Então com o sucesso do primeiro projeto nós conseguimos justificar um novo projeto, maior, de mais longa duração, que pegou exatamente de 1890 até 1960.

 

É também uma coisa interessante do ponto de vista histórico que nós vamos em usinas em que havia uma ligação muito forte, até diria sentimental, com a cidadezinha onde elas estavam. O pessoal fazia festa nessas usinas, quem trabalhava na usina, morava lá, acabava casando com alguém da cidade, então formavam famílias. Todas essas atividades foram depois perdendo o sentido, só que a usina ficou lá. E ela está na memória da cidade, ainda naquela fase anterior. E hoje ela faz parte desse sistema integrado e nós vamos atrás exatamente dessa memória que está ou nas pessoas, ou está às vezes registrada.

 

Para, digamos, a população em geral, o que eles veem primeiro é a luz elétrica, talvez em segundo lugar, o bonde elétrico. Mas a iluminação no início era muito cara. Era tão caro que as usinas eram donas das lâmpadas, não se vendia, as pessoas não teriam dinheiro pra comprar a lâmpada. Claro, tinha as da iluminação pública, que essas ficavam na rua, daí era a prefeitura que bancava, mas se um pessoa queria ter uma lâmpada elétrica em casa, tinha que de certa forma pagar um aluguel dessa lâmpada. Só que uma coisa também chama a atenção do vizinho, aí o vizinho quer ter, então aumenta o consumo e o preço abaixa. Isto vai ocorrer basicamente a partir da década de 1910 pra 1920, a iluminação elétrica é um padrão que todos querem imitar, ter em casa. E ele vai estar ligado também com a possibilidade de você ter os eletrodomésticos. Os eletrodomésticos já existentes nessa época vão incluir coisas como liquidificador, ferro elétrico entre os mais baratos, claro que ainda há os mais caros como a geladeira elétrica e mais tarde o rádio, e mais tarde ainda televisão, o aspirador de pó, enfim, outra aplicações que vão fazendo com que ela se dissemine cada vez mais, a energia elétrica passa a ser um bem do qual as pessoas não vão abrir mão. E hoje em dia então, com os equipamentos eletrônicos que só funcionam na base da eletricidade, então a gente percebe bem essa transformação total do modo de vida da sociedade no qual o acendimento da lâmpada é só o indicativo de que ali tem eletricidade, que pode servir pra muitas outras coisas.

 

O rádio inicialmente também, uma coisa cara, as pessoas se reúnem pra ouvir, todos os vizinhos vêm ouvir o rádio, como depois vai acontecer com a televisão. Até que depois tudo vai se espalhando e o preço vai caindo e cada um pode ter o seu. É uma verdadeira revolução nos costumes. E isso aparece também nas artes. Há muitos estudos mostrando o que no início era só uma alegoria, se chamava “Fada da Eletricidade”. A Fada da Eletricidade era sempre uma mulher muito bonita, às vezes era uma mulher nua muito bonita com uma varinha de condão e na ponta uma luz elétrica (risos). E isso foi em si objeto de arte, quer dizer, muitos cartazes foram feitos, muitos quadros foram feitos com a fada eletricidade. Então a eletricidade, as torres de transmissão e depois o cotidiano já aparecem em várias telas que você tem um casal, tem uma lâmpada elétrica iluminando a cena. Então assim, indiretamente o rádio aparece, a televisão e mesmo a eletricidade em si, como integrantes das obras de arte.

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