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História

Gerações de alvinegros da Vila Belmiro

História de: Marília Amado Barletta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/04/2013

Sinopse

Entrevista cedida ao Museu da Pessoa no dia 19 de fevereiro de 1999, para o projeto Museu do Santos Futebol Clube. Marília Barletta conta sua relação com o Santos Futebol Clube, regada a gerações, desde as torcidas com o pai, passando por histórias com o marido e os filhos e caminhando por um trajeto que chega até o seu bisneto. "Causos" de arquibancada aparecem com frequência nesse registro, sendo um espaço comum na história de vida da entrevistada (lembrando até a campanha do cimento, quando as arquibancadas da Vila Belmiro deixaram de ser de madeira), mas que com a idade não era mais um elemento tão comum em seu cotidiano. Educadora, trabalhando durante muitos anos não só em escolas, como também associações, mostra-se uma excelente oradora.

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História completa

R – Marilia Amado Barletta, nasci em Santos, em 15 de novembro de 1918.
P/1 – Então a gente vai começar preenchendo a fichinha de cadastro.
R – Pode por.
P/1 – O nome completo da senhora de novo?
R – Marilia Amado Barletta, com dois “ts”.
P/1 – O endereço da senhora?
R – Rua Maranhão, 37.
P/1- Bairro?
R – José Menino ainda, porque dizem que vai mudar o nome. É, vai mudar por causa da igreja , tem uma igreja aqui perto Pompéia e diz que fica Pompéia, mas até agora José Menino, pelo correio é José Menino.
P/1 – A senhora tem telefone?
R – 237-1689.
P/1 – A data de nascimento, mais uma vez?
R – 15 de novembro de 1918.
P/1 – Nasceu em Santos mesmo?
R – Em Santos, sou peixeira.
P/1 – O nome do seu  pai ?
R – Manoel Amado.
P/1 – A data de nascimento dele?





R – É 26 de dezembro, deve ser 1800 e, eu não sei certo, espera um pouco, estaria agora, papai morreu há 23 anos, estaria com 78, 1807.
P/2 – 98 então?
R – Não, 98 não.
P/1 – 97?
P/2 – 97, 103?
R – Ele teria agora 101 anos.
P/1 – Então 98 ou 97.
R – 1897, nasceu em dezembro de 1897.
P/1 – Cidade de nascimento dele, onde ele nasceu, a cidade?
R – Portugal.
P/1 – Portugal?
R – Se precisar dizer a cidade, Coimbra.
P/1 – Coimbra, Portugal. Qual era a atividade?
R – Papai era negociante.
P/1 – E o nome da sua mãe?
R – Maria Augusta Amado.
P/1 – A data de nascimento dela?
R – 1º de setembro, ela teria agora, ela tem sete anos a menos que meu pai, então seria 1882.
P/1 – 1905?
R – Não, ela acompanhava o século. Nós estamos em 99, 1898.
P/1 –98?
R – Agora é fácil que é de vê meu pai, ela tinha sete anos a mais que meu pai.
P/1 – Sete anos mais que seu pai?
R – Menos!
P/2 – Ah, então era 91?
R – Ah, sabia que é a mesma diferença minha com meu marido que eu tenho, porque meu marido tinha sete anos  mais do que eu.
P/1 – Onde ela nasceu, aqui em Santos?
R – Ela nasceu em Santos.
P/1 – Atividade da sua mãe?
R – Ela era professora.
P/1 – Quantos irmãos a senhora tinha, ou tem?
R – Ao todo são cinco eu e mais quatro.
P/1 – Eu vou fazer uma interrupçãozinha aqui.  Eu acho que é um problema da fita.
R – Tem outra fita.
P/2 – Faz assim. Volta e vê, ouve o que você gravou e vê se tá tudo bem.
 (PAUSA)
Fim do Lado A da Fita Hum
Início do lado B da Fita Hum 
P/1 – Então voltamos aqui a entrevista. Agora a gente vai passar por um bloco de perguntas  sobre situação familiar, nome do  cônjuge, essas coisas.
R – O nome do meu marido era Florival Barletta.
P/1 – A data de casamento?
R  - Isso é fácil, 18 de junho de 1935, primeira vez que o Santos foi campeão.
P/1  - É verdade.
R – Fui comemorar aí, assisti o jogo do Corinthians, contra o Corinthians, lá em São Paulo.
P/1 – A data de nascimento dele?
R – Dele, é 2 de fevereiro de 1912.
P/1 – Ele nasceu em Santos?
R – Não, ele nasceu em Bragança Paulista. Aliás ele não nasceu em Bragança Paulista, mas a gente, ele foi criado em Bragança Paulista, ele nasceu em Santa Rita da Extrema, era um lugarzinho vizinho, Extrema, mas veio com um mês, dois meses, que pra Bragança Paulista que a família da mãe dele era toda de Bragança né, então foi criado lá e veio pra Santos com uns 15 anos, mais ou menos.
P/1 – Atividade dele?
R – Ele era do comércio cafeeiro e era advogado também. 
P/1 – Agora vou perguntar pra senhora o nome dos seus  filhos, a data de nascimento e a atividade deles, a senhora poderia começar pelo...
R – Mais velho né.
P/1 – Isso.
R – Lorival Amado Barletta. 
P/1 – Data de nascimento?
R – Data de nascimento, ele nasceu em 15 de outubro de 1936. Atividade comercial, ele é corretor oficial de café. A segunda é Lucília Barletta Polak.
P/1 – Lucila?
R – Lucilia.
P/1 – Lucilia Barletta?
 R – Polak, com k, ela é do lar, não exerce profissão, é formada professora mas ela não exerce.
P/1 – E a data de nascimento dela?
R – É 1º de setembro.
P/2 – É a data de nascimento da sua mãe?
R – É, junto com avó, 1944. Comecei me sentir mal à noite, segura, segura pra meia noite pra fazer aniversário junto com a  avó, nasceu a uma hora. Depois o outro mais novo você vai achar engraçado. Murilo Amado Barletta, 10 de agosto de 59, a própria diferença, quando o outro tinha 23 anos, nasceu ele. Ele é engenheiro, mas trabalha no comércio de café. São três filhos.
P/1 – Agora a formação escolar da senhora.
R – Eu sou professora, normalista, como que chama, tem um...
P/2 – Magistério?
R – Magistério, aliás eu me aposentei como diretora de escola, sou diretora de Escola Municipal em Santos. De Grupo Escolar, naquele tempo, hoje já não chama mais Grupo Escolar, hoje chama Escola do 1º grau. Rafa vem cá, fala pra moça qual é o time que você torce.
