Busca avançada



Criar

História

Gente simples, mas sonhava isso

História de: Jayme Murahovschi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Jayme é filho de juseus que migraram pro Brasil na década de 20. Morou no Ipiranga na infância e teve muito contato com uma pequena comunidade judaíca que vivia na região. Sua história traz lembranças da escola, do final da Segunda Guerra Mundial e das tradições judaícas, entre muitas outras.

Tags

História completa

Eu nasci no dia sete de julho de 1932. Em casa, com a dona Amabile, que era a parteira do Ipiranga. Hoje em muitas maternidades se pode registrar o nascimento, mas naquela época tinha que ir ao Cartório. Primeiro filho, meus pais estavam atrapalhados, e naquele tempo a regra era a seguinte: até quinze dias depois do nascimento não pagava multa pelo registro, os dias seguintes pagava. Imagine se eles iam pagar multa! O dinheiro era curto. Então levaram um vizinho como testemunha para dizer a data: “Não! Ele nasceu semana passada”. Por isso eu fui registrado no dia oito de agosto de 1932. Eu brinco que nasci no dia sete do sete e fui registrado no dia oito do oito.

Meus pais vieram da Bessarábia, uma região entre Rússia e Romênia. Ali, ela vivia sendo disputada entre os dois. E hoje é um país independente, chamado Moldávia. Interessante que outro dia eu li no jornal que a Moldávia é o país mais pobre da Europa, o que significa que não progrediu muito, porque foi exatamente esse o motivo que eles foram embora, né? Embora os dois fossem da Bessarábia, eles eram de cidades diferentes, e eles não se conheciam. E eles se conheceram no Brasil através do meu tio que era irmão do meu pai, irmão mais velho, que já estava aqui no Brasil, e que tinha relação com as duas famílias, por causa de casamentos, então ele fez, o que na época era muito comum: fez o casamento entre eles, um casamento meio arranjado. É interessante que havia uma diferença grande entre meus pais. Minha mãe era intelectual da família. Ela era um caso excepcional, pois mesmo sendo mulher, judia e pobre estudou na Rússia, na cidade universitária de Odessa, e se formou em Farmácia. Mas ela nunca exerceu, porque logo depois, ela veio pro Brasil. E eu sempre senti que ela sentia falta daquela carreira que ela perdeu, que aqui não continuou. Então o que quê fizeram os meus pais? Foram vender de casa em casa, o que se chama “mascate”. Eu não gosto desse termo “mascate”, eu não sei porque, talvez até uma coisa individual. Em ídiche, eles falavam ídiche. Ídiche era a língua falada pelos judeus europeus, que é uma corruptela do alemão. O Ídiche era uma língua universal, se dizia que a pessoa podia viajar pelo mundo inteiro só falando Ídiche. Hoje o Ídiche tá em decadência, né? Bom, mas então eles diziam que eles tinham “clientela”. E realmente era isso que eles tinham; eles tinham fregueses, que eram tão amigos. E foi assim que eles começaram. Isto eu tô falando de antes de 1930, ou um pouquinho antes, 1929. Então meu pai, logo depois, apareceu com tuberculose. E ele foi tratar, naquela época se tratava, os melhores níveis socioeconômicos, iam pra Campos do Jordão. Os um pouco menores, ia pra São José dos Campos. É lógico que meu pai foi pra São José dos Campos, e ficou alguns meses lá. E aí? Minha mãe tinha que trabalhar, então minha mãe pegou e foi trabalhar. A gente morava no Ipiranga, como eu disse. Eu nasci no Ipiranga, com parteira, em casa. E eles iam trabalhar na parte mais baixa do Ipiranga, baixa no sentido geográfico, que era a Vila Carioca. Aliás, nosso Presidente Lula morou na Vila Carioca também. E ela teve que pegar o trabalho duro, trabalho pesado, até o meu pai voltar. Quando o meu pai foi, eu já tinha nascido, mas não falava ainda, porque era pequeno; quando ele voltou, eu já falava. E ele, quando voltou, não foi trabalhar imediatamente, ainda ficou um pouco em casa, então eu pegava na mão dele, dizia: “Moisés, vamos no portão, que o carteiro vai trazer carta do meu pai”. Então, esse foi o início. Tem mais um detalhe importante, porque influenciou muito a minha formação: eles eram socialistas, então eu nasci no ambiente socialista, e cresci no ambiente socialista. Eu levei muitos anos pra perceber que o socialismo deles era um socialismo muito romântico, utópico, que esse mundo ia ser uma maravilha, que não ia ter mais guerras, que todo mundo ia ser igual. Gente simples, mas sonhava isso.

