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História

Generosidade para garantir a empregabilidade de jovens vulneráveis

História de: Lucinéia Ferreira Santa Brígida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Chefe de família, de origem humilde e desempregada; nenhum obstáculo impede Lucinéia Santa Brígida de se dedicar com entusiasmo ao voluntariado, dividindo o que sabe sobre informática e cidadania com jovens em situação de vulnerabilidade, com o objetivo de conduzí-los ao mercado de trabalho e a um futuro melhor. Na entrevista ela descreve que, mesmo com condições precárias da entidade onde atua, entusiasma-se com a formação deles e investe seu próprio dinheiro nas atividades que desenvolve.  

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História completa

P/1 – Boa tarde. Lucinéia, você poderia começar dizendo o seu nome, local e data de nascimento? Por favor?

 

R- Lucinéia Ferreira Santa Brígida. 27 de janeiro de 1968, em Belém do Pará.

 

P/1 – O nome de seus pais e origem deles?

 

R – O meu pai é Osvaldo Santa Brígida. A minha mãe, Andrelina Ferreira Santa Brígida. Os dois são do município de Belém.

 

P/1 – Nasceram aqui também?

 

R – Também.

 

P/1 – E qual é a profissão deles? Do seu pai e da sua mãe?

 

R – O meu pai anteriormente era mestre de obras. A minha mãe, lavadeira.

 

P/1 – E eles são vivos? Trabalham?

 

R –  A minha mãe ______. Atualmente  por motivos da AVC, né, e o meu pai ele é aposentado mas anda sem memória também [Risos].

 

P/2 –  E  Lucinéia, qual é a origem do seu sobrenome? O sobrenome de Santa Brígida, você sabe de alguma história da família?

 

R – O que me passaram há algum tempo atrás é que a origem é do Maranhão e que conforme vieram a Belém, ao Pará, aí foi aumentando; conforme foi tendo gerações foi tendo mais evolução no sobrenome, tanto que tem em Salinas, tem no Maranhão, tem em São Paulo... aqui mesmo no Pará tem várias Santa Brígidas [Risos] que eu já encontrei, né? Foi isso que me informaram.

 

P/1 – Seus avós vieram do Maranhão ou não?

 

R – Eu não sei bem a origem dos meus avós,  porque quase não tenho assim esse diálogo porque a minha mãe também ela ainda é meia analfabeta ela não sabe explicar, tem o grau de instrução muito pouco ainda, né,  mas o que ela tenta passar para nós foi o que eu já repassei a voces.

 

P/2 – E você passou a infância aonde, Lucinéia? Aonde você passou a infância?

 

R – A minha infância toda em Belém.

 

P/1 – Você tinha irmãos? Como que era? Ou era só você?

 

R – Não... eu tenho.... nós somos em quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Meus irmãos cedo começaram a trabalhar, porque meu pai nos abandonou... e  o meu irmão mais velho eu atendo como pai. Para mim ele é  meu pai de coração. Tenho também amor pelo outro que é meu pai legítimo, né? Independente do que ele fez ele é meu pai, mas meu irmão mais velho e os outros dois irmãos trabalhavam para ajudar a minha mãe a me sustentar e a também a sustentar a casa, né?

 

P/2 – E a casa era aonde? Em que bairro aqui do ________________?

 

R – Aqui... nós morávamos... anteriormente nós começamos a morar na casa de uma tia na Passagem  de Santa Matilde, na Marambaia também. Depois meu pai conseguiu numa invasão a nossa residência, que hoje é a atual, que é nossa e até hoje nós estamos morando lá.

 

P/2 – Como que é a Marambaia? Você poderia descrever para gente?

 

R –Marambaia é um lugar não tão calmo, mas também não  perigoso. Tem os seus problemas, mas é um lugar que você pode sair, ter amigos, não tem ainda aquela conturbação de marginalidade. Porque eu sei que todos os lugares têm, mas lá pelo menos agora é que está começando essa coisa de marginalidade... mas para se precaver é melhor tudo no cadeado, do que [Risos]....  ninguém conhece o ser humano, né? Assim como você pode estar lidando com pessoas de boa indolência (índole), mas também pode ser que não.

 

P/2 – E na época da sua infância era diferente?

 

R –Era diferente, bem diferente.

 

P/2 – Como que era?

 

R – Era tudo calmo, as pessoas poderiam sair de casa, deixar tudo aberto. Hoje a gente já não pode mais, né? Tá tendo assim um acúmulo de marginalidade muito grande. Então, as pessoas já tem até medo de sair. Você sai, você diz eu espero voltar, porque você sabe que até por um acaso você pode.... acontecer um imprevisto na sua vida, né? Mas eu espero em Deus que nunca aconteça isso com a minha família. Todos nós pedimos a Deus quando saímos que vá e que volte em paz. É assim que eu vejo.

 

P/1 –A cidade de Belém mudou muito desde que você era criança até hoje? Ou não?

 

R – Mudou, bastante.

 

P/1 – No que mudou?

 

R- Antes, Belém tinha mais arborização. Depois que começou muitos prédios, muitos edifícios, essas coisas todas fizeram com que sumisse a nossa vegetação, as nossas matas. Que havia um ar puro. Eu  posso dizer que eu ainda  moro próximo do ar puro, né, [Risos] porque eu moro próximo de matas, e aquela ventilação da natureza faz bem, né? Hoje em dia não. Você vê que Belém é muito calorento atualmente, mas é por motivo de muitos prédios. Tiraram toda aquela mata que tinha. Porque antes eram muitas matas. Quando eu me entendi tinham bastante mata, então aquele mato muita das vezes fazia com que prejudicava algumas pessoas porque tinha... como tem em todo lugar a marginalidade, né? Havia antes mas não era tão como está hoje. E se a gente pudesse voltar o tempo, eu preferia como era antes [Risos].

 

P/2 –Do que que você sente mais falta ________________?

 

R –O convívio com as pessoas. Apesar das pessoas hoje estarem ficando mais amadurecidas, mas ainda tem um pouco de preconceito em tudo, sabe? Hoje as crianças não podem brincar, não podem conversar, não podem fazer isso ou aquilo, que tem o preconceito. Antes.... dizem que preconceito só é de cor, né? Mas não é, tem todo um envolvimento. E isso eu acho que mudou muito a cabeça das pessoas, até mesmo das crianças. Muitas crianças marginalizam a outra porque é pobre ou  porque não tem condições ou porque não tem uma roupa de marca, entendeu? Muitas das vezes é esse tipo de marginalização...   as pessoas ainda não conseguiram tirar isso da cabeça... e além de não tirar da sua cabeça ainda põe na cabeça de outras pessoas. E isso eu acho que deveria ter uma reflexão mútua, entendeu? No meu ponto de vista é isso que eu... acho que  não mudou ainda, claro,  na cabeça de algumas pessoas. Não de todos, não do geral, tá, mas de algumas pessoas com certeza.

 

P/1 –Você mesma sofreu algum tipo de discriminação?

 

R – Várias vezes.

 

P/1 – É? Você poderia  contar?

 

R – Bem, eu sou de família pobre mas me orgulho dela. Tenho prazer de ser filha de uma lavadeira, de um mestre de obra. Tanto que tenho prazer que o meu irmão também é mestre de obra, o mais velho. A minha sobrinha foi um elogio (orgulho?) para a gente, que eu digo gente....  da nossa família, né,  por ela nunca ter feito um cursinho, porque nós não tínhamos condições de pagar...  mas hoje ela se formou em enfermagem e isso para gente é orgulho, principalmente para mim que sou tia. Sou tia coruja [Risos]. Eu tenho orgulho de dizer que a minha sobrinha e eu, nós lutamos muito. Eu fui discriminada da seguinte maneira: eu tenho dois filhos,  sou mãe solteira mas não me arrependo. Tenho orgulho dos meus dois filhos e quando eu cheguei num certo local para mim enviar o meu curriculum,  me perguntaram se eu era solteira, se eu era casada, se eu tinha filhos, se eu vivia com o pai dos meus filhos e eu disse que não. Mas falei “não” de cabeça erguida, porque eu tenho orgulho de ser o que sou, porque eu não dependo de ninguém. Dependo do meu trabalho, do meu suor e essa pessoa disse para mim: “ Ah, nós não queremos porque você é mãe solteira.”  Eu disse: “Muito obrigada.”  Aí essa pessoa disse para mim assim mesmo: “Se você fosse casada ou amigada nós ficaríamos com você.”  Eu disse: “O quê!?  O que influencia isso no meu trabalho? Isso não influencia nada,  porque homem não é “registro” de ninguém. Pelo menos para mim. Eu tenho dois filhos, eu trabalho sozinha e cuido dos meus dois filhos sozinha. Tenho orgulho disso. Até hoje os meus filhos nunca passaram necessidade, têm tudo que têm vontade de ter e eu espero em Deus ainda dar muito mais a eles. Assim como a minha mãe criou quatro, eu posso criar dois e tenho orgulho de ser mãe solteira. Não me arrependo nem um pouquinho [Risos].