R – Santos.
P/2 – Ela me contou que você coloca a camisa pra assistir o jogo, é verdade?
R – O quarto dele é só Santos, tem lençol do Santos, tem relógio do Santos é doente,  sofre coitadinho, quando o Santos perde.
P/2 – Sofre mesmo, fica triste quando o Santos perde?
R – Fico.
P/2 – Mas é um grande time, vai ser campeão do Rio- São Paulo não vai?
R – Se o juiz deixar não vamos,  não é Rafa?
P/1 – A religião da senhora?
R – Católica.
P/1 – Agora eu vou preencher um campo aqui que se chama histórico profissional. Então, desde o primeiro emprego até o último...
R – Bom,  emprego. Eu fui professora,  depois diretora de Grupo Escolar, põe Grupo Escolar, porque naquele tempo era Grupo Escolar que eu me aposentei há quantos anos, 24 anos,  já.
P/1 – E a senhora começou no Magistério em que ano?
R – Comecei no Magistério em 1943. Saí em 75.
P/1 – A senhora passou a ser diretora quando?
R – 1967.
P/1 – 67, então 1967 até 75?
R – Até 75, quando me aposentei.
P/1 – Isso junto ao Grupo Escolar Municipal.
R – É, sou da Prefeitura, sou funcionária municipal. 
P/1 – Em que localidade a senhora já morou, além de Santos?
R – Bom, eu  nasci na Rua São Bento na cidade, lá perto da igreja do Valongo, eu nasci ali. Depois que eu me casei ,eu fui pra Vila Belmiro.

P/2- Ah, a senhora morou na Vila mesmo?
R – É, meus filhos, esse meu filho mais velho nasceu, uma  hora depois já era sócio do Santos. ( risos) Era só sair de casa, atravessar a rua, entrar no campo,  a minha casa era fundo pro campo do Santos, era bem na rua, bem na Vila mesmo, e a Lucília também nasceu na Vila Belmiro. O único que já nasceu aqui nesta casa, nasceu no hospital, mas eu já estava nesta casa é o mais novo. Eu morei 12 anos na Vila Belmiro, 12 é, mais... é 12 anos na Vila Belmiro, eu fui pra lá quando o Murilo nasceu em 36, eu sai de lá em 49,  13 anos né, 13 anos.
P/1 – Mas a senhora sempre morou em Santos?
R – Ah sim, daqui não saio, daqui ninguém me tira, de jeito nenhum.
P/2 –A senhora é uma apaixonada pela cidade?
R – Sou, é um lugar ideal  pra viver. Olha eu   corri o mundo inteiro. Já viajei muito, muito, muito, fui até Jerusalém, depois de Jerusalém fui a Havaí eu corri o mundo inteiro, acho muito lindo, mas eu quero voltar pra minha terra, eu quero aqui. Eu acho que é uma cidade pequena, mas com recursos, é uma cidade calma, era, agora tá ficando meio violenta, mas é uma cidade calma, você vê é a maior tranqüilidade, parece que tem vida interior, vida de interior.
P/2  - Com uma vantagem do mar.
R – Com vantagem do mar. Conhece vizinhos e os amigos, é um tipo de vida diferente né, está crescendo, como toda a metrópole vai ficando grande, vão crescendo os  problemas, essas coisas todas mas... ainda dá pra regular não sei o que será do final, até agora está indo, também com a minha idade o que eu quero mais, eu  quero ficar aqui mesmo. Estou há 50 anos nesta casa, 50 anos que eu moro nesta casa.
P/1 –A senhora mencionou que é sócia do Santos desde...
R – 28.
P/1 – Isto eu queria saber. Então Santos Futebol Clube ,que são assim associações, religiosas, sindicatos, coisas assim que a senhora tenha ligações. Então, primeiro vamos começar pelo Santos, não sei se tem mais alguma.
R – Bom, Santos eu sou. Agora você não é de Santos não pode saber, mas aqui em , eu fui presidente da Associação Feminina Santista, que era uma instituição que mantinha colégio pra meninas mais carentes, quer dizer o Liceu Santista que era famoso, o Liceu Feminino Santista foi famoso. Acabou fechando demos para, a  Associação deu pra Cúria de Santos e funciona até hoje como Liceu Santista. Mas era um grupo de senhoras, nós não ganhávamos, era uma instituição né, nós trabalhávamos,  eu fui presidente da instituição durante 15 anos.
P/1 – Em que período, a senhora se recorda?
R – Foi, espera um pouco, 49 a 63 né, 14 anos e meio, quase 15 anos de 49 a 63, 63 eu saí porque fui pra Europa.
P/1 – Mas alguma ligação assim,  fora o Santos e a Associação...?
R – Bom, eu sou sócia aqui dos clubes de Santos, naturalmente, mas  isso não é atividade é lazer né, o Clube 15, o Clube Caiçara, do Tênis.
P/1 – Mas consta também, são associações se a senhora se recordar das datas?
R – Isso, meu filho, não dá. Do 15,  eu entrei quando, eu me casei meu marido era sócio já ficamos automaticamente como sócia né, em 35 eu entrei no 15. O Caiçara, o meu marido é sócio fundador, mas também nem sei em que ano foi fundado  o  Caiçara, mas é sócio fundador do Caiçara... E do Tênis, nós entramos de  sócios em 75, 76 por aí, já era mais tarde.
P/1 – Esse Tênis, qual era o nome?
R – Tênis Clube de Santos.
P/1 – Tênis Clube de Santos?
R – O Caiçara também é Caiçara Clube, é Caiçara Clube. O 15 é Clube 15, clube centenário né, muita gente joga.
P/1 – Agora atividades de lazer da senhora?
R – Um baralhinho.
P/1 – Baralho.
P/2 – Um carteado?
R – Um carteado é.( PAUSA) Bom, e a minha igreja né, é a Pompéia. Não deixa de ter um coral.
P/1 – A senhora canta no coral?
R – Eu sou  regente. Não tenho a capacidade, quer dizer, não tenho o cabedal pra isso, mas acabando pelas circunstancias, sabe, a gente acaba ficando, eu tinha muita boa voz quando eu era professora, ensinava canto, essa coisa toda, mas por minha conta,  nunca tive aula de canto, eu tocava piano, mas não era musicista. Depois passei a ir pra igreja e como os outros não tem, não conhecem uma nota, tudo na boa vontade, então eu fiquei (riso), mas é gostoso, você sabe, é uma distração, né,  a gente canta, louva a Deus e não fala mal dos outros enquanto está cantando.(risos)
P/1 – Então, a ficha de cadastro acabou.  Então vamos passar agora pras histórias que a senhora tem pra nos contar.