Lembro que em casa se lia um jornal judaico-socialista, o “Nossa Voz”, e os amigos do meu pai ficavam ali, batendo papo. Não eram políticos, não eram militantes, mas aquilo me influenciou. A minha geração é que, de repente, se decepcionou com o socialismo. Existia no Ipiranga, uma coisa interessante, uma colônia judaica pequena e todos eram socialistas. A grande maioria estava no Bom Retiro. E aconteceu uma coisa curiosa, muitos daqueles se transformaram depois, eram mais jovens que eu; não muito, mas eram um pouco. E eles, muitos foram parar até na clandestinidade, e tem um exemplo clássico, da Iara Iavelberg, que era bem mais jovem que eu. Então é gente que morre, como a Iara, por um ideal.

Eu tenho um irmão quatro anos mais novo que eu, chamado Jacó. Eu até hoje, sou muito ligado ao Ipiranga. O Ipiranga pra mim tá no coração, na alma. Lá tinha o Clube Atlético Ipiranga, que além de ser um clube social, pobre, mas bacana, lá no Sacomã. Hoje, não é mais, mas existe. E tinha o time de futebol, Clube Atlético Ipiranga e a gente era torcedor do Clube Atlético Ipiranga. Era um time pequeno, mas bom, viu? A gente ia no Pacaembu ver Ipiranga e São Paulo, Ipiranga e Corinthians. Era muito divertido. Eu brincava de jogar bola, e brincava com vizinhos, amigos vizinhos. Tinha um amigo de infância, que era um ano mais velho que eu. Quando eu o conheci, eu tinha quatro anos, ele tinha cinco, bem vizinho de casa, e tinha outros vizinhos. E a gente brincava na rua de esconde-esconde, jogar bola, as coisas comuns, na infância daquela época. Não tinha televisão, nem rádio não tinha. Eu estudava no Mackenzie, então eu tinha que sair cedo, porque começava meio-dia, saía de casa onze horas, então tinha que almoçar um pouquinho antes das onze. E como é que eu sabia que era hora do almoço? O Ipiranga era um bairro fabril. Tinha muitas fábricas e tocava a sirene. Quando tocava a sirene, era hora de almoçar, então me lembro um dia, eu estava brincando no quintal, tinha um quintal lá, e tocou a sirene. Eu disse: “Ué! Tá muito cedo. Será que eu me enganei?”. Então, eu disse pra minha mãe: “Tá na hora?”. Ela também ficou espantada. Aí olhamos o relógio, e era cedo. “Será que tá certo o relógio?” “Então, eu vou no Bar Azul”, tem até hoje lá, era só atravessar a rua, tinha um bar azul na esquina, que lá tinha um outro relógio. Quando eu atravessei a rua, e estava me aproximando do Bar Azul, eu vi tocar no rádio do Bar Azul, tava tocando o Hino Nacional. Me bateu, acabou a guerra! Realmente, era aquele dia oito de maio de 1945, em que terminou a Segunda Grande Guerra. Foi uma festa. A Força Expedicionária Brasileira voltou, e fez um desfile no Anhangabaú. Meu pai me levou pra ver o desfile. Então realmente foi inesquecível, né? Eu tinha16 anos, 1958.

Eu não tive essa fase de adolescência de ir pra farra, beber. Minhas diversões eram ler e cinema. Ler, eu lia muito. Eu estava com os amigos andando, eu via uma folha de gibi na rua, já estava olhando. Eles até brincavam. E nesse aspecto, uma coisa que teve influência na minha vida foi a Seleções. Eu lia muito Seleções, inclusive as piadinhas. Há pouco tempo, inclusive, me deram de presente uma assinatura de Seleções, só que quando eu vi, achei sem graça. Eu disse: “Será que mudou Seleções ou mudou eu?” Aquela história de sempre. Sabe como foi meu Bar Mitzvah? Meu pai me acordou bem cedinho, pegamos um bonde, fomos até o Bom Retiro onde tinha uma sinagoga (Shil, como que eles chamam). Lá havia um grupo de velhos, e eles se reuniam para rezar toda manhã. Eu fui lá: a introdução à religião, pela primeira vez vai ler a Torá. Meu pai trouxe uma vodka, um bolo de mel e distribuiu entre eles. Depois eu e o Jaques, o meu amigo, saímos, pegamos um bonde e fomos para o Colégio Mackenzie. E acabou o meu Bar Mitzvah.

