Busca avançada



Criar

História

Geóloga, mãe e escritora: uma mulher se reinventando

História de: Raquel Teodoro Amâncio da Silva
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Vida pessoal e profissional de Raquel Teodoro. Seu ingresso na Petrobras e a vida fora em Macaé.

Tags

História completa

Projeto: Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Raquel Teodoro Amâncio da Silva Entrevistado por Douglas Tomás Macaé, 04 de junho de 2008 Código: MBAC_CB034 Transcrito por: Denise Yonamine Revisado por: Thayane Laranja dos Anjos P/1 – Queria que você começasse falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Meu nome é Raquel Teodoro Amâncio da Silva, nasci no Rio de Janeiro, no dia 01 de novembro de 1978. P/1 – Raquel, qual é a sua formação? R – Sou geóloga, especializada em geofísica. P/1 – Eu queria que você começasse a nossa entrevista falando um pouco de quando e como você ingressou na Petrobras. R – Eu ingressei na Petrobras em 2003, a prova foi realizada em 2001, eu fiz a prova porque estava grávida [risos]. Meu sonho era ser professora universitária, mas aí meu pai me inscreveu, fiz a prova e passei. P/1 – Mas qual a relação de estar grávida e entrar para a Petrobras? R – Porque meu ex-marido era hippie [risos] e ele não tinha condições de sustentar nós três, né? Então meu pai me inscreveu, eu fiz a prova, meio a contragosto, mas passei e vim. P/1 – E hoje qual é a função que você exerce aqui? Queria que você falasse um pouco também da importância do seu trabalho, o que você faz realmente? R – Eu trabalho na área de exploração de petróleo, interpretação exploratória, na verdade. Então a gente faz mapas das locações pra encontrar novos campos de petróleo. P/1 – Esse trabalho, hoje na Petrobras… Não sei se você sabe das mudanças que vem acontecendo na sua área em termos de tecnologia? R – A tecnologia tem avançado muito rápido, né? O pessoal antes trabalhava fazendo mapas com a mão, tinha até desenhistas. Contratavam desenhistas pra fazer os mapas e, de cinco anos pra cá, talvez, talvez menos, a gente, hoje em dia, faz mapa sozinho no computador, usando uma estação, mais avançada, né? Com uma memória além do que se vende nas lojas de computador, mas a gente consegue fazer tudo numa estação de trabalho, numa baia comum, sozinhos. P/1 – Mas como é isso? Como se descobre isso? R – Como se descobre? Primeiro o navio sísmico vai pro mar, que é onde tem petróleo aqui na Bacia de Campos. Daí ele pega os dados sísmicos e manda pro pessoal do processamento; o pessoal do processamento retira as múltiplas, junta os dados tudo e chega pra gente como uma imagem, como uma radiografia das rochas. Daí a gente, usando as técnicas aprendidas na faculdade de geologia, a gente consegue identificar onde é possível que exista petróleo, óleo, né, e onde não. Então a gente, baseado nessas teorias e na prática com os poços que já foram perfurados, consegue dar uma locação num lugar que tenha probabilidade de ter petróleo, né? Nunca é 100% de probabilidade. Às vezes a gente tem certeza absoluta, até veio um poço agora, meu primeiro poço, a gente tinha certeza absoluta, vendeu o peixe como se já tivesse óleo lá, ia ser uma reserva absurda, muito grande e deu seco, sem nenhum indício de óleo. P/1 – E o que é um bom poço? R – Um poço é o que tem óleo, esse não tinha. Tinha, mas num lugar que a gente previa, mas que a gente não esperava que tivesse, então ele está até abandonado por enquanto, porque não tem sonda disponível pra perfurar num lugar tão profundo e é muito profundo e muito distante da costa. P/1 – E característica da Rocha? Não sei se é possível falar pra um leigo que características uma rocha, a partir de uma imagem, você pode dizer “Ah, isso aqui é possível que tenha alguma coisa”? R – Olha, a sísmica você pode colocar várias paletas de cores, mas a que a gente usa frequentemente é a escala de cinzas, tons de cinza. Na literatura, a rocha que é o arenito, mais comum onde se encontra petróleo, aparece como um pico branco. É o que a gente fala: "É o pico branco!". Só que hoje em dia a gente foi atrás de muitos picos brancos e deram secos, aí a teoria vai