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História

Geovani, o zagueiro goleador dos Leões

História de: Geovani Pereira da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Geovani nasceu em 18 de março de 1978, em Lençóis, Bahia, região da Chapada Diamantina. Narra sobre as brincadeiras de criança, com sua grande família de irmãos e primos. Por lá, aprende também o ofício de padeiro. Quando vem para São Paulo, passa a trabalhar como pedreiro com o pai, mestre de obras. Mas desiste da profissão e decide seguir a carreira de padeiro. Geovani nos conta sobre sua trajetória, ensinando também receitas práticas. Na padaria que trabalha atualmente, ajuda a formar um time de futebol de salão que existe até hoje, com muita glória e fama pela habilidade e garra dos jogadores. Zagueiro de confiança dos Leões da Vila Beatriz, Geovani fala sobre algumas histórias de jogos, como seu antológico confronto contra uma equipe de Taboão da Serra, mas também sobre o amor pela sua família e sua paixão pelo reggae.

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História completa

P/1 – Bom dia, Geovani.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Queria começar a entrevista perguntando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Geovani Pereira da Cruz. Nasci em 18 de março de 1978. Sou de uma cidade chamada Lençóis, estado da Bahia.

 

P/1 – E você poderia falar o nome dos seus pais e a profissão deles?

 

R – Abemael Pereira da Cruz, meu pai. Ele é mestre de obra. Minha mãe, Tereza Pereira Alves. Ela é dona de casa.

 

P 1– E você tem irmãos?

 

R – Tenho irmãos. Tenho oito irmãos.

 

P/1 – Oito irmãos?

 

R – Oito irmãos.

 

P/1 – Fala o nome deles.

 

R – O nome deles (risos). Vamos lá. Tem o Carlos, né, tem o Carlos. Tem o Mário, Mariani, Aline, Abivian, Soraia e Sara.

 

P/1 – E você é o quê? O caçula ou o mais velho?

 

R – Não. Eu sou o segundo mais velho, né? Sou o segundo mais velho.

 

P/1 – E conta pra gente como é essa cidade de Lençóis aí? Parece que é uma cidade muito bonita, não é?

 

R – É bonita. Lá é uma cidade turística, né? Uma cidade que foi dominada pelo garimpo, pelo diamante até a década de 90. Aí depois veio o fim do garimpo e com isso a cidade passou a se sustentar do turismo. Hoje é uma cidade turística que é muito frequentada por turistas; principalmente turista estrangeiro, né? E a principal fonte econômica da cidade é o turismo.

 

P/1 – E Geovani, quais são as belezas naturais que o turista vai atrás?

 

R – Belezas naturais. Olha, uma das mais assim, que eles procuram mais é a Cachoeira da Fumaça que dizem que ela é a segunda maior do mundo, né? Dizem que ela é a segunda maior do mundo. Tem também o Sossego, tem o Ribeirão. Tudo um ponto turístico muito bom que são muito freqüentados.

 

P/1 – E isso são o quê? São cachoeiras também?

 

R – Cachoeiras também. Tem a Cachoeira do Sossego, inclusive até cartão postal, né? Cartão postal. Já saiu também em vários filmes. E entre outras; tem o salão de areias, tem a Cachoeira Primavera, tem várias cachoeiras na região.

 

P/1 – E me conta: então você teve o privilégio de passar a infância lá.

 

R – Passei a infância lá, até os meus 20 anos.

 

P/1 – De que as crianças brincavam?

 

R – Com certeza banho de rio, viu? Banho de rio e catar manga, né, na mata. Tem muita manga lá, muita fruta. A gente de manhã pro rio, à tarde escola e depois ia pros pés de manga. Quase todo dia pros pés de manga; tem muita manga, muita jaca, muita fruta nativa.

 

P/1 – Qual que é a época da manga?

 

R – A época da manga é dezembro. Dá em dezembro.

 

P/1 – É um verão todo chupando manga?

 

R – Todo chupando manga (risos). Cidade muito bonita; hoje está uma das mais frequentadas por turista internacional. Hoje ela tem hotéis cinco estrelas, tem hotel hoje lá que é classificado por pedra, né? Tem o Canto das Águas que ele tem a classificação de rubi, por pedra. E tem o Portal que é cinco estrelas, que é um hotel muito grande, muito bonito, onde vai muita gente famosa. Mauricio Mattar já ficou lá, um monte de cantores famosos vão pra lá passar a temporada. E é um hotel muito bom; dá emprego pra muita gente na cidade. E tem outros também de porte médio e porte pequeno. Tem vários hotéis na cidade. É uma fonte de emprego também pro povo de lá, né?

 

P/1 – E me conta: você brincava mais com seus irmãos ou com os meninos aí da vizinhança?

 

R – Os irmãos, né? Como a família é grande tem que brincar com os irmãos. Os primos também, tem muitos primos. Minha família é muito grande. Nós somos em 126 primos.

 

P/1 – Uau! (Risos)

 

R – Muito grande a minha família. Então não faltava com quem brincar. Então era mais o pessoal da família mesmo, né? Às vezes, brigava com um, brigava com outro, mas sempre estava junto.

 

P/1 – E Geovani, tinha algum evento que juntava a família toda durante o ano? Que vão esses 126 primos ou não?

 

R – Não tem porque eu acho que não tem uma casa que suportaria esse tanto de primo, né? (Risos). Mas tem, assim, uma festa lá muito boa, é agora de janeiro. Que é a padroeira da cidade, que é uma festa que a gente sempre reúne o pessoal. Família toda, procura juntar o pessoal.

 

P/1 – E vem cá, vocês não jogavam bola?

 

R – Jogava bola. Futebol a gente nunca deixou. Desde cedo aquela peladinha, aquele campo, aquele campão mesmo, aquele poeirão mesmo. Então tinha as peladas nossas sim. E brincava muito, né?

 

P/2 – Dava pra montar vários times aí, né? Só de primo (risos).

 

R – Vixe Maria! Como toda família tem aqueles meio encrenqueirozinhos; quando tinha uma briga também começava a brigar todo mundo. Quando o pessoal da rua ia separar, quando ia ver era tudo de uma família só (risos). Irmão, primo ficava tudo em casa mesmo. Até as brigas ficavam em casa.

 

P/1 – (Risos). E Geovani como foi sua aí iniciação no futebol? Lá na...

 

R – Na Nova Leão?

 

P/1 – Não, não. Lá na... Ainda estamos lá na Bahia.

 

R – Estamos na Bahia. A iniciação é que menino, a gente assim não tinha assim uma preocupação com trabalho assim, né? Então pra ocupar o tempo era jogar bola. Quando a tarde estudava; então a manhã era só jogando bola. Pra ocupar o tempo mesmo e também porque eu gostava também, né?

 

P/1 – E era o quê? Era gol pequeno, era...

 

R – Gol pequeno. A gente colocava duas pedras, uma de cada lado, e a molecada ia jogar até cansar ou a mãe ir buscar lá no campo. Era assim.

 

P/1 – E você jogava de que?

 

R – A gente jogava de zagueiro, jogava de meio-campo, às vezes, dava um de artilheiro subia um pouquinho pra tentar fazer um gol pra tirar um sarro dos outros. E assim que a gente passava o dia na Bahia.

 

P/1 – E o seu pai era mestre de obra, né?

 

R – Meu pai é mestre de obra.

 

P/1 – Você também acompanhou o trabalho do seu pai?

 

R – Eu trabalhei em obra sim. Não cheguei a ser um mestre igual ele, mas eu comecei quando vim pra São Paulo em 2000. 99 pra 2000. Eu trabalhei um tempo com ele, do qual eu aprendi bastante coisa.

 

P/1 – Mas isso aonde? Aqui?

 

R – Aqui em São Paulo.

 

P/1 – Ah, o seu pai veio também?

 

R – Veio também. Meu pai morou aqui em São Paulo por muito tempo.

 

P/1 – Ah tá. Mas então vamos voltar pra Bahia ainda.  

 

R – Vamos pra Bahia.

 

P – Aí então você já contou um pouquinho da cidade, tem a festa da padroeira. Qual é a padroeira?

 

R – É o Senhor dos Passos.

 

P – Ah, Senhor dos Passos.

 

R – Mas falando em festa, lá tem várias festas, né? Hoje em dia uma das mais tradicionais, que reúne muitos artistas, muita gente famosa, que é o Festival de Verão que acontece em setembro. Esse Festival de Verão é muito famoso. E a cidade, quando chega essa época desse Festival, você não acha hotel pra ficar, não acha nada. Você tem que ir, ligar bem antecipado, marcar hotel essas coisas. Ou então se você for vai ter que ficar acampado nos campings. Ou então em praça mesmo dormindo porque você não acha nada pra alugar em setembro. Que a cidade lota mesmo, viu? Vai muita gente e a cidade fica formigando de gente. Depois tem a Festa Junina que é uma festa hoje também está entre uma das melhores do Brasil. Que o povo lá quer puxar o turista pra lá. Então quando chegam essas festas, eles ficam fazendo coisas pra a cidade lotar mesmo. Porque a cidade vive de temporada, né? A cidade hoje, ela tem quatro temporadas fortes; quatro ou cinco temporadas fortes. Então, esse tempo você tem que ganhar o máximo de dinheiro possível porque depois, quando a estação baixa, a cidade fica meio vazia.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Então essa temporada você tem que aproveitar bastante. Molecada vende cerveja nos rios, os pais guiam turistas, né? E assim vai. Pra aproveitar o máximo possível mesmo.

 

P/2 – E você começou a trabalha com o quê, Geovani, lá?

 

R – Lá eu comecei a trabalhar com padaria mesmo, viu? Comecei muito cedo com padaria; ajudante de padeiro, né? Aos 16 anos já era padeiro profissional.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É. Aos 16 anos já era padeiro profissional. Aí trabalhei até meus 19 anos de padeiro; aí depois foi quando eu me separei da minha primeira esposa e fui trabalhar com obra aqui em São Paulo já. 

 

P/1 – Vamos ficar aí na... Ele está doido pra vir pra São Paulo. Vamos ficar aí em Lençóis.

 

R – (Risos) Não, não. Vamos ficar em Lençóis. Porque ainda tem muita história em Lençóis.

 

P/1 – E aí você escolheu ser ajudante de padeiro por quê?

