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História

Futebol e Zaki Narchi: minha vida, toda minha história

História de: Simon Richard Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

A infância no bairro Carandiru. O barraco que morou na Zaki Narchi. As brincadeiras na rua com os amigos. Escolhas que fez durante a vida. Primeiras lembranças da escola. As primeiras experiências jogando bola e os treinos na escolinha de futebol. A experiência no time de futebol Cabofriense durante a adolescência. A gravidez de sua namorada e a paternidade em sua vida. A decisão de abandonar o futebol profissional. O trabalho no Outback como cumin e, depois, garçom. As dificuldades da pandemia e o desemprego. Voluntariado na Escolinha de Futebol e na Associação Sempre Zaki Narchi. A oportunidade de influenciar positivamente as crianças da comunidade. As mudanças na comunidade ao longo dos anos. A relação do entorno com a Zaki Narchi. As doações recebidas pela Associação durante a pandemia. Rotina do dia a dia e sonhos pessoais e coletivos para o futuro. O que a Zaki Narchi representa em sua vida.

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História completa

P/1 – Simon, pra começar, eu gostaria, por favor, que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local e a data de seu nascimento.


R – Meu nome é Simon Richard, nasci em Minas Gerais, moro atualmente no Carandiru e tenho 27 anos. Nasci em 1994.


P/1 – E qual o nome dos seus pais?


R – Minha mãe se chama Marinês Soares Silveira. Meu pai não tem registro, porque não me registrou, mas eu sei que o nome dele é Élcio Fagundes.


P/1 – E o que sua mãe fazia?


R – O que minha mãe fazia? Na verdade, minha mãe sempre trabalhou. Mas ela trabalhou em uma área que me afeta muito, ela entrou na área de prostituição, então acabou complicando nossa vida um pouquinho, nessa caminhada. Mas ela foi garota de programa.


P/1 – E você tem irmãos?


R – Tenho mais dois irmãos da parte da minha mãe e mais três da parte do meu pai.


P/1 – Qual é o nome deles?


R – Um se chama Nick Sávio Soares, que é meu irmão um ano mais velho do que eu; aí tem a Samanta Soares Fagundes, que é minha irmã. E da parte do meu pai eu sei só os primeiros nomes deles, que é Kevin Sena, Antony Sena e Stefanie Sena.


P/1 – Você não tem relação com eles?


R – Tenho um pouco, já fui algumas vezes lá em Minas Gerais, na casa do meu pai, porque tenho familiares lá, como nasci lá, então, da parte da minha mãe também todos são de lá. E eu vou lá, já fiquei lá uns três meses, quando me separei da mãe do meu filho, faz pouco tempo, não faz muito. Aí eu fui lá, fiquei três meses, fiquei na casa do meu pai, fiquei na casa dos meus tios e voltei pra São Paulo de novo.


P/1 – E como você descreveria sua mãe?


R – Minha mãe? Uma pessoa que trabalhou muito. Independente do ramo dela, ela sempre nos quis ver bem. Sempre deu do bom e do melhor, trabalhou nesse ramo, mas nós tivemos de tudo que ela pôde dar. O que faltou mais era mais atenção, que nós não tínhamos. Eu, meu irmão e minha irmã. Minha irmã engravidou cedo, acho que com quatorze anos ela já engravidou.


[Pausa]


P/1 – Eu estava perguntando como você descreveria sua mãe.


R – Ah, eu estava na parte errada. Minha mãe. Então, uma mulher guerreira. Trabalhadora, que deu de tudo pra nós, de tudo que pôde dar, ela deu. Mas faltou meio atenção, afinal nós não tivemos pais. Não ter a mãe próxima é complicado. Aí eu vivia nas ruas, lá do Carandiru, onde eu fui criado desde pequenininho, ficava na rua, aí comecei a jogar bola também. Mas uma mulher guerreira, falar pra você que não tenho o que falar dela. Hoje nós cuidamos dela, porque ela está com uns problemas da cabeça, fez 48 anos e nós cuidamos dela. Ela mora com a minha irmã. Eu estava morando com a minha irmã quando me separei, mas acabei de me mudar. Eu tô morando de aluguel, pertinho também, do lado e nós cuidamos dela.


P/1 – E você sabe como seus pais se conheceram?


R – Não, falar pra você que ela nunca comentou isso comigo. Que nem eu falei, ela sempre foi meio distante de nós, porque trabalhava muito, então, não perguntamos muito isso pra ela, ela não responde. Ela falou que foi em Minas Gerais.


P/1 – E como é sua relação com seus outros irmãos, os por parte de mãe?


R – Por parte de mãe? Ah, eu e meus irmãos somos todo mundo unidos. Quando precisamos um do outro, nós estamos juntos, sempre. Meu irmão mesmo, nós mesmos ficamos até brincando lá com ele, que ele pega roupa minha: “Empresta uma roupa pra mim”. Ele pega e eu nem cobro dele, ele fica de tempos em tempos, fica velha e ele joga fora, ou eu vou lá e pego uma dele também, aí nós ficamos comentando muito. Por falar nisso, eu estou morando até do lado dele ainda, porque ele está morando de aluguel e eu falei: “Vou alugar uma casa aqui” “Aluga aí” e tal. E com eles, meus irmãos eu os amo, de verdade. São minha vida, fazem parte do que eu sou hoje. Que é união, eu sou um cara bem dedicado nisso daí, em ter a união da família.


P/1 – E você conhece a história dos seus avós?


R – Não também, não muito. Não conheço a história deles.


P/1 – E na sua infância, quando você era pequeno, tinha comida, cheiro, data comemorativa que vocês comemoravam em família ou comida que lembre sua família quando você era pequeno?


R – Sim, eu lembro que minha mãe sempre fazia uma festinha, aí chamava alguém, vinham meus tios que, se não me engano, são oito irmãos. Então, vinham meus tios, meus tios moravam em São Paulo. Uns estão morando em Minas Gerais hoje, mas quando na minha infância, muitos deles vinham para São Paulo, então, moraram sempre um perto do outro, aí eu lembro que eles sempre faziam uma data comemorativa e tinha um bolo, tinha os parabéns, davam presentes. Acho que isso eu lembro, quando tinha data comemorativa.


P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?


R – Do meu nascimento? Não, falar pra você que minha mãe nunca me falou sobre isso, a história.


P/1 – E do seu nome?


R – A história do meu nome? Minha mãe falava que era um cantor de rock, se eu não me engano. Simon, ela gostava. 


P/2 – Simon & Garfunkel?


R - Deve ser esse aí mesmo, muitas pessoas falam, falam que era um cantor de rock. Mas deve ser esse aí mesmo, é que eu não acompanho muito rock. Então, acho que é de muito tempo atrás também, eu não lembro.


P/1 – E ela conta que foi por isso que ela te deu esse nome?


R – Foi, aí meu pai escolheu Richard, aí ficou Simon Richard.


P/1 – Quando você veio pra São Paulo?


R – Quando eu vim, eu vou falar pra você que eu não lembro, mas eu vim pequeno. Eu não lembro, mas eu vim pequenininho, era bebezinho, acho que até de colo, se não me engano, minha mãe veio comigo pra cá.


P/1 – E porque sua mãe escolheu a Zaki Narchi, você sabe?


R – Por que a minha mãe escolheu?


P/1 – Ela foi pra Zaki Narchi…


R – Ela foi, ela veio e morou no Parque Novo Mundo, mas morou pouco tempo, depois morou na Estaiadinha, se não me engano, aí de lá, eu lembro que ela falou isso pra mim já, aí veio pra Zaki Narchi, mas eu era pequenininho, já era um pouco maiorzinho, mas pequenininho. Eu não lembro o dia que eu cheguei na Zaki Narchi, mas eu lembro do meu crescimento lá, desde a favela, aí fui crescendo e tal, mas eu lembro que eu era pequenininho.


P/1 – Então, a primeira memória que você tem da sua infância, quando você era pequenininho, já era da Zaki Narchi?


R – É, e no Parque Novo Mundo que eu morei pouco tempo, mas eu lembro que meus tios, as datas comemorativas eles faziam pra mim, aí era no Parque Novo Mundo. A Estaiadinha eu lembro pouco, porque acho que fiquei muito pouco tempo, a Zaki Narchi eu lembro muita coisa, agora data comemorativa eu lembro no Parque Novo Mundo.


P/1 – E você sabe porque sua mãe veio pra cá, ela já tinha família aqui, alguém da família ou não?


R – Não, porque minha mãe, é aquilo que eu falei, veio pra cá muito nova, com três filhos pra criar, então ela entrou nesse ramo que eu falei, que ela veio da prostituição. De ser garota de programa, aí ela teve que… ela veio pra cá, como ela ganhava pouco naquela época, ela pegou e comprou um terreninho, montou um barraquinho e veio pra cá. Veio pra luta.


P/1 – E como era sua primeira casa, o barraco?


R – O barraco, a minha primeira eu não lembro. A segunda eu lembro, que minha mãe falou que morou antes em outro local do barraco, ela montou um maior depois. A segunda eu lembro que era uma escadinha, quando você abre a porta tinha uma escadinha e uma entrada pra cozinha e uma escadinha. Aí eu subia lá, lá tinha os quartos divididos, o dela, o nosso, o nosso tinha beliche e tal. Era bem arrumadinho. E lá embaixo a cozinha era bem grande, aí tinha um banheiro no canto da cozinha, no outro canto tinha um banheiro, (risos) tô lembrando de coisas que eu nem fazia ideia. E, graças a Deus, comida nunca faltou, porque ela ia atrás. Isso, pra nós, nunca faltou.


P/1 – E quando você era pequeno, você gostava de brincar do quê?


R – Brinquedo. Brinquedo, minha mãe comprava bastante brinquedo pra nós. Carrinhos, Power Rangers, que eu tinha uns Power Rangers grandões, tinha aquele carrinho que ficava cantando, esqueci até a música, agora não lembro. Tô tentando lembrar, mas não lembro não, (risos) agora no momento não veio. Aí carrinho, brinquedinho, Homem Aranha, isso aqui eu brincava muito, quando eu era pequeno.


P/1 – E era em que parte da Zaki Narchi o primeiro que você tem lembrança?


R – Em que parte? Mais ou menos em... hoje tem uma Aacd lá, era atrás. Acho que a favela está até se formando de novo lá, eu morava naquela parte ali. Aacd ali no fundo, onde tinha um ferro velho, o ferro velho do Carioca, que eu lembro até hoje. Aí tinha um riozinho, assim, era legal. Saía na Rua Urupiara, lá na frente. Saía na Rua Urupiara, lá atrás.


P/1 – E você brincava na rua também?


R – Na rua, o dia inteiro. Na rua era o dia inteiro, não ia pra casa e tinha vez que chegava em casa e apanhava da minha mãe, porque isso não era hora de chegar: “Você está o dia inteiro na rua, você não comeu, não bebeu”. Mas sempre tinha comido, sempre tinha bebido. Nós dávamos um jeito de arrumar, nós pedíamos, nós arrumávamos, nós íamos ali no McDonald's quando era pequeno e ganhava um ‘Mc’, pedia pra pessoas e as pessoas davam, às vezes, não davam. Passávamos em restaurantes e pedíamos alguma coisa e eles davam, sempre de casa em casa, bolachas, passando apertando campainha. E quando a gente ia jogar bola, então, jogar bola longe, isso era normal. Vivia o dia inteiro na rua, ia pra lá e pra cá o dia inteiro. Tinha o Shopping Center Norte também, de frente, que tem um Shopping Center Norte em frente ao Zaki Narchi, ali, nós íamos pro shopping lá, vendíamos figurinhas também, tinha as figurinhas aquelas quadradinhas que você retira e que colavam, a gente vendia lá. Não podia e tinha que correr dos seguranças. (risos) Nós dávamos um jeito, sem comer nós não ficávamos. Ela pensava que nós ficávamos sem comer, na rua. Às vezes, ficava sem tomar banho o dia inteiro, jogando bola, saía, ia pro shopping e voltava pra jogar bola, o dia inteiro, ia jogar bola e ia pedir em outro lugar. Assim, isso nós arrumávamos, dava um jeito, não tinha jeito. Todo mundo se juntava e nós íamos.


P/1 – E lá já tinha o… é que eu fui lá, né? Aí eu estava vendo. Já tinha o campinho?


R – O campinho? A quadra. Lá dentro do Zaki Narchi tem uma quadra, tem duas quadras. Hoje eu faço parte da associação, sou um voluntário da associação e hoje nós tomamos conta da comunidade e tem a quadrinha. Eu dou aula pros meninos lá. Tem o time dos meninos e das meninas, só que eu dou pros meninos, porque o tempo que eu tenho é curto, no momento. Mas já tinha. Eu morava no morro. Antes era favela, quando eu era mais menorzinho era mais favela mesmo, aí depois construíram os prédios lá e tal, aí já morava num morro ainda, quando construíram os prédios, tinha, sempre teve. Pra mim, na minha infância, sempre teve.


P/2 – Você falou que andava, ficava com a molecada o dia inteiro na rua, né? Era um grupinho de crianças da sua idade?


R – Da minha idade, da minha idade. Um era tipo um ano ou dois anos mais velho, outro um ano, ou dois anos mais novo. Tudo junto.


P/2 – E eram sempre os mesmos?


R – É, na verdade, nós tínhamos um grupo que era de quinze, tinha grupo que era de mais. Só que você acordou cedo e o outro não acordou, aí outro ia pra lá, tem sete aqui, vamos empinar pipa. Nós íamos pra Casa Verde direto, andando, empinar pipa, pequenininhos.


P/2 – E dessa turma você ainda tem algum conhecido, mantém contato?


R – Todos, muitos, muitos, muitos. Uns faleceram, outros estão presos, que isso aí, na vida, cada um escolhe seu caminho. Então, ali dentro é mais fácil o caminho errado, pra eles. Para eles era o meio mais fácil para ganhar dinheiro, então, acaba complicando muito isso daí, na comunidade.


P/2 – Tem algum deles que você mantém mais como amigo ainda até hoje, ou cada um foi seguindo o rumo?


R – Não, tem uns que seguiram o rumo, tipo, hoje nós nos falamos, conversamos, a amizade é a mesma, às vezes, pára pra conversar, pra beber uma e sempre encosta, às vezes, nunca bebeu e vai beber. Só que ali tem muitas pessoas que ‘tretam’, brigam entre eles mesmos, depois que eles bebem. Coisas simples de resolver, acaba causando. Mas tenho sim, tenho muitos amigos meus. Vixe, falo pra você que quando nós sentamos e contamos as histórias, ficamos dando risada, dando risada demais! É muita história. Olha que loucura: tinha beira do rio que a gente mora, assim, aí tem uns túneis que saíam pouquinha água, tinham as aberturas, aí nós íamos na beira do rio, ficávamos na beirinha do rio, no cantinho, que era de concreto. Nós ficávamos lá, entrávamos nesse túnel e nós íamos parar lá debaixo do Shopping Center Norte, andando. Em quinze meninos, quinze moleques. Nós íamos lá, quando chegava lá, falava: “Meu Deus do céu, nós estamos debaixo do Shopping”. Aí nós tínhamos que vir correndo, nós vínhamos correndo. Pra você ver essa infância foi a melhor pra mim. Aprendi muito com ela. (risos)


P/1 – E como foi crescer na Zaki Narchi?


R – Como foi crescer na Zaki Narchi? Aprendi muito. Aprendi o que é certo, aprendi o que é errado. E pra mim foi bom, mas ao mesmo tempo, também não foi tão legal, que foi essa parte que perdi muitos amigos. Essa parte me deixa até chateado, perdi muitos amigos pra droga, perdi muitos amigos para o crime. Então, tem uma parte que dói, porque não tem precisão, um país rico desses deixar pessoas assim tão talentosas, a gente tinha muitas pessoas talentosas que se foram desse jeito.


P/2 – Você falou que seus amigos, alguns tomaram o caminho errado, são escolhas, né? Você tem lembrança de algum momento marcante no seu crescimento aí, ao longo do tempo, onde você fez essa ‘escolha do bem’? Assim, há um divisor, tipo assim: “Aqui eu poderia escolher o ‘caminho do mal’, mas eu…”. Você tem consciência?


R – Tenho. Eu já fiz algumas besteiras, vou falar pra você, não sou santo também. (risos) Já fiz algumas coisas erradas, então, isso me deixou, quando você faz uma coisa errada com os outros amigos seus, aquilo parece que vem uma inveja,  ninguém quer perder. Eles se põem muito isso: “Você não vai dar um prejuízo em mim, você não vai fazer isso comigo, você não é louco!” Então, eles ficam se debatendo, porque, às vezes, quando cai dinheiro muito fácil, o dinheiro vai rápido também, na mão deles, porque ele vem e vai de uma forma que você fala: “Meu Deus do céu!”, ele precisa de mais. Então, ele sempre quer ganhar mais de você, mais. E isso tem muito. Tem muito desvio de coisas erradas, que acabam te influenciando a desviar isso, porque isso acaba criando uma inimizade, porque é um dinheiro muito fácil. E você pega bastante dinheiro. Quando você pega bastante dinheiro, quanto mais você tem, mais você quer. Na comunidade tem muito disso, o dinheiro te influencia muito a errar, a você querer, às vezes, matar uma pessoa, chegar ao ponto de matar uma pessoa. Influencia muito. E isso daí meu caminho foi desses, convivendo com isso, fazendo algumas coisas erradas que me ensinou, falei: “Não, para!” Mas eu tive filho cedo, com dezessete anos eu já tive filho. Eu fiz dezoito, ele nasceu e eu tive que trabalhar, falei: “Não, vou trabalhar, porque...”. Aí larguei o time, eu jogava bola também, que eu tenho um caminho aí de futebol também, viajei muito. Joguei no Internacional, São Paulo, mas só que mais na minha infância, passei por Cabo Friense também, no Rio de Janeiro. Aí o futebol me tirou muito da vida do crime, muito, muito, muito, muito. Me afastou de verdade, falou: “Não, essa vida não é pra você, vem pra cá”. Aí, depois que eu tive meu filho, eu falei: “Não, eu vou seguir o caminho certinho, vou trabalhar”. Entrei num serviço, no Outback, restaurante. Gostei de trabalhar no ramo. E isso me deixou bem feliz, esse caminho pra mim foi o que me influenciou.


P/1 – Simon, vou voltar um pouquinho agora. (risos) Você lembra da sua primeira escola?


R – Da minha primeira escola?


P/1 – Ou, assim, vou mudar a pergunta. Pode falar.


R – Não, eu tô tentando lembrar aqui, mas pode falar, você quer mudar a pergunta?


P/1 – Eu vou mudar: qual a primeira lembrança que você tem da escola? Não precisa ser da primeira, mas a primeira lembrança sua.


R – Da primeira lembrança? Eu acho que foi o Antônio Sampaio, eu lembro do Antônio Sampaio, estudei, peguei a primeira série. Aí eu já lembro da minha primeira série. Eu tenho uns rabiscos do Emei, do Emei que eu estudei, mas como eu falei, foi um tempo no Parque Novo Mundo, que a minha mãe ficou. Do Emei, mas não lembro quase nada, mas do primeiro ano na escola eu já lembro.


P/1 – Como que era ir pra escola? Como você ia?


R – No começo eu só ia por ir, porque eu mesmo não aprendia nada, era pequenininho, só vivia na rua. Minha mãe mandava eu ir, nós íamos, quem levava no começo era minha irmã, minha irmã levava no começo, mas depois que ela casou, que ela acabou casando nova, aí fiquei só com a minha mãe. Aí eu comecei a ir sozinho, eu e meu irmão. Meu irmão é um ano mais velho que eu. Eu tinha seis, sete anos e meu irmão um ano mais velho, a gente ia andando, porque a Antônio Sampaio, da Zaki Narchi, fica ali na Voluntários, pertinho, uns dez minutos andando, então nós íamos andando, eu e meu irmão. Atravessávamos as ruas lá e nós íamos.


P/1 – E tinha algum professor ou professora, na época, que te marcou?


R – Que veio me marcar mesmo foi mais na quinta série... não, quarta série. Quinta série eu já passei pra de manhã. Que foi a professora Maria, me ensinou bastante, que foi quando eu comecei a aprender a ler mesmo, aprender a escrever, aí me ensinou comunicação, como conversar com as pessoas, porque eu era meio comunicativo, bem vergonhoso. Ela me ensinou a ler, ela me marcou. As outras só escreviam lá, eu fazia, às vezes, não sabia nem escrever, no começo, aí largava e só ficava brincando com os amigos nos primeiros anos, aí depois da quarta série eu comecei a aprender a ler e escrever de verdade.


P/1 – E nessa época você pensava em ser alguma coisa? Assim, você tinha o sonho de ter alguma profissão?


R – Não, nessa época não. Nessa época eu só pensava em brincar e brincar, como eu falei pra você, era o dia inteiro na rua. E jogar bola na quadra. Jogar bola na quadra era essencial, ficava o dia inteiro na quadra, jogando bola.


P/1 – E me conta um pouco: quando você começou a jogar bola e como foi se profissionalizando?


R – Ah, eu comecei na infância mesmo, tipo, fiquei gordinho, eu era gordinho com sete, oito anos, que eu ia pra escola. Aí eu comecei a jogar bola e gostei de jogar bola, falei: “Ah, vou jogar bola, eu vou treinar”. Aí comecei a ir pro treino. Eu era ruinzinho e aí comecei a ir pro treino, treinando, treinando, aí eu gostei demais. Aí fazia gol, quando fiz meu primeiro gol, lembro até hoje, falei: “Nossa Senhora, fiz um gol! Agora vou fazer um monte de gol, toda hora vou fazer gol”. Aí eu comecei a treinar. Ali tinha um campo, perto do Shopping Center Norte tem um campo e nós ficávamos jogando bola no campo também, aí eu comecei a treinar campo, treinar campo, treinar campo, cinco minutinhos da Zaki Narchi. Aí comecei a ficar bom de bola. Fiquei bom de bola e comecei a jogar. Aí joguei bola, treinando, treinando, quando eu comecei a dar rolinho, dar chapéuzinho, aí falei: “Tô bom, agora vou treinar mais”. Aí, treinando, eu conseguia jogar bola e isso me alegra, só de lembrar. (risos)


P/1 – E quem ensinava vocês? Alguém? Tinha algum professor?


R – Tem, tinha professor, sim! Professor Vagninho, professor Lincoln e por falar em professor Lincoln eu o vi até antes de ontem, se não me engano. Passei até meu número pra ele, pra ele entrar em contato, porque ele é professor até hoje e eu tô virando professor. Aí ele até anotou meu contato, tô só esperando ele entrar em contato. O Lincoln, Vagninho, Dantas, Alves, lembro de todos os professores.


P/1 – E como foi o processo? Que time você jogou primeiro?


R – Como assim? Time, mais novo, que eu joguei nos times?


P/1 – É.


R – Comecei a jogar... que minha mãe acabou saindo da Zaki Narchi um tempinho, eu tinha uns quatorze anos, dezesseis anos, mas aí ficou pouco tempo, uns oito meses fora, que depois ela voltou. Aí conheci um cara chamado… lembrar o nome dele agora. Eu o chamava de Magrelo, na verdade: “E aí, Magrelo?”, que era o apelido dele. Quero lembrar o nome dele agora, como pode esquecer? (risos) Mas aí eu conheci essa pessoa e ele começou a me dar treino, ele viu que eu era bom. Quando eu morava na Zaki Narchi treinei muito, treinava de verdade, até faltava na escola, já com treze, quatorze anos, eu faltava na escola, pra ir treinar. Nem na escola queria ir mais. Reprovei algumas vezes por desistência, que eu não fui. Aí conheci esse cara aí, que tem o Riachuelo, fica no Jardim Brasil o campo. Comecei a treinar no Jardim Brasil, eu morava na Vila Nilo, eles chamam de Parmalat ali na Fernão Dias, comecei a treinar com ele lá e ele falou: “Nossa, você joga bem demais, vou te levar lá para um teste”. Não, minha mãe me arrumou um teste, na verdade, falou: “Tem um teste pra você”. Aí eu fui lá no São Paulo, fiz um teste, aí eu passei, joguei um pouco de bola lá no São Paulo, só fiquei três meses. Esse empresário era novo, eu era muito novo, treze anos, quatorze anos, era muito novo ainda. Só tinha minha mãe, não tinha meu pai. Então, era só eu, por eu, eu e ele e ele começou a me levar. Aí me levou no teste do São Paulo e eu passei. Saí do São Paulo, ele falou: “Não, vamos fazer um teste na Inter”. Aí fiz um teste na Inter, Internacional. Fiz o teste no Internacional e passei, só que ele: “Ah, não, aqui no Inter, não sei o que… as condições financeiras...”. Eu não estava nem ligando, eu só gostava de jogar bola, não estava nem aí pra dinheiro, nem nada. Ele comprou uma chuteira pra mim, comprava um negocinho pra mim, viajando. Aí eu fui pra Cabo Friense, lá no Rio, porque ele é do Rio de Janeiro, a família dele é de lá, ele me levou lá pro Rio. Fiz o teste no Cabo Friense e passei. Aí, ele falou: “Você passou no teste, você vai ficar aí”. Ele alugou uma casa lá pra mim, eu fiquei com alguns jogadores, tinham alguns jogadores que eram dele também. Morei com esse meu amigo lá, que conheço até hoje, joga bola até hoje, ele. Aí eu fiquei no Cabo Friense uns nove meses, quase um ano, se não me engano, no Cabo Friense, jogando. Já estava com dezesseis anos, quinze pra dezesseis anos. Fiquei quase um ano lá e ele ficava me bancando, mas esse cara era meio da vida errada, aí ele acabou indo preso e eu sozinho lá, acabei dificultando as coisas. Ele que mandava dinheiro, que pagava os negócios lá, que mandava uma chuteira, não mandava mais nada, eu fiquei lá uns dois meses ainda e falei: “Não, vou voltar, não quero ficar aqui, não”. Aí foi aí que eu voltei pra São Paulo.


P/1 – E você ficava em alojamento ou em casa, lá?


R – Em casa, de frente pra praia do Forte, lá em Cabo Frio. Ficava nessa casa lá.


P/1 – E como foram essas viagens, pra você?


R – Ah, marcou minha vida, gostei, já viajei bastante, nossa, conheci... até hoje mesmo, quando eu tô trabalhando, tô caminhando devargazinho, sou novo ainda, tô caminhando devagarzinho pra conquistar, eu quero viajar ainda, ainda quero ir lá na Espanha ainda, porque minha prima está morando lá e falou: “Vem pra cá, que você vai gostar”. Mas foi maravilhoso, só conhecer algumas cidades, foi gratificante. Poder jogar com alguns jogadores também, que hoje são jogadores.


P/1 – Você lembra de alguns?


R – Lembro, lembro do Everton Kaká, que está jogando acho que no Olympique de Portugal, o sonho dele. Tem o Matheus Peixoto também, que estava jogando no Cuiabá, só que agora ele foi pros Emirados Árabes, se eu não me engano, também. Lembro desses dois, que eu mais lembro, que tenho até hoje nas redes sociais.


P/2 – São da época que você estava jogando?


R – É, da época que eu estava jogando.


P/1 – E nessa época você saía, você saía sozinho, saía com amigos, ou era mais caseiro?


R – Lá eu era caseiro, quando eu comecei a viajar, eu comecei a ficar caseiro, aí que eu aprendi bastante. Ficar caseiro, ficar quietinho, porque eu estava ali sozinho, minha família longe de mim, eu ficava meio... e ele também regrava: “Você tem que ficar aqui”. Tinha os baladeiros que me chamavam, já fui uma vez pra balada com os meninos, mas ficava mais em casa.


P/1 – E você tinha algum namoro? Como você se divertia, nessa época?


R – Tinha uma namoradinha que eu conheci na Parmalat, quando eu conheci esse empresário aí, aí eu comecei a viajar, eu ficava só conversando com ela no celular. Tinha uma namoradinha. (risos) 


P/1 – E como foi voltar pra casa?


R – Voltar? Foi meio que uma desistência, como eu falei: o empresário era meio da vida errada, acabou sendo preso. Quando eu fui embora, eu falei com o técnico do time que eu ia embora, ele ficou doido, não queria me deixar ir embora, falou: “Você não vai embora!” Falei: “Não, vou embora porque tô viajando muito, tô nessa caminhada já faz uns dois aninhos”. Comecei com doze, treze, quatorze anos. Dois anos, três anos, por aí, novo, sozinho, só minha mãe, minha mãe não entende nada de futebol, deixava eu ir porque era melhor do que eu ficar na rua, porque ela não tinha tempo pra nós, porque ela trabalhava e preferia que eu ficasse viajando e jogando bola, fazendo o que eu gosto, ela falou: “Você gosta? Então vou deixar você ir, mas toma cuidado! Liga, fala comigo, tô com você”. Mas atenção mesmo de ligar, não ligava. Só falava na hora de viajar, mas não falava muito, falava mais com meu irmão, de vez em quando, com a minha namoradinha, que eu tinha. Com ela era o dia inteiro, porque ela me ligava toda hora, deixava o celular ali, ela estava ligando. (risos) Estava até almoçando: “Estou tomando café” “Tá bom”. (risos)


P/1 – E como era tão novo você ficar sozinho, o que você sentia, nessa época?


R – Ah, você sente muita coisa, sente falta. Por isso que eu sou pai hoje e meu filho tem toda atenção minha, do mundo. Porque eu já fui criado sem pai, então tenho medo de deixar meu filho sem pai. E ele treina na escolinha, joga bola, joga muito, mesmo. Falei: “Nossa, até meu futuro, pode ser. Vai que... não deu certo numa coisa, dá certo na outra”. Eu sou professor hoje dele, dou aula pra ele de futebol e pra mim é maravilhoso.