evoluindo, vai vendo que não é bem assim e tudo e a gente vai calibrando com novas tecnologias, com informações de poços, vai fazendo um ajuste fino baseado nisso. Daí a gente, hoje em dia, tem os carbonatos. Os carbonatos não dão resposta sísmica de impedância porque é uma rocha menos densa. O arenito é menos denso, por isso ele dá uma impedância menor do que as encaixantes e aí fica o pico branco. O carbonato é denso, mas ele pode tá cimentado, pode não tá, pode ter reservatório em rocha menos porosa, pode ter rocha mais porosa, às vezes a rocha porosa está cimentada, então é muito imprevisível o carbonato, né? Daí a gente vai furando pra saber [risos]. P/1 – E é comum criar essa expectativa e depois acontecer de não ter nada? R – Ah, é comum! É como um filho que vai nascer e você fica esperando assim: “Ah como que vai ser? Será que vai estar perfeito? Será que vai ser bonito? Será que vai ser parecido com a mãe? Com o pai?” É igual um filho, né? P/1 – É uma alegria muito grande então quando nasce o filho, né? R – É [risos]. P/1 – Raquel, eu queria que, cortando um pouco o assunto, ainda dentro do assunto dessas expectativas, dessa coisa, como é o cotidiano do trabalho, com os amigos aqui na Petrobras? Qual a sua visão? R – Então, logo que a gente sai da Petrobras... a gente vem aqui com o maior gás, querendo trabalhar e fazer um monte de coisa, inovar, revolucionar. Jovem é assim. Então a gente teve uma dificuldade muito grande de se adaptar com os antigos, porque a Petrobras estava há dez anos sem contratar pessoas. O pessoal que já estava aqui tinha, no mínimo, dez anos de casa, né? E a visão de uma pessoa que tem dez anos de Petrobras pra uma que chegou agora é diametralmente oposta, né? O cara já tá acomodado, já tem os trabalhinhos que ele já está acostumado a fazer, ele vai fazendo com aquela calma, né? Jovem não, ele chega querendo fazer tudo ao mesmo tempo, agora, e vamos lá e o pessoal não se adaptou muito bem a esse ritmo não, nem os jovens e nem os antigos. Então hoje em dia a gente tá chegando num meio termo, vamos dizer assim [risos]. P/1 – E a equipe toda que entrou agora é bem jovem? R – Muita gente jovem, no meu setor acho que a metade agora, metade do pessoal é recém concursado. P/1 – Qual foi a maior resistência aqui? R – Resistência? P/1 – Desses antigos funcionários em relação aos novos? R – Eles nos olhavam como concorrentes ao invés de aprendizes, né? Essa foi a maior dificuldade. P/1 – E nesses anos que você está trabalhando aqui você saberia me dizer qual foi o seu maior desafio? Maior desafio que você enfrentou? R – Maior desafio foi ter ido pra Amazônia pra mim. Logo que a gente entrou na Petrobras, a gente foi fazer um curso de treinamento e no curso de treinamento existia a parte prática também. Nós fomos pra Amazônia e a turma foi dividida em três e eram grupos de sete pessoas ou dez... Dez pessoas! E o meu filho nessa época tinha sete meses... não, tinha um ano já, aí foi difícil a separação. P/1 – Mas o que vocês foram fazer lá na Amazônia? R – Nós fomos acompanhar os trabalhos da equipe sísmica que faz parte também da geofísica de campo. Tem a geofísica de campo, tem a geofísica de processamento e tem a geofísica de interpretação. Eu faço parte da equipe de geofísica de interpretação. A Petrobras, nessa etapa de treinamento, quis mostrar pra gente todas essas possibilidades da geofísica. P/1 – Você então sempre trabalhou aqui na Bacia de Campos em terra? R – É. P/1 – Você saberia me dizer qual o perfil do trabalhador da Bacia de Campos? Você já percebe isso, tem essa percepção? R – Perfil? É o perfil de quem gosta de trabalhar e que gosta de ir pra serra no final de semana [risos], não gosta muito de badalação, de festa, um pessoal mais caseiro, mais família. P/1 – Por quê você acha isso? R – Porque é só olhar a cidade, né, não tem nada pra fazer nos finais de semana [risos]. P/1 – Então você não convive com pessoas que não são de Macaé, pessoas que vêm de outro lugar? R – Se eu convivo? Eu não tenho muita convivência aqui com pessoas não. Eu trabalho, levo meu filho pra escola e casa, casa, trabalho, só isso, final de semana eu viajo como