 

R – Ajudante de padeiro. Porque meus pais eram separados, né? Então a gente já dependia da gente mesmo pra comprar nossas roupas, a gente queria uma bicicleta a gente tinha que comprar. E como ajudante de padeiro foi um meio da gente conseguir ganhar nosso dinheirinho, né? Ai eu comecei. Eu falo “a gente” porque tem eu e meu irmão também que começamos muito cedo. Meu irmão começou com 13 e eu com 12. Então a gente precisava do nosso sustento, das nossas vaidades que todo adolescente tem, que é o quê? É uma bicicleta boa, um tênis bom. Então a gente precisou trabalhar pra ter essas coisas, né? Então aos 12 anos a gente começou a trabalhar como ajudante de padeiro.

 

P/1 – E o que faz um ajudante de padeiro?

 

R – Tudo. Desde lavar chão a panela; tudo que o padeiro não quer fazer sobra pro ajudante. A parte ruim fica pro ajudante (risos).

 

P/1 – (Risos) É uma boa definição, né?

 

R – É limpar bandeja, é lavar panela, essas coisas. Mas foi bom, eu não tenho do que me queixar não, porque nessa idade eu já tinha a minha bicicleta própria que eu mesmo comprei com o meu dinheiro. Já tinha meu som bom; e roupas boas que todo o menino da cidade quer ter, né? Uma roupa boa, um tênis de marca. Então não faltavam essas coisas pra gente porque começamos cedo pra ter tudo o que a gente queria.

 

P/1 – E vem cá, pra quem vai ler depois a sua entrevista aí e não sabe, nem eu mesmo sei. Você poderia contar aqui como é que você faz o pão? Qual é o processo até ficar o pão bonitinho ali na prateleira da padaria?

 

R – O processo até ficar bonitinho. A gente põe, mistura farinha, água, né? O pão é muito simples. O pão francês é uma coisa muito simples de fazer. Que ele vai quatro ingredientes só que é: a farinha, a água, o açúcar, fermento e a química.

 

P/1 – Açúcar?

 

R – Vai um pouquinho sim; vai um pouquinho de química. Alguns põem um pouco de margarina, outros põem um leite em pó, mas não é muito necessário não, né?  Então o processo é esse: você faz a massa, deixa descansar um pouquinho em cima da mesa. Aí você começa a cortar no formato do pão francês, né? Aí depois que você corta todo o pão, está na bandeja, no carrinho, você vai esperar ele crescer até dar o ponto de ir pro forno. Pão francês é muito simples de fazer. Tem aqueles segredozinhos que o profissional tem que é pra tirar bonitinho, que é pra deixar diferenciar um do outro, de um padeiro pro outro. Todo padeiro tem o seu toquezinho pra não ficar tudo igual, né?

 

P/1 – Entendi. Aí, quer dizer, mas tem o processo do forno, né? Você monta o pão, depois você põe no forno.

 

R – É. Você monta ele, depois que você enrolou ele, que ele já está no carrinho, você vai esperar ele crescer, né? Ele cresce aproximadamente uma hora e meia até dar o ponto de ir pro forno. Aí quando ele descansou o suficiente, aí você dá o corte nele e ele vai pro forno.

 

P/1 – Por que tem que dar o corte?

 

R – Pra que ele fique abertinho assim, né? Você passa a giletezinha, aí você põe no forno, você dá o vapor nele, aí ele cresce mais um pouquinho, aí dá aquela cor avermelhada e fica abertinho. Então é preciso que dê o corte nele.

 

P/1 – Ah, entendeu, né? (Risos)

 

R – É onde fica a beira do pão também, né? Senão fica aquele negocinho assim feio, você dá o corte que ele fica abertinho; fica muito bonito.

 

P/1 – E, quer dizer, esse corte é uma característica do pão francês, né?

 

R – É. Uma característica do pão francês. Alguns padeiros inventam um pouquinho, outros fazem o tradicional mesmo, alguns dão diferente pra ficar bonitinho. Isso é um capricho de cada um. Mas é necessário o corte.

 

P/1 – E então você ficou sete anos lá na padaria?

 

R – Sete anos.

 

P/1 – Até os 19 não é isso?

 

R – Isso. Até os 19.  

 

P/1 – E você já tinha vindo pra São Paulo ou não? Antes disso?

 

R – Vim pra São Paulo. Já tinha vindo já. Eu vinha em 90; a primeira vez que eu estive em São Paulo foi em 96. Mas passei só um ano só. Naquela época eu não me adaptei a São Paulo, né?

 

P/1 – Ah, mas não é mole não, né? Nós que somos mineiros aqui, né Gabriel?

 

P/2 – Não é fácil não.

 

R – E eu era muito novo também, né? Muito novo. E naquela época eu era casado, casei muito novo também. E sentia muita falta dos parentes, da família, né? Porque lá a gente não tinha uma vida ruim. Então qualquer coisinha que aqui a gente sentia dificuldade a gente já pensava lá. Então a primeira oportunidade que teve, passamos um ano só e quando surgiu uma oportunidade: “Ah, vamos embora. Vamos esquecer São Paulo, né?” Aí foi quando a gente retornou a Bahia; em 99.

 

P/1 – Mas, Geovani, me conta uma coisa, antes de você vir a São Paulo como você imaginava que São Paulo era?

 

R – (Pausa) A gente que está na Bahia a gente ouve muitas histórias, né, de São Paulo. Porque o pessoal que veio, comprou um carrão, outros vieram compraram uma casa, que ganha dinheiro, né? A gente ouve muito isso lá. Então você imagina que você vindo pra cá você vai conseguir isso tudo também. Na verdade você, ás vezes, deixa até uma oportunidade boa lá com essa ilusão daqui, quando você chega aqui você vê que é um pouco diferente, né? Porque você chega você tem um aluguel pra pagar, você tem uma despesa muito alta; então você vê que o povo fala, mas é ilusão mesmo, viu?

 

P/1 – É a cidade mais cara do Brasil (risos).

 

R – É. Então é ilusão mesmo. Mas também tem aquele caso: o pessoal fala que quem bebe água daqui não esquece, né? Então está sempre voltando pra aqui. Qualquer apertozinho que dá lá você: “Ah, vou pra São Paulo que lá é ruim, mas pelo menos a gente tem um empregozinho”. Então está sempre essa ida e volta.

 

P/1 – E quando você veio você veio trabalhar com seu pai, foi isso?

 

R – Quando eu vim em 99 foi com meu pai. Nós trabalhávamos em uma obra. Aqui na Lapa. Foi uma época muito, muito fria, né? Estava muito frio nesse tempo que eu vim. E quando eu entrei nessa obra eu falei: “Meu Deus do céu! O que é que eu estou fazendo aqui dentro?” (Risos). Apesar de eu estar trabalhando com o meu pai, mas o velho era carrasco. Não dava moleza não, viu?

 

P/1 – É?

 

R – Não dava moleza mesmo. Tinha que acordar seis da manhã, né? Acordava, já começava a trabalhar. E ele estava com oito peões trabalhando com ele, mas eu por ser filho não tinha privilégio não. Trabalhava bastante também e ele não dava moleza não. Era muito frio, tinha um rapaizinho que trabalhava com a gente que ele ia trabalhar, ele colocava uma meia até o joelho, aí depois colocava uma bermuda abaixo do joelho pra cobrir a perna todinha e uma camisa de manga comprida. Pra quando ele acabar o serviço ele ter o trabalho só de lavar a mão e o rosto. Pra nem banho tomar mais, de tão frio que era.

 

P/1/P/2 – (Risos)

 

R – A gente não tinha chuveiro quente, não tinha nada. Aí ele fazia isso. Ele colocava um meião aqui, depois uma bermuda e acabava o serviço ele: “Vocês vão tomar banho numa água fria dessa? Eu vou só lavar meu rosto e minha mão, já tomei meu banho já”. Aí lavava o rosto e já era o banho já. Nem banho tomava. Era muito frio nessa época. A gente acostumado com um calor de 36 graus e aí chega aqui você pega uma temperatura de dez graus; você já... dez, oito graus, você já sente bastante, né?

 

P/1 – Estranha, né?

 

R – Estranha, nossa, estranha. Tinha um tio nosso que trabalhava com a gente também que ele era muito brincalhão e ele até comentava: “Moço, eu vou me embora dessa cidade porque aqui nem uma fruta você pode saborear”. Ele falava desse jeito. Porque como ele comprava uma fruta, quando ele ia comer estava gelada. Aí quando ele batia nos dentes ele não conseguia comer essa fruta e falava: “Vou-me embora pra minha Bahia porque nem uma fruta eu posso comer nessa cidade” (Risos). Então é até motivo de brincadeira esse tio meu porque era uma pessoa muito brincalhona, né?

 

P/2 – Tinha mais parentes aqui?

 

R – Tinha. Meu pai sempre foi uma pessoa que toda a obra que ele pega primeiro que ele pensa em pôr pra trabalhar é os parentes, né? Então nessa obra a gente estava com oito pessoas tudo da família. Seriam dois irmãos dele e o resto tudo primos. Sobrinho deles e primos meus. Então tudo da família; tudo da família. Mas o velho é carrasco, ele é durão pra trabalhar com ele. Gente boa pra caramba, mas é muito durão. Ele, se vacilar com ele, ele pega no pé mesmo.

 

P/1 – É. Pai é pai, né? (Risos)

 

R – Ele já foi mestre de obra, é mestre de obra hoje. Mas ele também vem daquele tempo do garimpo, né? Ele foi gerente de garimpo na Bahia. Então ele tem um pouco assim daquele povo durão assim. Que ele não dá moleza mesmo. Até hoje os filhos com 30 anos, se vacilar com ele, ele...

 

P/1 – E ele mora aqui?

 

R – Hoje ele mora em São Paulo. Veio se tratar, ele estava com problema de coluna, veio se tratar. Aí acabou arrumando uma mulher e ficou por aqui mesmo.

 

P/1 – E vem cá, então você veio, trabalhou com ele. Aí você voltou pra Lençóis.

 

R – Isso.

 

P/1 – Aí você ficou mais quanto tempo lá?

 

R – (Pausa). Não. Dessa vez que eu vim, que eu vim trabalhar com ele, eu fiquei em São Paulo de vez, né? De 2000 pra cá, de 99 pra cá, eu fiquei de vez. Eu nesse tempo vou na Bahia só a passeio.