R – No tempo de futebol, eu  não perdia um jogo,  né.
P/1 – E a senhora se recorda de um jogo assim, que tenha ficado na memória, de uma forma que não saiu nunca mais?
R – Bom, eu não sei. A primeira emoção foi o primeiro campeonato do Santos, né.
P/1- Em 1935.
R – 35, eu era casadinha de novo, né.  Casei em junho, não sei eu não me lembro do ano, mas era fim de ano né, o final do  campeonato é no fim de ano. Era no Parque São Jorge e nós íamos de trem, porque não havia esta estrada boa, a  Anchieta essa coisa toda. Era no trem. Então,  quando foi, não sei se foi alugado, foi... tomado  um trem só para a torcida do Santos, foi banda tudo,  nós fomos lá. Você já imaginou, depois de tantos anos, né,  lá em baixo, um campeonato assim  foi a glória. Nós viemos de São Paulo até aqui, chegamos na estação do trem ali  no Largo Monte Alegre, estava o povo esperando a gente. Foi uma emoção muito formidável , um jogo muito interessante. E tem também a tristeza do jogo do  Pelé, da despedida  do Pelé, né, que  foi o último jogo que eu assisti.
P/1 – O último jogo, a senhora assistiu todos os jogos do Santos, a maioria?
R – A maioria. Eu ia  inclusive pro interior, que  nós íamos para o interior. Houve uma ocasião que o Santos foi jogar em Jaú, naquele tempo tinha um time em Jaú e nós perdemos, porque naquele tempo a estrada não era asfaltada não tinha coisa nenhuma e era o meu filho mais velho que dirigia, olha foi um rebu, mas acabamos, quando chegamos lá estava no segundo tempo, mas chegamos. Ainda assistimos o segundo tempo. Eu ia pra Ribeirão Preto, uma vez eu fui a Ribeirão Preto, que lá faz um calor, Santos com Botafogo, chegamos lá não tinha lugar na arquibancada. Eu fui pra geral num sol, pensei que ia morrer naquele dia sabe, um sol de doer na cabeça da gente, mas no fim o Santos acabou empatando se não me engano, mas valeu a pena. Eu era assim, assisti o jogo do Santos com Benfica no Rio de Janeiro, campeão mundial.
P/1 – A senhora assistiu, então queremos um depoimento especial sobre isso.
R – Foi um negócio muito bonito, muito gostoso, mas eu não conhecia, como não conhecia o Maracanã, eu nunca tinha entrado no Maracanã né, foi a primeira vez.
P/1 – E qual foi a sensação de entrar naquele estádio pra assistir o jogo do Santos no final do campeonato mundial?
R – Olha eu não sei, a gente tinha o coração tão pequinininho será que nós vamos ganhar, será que nós não vamos ganhar, até que eu deixei de assistir futebol porque eu me emocionava muito. E e estava me fazendo mal, por isso que quando o Pelé despediu e me despedi junto. Nunca mais fui. Mas foi muito bonito e ainda tivemos no meio do jogo briga, foi um briga...
P/1 – Em campo?
R – No campo, mas você não sabe que esse meu pessoal, essa minha família é muito de briga, sabe, ( risos) é. Principalmente em campo de futebol. São de morte. Mas nós não tínhamos nada com a história. Nós estávamos nesse degrau, do estádio.  Embaixo tinha uns portugueses. E no banco atrás, estavam uns nortistas, uns cariocas, sei lá, eram de fora. Não eram santistas. Os coitados dos portugueses estavam torcendo, mas com linha, era um direito que eles tinham torcer pro time deles né. Os de cá começaram a implicar com eles. E nós no meio. O time deles e nós no meio, no degrau do meio. Às tantas eles começaram a cuspir no pessoal da frente né, aí meu filho se enfezou. Se enfezou e foi pra cima deles. Olha, voou tudo. E ele estava de sapato mocassim, ( riso), ele deu um chute,  o mocassim foi parar lá embaixo, aí veio policia,  aquela coisa, ficou tudo calmo, tiraram os caras, porque os caras eram perturbador, porque acho que não eram nem torcedores do Santos. Estavam a fim de badernar mesmo,  sabe, e tem essas histórias muito engraçadas. 
P/2- Esse filho da senhora ficou no estádio ou teve que sair também?
R – Como? Se ele saiu? Não... a polícia veio, nós contamos o caso, eles tiraram de lá, vai pra outro lugar, vai torcer em outro lugar não foram nem presos, mandaram pra outro lugar pra deixar os coitados dos portugueses sossegados, porque eles não estava ofendendo ninguém, nem estava fazendo algazarra. Foi até bom. Tem um jogo do Palmeiras com o Santos, esse eu não assisti,  eu estava em casa e eles foram todos, foi a minha família toda .Aí foi: meu marido, os dois filhos e dois netos moços o Maurício e o Luciano eu não sei o que que houve lá, eles armaram qualquer... zum,  foram todos detidos, inclusive meu marido, meu marido era advogado “disse não, não tem problema nenhum”. Foram para, o que eles chamavam de chiqueiro lá, lá embaixo, eles ficavam detidos num determinado lugar, sei lá...
P/1 – No próprio estádio?