 

P/1 –E essa posição que você tem, esse orgulho mesmo, essa tranquilidade; você acha que veio do quê, da sua educação?

 

R –Da minha educação, e do incentivo que a minha família me dá. Porque a minha mãe... toda  mãe tem os seus poréns, né? Eu tenho o meu, a minha mãe tem o dela assim como a mãe de todos nós. Mas, apesar da minha mãe ser ainda aquela pessoa que não tem um grau de instrução muito grande, me ensinou a batalhar com dignidade. Sempre tudo que eu tenho é por esforço do meu caráter, nunca maltratei ninguém, graças à Deus; eu espero ensinar os meus filhos da mesma forma: levantar a cabeça e seguir em frente. Porque você só cai se você quiser. Você cai e levanta e lá na frente tem um obstáculo maior; você vai dar um pulo e mais lá na frente você vai vencer. É assim que a minha mãe me ensinou e é assim que eu quero continuar a fazer com os meus filhos. Vejo assim: a minha mãe foi uma lutadora quando o meu pai deixou ela e nem por isso, nenhum de nós ela deu; assim mesmo como eu não dei nenhum dos meus dois filhos. Tô criando, ensinando, mostrando para eles um pouquinho do que é a vida, porque você sabe que nós não ensinamos tudo, né? Quem vai ensinar é a vida. Mas eu tenho como base para mim de ensinar e de seguir a minha caminhada com espelho da minha mãe. Ela e  meu irmão mais velho que são o meu espelho. Nunca deixaram faltar nada para nós e eu tenho fé  em Deus que também não vou deixar faltar nada para minha família.

 

P/1 –Você começou a trabalhar muito cedo, também? Você teve que trabalhar cedo?

 

R – Não, eu comecei a trabalhar com 18 anos.Com carteira assinada, né, mas antes eu trabalhei como babá, como empregada doméstica, como lavadeira - como a minha mãe - e me orgulho das minhas profissões. Não tenho só uma, tenho várias.

 

P/1 – Desde que idade você começou a trabalhar? Com que idade?

 

R – Desde os 12 anos.

 

P/1 –12 anos. E você estudou?

 

R - Estudei. Fiz o meu primeiro grau em escola pública,  o meu segundo grau em escola pública. Sou, pretendo e quero ainda me formar em enfermagem, que é a minha adoração. Eu sou apaixonada pela profissão [Risos].

 

P/2 – E como foi a escolha da profissão?

 

R – Eu escolhi a profissão da seguinte forma: eu dificilmente eu adoecia, tá? Mas uma vez eu fui ao médico num hospital, e eu vi aquelas pessoas doentes e eu sentia necessidade de me ver ajudando, entendeu? Eu tenho o meu coração...  100 por hora [Risos]. Eu não posso ver ninguém com algum problema que eu quero ajudar e isso para mim me faz muito feliz , mesmo não tendo...  não exercendo - melhor dizendo - a profissão dos meus sonhos... mas eu sei que alguém da minha família já está fazendo isso e isso para mim é orgulho, é alegria demais. Para mim é incentivo de tudo.

 

P/1 – Mas você é técnica em enfermagem, né?

 

R – Sou técnica em enfermagem. Pretendo mais tarde ser uma Ana Neri, se Deus quiser.

 

P/2 – Ana Neri é o que?

 

R – Enfermeira.

 

P/1 – Enfermeira.

 

R – É o que eu estou buscando agora, né?

 

P/1 – Sim, e você se formou com que idade?

 

R – Eu tinha 20 anos.

 

P/1- Quando você concluiu o curso técnico.

 

R – Curso técnico em enfermagem.

 

P/2 – Também em escola pública?

 

R – Escola pública. Dizem que a escola pública não presta, né, mas para mim foi muito valioso. Eu aprendi muita coisa que hoje eu sei eu devo à escola pública, aos professores do Estado.

 

P/2 – Você lembra de algum professor, de alguma passagem, algo dessa época que marcou bastante?

 

R – Eu tive três professoras de enfermagem que foram assim para mim mais que amigas. Foi a professora Isa, foi a professora Elizabete, foi a professora... esqueci o nome dela agora [Risos], professora do segundo grau... do meu primeiro grau ainda, de português. Era uma pessoa bem pequenina, bem menor que eu, mas era uma mulher assim de garra e isso para mim era muito valioso porque você vê uma pessoa que não tinha assim um convívio... ela só tinha a profissão porque ela tinha muita vontade de chegar lá na frente,  de vencer aquele obstáculo. Então, eu conversando com ela - porque eu sempre fui assim de fazer amizade com facilidade. Eu tenho assim um “ímã”  como diz a minha mãe [Risos], de conversar, de chegar e bater papo e ela foi me contando a vida dela. Ela foi uma lavradora. Ela conseguiu chegar no magistério através de força dela mesmo porque a família  não tinha condições e aquilo me incentivou ainda mais a estudar porque eu via que a minha mãe era uma simples lavadeira. A minha mãe,  para cuidar da nossa casa e dos meus irmãos, junto com o meu outro irmão ela tinha 14 lavagens!

 

P/1 – Por dia? Por semana?

 

R – Por mês.

 

P/1 – Ah, 14 lugares.

 

R – Não, ela tinha 14 lavagens que iam levar na casa da minha mãe para lavarem a roupa. Ela lavava, eu passava, ajudava a passar, a minha irmã ajudava a passar... mas no sábado estariam prontas todas as lavagens.

 

P/2 – Quantas peças tinham em cada lavagem?

 

R – Variava de 30 a 45 peças.

 

P/2 - 30 a 45 peças...

 

R – Mas, essa professora, quando eu ia conversar com ela, ela me explicava mil coisas. Assim, do que eu não tinha convívio com a minha família, porque a minha mãe não tinha um grau de instrução em que eu pudesse conversar com ela, né? Então eu sempre procurava a me informar. Eu sempre gostei de buscar informações e isso fez com que o meu conhecimento voltasse a eu ser o que eu sou hoje. Talvez pelo fato das pessoas...  apesar de eu não estar exercendo a minha profissão que é a de enfermagem, mas as minhas professoras que na época me deram incentivo, que me deram força.... Lucinéia tu consegue, tu vais vencer, tu tem muita garra para continuar o que tu queres, eu fui até que eu consegui chegar a um dos obstáculos que foi receber o meu certificado. Quando eu encontrei, há pouco tempo uma delas (me perguntou): “Lucinéia,  tais trabalhando?” Eu: “não, porque quando era para eu estar trabalhando...” - eu não tinha poder um aquisitivo para pagar o meu COREN, né? Como a minha mãe era lavadeira não tinha como pagar um salário mínimo para o COREN para  me inscrever e ter possibilidade de avançar. Mas mesmo assim eu disse: “eu não vou abaixar a cabeça”. Hoje eu estou procurando um (profile?) para eu fazer uma especialização, ou seja, uma reciclagem de tudo aquilo que  já aprendi e sei, para eu voltar e chegar onde eu quero, que é na Universidade, onde pretendo fazer Enfermagem. A partir do  ano que vem eu vou fazer, se Deus quiser, o cursinho para eu chegar lá. Porque ainda não deu. Porque vocês sabem que uma pessoa que cuida de seus filhos sozinha e ainda ajuda a família, não tem condições financeiras de pagar um cursinho, mas eu, com força e com fé em Deus eu vou conseguir. Que é a coisa que eu mais quero, e eu me sinto feliz mesmo não tendo a minha profissão... exercendo aquilo que  eu tenho vontade. Mas eu sou feliz. Feliz com a minha família,  com os meus filhos, com os meus amigos, com os meus alunos... pois eu  tenho vários, sou voluntária da (EIC?). Sou feliz em passar aquilo que eu aprendi para as outras pessoas. 

 

P/2 – E o seu contato com... Você realiza trabalho social também, né?

 

R – Também.

 

P/2 – Como se deu... com a Associação ___________, né? Como se deu a sua entrada nessa área?