 

P/1 – Ta. Mas então, deixa eu refazer a pergunta: como é que você parou de trabalhar com o seu pai e foi parar na padaria Leão Coroado?

 

R – Como toda a família tem aqueles pega pra capar de vez em quando, né? Uma discussãozinha à toa com o meu pai, e quando ele veio me dar uma bronca, e eu sou homem feito achei que, né? Que ia responder e ele respondeu e aí ele não gostou e discutimos um pouquinho. Aí eu falei: “Ah, quer saber de uma coisa? Eu vou voltar pra minha profissão antiga. Vou tentar a padaria de novo porque obra é bom, mas eu estou cansado de acordar de manhã, mexer massa”. Aí você sai, às vezes, até pra namorar, você esta com a mão toda grossa. Falei: “Não, vou parar com obra, vou voltar pra minha profissão”. Aí voltei pra padaria de novo. Aí comecei a trabalhar de padeiro de novo.

 

P/1 – E já foi nessa, não? Foi em outra?

 

R – Não, nessa não. Foi em outra. Outra que eu trabalhei de padeiro, né? Ai nessa eu entrei já de salgadeiro.

 

P/1 – E como é que você veio parar na Vila Beatriz?

 

R – (Pausa). Padaria é o seguinte: a gente tem muita amizade. Então a gente, sai muita gente de uma padaria, vai pra outra. A gente pega muito conhecimento, né? Ás vezes até as próprias empresas que fornecem pra outras padarias que são os vendedores, os técnicos, né, que vão dar assistência pra gente; eles começam a falar da gente pro dono de padaria que tem uma pessoa que ele trabalha muito bem, que ele faz isso, que ele faz aquilo. Então você acaba ficando um pouco conhecido nessa área. Aí foi quando eu saio da outra padaria porque eu não estava satisfeito com o salário, eu não estava satisfeito; eu comentei com um amigo meu que ele é técnico, né? Da Gradina, que é uma empresa que fornece produto pra padaria. Aí ele falou: “Vou arrumar um emprego pra você em padaria boa”. Eu falei: “Olha, arruma mesmo que eu estou precisando”. Aí um dia eu estou em casa sossegado e o telefone toca. Quando eu atendo é ele: “Olha, vai amanhã fazer uma entrevista na Padaria Nova Leão, Alto de Pinheiros, que está precisando”. Aí eu: “Mas eu vou conversar com quem?” “Não; só chegar lá, falar que o Leandro que te mandou que já sabe quem é você, já sabe que você é bom no que você faz e já está empregado já”. Aí eu fui lá. Quando eu cheguei lá, eu conversei com o Carlos que é o filho do patrão. Aí quando eu conversei com ele, ele falou: “Quer tirar essa roupa agora e quer começar a trabalhar? Põe o avental da firma e começa a trabalhar. Você foi muito bem apresentado aqui e já sei um pouco do seu serviço; já pode começar a trabalhar agora mesmo”.  “Pô, eu tenho que avisar o pessoal, né? Pegar uma roupa de trabalho”. “Não, tem roupa aí”. Aí ele me eu o avental, eu disse: “Está bom”. Fui no vestiário, me troquei, já comecei a trabalhar.

 

P/1 – E você já começou como salgadeiro?

 

R – Nessa época a padaria Nova Leão estava passando por reforma, né? Por uma reforma muito grande. E eles estavam com uma dificuldade em confeiteiro, né? Porque pegaram um confeiteiro bom e o confeiteiro achava que estava muita bagunça por causa da reforma então ele não ficava. Foi quando passou três confeiteiros bons e nenhum ficou. Ai o seu Pontes, que é o patrão, chegou e me perguntou: “Você pode segurar a barra pra mim até eu arrumar outro confeiteiro?” Eu falei: “Seguro. Seguro porque eu entendo um pouco de confeitaria também, que a gente é obrigado a saber um pouco de cada coisa”. Porque você ser só padeiro você não vai arrumar emprego, né? Tem que saber um pouco de tudo. Aí eu falei pra ele: “Não, uns 20 dias eu seguro até o senhor arrumar outro confeiteiro”. Aí eu fiquei naquela: fiquei de confeiteiro e de salgadeiro. Como estava reformando a padaria, o movimento não estava tão assim grande, aí eu tinha mais dois ajudantes que davam uma força. E eu fiquei fazendo serviço de confeitaria e de salgadeiro.

 

P/1 – E o que o confeiteiro faz?

 

R – O confeiteiro, o confeiteiro é uma peça chave na padaria, né? Porque ele faz de bolo, decoração, a doces finos a tudo; sorvetes, mousses, né? Um confeiteiro bom mesmo tem que saber tudo isso.

 

P/1 – E lá na Ilhéus você passou a fazer o quê? Bolos?

 

R – Passei a fazer bolos, passei a trabalhar com massas doces, né? Pão doce, Catarina, essas coisas de massa doce. Fazer bolos, tudo de confeitaria. Só que não como um profissional, né? Assim, só como um quebra galho. Até ele arrumar um confeiteiro e eu ficar só de salgadeiro. E o rio passa.

 

P/1 – Entendi. Mas então olha, dá uma receita de bolo aí pra gente.

 

R – Uma receita de bolo?

 

P/1 – É. Um bolo que você gosta.

 

R – Ah, um bolo que eu gosto. Eu gosto muito do bolo de... Que é um bolo simples, fácil e rápido de fazer. Que é o bolo de fubá. Eu faço ele com meio quilo de fubá, meio quilo de farinha de trigo, você põe uma dúzia de ovos, um quilo de açúcar, meio quilo de margarina, um litro de leite. Você bate ele e sai um bolo maravilhoso.

 

P/1 – Só isso?

 

R – Só isso.

 

P/1 – Esse aí gosta do bolo de fubá, né?

 

P/2 – (Risos) Só que ele não contou o segredo, né? (Risos)

 

R – O segredo, o segredo é no preparar. Que você tem que conhecer o ponto, né? Porque não é só jogar e bater que não vai sair nada. Você vai batendo por etapa, né? Primeiro você bate os ovos com a manteiga e o açúcar. Vai batendo até ficar uma massa cremosa, tipo um mousse assim; vai ficar cremoso. Aí você vai dando o ponto aos poucos até chegar o ponto de você jogar a farinha que é a etapa final. A farinha com o fermento e o leite. Aí primeiro você bate o açúcar e a manteiga e vai jogando os ovos aos poucos. Até montar aquela massa homogênea, cremosa. Aí jogar a farinha por último. É simples demais pra fazer. É o bolo que eu mais gosto é esse; em casa eu sempre faço esse bolo. Mas tem vários. Eu tenho uma receita de bolo, tenho pra mais de 300 receitas de bolo. Só que esse você chega em casa, está com preguiça de montar uma coisa assim fina; você: “Ah, vou montar um bolo pro final de semana”. Você bateu lá rapidinho, em meia hora você faz. Essa receita aí que eu dei, se você for fazer na forma de 400 gramas ele vai dar seis bolos, né? Seis a sete bolos. Ou faz em casa, faz na bandeja grande que dá um bolo grande. Dá pra comer todo dia, tomar café de manhã.

 

P/1 – Oh beleza, hein?

 

R – Simples, prático, rápido.

 

P/1 – E Geovani, então você ficou aí segurando a onda de confeiteiro uns 20 dias e depois caiu pro salgado.

 

R – Isso, por 20 dias. Aí quando começou o confeiteiro, que é um confeiteiro muito bom, né? Porque ele era, hoje ele é muito conhecido; ele trabalhou com, ele trabalhou com... Como é que chama aquele dono de padaria famoso?

 

P/1 – Benjamin Abrahão?

 

R – Benjamin. Estava muito tempo com o Benjamin Abrahão, né?

 

P/1 – Padaria Barcelona, né?

 

R – Isso. Trabalhou com o Madeira. E ele caiu lá nessa padaria de paraquedas, né? Ele caiu lá assim meio que... Confeiteiro de nome, né? Caiu na padaria que estava ainda no fim da reforma. Ele achou meio bagunçado assim, aí ele chegou em mim e me chamou de baiano, né? “Baiano” (Risos). É baiano. “Eu estou começando agora, está muito bagunçado aqui. Você vai ter que me ajudar um pouco aí porque eu estou meio, não sei onde ficam as coisas, eu não sei onde fica nada”. Aí eu falei: “Olha Araújo, eu fico com você aí até você adaptar a casa. Pode deixar que o que você precisar eu te ajudo”. Tinha lá o ajudante dele lá, mas que era um ajudante que o rapaz não conseguia nem cortar morango enquanto ele montava uma torta; o rapaz não dava conta, né? Então eu tinha que dar uma força pra ele. Aí ele ficou, uns três meses e eu fiquei dando força pra ele até ele se adaptar. Quando ele se adaptou, aí foi quando o movimento de salgados aumentou e eu passei a ficar só no salgado mesmo. Só faço salgado. E o Araújo que também é muito bom, mas também não ficou na padaria. Não sei por que não deu certo, acho que problema com a direção da padaria. Ele era muito nervoso e não ficou na padaria. Porque padaria é muito bom, mas você tem que ter muito jogo de cintura porque tem aquele probleminha que acho toda firma tem, né? Assim de funcionários. É um querendo puxar o tapete do outro, é um falando mal do trabalho do outro; os próprios colegas de trabalho fazem isso. Então ele não teve jogo de cintura de administrar isso. Aí então ele passou só três meses e foi embora.

 

P/1 – E daqui a pouco nós vamos falar muito de futebol, né? Mas ainda estamos mais em padaria.

 

R – Isso. Falar de padaria porque tem muita coisa pra falar ainda. Se quiser voltar pra Bahia, pode voltar que...

 

P/1 – Não, a gente volta. Mas olha só, quais são os salgados base que você faz? Coxinha, empada?

 

R – Olha, isso. Esse é o básico mesmo, né? Que acho que todo comércio que trabalha com salgados se não tiver a coxinha, a esfiha e o pastel o pessoal já vai logo nisso, né?  Que é o básico, é aquele que passa o peão de obra lá e gosta, passa uma pessoa diferente assim de outro nível vai lá: “Ah, vamos comer uma coxinha?” Come. E tem também outras massas mais caras, mais refinadas que é, você vai trabalhar com massas folhadas, massas semi folhadas que passa a ser um salgado mais caro. Que a gente faz, tem o cuidado de fazer também. Mas o básico mesmo que é a coxinha, a esfiha, o bauruzinho e o pastel. Isso aí não pode faltar; se faltar está faltando alguma coisa mesmo. A pessoa olha assim e não está completo.