R – É. E nós aqui em Santos, pelo rádio: a família Barletta presa. Bonito esse pedaço né, eu digo: “Mas sim senhor, era  só o que me faltava,  não tem mais nada” .Aí ele conseguiu conversar com ele, mas não deixaram ele sair de lá. E eles queriam saber como que estava o jogo. E os caras não diziam pra eles saberem (riso)”mãe não foi pior ficar preso, foi não poder saber como é que estava o jogo”( risos) Eu digo: “vocês não tem vergonha” , mas olha, brigas homéricas, nós temos de monte, mas de monte. Uma vez no Pacaembu jogo Santos e Flamengo. Choviaaaa... em peça. Nós estávamos lá na arquibancada. Esse meu filho mais velho estava com uma capa, não sei se vocês se lembram uma capa que usou antigamente,  parecia seda, que era italiana, eu tinha trazido pra ele da Europa era uma capa bonita, assim... estávamos sentados aqui. E atrás de nós estavam  umas pessoas. Aí o Flamengo faz um gol, e os caras ahhh... “gol do Flamengo”. Aí disse: “ meu filho, eu não sabia que tinha tanto flamenguista aqui” mas comentou. Daqui a pouco o Santos empatou. Era o Santos do Pelé né, era fácil. O Santos empatou, meu filho levantou, quando ele levantou o cara puxou... “senta”. Puxou a capa dele, assim Ele estava com o guarda chuva na mão. Ele sentou, já virou o guarda chuva, e foi... pumba. Olha, mas era divertido, era um negócio. Família briguenta, que nem não sei que.  O meu filho, esse mais velho,  foi à Copa de 70 . E foi com a mulher no jogo Brasil x Uruguai ,eles entraram numa roda de briga, eles vieram de Guadalajara, que eles estavam hospedados em Guadalajara né, quando chegaram no campo, vinha vindo um grupo de uruguaios, do outro lado, ainda tinha aquela rixa de 1950, aquela coisarada toda. Mas entraram,  eles vinham entrando calmamente, eles  de lá começaram a provocar e a querer brigar, e aí ficaram quietos, atravessaram a rua e vieram pra cima dos brasileiros.  E estava a minha nora e meu filho. E a minha nora é boa de briga também viu,( risos) é, é boa de briga. Aí, ficou meu filho e um pretão que tinha aqui em Santos não sei o apelido dele era muito amigo nosso e estava junto, então meu filho ficou de costas pra ele e os uruguaios em volta. E os outros brasileiros se mandaram.  Fugiram . E eles dois sozinhos, um de costas pro outro,  tentando,  e a minha nora atrás,  na roda, dando pontapé neles, até que chegou a polícia ,  e separou. Bom, foram pro jogo. Quando acabou... o Brasil ganhou né, aquele jogo Brasil x Uruguai o Brasil ganhou. Os uruguaios  sumiram não se via  mais nada, né. Quando eles voltaram pro ônibus,  encontraram os brasileiros com quem  eles tinham estado, que tinham fugido. A minha nora desancou todos eles:  “vocês não me cumprimentem, vocês não falem mais comigo seus covardes, como é que vocês fazem uma coisa dessas, como é que os uruguaios são todos juntos e vocês são separados hein? ” brigou com todos eles e não falou mais com eles, o pessoal estava no mesmo hotel, numa pensão lá em Guadalajara, não sei. Olha, nosso futebol foi gostoso viu, enquanto eu pude assistir, tinha coisas muito boas. Aqui na arquibancada , eu tive assim companheiros certos, gente... o Esmeraldo Tarquínio que foi aquele prefeito que morreu,  aquele que foi eleito não pôde tomar posse foi caçado,  lembra?  Juvenal Tarquínio, ele era diretor do Santos e era meu companheiro certo, de arquibancada, ficávamos juntos, havia um casal de senhores Carlos Simon, e a mulher, que também era fanática pelo Santos, não perdíamos o jogo, era uma turma boa sabe, era gostoso assistir, você estava em casa, era uma família, né. O Santos era uma família. Porque Santos é pequena, então todos se conhecem, é gostoso. Assistir futebol era uma beleza,  você fazia roupa, como você vai pro jóquei, pra estrear no domingo no jogo do Santos. Era uma parada viu, era uma parada e ali a gente arrumava namorado, que era a rapaziada boa, de Santos que estava toda na arquibancada estreava chapéu, naquele tempo a gente ia de chapéu. Ainda tem  alguém de chapéu, nesse retrato. De chapéu, de luvas a gente ia toda chique. Bom, pra ser sócio do Santos naquele tempo tinha a  triagem. Porque era um clube mais social. Era futebol amador, depois é  que passou pra profissionalismo né, então era um clube social. Então tinha triagem,  depois é que entrou o profissionalismo. Aí... foi liberado, tudo. Mas era gostoso. O alto comércio de Santos, que Santos sempre  viveu mais do café, você sabe né, o que estava aqui, naquele tempo era tudo sócio do Santos, aos domingos era um encontro marcado. Só tinha futebol aos domingos né, naquele tempo só tinha aos domingos. Então era encontro marcado. Domingo era dia de namorar, de flertar, dia de namorar, de encontrar a rapaziada  do Santos lá, mas a gente ia  chique, estreava a roupa, fazia vestido pro jogo do Santos, como fazia pro jóquei, em São Paulo (riso) aqui era pro campo do Santos.
P/2 – E a senhora conheceu seu marido lá?
R – Eu conheci meu marido, ele morava perto da minha casa, mas eu fui conhece-lo lá. Por um acaso.  Mas depois, passou, mas depois tornei, porque  ele trabalhava no café e o café em Santos é, não sei se vocês conhecem, é na Rua XV né, na Rua XV. E no fundo não tem a igreja do Valongo? Eu era de lá do Valongo, era Filha de Maria de lá,  e... ia pra escola, passando  na Rua do Comércio, que eu morava na rua São Bento. Eu vinha pra escola, então dali começou o namoro e... ficou o noivado.... eu me casei com 16 anos. Um pouco precoce. Com 14 anos eu comecei a namorar o senhor Barletta, e  não teve mais jeito,  aí tudo enfim deu certo,  graças a Deus.
P/2 – Então a senhora não chegou a namorar muito nas tardes de domingo lá na...
R – Eu tinha as paqueras. Hoje é paquera. Naquele tempo era flert.  Meu flert, meu... hoje é paquera, hoje é ficar,  é uma porção de coisas diferentes, né.  Eu acompanho pelos netos, pelos bisnetos e já tá.( risos) Eu acho que...
P/1 – Eu gostaria que a senhora falasse, a senhora tá falando, nossa, está maravilhoso, mas  fala um pouquinho, só pra fechar essa história do futebol, sobre o jogo do Pelé, o último que a senhora assistiu.
R  - É, foi o último jogo que eu assisti.
P/1 – Por que o último?
R – Porque o futebol já não estava me fazendo bem, entendeu? Eu ia e não me sentia bem sabe, mesmo o Santos ganhando, não era porque o Santos estava perdendo. Era... a emoção acho que estava mexendo comigo, a tensão nervosa, aquela coisa toda, e eu não vou ficar doente por causa do Santos, tenha paciência, né. Bom, vamos ver o jogo. Do Santos. Era uma noite né, e... foi um jogo... famoso, a Vila repleta ,aquela coisa toda, ninguém esperava aquele gesto do Pelé. Era a despedida, mas ninguém sabia o que ele ia fazer. Quando ele ajoelhou no meio do campo, abriu os braços, ele parou o jogo. Ele estava jogando, parou de jogar, ajoelhou  e abriu os braços, ahhhh ... eu comecei a chorar,  né. Tchau! O primeiro tempo, eu fui me embora, e nem o segundo tempo eu não assisti. Nunca mais eu fui assistir jogo. E agora mesmo, a televisão, eu não ligo. Ou se ligo, vejo um programa qualquer. De vez em quando eu ponho... vejo o resultado, como é que está , e torno a desligar , só... pra ter noção. Quando acaba o jogo, se o Santos ganhou, eu vou ver  vídeo tape. Se o Santos perdeu, eu não vejo nada. Não interessa. Né? Fazer o que.