 

R – Eu já tinha curso de informática, e num domingo minha mãe foi para igreja; chegou em casa e disse: “Ah, Néia” - que é como eles me chamam na minha casa – “lá na igreja tão fazendo curso de informática, tu não queres fazer, minha filha?” Eu disse: “mas mamãe, eu já fiz esse módulo”. “Mas vai fazer de novo, que tu não tá fazendo nada”. “Tá, vou me inscrever”. Fui, me inscrevi. Como eu sou muito bisbilhoteira [Risos], me sinto assim... gosto de mexer, procurar aquilo que eu não sei. Cheguei, me inscrevi, ia para as aulas todas...  os dias que tinha aula, né? O horário era uma hora de aula...

 

P/1 – Era uma (EIC?) então?

 

R – É uma (EIC?),  que funcionava antigamente numa igreja. Hoje ela tem prédio.. não próprio, mas é alugado, mas é como se fosse próprio, né? Fui para lá e estudei, fiz meus quatro módulos, participei de todas as atividades que tínhamos de campo... Uma das minhas participações foi  o mutirão de solidariedade. Nós participamos numa praça, ajudando as pessoas a verificar pressão, informando sobre cidadania. Outro foi.... nós fomos visitar a Casa Andreia, que é o dos hansenianos, mas eles  são remanescentes já. Praticamente eles não têm mais contato para manifestar em outra pessoa,  já estão moderados, já quase... não estão totalmente curados,  já não tem mais perigo da pessoa (contagiar)... mas muitas das vezes as pessoas têm medo de ter o contato com eles.  Eu não. Eu sento, eu beijo, eu abraço [Risos], eu não tenho essas coisas comigo. Eu já tratei de pessoas com câncer nessa minha vida. E... nós também já fomos no CVC - Centro de Valorização da Criança – visitá-las num domingo alegre. Eu participei de uma peça teatral, me vesti de macaquinho [Risos]. Brinquei com as crianças, me diverti muito. E... pela Eic eu já fui aluna, já fui coordenadora e hoje sou educadora. E quero continuar ainda por muito tempo fazendo a minha parte social, porque eu acho que se você faz algo pelo seu próximo... quanto mais você faz, quanto mais almeja o seu coração. Mas você só deve fazer se tiver aquele amor para transferir para as outras pessoas. Eu não sou a melhor, mas eu vejo que a minha turma poucos têm desistentes. É sinal que eu agrado a alguém, e sei passar aquilo que me foi proposto pelo CDI.

 

P/1 – Quando você entrou na Eic você já tinha feito um curso de informática, né? Que diferença você viu entre o curso da Eic e o outro que você já tinha feito, se é que houve diferença., né?

 

R – Houve diferença. O primeiro que eu fiz foi apenas informática. Você mexia no computador, saber para que serve esse botão, para que serve aquele outro... não tinha a parte cidadania. O diferencial, para mim, foi que eu pude mostrar e pude aprender também; o que você está dando para alguém te valoriza mais... Mas tem algumas pessoas que não vêem  desse lado, só vêem o lado financeiro. Eu tenho um (ponto) modo de vista diferente: o que você dá, você recebe em troca o dobro; eu, mesmo que eu não tivesse nenhum custo (pagamento) pela Eic ou por onde estou trabalhando, mas eu sei que Deus me dá retorno e isso é muito gratificante para mim; porque eu posso não receber dali, mas lá na frente alguém me dá em troca aquilo que eu dei, e eu quero continuar...  não sei até quando. Mas já mudou de coordenação várias vezes na Eic e eu to lá. Eu sou a única professora, pois depois que eu entrei, já entraram e saíram seis educadores [Risos]. Continuo fazendo e exercendo aquilo que o CDI propôs: levar o ensino pedagógico às pessoas da maneira deles, né? Informando, mas com categoria, né? Não adianta você ter 1000 alunos se você não pode dar o melhor para eles. Você prefere ter cinco alunos e dar o melhor para eles. É o que eu falo na Eic. Eu sou o tipo de pessoa que gosta de dar aula, mas gosta de cobrar também. Também gosto que meu aluno me cobre, sabe? Se eu dou eu quero que diga da maneira que eu disse. Eu gosto de cobrar, de exigir porque eu sou  exigida também. Além de eu ser educadora na Eic eu também estou sendo educadora dos nossos monitores na escola. Atualmente nós estamos fazendo uma avaliação de quem vai ou não ficar na escola.

 

P/2 -   Eu vou estar resgatando um pouco da tua época em que você foi aluna da Eic, né?  De quem partiu essa idéia das atividades de campo e como isso se relacionava com a parte técnica? Como que era essa relação?

 

R – Bem, o CDI tem a parte de cidadania, envolvendo o aluno na paratica. Nós vemos assim. Bem, nós não, o diretor geral da instituição. O presidente da instituição, hoje. Porque, para você ter paratica de cidadania, tinha que fazer algo pelo seu próximo, né? Para mim, eu tenho esta visão que ele tinha,  ou que tem até hoje. Só que atualmente nós não estamos fazendo esta paratica de campo por motivos que o presidente não está tendo tempo. Mas que na época em que eu fiz os quatro módulos, nós fizemos a paratica de campo.  Lá você via se realmente tinha aquele intuito de ajudar o próximo. E quando eu fui selecionada pelos educadores, na época, eu me surpreendi. Mesmo sabendo que eu era bisbilhoteira [Risos], vamos dizer assim. É que eu gostava de... a professora estava explicando, o meu amigo não estava entendendo... eu ia lá explicar devagarzinho para ele, entendeu? Eu me surpreendi porque eu não esperava. Mas eu estou lá até hoje. É sinal que está dando certo, né [Risos]?

 

P/2 – E com relação a esta outra associação, você poderia falar um pouco? Onde você trabalhava e onde você trabalha agora? Explicar um pouco da origem da Eic. Que associação que é?

 

R – A Ação Social ______________.  A Eic está implantada dentro da Ação Social, tá, é a Ação Social _______________. A Eic é um dos projetos da Ação Social, porque antes, logo que começou, mandaram e-mail para vários lugares e não tinham retorno positivo. Quando eles foram avisados pelo... projeto... esqueci o nome agora [Risos]. Isso fez com que eles mandassem para o CDI a proposta deles e o CDI devolveu, (pedindo para) implantar mais alguma coisa. Aí o presidente da instituição acatou a idéia e levou em frente. Mandou  tudo de novo, e o CDI aprovou. E hoje lá funciona a Eic_____________dentro da instituição Ação Social _________________,  né? Mas não só a Eic. Funciona lá cursos de artesanatos, filmagem e fotografias,  artesanatos em EVA, manicure e pedicure, que uma das educadoras também sou eu. 

P/1 – A que público se dirige essa associação?

 

R – Ao público carente.

 

P/1 – Sim, mas são mulheres, jovens, adultos, homens?

 

R – Crianças a partir de nove anos até a maioridade.Até o mais idoso que chegar na escola com certeza é bem atendido e tratamos com carinho cada um que vai lá.

 

P/1 – Quer dizer, os jovens são maioria.

 

R – Maioria.Jovens de 13 para 17 anos são a maioria.

 

P/1 – Poderia falar um pouco sobre esses jovens? Eles estudam? Não estudam? Trabalham? Não trabalham?

 

R – Alguns jovens trabalham porque, como nós estamos ligados à Ação Social num bairro carente - porque o bairro em que eu moro é carente de muita coisa, tá? E se nós tivéssemos incentivo do Estado, da Prefeitura, com certeza melhoraria a vida dessas pessoas. Porque assim como eu, que consegui pagar o meu curso, tem muitos jovens que lá não têm. Vão lá na instituição para nós conseguirmos bolsas para que eles façam o curso porque eles têm vontade de aprender. Mas no momento não temos condições de bancar todos os que vão lá. Quem dera que nós conseguíssemos, né? Ia ser vitória para gente, porque nós íamos dar um alicerce para cada um deles chegar lá na frente e olhar o futuro de uma forma diferente. O que não acontece, porque em vez do Estado, Prefeitura, esses órgãos que podem ajudar as instituições ainda não viram este lado social. Ainda não prestaram atenção que lá na frente essas pessoas que eles podem ajudar, poderiam ser um benefício. Podem ajudar o nosso povo, ajudar a nossa sociedade a ter uma sociedade mais justa. Menos malandragem. Eu vejo assim. Porque se você vê um jovem estudando e querendo chegar lá na frente, ter uma perspectiva de vida melhor, com certeza ele não vai se drogar. Ele não vai roubar. Com certeza ele vai avançar. Isso eu tenho certeza! Porque nós temos jovens nas nossas instituições que têm 13, 14 anos. Já foram de gangues, mas hoje estão estudando, estão gostando e estão concluindo o seu curso. Eu pergunto, quando meus educandos chegam na sala de aula: “por que ele chegou ao curso?”  Eu procuro saber quem indicou a escola, o que que ele quer do educador, o quê o educador transmite etc. Não só na primeira aula, como vira e mexe eu estou falando na mesma coisa com eles.  Por quê? Porque eu quero que eles digam para mim no que estou errada e quero que mais tarde eles também sejam educadores da escola. Você sabe, se um jovem não tem nenhum trabalho, o que vem na cabeça dele? Amizades que não prestam; dizem que “amizade não leva para o buraco”, mas leva. Porque eu já fui jovem... E eu sei que muitas das amizades não levam para um futuro progressor (promissor?) e sim leva para o buraco. E isso, quando você vê um jovem que não tem um grau de instrução e incentivo de ninguém, com certeza ele vai chegar a isso. E eu espero que os nossos jovens que estão lá estudando não cheguem a isso. Pelo contrário, venha a prosseguir mais e mais e chegar a ser um educador e até mesmo um ajudante na nossa Eic. Não só na nossa, como em várias que tem aqui dentro do Pará. Porque eu sei que todas aquelas pessoas que fazem um serviço voluntário por amor, com certeza é gratificante.