todas as pessoas fazem [risos]. P/1 – Você teria alguma história interessante pra contar pra gente? Ou uma triste que marcou? Uma história, um causo, tanto da Amazônia, essa coisa que parece ser legal... ou mesmo diariamente pode ser que aconteça alguma coisa ou histórias que já ouviu que você nem trabalhava aqui também, lendas ou mitos da Bacia de Campos? R – Ah, sim! Tem uma história sim: eu fui selecionada pra carregar a tocha do Pan [risos]. P/1 – E por quê? Como foi isso? R – Olha, não sei porquê, não sei porquê. Só que o que aconteceu foi o seguinte: me ligaram um dia “Ah, Raquel, então, você vai carregar a tocha do Pan, não sei o quê, você vai fazer isso...”, “Calma aí! Vou carregar o quê?” “A tocha do Pan.” “Mas por quê? Não sou nem atleta [risos]!” A única coisa que eu pratico é ioga, como é que eu vou carregar a tocha do Pan? Aí eu fiquei em estado de choque logo que eu desliguei o telefone. Eu fiquei: “Não! Não vou carregar não, eu vou procurar alguém pra me substituir, alguma pessoa, alguma mulher, tem que ser mulher que pratique alguma atividade física pra me substituir.” Eu comecei a procurar no setor e nada, nenhuma garota praticava atletismo, nenhuma atividade física, a maioria delas praticava era musculação e tal. Aí eu pensei numa menina que era deficiente física, aí liguei pra lá: “Ah, não deficiente física não pode porque já tem uma representante de Macaé que é deficiente física.” Aí eu: "Ah, o que eu faço agora, né? Então tá, eu vou, eu carrego a tocha [risos].” Foi legal, meu filho ficou orgulhoso, falou: “Ah, a minha mãe agora entrou pra história [risos].” Foi engraçado! P/1 – Eu percebi que aqui, durante alguns horários do dia, tem professor de ginástica que trabalha com o pessoal. Você participa disso ou não? R – Participava bastante, ultimamente que eu tenho estado meio preguiçosa e tal, mas é fase, mas geralmente eu participo, eu gosto. P/1 – Saberia definir pra mim o que é ser petrolera? Qual o sentimento de estar trabalhando na Petrobrás? R – Olha, apesar de todos os problemas que a gente enfrenta, não como Petrobras, mas como mercado de trabalho, regime de trabalho, a Petrobras sempre costuma inovar flexibilizando horários, pagando, dando um auxílio escola, auxílio moradia e tudo, mas eu sinto que ainda tem muito pra melhorar. Eu sou mãe solteira, já fui casada, mas sustento meu filho sozinha e é muito difícil pra mulher se adaptar a um regime de trabalho de oito horas diárias. É muito tempo fora de casa, essa é a minha... P/1 – A presença feminina aqui é grande, é marcante? R – Tem crescido, tem crescido bastante, tem bastante mulher lá no setor, mas ainda é minoria. P/1 – E enfrenta algum tipo de preconceito ou não? R- Enfrenta sim, enfrenta. P/1 – Que tipo? R – Do tipo que a mulher ainda é considerada inferior até ela provar o contrário, até que a gente marque a nossa posição e ganhe espaço. Essa é uma luta que tem que ser travada no dia a dia, depois que a gente conquista, ganha respeito até, respeitam o nosso trabalho depois, mas é uma luta [risos]. P/1 – É uma luta? R – É, porque o homem já tem... o homem quando entra ele já é respeitado porque é homem, porque espera-se que ele vá produzir, espera-se que ele vá trazer resultado pra empresa e que ele seja competente. A mulher vejo que ainda é vista como uma decoração, até a hora que ela mostra serviço, também, né? Ela pode ser só uma decoração, depende de cada uma, né? P/1 – Sua postura é sempre de estar combatendo esse tipo de preconceito? R – Não tô combatendo sempre não, mas quando pisam no meu calo eu reclamo [risos]. P/1 – Raquel, você consegue vislumbrar a Bacia de Campos no futuro? Que mudanças você ainda acha que irão passar? Como que você pensa o futuro na Bacia de Campos e até mesmo a sua relação com esse futuro? R – Eu não gosto de pensar muito no futuro não, porque ele sempre nos surpreende, é perda de tempo, eu acho. Mas eu espero que a Petrobras cresça porque ela dá muita oportunidade pros brasileiros, eu acho, né? P/1 – Você tem alguma coisa ainda pra falar que talvez tenha escapado, que eu não tenha perguntado e que você queira dizer? R – Ah, sim, na Amazônia foi quando eu