P/2 – Então a senhora nem acabou de ver a partida?
R – Não.Não.Pendurei a chuteira  junto com Pelé (riso), junto com Pelé pendurei a chuteira. O Pelé é muito meu amigo sabe, porque o Pelé, quando veio pra Santos, morava aqui nessa ruazinha, Rua Euclides da Cunha. E era muito amigo do meu filho. Ele vinha aqui em casa. Então nós somos amigos desde que o Pelé veio pra cá. Ele tinha 16 anos né,  naquela época. E a minha sogra, era Palmeirense. Que ela  era de Bragança né, ela veio pra Santos, já torcia pro Palmeiras, apesar de todos os filhos torcerem pro Santos, aquela coisa toda. Quer dizer, contra outro time qualquer, ela era Santos. Mas ela tinha sempre aquela coisa, sabe como é, isso é de meu neto, o meu neto que  deixou aí. E... ela uma véspera de um jogo Santos e Palmeiras o Pelé apareceu aqui em casa pra conversar com meu filho qualquer coisa, ela falou: “Ah, Pelé por favor, não faz gol contra o meu time” ele disse assim: “Vó, fica sossegada. Eu vou fazer um em sua homenagem” . Se ele soubesse o que ela xingou ( risos) , seu nego fedido,  maldito, desgraçado e mais ela xingou...
P/1 – E fez?
R – Fez. Ele fazia gol sempre,  né. Jogo com Pelé era um sossego né, a gente estava perdendo não estava nem ligando, porque a gente sabia que ele ia buscar a diferença. Era uma facilidade né, era uma facilidade. O jogo com o Pelé não  era espetáculo, era espetáculo,  porque você se aprazia de ver as jogadas dele, a inteligência dele, a garra dele, porque o Pelé mesmo num jogo sem importância ele não desanimava, ele jogava com garra e animava os companheiros né, não deixava ninguém esmorecer, né. O Santos era um time bom naquele tempo não era só o Pelé, evidente. Mas ele ajudava muito e dava encorajamento pros outros, né. Ele gostava muito do Zito. O Zito foi meu ídolo. Naquele tempo. O Zito mandava até no Pelé. Coisa que ninguém se atrevia, vamos nego, vamos sacode essa bunda, falava assim em campo, era fácil saber. O Zito era engraçado, era um bom jogador. O Santos tinha um time de...que  acho que nunca mais nenhum time vai reunir tanto elemento bom, tão certo, uma plêiade de gente boa, você não sabia quem era  o  ...pior ali. Porque bom eram todos né, bom eram todos. Olha, eu tive sorte, porque eu vi o Santos naquela época áurea do Pelé, que muita gente não viu, eu vi, e era uma beleza torcer pro Santos, ( risos ) naquele tempo. Hoje está meio difícil, mas em todo caso,  vamos lá. Os juizes, a Federação, não tem muito prestigio, naquele tempo nós tínhamos Athié,  que era deputado, o Modesto Roma,  que era casquinha de ferida, ele ficava lá na Federação cutucando,  não deixava ninguém subir no Santos. Mas hoje em dia... ninguém... Você vê aquele Eurico Miranda lá, no Rio, está usando e abusando e não fazem nada, porque tem prestígio lá dentro. E os  paulistas não tem prestígio na Federação. Nós não mandamos nada.... O que ele fez agora com o Fluminense era pra ser eliminado. Tinha que ser jogado ...não pode..., tiraram os pontos pronto, ficou por isso mesmo. Enfim...
P/2 – A senhora comentou então que o Pelé...
P/1 – Eu vou virar, vai acabar a fita... eu vou virar.
Fim do lado A- Fita Dois
SFC –020
Início do lado B- Fita Dois
P/2 – A senhora comentou que o Pelé ele freqüentava muito aqui a sua casa. Como é que ele era ?
R – Ele era um amor. Olha, ninguém percebe, você sabe, uma vez que eu viajei, em  1980. Eu vinha dos Estados Unidos. Eu fui ao Havaí, e Las Vegas, e parei em Nova York e peguei o avião, e vinha pro Brasil. Nós estávamos na classe turista, né,  e o meu marido foi dar uma volta no avião,  na classe... como é que chama aquela classe, onde fica os grã-finos vip, né, como é que é... primeira classe, foi  lá e disse pra mim: “Sabe,  o Pelé tá aí”. Eu estava com sono e disse “Ah, deixa o Pelé lá, o que que tem”. Pronto.  Quando nós descemos em São Paulo,  era, foi em Cumbica, já era Cumbica, não era, acho que foi em Congonhas já, São Paulo tem, já estava uma perua esperando por ele na porta do avião né, escada pra descer. E eu nem lembrava que o Pelé estava lá, né. Eu fui descendo a escada assim, olhei pra perua e vi que o Pelé estava dando sinal. Ele abriu a porta da perua, saiu, desceu, correu a escada pra  me abraçar, me beijar “Ôi, a senhora vai a Nova York e não vai me visitar? ” “Eu sabia lá, se você estava  em Nova York, depois eu estava passeando, eu  não podia dar, e eu  nem sei... Eu  estive na igreja de San Patrick” “Pois meu escritório é de fronte à igreja San Patrick”, salute agora não sei de nada, não sabia de nada. De modo que, ele é um sujeito muito simples, muito bom, viu. Um cara bom. O pessoal não conhece metade... tem a fama de ...pão- duro, aquela coisarada toda... tudo bem. Cada um é como é.   Ninguém pode me obrigar a gastar o meu dinheiro como eu não quero. É ou não é? Mas ele  é bom,  ele ajudou muito a família dele, deixou a família dele toda bem, as primeiras coisas que ele pôde ele comprou uma bela casa pra mãe, pro pai, os irmãos... ele ajuda, ele faz tudo o que pode, eu gosto muito dele futebolista nem se fala, mas como homem, como pessoa humana, acho ele formidável. Estou afastada dele há muito tempo, que ...mas quando ele me vê, onde ele me encontra ele vem me abraçar porque... ele passava aqui em casa, meu filho era solteiro naquele tempo e pegava eles de carro e iam pra matinê ele, o Durval, o ... coiso, uma negrada só, e aí, quando chegava na porta,  o Durval dizia: “Barlettinha”, ele  chamava meu filho de Barlettinha “Pára o carro mais longe se não vão pensar que foi o  jardim zoológico que, deixou a macacada aqui”. Então,  eram amigos sabe, naquele tempo não tinha essas concentrações de nada, ele morava aqui, nessa rua aqui, um pouquinho mais pra lá, tem uma igreja aqui a igreja Pompéia, o Pelé morou ali numa pensão a muito tempo, quando ele veio pra Santos, né. De modo que, quando ele passava por aí,  ele sempre  dava um alô... e ele vinha no campo, vivia dentro do campo. Ele era muito amigo do meu filho do mais velho né, o Barlettinha, foi com quem vocês falaram, né,  foi com quem vocês falaram. Eles têm pouca diferença de idade. O Pelé é de 40 né, o meu filho é de 36, quatro  anos mais velho. O que mais você quer saber do Pelé.