Eu comecei a estudar tarde. Sabe que idade eu tinha? Sete anos já. Mas antes disso, minha mãe já me ensinava alguma coisa. Eu entrei numa escola lá no Ipiranga. E eu logo me destaquei, viu? Durante todo o curso, eu sempre fui o primeiro da classe. Hoje, eu penso: “Eu era o mais inteligente?”, cá entre nós, não era, não. Quando eu vinha com as notas, minha mãe dizia: “Por que nove e meio?”. Ela não queria que eu fosse o primeiro da classe, ela queria que eu fosse o melhor aluno possível. Depois eu fui pro Mackenzie. Tive uma certa dificuldade no início, mas depois logo me adaptei, e fui o primeiro da classe até entrar na Medicina. Só tinha duas Faculdades de Medicina em São Paulo, a USP e a Faculdade Paulista de Medicina. Meus pais queriam que eu fosse pra Faculdade Paulista de Medicina. Sabe por quê? Era mais fácil entrar lá. Mas era pago. E eu disse: “Deixa eu fazer na USP”. Então chegamos a um acordo. Como era muito difícil entrar, logo, junto com o colegial, eu fazia o cursinho à noite. “Então, deixa eu fazer na USP, se eu não entrar, o que é muito provável, então no segundo ano eu faço na Escola Paulista, que é praticamente garantido”. Então eu entrei em décimo terceiro lugar na USP.

Quando eu me formei em medicina, meu pai, com aquele jeitão gozador, com aquele sotaque, ele disse: “Ó, eu te sustentei todo esse tempo. Agora vai trabalhar, vagabundo.” “Pai, tem um negócio chamado residência”. “Residência? Que diabo é isso?”. Ele não tinha culpa, porque residência estava no começo, pouca gente tinha ouvido falar. Então, eu expliquei, expliquei, expliquei e ele: “Tá bom, vá”. Minha turma foi a primeira que teve o sexto ano como internato. Eu fiquei, então, interno no Hospital das Clínicas. Ali você só via criança pobre e desnutrida, mas tinha uma em especial que estava horrível; nada do que se fazia dava certo. Um dia um de nós recebeu um anabolizante que tinha saído e alguém teve ideia de dar o remédio. Hoje eu penso que era um pouco de liberdade de mais, mas os internos resolveram: “Vamos dar para ele”. O nome da droga era androstanolona e o menino se chamava André. Então nós brincamos: “Essa droga é específica para ele: o André está na lona, então, androstanolona é para ele”. O menino se recuperou. A mortalidade por diarreia era terrível no Brasil. A cada ano morriam 156 crianças por mil que nasciam. Eu via aquilo e me perguntava: “Puxa vida! O que será que causa isso?” Então me começou a bater a ideia: “Vamos pesquisar, vamos descobrir o antibiótico bom para essa bactéria”. Contatei um bacteriologista da USP chamado Luiz Trabulsi, fomos atrás e descobrimos. A bactéria se chamava echerichia coli entropatogênica, EPEC. Eu fui convidado a dar aulas no Brasil inteiro por conta disso. Passou vinte anos, a gente vai amadurecendo, um dia eu caí em mim: “Não é antibiótico que resolve isso.” E eu mudei, escrevi um artigo pedindo desculpas para as EPECs. Eu digo que fui pioneiro das pesquisas de diarreia, e fui pioneiro, também, no pedido de desculpas: “Vocês não são os vilões”, eu disse, “vocês são os carrascos”. Quais eram os verdadeiros vilões? Pobreza, falta de saneamento básico e falta de escolaridade das mães com o desmame precoce, que eu chamava o grande flagelo dos países em desenvolvimento. Nas famílias pobres, quem mamava no peito vivia; quem era desmamado, morria. Bom, então, isso foi muito importante. Ganhei prêmios com isso, inclusive um que se chamava Margarido Filho, da Associação Paulista de Medicina. E aí, o que fizemos? Começamos a entrar no resgate da amamentação.

Um amigo me disse assim: “Olha, vou te apresentar uma prima tua que você não conhece”. Eu disse: “Como, prima minha que eu não conheço?”. Pois eu vi, tinha uma ligação indireta: meu primo era casado com a prima dela, uma coisa assim. E aí começamos um namoro, que levou quatro meses e meio. Desmanchamos o namoro por cinco anos, no qual não tivemos nenhum contato, com essa anterior. Sabe, os cinco anos, eu achava que eu tinha feito besteira. Bom, aí voltamos, graças a Deus foi muito bom pra mim, porque ela me deu a segunda chance, coisa que não é comum. Namoramos mais um ano, casamos.  Nós temos quatro filhos e dez netos. Quando eu casei com a Enny ela falou que queria seis filhos. “Seis!?”, eu disse. “É exagero, não é?”. Aí veio um, dois, três, quatro. Eu comecei a ficar assustado, mas então aconteceu que nós fomos a um Congresso na Áustria, em Viena. E na volta, ela não se sentiu bem no avião, parecia alguma coisa no coração. Nós começamos a investigar, a procurar e não achava nada, até que um dia descobrimos. Não era cardíaco, era refluxo gastroesofágico. E isso dá uma impressão que vem do coração. Então, ela disse: “Bom, talvez seja um sinal de Deus. Vamos cuidar desses quatro, que já tem muita coisa para fazer.” E aí paramos. Ufa! Melhor.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+