 

P/1 – E a empada? Você faz a empada lá também?

 

R – Faço a empada.

 

P/1 – É a receita lá dos portugueses ou é uma receita sua?

 

R – Não, é receita minha mesmo, né? (Risos).

 

P/1 – Conta aí como é que é a receita da sua empada.

 

R – A empada tem bastante receita. Tem pessoas que inventam muitas coisas; tem gente que põe, trabalha com refrigerante nela, com guaraná gelado.

 

P/1 – Guaraná?

 

R – Guaraná na massa da empada. Alguns põem, né? Mas eu procuro trabalhar com tudo mais simples e mais prático, né? Mais prático. A minha massa de empada mesmo, eu só uso nela farinha de trigo, a banha, gemas de ovos, gemas de ovos; água gelada tem que botar bastante água. Eu só uso isso e o sal. Só. Mas tem vários tipos de massa.  Eu sei pra mais de 20 receitas, mas a que eu trabalho é essa que é a massa muito boa que ela é rápida. Você pode fazer ela e guardar na geladeira usar depois de três, quatro dias ela fica boa do mesmo jeito.

 

P/1 – E o recheio você faz de quê? Frango?

 

R – Frango, palmito, camarão. Vai de acordo com o que a casa pede. Se ela quer de camarão, compra o camarão que eu faço (risos). Se quer só de palmito, só de palmito. Mas normalmente eu trabalho com ela na padaria só de palmito e de frango. Que é a mais barata, a mais prática, né?

 

P/1 – É, camarão já é uma coisa mais de luxo, né?

 

R – É. Se quiser de camarão pode comprar dois quilos de camarão que eu vou fazer a empada. “Não, deixa o camarão de lado; vou fazer a tradicional mesmo” (risos). Porque vai sair mais caro, né? E a gente tem que trabalhar com coisas boas e baratas também. Senão fica inventando muito não dá certo.

 

P/1 – E você chegando em São Paulo você escolheu um time daqui pra torcer? Ou você continuou fiel ao Vitória lá?

 

R – Olha, sempre que me perguntam isso eu falo, o pessoal até fala: “Mas você em São Paulo não torce pra nenhum time de São Paulo?” Não torço pra clube nenhum de São Paulo. Eu torço pro Vitória da Bahia e torço pro Flamengo no Rio. Inclusive até motivo de gozação quando eu falo com o povo: “Mas por que torcer pro Rio se você está em São Paulo? É porque na Bahia só passa jogo do Rio, lá só pega Globo do Rio?” Eu falo: “Porque eu não sei, mas time a gente não tem assim uma explicação assim pra falar, né? Você gosta e gosta”. Eu torço pra dois times.

 

P/1 – É, são rubros negros, né? Todos dois, um uniforme parecido.

 

R – É, Vitória e Flamengo. Agora aqui em São Paulo eu gosto de todos os clubes porque é onde está o melhor futebol, é em São Paulo, né? O melhor futebol do Brasil está em São Paulo. Então se passa um clássico Corinthians e Palmeiras eu vou assistir e vou gostar do mesmo jeito porque é um jogo bonito. Então eu não perco jogo nenhum: São Paulo, Corinthians, Palmeiras. Mas o pessoal fala: “Está torcendo pra quem?” Eu falo: “Eu estou torcendo por uma jogada bonita”. Aí quando passa uma jogada bonita eu fico assim admirado porque foi bonita a jogada. Aí o que ganha eu vou só tirar sarro dos outros (risos). Eles não têm como tirar meu sarro porque eu não torço pra nenhum, então.

 

P/1 – E como é que você se tornou torcedor do Vitória?

 

R – Do Vitória porque eu sou baiano, né? Baiano da gema mesmo. E tinha uma vizinha minha que ela torce pelo Bahia, é doente pelo Bahia. Essa mulher ficava sempre usando roupa do Bahia. Tudo que ela tinha era do Bahia, né? Camisa, short. E ela é muito minha amiga. E eu não gostava assim muito daquele jeito dela de tirar sarro dos outros. Aí pra eu me tornar assim um pouco inimigo dela, no futebol, lógico, né? Eu passei a torcer pro Vitória. Pra gente ter o que discutir, né? “Vou ter o que discutir com essa negona porque ela é muito tirada”. Aí comecei a torcer pro Vitória e a paixão cresceu. A paixão cresceu que foi onde eu fui pra Salvador assistir o jogo, assistir um Ba-Vi lá. Inclusive até tomei uns tapas lá, né? Porque essas torcidas aí se encontravam lá e a gente saiu, né? Brigamos ainda.

 

P/1 – Mas conta desse Ba-Vi aí, quem jogava no Vitória essa época?

 

R – Ah, o Vitória. Eu sou meio ruim pra guardar nome de jogador, viu? Eu não sei assim falar quem jogava assim o bom mesmo não. Eu sei que eu ia, tinha que ir pro Gere eu ia.

 

P/1 – E quais eram os jogadores aí do Vitória que marcaram aí você, que era seus ídolos?

 

R – Que marcaram mesmo (pausa). Teve vários, né? O Edílson passou pelo Vitória, o Vampeta passou pelo Vitória também no início de carreira. Então esses jogadores, apesar de que eu os vi mais em outros clubes. Mas não...

 

P/1 – Petkovic era dessa época também?

 

R – Era também. Teve também o, como era aquele? Oséias também, né, que jogou no Vitória. Então jogadores que eu vi mais em outros clubes, mas que quando chegou a vestir a camisa do Vitória esses marcaram, né? Foram os mais foram comentados assim, foram esses mesmo de nome. Teve outros assim que, mas esses de nome foram esses mesmo.

 

P/1 – Sei.

 

P/2 – E você vai em muito estádio aqui também?

 

R – Não, aqui eu não vou porque tenho medo na verdade, né? Porque é muita briga, né? Já tive vontade de ir; o pessoal: “Ah, vamos lá!” Os amigos meus me chamam. Inclusive já compraram até ingresso pra eu ir. “Vamos assistir um clássico aí”. “Rapaz, sinceramente”. Não tenho vontade de ir em estádio aqui em São Paulo. Já fui em shows em estádios aqui, mas pra assistir jogo não. Eu sou meio, eu fico assim com um pouquinho de receio de ir e vestir uma camisa de um clube, aqui não dá, né? Você vê que não dá, você vê que não dá. E mesmo assim eu sou aquele baiano meio sossegado; eu não gosto de muito aperto, de muita gente assim, dá aquela ansiedade, aquela meia... Então eu nunca fui não.

 

P/1 – E me conta: como é que surgiu a idéia de criar o time lá da padaria?

 

R – A padaria. A pessoa que criou esse time ele nunca jogou no time pra ser sincero (risos). Ele criou, mas nunca jogou. Só fez o fogo, né? O Zé Carlos é o nome dele. Todo mundo da padaria é muito amigo dele, que ele trabalhou com a gente. Todo mundo é muito amigo dele. E começou o time da padaria assim: todos funcionários de padaria têm uns pneuzinhos. Uma barriguinha a mais, né? Aí: “Gente, vamos tirar um pouquinho essa barriguinha, vamos bater um futebol?” Aí: “Mas aonde rapaz? Jogar o futebol aonde? Aqui a gente não tem quadra aqui perto, vai ter que alugar uma quadra”. Ele: “Não, eu vou conversar com o comandante do batalhão vê se ele empresta pra gente jogar de quarta e sábado”. Aí a gente: “Vai lá. Se ele emprestar a gente vai, monta um time e vamos começar a jogar”. Aí começamos. Ele foi lá, conversou com o comandante, o comandante liberou pra gente jogar. E ele fez aquele fogo todo, né? Inclusive fez rifa pra arrecadar dinheiro pra comprar camisa, comprar colete. Aí teve um colega nosso que emprestou o colete pra gente e aí começamos a jogar. Mas ele mesmo nunca chegou a ir nem assistir. Só fez a fogueira e saiu fora, né? Aí tinha ocasião que ele pegava a bola assim e ficava olhando assim com a bola, batia umas embaixadinhas e falava: “Hoje eu vou”. Mas nessa época ele namorava uma menina que trabalhava no caixa e era o mesmo horário dele, né? E ele pra não deixar ela ir sozinha pra casa até o ponto de ônibus, ele nunca ia jogar bola com a gente por causa disso. Às vezes ele vestia o short pra ir jogar e ela passava: “Oh, estou indo pra casa”. Ele tirava a roupa e ia atrás dela. Então não chegou a jogar com a gente, só fez dar a força. Agora ele tem que ser sempre lembrado porque foi ele que começou a montar o time, né? Ele falou: “Fulano vai jogar!” Incentivava mesmo. Ele era uma pessoa que falava: “Vamos jogar”. Ele só não jogou, mas incentivava muito a gente. Aí a gente começou assim: oito pessoas começavam a jogar jogando banal, jogava banalzinho ali. Até começamos a marcar o primeiro jogo contra.

 

P/2 – O que é o banalzinho?

 

R – Banal, uma coisa assim meio festa assim. Sem muita responsabilidade.

 

P/2 – Uma pelada.

 

R – É. Uma coisa mesmo por jogar. Aí foi quando a gente marcou o primeiro contra que a gente perdeu. A gente perdeu, esse primeiro jogo a gente perdeu. Aí a gente ficou assim meio...

 

P/1 – Perdeu de muito?

 

R – De muito, né? (Risos) Ficamos com vergonha da gente mesmo. Que a gente estava ali se achando o máximo já, né? Porque já estava treinando junto. Tem dois caras do nosso time que jogam bem. E aí nós estávamos nos achando muito bons. Foi quando a gente perdeu pra esse time. Aí baixamos a cabeça, ficou assim meio esmurecido. Aí: “Não. Vamos dar o troco, vamos descontar essa surra”. Aí tem uma cliente da padaria que emprestou o uniforme do filho dela pra gente jogar, aí quando ela emprestou, quando a gente vestiu a camisa do time, era um time completo com calção, short, meião, tudo completo o jogo de camisa. Aí foi quando a gente começou a criar mais assim força, né, pra comprar o nosso próprio jogo de camisa. E não deixar o time morrer. Aí começamos a treinar mais, treinamos bastante. Até que quando a gente pegou esse mesmo time que a gente perdeu pela primeira vez, aí a gente deu uma goleada neles de 24 a 7.