P/2 – Vamos falar um pouco do seu marido.
R – Ah, meu marido foi um baluarte no Santos viu. Foi.  Que ele toda vida ele  foi. Ele trabalhava desinteressadamente. Tem até um episódio, que foi até contado há pouco tempo nesse programa que nós temos em Santos, Esporte por Esporte, que é do Armando Gomes, estavam contando que houve uma eleição no Santos, eu não sei porque não estava lá, mas eu ouvi falar. Uma eleição no Santos tinha cargo disso, aquilo, aquilo outro. Aí, meu marido estava no campo fazendo qualquer coisa... “Barletta vai lá que tá...a coisa” Ele disse : “Não, vai lá, o que se precisarem  de mim vocês me põem. Onde  precisarem de mim vocês me põem. Não quero nem saber” Ele não ligava, ele queria trabalhar pro Santos, né. Isso aqui foi o retrato dele e o Departamento Amador do Santos fizeram uma homenagem pra ele e puseram o nome dele Florival Barletta. Está aí a festinha, está aí . Ele já tinha morrido.
P/1 – Quando é que ele faleceu?
R – Ele faleceu em 80.
P/1 – 1980.
R – Faz oito anos.
P/1 – Aqui ele está com quem?
R – Um retrato dele aí com o Athié, ainda... O Departamento Amador do Santos Futebol Clube, aliás está muito bonitinho, está bem arrumado...
P/1 – E até o final da vida dele, ele trabalhou junto ao Santos?
R –Ah, trabalhou , porque morreu de repente. Quer dizer, não morreu de repente, ele ficou doente domingo à noite e morreu de madrugada. Foi enfarte. Sempre trabalhando, sempre atuante, conselheiro vitalício, foi vice- presidente do Conselho, foi tesoureiro ocupou muitos cargos no Santos. Ele era... adorava o Santos, a vida dele era o Santos. Gostava muito. E agora os filhos, o Rafael, ( risos) esse é o presidente o Samir né, vocês conhecem né.
P/2 – Conheço?
R – Ele tem... o Rafael tem essa... está com uniforme do Santos né, esse tem os lençóis essas coisas do Santos, ele tem.
P/2 – Mas a senhora estava contando da época de seu marido antes da gente começar a gravar,  sobre a Campanha do Cimento que eu achei tão interessante,  a senhora não quer contar?
R – Foi quando o Santos ainda tinha, só arquibancada de madeira, naquele tempo só arquibancada de madeira. Depois resolveram fazer uma geral de cimento armado, geral,  e aí o Santos não tinha dinheiro, né. Então vamos fazer a Campanha do Cimento. Aí ele saía em campanha na Praça Capieira, e arrumou o cimento todo pra fazer arquibancada. Ficou a Campanha do Cimento.
P/2- Cada pessoa dava...
R – Não... tem pessoal lá que deu 10, 20 sacos de cimento e quem não podia dava um saco de cimento e construíram arquibancada, a primeira, que  hoje nem existe mais, que  era um tipo escada, né, que usava naquele tempo,  em vez de ser escada de madeira, era escada de cimento. Foi a primeira coisa de cimento que fizeram.
P/1 – Isso antes da construção do estádio, que começou em 1948.
R – 48. Então. Isso aí deve ter sido... em 40... 41,  por aí. Deve ser.  Mais ou menos nessa época.
P/1 – A Campanha do Cimento
R – Do cimento. Aliás nos arquivos do Santos deve ter escrito as datas dessa campanha. A Tribuna também deve ter, o Enaga que era o redator naquele tempo, redator do Santos ele...
P/2 – E por conta disso o seu marido recebeu um apelido por conta dessa campanha?
R – Não, era... esse -Guenaga---?---  que punha no coiso: Ministro das Finanças. Porque ele era tesoureiro e ele era seguro sabe como é, tinha que segurar o Santos não tinha dinheiro,  acho se não for seguro você não vai. Era Ministro das Finanças. Fala com Ministro das Finanças,  que ele vai dar. Ele dava só se fosse... Se não, não dava. Ele era tesoureiro, era duro de soltar o dinheiro. Não soltava assim não. É que nós pegamos ainda o Santos amador, futebol amador. Era diferente, né. Depois foi semi - amador,   que tinha para as incúrias, ganhava um dinheirinho...
P/1 – E a senhora tem alguma história dessa época semi - amador, tem umas histórias fantásticas, parece?.R – Eu ouvi contar, não sei se é verdade, no tempo do amador tinha o Feitiço, que foi um grande jogador do Santos, um grande goleador.
P/1 – Artilheiro?
R  - E o Athié era o keeper.
P/1 – Goleiro.
R – Goleiro. E ele era ...depois foi ser presidente do Santos. Mas ele sempre foi muito rico, o Athié era um homem de poder,  ele jogava de camisa de seda, naquele tempo, e de luvas, que nenhum keeper jogava de luvas, o Athié jogava de luvas, e era assim fanático pelo Santos. E dizem que o Athié dizia pro Feitiço: “Cada gol que você marcar, você recebe tanto” . Dava um dinheirinho pra ele. Isso é o que eu ouvi falar. Agora como o Athié já morreu ( risos) e o Feitiço também acho que já morreu, nem sei, Luiz Matoso o nome dele, nem sei. Nunca mais ouvi falar nele...parece que morreu, né. Mas... são histórias que constam, né, é o lendário, né, pode ser verdade,  mas deve, naquele tempo acho que era assim mesmo sabe, porque esses jogadores também, coitados, não tinham profissão, não era profissão... Tinham que dar um achego, como diz hoje, né...uma coisa. Agora o Athié, uma vez eu fiquei hospedada no apartamento dele em Brasília, ele era deputado lá. Você morria de rir.  O apartamento dele parecia a sede do Santos. Porque era tudo com o Santos. As paredes, as mesinhas, retrato do Pelé, retrato dele, retrato do Santos, retrato não sei do que,  retrato não sei do que mais e a xícara era com distintivo do Santos, o copo com distintivo do Santos... Olha,  você olhava era Santos, Santos, Santos,  não tinha jeito sabe. O Athié era formidável. Agora. Em matéria de propagando pro Brasil, Pelé. Vou te contar, que  eu viajei o mundo inteiro. Eu estive na Europa uma ocasião, não sei bem que ano foi, 63, foi a época do Santos, eu passei numa loja pra comprar um tecido, tinha um retrato do Pelé de corpo inteiro na vitrine. Fui comprar uns perfumes numa casa de perfumes lá  de coiso,  que era Jack, o nome dele era Jack. E ele falava português.  E eu entrei lá e digo: “Ué, eu entrei  no Brasil? ”.  Era só retrato do Pelé. Você chegava num hotel, qualquer hotel, ia fazer a ficha.  “De onde é?” “Santos”. “Santos, Pelé?” Era a pergunta. Fui comprar um sapato na Itália, na ocasião eu estava com um peixinho de ouro que eu tenho, nem sei que fim levou, um peixinho de ouro que meu marido me deu. Estava na minha lapela. O moço, como é, o balconista, me experimentando o meu sapato lá, “por favor me dá esse coiso” Digo: “Não posso dar, esse foi um presente do meu marido, isso é de ouro, não dou, não posso” “Ah, eu faço um abatimento enorme no sapato” ( risos)  Naquele tempo era uma loucura, né. Agora, o nome do Pelé no Mundo inteiro é conhecido.