 

P/2 – Voltando para a tua época como aluna, o que que te movia, Lucinéia? Qual foi a tua expectativa para fazer um curso de computação? O que que você esperava do curso?

 

R – Eu, como aluna antes mesmo do curso de informática ,fui a um certo local porque eu vi  um computador.  Eu sempre fui curiosa; e sou [Risos], até hoje. Eu me informei: “O que era aquilo?” Eu queria saber, eu tinha curiosidade de ver. E disseram assim mesmo: “Tu queres aprender?”  Eu disse: “Bem, se eu não for danificar, eu quero aprender.” A pessoa me ensinou como ligar e desligar. Eu me interessei. Cheguei em casa e contei para minha mãe. A primeira pessoa  que eu cheguei foi para minha mãe: “Mãe, hoje eu mexi num computador e eu quero aprender informática.” Eu já trabalhava, estava trabalhando na época. Ela disse: “Tu queres aprender?” Eu disse: “Quero”. “Então vai, minha filha. Vai aprender.” Antes mesmo da Eic. Eu nem sabia  que existia a Eic, né? E eu fui aprender.

 

Quando eu aprendi no primeiro módulo, na época era caro demais, mas mesmo assim eu fazia questão. Quando eu chegava no final do mês e chegava o meu dinheirinho para pagar,  aquilo me entusiasmou, eu fiz por amor, porque eu queria aprender. Terminei o meu primeiro curso, passei quase seis meses ou sete meses sem pegar num computador porque eu não tenho, quando abriu a vaga lá da Eic. Aí a mamãe disse: “Mas faz tanto tempo que tu entrou que tu nem te lembra mais.” Eu digo: “Duvido!”- porque justiça seja feita, quando eu aprendo, aprendo mesmo, sabe? Eu disse para minha mãe: “Será que eu vou fazer?” Ainda fiquei  assim na dúvida, sabe... “Mas só uma hora de aula” [Risos]. A minha preocupação era porque  só era uma hora de aula [Risos] e não por causa que eu já tinha feito informática, entendeu? A minha mãe disse assim: “Vai, tu não estás fazendo nada. Vai, pelo menos tu aprende mais.” E eu disse: “É. Vou.” Quando eu fui para lá, apesar que os educadores da época, da minha época não foram aqueles professores que a gente aprendia assim – maravilhosamente - cidadania, mas o pouco que eles passavam me entusiasmou. 

 

Além de me entusiasmar, chegou um ponto que o presidente da instituição disse: ”Vocês tem uma tarefa para tal dia, tal hora em tal local.” Ele deu como se fosse com 15 dias a tarefa. Dentro desses 15 dias, faltava uma semana praticamente pro evento e nenhuma das turmas se movia e aquilo me preocupou. Na época fazia eu informática lá na Eic e a minha sobrinha que fez enfermagem. Aí ela disse: “Tia, se nós não nos movermos, ninguém vai fazer o que o Irmão Costa quer.” Aí eu disse assim mesmo: “Luciene,  nós vamos fazer o seguinte, nós vamos levantar, fazer uma tarefa com os nossos amigos, para conseguir aquilo que a gente quer, pra levar para onde tem que levar.” Aí ela disse assim: “Ai tia, mas tá tão monótono. Vamos fazer uma peça teatral?” Eu disse: ”Vamos. Vamos ver quem quer? Vamos.” Em uma semana, faltava isso. Nós não dormíamos, nós duas, [Risos] montando peça, preocupadas porque a gente não tinha conseguido alimentação - uma das tarefas - que eles tinham pedido e das outras turmas ninguém se envolvia. Aí foi quando nós fomos com eles e colocamos aquilo que nós tínhamos vontade de fazer, ele disse que sim. “Podem dar início.” Quando foi na segunda- feira eu fui de manhã na Eic, pedi licença pros educadores e falei o que eu tinha que falar. Aí todo mundo disse que ia levar no dia seguinte, até no dia, né? Eu sei que nós arrecadamos bastante coisas para levar de alimentação pro local. E nós tínhamos também que levar brinquedos porque era época do Dia  das Crianças; nós tínhamos que ter dinheiro para comprar aqueles brinquedos. Não queríamos dar brinquedos usados, entendeu? 

 

Fizemos uma coleta de um real (R$) para comprar o lanche; cada um levou alguma coisa:  bolo ou sanduíche ou brigadeiro ou refrigerante, suco, qualquer coisa. Quando chegou na hora, faltavam dois dias pro evento aí o pai de um dos meus filhos ligou para mim e disse: “Olha, Néia, eu to te mandando 50 Reais.” Me lembro como se fosse agora. Aí eu disse para minha sobrinha: “Filha, vamos no comércio?” “Mas tia, tu vai gastar o dinheiro dos meninos?” Eu disse: “Vou.” Compramos brinquedo para todo mundo. Para todas as crianças, além dos que nós tínhamos confeccionado em casa. Porque nós fizemos brindes de EVA. Que eu para fazer alguma coisa, basta eu ver uma vez e eu consigo captar aquilo rápido e eu passo pro papel. No dia que era para levar, o Irmão disse assim: “Como vocês conseguiram esses brinquedos? Se vocês levaram assim...  se não conseguiram brinquedos?” Falei assim: “Ah, isso é segredo de estado!’’ [Risos] “O senhor tá pensando que nós não vamos fazer bonito? Nós vamos fazer bonito. Nós vamos levar paras crianças do CVC algo que eles fiquem felizes.” Porque o CVC é crianças que vivem na rua, né? Então eles nunca tinham tido essa alegria de ganhar um presente no Dia das Crianças, brincar com outras pessoas. Era diferente para eles aquele dia;  já que íamos fazer alguma coisa da cidadania, tínhamos que fazer alguma coisa para eles se alegrarem, né? Aquilo foi um incentivo para que nós duas colocassemos a mão na massa, seguíssemos em frente e fazermos o que tínhamos vontade. 

 

Tanto  ela quanto eu tínhamos vontade de mostrar o nosso lado criança para as outras pessoas; por mais adulto que seja cada um tem o lado criança. E naquele dia nós pudemos brincar e mostrar para aquelas crianças que não é só criança que brinca; mas adultos, velhos; hoje nós temos aí a terceira idade, que está fazendo isso que não fizeram anteriormente. 

E nós mostramos para aquelas crianças que era bom brincar. Era bom vivenciar aquilo que estava no presente, aquilo que estava nos dando vitória. Então, para elas foi uma alegria muito grande, porque nós conhecemos um pouco da vida delas e nós mostramos para elas o que é brincar. Mas brincar adequadamente, não nos envolvendo com drogas, não nos envolvendo com coisas que seriam perigosas para nossa saúde; mostramos que a convivência em grupo é muito bonita quando você sabe conviver também. Mas quando você não sabe, você deve procurar ver com  outras pessoas aquilo que você não tem, né? E lá, eu tenho certeza que naquele dia, para elas, foi vitória. Foi um dia que eu tenho certeza que elas não vão esquecer. Eu, que sou adulta, ainda não me esqueci; imagine elas!