 

P/1 – Uau! (Risos)

 

R – 24 a 7. Que os homens saíram de cabeça baixa, saiu de cabeça baixa, saiu assim sem entender aquela goleada toda. A gente estava com muita vontade de descontar aquela surra. Aí foi daí que o time ficou mais unido, ficou mais unido. “Pô, o time é bom. Vamos começar a levar mais a sério, né?” Levar mais a sério; começar a treinar bastante. Aí depois dessa partida, de 15 em 15 dias, às vezes até menos, a gente marca um jogo contra, né? Marcar um jogo contra, vamos. Aí estamos com um ano que não perde.

 

P/1 – Um ano?

 

R – Um ano que não perde. Já fizemos nesse um ano uns 20 jogos contra e não perdemos nenhum.

 

P/1 – Caramba!

 

R – O time está bem entrosado e está criando força. Hoje temos o presidente do time, né? Que é o Valter do Santos, né? Que é uma pessoa que o pessoal fala: “Põe o Valter pra ser o presidente porque ele é muito comunicativo; ele busca as coisas que a gente precisa. Ele pede patrocínio, ele pede bola, ele pede rede, ele está sempre correndo atrás; uma pessoa que dá muita força pro time”. E quando nós marcamos um jogo contra que o atacante faz um gol ele vibra como uma criança. Ele sai dando cambalhota, ele põe apelido no jogador pra incentivar, pra não deixar aquela coisa cair, né? Então ele dá muita força pro time. Hoje nós temos dois jogos de camisa, dois jogos completos, né? Estamos lutando pra um agasalho já, estamos lutando por um agasalho. E o pessoal da região só fica com inveja da gente, quando vê a gente passando pra ir pra quadra com uniforme, ou vermelho, que é o primeiro, ou verde, que é esse mais recente, o pessoal fica assim: “Pó, mas o time tem nome mesmo, viu?” (Risos).

 

P/1 – Qual o nome do time?

 

R – É Leões da Vila Beatriz; Leões da Vila Beatriz. Uma coisa que eu achei muito interessante e bacana foi que na semana passada um colega nosso que trabalha e joga com a gente, ele estava no ponto de ônibus e ele viu quatro meninas olhando pra ele e dando risada. Aí ele ficou assim: “Mas está rindo de mim por que, sabe? Eu estou sujo? Eu estou engraçado? Eu estou feio?” E ficou assim na dúvida, né? Aí ficou meio sem graça e elas continuaram rindo e olhando pra ele. Aí se aproximou dele e perguntou: “Você é o Wagner, né?” Ele falou assim: “Sou. Por quê?” ”É que eu vi você no jornal. Você é do time da padaria, né?” “Sou”. Aí ele contou pra gente e a gente não acreditou muito, né? “Ah, acho que esse cara está mentindo, viu?” Aí no domingo passado agora nós estávamos indo pra outro jogo, aí passou uma madame de carro, né? Estava eu a minha esposa, meus dois filhos. Passou uma madame de carro e parou rente a mim. Quando ela parou, ela me perguntou: “Você é do time da padaria?” Eu falei: “Sou”. Aí ela fez assim, deu jóia pra mim e falou: “Parabéns, viu? Vocês estão de parabéns, estão representando o bairro. Muito bonito isso”. E foi embora, então achei muito legal isso aí.

 

(troca de fita)

 

P/1 – Bem, deixa eu fazer umas perguntas porque depois muita gente, às vezes, que nem entende de futebol vai ver a entrevista. Então vou te fazer umas perguntas meio óbvias. Então eu queria que você contasse, vocês jogam futebol de salão?

 

R – Futebol de salão.

 

P/1 – Então queria que você contasse quais são as principais diferenças aí do futebol de salão pro de campo e por que você gosta mais do salão?

 

R – Bom, o salão porque, tipo assim, na quadra, como eu falei, a quadra emprestada e é perto da padaria, né? Então a gente já tem aquela facilidade de acabar o trabalho e ir direto pra quadra que é pertinho, né? E salão é um jogo que a gente combina nós mesmos. Não tem muita regra. Por exemplo, quando a gente vai jogar contra a gente entra na hora que quer, sai na hora que quer. Só avisa a pessoa que está no time contra que está saindo uma pessoa, está entrando outra, né? Então não tem muita. O nosso meio a gente não tem muita regra, não segue muita regra não.

 

P/1 – E você joga de?

 

R – Eu jogo de zagueiro. Mas quadra a gente não tem muita posição. Quadra você tem que ter disposição pra você correr a quadra toda porque não tem uma pessoa fixa em uma posição só, né? Então você joga na frente, você joga atrás. Quadra você não tem muita posição fixa. Mas eu jogo mais no zagueiro.

 

P/1 – E qual o seu estilo de jogo assim como zagueiro? Você é mais clássico, joga mais duro?

 

R – Depende do jogo. Quando é aquele jogo que está rachando mesmo e precisa ganhar e você não pode brincar. Então é pegar a bola e soltar rápido. Quando o adversário é mais fraco a gente tenta também fazer um número, dar um drible, tenta dar um chutezinho mais ousado pra tentar fazer um gol, né?  Mas quando é um jogo difícil é aquela: pegou, tirou da área, se perder dali sabe pra onde vai. Só quer é fazer o gol.

 

P/1 – (Risos) É isso aí.

 

R – Senão complica, né?

 

P/1 – E você mesmo jogando de zagueiro já fez gol?

 

R – Faço gols.

 

P/1 – Conta a história de alguns gols aí pra gente.

 

R – Olha, essa história é a história do jogo no Taboão, é história do Taboão. E sempre entra aqueles nervosinhos, né? Que a gente escolhe pra tentar definir logo o jogo e joga assim. A gente escolhe, eu vou citar o nome deles: Wilson, o Bagre, o China e o Pedrosa. Esses quatro são os que têm mais domínio de bola. Então quando a gente vai jogar contra a gente faz o seguinte: “Olha, joga vocês quatro primeiro porque vocês vão abrir uma vantagem grande porque vocês são os melhores. Pra abrir vantagem, pra depois todo mundo ficar entrando sem muita responsabilidade; que são aqueles que não têm muito domínio de bola, né?” Que aí no caso um mais gordinho, que não corre muito. Então todo mundo. A nossa prioridade quando vai jogar bola é o seguinte: todo mundo do time tem que jogar; não importa se vai perder ou não, tem que jogar porque nós somos um time. Os melhores entram pra abrir uma vantagem, depois entra aqueles, aqueles você sabe, né? E joga todo mundo. E tem um jogo marcante pra mim que foi no Taboão, por quê? Nós estávamos perdendo por, nós estávamos perdendo por quanto meu Deus? Sete a quatro, sete a quatro. E estava aquele jogo muito disputado porque a quadra deles estava lotada de gente; tinha muitos torcedores, né? Então a gente queria sair dali bonito, ninguém queria sair dali perdendo, né? Eu estava no banco de reserva, eu estava até meio assim tímido pra jogar. Aí entrava um, não dava certo, entrava outro, não dava certo; aí eu ouvi o Francisco falou: “Geovani, você vai entrar”. Falei: “Ah, não vou entrar não. Porque os melhores estão indo e não estão resolvendo nada. Eu não vou entrar não, porque deixa eles tentarem empatar primeiro, depois eu entro”. Ai foi quando, eu não me lembro quem, mas alguém dizia: “Geovani, você vai ter que entrar de qualquer jeito. Não tem mais como mudar”. Os melhores estavam todo mundo nervoso, já estavam chutando bola em parede, já estava brigando entre si mesmos, né? Então já estava dando como perdido. Aí foi quando eu entrei, eu entrei. A primeira bola que eu peguei eu fiz um gol. Na primeira bola, eu fiz um gol.

 

P/1 – Ah! É mesmo? Como é que foi o gol?

 

R – Ah?

 

P/1 – Como é que foi o gol?

 

R – Foi uma bola de lateral, o cara cruzou pra mim, eu peguei de primeira e fiz o gol. Aí todo mundo ficou meio assim, né? Aí até um senhor que estava no banco comentou: “Mas um cara desses estava de reserva?” Até comentou, né? Aí o pessoal começou a gritar meu nome, né? “Vai Geovani! Vai Geovani! Você está descansado”. Aí foi quando eu peguei a segunda bola, passei pro Wagner, ele indicou o cara e deu o gol pra mim.  Quando ele devolveu, eu chutei e daí o goleiro aceitou. Então dois gols eu já tinha feito.

 

P/1 – Sete a seis.

 

R - Sete a seis. Aí eu peguei a bola do meio de campo, do meio de campo, o cara passou pra mim rasteirinha assim; eu peguei de primeira e fiz mais outro gol. Aí atrás estava empate, estava empate e aí já estava aquela empolgação toda. E olhando o placar e eu já me cresci também lógico, né? Com três gols, três gols seguidos eu me cresci; eu me cresci e passei a ser o homem de confiança do time naquele momento. Toda bola que o pessoal pegava só lançava pra Geovani. Aí foi quando sobrou uma rebatida de bola lá que a bola entra ou não entra; sobrou pra mim. Eu tirei do zagueiro e mandei pro gol. Aí o goleiro aceitou de novo; quatro gols eu fiz seguido.