P/1 – A senhora chegou a ver algum jogo do Pelé, do Santos, no exterior?
R – Não. Não. Não.  Porque o Santos começou a excursionar eu não acompanhava. O meu filho mais velho, ele excursionou com o Santos,  mas é amador, não é amador, é juvenil, como é que é, é juvenil. O juvenil foi disputar um campeonato na Alemanha e meu filho foi como diretor e o meu marido foi pra Argentina com o Santos, na cidade de Rosário foi dirigindo  a ... mas eu não fui. Aí eu não fui também.  E meu filho também foi, foi outra vez  pra Rosário, foi  até quando morreu um diretor do Santos...o Mourã...
P/1 – Foi no Chile?
R – Foi no Chile.  Aí meu filho era o, como é que chama da excursão, diretor da excursão, mas tem um nome. Chefe da excursão, não...
P/2 – Executivo?
R – Não. Tem um nome qualquer. Não me ocorre. Ele estava... foi  dirigindo. E até  ele que ficou no quarto com o Mourã, o Mourã Moreira,  disse que morreu nos braços dele. Mourã era muito amigo nosso,  aqui de Santos, era uma família antiga, conceituada.  A nossa vida foi entrelaçada no Santos, a família aqui é toda entrelaçada no Santos.
P/1 – Pelo que eu to percebendo o Santos é uma grande família, né?
R  - É.  E é isso que muita gente não entende. Que você é torcedor, morou em São Paulo, você é torcedor do São Paulo. Você não conhece o diretor, você não conhece isso, você não conhece... Aqui não. Aqui nós conhecemos todos.  E sabemos tudo o que se passa dentro do Santos, está dentro da nossa casa.  Então é... não é futebol, só. Você está entendendo? Essa coisa que muita gente: “Ah....porque você é do Santos”...Escuta gente. Nós vivemos o Santos.  Não temos outra coisa. Porque a cidade é pequena. . E eu, morando na Vila Belmiro já imaginou? Quando o Santos fez 50 anos, eu já morava aqui.  Foi em 62. Foi a época do Pelé também. Mas nós fizemos muita festa, houve muita festa no Santos e eu promovi lá um baile preto e branco foi muito bonito e levei a alta sociedade, não digo alta sociedade mas a gente boa, né. Aí eu fiz uma mesa enorme, eles ficaram malucos, lá, foi muito bonito.  Fizemos umas baianas pra receber, umas baianas estilizadas em preto e branco, já pensou,  estava bonito, foi uma festa muito bonita de 50 anos do Santos. Foi bonita, na Vila Belmiro.
P/1 – E a senhora está falando de baiana, e me lembrou o carnaval. A senhora lembra  alguma participação pela bola preta, bola alvinegra?
R – Olha,  a bola alvinegra era um bloco maravilhoso porque faziam fantasias muito bonitas, mas sempre hors concour, nunca entrava em concurso né, mas era muito bonito e eles desfilavam e iam nos clubes, entravam pra dançar e era muito bonito. Depois passou o bloco do bola alvinegra né, o bloco pede passagem, o bola saúda e pede passagem, era...nosso lema era lutar, amar, servir. Nós somos...( cantando): “queremos nos divertir o bloco flor do ambiente, o bloco flor do ambiente devemos nossa homenagem ao povo santista bola, saúda e pede passagem”.  Era bonito,( risos)  “nosso lema é lutar e vencer” é lindo,  e as fantasias dele eram luxuosas, era todas preto e branco, mas sempre caprichadas de cetim, era grã-fino não era essas papagaiadas, não.  E não era grande, também. Era um bloco... pequeno. Mas, nunca entrou em concurso, nem em coisa nenhuma. Depois disso, depois de bloco  já veio banda, não sei..., banda alvinegra, mas aí eu já não estava por dentro porque eu já não freqüentava lá, não sei. Depois que eu vim pra cá aí... eu me afastei um pouco.
P/2 – Isso me fez lembrar de festas, como eram as festas das vitórias, aqui na cidade.
R – As festas?
P/2 – Das vitórias, dos campeonatos.
R – Olha. As festas, deixa eu ver... que eu me lembre, a festa do Bi –Campeonato... acabou? 
P/1 – Não.  Foi meu pulso que estralou.