 

Quando você se propõe a ser voluntário, tem que ter o coração aberto. Você tem que... ser um cidadão de verdade. Você dá amor àquela pessoa que precisa de amor. Dar o peixe, mas também ensinar a pescar, sabe? Se você só dá, não vai ter retorno. É o que nós fazemos na Eic. Nós ensinamos a informática, cidadania e pedimos para que eles nos passem no final do curso o que aprenderam... Nós pedimos para os alunos nos passem tudo aquilo que aprenderam no fim do módulo; eles vão passar para as pessoas que vão assistir a apresentação deles no mural. Às vezes eu faço  brincadeiras: “ vou perguntar como é que faz isso ou aquilo”- para ver se se desinibem, porque nós sabemos que tem crianças no nosso meio que ainda não tem aquele aspecto de mostrar alguma coisa, né? Ainda não tem aquele convívio com o estudo. Quando nós estudamos, fazemos trabalhos e temos que explicar, né? Mas tem crianças que ainda não estão nesse ritmo no colégio. Na sala de aula mesmo, brincando com os alunos, os levamos a apresentar alguma coisa para que no dia (do encerramento) eles não fiquem com vergonha. Nas brincadeiras, os levamos a conhecer a realidade do que é o curso, para que aprendam que lá na frente também vão ter que fazer isso. Tem alguns que dizem: “Ah professora, eu vou falar só um pouquinho! “Fale o que você tiver que falar. Não sou eu que vou dizer que você tem que dizer 1000 palavras se o seu texto ou a sua frase se resume em duas; mas diga tudo aquilo que você quer falar”... “Você tem que administrar o seu tempo.” Então eles estão acostumados. Tanto que as minhas turmas todas lá, já apresentaram trabalho sobre reciclagem. Trabalho sobre lixo, drogas, violências e demais coisas, desde o início.

 

P/1 – Você podia contar uma  experiência dessa? Uma dessas aí que você acha mais importante, do começo ao fim, Que atividades foram desenvolvidas?

 

R – Mas desde o começo que eu fui educadora? Ou um deles?

 

P/1 – Não. Contar como vocês desenvolveram essa atividade, por exemplo.

 

R – Essa atividade? Bem, reciclagem do lixo que foi uma das recentes. Nós fizemos assim, um debate para descobrir qual o tema, né?

 

P/1 – Isso dentro da aula de informática?

 

R – No início de aula. Vamos supor que hoje é meu início de aula. Eu me apresento, eu converso com os meus educandos, brinco com eles, faço uma brincadeirinha para todo mundo ficar descontraído. Depois nós fomos conversar sobre o tema. “Que tema  você acha que nós devemos abranger nos nossos dias de aula? O quê mais  você  tem preocupação em aprender? Dentro da sua comunidade qual é a dificuldade que você tem?” E eles vão passando para cada um de nós aquilo que você tem dificuldade. Alguns dizem que é drogas, outros dizem que é violência, outros é abastecimento, transporte, entendeu? E isso vai fazendo com que eles se envolvam cada vez mais com a nossa aula. Só que tem pessoas que dizem assim: “como é que tu coloca cidadania dentro da informática?” É fácil. Basta você ter consciência de que quer fazer aquilo.

 

Por exemplo, o nosso tema escolhido foi reciclagem. Aí eu pedi para que eles procurassem em livros, revistas, jornais, tudo que falasse a respeito de reciclagem. Quando eles chegaram na sala de aula... eu peguei cada um que veio com um recorte e nós fomos brincar de reciclagem. “O que é reciclagem para você?” E cada um ia dizendo da sua maneira. “O que nós podemos fazer com reciclagem?” Isso dia após dia, né? “Como nós podemos fazer isso?” Cada dia eu jogava uma pergunta diferente, até nós chegarmos ao final. “Como nós podemos fazer? O que nós vamos apresentar no dia?” Cada dia eu colocando uma pergunta e eles se entusiasmando com aquele tema que nós tínhamos escolhido, veio aquilo que nós chamamos de encontro. Chegou uma quinta-feira que todos eles chegaram: “Professora, Néia” como eles queiram me chamar, né? [Risos] “Nós vamos sentar hoje, nós não vamos ter aula.” [Risos] “Nós vamos confeccionar as nossas coisas para  apresentar para você amanhã.” Que não seria no dia de amanhã, seria dois dias ou três dias depois, se eu não me engano. “O que que vocês vão apresentar? Hoje quem vai ficar sentada sou eu. Só vou ficar escutando” eu disse. Eles me mostraram o que eles poderiam fazer com copos descartáveis, com jornal, com copos de maionese, com vidro de maionese. Cada um trouxe uma experiência diferente do que aprendeu a fazer. Então, isso fez com que eles entendessem que, por exemplo, saco plástico nós podemos reutilizar para outras coisas. Copos descartáveis nós podemos fazer 1000 coisas, 1001 utilidades. Jornal, a mesma coisa. Você pode fazer cesta, bichinhos de...  aqueles bichinhos com papéis, né? Quer dizer, eles montaram coisas que nem eu sabia que podia montar. Então para mim foi gratificante.

 

P/1 – E isso, trabalhando no computador? Como texto?

 

R – Como texto, como slide, entendeu?

 

P/1 – De que jeito?

 

R – Nosso último módulo é power point. Então, eu jogo tudo isso em cima do  power point. Quando está no word,  eu jogo dentro do word, caixa de textos. No windows eu jogo no bloco de notas, no paint... eu tento fazer eles montarem, da maneira deles, no paint e jogar no bloco de notas a mensagem que eles querem passar, dentro de cidadania. E eu consigo fazer com que eles se integrem àquilo com uma facilidade, que os meus colegas sentem dificuldade. E eu já não sinto, porque eu tento buscar deles o que que está mais dificultando, entendeu? O que dificulta a fazer aquilo e eles me passam e eu tento buscar nos meus conhecimentos. Quando eu não sei, eu procuro livros ou alguma coisa, jornais... para eu poder levar para eles também aquilo que eu aprendi. Porque você sabe, o que você passa... cada vez que você passa, você aprende um pouco mais. Então, cada vez que você transmite para alguém alguma coisa, com certeza você vai adquirindo mais experiência. E é isso que faz  com que os meus educandos comecem a se entusiasmar pelo aquilo que nós estamos trabalhando. Então, não é uma aula monótona, entendeu? Todo dia é uma aula diferente com brincadeiras, com aventuras. Às vezes eu conto um caso que se passou na TV e eu tento buscá-los dentro daquele problema, sabe? Então eles vão se entusiasmando e quando chega no fim do módulo, tem um saldo positivo. É que muitas das vezes essas pessoas querem colocar o tema e as perguntas e eles não sabem associar uma coisa à outra. Então fica difícil. Eu não. Eu não sei se é porque eu tenho facilidade de fazer isso, porque eu questiono muito algumas coisas [Risos] até mesmo dentro da minha casa, e eu tenho facilidade de passar e conseguir captar deles o que que eles estão com dificuldades. E aí, graças a Deus, em todos os meus módulos eu tenho saldo positivo com os meus educandos e isso para mim é gratificante, porque eles aprendem. Posso dizer que eles não aprendem 100% porque nós sabemos que não tem condições em apenas 15 aulas, 16 aulas. Mas nós temos certeza que alguma coisa ali dentro daquele coração ficou. Alguma coisa de diferente ficou na vida daquela pessoa. Que ele aprendeu e que mais tarde ele poderá  passar para alguém.

 

P/1 – Lucinéia, você falou assim que no começo você faz umas perguntas, né, para eles. Você podia dizer as respostas das suas perguntas para nós? Quer dizer, o que que os alunos vem buscando no curso de informática? Qual a expectativa deles? O que que eles esperam do educador? O que que eles esperam do curso? Que respostas você chegou para essas perguntas?

 

R – A maioria deles vem com incentivo da família ou de um amigo, né? Alguns por folder, né? Porque pegou um folder, leu e se interessou. Foi buscar conhecimento lá. Outros, eles vão buscar o conhecimento para se qualificar para o mercado de trabalho. A maioria deles é para se qualificar no mercado de trabalho. Isso é interessante para nós, porque nós já tivemos pessoas que são formadas em Arquitetura, entendeu? Pessoas que estão fazendo universidade de Direito. Um futuro advogado, né? Para nós é gratificante, eles procurarem a Eic. E com certeza, para aquela pessoa que está ensinando o pouquinho que ela sabe, porque eu acho que você nunca sabe tudo, você sempre... falta alguma coisa, mas se você buscar, você aprende para passar para aquelas pessoas. Eles...  sempre no final do curso eu pergunto: “Qual a mensagem que você deixa pro educador?” Eles dizem: “Só quero que você continue com o coração sempre grande do jeito que é” [Risos] “e paciente como você é.” Isso para mim é felicidade, saber que alguém gostou daquilo que você ensinou é muito gratificante. É uma alegria assim que você sai exuberante de sala de aula. Vai para casa feliz da vida, né? E a maioria deles, dos meus educandos... eu não vou dizer em geral da escola porque eu não tenho acesso a todas as turmas. Mas dos meus educandos, eles procuram a escola para se qualificar para o mercado de trabalho futuramente. Que a maioria não tem computador na sua casa. Eles querem aprender e não têm como. Então, como na Eic é de baixo custo, eles vem porque eles têm condições de pagar. E aquelas pessoas que não têm condições vão na Eic para ver o computador. Muitas das vezes pedem para assistir uma aula e nós, se sabemos que a pessoa é de boa índole, deixamos ficar, porque nós sabemos que ali vai incentivando a buscar outras pessoas também, a levar a Eic para também fazer o curso. Se profissionalizar é uma geração de renda para aquela pessoa. Se ele aprender e se ele  tiver intuito de correr atrás de outros cursos, com certeza, mais tarde vai ser futuro. Mas se for aquela pessoa parada, que não quer nada, vai fazer um curso, deixar lá na gaveta o diploma e esquecer que fez um curso de informática. Mas para quem tem avanço, que quer  avançar, com certeza é futuro.