P/1 – E quais são suas lembranças mais marcantes, da adolescência?


R – Mais marcantes da adolescência? Vamos ver agora… é que tem muita coisa. Da adolescência são as brincadeiras que eram marcantes, ficava o dia inteiro brincando, brincava de polícia e ladrão, de chutar garrafa, que tem que pegar e tem que bater. Bola. Então, foram muito marcantes as brincadeiras com os meus amigos, que era o dia inteiro dando risada, às vezes saía bravo, brigando, mas no outro dia estava brincando de novo, estava dando risada. Pedia desculpa, às vezes, nem pedia, falava: “Não, você me bateu primeiro, não sei o quê”. Isso marcou muito e me ensinou muito.


P/2 – Agora, nessa época que você estava na concentração aí, que estava sozinho e tinha um amigo que foi pro caminho mais errado, você estava adolescente, né? Estava entre quatorze e dezessete anos. Teve alguma experiência nesse tempo distante, que ficou marcante? Você falou que era mais caseiro, tinha namorada…


R – Não, era quando eu viajava. Quando eu vinha pra cá, eu viajava e vinha pra casa também, voltava…


P/2 – De final de semana?


R – Quando era muito longe não, mas quando eu viajava, ficava três meses, voltava, ficava seis meses aqui, ficava três meses, aí depois viajava de novo e treinava. Mas aí eu tinha meus amigos, a gente estava na fase de querer beber também. Treze, quatorze anos é a fase que você quer beber. Ficava mais caseiro quando eu ficava lá, quando eu viajava, era mais caseiro, mas quando vinha pra cá, foi aí que eu comecei a fumar meu primeiro beck, comecei a beber meu primeiro vinho, foi aí nesse caminho, dos quatorze aos dezessete foi que eu aprendi a ficar alterado com álcool. (risos)


P/2 – E a namoradinha, como é que você conheceu? Na concentração ou aqui no bairro?


R – Então, essa eu conheci, eu não era muito de namorar, não era muito apegado e tal, mas a namoradinha eu conheci quando minha mãe deu um tempinho daqui do Zaki Narchi, acabou mudando pra Vila Nilo, ficou uns oito meses lá também, aí eu a conheci lá. Ela gostou de mim, gostei dela, aí ela era virgem e eu já não era mais. (risos) Foi aí que nós começamos relacionar, acabei gostando dela, teve umas brigas, mas eu era muito novo também, tinha quinze anos, eu acho.


P/1 – E quando você voltou... você parou de jogar profissionalmente ou não?


R – Quando eu voltei do Rio eu estava com dezessete, essa namoradinha eu tinha terminado com ela, ela veio até umas vezes atrás de mim e tal, fiquei com ela, mas depois conheci outra namorada, que é a mãe do meu filho. Aí a conheci, que eu estava vindo do Rio como jogador também. Aí conheci, ela já tinha uma filha também. Ela gostou de mim, fiquei com ela, ela ficou comigo de novo, começamos a namorar e ela engravidou. Eu tinha dezessete anos e ela engravidou. Aí fui jogar num time em Marília, no time Al Shabab, time da Arábia. Aí fiz um teste com eles e eles gostaram, falaram: “Nossa, gostei, vem aqui, tem um amigo seu, que joga igual você?” Falei: “Tem, sim!” Aí levei o Peo. Levei ele e nós jogamos bola lá com o time dos árabes, fomos pra Marília, fomos campeões em Marília, ainda. Verdade, lembrando. (risos) Fomos campeões em Marília, eu e o Peo, voltamos e foi aí que minha mulher estava grávida. Com dezessete anos, ela engravidou, falei: “Nossa, está grávida”. Fui pra lá ainda, mas ela falou que estava grávida, falei: “Eu vou, mas vou voltar, vou ficar pouco tempo”, fiquei três semanas lá, fomos campões lá, aí voltei e nessa que voltei teve oportunidade pra eu ir pra Arábia ainda, só que minha mulher estava grávida e como ela tem uma filha, ela tocou muito nisso, foi aí que eu desisti de jogar bola. Ela tocou muito nesse assunto, que ela já teve o pai da filha dele ausente, ausente mesmo, sumiu, na verdade. E não teve pai, ela. Aí ela falou: “Aí você vai pra Arábia...” - eles queriam me levar, mas era só eu por enquanto: “Aí você vai me deixar, você vai pra Arábia, como eu vou ficar aqui, com um filho seu?” E ela também não tinha condições de criar, estava criando uma filha já, passando o maior sufoco. Aí ela engravidou e eu falei: “Meu Deus do céu!” Aí acabei desistindo, aí que eu desisti de jogar bola, mesmo. Eu falei: “Ah, não vou trabalhar”. Foi aí que, com dezessete anos para dezoito, entrei no Outback, comecei a trabalhar nesse ramo.


P/1 – E como foi desistir de jogar?


R – Ah, foi doído! Vou falar pra você que doeu, doeu, doeu, doeu. Eu jogo bola até hoje, minha ex-esposa é brava comigo, por conta disso. Porque eu tenho tempo, vou jogar bola. Fico três horas, quatro horas jogando bola, ela fica doida. Saio do serviço, vou jogar bola. Eu saio tarde, trabalho à noite. Saio do serviço e vou jogar bola. Se tiver, eu tô em todas.


P/1 – E como foi, com 17 anos, descobrir que ia ser pai?


R – Nossa, pra mim, abri um sorriso, quando ela falou, abri um sorriso, não pensei na preocupação, mas pensei muito em eu ser pai. Falei: “Caramba!” Não estava acreditando, na verdade, até hoje fico meio bobo que eu sou pai, mas graças a Deus, pra mim marcou, fiquei em choque, na verdade, meio pensativo, ali parei pra pensar na minha vida.


P/1 – E o que a paternidade representa, na sua vida?


R – Representa tudo. E meu filho eu falei: “Vai ser menino ainda”. Pensei. E Deus me deu menino e a paternidade, pra mim, é tudo. Eu não fui criado com meu pai, então, a paternidade, pra mim, senti muita falta disso e pretendo que ele não sinta, dessa parte da paternidade.


P/1 – E como é o nome dele?


R – Lucas Richard de Lima Soares. Eu que escrevi ainda o nome dele. Lima da mãe dele e o Soares. E o Richard que eu puxei, que não teve jeito. (risos)


P/1 – E por que você escolheu esse nome, teve alguma coisa? Sua mãe escolheu seu nome por causa de um cantor e você, teve algum motivo especial?


R – É que eu sempre gostei de Lucas, eu até falei: “Se meu nome fosse, se eu pudesse escolher, na verdade, ia ser Lucas”. Aí falei Lucas, parte da Bíblia. Não sou muito religioso, mas já fui na igreja alguma vez, pra agradecer só por estar vivo, pelo momento que me deram, de ser pai e poder ter a mente que eu tenho hoje, porque é difícil, na comunidade, ter uma mente regrada, ter um esforço, porque eu trabalho, faço parte da associação, dou aula na escolinha, então minha vida mudou totalmente de um tempo pra cá, depois de ter sido pai.


P/1 – E como foi o primeiro trabalho no Outback? Foi no Outback, né?


R – Foi meu primeiro trabalho, já fiz uns bicos no lava-rápido, fiz uns bicos em fábrica de cintos, só pra quando eu não estava jogando bola, tem uns bicos pra fazer: “Vamos lá, vamos trabalhar”. Trabalhei já no Correio, fazendo bico, isso aí, quando eu não estava jogando bola, estava fazendo bico. Então, não estava fazendo alguma coisa errada. (risos)


P/1 – E como foi lá no Outback, como você conseguiu?


R – Voltando. Voltei. No Outback, lá eu aprendi a viver muito, a ser menos preconceituoso, que na comunidade nós temos pessoas que são muito preconceituosas, com pessoas, às vezes, gays, às vezes uma pessoa lésbica, tem um preconceito maior. E aí ali eu aprendi que você não pode ter preconceito com a pessoa, a pessoa é o que ela é, é por dentro dela que você tem que conhecer, não por fora. Por fora dele não diz nada, se ela for uma pessoa boa por dentro. Isso eu aprendi muito lá, esse foi o primeiro emprego que me destaquei, onde tem agilidade, onde você pode ver a necessidade do que você precisa ali. Você não precisa ir só no caminho errado, no caminho certo também você consegue. Graças a Deus, fiquei lá um tempinho, virei garçom, porque eu comecei como ajudante. Auxiliar, virei garçom, aí quando virei garçom, aprendi que se você não tiver esforço, você não vai conseguir nada. Comecei a ganhar bem, comecei a pagar minhas contas, montei uma casinha pra mãe do meu filho, montei uma casinha pra nós, comprei um carro e fui me estruturando. Meu filho pedia: “Pai, quero comprar isso”, eu comprava. Comprei chuteira. Às vezes, nem pedia, porque eu já comprava na hora, já deixava ele à vontade. Porque minha mãe tentou dar tudo do bem e do melhor pra nós, então pro meu filho eu também tento dar do bom e do melhor.


P/2 – Você falou que aprendeu muito sobre preconceito lá no Outback. Você sofreu algum tipo de preconceito lá?


R – Já, uma vez, já sofri uma vez. Porque, por eu morar na comunidade, às vezes, a gente se veste do nosso jeito. Aí veio uma gerente e falou pra mim: “Nossa, olha como você se veste, olha como você está!” Aquilo me marcou muito. A sorte dela é que ela não falou da minha cor, senão ela ia arrumar confusão. Mas no sentido que ela falou, ela: “Nossa, como você se veste, não sei o que, como você está! Não, isso aí eu não gosto não, não aceito, não”. Eu falei pra ela: “Mas eu tô normal, eu sou eu, não tenho como mudar eu”. Ela: “Não, não sei o quê”. Eu falei: “Tá bom, não posso fazer nada”. Aí saí andando, nem dei mais atenção pra ela, mas aquilo ali me marcou, fiquei pensativo um tempo, ainda.


P/2 – Vocês usavam um tipo de roupa padrão?


R – Tinha roupa padrão, tinha a roupa que nós chegávamos e tinha a roupa padrão.


P/2 – Ah, ela estava falando da roupa que você chegou?


R – É, da roupa que eu cheguei. Isso daí foi um preconceito que eu não gostei, eu falei: “É bom eu nem discutir, pra isso não me estressar com ela e acabar fazendo besteira”. Aí virei as costas e saí andando, falei: “O que tem? Me visto do jeito que eu quero!”, falei pra ela e saí andando, não discuti com ela.


P/1 – E como era sua rotina, nessa época?


R – Minha rotina era... mas aí, como eu sou uma pessoa bem comunicativa, aprendi muito, a minha rotina era: trabalhava, jogava bola à tarde,  trabalhava à noite, porque eu entrava cinco horas da tarde e saía uma e meia, uma hora da manhã, aí entrava quatro horas da tarde. Final de semana mesmo era bola todo final de semana, quando tinha de dia de semana, eu também ia na quadra, em qualquer lugar. E trabalhava, vinha pra casa, chegava uma hora da manhã e via meu filho e à tarde a mãe dele o levava pra escola ou pra o Emei, ou pra creche e eu trabalhava e jogava bola à tarde. Minha rotina era essa, do dia a dia. Vivi muito tempo assim.


P/1 – E, ah, eu ia te perguntar: quando você, assim, durante a sua adolescência, desde que você era pequeno, você sempre morou no mesmo barraco ou foi mudando?


R – Na adolescência?


P/1 – É.


R – Não, no mesmo barraco. Acho que morei um tempo, fiquei uns anos morando naquele barraco que falei pra você, da escadinha ali, fiquei uns anos lá, muito tempo.


P/1- E quando você mudou de lá?


R – Quando eu mudei de lá... minha mãe. Ela estava um tempo nessa vida aí e começou a ganhar dinheiro, começou a trazer as meninas pra trabalhar pra ela e tal e ela comprou um apartamento. Lembro até que mudou pro bloco sete e nós começamos a morar no apartamento, foi aí que eu mudei de lá, eu lembro. Aí de lá eu vi até o Carandiru sendo destruído ainda, do meu barraco. Porque eu morava no barraco e o Carandiru era de frente pra nós, assim, o presídio. Então eu vi lá de cima, na parte de cima, vendo lá sendo demolido e todo mundo fechando a janela, porque saía um monte de poeira cobrindo os barracos, lembro até hoje. Aí, depois que destruiu lá, ela comprou um apartamento e nós nos mudamos.


P/1 – Isso com quantos anos?


R – Ah, não me lembro direito, mas acho que eu tinha uns quatorze anos. Não me lembro direito agora, você me pegou, mas eu era adolescente.


P/1 – E daí foi quando você casou com a mãe do seu filho?


R – Sim, quando minha mãe tinha um apartamento lá e minha mãe comprou um terreno aqui na Vila Guilherme, aí acabei casando com ela e morando lá. Como tinha um barraquinho, fui lá, tinha um barraquinho terminando no Peri Alto, aí ela vendeu o barraquinho dela, minha mãe tinha esse daí e falou: “Vamos fazer de bloco”. Aí minha mãe me deu um dinheiro pra eu montar, aí fui lá e consegui montar um de bloco para nós, uma casinha de dois andares. Aí lá eu vivi, depois que eu casei, depois dos dezoito anos, meu filho nasceu já, tinha nascido... ou ela estava grávida? Eu acho que eu tinha acabado de voltar, é verdade, de Marília, que eu joguei lá com o Al Shabab e tinha acabado de voltar e ela estava grávida já e falei: “Vamos construir um negocinho aqui, vende seu barraco”. Aí ela vendeu e minha mãe deu mais três somas de bloco lá e é do ladinho ali, é dez minutos andando também. E eu ficava mais lá, minha convivência era toda na Zaki Narchi. Em casa eu nem ficava, só ia pra dormir. Porque minha irmã mora lá, a irmã dela mora lá, tem apartamento lá, minha irmã tem apartamento, meu irmão mora lá também, mora de aluguel na casa, lá. Eu só ficava lá na casa deles e só ia embora, na hora de ir embora que nós íamos pra casa, comprei um carrinho e nós íamos embora”.


P/1 – E você lembra do seu primeiro dia de trabalho, como foi, lá no Outback?


R – No Outback? Deixa eu ver, eu fiz a entrevista…


P/1 – Eu estava perguntando se você lembrava do seu primeiro dia de trabalho.


R – Ah, no meu primeiro dia de trabalho eu cheguei, falei com todo mundo, já tinha feito uma entrevista lá, pessoal olhou e contratou. Viu eu e contratou. Eu tinha dezoito anos e cheguei, cumprimentei todo mundo, conheci o Enable, que trabalha na mesma função que eu, tenho o número dele até hoje, é um amigo meu. O conheci, ele estava de Buzz, como se fosse cumim, ele falou: “Só trabalho de Buzz aqui e tal”. Aí comecei a trabalhar, eu era rápido, sempre fui meio fortinho assim, mais ou menos, naquela época treinava muito, jogava bola, então tinha resistência. Aí comecei a trabalhar de restaurante, lá era pegado, trabalhava muito e comecei a pegar lá, comecei a trabalhar: “Faz isso aqui”. Comecei a fazer, aí falaram: “Nossa, você trabalha bem e tal, já está contratado.” Falei: “Já trouxe o documento”. Ele falou: “Beleza, então, só começar”. Aí eu fui e conheci o Enable, conheci o Tiago, depois o Tiago saiu com pouco tempo que eu entrei, que estava na mesma função que eu, o Zé Roberto. Aí comecei a trabalhar lá e comecei a estocar copo, fazia talher, polia, fazia talher e embrulhava, embalava e tal, punha no álcool, tal, direitinho, aí eu falei: “Aqui é fácil”. Aí comecei a trabalhar e me destaquei lá, me destaquei com o tempo e virei garçom.


P/1 – E como que foi, como seguiu os seus trabalhos?


R – Não entendi, desculpa.


P/1 – Depois que você trabalhou no Outback, como foram os outros trabalhos?


R – No Outback eu fiquei três anos e meio e saí, aí a menina que trabalhava no Outback começou a trabalhar na loja do lado, no Shopping Center Norte, que tinha o Outback no Shopping Center Norte e do lado abriu o Olive Garden, restaurante italiano, aí já tinha experiência, fui pra lá e virei garçom lá. Já fui pra lá como garçom também, que já era garçom e fui pra lá como garçom e comecei a trabalhar com ela, mas lá fiquei oito meses só, que estava tendo uns desacertos na vida com minha esposa e tal, acabei saindo e não querendo trabalhar lá mais. Aí saí de lá e trabalhei na prefeitura, vim pra São Paulo e todo mundo: “Ah, trabalha na prefeitura”. Porque eu só trabalhava à noite e estava cansado de trabalhar à noite. E o cara: “Ah, entra na prefeitura ali, está pegando”. Aí eu falei: “Vou lá, fazer uma entrevista lá”. Eu fui lá e entreguei um currículo e eles foram, me chamaram: “Não quer trabalhar como operador de roçadeira?” Acabei trabalhando na prefeitura dois anos, trabalhando no caminhão Cata Bagulho, trabalhava mais nele. Era operador de roçadeira, mas colocaram em outra função. Aí, fiquei um tempo, trabalhei dois anos lá e de lá trabalhei de Uber também, um pouco, tirei habilitação, trabalhando lá falei: “Vou tirar habilitação”. Tirei habilitação, trabalhei de Uber um tempo também, mas pouco tempo de Uber, aí veio a pandemia e ficou mais complicado. Aí depois saí do Uber e quebrei a perna, fiquei um tempo com a perna quebrada e foi uma dificuldade, foi ali eu comecei a separar da mãe do meu filho, começamos a brigar, a discutir, aí eu separei.


P/2 – Já na pandemia?


R – Na pandemia, estava em casa com a perna quebrada, muito tempo sem trabalhar, foi na pandemia, passei uma grande dificuldade.


P/1 – E como você quebrou a perna?


R – Como eu quebrei? Jogando bola. (risos) Rompi o tendão aqui, fui jogar no campo, lá, o cara me deu um chute no tendão e rompeu. Aí tive que fazer uma cirurgia no tendão, aí fiquei um tempo sem andar.


P/1 – Mas voltou a jogar bola, já?


R – Sim, hoje eu jogo bola, hoje eu vou pro campo, hoje eu estava jogando, sábado mesmo agora eu joguei os dois tempos. Falei: “Nossa, tanto tempo!”, porque tô trabalhando no serviço novo, agora, no Coco Bambu, aí vou voltar a jogar bola, faz tempo sem jogar campo, trabalhando bastante, está voltando tudo ao normal, aí está tendo bastante serviço, tô trabalhando de dia e de noite, aí fui jogar bola no campo, consegui jogar os dois tempos ainda e fiz gol, falei: “Tá bom, tô novo ainda”. (risos) 


P/1 – E a separação da sua mulher, foi difícil?


R – Foi, foi, hoje ainda é. Como ela está na casa, eu que saí da casa e deixei pra ela a casa do meu filho, falei: “Não, tenho um filho com você, você fica com a casa aí”. Eu estava na casa da minha irmã há um tempo e agora eu tô pagando aluguel. Mas a separação foi difícil, porque tem um filho, né? E ela tem uma filha também, que tem quinze anos, quinze anos ela tem. E eu a criei desde pequena, porque meu filho tem oito e ela tem quinze anos. A criei desde pequenininha, então, sou muito apegado a eles.


P/1 – E a Luiza me contou que você começou a dar aula na associação e como que foi, quando que foi?


R – Quando que foi? Na verdade, quando eu quebrei a perna, aí o Ed, que é o presidente da associação, sempre me chamou: “Vem aqui dar aula pra nós, vem dar aula pros meninos”. Porque eu já fui lá uma vez, tem um amigo meu, falei: “Vamos fazer um trabalho com eles aqui”. Eu ia lá fazer um trabalho com eles, com cone, bola, mas sem dar aula, só pra ir lá fazer, mesmo, só que com os maiores, não os menores, porque os maiores estavam disputando a Taça das Favelas. Aí falamos: “Vamos dar um treino pra eles” “Vamos”. Aí pegamos um físico lá e demos um físico pra eles legal, aí o Ed sempre me chamava: “Vamos lá, vai lá”. E eu falava: “Vou sim, eu vou!” E acabava não indo. Trabalhando e tal e ia jogar bola, que requer seu tempo, um pouco, pra você ir lá, dar atenção pras crianças e eu já gostava de jogar bola, jogava muita bola. Quebrei a perna, aí eu já tinha conversado com ele, falando que ia voltar, que vou dar aula pras crianças e ele: “Vem, mesmo. Quero ver e tal” Aí foi que eu estava voltando devagarzinho e comecei a dar aula pras crianças, de futebol. 


P/1 – E é pras crianças ou pros maiores?


R – Não, hoje eu pego os da idade do meu filho. Que tem oito anos, que tem a categoria de sete até doze, aí tem o professor que dá aula de sete até doze, eu sou o professor que dá aula de sete até doze. Aí tem um de treze a dezesseis, que já é com os outros professores e tem o das meninas também, que já tem as meninas que dão aula lá. Que é a esposa do Aquiles, que me trouxe aqui e a outra menina lá, que dá aula. 


P/1 – E eu ia te perguntar como é que funciona. Como é um dia de treino?


R – É que nós pegamos nos pés das crianças, porque é difícil, é muita criança e eles não têm aquela... como vou dizer? Educação. Falo educação, porque eles são muito mal-educados, mandam você tomar naquele lugar. Um aluno falou pra mim: “Vai tomar no seu...”. E eu tenho aquela paciência de falar, eu falei com ele. Falei sério, que ia falar com a mãe dele, que ele não vai treinar mais. E nós temos que ser firmes com eles, tem que ser autoritário, porque eles são difíceis, eles brigam, é um batendo no outro. Eu sei, dou risada, porque já vivi aquilo quando eu era pequeno, então já sei como é, então pra mim é mais fácil lidar com aquilo. E eles ficam brigando e um fala: “Seu fofoqueiro, vou te pegar”. Eles ficam assim toda hora. Às vezes, até se pegam: “Está suspenso três dias, três treinos vocês não vão vir”. E eles ficam doidos, sem treino eles ficam… aí esse menino que me mandou tomar naquele lugar, que “esse treino é velho”. Eu falei: “Aqui você não vai treinar mais, comigo você não treina”. Depois, no próximo treino ele veio com a cabeça baixa, aí ele disse: “Simon”. Eu falei: “O quê?” “Desculpa!” (risos) Aquilo já parte o coração, mas tive que ser duro com ele, falei: “Desculpa? Você viu o que você falou? Isso não pode falar, como você fala isso pro professor, que te dá aula todo dia, aqui?” Aí ele: “Não, eu estava com a cabeça quente”. Não, eles são… falei: “Você estava com a cabeça quente do quê? Qual seu problema? Fala pra mim. Não tem problema nenhum. Só vai treinar se sua mãe vier”. Eu tive que colocar, né, porque o que ele falou comigo eu não posso deixá-lo tomar posse daquilo, se não vai virar rotina. Falei: “Só se sua mãe vier aqui conversar comigo, você vai treinar”. Aí ele teve que ir lá na mãe dele, chamar a mãe dele, pra mãe dele vir, ele com medo de chamar a mãe dele. Aí ele teve coragem e chamou. Quem chamou foi o amigo dele, que falou, ainda. Aí ele foi lá e chamou, a mãe dele veio conversar comigo, eu conversei com ela, aí ela pediu pra ele me pedir desculpa, aí ele veio: “Já pedi um monte de desculpa pra ele, vou pedir de novo desculpa?” (risos) Aí falei com ela, conversou e ela falou que, se ele fizer na próxima vez, como mãe, ele vai apanhar, vai não sei o quê. Aí o deixei treinar, porque é criança, já fui da idade dele também e eles são assim, são muito, muito brigões. E, na comunidade, falar palavrão é normal. Lá é normal. Falar palavrão pras crianças é normal, mas meu filho não fala, porque eu pego no pé. Eu não tive pai, mas meu filho, se eu vê-lo falando, desde pequeno não pode falar isso. Ele já é mais quietão, na dele, sobre isso. (risos)


P/2 – Eu ia te perguntar: a vinda do seu filho foi um impacto, um momento marcante que fez você fazer até outros planos. Como você se sente agora, nesse papel de professor, que está dando educação, porque você está ali, está sendo um diferencial na vida das crianças. O que você sente? Como você se sente, mesmo nesses momentos desafiadores, da briguinha, da bagunça da molecada?


R – Não, sempre quando eu tô dando o treino eu posto lá que é gratificante, porque, poder estar incentivando-os, às vezes, a um futuro melhor. Às vezes, falam: “Não, ele professor, nossa, como ele...” Porque não ganha nada, é voluntário, nós fazemos porque nós gostamos. E eu jogo bem, eles me vêm jogando, eu fico lá na quadra brincando e vou brincar com eles e eles querem ser igual a mim, falam: “Nossa, eu quero jogar assim”. E nós os incentivamos a jogar bola, ir pro outro caminho, eles veem que eu trabalho, não preciso estar na vida do crime, pra ser feliz. Pra poder estar ali, dando o treino pra eles, eu não preciso estar na vida errada, eu trabalhando, consigo minhas coisas. Nós sempre tentamos dar o melhor pra eles, quando vem doação de alguma coisa, nós damos para eles, eles ficam felizes. Os campeonatos eles ficam loucos pra jogar, pra aprender. A idade que eu pego, eles são novos ainda, mas pra mim é gratificante, é emocionante, é tudo de bom. Eu gosto do que eu faço.


P/1 – E que dia você dá aula?


R – Então, como eu entrei no serviço vai fazer uns quatro meses, antes eu estava dando todo dia. Todo dia que tinha treino eu estava lá, estava eu, estava o Ed, estava o Aquiles, estava dando treino. Mas estava meio que pandemia, nós estávamos regrando muito, dando um dia sim e um dia não, mas agora eu estou dando toda quarta-feira. Toda quarta-feira eu dou aula, aí quando eu pego duas folgas assim eu consigo já... mas estou pegando toda quarta-feira e tem mais quatro professores, tem eu, o Aquiles, o Ed e o Vagner, são seis professores, e as meninas.


P/1 – E você já percebeu alguma transformação nas crianças, de ter aula?


R – Sim, sim. Na minha aula eles já se respeitam mais, que eu já ganhei a confiança deles também.


P/1 – Eu estava perguntando se você já percebeu alguma transformação das crianças.


R – Sim, sim, já, já, eles respeitam. Se eu falo com eles, que eu sou duro também, eu falo alto, porque é difícil, é muita criança, acho que eu pego umas quarenta crianças ali, de sete a doze anos, é falando aqui, falando aqui, eu tenho que dar uns gritões: “Tô falando, meu, você não está escutando?” Porque eles estavam em rodinha e eu vou explicar pra eles que o futebol e tal, tem que tocar a bola, tem que fazer isso, que o jogo passado foi isso aí e aí está um conversando ali, aí tem outro conversando ali, aí outro aqui atrás está falando, aí o outro não está nem prestando atenção. Aí, eu falando e ele fala e eu começo: “Presta atenção”. Aquele professor, né? Mas hoje eles já se respeitam muito.


P/1 – E, pra você, como é voltar a morar na Zaki Narchi?


R – Voltar a morar? É, porque eu estava na Vila Guilherme e comecei a morar lá de novo. Nunca saí de lá, na verdade, nunca saí de lá, meus amigos, minha infância toda é lá. Aí eu vou pra algum lugar, eu conheço algumas pessoas, mas não é mais aquele afeto que eu tive na infância. E hoje eu conheço todo mundo da Zaki Narchi e todo mundo me conhece também, que mora lá desde pequeno, tem muito amigo meu que mora longe e hoje nós nos falamos também, às vezes, vêm pra Zaki Narchi, quando tem uma festa, alguma coisa. É isso aí. 


P/1 – E como é morar lá, então?


R – Como é morar lá? É minha infância, é bom, tô perto do meu filho, perto da minha irmã, tô perto do meu irmão, pra mim é muito bom, eu gosto de morar lá.


P/1 – E comparando com quando você era pequeno, agora quais mudanças você enxerga lá?

 

R – As mudanças lá?


P/1 – É, as principais, assim. Pode ser assim: cresceu… é que eu não posso influenciar nas respostas, né?


P/2 – Mudou muita coisa assim, do espaço, ou das pessoas?


R – Sim, mudou, porque antigamente tinha... hoje está voltando a favela. Sempre teve a favelinha ali e eles tiram e acaba montando de novo. Mudou que tinha o alojamento antigamente também, tinha um alojamento de frente pro Shopping Center Norte, aquilo ali mudou tudo. Mudou… pra mim não mudou mesmo, não. (risos) Mudou as pessoas, que mudam e crescem.


P/2 – Quem construiu o campo? Porque tem a Casa Amarela...


R – Certo!


P/2 – Quando começou ali, quem construiu esse campinho que você fala que dá aula, faz parte da Casa Amarela ou é da comunidade?


R – Tem dois, na verdade. Como tem duas quadras, tem uma quadra que é pra trás e tem a da frente, não pode restringir todo mundo. Então, nós temos uma quadra, que nós queremos fechar, só pra dar aulas, mas estamos correndo atrás pra reformar, porque eles vieram lá e fizeram de qualquer jeito e abriu um buraco no meio da Zaki Narchi, abriu um buracão, teve que cavar tudo, ficou feio, refazer aquela quadra ali, teve que refazer, mas fizeram do mesmo jeito, no mesmo cantinho, do mesmo jeito, refez, mas refez de qualquer jeito.


P/1 – Mas quem fez? A prefeitura que fez lá? 