 

P/1 – Nossa! (Risos)

 

R – Aí ninguém acreditou. Nem o pessoal do time acreditou. Falou: “Geovani, você hoje está inspirado mesmo. Você tomou o quê? Você tomou o quê?” Eu falei: “Nada. Quando o time precisa a gente tem que ajudar, né?” Eu fiz quatro gols. Ai o time deu aquela relaxada. Estava empate, estava ganhando com um gol de diferença. Aí o time deu aquela relaxada. Aí foi quando tiramos o nosso goleiro que ele estava muito nervoso tinha tomado dois gols feios; e colocamos um atacante pra ir pro gol porque ele pega bem. Pra dar aquela tranquilidade na quadra. Aí abrimos a vantagem de três gols, três gols. Aí o cara: “Geovani, você já fez a sua parte agora sai pro time voltar ao normal”. Foi quando eles começaram a se crescer também e ir pra cima também. Aí eu dei a vaga pra outro jogador e eles seguraram a partida até o final do jogo. Aí nesse dia nós saímos ganhando de, foi 13 a 11, 13 a 11, eu me lembro dessa partida. E o bom foi que depois a gente foi pro bar comentar os lances e só falava de Geovani (risos). Até o pessoal do time deles mesmo, alguns do time, alguns torcedores de lá, chegou assim e falou: “Esse aí que é o ruim? Por que ele ficou fora se ele entrou e fez quatro gols direto?” Aí ficou aquela pergunta: “O que você fez hoje?” “Não fiz nada, não fiz nada. A bola veio, eu chutei e o goleiro aceitou”. (Risos).  Então foi um jogo muito marcante porque a gente não queria perder de jeito nenhum. Que a gente foi pra lá de salto alto como se diz no futebol, né? Foi todo bonitão, então nós estávamos estreando nosso primeiro uniforme; estreando aquele uniforme bonito, limpo, todo cheirosão. Bonito mesmo nosso uniforme.

 

P/1 – Esse é o vermelho?

 

R – O vermelho. Chegamos como estrela realmente, né? Chegamos em quatro carros, todo mundo desceu de carro, todo mundo bonitão. E quando a gente desceu o pessoal, como é um bairro simples, né? O pessoal ficou assim, né? “Os homens são bons, tal, né?” (Risos). Ficou naquela pressão toda por causa do uniforme. Daí foi um jogo que se a gente perdesse ia ficar feio pro time, porque a gente chegou de salto alto, né? Começamos a perder. Até modificamos, trocamos de goleiro, teve jogador que foi tentar ir pro gol porque nosso goleiro estava muito nervoso e ele tomos quatro gols bobos, quatro gols seguidos, que é o Valter, né? Que ele é presidente...

 

P/1 – Ele é o titular?

 

R – É, ele é titular. Ele é presidente e goleiro do time, né? Então ele estava muito nervoso esse dia. Ele tomou gol de meio de campo que criança defendia, ele tomou de nervosismo. Então nós fizemos muita modificação pra conseguir o resultado de ganhar o jogo, né?

 

P/1 – Ah, então vocês estrearam bem o uniforme, cara.

 

R – Estreamos bem. Esse jogo foi marcante mesmo porque até hoje o pessoal quando, sempre quando a gente vai a jogo contra ele fala: “Geovani, você tem que estar igual aquele dia que você estava no Taboão”. (Risos). Então foi um jogo que ninguém esquece porque muita, as famílias dos jogadores do bairro estavam lá assistindo, você via filho do jogador, você via mãe do jogador, esposa, todo mundo olhando aquela tensão toda. E foi uma brincadeira muito boa que até depois os próprios caras de lá vieram dar parabéns pra gente, né? Dar parabéns pra gente porque gostou do jogo, foi uma brincadeira e eles também nunca tinham feito um jogo contra, né? Eles brincavam entre eles mesmos. Então receberam um time ali com o uniforme completo pra eles foi bom também porque eles nunca tinham visto aquilo, né? Jogavam só entre eles, nunca tinham marcado um jogo contra nada. É tanto que passados 15 dias eles marcaram um jogo com a gente.

 

P/1 – Revanche?

 

R – Revanche. A revanche.

 

P/1 – Mas aí foi aqui?

 

R – Aí foi aqui na nossa quadra. É tanto que eles vieram até de uniforme também; falaram: “Não, vamos de uniforme também pra ficar igual, né?” (Risos). Eles compraram uns uniformes lá, né? E vieram todos uniformizados e tal, né? Que no primeiro jogo eles não estavam uniformizados. Aí vieram uniformizado, vieram também bonitos também, vieram em cinco ou seis carros, veio a família do pessoal todo, vieram. Teve gente que veio até no bagageiro do carro, do carro deles. Fizeram bonito, fizeram uma pressão danada. Só que fizeram bonito, mas na hora de jogar perderam de novo.

 

P/1 – Perderam de novo?

 

R – Perderam de novo. Aí perdeu feio. Demos outra goleada neles, o time estava mais calmo; nosso time estava mais calmo. Nós estávamos cada um na sua posição certa, estava tranquilo no que ia fazer. Nós demos uma goleada neles também. Aí eles gostaram tanto de jogar com a gente que marcaram o terceiro jogo; marcaram o terceiro jogo. Só que eles fizeram diferente: um fazia o jogo e o churrasco, né? Um churrasco; arrecadou dinheiro dos dois times, depois do jogo vamos ter um churrasco. Aí a gente foi lá com eles; chegando lá eles montaram um time bom, montaram um time bom e estavam goleando a gente.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Era o terceiro jogo que fizemos com eles e eles já estavam goleando a gente. Estavam com muita vontade de ganhar da gente. Só que acho que o destino deles é perder da gente mesmo, né? (Risos). Porque nesse dia, olha o que aconteceu: eles estavam ganhando de oito a seis, oito a seis. Nós estávamos no segundo tempo faltando 20 minutos pra acabar o jogo ainda. Mas nós estávamos em vantagem assim de posse de bola. Nós estávamos com a bola toda no pé da gente, a gente estava tocando bem, a gente estava indo pra cima, a gente estava chutando bola a gol. Aí nosso goleiro já estava mais calmo, já não estava mais tomando gol assim. Aí a gente estava ganhando; aí começou a chover forte. Começou a chover forte, forte mesmo.  E a quadra lá é coberta, mas a lateral é aberta. A lateral da quadra é aberta. Então a chuva de vento, a chuva pegou e o vento trazia toda a chuva pra dentro da quadra. Então o jogo que eles estavam pra ganhar não acabou. Não acabou porque a chuva atrapalhou (risos). Aí eles ficaram naquela: “A gente ganhou!” “Não, vocês não ganharam. Foi interrompido”. (Risos). “Não houve vitória não de vocês. O jogo foi interrompido”. E ele: “Não, mas a gente está ganhando!” “Não, mas faltam 20 minutos, faltam 20 minutos”. Aí não terminou o jogo. Aí fizemos o churrasco, depois a chuva passou, quando a chuva passou já estava escurecendo, daí a gente não quis mais arriscar a jogar porque a quadra estava molhada e tudo.

 

P/1 – Ah, mas depois do churrasco não dá pra jogar não, né? (Risos)

 

R – É. Podia também alguém se machucar e cair porque a quadra estava molhada.

 

P/1 – É claro.

 

R – Aí não terminou, aí eles ficaram assim: “Mas rapaz e aquela partida? Nós ganhamos ou não ganhamos”. Falei: “Não, não ganharam porque o jogo não terminou a partida. Vocês saíram do jogo em festa, mas não contaram os 20 minutos”. E 20 minutos pra quadra é muito jogo, dá pra você conseguir fazer oito, dez gols se você estiver num dia bom. E o time faz dez gols em dia bom porque ele já fez. Então não estava definida a partida, né? Quando a gente começou a se achar no jogo teve que interromper a partida.

 

P/1 – E me diz uma coisa, Geovani, quem escala o time? Vocês têm um treinador?

 

R – Quem escala o time. Eu vou ser bem sincero: o time Nova Leão, todos são funcionários da padaria. Na padaria a gente pode até não se dar bem que tem muitas discussões entre nós mesmos, sabe? Mas quando a gente sai dali que a gente vai pra quadra, aí o time mostra que somos unidos porque a escalação é a gente mesmo que faz. Chega o Valter, que é presidente, e fala: “Geovani, o que você acha de entrar fulano, fulano e cicrano?” “Eu concordo”. Aí chega no Chiquinho: “Não, está bom”. Chega no outro: “Está bom”. Ou se alguém também der uma opinião contra ele vai aceitar na hora. Então com isso a gente sai dali muito unido porque a escalação quem faz somos nós mesmos.

 

P/1 – Mas e durante o jogo? Quem faz a substituição?

 

R – Durante o jogo. Aí vai da pressão que está o jogo. Se o jogo está pegado, entra o zagueirão Geovani, porque Geovani lá atrás não deixa os caras brincarem, né? (Risos). Aí entra o zagueirão, vai Geovani porque Geovani, né?  Se está aquele jogo assim pra acalmar, aquele jogo que está assim com vantagem, aí a gente começa por uns que não têm uma pegada muito forte. Aí: “Fulano, sai você que você está cansado”. A gente percebe que ele está mais cansado, aquele que já está chutando meio fraco, a gente percebe que está mais desgastado; tiram eles. Ninguém reclama, ninguém fala nada. Porque nosso objetivo é sair com a vitória. Hoje pra nós em quadra, perder é feio pra gente perder em quadra. Hoje é. Porque o time está com muita moral (risos).

 

P/1 – Com muita moral, né?

 

R – Está bem assim entrosado, estamos um ano sem perder. Um ano sem perder. Então quando a gente vai jogar em quadra a gente já vai pra vitória, a gente já acha que vai ganhar. Já vai com certeza pra vitória. Inclusive no último dia, foi no dia 23 de fevereiro? Foi. Fizemos um torneio no batalhão. Com quatro times, com quatro equipes, né? Valia um troféu, valia um troféu.

 

P/1 – E os times de onde?