 

P/1 – Que tipo de aluno não consegue se desenvolver numa (EIC?)? Assim, num curso desses? Você tem casos assim?

 

R – Tenho.

 

P/1 – E por que que ele não...

 

R – Teve uma educanda nossa que até ia razoavelmente bem, quando disse que não ia mais ficar na escola porque tinha um desentendimento com a família. O pai, ou a mãe,  não sei...  não aceitavam porque a aula é de sete às nove e meia. São uma hora e meia de aula... 

 

P/1 Da noite?

 

R – Da noite... que eu dou. E a família não acreditava que ela saía naquele horário da aula. Tentei conversar com a família dela, mas foram pessoas muito assim grosseiras e para evitar_________ eu me recolhi, eu não voltei para conversar com a família dela. Era uma pessoa de mais de 18 anos, mas a família.... não aceitava que ela chegasse depois das nove na residência. Aí eu disse para ela: “olha, só tem um jeito, você conseguir um entendimento amoroso com a sua família.” Porque pelo que eu entendi, é uma família que tem pessoas envolvidas com drogas e marginalidade. Então fica difícil o diálogo entre as pessoas, e eu não sei discutir. Eu prefiro conversar. E quando eu disse para ela que, se ela achava que não podia mais fazer à noite, que ela viesse à tarde. Ela tentou, só que não conseguiu porque a família dela dizia que não prestava, não sei para que que ela estava estudando, entendeu? Que isso não levava ela a nada. São coisas assim, que você vê que as pessoas ainda não estão preparadas, né? Algumas pessoas, não estou dizendo todas, em geral. Mas algumas pessoas ainda não estão preparadas e isso.. em qualquer lugar que você vai, informática é centro de muitas coisas. Praticamente é o centro de tudo agora, né? E muitas pessoas ainda não entenderam isso. Os mais humildes, vamos dizer assim no linguajar, ainda não entenderam. Porque tem pessoas que querem aprender mas não sabem nem para que serve aquilo. Só têm a curiosidade de ver o que é uma informática, o que é um computador, o que é um monitor, o que é teclado, né? Muitas das vezes você pergunta... “não sei nem o que é”.” Você já viu, você já mexeu?” “Não, né?”. A gente tenta buscar a família para dentro da Eic. Mas muitas das vezes nós não conseguimos. Mas para o povo que está lá dentro, nós tentamos ajudar a levar para sua família aquilo que está se passando dentro da Eic. E nós já conseguimos muitos avanços.  Nós já tivemos lá... uma turma conseguiu levar para dentro da escola, o serviço de oftalmologia. As pessoas faziam consultas e levavam para fazer o óculos depois, né? Então, muitos alunos nossos levaram os seus pais para dentro da Eic que estavam sendo beneficiados por alguma coisa que nós estávamos fazendo.

 

P/1 – Mas para fazer o curso?

 

R – Não.  Nós levamos eles para fazer  o serviço oftálmicogratuitament e, para ver se  tínhamos envolvimento com aquela família. Chegamos ao ponto de fazer isso  durante um mês todinho porque queríamos fazer assim uma família, vamos dizer assim, com todas... os familiares dos nossos educandos, mas só que teve algumas que não foram, não deram crédito, então ficou difícil. E são aquelas pessoas que precisam, mas que não querem dar o braço a torcer, entendeu? [Risos] Tem aquele ditado:” você quer, mas você quer que vá na sua casa, você não vai até ele”, né? Isso fica difícil. A nossa Eic... quando o aluno chega na secretaria, com a nossa  recepcionista lá, ela faz 1000 perguntas, né? Muitas das vezes seria selecionado por baixa renda nossos educandos mas, como a gente  não tem como fazer isso, nós colocamos todos. Mas só que nós fazemos assim: selecionamos aquelas pessoas para aquele turno, o nosso presidente conversa com todos eles. Nós temos uma liminar de faltas e de presenças. Se você faltar duas vezes você sai do curso, para ver se incentiva aquela pessoa a continuar no curso, não faltar por brincadeira. Agora, se você levar um atestado, com certeza você vai ter um retorno daquela aula que você faltou, mas se você não levar  não tem retorno. 

 

Alguns alunos nossos, nós sabemos que eles vão para escola porque estão entusiasmados. Outros não, porque estão chateados com a família. Aí  levam o problema para nós; tentamos resolver da nossa maneira, tentamos conversar com aquela pessoa. Quando eu disse que a nossa aluna estava envolvida com drogas, ela também já estava se envolvendo com pessoas que tinham a mesma índole, entendeu?  Então os pais, como já sabiam... eu acho que já conheciam a índole... não estavam aceitando ela vir fazer o curso. Por quê? Já sabia que quando ela saia da escola, ela se encontrava com aquelas pessoas que não eram futuro para ela. E ela saiu da escola. Outras não. Tenho alunas já minhas... minhas que eu quero dizer, que estudaram comigo, né? [Risos], que fizeram o curso – tendo eu como educadora - que estão trabalhando. Que... “Olha professora, quando eu precisar eu vou lá com a  senhora. Quando eu tiver um tempo eu vou lá pedir uma informação para senhora de umas coisas.” Quer dizer, isso é gratificante quando você vê  um educando seu dizer que já está trabalhando. Já está ganhando o seu pão de cada dia para ajudar a sua família. Muito honroso, principalmente para as pessoas que precisam realmente, né? E nós temos uma educanda que por sinal trabalha, como estagiária, mas já tá trabalhando na Caixa Econômica. Ela é menor ainda. Se eu não me engano tem 14 ou 15 anos. Não lembro bem a idade dela. Mas é gratificante quando ela chegou na Eic e disse: “já estou trabalhando. O meu curso de informática valeu.” Quer dizer, nos dá um impulso maior para levar para os outros coleguinhas que estão chegando,  que valeu a pena para ela e com certeza para você também valerá a pena, né?

 

P/2 – E Lucinéia, quem são os alunos da Eic? Qual é o perfil do aluno? Que público vocês pretendem atender?

 

R – A maioria é de classe baixa. 

 

P/2 – A idade?  

 

R – 80%  é pessoal da classe baixa mesmo. Pouquíssimos são da classe média e o grau de instrução deles varia de quinta série fundamental até universitário.

 

P/2 – Todos são da comunidade? Todos são da Marambaia?

 

R – Todos. Só tem umas três alunas que não são da comunidade, porque são de bairros distantes daqui da Marambaia, por exemplo. Tem uma que mora na Guerlinda,  próximo ao viaduto. Vem para Eic assistir aula à noite. Tem outro que mora no Marituba. Vem para escola fazer informática... só onde ele encontrou mais em conta.  E assim nós vamos conhecendo outras pessoas, que não são do nosso bairro, mas que  fazem o curso e estão se beneficiando, você sabe... que estudar, aprender alguma coisa é bom. Agora aprender coisas que não valem a pena você sabe que é tudo do mau, né?

 

P/1 – A Eic é ligada à internet?