R – A prefeitura. A prefeitura veio, fez a quadra, mas deixou de qualquer jeito lá. E aí nós estamos atrás pra reformar lá, porque nós estamos tentando correr atrás, pra deixar lá bonitinho e fechar a nossa, dos treinos. Tem duas, uma nós deixamos pra comunidade e a outra pros treinos.


P/2 – Você lembra quando construiu isso? Porque, pelo que eu entendi, tinha a comunidade, depois fizeram o Cingapura, que são os prédios, já tinha essas quadras, ou não?


R – Não, foi feito quando foram feitos os prédios. Quando era pequenininho, só barraco, era tudo barraco ali. Ali era tudo barraco, não tinha prédio, era tudo só favela, mesmo.


P/2 – Então, quando fizeram os prédios, a prefeitura fez as quadras?


R – É, aí fez as quadras junto. Quando fizeram os prédios, aí já fizeram as quadras no meio dos prédios, lá.


P/1 – Você já era nascido?


R – Já, já era nascido. Eu lembro que tinha um campinho ali ainda, hoje tem uma favelinha pequenininha, que é feita de bloco ali. Ali tinha um campinho ainda, hoje tem as duas quadras e tinha o campinho ainda. Eu lembro do campinho de areia. Ali tinha um campinho de areia ainda. Jogava bola lá.


P/1 – Já tinha história com o futebol, né?


R – Já, já, de lá acho que saiu o Ricardo Oliveira. Ricardo Oliveira é de lá, o jogador de futebol, é da comunidade. Eu lembro dele quando era pequeno.


P/2 – E o que você percebeu da comunidade, da molecada, quando veio uma quadra construída, com as coisas mais arrumadinhas, com relação ao campinho? O pessoal gostou?


R – Sim, é que você jogar num campinho de areia e jogar numa quadra é meio diferente o futebol, já muda um pouco. Mas o objetivo é fazer o gol, né? Mas você jogando ali, a tática já é diferente na quadra. Então, a quadra você tem que ser mais rápido pra jogar na quadra, aí mudou bastante. Tem o campinho e tem o campão, que é em frente ao Center Norte e o campão já é o campo normal. E ali tinha o campinho de areia e a quadra. Mudou muito, eu só vivia na quadra, o dia inteiro.


P/2 – Para esse uso que você falou, que estava usando uma a mais para dar as aulas e outra mais pra comunidade. Mas antes disso, até, as pessoas se organizam de boa pra usar a quadra, ou tem um time que quer jogar e outra galera que quer jogar também? Como isso acontece, pra usar esses campinhos?


R – Isso é hereditário, não é, isso daí. Quando era pequeno, os maiores mandavam. Não tem jeito, se chegarem os maiores, quem vai mandando vai de categoria. Tem os molequinhos pequenininhos, aí chegam os maiorzinhos, tem os molequinhos de sete, oito anos, jogando bola lá, aí chegam os de doze, quatorze pra jogar bola. Porque, normalmente, quando eles vão brincar, eles vão brincar só em um gol e os outros brincam só no outro gol. Às vezes, vão brincar num gol só, porque eles são pequenininhos e não conseguem usar a quadra toda. Aí, quando chegam os maiorzinhos pra jogar bola e pra montar o time, já era, aí eles saem. É hereditário. Toda comunidade é assim. Aí eles saem, pra jogarem os maiores. Aí quando estão os de quatorze, quinze anos, aí nós chegamos e, se nós chegarmos, eles têm que sair, que nós vamos jogar. Aí chega nosso time lá, eles já sabem que vamos jogar, então eles têm que parar. Então, eles ficam o dia inteiro na quadra e nós que somos mais velhos, queremos jogar bola, eles já estão o dia inteiro, vão ficar mais? A gente já pede pra eles saírem: “Por favor, saiam!” Nós somos professores, chegamos na hora: “Não, vai lá, vai lá, vai lá, vai jogar agora”. Eles respeitam, tem que respeitar. E aí eles ficam lá sentados assistindo, mas eles gostam de ficar assistindo nós jogarmos, porque lá tem muito moleque bom, onde eu moro. Tem muito moleque bom de bola, lá. Eles gostam de ficar assistindo. Por isso que sempre, no futebol sempre os incentivo a ir pro treino, porque nós jogamos bola e eles gostam de nos ver jogando. Nós damos rolinho, chapeuzinho, fazemos  gol, fazemos coisas que eles falam: “Nossa!” Aí eles gostam.


P/1 – E o Ricardo Oliveira saiu de lá, então?


R – Sim, Ricardo Oliveira veio de lá. Ricardo Oliveira é jogador. Jogador famoso, mas ele foi e virou da igreja aí, aconteceram algumas coisas com a vida dele também, que dizem respeito a ele e acho que ele meio que se afastou da comunidade, né? Foi morar em outro lugar, acho que foi morar até na China, Japão, estava na Arábia também. E hoje o Aquiles e o Ed têm muito contato dele. O Aquiles mais, fala mais com ele assim e tal, às vezes, ele vem, esses tempos atrás veio doação de cesta básica na pandemia e tal e aí nós tentamos sempre ele nos ajudar, a comunidade, mas é difícil ele ajudar. Não sei, ele tem os motivos dele. Então... 


P/1 – E como é o dia a dia na Zaki Narchi?


R – O dia a dia? Que nem, eu tô entrando às quatro horas agora, eu acordo, meu filho mora na Vila Guilherme e às vezes ele fica bastante tempo comigo também. Hoje é minha folga, vou até pegá-lo, quando sair daqui. E a gente fica lá, vou no salão de cabeleireiro, a gente conhece todo mundo, desce, cumprimenta, falo com um e falo com outro. Encosta num canto e começo a falar do que aconteceu no seu dia, às vezes, de futebol, às vezes, fala de um monte de coisa, não sei. Fica conversando o dia inteiro lá. (risos) O dia inteiro, passando hora, porque não tem nada pra fazer, quando não vai trabalhar. Ou puxar um futebol. Se puxa o futebol, os meninos vêm.


P/1 – E como é a relação do entorno da comunidade com as pessoas que moram lá?


R – Do entorno? Como assim? Tipo: a comunidade no meio, aí tem o shopping, tipo isso você quer dizer?


P/1 – É. Como é? É uma relação pacífica, assim?


R – Sim, creio eu, eles já tentaram tirar a comunidade várias vezes. Mas hoje em dia, a gente faz parte da associação, o Center Norte dá doações pra nós, ganhamos até doação de cama elástica, ganhamos uma academia deles. Está tendo uma relação hoje, hoje está tendo uma relação mais tranquila, mas antigamente era difícil. Antigamente eles queriam nos tirar e nós botávamos fogo na rua e fazíamos um monte de protesto. Fazia muito protesto. 


P/2 – Mas eles que queria tirar, quem? Prefeitura ou os vizinhos?


R – Então, eles falaram que tinha um gás tóxico ali debaixo e tal e tem até uns aparelhos, vão lá direto colocar uns aparelhos lá e tal, porque ali é lixão. Colocaram isso pra nos tirar, só que eles queriam nos tirar pra nos jogar lá pro interior, mas ninguém aceita sair do Centro ali, porque está no Centro ali, praticamente. Aí, ninguém aceitou e já teve várias confusões com eles, sobre isso.


P/2 – Você lembra porque surgiu a associação, se era pra resolver essas coisas, ou por uma outra...


R – Não, é que é assim: a associação que eu tô hoje faz, se eu não me engano, dois anos, que é que está o Ed, o Aquiles, eles sempre fizeram alguma coisa pela comunidade, sempre fizeram evento, o Ed e o Aquiles, porque eles sempre gostaram de poder ajudar, só que a associação ficava com outro cara, com outra pessoa. Acho que era da igreja e tal, só que essa associação aí não fazia nada pela comunidade, vivia fechada. Antigamente fazia só velório nela, alguém morria, ia lá, fazia velório, era fechada, não fazia nada. De vez em quando dava alguma coisa, mais no final do ano. Isso daí estava errado, todo mundo estava vendo que estava errado. Na verdade, estavam fazendo coisa errada ali dentro. Aí o Ed, com muitos anos ali falou: “Não, vou pegar a associação e tal, o que vocês acham, vou me candidatar à presidente”. Aí fizeram uma votação lá, porque o Ed falou: “Vou pegar a Casinha Amarela, não tem nada aí, vocês não estão fazendo nada aí, não tem nada, como assim está parada a associação aí? Não chega nada, não tô entendendo. Vamos fazer uma votação, pra ver em quem eles votarão”. Aí fizeram a votação lá, aí todo mundo votou no Ed, aí o Ed ganhou e hoje a associação é aberta pra todo mundo. Você pode ser voluntário, pode ir lá, chega doação e vai pra comunidade, distribui, nós distribuímos, nós vemos chegando, nós que doamos. Aí eles falam: “Precisa de voluntários, vem você, vem você”. Antigamente não tinha isso, antigamente eram os que estavam lá fechados e fecha a Casinha Amarela e está fechada. E hoje não, você pode ir lá, pode ajudar, até entrou um voluntário esses dias aí, muitos voluntários e isso é legal. Está sendo legal.


P/2 – O campinho é um grande point de encontro da galera?


R – Sim, lá você vai encontrar alguém.


P/2 – Além de conhecido, tem algum outro lugar na comunidade que é esse ponto de encontro, que você vai achar alguém lá, uma referência? Algum bar, um barbeiro, algum ponto que é mais…


R – ... que é mais movimentado, no caso. Que tem mais pessoas que você vai encontrar. Lá onde tem um bar e tal, aí você vai na quadra. A Luli é perto da quadra também, a Luli fica aqui e a quadra fica de frente com ela. A Luli, que é a cabeleireira, o salão de cabeleireiro ali, todo mundo: “Está na Luli”, já sabe onde é a Luli, salão de cabeleireiro. E a rua principal, que é a Rua Antônio dos Santos Neto. Essa Rua Antônio dos Santos Neto é onde fundou a Zaki. Ali é a Zaki Narchi, que é a avenida principal e dentro tem uma rua e dentro da Zaki Narchi, essa rua, você passando nela, você consegue ver os prédios todos. Então, essa rua tem vários trailers, barraquinhas, essa rua é mais movimentada, você pode passar ali, que vai ter alguém, vai ser movimentado ali, na parte de trás.


P/1 – Depois na Dona Irene? 


R – Sim, sim, ali mesmo.


P/1 – Eu fui lá.


R – Você foi lá? Que legal! (risos)


P/1 – Eu ia perguntar pra você: qual impacto da Casa Amarela na vida das pessoas da Zaki Narchi?


R – Hoje está mudando muito, porque que nem eu falei, antigamente não tinha nada de doações, assim e hoje as pessoas estão mudando o olhar pra Casinha Amarela. Porque antigamente não tinha essas doações que tem hoje. No começo que o Ed pegou, as pessoas estavam até criticando, falando: “Ah, que não sei o que, vocês estão roubando tudo”. Só que hoje em dia eles veem que nós estamos doando, que nós chegamos e nós vamos lá, levamos até na casa deles, nós passamos dando folhetinhos pra eles irem buscar e nunca teve isso. Isso aí que mudou, o impacto deles mudou muito sobre a Casinha Amarela. E vindo vários voluntários da comunidade, eu mesmo sou um, não faz nem tanto tempo assim, que eles falam: “Nossa!” Tem mais um menino e tem outra menina, tem pessoas que estão entrando no grupo nosso. Tem pessoas antigas, que antigamente eram mais das antigas. Hoje impactou bastante, hoje a pessoa fica mais… eles estão vendo que nós estamos fazendo pela comunidade. Fora que nós damos aula na escolinha, que tem vários professores que são da associação também, que nós damos aulas pras crianças, que eles veem lá, veem nós gritando, fazendo trabalho legal com eles e mandando foto no grupo pros pais e isso impactou muito e é muito legal também.


P/2 – E assim que saiu, esse pessoal da igreja, né?


R – Então, esse pessoal que saiu…


P/2 – ... eles continuam lá, mas como é esse relacionamento?


P/1 – Alguns não, alguns estão, alguns não. O cara presidente mesmo lá, eu nem o vejo mais lá na associação, ele é da igreja lá, acho que mora na Vila Ede, montou um mercado lá, se não foi com as coisas da associação, que o Ed fala, montou um mercadinho lá e eu o vejo pouco. Ele é da igreja e eu o vejo pouco.


P/2 – Eles não tentaram voltar, tomar posse?


R – Sim, sempre arruma um empecilho, mas eles estão vendo como nós estamos andando, não tem como eles nos tirarem de lá, porque quem está lá agora é a comunidade mesmo, a comunidade de verdade.


P/1 – E para além das doações, lá tem projetos incentivados?


R – Tem, tem. Sempre o Ed ou a Elis, a Fernanda, o Aquiles, buscam um projeto. Tem professor de muay-thai, de tênis, de balé, eles sempre tentam buscar um professor diferente e na comunidade às vezes até tem. Tem um professor na comunidade que ele é de tênis, ele é da comunidade também, desde pequeno. Então, balé, eles sempre tentam achar uma pessoa de fora e tal, porque não tem professor de balé lá ainda, ainda vai formar um lá. Aí é balé que eles tentam puxar pra comunidade e como nós estávamos na fase de pandemia, estava meio que… mas agora está começando a voltar de novo, já.


P/2 – Teve um projeto lá de bicicletas. Deu certo, né? Ou não?


R – Sim, teve. Deu, deu certo, os meninos até ganharam umas bicicletas. E vem vários projetos. Vai chegando e nós vamos encaixando lá na associação.


P/1 – E, ao longo desses anos, quais foram os momentos mais marcantes seus, aqui na Zaki Narchi e também os momentos mais marcantes da Zaki Narchi, que você acha?


R – Que eu acho? Mais marcantes? 


P/1 – Que você vivenciou.


R – Ah, foi quando eles tentaram nos tirar, tentaram nos despejar, querer tirar, isso me marcou muito. Porque eu ficava na rua, aí um monte de pessoa na rua, aí vinha o Choque, tinha que tacar pedra, lembro disso daí. (risos) Isso daí me marcou muito, eles querendo nos tirar, sendo que a comunidade se uniu ali de uma forma que não vai tirar, não vão tirar, não.


P/2 – Mandaram tropa de choque?


R – É, a tropa de choque veio. Tacaram fogo na rua, fecharam tudo, falamos: “Não, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Isso me marcou muito, você vê que a comunidade pode ser unida, basta eles quererem.


P/2 – Na época, você tinha quantos anos, quando eles tentaram fazer…


R – Várias vezes, não vou lembrar minha idade, não, mas adolescente, já, eu estava no meio da rua atacando pedra também, correndo, dando risada. Não tinha o que fazer, né? “Vamos correr”. Corre pra lá, corre pra cá. Ficava olhando, mas não lembro a minha idade, não. Não sei se tinha quinze anos, estava jogando bola, tinha mais ou menos essa idade.


P/2 – Como é, assim? Eu nunca vivi uma situação assim _______ . Sei lá, a prefeitura, o Estado manda a tropa de choque e você falou que foi marcante da comunidade se unir. E o dia seguinte, como é que é?


R – O dia seguinte?


P/2 – É, a comunidade se reúne para ver ou comemorar que conseguiu vencer uma batalha?


R – Ah, no outro dia vai ser normal, pra você, porque muitos você vai ver na rua, vai dar risada do que aconteceu, você vai falar do que aconteceu e vai falar: “Conseguimos, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Fica o comentário só, não que se reúne todo mundo. Ficam só os comentários. Você vai num lugar e comenta com um; vai no outro e comenta com outro: “Nossa, aconteceu”. Como aconteceu uma vez, o menino tomou uma bala de borracha, tem muito isso daí, tomou no olho uma vez aqui, ficou inchado, o Takara, o apelido dele era. Era, porque ele morreu, morreu nessa vida errada. E tomou até um tiro no olho, ficou inchado. E nós tínhamos que ir pra guerra, não vai nos tirar daqui, não. E no outro dia fica comentando, fica o comentário na comunidade.


P/1 – E quais os principais problemas que você vê na comunidade, que você gostaria de melhorar?


R – Ah, tem muitos. Educação, a pessoa saber comunicação, como se portar, eles não sabem. É muito difícil. Os meninos mesmo vão pra escola, os pequenininhos, por ir. Porque na escola, eles não vão aprender nada. Na comunidade, ali nós tentamos ensiná-los, mas, às vezes, é dentro de casa também, às vezes, são muitas pessoas com situação difícil em casa. A mãe tem que trabalhar também, não tem um pai. Na comunidade tem uma favelinha, lá mesmo você vê um monte de criança jogada, ficam três dias sem tomar banho, suja, suja, suja, você fala: “Meu Deus do céu!” Isso aí tem muito. Falar pra você, é difícil.


P/2 – As escolas são distantes da comunidade, pras crianças irem, dá pra irem sozinhas ou não?


R – Então, é mais ou menos uns dez minutos. Da Zaki Narchi pra escola são uns dez minutos, mas você vai passar pela Cruzeiro do Sul, pela avenida movimentada, às vezes, crianças pequenas estão indo sozinhas. Eu mesmo ia sozinho quando era pequeno, eu e meu irmão, era pequenininho. Minha mãe não tinha quem levar. Muitas vezes a mãe leva, quando pode, mas tem muita gente que às vezes não tem mãe, não tem pai. Às vezes, o pai está nas drogas e a mãe sumiu, acontece muito isso daí.


P/2 – E posto de saúde, essas coisas, também é longe?


R – Tem, é longe, um pouquinho longe. Tem um que é na Braz Leme, é longe, mas dá pra ir andando. Ali na Braz Leme e tem um no Carandiru, que é o posto Carandiru, mas também você anda um pouquinho, que é ali perto da Vila Guilherme.


P/1 – Pensando um pouco também sobre a sua vivência lá na Zaki Narchi, você percebe diferença de geração, dos mais velhos para sua geração, agora, pras crianças?


R – Alguma diferença?


P/1 – É.


R – Poucas. Pouca coisa, pouca coisa, mas o respeito que mudou muito, porque os meninos respeitam menos hoje. Antigamente, se não respeitasse, ia tomar um cascudão. Quando nós éramos pequenos, na minha época. Hoje não, hoje nós não podemos colocar a mão nas crianças, não pode. Mas os meninos são folgados. Mas muito, assim, não mudou muito não, porque minha infância foi aquilo ali, eu os vejo e eu fui criado assim, mais ou menos. Às vezes, meu filho também fica na rua, brinca, corre, vai pra lá e vai pra cá, porque eu fui criado assim, sempre solto e do mesmo jeito que ele fala palavrão, eu também falava. Mas é como eu falei: eu entrei na escola, comecei a ler, escrever, a professora me ensinou a ter educação, aí eu aprendi bastante. Muitos deles, é difícil, não sabem ler, você fala: “Sabe ler?” “Não”. Muitos não sabem ler e escrever, então eles não têm muito essa sabedoria. Sabem malandragem, eles sabem muito, são muito malandros, eles querem ser espertos, eles querem ser muito espertos. Às vezes, eles querem ser mais espertos que nós. Como nós já vivemos aquilo, eu pego bem no pé deles. Pego bastante no pé deles.


P/1 – E você já sofreu algum tipo de preconceito, por morar na Zaki Narchi?


R – Sim, as pessoas. Não de falar pra mim, mas você vê o semblante da pessoa, você vê o gesto dela, aquele jeito que você fala: “Moro no Zaki Narchi” e ela: “Ah, mora no Zaki Narchi”. Já mudou até o jeito de falar, de conversar, já sofri preconceito, sim. Eu não tenho vergonha não, falo até hoje, no trabalho eu falo que moro no Zaki Narchi, sempre morei, não tenho vergonha, não.


P/1 – Como você se sente, quando se depara com esses olhares?


R – Ah, já vem mais um preconceituoso, já vi tantos que, pra mim, é mais um só.


P/1 – E pra você, que vive lá, como você descreve a visão das pessoas que não moram lá e veem a comunidade?


R – As pessoas que não moram lá? Ah, veem como um ponto de drogas, perdição, de falar que as pessoas de lá não são boas, mas é o que eu falo: não é todo mundo. Às vezes, o que uns fazem, outros pagam, mas não é todo mundo. Conheço até pessoas que falam: “Nossa, você é superlegal e você mora lá e tal”. Eu falo: “Moro lá, sim” “Nossa, que diferente!” E eu falo: “Mas tem pessoas que são normais, nem todo mundo é igual”. Tem pessoas que têm família e vão do trabalho pra casa, nem saem na rua. Tem pessoas que eu conheço, já vi. Tem pessoas que ficam na bagunça mesmo, tem baile funk lá, vai pro baile, então, na comunidade têm em dia de sábado, está voltando ao normal. Aí o pessoal fica no baile, fica cheio de gente lá. Pra mim, eu vivi isso aí desde pequeno. Mas, pra eles, é a maior diferença, ainda mais quando tem baile funk, eles falam: “Nossa, aquele barulho”. Eu moro lá, então pra mim é normal.


P/1 – E como a pandemia afetou sua vida?


R – A pandemia afetou porque já não estava muito bem com a mãe do meu filho, acabei ficando desempregado, eu quebrei o pé, depois fiquei desempregado. Eu estava pra entrar num restaurante, aí quebrei o pé e não entrei no restaurante, veio a pandemia e aquilo ali se ajuntou tudo e eu falei: “Meu Deus do céu!” (risos) Essa pandemia acabou comigo. Mas nós somos fortes e damos a volta por cima. Mas acabou comigo, veio separação, veio cobrança, veio dívida, começou a vir dívida e eu sem trabalhar, falei: “Meu Deus do céu!”. Afetou financeiramente e emocionalmente também.


P/1 – E lá na Zaki Narchi, como foi a pandemia?


R – A pandemia lá foi tensa, morreram algumas pessoas. Morreu a mãe da minha ex-mulher. A mãe dela morreu de Covid também. Ela veio lá do Paranavaí e veio pra cá. E aí acabou vindo na pandemia e ela não conseguiu voltar, porque não tinha mais ônibus, aí ela ficou por aqui na Zaki Narchi e aquilo ali acho que não deu. Não sei, elas tinham que trabalhar. Eu também estava trabalhando na pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, quando veio o começo da pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, aí começou a cortar e eu fui mandado embora. Aí ela faleceu, na pandemia, marcou muito ali.


P/1 – E teve bastante doação também, ou diminuiu?


R – Ah, na pandemia teve, porque a pandemia ficou muito tempo, ficou o quê? Quase dois anos. Ficou muito tempo de pandemia. Ganhamos bastante doações, doações vêm de todos os lugares. Falar pra você que disso aí a gente não teve do que reclamar não, muitas pessoas passaram muito bem, graças a Deus, na comunidade. Ajudou. Veio bastante doação.


P/1 – E o que você mais gosta na Zaki Narchi?


R – O que eu mais gosto na Zaki Narchi? Ah, quando fala em futebol, quando fala em jogo, futebol e criança, associação, ali, já, pra mim é gratificante demais, fico muito feliz. Eu acho que eu amo fazer aquilo ali, de verdade.


P/1 – Você falando parece que você se encontrou, né?


R – Sim, sim, com certeza. Eu que já fiz tanta coisa, de tudo um pouco, falei: “Nossa, aqui é minha praia”, porque você poder ser comunicativo e de uma forma, com pessoas que querem o bem de outras pessoas. Isso que me marcou bastante pra eu ficar, falar: “Nossa, vou ficar aqui, que esse é o lugar”. Dentro de mim fala: “Fica aqui, que é o seu lugar. Você sabe fazer isso muito bem”. Então, isso, como você falou: eu me encontrei, já gostei de fazer essa parte aí.


P/1 – E se você pudesse mudar uma coisa, o que você mudaria, lá?


R – Lá? Eu tiraria o tráfico, né? O principal, porque é onde se perdem muitas crianças, pra droga. Hoje mesmo eu vejo uma criança lá que não tem nem quatorze anos se perdendo pras drogas. Tem muito disso daí lá. Aí você fala: “Meu Deus do céu!” Se eu pudesse, tirava as drogas de lá, com certeza. É uma coisa que eu tiraria, era isso.


P/1 – E como é seu dia a dia?


R – Hoje?


P/1 – É. A sua rotina.


R – A minha rotina, que nem eu falei: estava na fase de reabertura do restaurante Coco Bambu, estou trabalhando lá há uns quatro meses, aí eu estava trabalhando direto, então eu estava trabalhando do meio-dia à meia-noite, do meio-dia às duas da manhã, aí tem umas três, quatro horas de descanso, eu tô indo pra academia e volto pro serviço de novo. Então, agora está voltando ao normal o meu horário, que meu horário fecha, que eu entro quatro horas da tarde e saio meia-noite e meia, uma hora. Depende do plantão, duas horas da manhã, se precisar. E de quarta-feira é minha folga, na minha folga dou treino pras crianças, como eu falei, sete horas da noite e fico com meu filho. Sempre, quando eu posso, fico com meu filho. Como eu sempre chego tarde, né, aí ele dorme na tia dele, que mora lá, que é a irmã da mãe dele. E tem minha irmã também, que mora no prédio do lado, lá em cima, só que ele gosta de ficar na tia dele. Aí, eu o pego na minha folga, que nem hoje vou pegá-lo e fico lá na comunidade, fico na quadra, até dar a hora do treino, aí dou o treino pras crianças, depois o treino nove horas acaba e vamos jogar bola na quadra. Na minha folga tem um grupo aqui: “Vamos jogar bola, vamos, vamos, vamos”. Aí nós vamos e começa a jogar bola.


P/1 – Era a pergunta seguinte: o que você gosta de fazer na sua hora de lazer? (risos).


R – (risos) Se você perguntar, é jogar bola!


P/1 – E, Simon, quais são seus maiores sonhos, hoje?


R – Hoje? Ah, meus maiores sonhos são: ver meu filho bem, meu filho e minha filha, ela chama Vitória, a irmã dele. Tô trabalhando pra isso, está voltando tudo ao normal, graças a Deus, agora, tô trabalhando pra deixar meu filho bem. Como meu filho gosta de jogar bola e ele sabe jogar bola, vou incentivá-lo a ser jogador de futebol, mas ele vai estudar e, se não for, vai trabalhar. Então, isso daí é meu maior sonho mesmo: vê-lo bem, tranquilo, vivendo bem. Poder dar do bom e do melhor pra ele, está bom demais.


P/2 – E seu sonho pra comunidade?


R – Que ela se una Se una mais e se ajunte mais. Porque a comunidade, querendo ou não, como eu falei: nós crescemos juntos, os meninos da minha idade, mas tem as pessoas mais velhas, as pessoas bem mais antigas do que eu, que me conhece e me viu crescer e até fala pra mim: “Você cresceu!” Meu sonho é ver a comunidade unida, na associação lá poder fazer alguma coisa pela comunidade, falar: “Olha, tem uma doação aqui, quem precisa? Quem vai lá, ajuda?” Chegou doação e poder ajudar. Hoje em dia os meninos da escolinha ajudam bastante, nós sempre os incentivamos, os mais velhos sempre ajudando: “Vai chegar um caminhão de cesta básica, vamos ajudar, vem” e eles ajudam. Eu queria que toda a comunidade fizesse isso. Ia lá procurar saber mais, tem vários projetos, tem coisas que, se Deus quiser, como a associação é nova, vai crescer muita coisa ali e nós estamos no caminho certo, estamos com pessoas boas, pessoas que querem ajudar e a comunidade vai mudar muito ainda. Vai mudar, isso nós vamos fazer, a comunidade, nós, em conjunto. No plural. 


P/1 – E o que você espera, primeiro pro seu filho, mas depois pras outras crianças que você ensina o futebol?


R – Ah, poder falar o dia que elas estiverem trabalhando, estiverem com a casa delas, com o filho delas, poderem falar: “Você foi meu professor, você está no meu coração, você me ensinou muito!” Isso aí vai ser gratificante pra mim, vai ser emocionante, eles um dia crescerem e poderem falar isso pra mim e eu vou falar: “Mas você sabe como você era terrível, hein?” (risos). E você ficar feliz por isso. Isso, pra mim, traz muita felicidade, me deixa alegre.


P/1 – E o que a comunidade Zaki Narchi representa, na sua história?


R – A minha vida, a história toda. Representa aprendizado, você poder lidar. Se você me colocar no meio de uma favela, eu vou saber entrar e sair, em qualquer uma que você quiser, eu vou saber entrar e vou saber sair, porque me ensinou muito isso. E graças a Deus trabalhando também com público e sendo comunicativo no Outback, aprendi a me impor também lá dentro, de um pessoal de um patamar mais alto, pessoas que têm um padrão mais alto, eu sei me impor numa comunidade. Em qualquer favela eu entro e saio, coisa que pessoas que têm um padrão mais alto, eu vou saber conversar com eles, da mesma forma que eu converso na comunidade. Sem palavrão, sem gíria. Então, isso daí deu uma facilidade de crescer muito, né?


P/1 – Simon, a gente está chegando no fim já, tem mais só duas perguntas.


R – São quantos minutos, mais ou menos? Só vou avisar o menino, o Aquiles, pra me buscar. Ele falou: “Avisa uma meia hora antes, que eu já vou resolver aqui”.


P/1 – Ah, então pode avisar, que aí a gente vai... Simon, a gente está chegando no fim. Eu queria saber se você queria contar alguma história que eu deixei passar, ou deixar alguma mensagem?