 

R – Um time. Era pra vir um time de Diadema, outro time do Taboão. Esse mesmo Taboão veio também, esse do Taboão veio. Eles insistem em jogar com a gente (risos). Esse time veio e o time da Vila, né? Que eles montaram um time lá: os Veteranos da Vila; e eles fizeram um time lá. Que inclusive até o patrocinador do nosso segundo jogo de camisa que montou esse time. Que é uma pessoa muito bacana, né? Que o nome dele é Lemmy, né? Então ele montou um time lá, aí tinha um de Diadema, o do Taboão e o nosso. Aí começamos a jogar, você ganha o primeiro jogo você já está na final porque é um quadrangular, né? Então você ganha o primeiro, já está na final. Ai o time de Diadema não veio, né? O time de Diadema não veio. Aí a gente começou a formar quatro times, só tem três como que vamos fazer? Como nosso time é grande nós somos em o quê? Acho que quatorze pessoas, dezesseis. Vamos fazer dois times, vamos fazer dois times da Nova Leão, dois times da Nova Leão. Aí os caras fizeram, me chamaram lá: “E eu não estou certo de fazer dois times. Porque vai ter que ter quatro times, né? Então está faltando mais um pra ter que dirigir”. Eu falei: “Tudo bem”. Aí ainda teve cara, né? “Vamos fazer um cartazinho aí, vamos escolher um time pra vocês entrarem só pra competir. E a gente junta um pra garantir o troféu”. Aí fizemos isso. Fizemos um time misto, né, com um pessoalzinho assim mais, né? E deixamos os melhores pra jogarem o segundo jogo pra garantir a taça. Só que daí eu fiquei me perguntando: “Gente, porque não faz dois times logo? Porque se a gente confiar que eles vão ganhar, e se eles não ganharem? O time mais forte não ganhar? Então a gente monta o ruim agora e se o bom perder o primeiro jogo também?” Aí nós vamos fazer assim: vamos se dividir em dois entra vocês e a gente, os melhores, ficaram. Só que pra surpresa deles, a gente queria, que fizemos só pra completar o time, a gente que estava ganhando o jogo. A gente entrou só pra interar os quatro times e estava ganhando. A gente estava ganhando, no jogo estava ganhando de três a um até no primeiro tempo estava ganhando. Aí no segundo tempo começou o time não acreditar mais, né? Não acreditar assim, porque não vai acreditar, mas deixando a confiança mais pra eles. Aí o time começou a brincar muito, aí eles, o time que a gente jogou ganhou da gente. Aí a gente perdeu de seis a quatro. Aí passou a confiança toda pro segundo time que a gente tinha montado, né? Aí eles fizeram a parte deles, né? Ganharam o primeiro jogo e foram até a final. Aí na final jogamos contra o time dos Veteranos da Vila, né, que são uns caras bons de bola pra caramba. Mas quando foram jogar com a gente não se acharam muito, todo mundo já começou a apelar, começaram a dar porrada, começaram a xingar, começaram a brigar entre eles mesmos e a gente foi campeão. Foi campeão e trouxemos o troféu, o segundo troféu. E depois foi só alegria, só festa, né?

 

P/1 – E me conta uma coisa, Geovani, vocês são 14. Mas a padaria tem 30 funcionários. Como é que é a noticia lá no dia seguinte lá dos jogos, o pessoal quer saber?

 

R – Quer saber, o time. Por quê? Isso o time é a base do pessoal que trabalha na manhã; à tarde eles não jogam porque não tem tempo, né? Que eles entram às duas da tarde que vai até as dez, né? Então nosso time é todo da parte da manhã, do turno da manhã. Então eles ficam torcendo pra gente, ficam ansiosos, quando é no outro dia perguntam, ficam: “Quem ganhou? Quem ganhou? Quem ganhou?” E somos 14 e tem mais uns três caras que não trabalham na padaria, mas que jogam com a gente também. Que é o Ivan, o Hélio e o Léo, né? Esses três não trabalham na Nova Leão, mas fazem parte da equipe. Então a gente pega e faz essa brincadeira assim. No dia seguinte, se o time perde é aquela gozação, aquela cobrança, né? Então a gente não quer perder porque se perder é todo dia aquele dia de gozação.

 

P/1 – Você quer fazer mais alguma pergunta?

 

P/2 – Não, você conhece mais algum time de padaria? Outros times de padaria?

 

R – Sim, conhecemos. Nós jogamos contra a Pioneira. Foi nosso primeiro jogo, foi contra a Pioneira que foram duas partidas: a primeira eles ganharam e a segunda nós demos uma surra neles. A Pioneira. E também tem a padaria Covadonga que também está doida pra jogar com a gente, né? Inclusive já marcaram jogo já com a gente, só que os caras já começaram a: “Pra marcar jogo com a gente tem que marcar 15 dias antes que está com a agenda lotada”. (Risos). Mas nunca deu certo. Mas tem esses três times aí de padaria e outros colegas nossos que trabalham em outras padarias quando ouve falar de nosso time já falam: “Nós vamos montar um time pra jogar com vocês também”.

 

P/1 – Ah bacana. Vocês podiam fazer um torneio inter-padarias aí com quatro padarias, né? Letícia, Pioneira, Leão e Covadona.

 

R – Letícia, é que a Letícia trabalha mais com mulheres na frente, né? Então talvez a equipe dela não dê um time, né? Porque tem alguns colegas nossos que trabalham na Letícia que já comentaram assim também em montar um time, mas nunca deram retorno não.

 

P/1 – Mas se juntasse três Letícias deve dar, não?

 

R – Dá com certeza. E também já jogamos com o mercado América; mercado América é outro que insiste em apanhar da gente. Jogou duas vezes, perdeu as duas vezes (risos).

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Tem a Casa das Frutas também que perdeu feio duas vezes também. Porque eles perdem a primeira e ficam achando que a gente ganhou na sorte, que a gente ganhou porque o juiz roubou, a gente ganhou por causa disso, por causa daquilo e marca o segundo pra ficar rival. E quando marca o segundo perde de novo. Em quadra a gente nunca perdeu aí não.

 

P/1 – Pó, então essa fama de vocês deve está crescendo, todo mundo deve estar querendo ganhar de vocês, não é?

 

R – Está crescendo, está crescendo. Tanto que no, esse último torneio no dia 23 de fevereiro, ficou em rivalidade com o time do Taboão, né? Porque o nosso time passou pra final e esse último no Taboão, esse último no Taboão. E eles se acharam injustiçados pelo juiz. Mas a gente ganhou com diferença de oito gols, dez gols (risos). Como é que o juiz ia influir numa diferença dessa? Não tem como.

 

P/1 – Aí é difícil, hein?

 

R – Ele achou que perdeu por influência do juiz. Aí marcou pro próximo domingo agora, né? Fazer um torneio pra gente participar. Mas já saiu de lá desafiando a gente: “Lá vocês vão ver, lá nós vamos montar um time pra derrubar vocês. Nós vamos montar uma panelinha pra derrubar vocês lá”. Lá vão ser quatro times agora no próximo domingo valendo um troféu.

 

P/1 – Aonde que é agora esse jogo?

 

R – Em Taboão.

 

P/1 – Em Taboão?

 

R – É. Vai ser no domingo agora.

 

P/1 – E quando vocês jogam aqui vocês jogam no batalhão?

 

R – No batalhão.

 

P/1 – Você tem que avisar a gente pra gente ver um jogo desse.

 

P/2 – É verdade.

 

R – Então, tem domingo agora, um bom dia. Você não pode ir nesse domingo?

 

P/1 – Não, esse eu estou viajando.

 

R – Está viajando? Porque vai ter um jogo e talvez um churrasquinho também. Depois do jogo tem que ter um churrasquinho, né? (Risos).

 

P/1 – Oh! É ajuda, né? Ajuda. E vem cá, conta um pouquinho da sua vida pessoal. Você é casado?

 

R – Da minha vida pessoal. Sou casado. Sou casado, tenho dois filhos lindos, né?

 

P/1 – Como é que eles chamam?

 

R – Vinícius e Graziela.

 

P/1 – Que idade que eles têm?

 

R – O Vinícius tem quatro; Graziela tem oito.

 

P/1 – E o Vinícius já está jogando futebol?

 

R – Está jogando futebol. Acompanha o pai, né? Quando chega no domingo ele já fala: “Pai, vai ter jogo hoje?” “Tem”. Aí já fica esperto. Quando ele vê eu me arrumando já fala: “Vamos pra onde?” Às vezes, eu nem quero levar, mas aí ele chega assim se convidando eu falo: “Ah, então vou te levar, né?” (Risos). Eu pego, levo. Hoje também até a patroa começa a querer acompanhar o jogo, né? Esposa quer ir também você tem que levar. Aí leva a família toda. A família também, né? Todo mundo que joga é casado e a maioria leva a família. Aí a minha esposa vai, meus filhos vão. Meu filho fica na arquibancada. Todo mundo que faz gol ele grita o nome do pai (risos). Acha que só o pai que faz gol. Então ele tem quatro anos, está grandinho, ele é bem esperto, ele é muito lindo, né? Tem o cabelo cacheado, bate nas costas o cabelo dele, né?

 

P/1 – Ah é?

 

R – Bate nas costas, é. Cabelo dele nunca foi cortado, né? As pessoas perguntam: “Por que você deixa o cabelo do seu filho crescer? É promessa?” Falo: “Não, não é promessa. Se eu for fazer promessa eu tenho que sacrificar a mim e não o meu filho, né? Não é promessa, é gosto mesmo, né?” “Mas por quê?” Porque eu sempre tive vontade de usar cabelo grande; nunca pude usar porque sempre estive trabalhando pros outros, sempre como se diz? Recebendo ordens. Então se você trabalha com alimento você não pode ter cabelo grande, né? Então eu sempre tive vontade de ter e nunca pude ter. Hoje meu filho tem um pai que eu dou de tudo pra ele, do bom e do melhor, então o cabelo dele vai crescer como ele quiser. Até chegar a idade dele escolher o que ele quer fazer. Então a ideia do cabelo dele é deixar rastafári, né? Eu quero fazer rastafári no meu filho. Que eu sou regueiro, né? (Risos) Sou, eu sou regueiro. Sou apaixonado aí pela música reggae, né? Sou fã de Bob Marley lógico, né? Fã de Bob Marley. Então a ideia é fazer um rasta no meu filho; só que eu não fiz ainda porque está muito novinho e o rasta é meio, a responsabilidade é meio grande pra jogar em cima de uma criança ainda, né? Ele também gosta, ele gosta do cabelo dele. Quando vem alguém mexer no cabelo dele ele fala: “Não mexe no meu cabelo que meu pai não gosta”. É. O cabelo dele é bem leve o cabelo dele.   

 

P/1 – E conta aí, vamos falar de reggae um pouquinho então, Geovani. De quem faz reggae no Brasil, de quem você gosta?