R – Eita!  A festa do Bi -Campeonato quando o Santos foi campeão em São Paulo, no Pacaembu. Morumbi,  sabe que eu não conheço o Morumbi. O Pacaembu... foi o Santos estava perdendo, e deu virada, e ganhou de 4 a 2, mas foi muito bonito que nós chegamos à noite aqui, porque o jogo acabou às seis  horas, chegamos à noite. Então, na Via Anchieta ali, o pessoal daqueles sítios, daquelas favelas,  ia tudo pra estrada pra esperar a gente. Os morros desceram todos,  ficaram todos na beira ali, na entrada da cidade, tudo com, e vieram naquela  loucura, e depois  engrossando, engrossando, engrossando  que até cair na Praça Independência , que é o lugar onde... em vez de ir pro campo,  eles não vão.  Vão  pra Praça Independência. Fica aquela loucura de....  foi um deslumbramento. Isso,  Bi-Campeonato. O Campeonato de 35 eu disse a você que foi de trem, também, foi muito engraçado. Agora o   .... depois de 35, foi em 55.  Foi aqui na Vila, foi o gol de Pepe ,se não me engano, espera aí... foi até com um time pequeno, 2 a 1 . Houve muita vibração também, mas aí já não saí pra rua, porque os meninos é que foram, eu não vi, mas no campo foi uma doideira, era  uma loucura mesmo. . Agora em 56 é que foi em São Paulo, o Bi -Campeonato então nós descemos a serra, mas aí nós íamos de automóvel, embandeirados, com música, com tudo, estava muito bonito. Foi muito bonito a festa do Bi –Campeonato.  56.  57 não foi, depois foi 58, 59, 60. Três anos seguidos.  Tri -Campeão. Teve um jogo, eu não me lembro qual foi o Campeonato que o Santos ganhou, já estava decidido,  faltava jogar com o Guarani em Campinas. Você veja a minha emoção, a minha tensão nervosa. O Santos ganhou de 6 a 1 eu estava nervosa. A minha filha disse: “Mãe, o que você quer mais” o Santos ganhou de 9,  naquele dia, do Guarani né, “Mas o que você quer mais mãe” Mas ( risos), eu não estava, eu queria acabar o jogo, queria acabar o jogo pro Santos ser campeão, faltava aquele jogo só pra ser campeão. É, era gostoso viu, é uma vida, é uma família.
P/1 – Era uma época apaixonante.
R – Apaixonante mesmo. Quem não viveu a época do Pelé não sabe o que é.  O meu filho mais novo, o Murilo, ele não pegou a época do Pelé. Ele nasceu em 59, justamente ele era pequeno, né, quer dizer, ele foi ver o Pelé acho que no final... aí com uns 10 anos, 11, mas não era já aquele time, também... Porque depois o time  foi acabando, né, e nos sábados temos vistos muitos filmes, tem muitos filmes dos jogos do Pelé, então ele está mais ou menos por dentro. Mas ele fala: “Ai mãe, que pena que eu não pude ver isso”.  Porque valia a pena ver.  Era coisa à parte, independente do clube, era...o desenvolvimento do jogo, o modo único como ele jogava... era bonito, como ele  vibrava... era formidável viu... Dá saudade. Mas  enfim,  a gente vive de saudade também. Não vive? Feliz de quem tem boas recordações,  não é isso, quem não tem nada pra recordar é muito chato, né. E a gente não. Vive com boas recordações:  Santos, Santos, Santos, Santos do coração.  Santos a cidade, Santos do Futebol Clube. Eu não compreendo um santista não ser um torcedor  do Santos.  E tem corinthiano nessa terra. Vou te contar. Tem,  mesmo. Porque o Corinthians, tem um bairro aqui chamado Macuco... Corinthians era antigamente,  eu não sei se ainda é, clube de espanhóis, né, eram espanhóis. Aqui tinha muito espanhol,  no bairro do Macuco,  e ali formou um núcleo. Inclusive o Gilmar,  que depois foi keeper do Santos, e keeper do Corinthians,  pois ele era do Macuco. E tinha um time, o Jabuca, né, que é o Jabaquara, que nós chamamos de Jabuca,  que também era de, de... coisa, , ele o Gilmar parece que era do Jabuca, e começou lá e depois foi pra São Paulo...
P/1 – Antigo Espanha?
R – É, Espanha. Depois, com a guerra,  eles mudaram os nomes todos. O Palestra virou Palmeiras, o Espéria virou, o Espéria não...
P/1 – Germânia?
R – Germânia,  virou Pinheiros. Era assim que foram mudando, né,  os nomes todos. Mas era assim. E aquilo ficou um pouco de resíduo de corinthiano, tem corinthiano adoidado aí.. É uma rivalidade impressionante. Você falou,  pode perder pra  qualquer um,  mas  não pode perder do Corinthians,  meu Deus do céu.  É uma doença, uma coisa incrível. (risos) Ai, ai ( risos). Somos alvinegros, mas alvinegros  da Vila Belmiro (risos). O hino do Santos é sou alvinegro da Vila Belmiro.  Olha foi uma época gostosa, valeu a pena, valeu a pena mesmo. Sorte de quem pôde viver isso, né.
P/2 – Muito obrigada, foi uma ótima entrevista.
R – Não sei se vocês gostaram ou não.
P/2 – Além das informações, nós nos divertimos muito.
R – Ah, diverte, diverte, comigo diverte porque  graças a Deus, eu tenho senso de humor. Graças a Deus. Tenho muita, como se diz, treino, né, fui professora 32 anos, diretora de essa Associação Família Santista, no colégio tinha ginásio e normal. Eu era presidente. De modo que tenho tarimba. Custou pra sair o nome tarimba.  Eu agora, está dificil achar o nome. Mas eu fico feliz porque eu vejo gente da vossa idade esquecer também, não saber o nome. Então eu digo que bom que não sou só eu, eles também estão se esquecendo. (risos) 
P/2 – Mas os nomes nos fogem  cada vez mais.
R – Mas não é?  Mas eu fico doente. Porque eu toda vida tive uma facilidade louca de falar. E quero dizer o nome, o nome está aqui,  na minha frente, não sai, mas que aflição que dá, né, e o meu  médico diz pra eu forçar  até lembrar.  E eu forço. Às vezes fico sem dormir, mas... quando eu lembro o nome... é agora, é  aquele nome.  Aí fico feliz da vida. Quero forçar a memória. É muito importante na idade da ente pra gente não... ficar  caduca, né.  
P/1 – Eu gostaria de fazer uma pergunta, só pra finalizar, que a gente faz pra todo mundo quando está encerrando. Qual foi a sua sensação diante  dessa experiência  de dar  entrevista pro Museu do Santos,  podendo deixar um pouco dessas recordações pro clube?
R – Eu fico feliz, estou muito feliz,  né, porque Santos é a nossa vida. De modo que eu vou fazer um pouquinho parte dele. Da vida do Santos, né? Aliás,  eu acho que eu já faço parte da vida do Santos.  Porque pai, marido, filhos, netos, bisneto. Eu tenho um bisneto que está treinando. Tem 12 anos, está na escolinha lá, é meu neto, é neto desse Barlettinha, desse  que falou com vocês. É  neto dele, tem 12 anos, também é outro... doente. Está treinando lá. Você vê , cinco, quatro gerações, cinco... meu pai, eu, meu filho, meu neto, meu bisneto, cinco gerações de Santos Futebol Clube. É uma overdose. (risos)
P/1 – Tá certo.
R –Tá bom.
P/1 – Tá ok, obrigado.
R – Obrigada a vocês, foram muito gentis. E se precisarem de mais alguma coisa, podem vir.

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