R – Deixar uma mensagem. Eu falei tudo que eu queria ser sincero aqui, nesse momento, com vocês aqui. Queria ser sincero e então eu fui sincero ao máximo, eu fui sincero em tudo. Falei a minha vida toda pra vocês. A mensagem que eu quero deixar é que as pessoas de comunidade, ou não sejam, amem a outra pessoa. Independente de quem ela seja, de que cor ela seja, de onde ela seja, que a pessoa ajude ou tenta ajudar uma pessoa, porque o começo é nós nos ajudarmos, nós vamos chegar longe. Hoje no Brasil, acontece muito isso no Brasil, porque as pessoas não se ajudam. As pessoas, em vez de se ajudarem, criticam muito uns aos outros. Isso aí, pra mim, eu acho muito feio. E isso tem muito na comunidade. As pessoas, às vezes, não se ajudam. Às vezes, se ajudam e, às vezes, não. E acontece muito que não, quer você bem, mas nunca melhor do que ela. E eu falo que isso fica muito chato lá na minha comunidade. Mas eu quero que as pessoas, um dia, ajudem uns aos outros, porque vão chegar longe, vão chegar a outro nível, quando a pessoa tem a mente de poder ajudar outra pessoa.


P/2 – Você disse que a pandemia ajudou, teve muitas doações e a gente ficou quase dois anos aí na pandemia.


R – Sim, sim. 


P/2 – Tem alguma coisa que você percebe, assim, que se destaca, que mudou por conta da pandemia, que você acha que mudou ou na relação das pessoas, ou na organização da comunidade, que você acha que vai ficar assim? Seja de bom ou de ruim. 


R – Sim, vai ficar. Porque mudou o pensamento das pessoas. Tem pessoas boas que estão ali só pra ajudar, então isso mudou muito. Na pandemia mesmo, pessoas que ficavam só em casa e nós íamos de carro lá, pra entregar a cesta básica na casa da pessoa, por causa da pandemia, pra pessoa não ficar rua e tal, nós íamos tudo certinho, álcool gel, máscara, deixava lá a cesta básica. Então, isso mudou bastante, as pessoas viram que nós estávamos ali pra ajudar a comunidade, a gente queria ver a comunidade bem. Então, ajude você também, ajude, vai lá, preste um serviço lá, comunitário, sem cobrar nada, uma hora do seu tempo, duas horas do seu tempo lá, você já vai ajudar bastante, pensa que não, mas está ajudando, sim. Então, isso marcou muito as pessoas na pandemia.


P/1 – E a última pergunta é mais, assim, pra perguntar o que você achou de ter contado um pedacinho da sua história hoje, aqui?


R – Ah, eu achei o máximo! Eu pensei que eu ia ficar meio com vergonha, eu falei: “Não, vou ficar meio com vergonha, eu acho”. E na hora que eu cheguei e vi um monte de câmera e tal, falei: “Ah, não, vamos lá, vamos conversar.” Às vezes, seria mais fechado. Mas falei: “Ah, não, vou falar um pouco da minha vida aí, pretendo falar a verdade, porque eu tô nesse momento aqui que vai ficar pra história.” Vai ficar na história aí, espero que um dia eu possa pegar meu celular e ver lá minha história, que eu contei. (risos) Legal, foi muito maravilhoso, eu gostei mesmo.


P/1 – Nossa, a gente agradece demais, né, Raquel?


P/2 – Nossa, sua disponibilidade, você foi muito generoso, em compartilhar sua vida.


R – Obrigado! Compartilhamos aqui com vocês, é maravilhoso também. Foi muito legal, gostei.


P/2 – E é bom que você tem um exemplo muito positivo para dar. De ter feito escolhas do bem, de querer ser um exemplo. De querer, não! De ser um exemplo. Então, eu acho que é bem bacana você deixar esse legado, essa história como exemplo, mesmo.


R – Como exemplo, com certeza. De superação de vida. Podia estar em outro lugar, fazendo outras coisas, coisas erradas aí. 