 

R – Olha, eu escuto muito de reggae que eu leio bastante da história de Bob Marley, né? Eu tenho livros, tenho fitas, tenho entrevistas, tenho vídeo da vida dele, da vida de casa dele que poucas pessoas têm. Então reggae hoje no Brasil são poucos, viu? O reggae mesmo, né? Tem aquele reggae de boyzinho curtir. Esse reggae que não tem nada a ver com reggae mesmo, né? Essa batidinha fraca que não tem muito a ver com reggae. Hoje no Brasil mesmo que eu diria que tem um reggae raiz mesmo tem um cantor na Bahia chamado Edson Gomes que é um cantor muito conhecido, né? Então ele tem um reggae muito original ainda, né? Um reggae que fala da diferença social, racial. Que muita gente vê o regueiro como maconheiro. Só que não é maconheiro. Regueiro não tem nada a ver com isso, regueiro é musica de paz, é música pra quem gosta, entende, sabe o que significa cada palavra do reggae. A música de paz, né? Não é uma música de você ir pra dançar. É uma música mais você ouvir; uma música de concentração como se diz o próprio Edson Gomes, né? Você vê uma pessoa no show dele dançando muito e pulando muito, ele fala que aquilo não é música praquilo. É musica pra concentração, é musica pra ouvir mesmo, né? Então não tem nada a ver com o que o pessoal acha, né? Mas quem acha isso é o pessoal que não curte mesmo, não conhece, né? Fala: “Ah, reggae é musica de maconheiro”. Não é música de maconheiro, isso é uma coisa. Porque quem curte o reggae é mais negão, né? É mais negão, é aquele povo de cor. Então fica aquela discriminação toda por causa disso. Então não tem nada a ver com isso, né? Tem o Edson Gomes, que você me perguntou. Tem a Tribo de Jah também que é um reggae muito bom, né? Tribo de Jah.

 

P/1 – Muito bom. Lá do Maranhão, de São Luis.

 

R – Do Maranhão.

 

P/1 – Que é uma cidade do reggae São Luis, né?

 

R – É a Jamaica brasileira lá, né? Que eu conheço, né, tive a oportunidade de ir a São Luis através do reggae, né?

 

P/1 – Você foi a São Luis?

 

R – Minha paixão me levou até lá. Não, quando você gosta de uma coisa você tem que entender. Você vai gostar de alguma coisa e alguém vai te perguntar: “O que é isso?” E você fala: “Ah, não é uma simples música. É uma música que tem letra, que tem sentimento nas letras, né?” Por exemplo, Edson Gomes tem uma música dessa que eu ouço em casa, que se você colocar pra você colocar pra você assistir um DVD, por exemplo, é a leitura da vida do pobre mesmo, do cotidiano do pobre, né? Que é mais de cor, né? Que fala de descriminação social, racial, tudo isso ele fala muito, né? O reggae pra mim é um modo do povo que se sente injustiçado levar até a sociedade através do reggae. Então o regueiro que é regueiro de coração sabe disso. Então conversar com uma pessoa que não entende de reggae ela fala: “É música de maconheiro”. Que música de maconheiro? Não tem nada a ver com isso. Eu, por exemplo, sou regueiro desde que nasci, em casa tenho tudo de Bob Marley, eu nunca pus um cigarro de maconha na minha boca. Nunca pus. E também não sou aquele radical, aquele cara que critica quem põe não. Cada um é cada um. Me respeitando, né? Vou no show de reggae, levo a minha família, meu filho, levo.

 

P/1 – Você já foi no show de quem?

 

R – Olha, já fui em vários shows de reggae. Fui na Tribo de Jah, Edson Gomes, Adão Negro,  Expressão Regueira. Muito reggae eu já fui em show. Conheço o Edson Gomes pessoalmente.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Conheço ele pessoalmente. A vez que eu conheci ele, ele não era crente ainda, né? Então hoje o reggae dele ficou um reggae assim que não tem muito assim. Ele quer pregar em cima de palco, né? Apesar de que o reggae é uma música de você também de sentimento mesmo. Mas quando eu conheci ele, ele não era assim crente. Então a música dele tinha mais sentido, né?

 

P/1 – E falando do Bob Marley, qual são os hits do Bob Marley que te marcam mais?

 

R – Bob Marley eu tenho tudo de Bob Marley, né?

 

P/1 – Tem?

 

R – Tudo do Bob. Regueiro que não tiver Bob Marley não é regueiro, né?

 

P/1 – Não, mas tem tudo então, você está...

 

R – Eu tenho tudo. Tudo assim de música e algumas coisas de livros, de vídeo, né, gravado. Tenho. Tudo que eu vejo dele eu compro. Tenho em casa bandeira do Bob Marley, tenho tudo. Meu filho também gosta, né? Meu filho; hoje que a minha mulher também gosta de um pouco de forró então ele fica um pouco, confunde um pouco a cabeça do moleque, né? Mas antigamente, o meu filho quando eu chegava em casa, quando eu colocava o pé dentro de casa ele falava: “Pai, põe Bob Marley pra nós assistirmos?” Aí eu colocava ele ficava assim olha: ficava viajando na música mesmo, né? É isso e como já disse também, né, é o modo do povo da favela, do povo que vem das favelas, vem dos guetos mesmo levar a sua palavra através da música. Então o reggae pra mim é isso. Não é nada que o pessoal fala que é música de maconheiro.

 

P/1 – É, não. Não tem nada a ver.

 

R – Mesmo porque eu morei em um bairro em São Paulo, né? Numa rua aqui na Lapa, né? Na Vila Ipojuca, que lá tem muito burguesinho, né?

 

P – Vila Ipojuca.

 

R – É. Eu morei ali. Então, às vezes, eu colocava um sonzinho fora de casa assim no quintal e começava a ouvir uns reggaes, né? Aí o pessoal falava: “Pó, nunca tinha ouvido essa música”. Falei: “Nunca tinha ouvido um reggae?” “Nunca tinha ouvido reggae”. “Por quê?” “Ah, o pessoal fala que é música...” Falei: “Você tem que ouvir o que você gosta, você não tem que ouvir o que o pessoal fala. Música normal, a batida boa, a música fala de sentimento, né? É um show que você pode ir pra curtir, ouvir, se souber dançar, dança; se não souber fica mais ou menos que está bom do mesmo jeito. Show de reggae é difícil ter briga, né? Difícil ter briga. Mas como toda cultura, todo tipo social, tudo; todo mundo faz o que quer, né? Não tem, o outro que quer usar. Você quer fumar maconha, você não precisa ser regueiro pra usar maconha. Você pode curtir um pagode e fumar maconha”. Então o que o pessoal fala assim do reggae, faz do reggae, só porque não conhece mesmo.

 

P/1 – É verdade. E voltando aqui, estamos chegando ao fim da entrevista. E Geovani, conta pra gente: qual é o futuro do time? O que vocês estão pensando em fazer agora com os Leões? Manter a invencibilidade?

 

R – Manter a invencibilidade, unir mais o time, né? Porque o time é unido, mas precisa se unir mais, né? Inclusive até depois que os colegas assistirem esse vídeo eu quero que prestem bem atenção no que eu vou falar: porque tem alguns jogadores aí no time que estão começando a pipocar, né? Que eles sabem que a gente precisa deles que são os que jogam uma bolinha boa. Aí chega um dia de jogo contra que a gente conta com os caras, aí em cima da hora os caras falam que não podem ir, né? Fala que tem que levar a mãe no médico, fala que tem que passear com a mãe. O cara nunca passeia com a mãe, no dia do jogo vai passear com mãe? Brincadeira, né? (Risos). Mas está começando a pipocar, vamos parar com isso aí, mas o time está bem, o time está conhecido no bairro, né? Está conhecido no bairro. O objetivo agora é unir mais o time e conseguir um agasalho, né? A gente quer mesmo o agasalho, né? Já está vindo o frio aí; a gente quer um agasalho. Só que estamos nessas condições. Então estamos vendo se a gente consegue patrocínio, né, vê se a gente consegue patrocínio pro agasalho. Não é questão de luxo, não é questão de nada. É que um agasalho cai bem, né?

 

P/1 – Ajuda.

 

R – É que o time também está... Vai esfriar agora, o time está crescendo, né? E o pessoal se interessar mais, eu digo os camaradas do bairro. Tem muita gente do bairro que se pedir ajuda eles dão ajuda. Só que o camarada tem que levar a sério, né? Um dia que tiver um jogo, ir no jogo, participar mais dos treinos também, né? Que muitos não estão treinando mais, né?

 

P/1 – Vocês treinam às quartas e jogam nos domingos, é isso?

 

R – Isso, domingo e no sábado, né? E treina às quartas. Sei lá, hoje em dia o pessoal nem nas quartas estão indo mais, né?

 

P/1 – Ixi! Tem que manter a invencibilidade, né?

 

R – Tem que manter. Quer ficar só jogando contra e não quer treinar? Se entrosar mais, né? Então esse pessoal tem que parar com essa pipocagem aí em dia de jogo. Querer passear com a mãe, levar a mãe pro shopping (risos). Nunca leva a mãe nem na Igreja em dia de jogo, vai levar a mãe pro shopping?

 

P/1 – Ah não dá.

 

P/2 – Vestir a camisa, né?

 

P/1 – Quer perguntar alguma coisa pra gente finalizar?

 

P/2 – Acho que não.

 

P/1 – Então, Geovani, queria... Pergunta que a gente sempre faz: o que você achou de contar aí a sua história, sua vida e a história do time aqui pro Museu da Pessoa?

 

R – Foi boa. Gostei muito de contar a minha história, né? Espero ter assim uma oportunidade de voltar aqui de novo, né?  Pra gente conversar mais, né? Porque talvez a segunda vez fica com mais calma, né? A gente fica mais a vontade, né? Fiquei um pouco nervoso, mas gostei muito de contar a minha história, né? Uma coisa que eu vou guardar; que daqui cinco ou seis anos meu filho pode pegar, pode ver, né? Hoje ele tem quatro anos, mas ele não entende muito. Mas daqui a uns dez anos ele pode: “Pó, meu pai jogou num time, meu pai teve história, meu pai falou de mim na entrevista, né? Falou que me ama”. Então, que eu amo muito meu filho, né? Meu filho, minha esposa, amo todos eles, minha família toda, né? Que eu sou uma pessoa muito ligada na família, muito ligado à família mesmo. Hoje eu conto tudo pra minha família, eu chego em casa, final de semana, em vez de estar em rua, estar saindo, eu curto muito ficar em casa mesmo com meu filho, minha esposa. Então é legal, eu gostei muito que daqui dez anos meu filho pode pegar essa fita e ver. “Pó, meu pai falava de mim, meu pai me amava, meu pai tem uma história pra contar, né?” Então foi muito bacana essa vinda aqui ao Museu.

 

P/1 – Então olha, muito obrigado. Foi ótimo também, adorei.

 

R – Obrigado.

 

P/1 – Muito legal mesmo.

 

P/2 – Obrigado.

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