comecei a escrever. Foi legal porque eu passei meu aniversário de 25 anos lá e embarcado na equipe sísmica tinha um astrólogo, aí ele tava com o programinha dele de astrologia e tal e ele falou pra mim assim: “Olha, quando uma pessoa comemora o aniversário muito longe da cidade natal, ela vai ter uma revolução na vida [risos]” e eu lembro disso até hoje porque começou como uma brincadeira escrever. Na equipe sísmica eu mandava emails pro pessoal contando o dia a dia da equipe que era muito exótico, na Amazônia e tal e hoje em dia é mais do que um hobbie pra mim, eu adoro escrever e continuo. P/1 – Mas o que é? Você não me disse. O que você escrevia nesses emails, nesses relatos da Amazônia? R – O dia a dia, falava dos passarinhos que a gente via. Eu perguntava tudo, perguntava sobre os índios, que naquela região existem os índios caceteiros, esse nome é porque eles carregam um cacete, um porrete no pé, amarrado no pé. Daí quando as pessoas tentam se aproximar eles aparentemente são assim, são tranquilos e tal, mas se eles se sentem ameaçados, puxam o porrete com o pé, pegam e acertam mesmo, já mataram um agente da Funai [risos]. P/1 – Vocês tiveram contato com esses índios? R – Não, não, eles são selvagens ainda. P/1 – Ah, é? R – É, não tem muito contato com humano, até porque eles sofreram ameaça dos madeireiros, muitos deles foram mortos pelos madeireiros, então são traumatizados por isso, né? P/1 – Mas vocês quando estavam fazendo curso ouviram essas histórias? R – Ouvimos várias de índios, né? P/1 – E dos próprios funcionários da Petrobras lá na Amazônia? R – É, porque eles estão na mata o tempo todo implantando geofones e tudo, é um perigo constante. P/1 – E o que hoje você escreve? R – Hoje eu escrevo poesias, contos e ainda não consegui concluir um romance, mas um dia chego lá, até porque não gosto de romance, um dia eu consigo escrever uma ficção [risos]. P/1 – Mas do que se trata seu principal romance, sua grande obra? R – É sobre a minha vida, sobre as minhas descobertas como ser humano, como mulher, porque eu acho que a gente vai se descobrindo ao longo da vida, às vezes a gente descobre até que é outra pessoa. P/1 – E você costuma trabalhar com memórias ou não? R – Com as minhas memórias mais, eu vou registrando tudo, viagens, em poesias. Eu fiz uma poesia no Chile, eu viajei pro Deserto do Atacama e fiz uma poesia chamada O deserto em mim. Aí participei de um concurso de poesia aqui em Macaé e fiquei em sexto lugar com ela. P/1 – Você divulga essas poesias aqui na Bacia de Campos? R – Não, agora que eu comecei a pensar nisso. Aí eu inventei o Projeto monte o seu livro. Eu vou vender poesia a R$ 0,20 cada uma [risos]. P/1 – Aqui na Petrobras? R – Não, lá na rua. Vou vender no Rio, eu acho, porque aqui o pessoal não sai muito e no Rio eu já conheço pessoas e o santo de casa não faz milagre. Eu vou pro Rio até pra me soltar, lá eu posso falar o que eu quiser e tudo. Eu vou lá vender minhas poesias, R$0,20 cada uma, se vocês quiserem [risos]. P/1 – Você acha que teria uma aceitação aqui na unidade vendendo isso? Você seria bem vista? R – Não pode fazer comércio dentro da empresa [risos], mas eu acho que seria sim, eu já escrevo num blog, o pessoal parece que gosta das coisas. P/1 – As pessoas costumam ler? R – Costumam. P/1 – Já que a gente tá falando de memórias, eu queria que você, pra finalizar, falasse do que você achou de tá participando do nosso projeto, de contar um pouco da história da Petrobras, mas também a história das pessoas a partir das suas memórias? R – Eu gostei, acho importante até, porque a gente nunca sabe quem a gente vai ser no futuro, né? Quem a gente vai ser quando crescer. Então eu registro esse relato, essa entrevista mais pensando no meu futuro, no futuro da Petrobras, no futuro da humanidade. Que isso sirva de exemplo pra alguém. P/1 – Não era pra fazer essa pergunta, era pra terminar mesmo, mas porque você correu há dois dias da entrevista, fez tudo e voltou só agora? R – Ah, porque eu estava de mau humor [risos]. P/1 – Tá bom, então [risos]. ---------- FIM DA ENTREVISTA ---------
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+