Realizada por Museu da Pessoa Entrevista n.º: PCSH_HV1042 Transcrita por Selma Paiva Revisada por Bruna Ghirardello P/1 – Simon, pra começar, eu gostaria, por favor, que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local e a data de seu nascimento. R – Meu nome é Simon Richard, nasci em Minas Gerais, moro atualmente no Carandiru e tenho 27 anos. Nasci em 1994. P/1 – E qual o nome dos seus pais? R – Minha mãe se chama Marinês Soares Silveira. Meu pai não tem registro, porque não me registrou, mas eu sei que o nome dele é Élcio Fagundes. P/1 – E o que sua mãe fazia? R – O que minha mãe fazia? Na verdade, minha mãe sempre trabalhou. Mas ela trabalhou em uma área que me afeta muito, ela entrou na área de prostituição, então acabou complicando nossa vida um pouquinho, nessa caminhada. Mas ela foi garota de programa. P/1 – E você tem irmãos? R – Tenho mais dois irmãos da parte da minha mãe e mais três da parte do meu pai. P/1 – Qual é o nome deles? R – Um se chama Nick Sávio Soares, que é meu irmão um ano mais velho do que eu; aí tem a Samanta Soares Fagundes, que é minha irmã. E da parte do meu pai eu sei só os primeiros nomes deles, que é Kevin Sena, Antony Sena e Stefanie Sena. P/1 – Você não tem relação com eles? R – Tenho um pouco, já fui algumas vezes lá em Minas Gerais, na casa do meu pai, porque tenho familiares lá, como nasci lá, então, da parte da minha mãe também todos são de lá. E eu vou lá, já fiquei lá uns três meses, quando me separei da mãe do meu filho, faz pouco tempo, não faz muito. Aí eu fui lá, fiquei três meses, fiquei na casa do meu pai, fiquei na casa dos meus tios e voltei pra São Paulo de novo. P/1 – E como você descreveria sua mãe? R – Minha mãe? Uma pessoa que trabalhou muito. Independente do ramo dela, ela sempre nos quis ver bem. Sempre deu do bom e do melhor, trabalhou nesse ramo, mas nós tivemos de tudo que ela pôde dar. O que faltou mais era mais atenção, que nós não tínhamos. Eu, meu irmão e minha irmã. Minha irmã engravidou cedo, acho que com quatorze anos ela já engravidou. [Pausa] P/1 – Eu estava perguntando como você descreveria sua mãe. R – Ah, eu estava na parte errada. Minha mãe. Então, uma mulher guerreira. Trabalhadora, que deu de tudo pra nós, de tudo que pôde dar, ela deu. Mas faltou meio atenção, afinal nós não tivemos pais. Não ter a mãe próxima é complicado. Aí eu vivia nas ruas, lá do Carandiru, onde eu fui criado desde pequenininho, ficava na rua, aí comecei a jogar bola também. Mas uma mulher guerreira, falar pra você que não tenho o que falar dela. Hoje nós cuidamos dela, porque ela está com uns problemas da cabeça, fez 48 anos e nós cuidamos dela. Ela mora com a minha irmã. Eu estava morando com a minha irmã quando me separei, mas acabei de me mudar. Eu tô morando de aluguel, pertinho também, do lado e nós cuidamos dela. P/1 – E você sabe como seus pais se conheceram? R – Não, falar pra você que ela nunca comentou isso comigo. Que nem eu falei, ela sempre foi meio distante de nós, porque trabalhava muito, então, não perguntamos muito isso pra ela, ela não responde. Ela falou que foi em Minas Gerais. P/1 – E como é sua relação com seus outros irmãos, os por parte de mãe? R – Por parte de mãe? Ah, eu e meus irmãos somos todo mundo unidos. Quando precisamos um do outro, nós estamos juntos, sempre. Meu irmão mesmo, nós mesmos ficamos até brincando lá com ele, que ele pega roupa minha: “Empresta uma roupa pra mim”. Ele pega e eu nem cobro dele, ele fica de tempos em tempos, fica velha e ele joga fora, ou eu vou lá e pego uma dele também, aí nós ficamos comentando muito. Por falar nisso, eu estou morando até do lado dele ainda, porque ele está morando de aluguel e eu falei: “Vou alugar uma casa aqui” “Aluga aí” e tal. E com eles, meus irmãos eu os amo, de verdade. São minha vida, fazem parte do que eu sou hoje. Que é união, eu sou um cara bem dedicado nisso daí, em ter a união da família. P/1 – E você conhece a história dos seus avós? R – Não também, não muito. Não conheço a história deles. P/1 – E na sua infância, quando você era pequeno, tinha comida, cheiro, data comemorativa que vocês comemoravam em família ou comida que lembre sua família quando você era pequeno? R – Sim, eu lembro que minha mãe sempre fazia uma festinha, aí chamava alguém, vinham meus tios que, se não me engano, são oito irmãos. Então, vinham meus tios, meus tios moravam em São Paulo. Uns estão morando em Minas Gerais hoje, mas quando na minha infância, muitos deles vinham para São Paulo, então, moraram sempre um perto do outro, aí eu lembro que eles sempre faziam uma data comemorativa e tinha um bolo, tinha os parabéns, davam presentes. Acho que isso eu lembro, quando tinha data comemorativa. P/1 – E você sabe a história do seu nascimento? R – Do meu nascimento? Não, falar pra você que minha mãe nunca me falou sobre isso, a história. P/1 – E do seu nome? R – A história do meu nome? Minha mãe falava que era um cantor de rock, se eu não me engano. Simon, ela gostava.  P/2 – Simon & Garfunkel? R - Deve ser esse aí mesmo, muitas pessoas falam, falam que era um cantor de rock. Mas deve ser esse aí mesmo, é que eu não acompanho muito rock. Então, acho que é de muito tempo atrás também, eu não lembro. P/1 – E ela conta que foi por isso que ela te deu esse nome? R – Foi, aí meu pai escolheu Richard, aí ficou Simon Richard. P/1 – Quando você veio pra São Paulo? R – Quando eu vim, eu vou falar pra você que eu não lembro, mas eu vim pequeno. Eu não lembro, mas eu vim pequenininho, era bebezinho, acho que até de colo, se não me engano, minha mãe veio comigo pra cá. P/1 – E porque sua mãe escolheu a Zaki Narchi, você sabe? R – Por que a minha mãe escolheu? P/1 – Ela foi pra Zaki Narchi… R – Ela foi, ela veio e morou no Parque Novo Mundo, mas morou pouco tempo, depois morou na Estaiadinha, se não me engano, aí de lá, eu lembro que ela falou isso pra mim já, aí veio pra Zaki Narchi, mas eu era pequenininho, já era um pouco maiorzinho, mas pequenininho. Eu não lembro o dia que eu cheguei na Zaki Narchi, mas eu lembro do meu crescimento lá, desde a favela, aí fui crescendo e tal, mas eu lembro que eu era pequenininho. P/1 – Então, a primeira memória que você tem da sua infância, quando você era pequenininho, já era da Zaki Narchi? R – É, e no Parque Novo Mundo que eu morei pouco tempo, mas eu lembro que meus tios, as datas comemorativas eles faziam pra mim, aí era no Parque Novo Mundo. A Estaiadinha eu lembro pouco, porque acho que fiquei muito pouco tempo, a Zaki Narchi eu lembro muita coisa, agora data comemorativa eu lembro no Parque Novo Mundo. P/1 – E você sabe porque sua mãe veio pra cá, ela já tinha família aqui, alguém da família ou não? R – Não, porque minha mãe, é aquilo que eu falei, veio pra cá muito nova, com três filhos pra criar, então ela entrou nesse ramo que eu falei, que ela veio da prostituição. De ser garota de programa, aí ela teve que… ela veio pra cá, como ela ganhava pouco naquela época, ela pegou e comprou um terreninho, montou um barraquinho e veio pra cá. Veio pra luta. P/1 – E como era sua primeira casa, o barraco? R – O barraco, a minha primeira eu não lembro. A segunda eu lembro, que minha mãe falou que morou antes em outro local do barraco, ela montou um maior depois. A segunda eu lembro que era uma escadinha, quando você abre a porta tinha uma escadinha e uma entrada pra cozinha e uma escadinha assim. Aí eu subia lá, lá tinha os quartos divididos, o dela, o nosso, o nosso tinha beliche e tal. Era bem arrumadinho. E lá embaixo a cozinha era bem grande, aí tinha um banheiro no canto da cozinha, no outro canto tinha um banheiro, (risos) tô lembrando de coisas que eu nem fazia ideia. E, graças a Deus, comida nunca faltou, porque ela ia atrás. Isso, pra nós, nunca faltou. P/1 – E quando você era pequeno, você gostava de brincar do quê? R – Brinquedo. Brinquedo, minha mãe comprava bastante brinquedo pra nós. Carrinhos, Power Rangers, que eu tinha uns Power Rangers grandões, tinha aquele carrinho que ficava cantando, esqueci até a música, agora não lembro. Tô tentando lembrar, mas não lembro não, (risos) agora no momento não veio. Aí carrinho, brinquedinho, Homem Aranha, isso aqui eu brincava muito, quando eu era pequeno. P/1 – E era em que parte da Zaki Narchi o primeiro que você tem lembrança? R – Em que parte? Mais ou menos em... hoje tem uma Aacd lá, era atrás. Acho que a favela está até se formando de novo lá, eu morava naquela parte ali. Aacd ali no fundo, onde tinha um ferro velho, o ferro velho do Carioca, que eu lembro até hoje. Aí tinha um riozinho, assim, era legal. Saía na Rua Urupiara, lá na frente. Saía na Rua Urupiara, lá atrás. P/1 – E você brincava na rua também? R – Na rua, o dia inteiro. Na rua era o dia inteiro, não ia pra casa e tinha vez que chegava em casa e apanhava da minha mãe, porque isso não era hora de chegar: “Você está o dia inteiro na rua, você não comeu, não bebeu”. Mas sempre tinha comido, sempre tinha bebido. Nós dávamos um jeito de arrumar, nós pedíamos, nós arrumávamos, nós íamos ali no McDonald's quando era pequeno e ganhava um ‘Mc’, pedia pra pessoas e as pessoas davam, às vezes, não davam. Passávamos em restaurantes e pedíamos alguma coisa e eles davam, sempre de casa em casa, bolachas, passando apertando campainha. E quando a gente ia jogar bola, então, jogar bola longe, isso era normal. Vivia o dia inteiro na rua, ia pra lá e pra cá o dia inteiro. Tinha o Shopping Center Norte também, de frente, que tem um Shopping Center Norte em frente ao Zaki Narchi, ali, nós íamos pro shopping lá, vendíamos figurinhas também, tinha as figurinhas aquelas quadradinhas que você retira e que colavam, a gente vendia lá. Não podia e tinha que correr dos seguranças. (risos) Nós dávamos um jeito, sem comer nós não ficávamos. Ela pensava que nós ficávamos sem comer, na rua. Às vezes, ficava sem tomar banho o dia inteiro, jogando bola, saía, ia pro shopping e voltava pra jogar bola, o dia inteiro, ia jogar bola e ia pedir em outro lugar. Assim, isso nós arrumávamos, dava um jeito, não tinha jeito. Todo mundo se juntava e nós íamos. P/1 – E lá já tinha o… é que eu fui lá, né? Aí eu estava vendo. Já tinha o campinho? R – O campinho? A quadra. Lá dentro do Zaki Narchi tem uma quadra, tem duas quadras. Hoje eu faço parte da associação, sou um voluntário da associação e hoje nós tomamos conta da comunidade e tem a quadrinha. Eu dou aula pros meninos lá. Tem o time dos meninos e das meninas, só que eu dou pros meninos, porque o tempo que eu tenho é curto, no momento. Mas já tinha. Eu morava no morro. Antes era favela, quando eu era mais menorzinho era mais favela mesmo, aí depois construíram os prédios lá e tal, aí já morava num morro ainda, quando construíram os prédios, tinha, sempre teve. Pra mim, na minha infância, sempre teve. P/2 – Você falou que andava, ficava com a molecada o dia inteiro na rua, né? Era um grupinho de crianças da sua idade? R – Da minha idade, da minha idade. Um era tipo um ano ou dois anos mais velho, outro um ano, ou dois anos mais novo. Tudo junto. P/2 – E eram sempre os mesmos? R – É, na verdade, nós tínhamos um grupo que era de quinze, tinha grupo que era de mais. Só que você acordou cedo e o outro não acordou, aí outro ia pra lá, tem sete aqui, vamos empinar pipa. Nós íamos pra Casa Verde direto, andando, empinar pipa, pequenininhos. P/2 – E dessa turma você ainda tem algum conhecido, mantém contato? R – Todos, muitos, muitos, muitos. Uns faleceram, outros estão presos, que isso aí, na vida, cada um escolhe seu caminho. Então, ali dentro é mais fácil o caminho errado, pra eles. Para eles era o meio mais fácil para ganhar dinheiro, então, acaba complicando muito isso daí, na comunidade. P/2 – Tem algum deles que você mantém mais como amigo ainda até hoje, ou cada um foi seguindo o rumo? R – Não, tem uns que seguiram o rumo, tipo, hoje nós nos falamos, conversamos, a amizade é a mesma, às vezes, pára pra conversar, pra beber uma e sempre encosta, às vezes, nunca bebeu e vai beber. Só que ali tem muitas pessoas que ‘tretam’, brigam entre eles mesmos, depois que eles bebem. Coisas simples de resolver, acaba causando. Mas tenho sim, tenho muitos amigos meus. Vixe, falo pra você que quando nós sentamos e contamos as histórias, ficamos dando risada, dando risada demais! É muita história. Olha que loucura: tinha beira do rio que a gente mora, assim, aí tem uns túneis que saíam pouquinha água, tinham as aberturas, aí nós íamos na beira do rio, ficávamos na beirinha do rio, no cantinho, que era de concreto. Nós ficávamos lá, entrávamos nesse túnel e nós íamos parar lá debaixo do Shopping Center Norte, andando. Em quinze meninos, quinze moleques. Nós íamos lá, quando chegava lá, falava: “Meu Deus do céu, nós estamos debaixo do Shopping”. Aí nós tínhamos que vir correndo, nós vínhamos correndo. Pra você ver essa infância foi a melhor pra mim. Aprendi muito com ela. (risos) P/1 – E como foi crescer na Zaki Narchi? R – Como foi crescer? Aprendi muito. Aprendi o que é certo, aprendi o que é errado. E pra mim foi bom, mas ao mesmo tempo, também não foi tão legal, que foi essa parte que perdi muitos amigos. Essa parte me deixa até chateado, perdi muitos amigos pra droga, perdi muitos amigos para o crime. Então, tem uma parte que dói, porque não tem precisão, um país rico desses deixar pessoas assim tão talentosas, a gente tinha muitas pessoas talentosas que se foram desse jeito. P/2 – Você falou que seus amigos, alguns tomaram o caminho errado, são escolhas, né? Você tem lembrança de algum momento marcante no seu crescimento aí, ao longo do tempo, onde você fez essa ‘escolha do bem’? Assim, há um divisor, tipo assim: “Aqui eu poderia escolher o ‘caminho do mal’, mas eu…”. Você tem consciência? R – Tenho. Eu já fiz algumas besteiras, vou falar pra você, não sou santo também. (risos) Já fiz algumas coisas erradas, então, isso me deixou, quando você faz uma coisa errada com os outros amigos seus, aquilo parece que vem uma inveja,  ninguém quer perder. Eles se põem muito isso: “Você não vai dar um prejuízo em mim, você não vai fazer isso comigo, você não é louco!” Então, eles ficam se debatendo, porque, às vezes, quando cai dinheiro muito fácil, o dinheiro vai rápido também, na mão deles, porque ele vem e vai de uma forma que você fala: “Meu Deus do céu!”, ele precisa de mais. Então, ele sempre quer ganhar mais de você, mais. E isso tem muito. Tem muito desvio de coisas erradas, que acabam te influenciando a desviar isso, porque isso acaba criando uma inimizade, porque é um dinheiro muito fácil. E você pega bastante dinheiro. Quando você pega bastante dinheiro, quanto mais você tem, mais você quer. Na comunidade tem muito disso, o dinheiro te influencia muito a errar, a você querer, às vezes, matar uma pessoa, chegar ao ponto de matar uma pessoa. Influencia muito. E isso daí meu caminho foi desses, convivendo com isso, fazendo algumas coisas erradas que me ensinou, falei: “Não, para!” Mas eu tive filho cedo, com dezessete anos eu já tive filho. Eu fiz dezoito, ele nasceu e eu tive que trabalhar, falei: “Não, vou trabalhar, porque...”. Aí larguei o time, eu jogava bola também, que eu tenho um caminho aí de futebol também, viajei muito. Joguei no Internacional, São Paulo, mas só que mais na minha infância, passei por Cabo Friense também, no Rio de Janeiro. Aí o futebol me tirou muito da vida do crime, muito, muito, muito, muito. Me afastou de verdade, falou: “Não, essa vida não é pra você, vem pra cá”. Aí, depois que eu tive meu filho, eu falei: “Não, eu vou seguir o caminho certinho, vou trabalhar”. Entrei num serviço, no Outback, restaurante. Gostei de trabalhar no ramo. E isso me deixou bem feliz, esse caminho pra mim foi o que me influenciou. P/1 – Simon, vou voltar um pouquinho agora. (risos) Você lembra da sua primeira escola? R – Da minha primeira escola? P/1 – Ou, assim, vou mudar a pergunta. Pode falar. R – Não, eu tô tentando lembrar aqui, mas pode falar, você quer mudar a pergunta? P/1 – Eu vou mudar: qual a primeira lembrança que você tem da escola? Não precisa ser da primeira, mas a primeira lembrança sua. R – Da primeira lembrança? Eu acho que foi o Antônio Sampaio, eu lembro do Antônio Sampaio, estudei, peguei a primeira série. Aí eu já lembro da minha primeira série. Eu tenho uns rabiscos do Emei, do Emei que eu estudei, mas como eu falei, foi um tempo no Parque Novo Mundo, que a minha mãe ficou. Do Emei, mas não lembro quase nada, mas do primeiro ano na escola eu já lembro. P/1 – Como que era ir pra escola? Como você ia? R – No começo eu só ia por ir, porque eu mesmo não aprendia nada, era pequenininho, só vivia na rua. Minha mãe mandava eu ir, nós íamos, quem levava no começo era minha irmã, minha irmã levava no começo, mas depois que ela casou, que ela acabou casando nova, aí fiquei só com a minha mãe. Aí eu comecei a ir sozinho, eu e meu irmão. Meu irmão é um ano mais velho que eu. Eu tinha seis, sete anos e meu irmão um ano mais velho, a gente ia andando, porque a Antônio Sampaio, da Zaki Narchi, fica ali na Voluntários, pertinho, uns dez minutos andando, então nós íamos andando, eu e meu irmão. Atravessávamos as ruas lá e nós íamos. P/1 – E tinha algum professor ou professora, na época, que te marcou? R – Que veio me marcar mesmo foi mais na quinta série... não, quarta série. Quinta série eu já passei pra de manhã. Que foi a professora Maria, me ensinou bastante, que foi quando eu comecei a aprender a ler mesmo, aprender a escrever, aí me ensinou comunicação, como conversar com as pessoas, porque eu era meio comunicativo, bem vergonhoso. Ela me ensinou a ler, ela me marcou. As outras só escreviam lá, eu fazia, às vezes, não sabia nem escrever, no começo, aí largava e só ficava brincando com os amigos nos primeiros anos, aí depois da quarta série eu comecei a aprender a ler e escrever de verdade. P/1 – E nessa época você pensava em ser alguma coisa? Assim, você tinha o sonho de ter alguma profissão? R – Não, nessa época não. Nessa época eu só pensava em brincar e brincar, como eu falei pra você, era o dia inteiro na rua. E jogar bola na quadra. Jogar bola na quadra era essencial, ficava o dia inteiro na quadra, jogando bola. P/1 – E me conta um pouco: quando você começou a jogar bola e como foi se profissionalizando? R – Ah, eu comecei na infância mesmo, tipo, fiquei gordinho, eu era gordinho com sete, oito anos, que eu ia pra escola. Aí eu comecei a jogar bola e gostei de jogar bola, falei: “Ah, vou jogar bola, eu vou treinar”. Aí comecei a ir pro treino. Eu era ruinzinho e aí comecei a ir pro treino, treinando, treinando, aí eu gostei demais. Aí fazia gol, quando fiz meu primeiro gol, lembro até hoje, falei: “Nossa Senhora, fiz um gol! Agora vou fazer um monte de gol, toda hora vou fazer gol”. Aí eu comecei a treinar. Ali tinha um campo, perto do Shopping Center Norte tem um campo e nós ficávamos jogando bola no campo também, aí eu comecei a treinar campo, treinar campo, treinar campo, cinco minutinhos da Zaki Narchi. Aí comecei a ficar bom de bola. Fiquei bom de bola e comecei a jogar. Aí joguei bola, treinando, treinando, quando eu comecei a dar rolinho, dar chapéuzinho, aí falei: “Tô bom, agora vou treinar mais”. Aí, treinando, eu conseguia jogar bola e isso me alegra, só de lembrar. (risos) P/1 – E quem ensinava vocês? Alguém? Tinha algum professor? R – Tem, tinha professor, sim! Professor Vagninho, professor Lincoln e por falar em professor Lincoln eu o vi até antes de ontem, se não me engano. Passei até meu número pra ele, pra ele entrar em contato, porque ele é professor até hoje e eu tô virando professor. Aí ele até anotou meu contato, tô só esperando ele entrar em contato. O Lincoln, Vagninho, Dantas, Alves, lembro de todos os professores. P/1 – E como foi o processo? Que time você jogou primeiro? R – Como assim? Time, mais novo, que eu joguei nos times? P/1 – É. R – Comecei a jogar... que minha mãe acabou saindo da Zaki Narchi um tempinho, eu tinha uns quatorze anos, dezesseis anos, mas aí ficou pouco tempo, uns oito meses fora, que depois ela voltou. Aí conheci um cara chamado… lembrar o nome dele agora. Eu o chamava de Magrelo, na verdade: “E aí, Magrelo?”, que era o apelido dele. Quero lembrar o nome dele agora, como pode esquecer? (risos) Mas aí eu conheci essa pessoa e ele começou a me dar treino, ele viu que eu era bom. Quando eu morava na Zaki Narchi treinei muito, treinava de verdade, até faltava na escola, já com treze, quatorze anos, eu faltava na escola, pra ir treinar. Nem na escola queria ir mais. Reprovei algumas vezes por desistência, que eu não fui. Aí conheci esse cara aí, que tem o Riachuelo, fica no Jardim Brasil o campo. Comecei a treinar no Jardim Brasil, eu morava na Vila Nilo, eles chamam de Parmalat ali na Fernão Dias, comecei a treinar com ele lá e ele falou: “Nossa, você joga bem demais, vou te levar lá para um teste”. Não, minha mãe me arrumou um teste, na verdade, falou: “Tem um teste pra você”. Aí eu fui lá no São Paulo, fiz um teste, aí eu passei, joguei um pouco de bola lá no São Paulo, só fiquei três meses. Esse empresário era novo, eu era muito novo, treze anos, quatorze anos, era muito novo ainda. Só tinha minha mãe, não tinha meu pai. Então, era só eu, por eu, eu e ele e ele começou a me levar. Aí me levou no teste do São Paulo e eu passei. Saí do São Paulo, ele falou: “Não, vamos fazer um teste na Inter”. Aí fiz um teste na Inter, Internacional. Fiz o teste no Internacional e passei, só que ele: “Ah, não, aqui no Inter, não sei o que… as condições financeiras...”. Eu não estava nem ligando, eu só gostava de jogar bola, não estava nem aí pra dinheiro, nem nada. Ele comprou uma chuteira pra mim, comprava um negocinho pra mim, viajando. Aí eu fui pra Cabo Friense, lá no Rio, porque ele é do Rio de Janeiro, a família dele é de lá, ele me levou lá pro Rio. Fiz o teste no Cabo Friense e passei. Aí, ele falou: “Você passou no teste, você vai ficar aí”. Ele alugou uma casa lá pra mim, eu fiquei com alguns jogadores, tinham alguns jogadores que eram dele também. Morei com esse meu amigo lá, que conheço até hoje, joga bola até hoje, ele. Aí eu fiquei no Cabo Friense uns nove meses, quase um ano, se não me engano, no Cabo Friense, jogando. Já estava com dezesseis anos, quinze pra dezesseis anos. Fiquei quase um ano lá e ele ficava me bancando, mas esse cara era meio da vida errada, aí ele acabou indo preso e eu sozinho lá, acabei dificultando as coisas. Ele que mandava dinheiro, que pagava os negócios lá, que mandava uma chuteira, não mandava mais nada, eu fiquei lá uns dois meses ainda e falei: “Não, vou voltar, não quero ficar aqui, não”. Aí foi aí que eu voltei pra São Paulo. P/1 – E você ficava em alojamento ou em casa, lá? R – Em casa, de frente pra praia do Forte, lá em Cabo Frio. Ficava nessa casa lá. P/1 – E como foram essas viagens, pra você? R – Ah, marcou minha vida, gostei, já viajei bastante, nossa, conheci... até hoje mesmo, quando eu tô trabalhando, tô caminhando devargazinho, sou novo ainda, tô caminhando devagarzinho pra conquistar, eu quero viajar ainda, ainda quero ir lá na Espanha ainda, porque minha prima está morando lá e falou: “Vem pra cá, que você vai gostar”. Mas foi maravilhoso, só conhecer algumas cidades, foi gratificante. Poder jogar com alguns jogadores também, que hoje são jogadores. P/1 – Você lembra de alguns? R – Lembro, lembro do Everton Kaká, que está jogando acho que no Olympique de Portugal, o sonho dele. Tem o Matheus Peixoto também, que estava jogando no Cuiabá, só que agora ele foi pros Emirados Árabes, se eu não me engano, também. Lembro desses dois, que eu mais lembro, que tenho até hoje nas redes sociais. P/2 – São da época que você estava jogando? R – É, da época que eu estava jogando. P/1 – E nessa época você saía, você saía sozinho, saía com amigos, ou era mais caseiro? R – Lá eu era caseiro, quando eu comecei a viajar, eu comecei a ficar caseiro, aí que eu aprendi bastante. Ficar caseiro, ficar quietinho, porque eu estava ali sozinho, minha família longe de mim, eu ficava meio... e ele também regrava: “Você tem que ficar aqui”. Tinha os baladeiros que me chamavam, já fui uma vez pra balada com os meninos, mas ficava mais em casa. P/1 – E você tinha algum namoro? Como você se divertia, nessa época? R – Tinha uma namoradinha que eu conheci na Parmalat, quando eu conheci esse empresário aí, aí eu comecei a viajar, eu ficava só conversando com ela no celular. Tinha uma namoradinha. (risos)  P/1 – E como foi voltar pra casa? R – Voltar? Foi meio que uma desistência, como eu falei: o empresário era meio da vida errada, acabou sendo preso. Quando eu fui embora, eu falei com o técnico do time que eu ia embora, ele ficou doido, não queria me deixar ir embora, falou: “Você não vai embora!” Falei: “Não, vou embora porque tô viajando muito, tô nessa caminhada já faz uns dois aninhos”. Comecei com doze, treze, quatorze anos. Dois anos, três anos, por aí, novo, sozinho, só minha mãe, minha mãe não entende nada de futebol, deixava eu ir porque era melhor do que eu ficar na rua, porque ela não tinha tempo pra nós, porque ela trabalhava e preferia que eu ficasse viajando e jogando bola, fazendo o que eu gosto, ela falou: “Você gosta? Então vou deixar você ir, mas toma cuidado! Liga, fala comigo, tô com você”. Mas atenção mesmo de ligar, não ligava. Só falava na hora de viajar, mas não falava muito, falava mais com meu irmão, de vez em quando, com a minha namoradinha, que eu tinha. Com ela era o dia inteiro, porque ela me ligava toda hora, deixava o celular ali, ela estava ligando. (risos) Estava até almoçando: “Estou tomando café” “Tá bom”. (risos) P/1 – E como era tão novo você ficar sozinho, o que você sentia, nessa época? R – Ah, você sente muita coisa, sente falta. Por isso que eu sou pai hoje e meu filho tem toda atenção minha, do mundo. Porque eu já fui criado sem pai, então tenho medo de deixar meu filho sem pai. E ele treina na escolinha, joga bola, joga muito, mesmo. Falei: “Nossa, até meu futuro, pode ser. Vai que... não deu certo numa coisa, dá certo na outra”. Eu sou professor hoje dele, dou aula pra ele de futebol e pra mim é maravilhoso. P/1 – E quais são suas lembranças mais marcantes, da adolescência? R – Mais marcantes da adolescência? Vamos ver agora… é que tem muita coisa, né? Da adolescência são as brincadeiras que eram marcantes, ficava o dia inteiro brincando, brincava de polícia e ladrão, de chutar garrafa, que tem que pegar e tem que bater. Bola. Então, foram muito marcantes as brincadeiras com os meus amigos, que era o dia inteiro dando risada, às vezes saía bravo, brigando, mas no outro dia estava brincando de novo, estava dando risada. Pedia desculpa, às vezes, nem pedia, falava: “Não, você me bateu primeiro, não sei o quê”. Isso marcou muito e me ensinou muito. P/2 – Agora, nessa época que você estava na concentração aí, que estava sozinho e tinha um amigo que foi pro caminho mais errado, você estava adolescente, né? Estava entre quatorze e dezessete anos. Teve alguma experiência nesse tempo distante, que ficou marcante? Você falou que era mais caseiro, tinha namorada… R – Não, era quando eu viajava. Quando eu vinha pra cá, eu viajava e vinha pra casa também, voltava… P/2 – De final de semana? R – Quando era muito longe não, mas quando eu viajava, ficava três meses, voltava, ficava seis meses aqui, ficava três meses, aí depois viajava de novo e treinava. Mas aí eu tinha meus amigos, a gente estava na fase de querer beber também. Treze, quatorze anos é a fase que você quer beber. Ficava mais caseiro quando eu ficava lá, quando eu viajava, era mais caseiro, mas quando vinha pra cá, foi aí que eu comecei a fumar meu primeiro beck, comecei a beber meu primeiro vinho, foi aí nesse caminho, dos quatorze aos dezessete foi que eu aprendi a ficar alterado com álcool. (risos) P/2 – E a namoradinha, como é que você conheceu? Na concentração ou aqui no bairro? R – Então, essa eu conheci, eu não era muito de namorar, não era muito apegado e tal, mas a namoradinha eu conheci quando minha mãe deu um tempinho daqui do Zaki Narchi, acabou mudando pra Vila Nilo, ficou uns oito meses lá também, aí eu a conheci lá. Ela gostou de mim, gostei dela, aí ela era virgem e eu já não era mais. (risos) Foi aí que nós começamos relacionar, acabei gostando dela, teve umas brigas, mas eu era muito novo também, tinha quinze anos, eu acho. P/1 – E quando você voltou... você parou de jogar profissionalmente ou não? R – Quando eu voltei do Rio eu estava com dezessete, essa namoradinha eu tinha terminado com ela, ela veio até umas vezes atrás de mim e tal, fiquei com ela, mas depois conheci outra namorada, que é a mãe do meu filho. Aí a conheci, que eu estava vindo do Rio como jogador também. Aí conheci, ela já tinha uma filha também. Ela gostou de mim, fiquei com ela, ela ficou comigo de novo, começamos a namorar e ela engravidou. Eu tinha dezessete anos e ela engravidou. Aí fui jogar num time em Marília, no time Al Shabab, time da Arábia. Aí fiz um teste com eles e eles gostaram, falaram: “Nossa, gostei, vem aqui, tem um amigo seu, que joga igual você?” Falei: “Tem, sim!” Aí levei o Peo. Levei ele e nós jogamos bola lá com o time dos árabes, fomos pra Marília, fomos campeões em Marília, ainda. Verdade, lembrando. (risos) Fomos campeões em Marília, eu e o Peo, voltamos e foi aí que minha mulher estava grávida. Com dezessete anos, ela engravidou, falei: “Nossa, está grávida”. Fui pra lá ainda, mas ela falou que estava grávida, falei: “Eu vou, mas vou voltar, vou ficar pouco tempo”, fiquei três semanas lá, fomos campões lá, aí voltei e nessa que voltei teve oportunidade pra eu ir pra Arábia ainda, só que minha mulher estava grávida e como ela tem uma filha, ela tocou muito nisso, foi aí que eu desisti de jogar bola. Ela tocou muito nesse assunto, que ela já teve o pai da filha dele ausente, ausente mesmo, sumiu, na verdade. E não teve pai, ela. Aí ela falou: “Aí você vai pra Arábia...” - eles queriam me levar, mas era só eu por enquanto: “Aí você vai me deixar, você vai pra Arábia, como eu vou ficar aqui, com um filho seu?” E ela também não tinha condições de criar, estava criando uma filha já, passando o maior sufoco. Aí ela engravidou e eu falei: “Meu Deus do céu!” Aí acabei desistindo, aí que eu desisti de jogar bola, mesmo. Eu falei: “Ah, não vou trabalhar”. Foi aí que, com dezessete anos para dezoito, entrei no Outback, comecei a trabalhar nesse ramo. P/1 – E como foi desistir de jogar? R – Ah, foi doído! Vou falar pra você que doeu, doeu, doeu, doeu. Eu jogo bola até hoje, minha ex-esposa é brava comigo, por conta disso. Porque eu tenho tempo, vou jogar bola. Fico três horas, quatro horas jogando bola, ela fica doida. Saio do serviço, vou jogar bola. Eu saio tarde, trabalho à noite. Saio do serviço e vou jogar bola. Se tiver, eu tô em todas. P/1 – E como foi, com 17 anos, descobrir que ia ser pai? R – Nossa, pra mim, abri um sorriso, quando ela falou, abri um sorriso, não pensei na preocupação, mas pensei muito em eu ser pai. Falei: “Caramba!” Não estava acreditando, na verdade, até hoje fico meio bobo que eu sou pai, mas graças a Deus, pra mim marcou, fiquei em choque, na verdade, meio pensativo, ali parei pra pensar na minha vida. P/1 – E o que a paternidade representa, na sua vida? R – Representa tudo. E meu filho eu falei: “Vai ser menino ainda”. Pensei. E Deus me deu menino e a paternidade, pra mim, é tudo. Eu não fui criado com meu pai, então, a paternidade, pra mim, senti muita falta disso e pretendo que ele não sinta, dessa parte da paternidade. P/1 – E como é o nome dele? R – Lucas Richard de Lima Soares. Eu que escrevi ainda o nome dele. Lima da mãe dele e o Soares. E o Richard que eu puxei, que não teve jeito. (risos) P/1 – E por que você escolheu esse nome, teve alguma coisa? Sua mãe escolheu seu nome por causa de um cantor e você, teve algum motivo especial? R – É que eu sempre gostei de Lucas, eu até falei: “Se meu nome fosse, se eu pudesse escolher, na verdade, ia ser Lucas”. Aí falei Lucas, parte da Bíblia. Não sou muito religioso, mas já fui na igreja alguma vez, pra agradecer só por estar vivo, pelo momento que me deram, de ser pai e poder ter a mente que eu tenho hoje, porque é difícil, na comunidade, ter uma mente regrada, ter um esforço, porque eu trabalho, faço parte da associação, dou aula na escolinha, então minha vida mudou totalmente de um tempo pra cá, depois de ter sido pai. P/1 – E como foi o primeiro trabalho no Outback? Foi no Outback, né? R – Foi meu primeiro trabalho, já fiz uns bicos no lava-rápido, fiz uns bicos em fábrica de cintos, só pra quando eu não estava jogando bola, tem uns bicos pra fazer: “Vamos lá, vamos trabalhar”. Trabalhei já no Correio, fazendo bico, isso aí, quando eu não estava jogando bola, estava fazendo bico. Então, não estava fazendo alguma coisa errada. (risos) P/1 – E como foi lá no Outback, como você conseguiu? R – Voltando. Voltei. No Outback, lá eu aprendi a viver muito, a ser menos preconceituoso, que na comunidade nós temos pessoas que são muito preconceituosas, com pessoas, às vezes, gays, às vezes uma pessoa lésbica, tem um preconceito maior. E aí ali eu aprendi que você não pode ter preconceito com a pessoa, a pessoa é o que ela é, é por dentro dela que você tem que conhecer, não por fora. Por fora dele não diz nada, se ela for uma pessoa boa por dentro. Isso eu aprendi muito lá, esse foi o primeiro emprego que me destaquei, onde tem agilidade, onde você pode ver a necessidade do que você precisa ali. Você não precisa ir só no caminho errado, no caminho certo também você consegue. Graças a Deus, fiquei lá um tempinho, virei garçom, porque eu comecei como ajudante. Auxiliar, virei garçom, aí quando virei garçom, aprendi que se você não tiver esforço, você não vai conseguir nada. Comecei a ganhar bem, comecei a pagar minhas contas, montei uma casinha pra mãe do meu filho, montei uma casinha pra nós, comprei um carro e fui me estruturando. Meu filho pedia: “Pai, quero comprar isso”, eu comprava. Comprei chuteira. Às vezes, nem pedia, porque eu já comprava na hora, já deixava ele à vontade. Porque minha mãe tentou dar tudo do bem e do melhor pra nós, então pro meu filho eu também tento dar do bom e do melhor. P/2 – Você falou que aprendeu muito sobre preconceito lá no Outback. Você sofreu algum tipo de preconceito lá? R – Já, uma vez, já sofri uma vez. Porque, por eu morar na comunidade, às vezes, a gente se veste do nosso jeito. Aí veio uma gerente e falou pra mim: “Nossa, olha como você se veste, olha como você está!” Aquilo me marcou muito. A sorte dela é que ela não falou da minha cor, senão ela ia arrumar confusão. Mas no sentido que ela falou, ela: “Nossa, como você se veste, não sei o que, como você está! Não, isso aí eu não gosto não, não aceito, não”. Eu falei pra ela: “Mas eu tô normal, eu sou eu, não tenho como mudar eu”. Ela: “Não, não sei o quê”. Eu falei: “Tá bom, não posso fazer nada”. Aí saí andando, nem dei mais atenção pra ela, mas aquilo ali me marcou, fiquei pensativo um tempo, ainda. P/2 – Vocês usavam um tipo de roupa padrão? R – Tinha roupa padrão, tinha a roupa que nós chegávamos e tinha a roupa padrão. P/2 – Ah, ela estava falando da roupa que você chegou? R – É, da roupa que eu cheguei. Isso daí foi um preconceito que eu não gostei, eu falei: “É bom eu nem discutir, pra isso não me estressar com ela e acabar fazendo besteira”. Aí virei as costas e saí andando, falei: “O que tem? Me visto do jeito que eu quero!”, falei pra ela e saí andando, não discuti com ela. P/1 – E como era sua rotina, nessa época? R – Minha rotina era... mas aí, como eu sou uma pessoa bem comunicativa, aprendi muito, a minha rotina era: trabalhava, jogava bola à tarde,  trabalhava à noite, porque eu entrava cinco horas da tarde e saía uma e meia, uma hora da manhã, aí entrava quatro horas da tarde. Final de semana mesmo era bola todo final de semana, quando tinha de dia de semana, eu também ia na quadra, em qualquer lugar. E trabalhava, vinha pra casa, chegava uma hora da manhã e via meu filho e à tarde a mãe dele o levava pra escola ou pra o Emei, ou pra creche e eu trabalhava e jogava bola à tarde. Minha rotina era essa, do dia a dia. Vivi muito tempo assim. P/1 – E, ah, eu ia te perguntar: quando você, assim, durante a sua adolescência, desde que você era pequeno, você sempre morou no mesmo barraco ou foi mudando? R – Na adolescência? P/1 – É. R – Não, no mesmo barraco. Acho que morei um tempo, fiquei uns anos morando naquele barraco que falei pra você, da escadinha ali, fiquei uns anos lá, muito tempo. P/1- E quando você mudou de lá? R – Quando eu mudei de lá... minha mãe. Ela estava um tempo nessa vida aí e começou a ganhar dinheiro, começou a trazer as meninas pra trabalhar pra ela e tal e ela comprou um apartamento. Lembro até que mudou pro bloco sete e nós começamos a morar no apartamento, foi aí que eu mudei de lá, eu lembro. Aí de lá eu vi até o Carandiru sendo destruído ainda, do meu barraco. Porque eu morava no barraco e o Carandiru era de frente pra nós, assim, o presídio. Então eu vi lá de cima, na parte de cima, vendo lá sendo demolido e todo mundo fechando a janela, porque saía um monte de poeira cobrindo os barracos, lembro até hoje. Aí, depois que destruiu lá, ela comprou um apartamento e nós nos mudamos. P/1 – Isso com quantos anos? R – Ah, não me lembro direito, mas acho que eu tinha uns quatorze anos. Não me lembro direito agora, você me pegou, mas eu era adolescente. P/1 – E daí foi quando você casou com a mãe do seu filho? R – Sim, quando minha mãe tinha um apartamento lá e minha mãe comprou um terreno aqui na Vila Guilherme, aí acabei casando com ela e morando lá. Como tinha um barraquinho, fui lá, tinha um barraquinho terminando no Peri Alto, aí ela vendeu o barraquinho dela, minha mãe tinha esse daí e falou: “Vamos fazer de bloco”. Aí minha mãe me deu um dinheiro pra eu montar, aí fui lá e consegui montar um de bloco para nós, uma casinha de dois andares. Aí lá eu vivi, depois que eu casei, depois dos dezoito anos, meu filho nasceu já, tinha nascido... ou ela estava grávida? Eu acho que eu tinha acabado de voltar, é verdade, de Marília, que eu joguei lá com o Al Shabab e tinha acabado de voltar e ela estava grávida já e falei: “Vamos construir um negocinho aqui, vende seu barraco”. Aí ela vendeu e minha mãe deu mais três somas de bloco lá e é do ladinho ali, é dez minutos andando também. E eu ficava mais lá, minha convivência era toda na Zaki Narchi. Em casa eu nem ficava, só ia pra dormir. Porque minha irmã mora lá, a irmã dela mora lá, tem apartamento lá, minha irmã tem apartamento, meu irmão mora lá também, mora de aluguel na casa, lá. Eu só ficava lá na casa deles e só ia embora, na hora de ir embora que nós íamos pra casa, comprei um carrinho e nós íamos embora”. P/1 – E você lembra do seu primeiro dia de trabalho, como foi, lá no Outback? R – No Outback? Deixa eu ver, eu fiz a entrevista… P/1 – Eu estava perguntando se você lembrava do seu primeiro dia de trabalho. R – Ah, no meu primeiro dia de trabalho eu cheguei, falei com todo mundo, já tinha feito uma entrevista lá, pessoal olhou e contratou. Viu eu e contratou. Eu tinha dezoito anos e cheguei, cumprimentei todo mundo, conheci o Enable, que trabalha na mesma função que eu, tenho o número dele até hoje, é um amigo meu. O conheci, ele estava de Buzz, como se fosse cumim, ele falou: “Só trabalho de Buzz aqui e tal”. Aí comecei a trabalhar, eu era rápido, sempre fui meio fortinho assim, mais ou menos, naquela época treinava muito, jogava bola, então tinha resistência. Aí comecei a trabalhar de restaurante, lá era pegado, trabalhava muito e comecei a pegar lá, comecei a trabalhar: “Faz isso aqui”. Comecei a fazer, aí falaram: “Nossa, você trabalha bem e tal, já está contratado.” Falei: “Já trouxe o documento”. Ele falou: “Beleza, então, só começar”. Aí eu fui e conheci o Enable, conheci o Tiago, depois o Tiago saiu com pouco tempo que eu entrei, que estava na mesma função que eu, o Zé Roberto. Aí comecei a trabalhar lá e comecei a estocar copo, fazia talher, polia, fazia talher e embrulhava, embalava e tal, punha no álcool, tal, direitinho, aí eu falei: “Aqui é fácil”. Aí comecei a trabalhar e me destaquei lá, me destaquei com o tempo e virei garçom. P/1 – E como que foi, como seguiu os seus trabalhos? R – Não entendi, desculpa. P/1 – Depois que você trabalhou no Outback, como foram os outros trabalhos? R – No Outback eu fiquei três anos e meio e saí, aí a menina que trabalhava no Outback começou a trabalhar na loja do lado, no Shopping Center Norte, que tinha o Outback no Shopping Center Norte e do lado abriu o Olive Garden, restaurante italiano, aí já tinha experiência, fui pra lá e virei garçom lá. Já fui pra lá como garçom também, que já era garçom e fui pra lá como garçom e comecei a trabalhar com ela, mas lá fiquei oito meses só, que estava tendo uns desacertos na vida com minha esposa e tal, acabei saindo e não querendo trabalhar lá mais. Aí saí de lá e trabalhei na prefeitura, vim pra São Paulo e todo mundo: “Ah, trabalha na prefeitura”. Porque eu só trabalhava à noite e estava cansado de trabalhar à noite. E o cara: “Ah, entra na prefeitura ali, está pegando”. Aí eu falei: “Vou lá, fazer uma entrevista lá”. Eu fui lá e entreguei um currículo e eles foram, me chamaram: “Não quer trabalhar como operador de roçadeira?” Acabei trabalhando na prefeitura dois anos, trabalhando no caminhão Cata Bagulho, trabalhava mais nele. Era operador de roçadeira, mas colocaram em outra função. Aí, fiquei um tempo, trabalhei dois anos lá e de lá trabalhei de Uber também, um pouco, tirei habilitação, trabalhando lá falei: “Vou tirar habilitação”. Tirei habilitação, trabalhei de Uber um tempo também, mas pouco tempo de Uber, aí veio a pandemia e ficou mais complicado. Aí depois saí do Uber e quebrei a perna, fiquei um tempo com a perna quebrada e foi uma dificuldade, foi ali eu comecei a separar da mãe do meu filho, começamos a brigar, a discutir, aí eu separei. P/2 – Já na pandemia? R – Na pandemia, estava em casa com a perna quebrada, muito tempo sem trabalhar, foi na pandemia, passei uma grande dificuldade. P/1 – E como você quebrou a perna? R – Como eu quebrei? Jogando bola. (risos) Rompi o tendão aqui, fui jogar no campo, lá, o cara me deu um chute no tendão e rompeu. Aí tive que fazer uma cirurgia no tendão, aí fiquei um tempo sem andar. P/1 – Mas voltou a jogar bola, já? R – Sim, hoje eu jogo bola, hoje eu vou pro campo, hoje eu estava jogando, sábado mesmo agora eu joguei os dois tempos. Falei: “Nossa, tanto tempo!”, porque tô trabalhando no serviço novo, agora, no Coco Bambu, aí vou voltar a jogar bola, faz tempo sem jogar campo, trabalhando bastante, está voltando tudo ao normal, aí está tendo bastante serviço, tô trabalhando de dia e de noite, aí fui jogar bola no campo, consegui jogar os dois tempos ainda e fiz gol, falei: “Tá bom, tô novo ainda”. (risos)  P/1 – E a separação da sua mulher, foi difícil? R – Foi, foi, hoje ainda é. Como ela está na casa, eu que saí da casa e deixei pra ela a casa do meu filho, falei: “Não, tenho um filho com você, você fica com a casa aí”. Eu estava na casa da minha irmã há um tempo e agora eu tô pagando aluguel. Mas a separação foi difícil, porque tem um filho, né? E ela tem uma filha também, que tem quinze anos, quinze anos ela tem. E eu a criei desde pequena, porque meu filho tem oito e ela tem quinze anos. A criei desde pequenininha, então, sou muito apegado a eles. P/1 – E a Luiza me contou que você começou a dar aula na associação e como que foi, quando que foi? R – Quando que foi? Na verdade, quando eu quebrei a perna, aí o Ed, que é o presidente da associação, sempre me chamou: “Vem aqui dar aula pra nós, vem dar aula pros meninos”. Porque eu já fui lá uma vez, tem um amigo meu, falei: “Vamos fazer um trabalho com eles aqui”. Eu ia lá fazer um trabalho com eles, com cone, bola, mas sem dar aula, só pra ir lá fazer, mesmo, só que com os maiores, não os menores, porque os maiores estavam disputando a Taça das Favelas. Aí falamos: “Vamos dar um treino pra eles” “Vamos”. Aí pegamos um físico lá e demos um físico pra eles legal, aí o Ed sempre me chamava: “Vamos lá, vai lá”. E eu falava: “Vou sim, eu vou!” E acabava não indo. Trabalhando e tal e ia jogar bola, que requer seu tempo, um pouco, pra você ir lá, dar atenção pras crianças e eu já gostava de jogar bola, jogava muita bola. Quebrei a perna, aí eu já tinha conversado com ele, falando que ia voltar, que vou dar aula pras crianças e ele: “Vem, mesmo. Quero ver e tal” Aí foi que eu estava voltando devagarzinho e comecei a dar aula pras crianças, de futebol.  