 

R – Não, no momento ainda não.  Agora, com a nova direção que vai começar a assumir, nós estamos pretendendo. Porque, de início, nós temos quem vá fazer a instalação, mas ainda não foi feito por motivos que quando ele pode ir, não tem ninguém na Eic [Risos] e aí não tem como nós dizermos assim: “vai hoje.’ Porque ele também trabalha. Então ele vai ser voluntário, também. Ele vai fazer a coisa gratuitamente para nossa Eic porque nós conhecemos, ele é, por sinal, até meu parente. E ele se entusiasmou. Nós... falando, assim como eu tô conversando com vocês. Contei sobre a Eic, né, o que fazia... ele disse: “Ah mana, eu vou lá fazer.” Eu disse: ”Tá,  então quando tu for, tu me avisa.” Quando ele me avisa, o presidente não tá na instituição, ou então eu tenho que ir lá para ficar com ele, né? Porque tem que ter alguém lá dentro para ele poder fazer  a fiação toda e como vai mudar a nossa Eic de local, não sei se ainda esse ano, mas ano que vem provavelmente vai estar mudando de endereço. Então, como eu disse pro presidente: “Não adianta então fazer agora, porque vai ser perda de tempo. Colocar três meses e depois tirar tudo de novo, né?”  Então nós vamos esperar a nova direção. Eu já entrei em contato com ele para que nós possamos fazer, porque eu sou educadora mas eu sou “inxirida” lá na coordenação, sabe? De vez em quando eu meto o meu dedinho lá para ajustar alguma coisa. Como eu já fui da coordenação e eu sei como é, eu procuro o melhor para darmos para os nossos educandos, porque isso só vai melhorar a imagem da escola, com certeza.

 

P/2 – Como que é essa imagem da escola na comunidade? Como o pessoal vê a Eic, o pessoal de fora, da comunidade?

 

R – Bem, a maioria das pessoas que vão na escola, algumas vezes dizem assim: “Nem conhecia a Eic, já existe há muito tempo?”  Por quê? Ela era dentro da igreja, então praticamente só as pessoas da igreja conheciam. Como agora está num prédio fora da igreja, já ficou mais conhecida. Então, as pessoas já procuram. Quando tem ______ (mutirão?) de cidadania, por exemplo, alguma coisa grátis para a população, então as pessoas vem. Sai o noticiário... nós alunos... porque eu ainda me coloco no lugar de aluno, né? Porque você sabe o que você aprendeu lá, você só tem que dizer que você é aluno, né? Eu não sou educador. [Risos] Quando sair de lá, então nós vamos nas igrejas, na feira... divulgar o que vai ter na escola. Por exemplo, teve uma época que nós tiramos 100 cédulas de identidade. Voluntário. Nós conseguimos, através de ofício, com a  Secretaria do Estado, né? E foi num sábado. Tiraram 100 cédulas de identidade para a população. Então ali ficou cheio. Vira e mexe eles perguntam quando vai ter de novo, sabe? Porque é algo grátis para a população. Como eles não tem que pagar eles se entusiasmam, né? Você sabe que quando você não tem condições financeiras  tudo fica mais difícil. Quando é grátis, não. Você vai porque vai conseguir aquilo que quer. E depois dessa... do dia que teve... do “dia D”  por sinal. Foi no “dia D” do CDI que foram tiradas as carteiras de identidade e a população de vez em quando vai lá. Vira e mexe tem gente lá perguntando: “Quando é que vai ter alguma coisa para nós aqui?” Agora com a nova coordenação eu não sei como que vai ficar, se nós ainda vamos ter essas paraticas assim, porque no dia que foi feito essa.. .que foi feita a cidadania, os alunos participaram  ajudando. Foi uma paratica deles de cidadania, entendeu? E todo o corpo docente e discente da escola participando juntos ali, de mão dada para ajudar a população. Então é onde nós procuramos ver se o nosso aluno está capacitado realmente para ajudar alguém. Se ele não tem vergonha, se ele é grosseiro. Sempre nós puxamos assim o orelhinha de quem não vai fazer aquilo com gosto, sabe? Porque tudo o que você vai fazer, tem que dar um pouco de amor. Tudo. Por mais simples que seja, você tem que colocar um pouco de amor. Por mais difícil que seja.

 

P/1 – Que tipo de dificuldade os alunos têm no aprendizado da informática?

 

R – Alguns, por não saber ler... a dificuldade. Não entendem o linguajar que você está falando. Então você deve procurar as palavras mais simples possíveis para transmitir a eles, entendeu? Você tem que primeiro conhecer o teu alunado, para depois começar a dar a aula. Naquela entrevista que eu faço, eu procuro ver qual a dificuldade deles para que eu possa me policiar; para dar uma aula boa e não entrar em confrontos de dar a aula e eles não entenderem e chegarem lá na frente, dizerem: “Ah aquela escola...”  entendeu? Não. Você tem que policiar-se para depois transmitir. Se você não conseguir isso, não consegue dar uma aula. Que eu digo, no caráter bom. Não vou dizer que é excelente, né? Mas bom. Para aquela pessoa entender e aprender aquilo. Porque você sabe que se está falando para mim algo e eu estou voando, consequentemente você não vai aprender nada, né? Então você tem que primeiro conhecer o teu aluno, saber um pouquinho dele. As vezes eu nem coloco na entrevista algo sobre a vida dele. Eu pergunto assim, fazendo brincadeiras: “O que que você faz na sua casa? De que forma você convive? Você trabalha? Você estuda? Ou você não faz nada?” [Risos] Sabe, na brincadeira, então eles jogam assim as coisas... sem mais nem menos eles te passam aquilo que você quer saber. Mas na esportiva. Mas se você procurar saber assim a fundo, eles não te passam nada. Então, eu sempre digo para os meus educandos que eu não sou a professora. Eu sou a Néia brincando com eles. Eu sou a amiga. Que eu quero que eles me vejam como amiga, porque eu acho que é isso que eu sou para eles todos que estão lá,  independente de idade. Porque eu tenho educando que tem mais idade do que eu [Risos]. Eu sou uma criança perto deles, entendeu? Então isso para mim é privilegiado... ver esse tipo de atitude deles para comigo. Quando eu chego, eles estão todos me esperando no portão. Eu sempre chego atrasada. Mas também eu sempre saio depois do meu horário. Porque eu sempre digo para eles: “Olha, se eu chegar atrasada é porque eu estou trabalhando.” Então, eu dependo de ônibus. Nem sempre o ônibus pára para você chegar no seu local, na hora combinada. Aí eles dizem assim mesmo: “Eu estou lhe esperando e vou ficar lhe esperando uma hora,”[Risos] “porque eu sei que a senhora  vem. Porque quando não vem, a senhora avisa com antecedência.” Tanto que todas as minhas turmas, quando eu vou faltar, por exemplo, vamos supor hoje; se eu tivesse aula no horário que eu tinha marcado aqui, eu teria avisado um a um do meu telefone, para que eles não fossem para a escola. Quando eu não tenho contato com a escola, por exemplo; eu tenho... dos educadores da escola eu tenho todos os telefones, da coordenação em geral eu tenho todos os números de telefone, dos meus alunos eu tenho todos os telefones. Quando eu aviso os alunos, eu não aviso a escola. Quando eu aviso a escola eu não aviso a eles; porque a escola tem alguém lá para me dizer que eu não vou poder ir ou então ligar para que não venham. Então eu sempre procuro... eu sei que eu não sou perfeita mas eu tento agir na maneira que deve ser com cada um... educando na nossa Eic.

 

P/1 – Você tem assim... algum assunto que você queira falar? Que nós não tratamos? Um exemplo assim que você queira citar, que nós não perguntamos? Que a gente fez muitas perguntas, né,  mas pode ser que alguma coisa não...

 

R – A única coisa que eu gostaria de deixar é que se houvesse possibilidade, né? Não vou dizer que eu quero. Se houver possibilidade, que haja sempre um encontro com o pessoal CDI com as Eic, por exemplo, com a nossa (Eic?). Porque... tem pessoas... eu sinto dificuldade, mas quando eu estou com dificuldade eu procuro me integrar para mim aprender, né, mas tem algumas pessoas que não têm, né, como diz a mamãe, a cara de pau que eu tenho de procurar, né? Mas se fizer... este mês já foi feito na Eic. Eu não pude participar porque eu estava em um outro evento do Estado participando do TRE por causa das eleições. Teve uma capacitação dentro da (EIC?) com a Teodora e não sei mais alguém.

 

P/1 – Daqui do CDI, né?

 

R – Do CDI. Eu não pude participar. Fiquei triste  porque eu queria estar lá. Mas também não podia estar lá porque tinha outro compromisso. Então eu gostei, mas ao mesmo tempo eu fiquei triste porque não pude participar. Mas que houvesse sempre essas capacitações dentro das Eic, mas de preferência num dia que eu estiver [Risos], porque o Bruno diz assim mesmo: “Quando nós marcamos tu não pode estar, quando nós não marcamos tu tá na (Eic?).” Quer dizer, é difícil às vezes porque às vezes eles colocam no dia de sábado. No dia de sábado eu não posso. Eu trabalho o dia inteiro, porque como eu disse, eu sou pai e mãe da minha casa. Eu sou mãe e pai e marido da minha casa, né? Então eu procuro sempre fazer as coisas... quando eu tenho que fazer alguma coisa do CDI, eu me programo com antecedência, para que naqueles dias eu esteja disponível para aquilo. Eu gosto de estar. Cada vez que eu venho, eu aprendo algo novo e uma experiência nova... para que eu passe para as outras pessoas que com certeza,  para mim é gratificante.