P/1 – E é pras crianças ou pros maiores? R – Não, hoje eu pego os da idade do meu filho. Que tem oito anos, que tem a categoria de sete até doze, aí tem o professor que dá aula de sete até doze, eu sou o professor que dá aula de sete até doze. Aí tem um de treze a dezesseis, que já é com os outros professores e tem o das meninas também, que já tem as meninas que dão aula lá. Que é a esposa do Aquiles, que me trouxe aqui e a outra menina lá, que dá aula.  P/1 – E eu ia te perguntar como é que funciona. Como é um dia de treino? R – É que nós pegamos nos pés das crianças, porque é difícil, é muita criança e eles não têm aquela... como vou dizer? Educação. Falo educação, porque eles são muito mal-educados, mandam você tomar naquele lugar. Um aluno falou pra mim: “Vai tomar no seu...”. E eu tenho aquela paciência de falar, eu falei com ele. Falei sério, que ia falar com a mãe dele, que ele não vai treinar mais. E nós temos que ser firmes com eles, tem que ser autoritário, porque eles são difíceis, eles brigam, é um batendo no outro. Eu sei, dou risada, porque já vivi aquilo quando eu era pequeno, então já sei como é, então pra mim é mais fácil lidar com aquilo. E eles ficam brigando e um fala: “Seu fofoqueiro, vou te pegar”. Eles ficam assim toda hora. Às vezes, até se pegam: “Está suspenso três dias, três treinos vocês não vão vir”. E eles ficam doidos, sem treino eles ficam… aí esse menino que me mandou tomar naquele lugar, que “esse treino é velho”. Eu falei: “Aqui você não vai treinar mais, comigo você não treina”. Depois, no próximo treino ele veio com a cabeça baixa, aí ele disse: “Simon”. Eu falei: “O quê?” “Desculpa!” (risos) Aquilo já parte o coração, mas tive que ser duro com ele, falei: “Desculpa? Você viu o que você falou? Isso não pode falar, como você fala isso pro professor, que te dá aula todo dia, aqui?” Aí ele: “Não, eu estava com a cabeça quente”. Não, eles são… falei: “Você estava com a cabeça quente do quê? Qual seu problema? Fala pra mim. Não tem problema nenhum. Só vai treinar se sua mãe vier”. Eu tive que colocar, né, porque o que ele falou comigo eu não posso deixá-lo tomar posse daquilo, se não vai virar rotina. Falei: “Só se sua mãe vier aqui conversar comigo, você vai treinar”. Aí ele teve que ir lá na mãe dele, chamar a mãe dele, pra mãe dele vir, ele com medo de chamar a mãe dele. Aí ele teve coragem e chamou. Quem chamou foi o amigo dele, que falou, ainda. Aí ele foi lá e chamou, a mãe dele veio conversar comigo, eu conversei com ela, aí ela pediu pra ele me pedir desculpa, aí ele veio: “Já pedi um monte de desculpa pra ele, vou pedir de novo desculpa?” (risos) Aí falei com ela, conversou e ela falou que, se ele fizer na próxima vez, como mãe, ele vai apanhar, vai não sei o quê. Aí o deixei treinar, porque é criança, já fui da idade dele também e eles são assim, são muito, muito brigões. E, na comunidade, falar palavrão é normal. Lá é normal. Falar palavrão pras crianças é normal, mas meu filho não fala, porque eu pego no pé. Eu não tive pai, mas meu filho, se eu vê-lo falando, desde pequeno não pode falar isso. Ele já é mais quietão, na dele, sobre isso. (risos) P/2 – Eu ia te perguntar: a vinda do seu filho foi um impacto, um momento marcante que fez você fazer até outros planos. Como você se sente agora, nesse papel de professor, que está dando educação, porque você está ali, está sendo um diferencial na vida das crianças. O que você sente? Como você se sente, mesmo nesses momentos desafiadores, da briguinha, da bagunça da molecada? R – Não, sempre quando eu tô dando o treino eu posto lá que é gratificante, porque, poder estar incentivando-os, às vezes, a um futuro melhor. Às vezes, falam: “Não, ele professor, nossa, como ele...” Porque não ganha nada, é voluntário, nós fazemos porque nós gostamos. E eu jogo bem, eles me vêm jogando, eu fico lá na quadra brincando e vou brincar com eles e eles querem ser igual a mim, falam: “Nossa, eu quero jogar assim”. E nós os incentivamos a jogar bola, ir pro outro caminho, eles veem que eu trabalho, não preciso estar na vida do crime, pra ser feliz. Pra poder estar ali, dando o treino pra eles, eu não preciso estar na vida errada, eu trabalhando, consigo minhas coisas. Nós sempre tentamos dar o melhor pra eles, quando vem doação de alguma coisa, nós damos para eles, eles ficam felizes. Os campeonatos eles ficam loucos pra jogar, pra aprender. A idade que eu pego, eles são novos ainda, mas pra mim é gratificante, é emocionante, é tudo de bom. Eu gosto do que eu faço. P/1 – E que dia você dá aula? R – Então, como eu entrei no serviço vai fazer uns quatro meses, antes eu estava dando todo dia. Todo dia que tinha treino eu estava lá, estava eu, estava o Ed, estava o Aquiles, estava dando treino. Mas estava meio que pandemia, nós estávamos regrando muito, dando um dia sim e um dia não, mas agora eu estou dando toda quarta-feira. Toda quarta-feira eu dou aula, aí quando eu pego duas folgas assim eu consigo já... mas estou pegando toda quarta-feira e tem mais quatro professores, tem eu, o Aquiles, o Ed e o Vagner, são seis professores, e as meninas. P/1 – E você já percebeu alguma transformação nas crianças, de ter aula? R – Sim, sim. Na minha aula eles já se respeitam mais, que eu já ganhei a confiança deles também. P/1 – Eu estava perguntando se você já percebeu alguma transformação das crianças. R – Sim, sim, já, já, eles respeitam. Se eu falo com eles, que eu sou duro também, eu falo alto, porque é difícil, é muita criança, acho que eu pego umas quarenta crianças ali, de sete a doze anos, é falando aqui, falando aqui, eu tenho que dar uns gritões: “Tô falando, meu, você não está escutando?” Porque eles estavam em rodinha e eu vou explicar pra eles que o futebol e tal, tem que tocar a bola, tem que fazer isso, que o jogo passado foi isso aí e aí está um conversando ali, aí tem outro conversando ali, aí outro aqui atrás está falando, aí o outro não está nem prestando atenção. Aí, eu falando e ele fala e eu começo: “Presta atenção”. Aquele professor, né? Mas hoje eles já se respeitam muito. P/1 – E, pra você, como é voltar a morar na Zaki Narchi? R – Voltar a morar? É, porque eu estava na Vila Guilherme e comecei a morar lá de novo. Nunca saí de lá, na verdade, nunca saí de lá, meus amigos, minha infância toda é lá. Aí eu vou pra algum lugar, eu conheço algumas pessoas, mas não é mais aquele afeto que eu tive na infância. E hoje eu conheço todo mundo da Zaki Narchi e todo mundo me conhece também, que mora lá desde pequeno, tem muito amigo meu que mora longe e hoje nós nos falamos também, às vezes, vêm pra Zaki Narchi, quando tem uma festa, alguma coisa. É isso aí.  P/1 – E como é morar lá, então? R – Como é morar lá? É minha infância, é bom, tô perto do meu filho, perto da minha irmã, tô perto do meu irmão, pra mim é muito bom, eu gosto de morar lá. P/1 – E comparando com quando você era pequeno, agora quais mudanças você enxerga lá?   R – As mudanças lá? P/1 – É, as principais, assim. Pode ser assim: cresceu… é que eu não posso influenciar nas respostas, né? P/2 – Mudou muita coisa assim, do espaço, ou das pessoas? R – Sim, mudou, porque antigamente tinha... hoje está voltando a favela. Sempre teve a favelinha ali e eles tiram e acaba montando de novo. Mudou que tinha o alojamento antigamente também, tinha um alojamento de frente pro Shopping Center Norte, aquilo ali mudou tudo. Mudou… pra mim não mudou mesmo, não. (risos) Mudou as pessoas, que mudam e crescem. P/2 – Quem construiu o campo? Porque tem a Casa Amarela... R – Certo! P/2 – Quando começou ali, quem construiu esse campinho que você fala que dá aula, faz parte da Casa Amarela ou é da comunidade? R – Tem dois, na verdade. Como tem duas quadras, tem uma quadra que é pra trás e tem a da frente, não pode restringir todo mundo. Então, nós temos uma quadra, que nós queremos fechar, só pra dar aulas, mas estamos correndo atrás pra reformar, porque eles vieram lá e fizeram de qualquer jeito e abriu um buraco no meio da Zaki Narchi, abriu um buracão, teve que cavar tudo, ficou feio, refazer aquela quadra ali, teve que refazer, mas fizeram do mesmo jeito, no mesmo cantinho, do mesmo jeito, refez, mas refez de qualquer jeito. P/1 – Mas quem fez? A prefeitura que fez lá?  R – A prefeitura. A prefeitura veio, fez a quadra, mas deixou de qualquer jeito lá. E aí nós estamos atrás pra reformar lá, porque nós estamos tentando correr atrás, pra deixar lá bonitinho e fechar a nossa, dos treinos. Tem duas, uma nós deixamos pra comunidade e a outra pros treinos. P/2 – Você lembra quando construiu isso? Porque, pelo que eu entendi, tinha a comunidade, depois fizeram o Cingapura, que são os prédios, já tinha essas quadras, ou não? R – Não, foi feito quando foram feitos os prédios. Quando era pequenininho, só barraco, era tudo barraco ali. Ali era tudo barraco, não tinha prédio, era tudo só favela, mesmo. P/2 – Então, quando fizeram os prédios, a prefeitura fez as quadras? R – É, aí fez as quadras junto. Quando fizeram os prédios, aí já fizeram as quadras no meio dos prédios, lá. P/1 – Você já era nascido? R – Já, já era nascido. Eu lembro que tinha um campinho ali ainda, hoje tem uma favelinha pequenininha, que é feita de bloco ali. Ali tinha um campinho ainda, hoje tem as duas quadras e tinha o campinho ainda. Eu lembro do campinho de areia. Ali tinha um campinho de areia ainda. Jogava bola lá. P/1 – Já tinha história com o futebol, né? R – Já, já, de lá acho que saiu o Ricardo Oliveira. Ricardo Oliveira é de lá, o jogador de futebol, é da comunidade. Eu lembro dele quando era pequeno. P/2 – E o que você percebeu da comunidade, da molecada, quando veio uma quadra construída, com as coisas mais arrumadinhas, com relação ao campinho? O pessoal gostou? R – Sim, é que você jogar num campinho de areia e jogar numa quadra é meio diferente o futebol, já muda um pouco. Mas o objetivo é fazer o gol, né? Mas você jogando ali, a tática já é diferente na quadra. Então, a quadra você tem que ser mais rápido pra jogar na quadra, aí mudou bastante. Tem o campinho e tem o campão, que é em frente ao Center Norte e o campão já é o campo normal. E ali tinha o campinho de areia e a quadra. Mudou muito, eu só vivia na quadra, o dia inteiro. P/2 – Para esse uso que você falou, que estava usando uma a mais para dar as aulas e outra mais pra comunidade. Mas antes disso, até, as pessoas se organizam de boa pra usar a quadra, ou tem um time que quer jogar e outra galera que quer jogar também? Como isso acontece, pra usar esses campinhos? R – Isso é hereditário, não é, isso daí. Quando era pequeno, os maiores mandavam. Não tem jeito, se chegarem os maiores, quem vai mandando vai de categoria. Tem os molequinhos pequenininhos, aí chegam os maiorzinhos, tem os molequinhos de sete, oito anos, jogando bola lá, aí chegam os de doze, quatorze pra jogar bola. Porque, normalmente, quando eles vão brincar, eles vão brincar só em um gol e os outros brincam só no outro gol. Às vezes, vão brincar num gol só, porque eles são pequenininhos e não conseguem usar a quadra toda. Aí, quando chegam os maiorzinhos pra jogar bola e pra montar o time, já era, aí eles saem. É hereditário. Toda comunidade é assim. Aí eles saem, pra jogarem os maiores. Aí quando estão os de quatorze, quinze anos, aí nós chegamos e, se nós chegarmos, eles têm que sair, que nós vamos jogar. Aí chega nosso time lá, eles já sabem que vamos jogar, então eles têm que parar. Então, eles ficam o dia inteiro na quadra e nós que somos mais velhos, queremos jogar bola, eles já estão o dia inteiro, vão ficar mais? A gente já pede pra eles saírem: “Por favor, saiam!” Nós somos professores, chegamos na hora: “Não, vai lá, vai lá, vai lá, vai jogar agora”. Eles respeitam, tem que respeitar. E aí eles ficam lá sentados assistindo, mas eles gostam de ficar assistindo nós jogarmos, porque lá tem muito moleque bom, onde eu moro. Tem muito moleque bom de bola, lá. Eles gostam de ficar assistindo. Por isso que sempre, no futebol sempre os incentivo a ir pro treino, porque nós jogamos bola e eles gostam de nos ver jogando. Nós damos rolinho, chapeuzinho, fazemos  gol, fazemos coisas que eles falam: “Nossa!” Aí eles gostam. P/1 – E o Ricardo Oliveira saiu de lá, então? R – Sim, Ricardo Oliveira veio de lá. Ricardo Oliveira é jogador. Jogador famoso, mas ele foi e virou da igreja aí, aconteceram algumas coisas com a vida dele também, que dizem respeito a ele e acho que ele meio que se afastou da comunidade, né? Foi morar em outro lugar, acho que foi morar até na China, Japão, estava na Arábia também. E hoje o Aquiles e o Ed têm muito contato dele. O Aquiles mais, fala mais com ele assim e tal, às vezes, ele vem, esses tempos atrás veio doação de cesta básica na pandemia e tal e aí nós tentamos sempre ele nos ajudar, a comunidade, mas é difícil ele ajudar. Não sei, ele tem os motivos dele. Então...  P/1 – E como é o dia a dia na Zaki Narchi? R – O dia a dia? Que nem, eu tô entrando às quatro horas agora, eu acordo, meu filho mora na Vila Guilherme e às vezes ele fica bastante tempo comigo também. Hoje é minha folga, vou até pegá-lo, quando sair daqui. E a gente fica lá, vou no salão de cabeleireiro, a gente conhece todo mundo, desce, cumprimenta, falo com um e falo com outro. Encosta num canto e começo a falar do que aconteceu no seu dia, às vezes, de futebol, às vezes, fala de um monte de coisa, não sei. Fica conversando o dia inteiro lá. (risos) O dia inteiro, passando hora, porque não tem nada pra fazer, quando não vai trabalhar. Ou puxar um futebol. Se puxa o futebol, os meninos vêm. P/1 – E como é a relação do entorno da comunidade com as pessoas que moram lá? R – Do entorno? Como assim? Tipo: a comunidade no meio, aí tem o shopping, tipo isso você quer dizer? P/1 – É. Como é? É uma relação pacífica, assim? R – Sim, creio eu, eles já tentaram tirar a comunidade várias vezes. Mas hoje em dia, a gente faz parte da associação, o Center Norte dá doações pra nós, ganhamos até doação de cama elástica, ganhamos uma academia deles. Está tendo uma relação hoje, hoje está tendo uma relação mais tranquila, mas antigamente era difícil. Antigamente eles queriam nos tirar e nós botávamos fogo na rua e fazíamos um monte de protesto. Fazia muito protesto.  P/2 – Mas eles que queria tirar, quem? Prefeitura ou os vizinhos? R – Então, eles falaram que tinha um gás tóxico ali debaixo e tal e tem até uns aparelhos, vão lá direto colocar uns aparelhos lá e tal, porque ali é lixão. Colocaram isso pra nos tirar, só que eles queriam nos tirar pra nos jogar lá pro interior, mas ninguém aceita sair do Centro ali, porque está no Centro ali, praticamente. Aí, ninguém aceitou e já teve várias confusões com eles, sobre isso. P/2 – Você lembra porque surgiu a associação, se era pra resolver essas coisas, ou por uma outra... R – Não, é que é assim: a associação que eu tô hoje faz, se eu não me engano, dois anos, que é que está o Ed, o Aquiles, eles sempre fizeram alguma coisa pela comunidade, sempre fizeram evento, o Ed e o Aquiles, porque eles sempre gostaram de poder ajudar, só que a associação ficava com outro cara, com outra pessoa. Acho que era da igreja e tal, só que essa associação aí não fazia nada pela comunidade, vivia fechada. Antigamente fazia só velório nela, alguém morria, ia lá, fazia velório, era fechada, não fazia nada. De vez em quando dava alguma coisa, mais no final do ano. Isso daí estava errado, todo mundo estava vendo que estava errado. Na verdade, estavam fazendo coisa errada ali dentro. Aí o Ed, com muitos anos ali falou: “Não, vou pegar a associação e tal, o que vocês acham, vou me candidatar à presidente”. Aí fizeram uma votação lá, porque o Ed falou: “Vou pegar a Casinha Amarela, não tem nada aí, vocês não estão fazendo nada aí, não tem nada, como assim está parada a associação aí? Não chega nada, não tô entendendo. Vamos fazer uma votação, pra ver em quem eles votarão”. Aí fizeram a votação lá, aí todo mundo votou no Ed, aí o Ed ganhou e hoje a associação é aberta pra todo mundo. Você pode ser voluntário, pode ir lá, chega doação e vai pra comunidade, distribui, nós distribuímos, nós vemos chegando, nós que doamos. Aí eles falam: “Precisa de voluntários, vem você, vem você”. Antigamente não tinha isso, antigamente eram os que estavam lá fechados e fecha a Casinha Amarela e está fechada. E hoje não, você pode ir lá, pode ajudar, até entrou um voluntário esses dias aí, muitos voluntários e isso é legal. Está sendo legal. P/2 – O campinho é um grande point de encontro da galera? R – Sim, lá você vai encontrar alguém. P/2 – Além de conhecido, tem algum outro lugar na comunidade que é esse ponto de encontro, que você vai achar alguém lá, uma referência? Algum bar, um barbeiro, algum ponto que é mais… R – ... que é mais movimentado, no caso. Que tem mais pessoas que você vai encontrar. Lá onde tem um bar e tal, aí você vai na quadra. A Luli é perto da quadra também, a Luli fica aqui e a quadra fica de frente com ela. A Luli, que é a cabeleireira, o salão de cabeleireiro ali, todo mundo: “Está na Luli”, já sabe onde é a Luli, salão de cabeleireiro. E a rua principal, que é a Rua Antônio dos Santos Neto. Essa Rua Antônio dos Santos Neto é onde fundou a Zaki. Ali é a Zaki Narchi, que é a avenida principal e dentro tem uma rua e dentro da Zaki Narchi, essa rua, você passando nela, você consegue ver os prédios todos. Então, essa rua tem vários trailers, barraquinhas, essa rua é mais movimentada, você pode passar ali, que vai ter alguém, vai ser movimentado ali, na parte de trás. P/1 – Depois na Dona Irene?  R – Sim, sim, ali mesmo. P/1 – Eu fui lá. R – Você foi lá? Que legal! (risos) P/1 – Eu ia perguntar pra você: qual impacto da Casa Amarela na vida das pessoas da Zaki Narchi? R – Hoje está mudando muito, porque que nem eu falei, antigamente não tinha nada de doações, assim e hoje as pessoas estão mudando o olhar pra Casinha Amarela. Porque antigamente não tinha essas doações que tem hoje. No começo que o Ed pegou, as pessoas estavam até criticando, falando: “Ah, que não sei o que, vocês estão roubando tudo”. Só que hoje em dia eles veem que nós estamos doando, que nós chegamos e nós vamos lá, levamos até na casa deles, nós passamos dando folhetinhos pra eles irem buscar e nunca teve isso. Isso aí que mudou, o impacto deles mudou muito sobre a Casinha Amarela. E vindo vários voluntários da comunidade, eu mesmo sou um, não faz nem tanto tempo assim, que eles falam: “Nossa!” Tem mais um menino e tem outra menina, tem pessoas que estão entrando no grupo nosso. Tem pessoas antigas, que antigamente eram mais das antigas. Hoje impactou bastante, hoje a pessoa fica mais… eles estão vendo que nós estamos fazendo pela comunidade. Fora que nós damos aula na escolinha, que tem vários professores que são da associação também, que nós damos aulas pras crianças, que eles veem lá, veem nós gritando, fazendo trabalho legal com eles e mandando foto no grupo pros pais e isso impactou muito e é muito legal também. P/2 – E assim que saiu, esse pessoal da igreja, né? R – Então, esse pessoal que saiu… P/2 – ... eles continuam lá, mas como é esse relacionamento? P/1 – Alguns não, alguns estão, alguns não. O cara presidente mesmo lá, eu nem o vejo mais lá na associação, ele é da igreja lá, acho que mora na Vila Ede, montou um mercado lá, se não foi com as coisas da associação, que o Ed fala, montou um mercadinho lá e eu o vejo pouco. Ele é da igreja e eu o vejo pouco. P/2 – Eles não tentaram voltar, tomar posse? R – Sim, sempre arruma um empecilho, mas eles estão vendo como nós estamos andando, não tem como eles nos tirarem de lá, porque quem está lá agora é a comunidade mesmo, a comunidade de verdade. P/1 – E para além das doações, lá tem projetos incentivados? R – Tem, tem. Sempre o Ed ou a Elis, a Fernanda, o Aquiles, buscam um projeto. Tem professor de muay-thai, de tênis, de balé, eles sempre tentam buscar um professor diferente e na comunidade às vezes até tem. Tem um professor na comunidade que ele é de tênis, ele é da comunidade também, desde pequeno. Então, balé, eles sempre tentam achar uma pessoa de fora e tal, porque não tem professor de balé lá ainda, ainda vai formar um lá. Aí é balé que eles tentam puxar pra comunidade e como nós estávamos na fase de pandemia, estava meio que… mas agora está começando a voltar de novo, já. P/2 – Teve um projeto lá de bicicletas. Deu certo, né? Ou não? R – Sim, teve. Deu, deu certo, os meninos até ganharam umas bicicletas. E vem vários projetos. Vai chegando e nós vamos encaixando lá na associação. P/1 – E, ao longo desses anos, quais foram os momentos mais marcantes seus, aqui na Zaki Narchi e também os momentos mais marcantes da Zaki Narchi, que você acha? R – Que eu acho? Mais marcantes?  P/1 – Que você vivenciou. R – Ah, foi quando eles tentaram nos tirar, tentaram nos despejar, querer tirar, isso me marcou muito. Porque eu ficava na rua, aí um monte de pessoa na rua, aí vinha o Choque, tinha que tacar pedra, lembro disso daí. (risos) Isso daí me marcou muito, eles querendo nos tirar, sendo que a comunidade se uniu ali de uma forma que não vai tirar, não vão tirar, não. P/2 – Mandaram tropa de choque? R – É, a tropa de choque veio. Tacaram fogo na rua, fecharam tudo, falamos: “Não, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Isso me marcou muito, você vê que a comunidade pode ser unida, basta eles quererem. P/2 – Na época, você tinha quantos anos, quando eles tentaram fazer… R – Várias vezes, não vou lembrar minha idade, não, mas adolescente, já, eu estava no meio da rua atacando pedra também, correndo, dando risada. Não tinha o que fazer, né? “Vamos correr”. Corre pra lá, corre pra cá. Ficava olhando, mas não lembro a minha idade, não. Não sei se tinha quinze anos, estava jogando bola, tinha mais ou menos essa idade. P/2 – Como é, assim? Eu nunca vivi uma situação assim _______ . Sei lá, a prefeitura, o Estado manda a tropa de choque e você falou que foi marcante da comunidade se unir. E o dia seguinte, como é que é? R – O dia seguinte? P/2 – É, a comunidade se reúne para ver ou comemorar que conseguiu vencer uma batalha? R – Ah, no outro dia vai ser normal, pra você, porque muitos você vai ver na rua, vai dar risada do que aconteceu, você vai falar do que aconteceu e vai falar: “Conseguimos, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Fica o comentário só, não que se reúne todo mundo. Ficam só os comentários. Você vai num lugar e comenta com um; vai no outro e comenta com outro: “Nossa, aconteceu”. Como aconteceu uma vez, o menino tomou uma bala de borracha, tem muito isso daí, tomou no olho uma vez aqui, ficou inchado, o Takara, o apelido dele era. Era, porque ele morreu, morreu nessa vida errada. E tomou até um tiro no olho, ficou inchado. E nós tínhamos que ir pra guerra, não vai nos tirar daqui, não. E no outro dia fica comentando, fica o comentário na comunidade. P/1 – E quais os principais problemas que você vê na comunidade, que você gostaria de melhorar? R – Ah, tem muitos. Educação, a pessoa saber comunicação, como se portar, eles não sabem. É muito difícil. Os meninos mesmo vão pra escola, os pequenininhos, por ir. Porque na escola, eles não vão aprender nada. Na comunidade, ali nós tentamos ensiná-los, mas, às vezes, é dentro de casa também, às vezes, são muitas pessoas com situação difícil em casa. A mãe tem que trabalhar também, não tem um pai. Na comunidade tem uma favelinha, lá mesmo você vê um monte de criança jogada, ficam três dias sem tomar banho, suja, suja, suja, você fala: “Meu Deus do céu!” Isso aí tem muito. Falar pra você, é difícil. P/2 – As escolas são distantes da comunidade, pras crianças irem, dá pra irem sozinhas ou não? R – Então, é mais ou menos uns dez minutos. Da Zaki Narchi pra escola são uns dez minutos, mas você vai passar pela Cruzeiro do Sul, pela avenida movimentada, às vezes, crianças pequenas estão indo sozinhas. Eu mesmo ia sozinho quando era pequeno, eu e meu irmão, era pequenininho. Minha mãe não tinha quem levar. Muitas vezes a mãe leva, quando pode, mas tem muita gente que às vezes não tem mãe, não tem pai. Às vezes, o pai está nas drogas e a mãe sumiu, acontece muito isso daí. P/2 – E posto de saúde, essas coisas, também é longe? R – Tem, é longe, um pouquinho longe. Tem um que é na Braz Leme, é longe, mas dá pra ir andando. Ali na Braz Leme e tem um no Carandiru, que é o posto Carandiru, mas também você anda um pouquinho, que é ali perto da Vila Guilherme. P/1 – Pensando um pouco também sobre a sua vivência lá na Zaki Narchi, você percebe diferença de geração, dos mais velhos para sua geração, agora, pras crianças? R – Alguma diferença? P/1 – É. R – Poucas. Pouca coisa, pouca coisa, mas o respeito que mudou muito, porque os meninos respeitam menos hoje. Antigamente, se não respeitasse, ia tomar um cascudão. Quando nós éramos pequenos, na minha época. Hoje não, hoje nós não podemos colocar a mão nas crianças, não pode. Mas os meninos são folgados. Mas muito, assim, não mudou muito não, porque minha infância foi aquilo ali, eu os vejo e eu fui criado assim, mais ou menos. Às vezes, meu filho também fica na rua, brinca, corre, vai pra lá e vai pra cá, porque eu fui criado assim, sempre solto e do mesmo jeito que ele fala palavrão, eu também falava. Mas é como eu falei: eu entrei na escola, comecei a ler, escrever, a professora me ensinou a ter educação, aí eu aprendi bastante. Muitos deles, é difícil, não sabem ler, você fala: “Sabe ler?” “Não”. Muitos não sabem ler e escrever, então eles não têm muito essa sabedoria. Sabem malandragem, eles sabem muito, são muito malandros, eles querem ser espertos, eles querem ser muito espertos. Às vezes, eles querem ser mais espertos que nós. Como nós já vivemos aquilo, eu pego bem no pé deles. Pego bastante no pé deles. P/1 – E você já sofreu algum tipo de preconceito, por morar na Zaki Narchi? R – Sim, as pessoas. Não de falar pra mim, mas você vê o semblante da pessoa, você vê o gesto dela, aquele jeito que você fala: “Moro no Zaki Narchi” e ela: “Ah, mora no Zaki Narchi”. Já mudou até o jeito de falar, de conversar, já sofri preconceito, sim. Eu não tenho vergonha não, falo até hoje, no trabalho eu falo que moro no Zaki Narchi, sempre morei, não tenho vergonha, não. P/1 – Como você se sente, quando se depara com esses olhares? R – Ah, já vem mais um preconceituoso, já vi tantos que, pra mim, é mais um só. P/1 – E pra você, que vive lá, como você descreve a visão das pessoas que não moram lá e veem a comunidade? R – As pessoas que não moram lá? Ah, veem como um ponto de drogas, perdição, de falar que as pessoas de lá não são boas, mas é o que eu falo: não é todo mundo. Às vezes, o que uns fazem, outros pagam, mas não é todo mundo. Conheço até pessoas que falam: “Nossa, você é superlegal e você mora lá e tal”. Eu falo: “Moro lá, sim” “Nossa, que diferente!” E eu falo: “Mas tem pessoas que são normais, nem todo mundo é igual”. Tem pessoas que têm família e vão do trabalho pra casa, nem saem na rua. Tem pessoas que eu conheço, já vi. Tem pessoas que ficam na bagunça mesmo, tem baile funk lá, vai pro baile, então, na comunidade têm em dia de sábado, está voltando ao normal. Aí o pessoal fica no baile, fica cheio de gente lá. Pra mim, eu vivi isso aí desde pequeno. Mas, pra eles, é a maior diferença, ainda mais quando tem baile funk, eles falam: “Nossa, aquele barulho”. Eu moro lá, então pra mim é normal. P/1 – E como a pandemia afetou sua vida? R – A pandemia afetou porque já não estava muito bem com a mãe do meu filho, acabei ficando desempregado, eu quebrei o pé, depois fiquei desempregado. Eu estava pra entrar num restaurante, aí quebrei o pé e não entrei no restaurante, veio a pandemia e aquilo ali se ajuntou tudo e eu falei: “Meu Deus do céu!” (risos) Essa pandemia acabou comigo. Mas nós somos fortes e damos a volta por cima. Mas acabou comigo, veio separação, veio cobrança, veio dívida, começou a vir dívida e eu sem trabalhar, falei: “Meu Deus do céu!”. Afetou financeiramente e emocionalmente também. P/1 – E lá na Zaki Narchi, como foi a pandemia? R – A pandemia lá foi tensa, morreram algumas pessoas. Morreu a mãe da minha ex-mulher. A mãe dela morreu de Covid também. Ela veio lá do Paranavaí e veio pra cá. E aí acabou vindo na pandemia e ela não conseguiu voltar, porque não tinha mais ônibus, aí ela ficou por aqui na Zaki Narchi e aquilo ali acho que não deu. Não sei, elas tinham que trabalhar. Eu também estava trabalhando na pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, quando veio o começo da pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, aí começou a cortar e eu fui mandado embora. Aí ela faleceu, na pandemia, marcou muito ali. P/1 – E teve bastante doação também, ou diminuiu? R – Ah, na pandemia teve, porque a pandemia ficou muito tempo, ficou o quê? Quase dois anos. Ficou muito tempo de pandemia. Ganhamos bastante doações, doações vêm de todos os lugares. Falar pra você que disso aí a gente não teve do que reclamar não, muitas pessoas passaram muito bem, graças a Deus, na comunidade. Ajudou. Veio bastante doação. P/1 – E o que você mais gosta na Zaki Narchi? R – O que eu mais gosto na Zaki Narchi? Ah, quando fala em futebol, quando fala em jogo, futebol e criança, associação, ali, já, pra mim é gratificante demais, fico muito feliz. Eu acho que eu amo fazer aquilo ali, de verdade. P/1 – Você falando parece que você se encontrou, né? R – Sim, sim, com certeza. Eu que já fiz tanta coisa, de tudo um pouco, falei: “Nossa, aqui é minha praia”, porque você poder ser comunicativo e de uma forma, com pessoas que querem o bem de outras pessoas. Isso que me marcou bastante pra eu ficar, falar: “Nossa, vou ficar aqui, que esse é o lugar”. Dentro de mim fala: “Fica aqui, que é o seu lugar. Você sabe fazer isso muito bem”. Então, isso, como você falou: eu me encontrei, já gostei de fazer essa parte aí. P/1 – E se você pudesse mudar uma coisa, o que você mudaria, lá? R – Lá? Eu tiraria o tráfico, né? O principal, porque é onde se perdem muitas crianças, pra droga. Hoje mesmo eu vejo uma criança lá que não tem nem quatorze anos se perdendo pras drogas. Tem muito disso daí lá. Aí você fala: “Meu Deus do céu!” Se eu pudesse, tirava as drogas de lá, com certeza. É uma coisa que eu tiraria, era isso. P/1 – E como é seu dia a dia? R – Hoje? P/1 – É. A sua rotina. R – A minha rotina, que nem eu falei: estava na fase de reabertura do restaurante Coco Bambu, estou trabalhando lá há uns quatro meses, aí eu estava trabalhando direto, então eu estava trabalhando do meio-dia à meia-noite, do meio-dia às duas da manhã, aí tem umas três, quatro horas de descanso, eu tô indo pra academia e volto pro serviço de novo. Então, agora está voltando ao normal o meu horário, que meu horário fecha, que eu entro quatro horas da tarde e saio meia-noite e meia, uma hora. Depende do plantão, duas horas da manhã, se precisar. E de quarta-feira é minha folga, na minha folga dou treino pras crianças, como eu falei, sete horas da noite e fico com meu filho. Sempre, quando eu posso, fico com meu filho. Como eu sempre chego tarde, né, aí ele dorme na tia dele, que mora lá, que é a irmã da mãe dele. E tem minha irmã também, que mora no prédio do lado, lá em cima, só que ele gosta de ficar na tia dele. Aí, eu o pego na minha folga, que nem hoje vou pegá-lo e fico lá na comunidade, fico na quadra, até dar a hora do treino, aí dou o treino pras crianças, depois o treino nove horas acaba e vamos jogar bola na quadra. Na minha folga tem um grupo aqui: “Vamos jogar bola, vamos, vamos, vamos”. Aí nós vamos e começa a jogar bola. P/1 – Era a pergunta seguinte: o que você gosta de fazer na sua hora de lazer? (risos). R – (risos) Se você perguntar, é jogar bola! P/1 – E, Simon, quais são seus maiores sonhos, hoje? R – Hoje? Ah, meus maiores sonhos é: ver meu filho bem, meu filho e minha filha, ela chama Vitória, a irmã dele. Tô trabalhando pra isso, está voltando tudo ao normal, graças a Deus, agora, tô trabalhando pra deixar meu filho bem. Como meu filho gosta de jogar bola e ele sabe jogar bola, vou incentivá-lo a ser jogador de futebol, mas ele vai estudar e, se não for, vai trabalhar. Então, isso daí é meu maior sonho mesmo: vê-lo bem, tranquilo, vivendo bem. Poder dar do bom e do melhor pra ele, está bom demais. P/2 – E seu sonho pra comunidade? R – Que ela se una Se una mais e se ajunte mais. Porque a comunidade, querendo ou não, como eu falei: nós crescemos juntos, os meninos da minha idade, mas tem as pessoas mais velhas, as pessoas bem mais antigas do que eu, que me conhece e me viu crescer e até fala pra mim: “Você cresceu!” Meu sonho é ver a comunidade unida, na associação lá poder fazer alguma coisa pela comunidade, falar: “Olha, tem uma doação aqui, quem precisa? Quem vai lá, ajuda?” Chegou doação e poder ajudar. Hoje em dia os meninos da escolinha ajudam bastante, nós sempre os incentivamos, os mais velhos sempre ajudando: “Vai chegar um caminhão de cesta básica, vamos ajudar, vem” e eles ajudam. Eu queria que toda a comunidade fizesse isso. Ia lá procurar saber mais, tem vários projetos, tem coisas que, se Deus quiser, como a associação é nova, vai crescer muita coisa ali e nós estamos no caminho certo, estamos com pessoas boas, pessoas que querem ajudar e a comunidade vai mudar muito ainda. Vai mudar, isso nós vamos fazer, a comunidade, nós, em conjunto. No plural.  P/1 – E o que você espera, primeiro pro seu filho, mas depois pras outras crianças que você ensina o futebol? R – Ah, poder falar o dia que elas estiverem trabalhando, estiverem com a casa delas, com o filho delas, poderem falar: “Você foi meu professor, você está no meu coração, você me ensinou muito!” Isso aí vai ser gratificante pra mim, vai ser emocionante, eles um dia crescerem e poderem falar isso pra mim e eu vou falar: “Mas você sabe como você era terrível, hein?” (risos). E você ficar feliz por isso. Isso, pra mim, traz muita felicidade, me deixa alegre. P/1 – E o que a comunidade Zaki Narchi representa, na sua história? R – A minha vida, a história toda. Representa aprendizado, você poder lidar. Se você me colocar no meio de uma favela, eu vou saber entrar e sair, em qualquer uma que você quiser, eu vou saber entrar e vou saber sair, porque me ensinou muito isso. E graças a Deus trabalhando também com público e sendo comunicativo no Outback, aprendi a me impor também lá dentro, de um pessoal de um patamar mais alto, pessoas que têm um padrão mais alto, eu sei me impor numa comunidade. Em qualquer favela eu entro e saio, coisa que pessoas que têm um padrão mais alto, eu vou saber conversar com eles, da mesma forma que eu converso na comunidade. Sem palavrão, sem gíria. Então, isso daí deu uma facilidade de crescer muito, né? P/1 – Simon, a gente está chegando no fim já, tem mais só duas perguntas. R – São quantos minutos, mais ou menos? Só vou avisar o menino, o Aquiles, pra me buscar. Ele falou: “Avisa uma meia hora antes, que eu já vou resolver aqui”. P/1 – Ah, então pode avisar, que aí a gente vai... Simon, a gente está chegando no fim. Eu queria saber se você queria contar alguma história que eu deixei passar, ou deixar alguma mensagem? R – Deixar uma mensagem. Eu falei tudo que eu queria ser sincero aqui, nesse momento, com vocês aqui. Queria ser sincero e então eu fui sincero ao máximo, eu fui sincero em tudo. Falei a minha vida toda pra vocês. A mensagem que eu quero deixar é que as pessoas de comunidade, ou não sejam, amem a outra pessoa. Independente de quem ela seja, de que cor ela seja, de onde ela seja, que a pessoa ajude ou tenta ajudar uma pessoa, porque o começo é nós nos ajudarmos, nós vamos chegar longe. Hoje no Brasil, acontece muito isso no Brasil, porque as pessoas não se ajudam. As pessoas, em vez de se ajudarem, criticam muito uns aos outros. Isso aí, pra mim, eu acho muito feio. E isso tem muito na comunidade. As pessoas, às vezes, não se ajudam. Às vezes, se ajudam e, às vezes, não. E acontece muito que não, quer você bem, mas nunca melhor do que ela. E eu falo que isso fica muito chato lá na minha comunidade. Mas eu quero que as pessoas, um dia, ajudem uns aos outros, porque vão chegar longe, vão chegar a outro nível, quando a pessoa tem a mente de poder ajudar outra pessoa. P/2 – Você disse que a pandemia ajudou, teve muitas doações e a gente ficou quase dois anos aí na pandemia. R – Sim, sim.  P/2 – Tem alguma coisa que você percebe, assim, que se destaca, que mudou por conta da pandemia, que você acha que mudou ou na relação das pessoas, ou na organização da comunidade, que você acha que vai ficar assim? Seja de bom ou de ruim.  R – Sim, vai ficar. Porque mudou o pensamento das pessoas. Tem pessoas boas que estão ali só pra ajudar, então isso mudou muito. Na pandemia mesmo, pessoas que ficavam só em casa e nós íamos de carro lá, pra entregar a cesta básica na casa da pessoa, por causa da pandemia, pra pessoa não ficar rua e tal, nós íamos tudo certinho, álcool gel, máscara, deixava lá a cesta básica. Então, isso mudou bastante, as pessoas viram que nós estávamos ali pra ajudar a comunidade, a gente queria ver a comunidade bem. Então, ajude você também, ajude, vai lá, preste um serviço lá, comunitário, sem cobrar nada, uma hora do seu tempo, duas horas do seu tempo lá, você já vai ajudar bastante, pensa que não, mas está ajudando, sim. Então, isso marcou muito as pessoas na pandemia. P/1 – E a última pergunta é mais, assim, pra perguntar o que você achou de ter contado um pedacinho da sua história hoje, aqui? R – Ah, eu achei o máximo! Eu pensei que eu ia ficar meio com vergonha, eu falei: “Não, vou ficar meio com vergonha, eu acho”. E na hora que eu cheguei e vi um monte de câmera e tal, falei: “Ah, não, vamos lá, vamos conversar.” Às vezes, seria mais fechado. Mas falei: “Ah, não, vou falar um pouco da minha vida aí, pretendo falar a verdade, porque eu tô nesse momento aqui que vai ficar pra história.” Vai ficar na história aí, espero que um dia eu possa pegar meu celular e ver lá minha história, que eu contei. (risos) Legal, foi muito maravilhoso, eu gostei mesmo. P/1 – Nossa, a gente agradece demais, né, Raquel? P/2 – Nossa, sua disponibilidade, você foi muito generoso, em compartilhar sua vida. R – Obrigado! Compartilhamos aqui com vocês, é maravilhoso também. Foi muito legal, gostei. P/2 – E é bom que você tem um exemplo muito positivo para dar. De ter feito escolhas do bem, de querer ser um exemplo. De querer, não! De ser um exemplo. Então, eu acho que é bem bacana você deixar esse legado, essa história como exemplo, mesmo. R – Como exemplo, com certeza. De superação de vida. Podia estar em outro lugar, fazendo outras coisas, coisas erradas aí.  [Fim da Entrevista]

Entrevista de Simon Richard Soares

Entrevistado por Bruna Oliveira e Raquel Ribeiro

São Paulo, 22/09/2021 

Projeto: Comunidade Zaki Narchi/Instituto Center Norte 

Realizada por Museu da Pessoa

Entrevista n.º: PCSH_HV1042

Transcrita por Selma Paiva

Revisada por Bruna Ghirardello


P/1 – Simon, pra começar, eu gostaria, por favor, que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, local e a data de seu nascimento.


R – Meu nome é Simon Richard, nasci em Minas Gerais, moro atualmente no Carandiru e tenho 27 anos. Nasci em 1994.


P/1 – E qual o nome dos seus pais?


R – Minha mãe se chama Marinês Soares Silveira. Meu pai não tem registro, porque não me registrou, mas eu sei que o nome dele é Élcio Fagundes.


P/1 – E o que sua mãe fazia?


R – O que minha mãe fazia? Na verdade, minha mãe sempre trabalhou. Mas ela trabalhou em uma área que me afeta muito, ela entrou na área de prostituição, então acabou complicando nossa vida um pouquinho, nessa caminhada. Mas ela foi garota de programa.


P/1 – E você tem irmãos?


R – Tenho mais dois irmãos da parte da minha mãe e mais três da parte do meu pai.


P/1 – Qual é o nome deles?


R – Um se chama Nick Sávio Soares, que é meu irmão um ano mais velho do que eu; aí tem a Samanta Soares Fagundes, que é minha irmã. E da parte do meu pai eu sei só os primeiros nomes deles, que é Kevin Sena, Antony Sena e Stefanie Sena.


P/1 – Você não tem relação com eles?


R – Tenho um pouco, já fui algumas vezes lá em Minas Gerais, na casa do meu pai, porque tenho familiares lá, como nasci lá, então, da parte da minha mãe também todos são de lá. E eu vou lá, já fiquei lá uns três meses, quando me separei da mãe do meu filho, faz pouco tempo, não faz muito. Aí eu fui lá, fiquei três meses, fiquei na casa do meu pai, fiquei na casa dos meus tios e voltei pra São Paulo de novo.


P/1 – E como você descreveria sua mãe?


R – Minha mãe? Uma pessoa que trabalhou muito. Independente do ramo dela, ela sempre nos quis ver bem. Sempre deu do bom e do melhor, trabalhou nesse ramo, mas nós tivemos de tudo que ela pôde dar. O que faltou mais era mais atenção, que nós não tínhamos. Eu, meu irmão e minha irmã. Minha irmã engravidou cedo, acho que com quatorze anos ela já engravidou.


[Pausa]


P/1 – Eu estava perguntando como você descreveria sua mãe.


R – Ah, eu estava na parte errada. Minha mãe. Então, uma mulher guerreira. Trabalhadora, que deu de tudo pra nós, de tudo que pôde dar, ela deu. Mas faltou meio atenção, afinal nós não tivemos pais. Não ter a mãe próxima é complicado. Aí eu vivia nas ruas, lá do Carandiru, onde eu fui criado desde pequenininho, ficava na rua, aí comecei a jogar bola também. Mas uma mulher guerreira, falar pra você que não tenho o que falar dela. Hoje nós cuidamos dela, porque ela está com uns problemas da cabeça, fez 48 anos e nós cuidamos dela. Ela mora com a minha irmã. Eu estava morando com a minha irmã quando me separei, mas acabei de me mudar. Eu tô morando de aluguel, pertinho também, do lado e nós cuidamos dela.


P/1 – E você sabe como seus pais se conheceram?


R – Não, falar pra você que ela nunca comentou isso comigo. Que nem eu falei, ela sempre foi meio distante de nós, porque trabalhava muito, então, não perguntamos muito isso pra ela, ela não responde. Ela falou que foi em Minas Gerais.


P/1 – E como é sua relação com seus outros irmãos, os por parte de mãe?


R – Por parte de mãe? Ah, eu e meus irmãos somos todo mundo unidos. Quando precisamos um do outro, nós estamos juntos, sempre. Meu irmão mesmo, nós mesmos ficamos até brincando lá com ele, que ele pega roupa minha: “Empresta uma roupa pra mim”. Ele pega e eu nem cobro dele, ele fica de tempos em tempos, fica velha e ele joga fora, ou eu vou lá e pego uma dele também, aí nós ficamos comentando muito. Por falar nisso, eu estou morando até do lado dele ainda, porque ele está morando de aluguel e eu falei: “Vou alugar uma casa aqui” “Aluga aí” e tal. E com eles, meus irmãos eu os amo, de verdade. São minha vida, fazem parte do que eu sou hoje. Que é união, eu sou um cara bem dedicado nisso daí, em ter a união da família.


P/1 – E você conhece a história dos seus avós?


R – Não também, não muito. Não conheço a história deles.


P/1 – E na sua infância, quando você era pequeno, tinha comida, cheiro, data comemorativa que vocês comemoravam em família ou comida que lembre sua família quando você era pequeno?


R – Sim, eu lembro que minha mãe sempre fazia uma festinha, aí chamava alguém, vinham meus tios que, se não me engano, são oito irmãos. Então, vinham meus tios, meus tios moravam em São Paulo. Uns estão morando em Minas Gerais hoje, mas quando na minha infância, muitos deles vinham para São Paulo, então, moraram sempre um perto do outro, aí eu lembro que eles sempre faziam uma data comemorativa e tinha um bolo, tinha os parabéns, davam presentes. Acho que isso eu lembro, quando tinha data comemorativa.


P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?


R – Do meu nascimento? Não, falar pra você que minha mãe nunca me falou sobre isso, a história.


P/1 – E do seu nome?


R – A história do meu nome? Minha mãe falava que era um cantor de rock, se eu não me engano. Simon, ela gostava. 


P/2 – Simon & Garfunkel?


R - Deve ser esse aí mesmo, muitas pessoas falam, falam que era um cantor de rock. Mas deve ser esse aí mesmo, é que eu não acompanho muito rock. Então, acho que é de muito tempo atrás também, eu não lembro.


P/1 – E ela conta que foi por isso que ela te deu esse nome?


R – Foi, aí meu pai escolheu Richard, aí ficou Simon Richard.


P/1 – Quando você veio pra São Paulo?


R – Quando eu vim, eu vou falar pra você que eu não lembro, mas eu vim pequeno. Eu não lembro, mas eu vim pequenininho, era bebezinho, acho que até de colo, se não me engano, minha mãe veio comigo pra cá.


P/1 – E porque sua mãe escolheu a Zaki Narchi, você sabe?


R – Por que a minha mãe escolheu?


P/1 – Ela foi pra Zaki Narchi…


R – Ela foi, ela veio e morou no Parque Novo Mundo, mas morou pouco tempo, depois morou na Estaiadinha, se não me engano, aí de lá, eu lembro que ela falou isso pra mim já, aí veio pra Zaki Narchi, mas eu era pequenininho, já era um pouco maiorzinho, mas pequenininho. Eu não lembro o dia que eu cheguei na Zaki Narchi, mas eu lembro do meu crescimento lá, desde a favela, aí fui crescendo e tal, mas eu lembro que eu era pequenininho.


P/1 – Então, a primeira memória que você tem da sua infância, quando você era pequenininho, já era da Zaki Narchi?


R – É, e no Parque Novo Mundo que eu morei pouco tempo, mas eu lembro que meus tios, as datas comemorativas eles faziam pra mim, aí era no Parque Novo Mundo. A Estaiadinha eu lembro pouco, porque acho que fiquei muito pouco tempo, a Zaki Narchi eu lembro muita coisa, agora data comemorativa eu lembro no Parque Novo Mundo.


P/1 – E você sabe porque sua mãe veio pra cá, ela já tinha família aqui, alguém da família ou não?


R – Não, porque minha mãe, é aquilo que eu falei, veio pra cá muito nova, com três filhos pra criar, então ela entrou nesse ramo que eu falei, que ela veio da prostituição. De ser garota de programa, aí ela teve que… ela veio pra cá, como ela ganhava pouco naquela época, ela pegou e comprou um terreninho, montou um barraquinho e veio pra cá. Veio pra luta.


P/1 – E como era sua primeira casa, o barraco?


R – O barraco, a minha primeira eu não lembro. A segunda eu lembro, que minha mãe falou que morou antes em outro local do barraco, ela montou um maior depois. A segunda eu lembro que era uma escadinha, quando você abre a porta tinha uma escadinha e uma entrada pra cozinha e uma escadinha assim. Aí eu subia lá, lá tinha os quartos divididos, o dela, o nosso, o nosso tinha beliche e tal. Era bem arrumadinho. E lá embaixo a cozinha era bem grande, aí tinha um banheiro no canto da cozinha, no outro canto tinha um banheiro, (risos) tô lembrando de coisas que eu nem fazia ideia. E, graças a Deus, comida nunca faltou, porque ela ia atrás. Isso, pra nós, nunca faltou.


P/1 – E quando você era pequeno, você gostava de brincar do quê?


R – Brinquedo. Brinquedo, minha mãe comprava bastante brinquedo pra nós. Carrinhos, Power Rangers, que eu tinha uns Power Rangers grandões, tinha aquele carrinho que ficava cantando, esqueci até a música, agora não lembro. Tô tentando lembrar, mas não lembro não, (risos) agora no momento não veio. Aí carrinho, brinquedinho, Homem Aranha, isso aqui eu brincava muito, quando eu era pequeno.


P/1 – E era em que parte da Zaki Narchi o primeiro que você tem lembrança?


R – Em que parte? Mais ou menos em... hoje tem uma Aacd lá, era atrás. Acho que a favela está até se formando de novo lá, eu morava naquela parte ali. Aacd ali no fundo, onde tinha um ferro velho, o ferro velho do Carioca, que eu lembro até hoje. Aí tinha um riozinho, assim, era legal. Saía na Rua Urupiara, lá na frente. Saía na Rua Urupiara, lá atrás.


P/1 – E você brincava na rua também?


R – Na rua, o dia inteiro. Na rua era o dia inteiro, não ia pra casa e tinha vez que chegava em casa e apanhava da minha mãe, porque isso não era hora de chegar: “Você está o dia inteiro na rua, você não comeu, não bebeu”. Mas sempre tinha comido, sempre tinha bebido. Nós dávamos um jeito de arrumar, nós pedíamos, nós arrumávamos, nós íamos ali no McDonald's quando era pequeno e ganhava um ‘Mc’, pedia pra pessoas e as pessoas davam, às vezes, não davam. Passávamos em restaurantes e pedíamos alguma coisa e eles davam, sempre de casa em casa, bolachas, passando apertando campainha. E quando a gente ia jogar bola, então, jogar bola longe, isso era normal. Vivia o dia inteiro na rua, ia pra lá e pra cá o dia inteiro. Tinha o Shopping Center Norte também, de frente, que tem um Shopping Center Norte em frente ao Zaki Narchi, ali, nós íamos pro shopping lá, vendíamos figurinhas também, tinha as figurinhas aquelas quadradinhas que você retira e que colavam, a gente vendia lá. Não podia e tinha que correr dos seguranças. (risos) Nós dávamos um jeito, sem comer nós não ficávamos. Ela pensava que nós ficávamos sem comer, na rua. Às vezes, ficava sem tomar banho o dia inteiro, jogando bola, saía, ia pro shopping e voltava pra jogar bola, o dia inteiro, ia jogar bola e ia pedir em outro lugar. Assim, isso nós arrumávamos, dava um jeito, não tinha jeito. Todo mundo se juntava e nós íamos.


P/1 – E lá já tinha o… é que eu fui lá, né? Aí eu estava vendo. Já tinha o campinho?


R – O campinho? A quadra. Lá dentro do Zaki Narchi tem uma quadra, tem duas quadras. Hoje eu faço parte da associação, sou um voluntário da associação e hoje nós tomamos conta da comunidade e tem a quadrinha. Eu dou aula pros meninos lá. Tem o time dos meninos e das meninas, só que eu dou pros meninos, porque o tempo que eu tenho é curto, no momento. Mas já tinha. Eu morava no morro. Antes era favela, quando eu era mais menorzinho era mais favela mesmo, aí depois construíram os prédios lá e tal, aí já morava num morro ainda, quando construíram os prédios, tinha, sempre teve. Pra mim, na minha infância, sempre teve.


P/2 – Você falou que andava, ficava com a molecada o dia inteiro na rua, né? Era um grupinho de crianças da sua idade?


R – Da minha idade, da minha idade. Um era tipo um ano ou dois anos mais velho, outro um ano, ou dois anos mais novo. Tudo junto.


P/2 – E eram sempre os mesmos?


R – É, na verdade, nós tínhamos um grupo que era de quinze, tinha grupo que era de mais. Só que você acordou cedo e o outro não acordou, aí outro ia pra lá, tem sete aqui, vamos empinar pipa. Nós íamos pra Casa Verde direto, andando, empinar pipa, pequenininhos.


P/2 – E dessa turma você ainda tem algum conhecido, mantém contato?


R – Todos, muitos, muitos, muitos. Uns faleceram, outros estão presos, que isso aí, na vida, cada um escolhe seu caminho. Então, ali dentro é mais fácil o caminho errado, pra eles. Para eles era o meio mais fácil para ganhar dinheiro, então, acaba complicando muito isso daí, na comunidade.


P/2 – Tem algum deles que você mantém mais como amigo ainda até hoje, ou cada um foi seguindo o rumo?


R – Não, tem uns que seguiram o rumo, tipo, hoje nós nos falamos, conversamos, a amizade é a mesma, às vezes, pára pra conversar, pra beber uma e sempre encosta, às vezes, nunca bebeu e vai beber. Só que ali tem muitas pessoas que ‘tretam’, brigam entre eles mesmos, depois que eles bebem. Coisas simples de resolver, acaba causando. Mas tenho sim, tenho muitos amigos meus. Vixe, falo pra você que quando nós sentamos e contamos as histórias, ficamos dando risada, dando risada demais! É muita história. Olha que loucura: tinha beira do rio que a gente mora, assim, aí tem uns túneis que saíam pouquinha água, tinham as aberturas, aí nós íamos na beira do rio, ficávamos na beirinha do rio, no cantinho, que era de concreto. Nós ficávamos lá, entrávamos nesse túnel e nós íamos parar lá debaixo do Shopping Center Norte, andando. Em quinze meninos, quinze moleques. Nós íamos lá, quando chegava lá, falava: “Meu Deus do céu, nós estamos debaixo do Shopping”. Aí nós tínhamos que vir correndo, nós vínhamos correndo. Pra você ver essa infância foi a melhor pra mim. Aprendi muito com ela. (risos)


P/1 – E como foi crescer na Zaki Narchi?


R – Como foi crescer? Aprendi muito. Aprendi o que é certo, aprendi o que é errado. E pra mim foi bom, mas ao mesmo tempo, também não foi tão legal, que foi essa parte que perdi muitos amigos. Essa parte me deixa até chateado, perdi muitos amigos pra droga, perdi muitos amigos para o crime. Então, tem uma parte que dói, porque não tem precisão, um país rico desses deixar pessoas assim tão talentosas, a gente tinha muitas pessoas talentosas que se foram desse jeito.


P/2 – Você falou que seus amigos, alguns tomaram o caminho errado, são escolhas, né? Você tem lembrança de algum momento marcante no seu crescimento aí, ao longo do tempo, onde você fez essa ‘escolha do bem’? Assim, há um divisor, tipo assim: “Aqui eu poderia escolher o ‘caminho do mal’, mas eu…”. Você tem consciência?


R – Tenho. Eu já fiz algumas besteiras, vou falar pra você, não sou santo também. (risos) Já fiz algumas coisas erradas, então, isso me deixou, quando você faz uma coisa errada com os outros amigos seus, aquilo parece que vem uma inveja,  ninguém quer perder. Eles se põem muito isso: “Você não vai dar um prejuízo em mim, você não vai fazer isso comigo, você não é louco!” Então, eles ficam se debatendo, porque, às vezes, quando cai dinheiro muito fácil, o dinheiro vai rápido também, na mão deles, porque ele vem e vai de uma forma que você fala: “Meu Deus do céu!”, ele precisa de mais. Então, ele sempre quer ganhar mais de você, mais. E isso tem muito. Tem muito desvio de coisas erradas, que acabam te influenciando a desviar isso, porque isso acaba criando uma inimizade, porque é um dinheiro muito fácil. E você pega bastante dinheiro. Quando você pega bastante dinheiro, quanto mais você tem, mais você quer. Na comunidade tem muito disso, o dinheiro te influencia muito a errar, a você querer, às vezes, matar uma pessoa, chegar ao ponto de matar uma pessoa. Influencia muito. E isso daí meu caminho foi desses, convivendo com isso, fazendo algumas coisas erradas que me ensinou, falei: “Não, para!” Mas eu tive filho cedo, com dezessete anos eu já tive filho. Eu fiz dezoito, ele nasceu e eu tive que trabalhar, falei: “Não, vou trabalhar, porque...”. Aí larguei o time, eu jogava bola também, que eu tenho um caminho aí de futebol também, viajei muito. Joguei no Internacional, São Paulo, mas só que mais na minha infância, passei por Cabo Friense também, no Rio de Janeiro. Aí o futebol me tirou muito da vida do crime, muito, muito, muito, muito. Me afastou de verdade, falou: “Não, essa vida não é pra você, vem pra cá”. Aí, depois que eu tive meu filho, eu falei: “Não, eu vou seguir o caminho certinho, vou trabalhar”. Entrei num serviço, no Outback, restaurante. Gostei de trabalhar no ramo. E isso me deixou bem feliz, esse caminho pra mim foi o que me influenciou.


P/1 – Simon, vou voltar um pouquinho agora. (risos) Você lembra da sua primeira escola?


R – Da minha primeira escola?


P/1 – Ou, assim, vou mudar a pergunta. Pode falar.


R – Não, eu tô tentando lembrar aqui, mas pode falar, você quer mudar a pergunta?


P/1 – Eu vou mudar: qual a primeira lembrança que você tem da escola? Não precisa ser da primeira, mas a primeira lembrança sua.


R – Da primeira lembrança? Eu acho que foi o Antônio Sampaio, eu lembro do Antônio Sampaio, estudei, peguei a primeira série. Aí eu já lembro da minha primeira série. Eu tenho uns rabiscos do Emei, do Emei que eu estudei, mas como eu falei, foi um tempo no Parque Novo Mundo, que a minha mãe ficou. Do Emei, mas não lembro quase nada, mas do primeiro ano na escola eu já lembro.


P/1 – Como que era ir pra escola? Como você ia?


R – No começo eu só ia por ir, porque eu mesmo não aprendia nada, era pequenininho, só vivia na rua. Minha mãe mandava eu ir, nós íamos, quem levava no começo era minha irmã, minha irmã levava no começo, mas depois que ela casou, que ela acabou casando nova, aí fiquei só com a minha mãe. Aí eu comecei a ir sozinho, eu e meu irmão. Meu irmão é um ano mais velho que eu. Eu tinha seis, sete anos e meu irmão um ano mais velho, a gente ia andando, porque a Antônio Sampaio, da Zaki Narchi, fica ali na Voluntários, pertinho, uns dez minutos andando, então nós íamos andando, eu e meu irmão. Atravessávamos as ruas lá e nós íamos.


P/1 – E tinha algum professor ou professora, na época, que te marcou?


R – Que veio me marcar mesmo foi mais na quinta série... não, quarta série. Quinta série eu já passei pra de manhã. Que foi a professora Maria, me ensinou bastante, que foi quando eu comecei a aprender a ler mesmo, aprender a escrever, aí me ensinou comunicação, como conversar com as pessoas, porque eu era meio comunicativo, bem vergonhoso. Ela me ensinou a ler, ela me marcou. As outras só escreviam lá, eu fazia, às vezes, não sabia nem escrever, no começo, aí largava e só ficava brincando com os amigos nos primeiros anos, aí depois da quarta série eu comecei a aprender a ler e escrever de verdade.


P/1 – E nessa época você pensava em ser alguma coisa? Assim, você tinha o sonho de ter alguma profissão?


R – Não, nessa época não. Nessa época eu só pensava em brincar e brincar, como eu falei pra você, era o dia inteiro na rua. E jogar bola na quadra. Jogar bola na quadra era essencial, ficava o dia inteiro na quadra, jogando bola.


P/1 – E me conta um pouco: quando você começou a jogar bola e como foi se profissionalizando?


R – Ah, eu comecei na infância mesmo, tipo, fiquei gordinho, eu era gordinho com sete, oito anos, que eu ia pra escola. Aí eu comecei a jogar bola e gostei de jogar bola, falei: “Ah, vou jogar bola, eu vou treinar”. Aí comecei a ir pro treino. Eu era ruinzinho e aí comecei a ir pro treino, treinando, treinando, aí eu gostei demais. Aí fazia gol, quando fiz meu primeiro gol, lembro até hoje, falei: “Nossa Senhora, fiz um gol! Agora vou fazer um monte de gol, toda hora vou fazer gol”. Aí eu comecei a treinar. Ali tinha um campo, perto do Shopping Center Norte tem um campo e nós ficávamos jogando bola no campo também, aí eu comecei a treinar campo, treinar campo, treinar campo, cinco minutinhos da Zaki Narchi. Aí comecei a ficar bom de bola. Fiquei bom de bola e comecei a jogar. Aí joguei bola, treinando, treinando, quando eu comecei a dar rolinho, dar chapéuzinho, aí falei: “Tô bom, agora vou treinar mais”. Aí, treinando, eu conseguia jogar bola e isso me alegra, só de lembrar. (risos)


P/1 – E quem ensinava vocês? Alguém? Tinha algum professor?


R – Tem, tinha professor, sim! Professor Vagninho, professor Lincoln e por falar em professor Lincoln eu o vi até antes de ontem, se não me engano. Passei até meu número pra ele, pra ele entrar em contato, porque ele é professor até hoje e eu tô virando professor. Aí ele até anotou meu contato, tô só esperando ele entrar em contato. O Lincoln, Vagninho, Dantas, Alves, lembro de todos os professores.


P/1 – E como foi o processo? Que time você jogou primeiro?


R – Como assim? Time, mais novo, que eu joguei nos times?


P/1 – É.


R – Comecei a jogar... que minha mãe acabou saindo da Zaki Narchi um tempinho, eu tinha uns quatorze anos, dezesseis anos, mas aí ficou pouco tempo, uns oito meses fora, que depois ela voltou. Aí conheci um cara chamado… lembrar o nome dele agora. Eu o chamava de Magrelo, na verdade: “E aí, Magrelo?”, que era o apelido dele. Quero lembrar o nome dele agora, como pode esquecer? (risos) Mas aí eu conheci essa pessoa e ele começou a me dar treino, ele viu que eu era bom. Quando eu morava na Zaki Narchi treinei muito, treinava de verdade, até faltava na escola, já com treze, quatorze anos, eu faltava na escola, pra ir treinar. Nem na escola queria ir mais. Reprovei algumas vezes por desistência, que eu não fui. Aí conheci esse cara aí, que tem o Riachuelo, fica no Jardim Brasil o campo. Comecei a treinar no Jardim Brasil, eu morava na Vila Nilo, eles chamam de Parmalat ali na Fernão Dias, comecei a treinar com ele lá e ele falou: “Nossa, você joga bem demais, vou te levar lá para um teste”. Não, minha mãe me arrumou um teste, na verdade, falou: “Tem um teste pra você”. Aí eu fui lá no São Paulo, fiz um teste, aí eu passei, joguei um pouco de bola lá no São Paulo, só fiquei três meses. Esse empresário era novo, eu era muito novo, treze anos, quatorze anos, era muito novo ainda. Só tinha minha mãe, não tinha meu pai. Então, era só eu, por eu, eu e ele e ele começou a me levar. Aí me levou no teste do São Paulo e eu passei. Saí do São Paulo, ele falou: “Não, vamos fazer um teste na Inter”. Aí fiz um teste na Inter, Internacional. Fiz o teste no Internacional e passei, só que ele: “Ah, não, aqui no Inter, não sei o que… as condições financeiras...”. Eu não estava nem ligando, eu só gostava de jogar bola, não estava nem aí pra dinheiro, nem nada. Ele comprou uma chuteira pra mim, comprava um negocinho pra mim, viajando. Aí eu fui pra Cabo Friense, lá no Rio, porque ele é do Rio de Janeiro, a família dele é de lá, ele me levou lá pro Rio. Fiz o teste no Cabo Friense e passei. Aí, ele falou: “Você passou no teste, você vai ficar aí”. Ele alugou uma casa lá pra mim, eu fiquei com alguns jogadores, tinham alguns jogadores que eram dele também. Morei com esse meu amigo lá, que conheço até hoje, joga bola até hoje, ele. Aí eu fiquei no Cabo Friense uns nove meses, quase um ano, se não me engano, no Cabo Friense, jogando. Já estava com dezesseis anos, quinze pra dezesseis anos. Fiquei quase um ano lá e ele ficava me bancando, mas esse cara era meio da vida errada, aí ele acabou indo preso e eu sozinho lá, acabei dificultando as coisas. Ele que mandava dinheiro, que pagava os negócios lá, que mandava uma chuteira, não mandava mais nada, eu fiquei lá uns dois meses ainda e falei: “Não, vou voltar, não quero ficar aqui, não”. Aí foi aí que eu voltei pra São Paulo.