 

P/1 – Que tipo de capacitação o CDI oferece?

 

 (Fim da fita/CD - 1)

 

P/1 – Que tipo de capacitação o CDI oferece...  para própria entidade?

 

R – Bem, nós tivemos capacitação a pouco tempo de... não foi bem uma capacitação, né? Nós tivemos um encontro de todas as Eic para mostrar as experiências. Mostrar o avanço e mesmo um pouco de fracasso, né? Porque você não diz que está no fracasso. Você está no meio termo, né? Quando você não está conseguindo avançar, procura buscar dentro das outras Eic alguma coisa que tu acha que para aquela (Eic?)... precisa. Então, quando há esses encontros ou os congressos...  até mesmo as capacitações, você aprende alguma coisa nova. Você aprende algo que vai fortalecer a tua Eic, porque cada qual tem um convívio na sua (Eic?), né? Eu tenho o convívio porque eu vivo ligando, perguntando as coisas, procurando saber. Me integro muito com relação a Eic e quando eu não consigo falar com ninguém no CDI, eu ligo pro presidente da instituição. Ele diz: “Não sei  nada.” [Risos]

 Aí, quer dizer, eu fico: ligo pro Bruno, ligo pro Adamos, [Risos] ligo para Sabrina, ligo pra  Teodora .[Risos] Aí, quer dizer, quando eu não tenho resposta de nenhum lugar, eu digo: “Ah não gostei, não vou mais ligar.” Quando chega no outro dia que eu chego na Eic e tem alguma coisa mandada pelo CDI, eu digo: “Está vendo? Eu liguei, mas não foi em vão.” Quer dizer, mas eu não consegui falar com as pessoas. Mas eu sei que teve um retorno. Alguém ouviu alguma coisa que eu deixei. Então eles... na medida do possível, eu sei que o CDI do Pará está transmitindo aquilo que ele nos proporcionou de início; que  iríamos ajudar nas capacitações para aprendermos e passarmos para as outras pessoas; sendo que, poderia ter mais capacitações, porque cada dia  tem uma coisa nova na informática, né? Tem coisas que você aprendeu... ano passado, que este ano você vai ensinar, já é defasado, né? Então, se houvesse assim uma capacitação. Por exemplo, teve o nosso encontro e ainda não teve capacitação de internetaccess, se eu não me engano. Não lembro bem. Não pude participar porque não conseguiram avisar a nossa Eic. Teve na escola. Eu participei dois dias; no terceiro dia eu não pude participar porque estava trabalhando. Se fosse assim pré-determinado no local já... um calendário para gente, com certeza naqueles dias nós  tínhamos como nos adequar para aquilo. Pelo menos eu, né? To dizendo no meu caso, porque como eu sou tudo na minha casa, tenho que me programar para participar de tudo que acontece na Eic e CDI junto.Porque Eic e CDI é a família, né? Então eu até disse lá  pro Bruno: “É, vocês foram e eu nem estava  na escola, né?” Porque eu brinco muito, assim com eles... brincando, mas ao mesmo tempo é sério, entendeu? Eu procuro buscar deles aquilo que eu não sei. Então, quando eu falto na capacitação eu sei que eu perdi muita coisa. Não foi pouco. É muita coisa que você perde, porque você  conhece (acessa) o conhecimento de outras pessoas. “O que você fez na sua Eic que eu não tenho na minha?” De que forma nós podemos conversar para implantar aquilo na nossa Eic, entendeu? Então, isso para mim é gratificante. Os nossos encontros, de coordenadores e educadores, há um certo envolvimento; mas se fosse a nossa capacitação como no início, com certeza iríamos aprender mais coisas para passarmos às outras pessoas. Esse é o meu ponto de vista e eu espero que... [Risos]

 

P/2 – Lucinéia, o que que mudou na sua vida pessoal e profissional, depois que você começou a frequentar a Eic como aluna e como educadora?

 

R – Quando eu comecei a frequentar a Eic como aluna, o que me sensibilizou foi a parte de cidadania, né? Como educadora e coordenadora, o que me incentivou mais e mais foi o fato de você poder ensinar as pessoas que precisam e que não têm condições de pagar um curso mais avançado e até mesmo... -  que nós sabemos que é caro, né, por causa da manutenção dos equipamentos - e isso me deu mais alegria, porque eu gosto de ensinar as pessoas que não sabem. E eu gosto de dar por amor aquilo que eu aprendi, e isso me faz feliz, ensinar as pessoas com carinho, com humildade. Muitas das vezes eles vão porque eles querem ter uma vida diferente e isso para mim... eu me sinto feliz. E tudo isso que aconteceu, para mim, eu tenho retorno de Deus. Eu entrego na mão Dele, porque tudo que você faz, você com certeza vai ter retorno, independente de qual forma for. Mas graças a Deus eu sou feliz. Eu não tenho emprego ainda, mas nunca me faltou nada desde que eu fui para Eic. Deus sempre me dá o meu pão de cada dia, junto com a minha família. E  o retorno eu dou a minhas aulas, aos meus pequeninos lá da minhacomunidade; eu espero que eles consigam vencer. Porque é muito gratificante ver alguém vencer sendo humilde. Com ignorância você não consegue nada. Mas se você for humilde de coração, com certeza vai vencer. Eu vejo que depois que eu fui para Eic a minha vida mudou muito. Eu tenho responsabilidade. Já tinha anteriormente, mas depois que eu fui para a Eic eu tenho mais responsabilidade ainda, porque são turmas de oito a dez alunos. E se eu não for, eu fico triste porque eu sei que naquele dia eles não vão ter algo  para se expressar. Mesmo que seja no monitor, porque  muitas das vezes eles não passam para mim assim...  falando, mas eles passam pro monitor aquilo que eles estão querendo transmitir para alguém e na brincadeira nós conseguimos com que tirem aquilo que está machucando, entristecendo aquela pessoa. Então isso me faz muito feliz e eu rogo a Deus que com o passar dos dias e das horas, Ele me abençoe com o meu emprego. Porque eu fui aprovada em um concurso público e to aguardando, né? E para Deus nada é impossível. E só Ele pode fazer algo por mim. E é isso que eu tenho para dizer.

 

P/1 – Então, Lucinéia, o que que você achou de fazer esse depoimento aqui? O que que você achou dessa idéia de prestar esse depoimento? 

 

R – Para mim foi ótimo. Esclarecer e expor as minhas idéias, né? Colocar um pouquinho do que eu passo na Eic e na minha comunidade, para as pessoas conhecerem um pouquinho da nossa realidade. Porque isso é a nossa realidade, né? E eu espero que com  isso agente consiga chegar ao ponto limite, né, que as pessoas de mais incentivo, porque você sabe que tem alguns empresários que ainda não conhecem o CDI em si, na parte cidadania, né? Porque quando fala o CDI, fala das Eic em geral. E eu espero, que com isso, as pessoas conheçam um pouco mais das nossas Eic aqui em Belém e que dêem apoio; a população mais humilde precisa de apoio para que não se torne uma coisa mais grave mais tarde. Eu espero que com isso as pessoas valorizem mais o trabalho dos voluntários, porque voluntariado é algo que é feito com amor e com certeza que o faz recebe em troco mais amor. 

 

P/1 – E o que que você achou da idéia do CDI mesmo fazer... realizar essa... contar a sua história através da história das  pessoas, que é a ideia desse projeto mesmo?

 

R – Eu acho que vai ser gratificante para as pessoas de todo o mundo - porque isso vai para todos os países, né - acessar o CDI. Vão conhecer a história das pessoas para levar adiante o projeto CDI juntamente com as Eic e avançar. Nós sabemos que só uma andorinha não faz verão, né? Tem que ser um grupo, para seguir em frente e que o CDI junto com as Eic fortaleça mais e  mais as comunidades que precisam deles. Que eles possam dar um impulso maior para o CDI, para que ele possa ajudar as Eic a levantar vôo, vamos dizer assim, junto com a comunidade que precisa.

 

P/1 – Tá bom. Então em nome do Museu da Pessoa e do CDI agradecemos o seu depoimento aqui hoje. Muito obrigada, viu Lucinéia.

 

R – Obrigada também.

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