P/1 – E você ficava em alojamento ou em casa, lá?


R – Em casa, de frente pra praia do Forte, lá em Cabo Frio. Ficava nessa casa lá.


P/1 – E como foram essas viagens, pra você?


R – Ah, marcou minha vida, gostei, já viajei bastante, nossa, conheci... até hoje mesmo, quando eu tô trabalhando, tô caminhando devargazinho, sou novo ainda, tô caminhando devagarzinho pra conquistar, eu quero viajar ainda, ainda quero ir lá na Espanha ainda, porque minha prima está morando lá e falou: “Vem pra cá, que você vai gostar”. Mas foi maravilhoso, só conhecer algumas cidades, foi gratificante. Poder jogar com alguns jogadores também, que hoje são jogadores.


P/1 – Você lembra de alguns?


R – Lembro, lembro do Everton Kaká, que está jogando acho que no Olympique de Portugal, o sonho dele. Tem o Matheus Peixoto também, que estava jogando no Cuiabá, só que agora ele foi pros Emirados Árabes, se eu não me engano, também. Lembro desses dois, que eu mais lembro, que tenho até hoje nas redes sociais.


P/2 – São da época que você estava jogando?


R – É, da época que eu estava jogando.


P/1 – E nessa época você saía, você saía sozinho, saía com amigos, ou era mais caseiro?


R – Lá eu era caseiro, quando eu comecei a viajar, eu comecei a ficar caseiro, aí que eu aprendi bastante. Ficar caseiro, ficar quietinho, porque eu estava ali sozinho, minha família longe de mim, eu ficava meio... e ele também regrava: “Você tem que ficar aqui”. Tinha os baladeiros que me chamavam, já fui uma vez pra balada com os meninos, mas ficava mais em casa.


P/1 – E você tinha algum namoro? Como você se divertia, nessa época?


R – Tinha uma namoradinha que eu conheci na Parmalat, quando eu conheci esse empresário aí, aí eu comecei a viajar, eu ficava só conversando com ela no celular. Tinha uma namoradinha. (risos) 


P/1 – E como foi voltar pra casa?


R – Voltar? Foi meio que uma desistência, como eu falei: o empresário era meio da vida errada, acabou sendo preso. Quando eu fui embora, eu falei com o técnico do time que eu ia embora, ele ficou doido, não queria me deixar ir embora, falou: “Você não vai embora!” Falei: “Não, vou embora porque tô viajando muito, tô nessa caminhada já faz uns dois aninhos”. Comecei com doze, treze, quatorze anos. Dois anos, três anos, por aí, novo, sozinho, só minha mãe, minha mãe não entende nada de futebol, deixava eu ir porque era melhor do que eu ficar na rua, porque ela não tinha tempo pra nós, porque ela trabalhava e preferia que eu ficasse viajando e jogando bola, fazendo o que eu gosto, ela falou: “Você gosta? Então vou deixar você ir, mas toma cuidado! Liga, fala comigo, tô com você”. Mas atenção mesmo de ligar, não ligava. Só falava na hora de viajar, mas não falava muito, falava mais com meu irmão, de vez em quando, com a minha namoradinha, que eu tinha. Com ela era o dia inteiro, porque ela me ligava toda hora, deixava o celular ali, ela estava ligando. (risos) Estava até almoçando: “Estou tomando café” “Tá bom”. (risos)


P/1 – E como era tão novo você ficar sozinho, o que você sentia, nessa época?


R – Ah, você sente muita coisa, sente falta. Por isso que eu sou pai hoje e meu filho tem toda atenção minha, do mundo. Porque eu já fui criado sem pai, então tenho medo de deixar meu filho sem pai. E ele treina na escolinha, joga bola, joga muito, mesmo. Falei: “Nossa, até meu futuro, pode ser. Vai que... não deu certo numa coisa, dá certo na outra”. Eu sou professor hoje dele, dou aula pra ele de futebol e pra mim é maravilhoso.


P/1 – E quais são suas lembranças mais marcantes, da adolescência?


R – Mais marcantes da adolescência? Vamos ver agora… é que tem muita coisa, né? Da adolescência são as brincadeiras que eram marcantes, ficava o dia inteiro brincando, brincava de polícia e ladrão, de chutar garrafa, que tem que pegar e tem que bater. Bola. Então, foram muito marcantes as brincadeiras com os meus amigos, que era o dia inteiro dando risada, às vezes saía bravo, brigando, mas no outro dia estava brincando de novo, estava dando risada. Pedia desculpa, às vezes, nem pedia, falava: “Não, você me bateu primeiro, não sei o quê”. Isso marcou muito e me ensinou muito.


P/2 – Agora, nessa época que você estava na concentração aí, que estava sozinho e tinha um amigo que foi pro caminho mais errado, você estava adolescente, né? Estava entre quatorze e dezessete anos. Teve alguma experiência nesse tempo distante, que ficou marcante? Você falou que era mais caseiro, tinha namorada…


R – Não, era quando eu viajava. Quando eu vinha pra cá, eu viajava e vinha pra casa também, voltava…


P/2 – De final de semana?


R – Quando era muito longe não, mas quando eu viajava, ficava três meses, voltava, ficava seis meses aqui, ficava três meses, aí depois viajava de novo e treinava. Mas aí eu tinha meus amigos, a gente estava na fase de querer beber também. Treze, quatorze anos é a fase que você quer beber. Ficava mais caseiro quando eu ficava lá, quando eu viajava, era mais caseiro, mas quando vinha pra cá, foi aí que eu comecei a fumar meu primeiro beck, comecei a beber meu primeiro vinho, foi aí nesse caminho, dos quatorze aos dezessete foi que eu aprendi a ficar alterado com álcool. (risos)


P/2 – E a namoradinha, como é que você conheceu? Na concentração ou aqui no bairro?


R – Então, essa eu conheci, eu não era muito de namorar, não era muito apegado e tal, mas a namoradinha eu conheci quando minha mãe deu um tempinho daqui do Zaki Narchi, acabou mudando pra Vila Nilo, ficou uns oito meses lá também, aí eu a conheci lá. Ela gostou de mim, gostei dela, aí ela era virgem e eu já não era mais. (risos) Foi aí que nós começamos relacionar, acabei gostando dela, teve umas brigas, mas eu era muito novo também, tinha quinze anos, eu acho.


P/1 – E quando você voltou... você parou de jogar profissionalmente ou não?


R – Quando eu voltei do Rio eu estava com dezessete, essa namoradinha eu tinha terminado com ela, ela veio até umas vezes atrás de mim e tal, fiquei com ela, mas depois conheci outra namorada, que é a mãe do meu filho. Aí a conheci, que eu estava vindo do Rio como jogador também. Aí conheci, ela já tinha uma filha também. Ela gostou de mim, fiquei com ela, ela ficou comigo de novo, começamos a namorar e ela engravidou. Eu tinha dezessete anos e ela engravidou. Aí fui jogar num time em Marília, no time Al Shabab, time da Arábia. Aí fiz um teste com eles e eles gostaram, falaram: “Nossa, gostei, vem aqui, tem um amigo seu, que joga igual você?” Falei: “Tem, sim!” Aí levei o Peo. Levei ele e nós jogamos bola lá com o time dos árabes, fomos pra Marília, fomos campeões em Marília, ainda. Verdade, lembrando. (risos) Fomos campeões em Marília, eu e o Peo, voltamos e foi aí que minha mulher estava grávida. Com dezessete anos, ela engravidou, falei: “Nossa, está grávida”. Fui pra lá ainda, mas ela falou que estava grávida, falei: “Eu vou, mas vou voltar, vou ficar pouco tempo”, fiquei três semanas lá, fomos campões lá, aí voltei e nessa que voltei teve oportunidade pra eu ir pra Arábia ainda, só que minha mulher estava grávida e como ela tem uma filha, ela tocou muito nisso, foi aí que eu desisti de jogar bola. Ela tocou muito nesse assunto, que ela já teve o pai da filha dele ausente, ausente mesmo, sumiu, na verdade. E não teve pai, ela. Aí ela falou: “Aí você vai pra Arábia...” - eles queriam me levar, mas era só eu por enquanto: “Aí você vai me deixar, você vai pra Arábia, como eu vou ficar aqui, com um filho seu?” E ela também não tinha condições de criar, estava criando uma filha já, passando o maior sufoco. Aí ela engravidou e eu falei: “Meu Deus do céu!” Aí acabei desistindo, aí que eu desisti de jogar bola, mesmo. Eu falei: “Ah, não vou trabalhar”. Foi aí que, com dezessete anos para dezoito, entrei no Outback, comecei a trabalhar nesse ramo.


P/1 – E como foi desistir de jogar?


R – Ah, foi doído! Vou falar pra você que doeu, doeu, doeu, doeu. Eu jogo bola até hoje, minha ex-esposa é brava comigo, por conta disso. Porque eu tenho tempo, vou jogar bola. Fico três horas, quatro horas jogando bola, ela fica doida. Saio do serviço, vou jogar bola. Eu saio tarde, trabalho à noite. Saio do serviço e vou jogar bola. Se tiver, eu tô em todas.


P/1 – E como foi, com 17 anos, descobrir que ia ser pai?


R – Nossa, pra mim, abri um sorriso, quando ela falou, abri um sorriso, não pensei na preocupação, mas pensei muito em eu ser pai. Falei: “Caramba!” Não estava acreditando, na verdade, até hoje fico meio bobo que eu sou pai, mas graças a Deus, pra mim marcou, fiquei em choque, na verdade, meio pensativo, ali parei pra pensar na minha vida.


P/1 – E o que a paternidade representa, na sua vida?


R – Representa tudo. E meu filho eu falei: “Vai ser menino ainda”. Pensei. E Deus me deu menino e a paternidade, pra mim, é tudo. Eu não fui criado com meu pai, então, a paternidade, pra mim, senti muita falta disso e pretendo que ele não sinta, dessa parte da paternidade.


P/1 – E como é o nome dele?


R – Lucas Richard de Lima Soares. Eu que escrevi ainda o nome dele. Lima da mãe dele e o Soares. E o Richard que eu puxei, que não teve jeito. (risos)


P/1 – E por que você escolheu esse nome, teve alguma coisa? Sua mãe escolheu seu nome por causa de um cantor e você, teve algum motivo especial?


R – É que eu sempre gostei de Lucas, eu até falei: “Se meu nome fosse, se eu pudesse escolher, na verdade, ia ser Lucas”. Aí falei Lucas, parte da Bíblia. Não sou muito religioso, mas já fui na igreja alguma vez, pra agradecer só por estar vivo, pelo momento que me deram, de ser pai e poder ter a mente que eu tenho hoje, porque é difícil, na comunidade, ter uma mente regrada, ter um esforço, porque eu trabalho, faço parte da associação, dou aula na escolinha, então minha vida mudou totalmente de um tempo pra cá, depois de ter sido pai.


P/1 – E como foi o primeiro trabalho no Outback? Foi no Outback, né?


R – Foi meu primeiro trabalho, já fiz uns bicos no lava-rápido, fiz uns bicos em fábrica de cintos, só pra quando eu não estava jogando bola, tem uns bicos pra fazer: “Vamos lá, vamos trabalhar”. Trabalhei já no Correio, fazendo bico, isso aí, quando eu não estava jogando bola, estava fazendo bico. Então, não estava fazendo alguma coisa errada. (risos)


P/1 – E como foi lá no Outback, como você conseguiu?


R – Voltando. Voltei. No Outback, lá eu aprendi a viver muito, a ser menos preconceituoso, que na comunidade nós temos pessoas que são muito preconceituosas, com pessoas, às vezes, gays, às vezes uma pessoa lésbica, tem um preconceito maior. E aí ali eu aprendi que você não pode ter preconceito com a pessoa, a pessoa é o que ela é, é por dentro dela que você tem que conhecer, não por fora. Por fora dele não diz nada, se ela for uma pessoa boa por dentro. Isso eu aprendi muito lá, esse foi o primeiro emprego que me destaquei, onde tem agilidade, onde você pode ver a necessidade do que você precisa ali. Você não precisa ir só no caminho errado, no caminho certo também você consegue. Graças a Deus, fiquei lá um tempinho, virei garçom, porque eu comecei como ajudante. Auxiliar, virei garçom, aí quando virei garçom, aprendi que se você não tiver esforço, você não vai conseguir nada. Comecei a ganhar bem, comecei a pagar minhas contas, montei uma casinha pra mãe do meu filho, montei uma casinha pra nós, comprei um carro e fui me estruturando. Meu filho pedia: “Pai, quero comprar isso”, eu comprava. Comprei chuteira. Às vezes, nem pedia, porque eu já comprava na hora, já deixava ele à vontade. Porque minha mãe tentou dar tudo do bem e do melhor pra nós, então pro meu filho eu também tento dar do bom e do melhor.


P/2 – Você falou que aprendeu muito sobre preconceito lá no Outback. Você sofreu algum tipo de preconceito lá?


R – Já, uma vez, já sofri uma vez. Porque, por eu morar na comunidade, às vezes, a gente se veste do nosso jeito. Aí veio uma gerente e falou pra mim: “Nossa, olha como você se veste, olha como você está!” Aquilo me marcou muito. A sorte dela é que ela não falou da minha cor, senão ela ia arrumar confusão. Mas no sentido que ela falou, ela: “Nossa, como você se veste, não sei o que, como você está! Não, isso aí eu não gosto não, não aceito, não”. Eu falei pra ela: “Mas eu tô normal, eu sou eu, não tenho como mudar eu”. Ela: “Não, não sei o quê”. Eu falei: “Tá bom, não posso fazer nada”. Aí saí andando, nem dei mais atenção pra ela, mas aquilo ali me marcou, fiquei pensativo um tempo, ainda.


P/2 – Vocês usavam um tipo de roupa padrão?


R – Tinha roupa padrão, tinha a roupa que nós chegávamos e tinha a roupa padrão.


P/2 – Ah, ela estava falando da roupa que você chegou?


R – É, da roupa que eu cheguei. Isso daí foi um preconceito que eu não gostei, eu falei: “É bom eu nem discutir, pra isso não me estressar com ela e acabar fazendo besteira”. Aí virei as costas e saí andando, falei: “O que tem? Me visto do jeito que eu quero!”, falei pra ela e saí andando, não discuti com ela.


P/1 – E como era sua rotina, nessa época?


R – Minha rotina era... mas aí, como eu sou uma pessoa bem comunicativa, aprendi muito, a minha rotina era: trabalhava, jogava bola à tarde,  trabalhava à noite, porque eu entrava cinco horas da tarde e saía uma e meia, uma hora da manhã, aí entrava quatro horas da tarde. Final de semana mesmo era bola todo final de semana, quando tinha de dia de semana, eu também ia na quadra, em qualquer lugar. E trabalhava, vinha pra casa, chegava uma hora da manhã e via meu filho e à tarde a mãe dele o levava pra escola ou pra o Emei, ou pra creche e eu trabalhava e jogava bola à tarde. Minha rotina era essa, do dia a dia. Vivi muito tempo assim.


P/1 – E, ah, eu ia te perguntar: quando você, assim, durante a sua adolescência, desde que você era pequeno, você sempre morou no mesmo barraco ou foi mudando?


R – Na adolescência?


P/1 – É.


R – Não, no mesmo barraco. Acho que morei um tempo, fiquei uns anos morando naquele barraco que falei pra você, da escadinha ali, fiquei uns anos lá, muito tempo.


P/1- E quando você mudou de lá?


R – Quando eu mudei de lá... minha mãe. Ela estava um tempo nessa vida aí e começou a ganhar dinheiro, começou a trazer as meninas pra trabalhar pra ela e tal e ela comprou um apartamento. Lembro até que mudou pro bloco sete e nós começamos a morar no apartamento, foi aí que eu mudei de lá, eu lembro. Aí de lá eu vi até o Carandiru sendo destruído ainda, do meu barraco. Porque eu morava no barraco e o Carandiru era de frente pra nós, assim, o presídio. Então eu vi lá de cima, na parte de cima, vendo lá sendo demolido e todo mundo fechando a janela, porque saía um monte de poeira cobrindo os barracos, lembro até hoje. Aí, depois que destruiu lá, ela comprou um apartamento e nós nos mudamos.


P/1 – Isso com quantos anos?


R – Ah, não me lembro direito, mas acho que eu tinha uns quatorze anos. Não me lembro direito agora, você me pegou, mas eu era adolescente.


P/1 – E daí foi quando você casou com a mãe do seu filho?


R – Sim, quando minha mãe tinha um apartamento lá e minha mãe comprou um terreno aqui na Vila Guilherme, aí acabei casando com ela e morando lá. Como tinha um barraquinho, fui lá, tinha um barraquinho terminando no Peri Alto, aí ela vendeu o barraquinho dela, minha mãe tinha esse daí e falou: “Vamos fazer de bloco”. Aí minha mãe me deu um dinheiro pra eu montar, aí fui lá e consegui montar um de bloco para nós, uma casinha de dois andares. Aí lá eu vivi, depois que eu casei, depois dos dezoito anos, meu filho nasceu já, tinha nascido... ou ela estava grávida? Eu acho que eu tinha acabado de voltar, é verdade, de Marília, que eu joguei lá com o Al Shabab e tinha acabado de voltar e ela estava grávida já e falei: “Vamos construir um negocinho aqui, vende seu barraco”. Aí ela vendeu e minha mãe deu mais três somas de bloco lá e é do ladinho ali, é dez minutos andando também. E eu ficava mais lá, minha convivência era toda na Zaki Narchi. Em casa eu nem ficava, só ia pra dormir. Porque minha irmã mora lá, a irmã dela mora lá, tem apartamento lá, minha irmã tem apartamento, meu irmão mora lá também, mora de aluguel na casa, lá. Eu só ficava lá na casa deles e só ia embora, na hora de ir embora que nós íamos pra casa, comprei um carrinho e nós íamos embora”.


P/1 – E você lembra do seu primeiro dia de trabalho, como foi, lá no Outback?


R – No Outback? Deixa eu ver, eu fiz a entrevista…


P/1 – Eu estava perguntando se você lembrava do seu primeiro dia de trabalho.


R – Ah, no meu primeiro dia de trabalho eu cheguei, falei com todo mundo, já tinha feito uma entrevista lá, pessoal olhou e contratou. Viu eu e contratou. Eu tinha dezoito anos e cheguei, cumprimentei todo mundo, conheci o Enable, que trabalha na mesma função que eu, tenho o número dele até hoje, é um amigo meu. O conheci, ele estava de Buzz, como se fosse cumim, ele falou: “Só trabalho de Buzz aqui e tal”. Aí comecei a trabalhar, eu era rápido, sempre fui meio fortinho assim, mais ou menos, naquela época treinava muito, jogava bola, então tinha resistência. Aí comecei a trabalhar de restaurante, lá era pegado, trabalhava muito e comecei a pegar lá, comecei a trabalhar: “Faz isso aqui”. Comecei a fazer, aí falaram: “Nossa, você trabalha bem e tal, já está contratado.” Falei: “Já trouxe o documento”. Ele falou: “Beleza, então, só começar”. Aí eu fui e conheci o Enable, conheci o Tiago, depois o Tiago saiu com pouco tempo que eu entrei, que estava na mesma função que eu, o Zé Roberto. Aí comecei a trabalhar lá e comecei a estocar copo, fazia talher, polia, fazia talher e embrulhava, embalava e tal, punha no álcool, tal, direitinho, aí eu falei: “Aqui é fácil”. Aí comecei a trabalhar e me destaquei lá, me destaquei com o tempo e virei garçom.


P/1 – E como que foi, como seguiu os seus trabalhos?


R – Não entendi, desculpa.


P/1 – Depois que você trabalhou no Outback, como foram os outros trabalhos?


R – No Outback eu fiquei três anos e meio e saí, aí a menina que trabalhava no Outback começou a trabalhar na loja do lado, no Shopping Center Norte, que tinha o Outback no Shopping Center Norte e do lado abriu o Olive Garden, restaurante italiano, aí já tinha experiência, fui pra lá e virei garçom lá. Já fui pra lá como garçom também, que já era garçom e fui pra lá como garçom e comecei a trabalhar com ela, mas lá fiquei oito meses só, que estava tendo uns desacertos na vida com minha esposa e tal, acabei saindo e não querendo trabalhar lá mais. Aí saí de lá e trabalhei na prefeitura, vim pra São Paulo e todo mundo: “Ah, trabalha na prefeitura”. Porque eu só trabalhava à noite e estava cansado de trabalhar à noite. E o cara: “Ah, entra na prefeitura ali, está pegando”. Aí eu falei: “Vou lá, fazer uma entrevista lá”. Eu fui lá e entreguei um currículo e eles foram, me chamaram: “Não quer trabalhar como operador de roçadeira?” Acabei trabalhando na prefeitura dois anos, trabalhando no caminhão Cata Bagulho, trabalhava mais nele. Era operador de roçadeira, mas colocaram em outra função. Aí, fiquei um tempo, trabalhei dois anos lá e de lá trabalhei de Uber também, um pouco, tirei habilitação, trabalhando lá falei: “Vou tirar habilitação”. Tirei habilitação, trabalhei de Uber um tempo também, mas pouco tempo de Uber, aí veio a pandemia e ficou mais complicado. Aí depois saí do Uber e quebrei a perna, fiquei um tempo com a perna quebrada e foi uma dificuldade, foi ali eu comecei a separar da mãe do meu filho, começamos a brigar, a discutir, aí eu separei.


P/2 – Já na pandemia?


R – Na pandemia, estava em casa com a perna quebrada, muito tempo sem trabalhar, foi na pandemia, passei uma grande dificuldade.


P/1 – E como você quebrou a perna?


R – Como eu quebrei? Jogando bola. (risos) Rompi o tendão aqui, fui jogar no campo, lá, o cara me deu um chute no tendão e rompeu. Aí tive que fazer uma cirurgia no tendão, aí fiquei um tempo sem andar.


P/1 – Mas voltou a jogar bola, já?


R – Sim, hoje eu jogo bola, hoje eu vou pro campo, hoje eu estava jogando, sábado mesmo agora eu joguei os dois tempos. Falei: “Nossa, tanto tempo!”, porque tô trabalhando no serviço novo, agora, no Coco Bambu, aí vou voltar a jogar bola, faz tempo sem jogar campo, trabalhando bastante, está voltando tudo ao normal, aí está tendo bastante serviço, tô trabalhando de dia e de noite, aí fui jogar bola no campo, consegui jogar os dois tempos ainda e fiz gol, falei: “Tá bom, tô novo ainda”. (risos) 


P/1 – E a separação da sua mulher, foi difícil?


R – Foi, foi, hoje ainda é. Como ela está na casa, eu que saí da casa e deixei pra ela a casa do meu filho, falei: “Não, tenho um filho com você, você fica com a casa aí”. Eu estava na casa da minha irmã há um tempo e agora eu tô pagando aluguel. Mas a separação foi difícil, porque tem um filho, né? E ela tem uma filha também, que tem quinze anos, quinze anos ela tem. E eu a criei desde pequena, porque meu filho tem oito e ela tem quinze anos. A criei desde pequenininha, então, sou muito apegado a eles.


P/1 – E a Luiza me contou que você começou a dar aula na associação e como que foi, quando que foi?


R – Quando que foi? Na verdade, quando eu quebrei a perna, aí o Ed, que é o presidente da associação, sempre me chamou: “Vem aqui dar aula pra nós, vem dar aula pros meninos”. Porque eu já fui lá uma vez, tem um amigo meu, falei: “Vamos fazer um trabalho com eles aqui”. Eu ia lá fazer um trabalho com eles, com cone, bola, mas sem dar aula, só pra ir lá fazer, mesmo, só que com os maiores, não os menores, porque os maiores estavam disputando a Taça das Favelas. Aí falamos: “Vamos dar um treino pra eles” “Vamos”. Aí pegamos um físico lá e demos um físico pra eles legal, aí o Ed sempre me chamava: “Vamos lá, vai lá”. E eu falava: “Vou sim, eu vou!” E acabava não indo. Trabalhando e tal e ia jogar bola, que requer seu tempo, um pouco, pra você ir lá, dar atenção pras crianças e eu já gostava de jogar bola, jogava muita bola. Quebrei a perna, aí eu já tinha conversado com ele, falando que ia voltar, que vou dar aula pras crianças e ele: “Vem, mesmo. Quero ver e tal” Aí foi que eu estava voltando devagarzinho e comecei a dar aula pras crianças, de futebol. 


P/1 – E é pras crianças ou pros maiores?


R – Não, hoje eu pego os da idade do meu filho. Que tem oito anos, que tem a categoria de sete até doze, aí tem o professor que dá aula de sete até doze, eu sou o professor que dá aula de sete até doze. Aí tem um de treze a dezesseis, que já é com os outros professores e tem o das meninas também, que já tem as meninas que dão aula lá. Que é a esposa do Aquiles, que me trouxe aqui e a outra menina lá, que dá aula. 


P/1 – E eu ia te perguntar como é que funciona. Como é um dia de treino?


R – É que nós pegamos nos pés das crianças, porque é difícil, é muita criança e eles não têm aquela... como vou dizer? Educação. Falo educação, porque eles são muito mal-educados, mandam você tomar naquele lugar. Um aluno falou pra mim: “Vai tomar no seu...”. E eu tenho aquela paciência de falar, eu falei com ele. Falei sério, que ia falar com a mãe dele, que ele não vai treinar mais. E nós temos que ser firmes com eles, tem que ser autoritário, porque eles são difíceis, eles brigam, é um batendo no outro. Eu sei, dou risada, porque já vivi aquilo quando eu era pequeno, então já sei como é, então pra mim é mais fácil lidar com aquilo. E eles ficam brigando e um fala: “Seu fofoqueiro, vou te pegar”. Eles ficam assim toda hora. Às vezes, até se pegam: “Está suspenso três dias, três treinos vocês não vão vir”. E eles ficam doidos, sem treino eles ficam… aí esse menino que me mandou tomar naquele lugar, que “esse treino é velho”. Eu falei: “Aqui você não vai treinar mais, comigo você não treina”. Depois, no próximo treino ele veio com a cabeça baixa, aí ele disse: “Simon”. Eu falei: “O quê?” “Desculpa!” (risos) Aquilo já parte o coração, mas tive que ser duro com ele, falei: “Desculpa? Você viu o que você falou? Isso não pode falar, como você fala isso pro professor, que te dá aula todo dia, aqui?” Aí ele: “Não, eu estava com a cabeça quente”. Não, eles são… falei: “Você estava com a cabeça quente do quê? Qual seu problema? Fala pra mim. Não tem problema nenhum. Só vai treinar se sua mãe vier”. Eu tive que colocar, né, porque o que ele falou comigo eu não posso deixá-lo tomar posse daquilo, se não vai virar rotina. Falei: “Só se sua mãe vier aqui conversar comigo, você vai treinar”. Aí ele teve que ir lá na mãe dele, chamar a mãe dele, pra mãe dele vir, ele com medo de chamar a mãe dele. Aí ele teve coragem e chamou. Quem chamou foi o amigo dele, que falou, ainda. Aí ele foi lá e chamou, a mãe dele veio conversar comigo, eu conversei com ela, aí ela pediu pra ele me pedir desculpa, aí ele veio: “Já pedi um monte de desculpa pra ele, vou pedir de novo desculpa?” (risos) Aí falei com ela, conversou e ela falou que, se ele fizer na próxima vez, como mãe, ele vai apanhar, vai não sei o quê. Aí o deixei treinar, porque é criança, já fui da idade dele também e eles são assim, são muito, muito brigões. E, na comunidade, falar palavrão é normal. Lá é normal. Falar palavrão pras crianças é normal, mas meu filho não fala, porque eu pego no pé. Eu não tive pai, mas meu filho, se eu vê-lo falando, desde pequeno não pode falar isso. Ele já é mais quietão, na dele, sobre isso. (risos)


P/2 – Eu ia te perguntar: a vinda do seu filho foi um impacto, um momento marcante que fez você fazer até outros planos. Como você se sente agora, nesse papel de professor, que está dando educação, porque você está ali, está sendo um diferencial na vida das crianças. O que você sente? Como você se sente, mesmo nesses momentos desafiadores, da briguinha, da bagunça da molecada?


R – Não, sempre quando eu tô dando o treino eu posto lá que é gratificante, porque, poder estar incentivando-os, às vezes, a um futuro melhor. Às vezes, falam: “Não, ele professor, nossa, como ele...” Porque não ganha nada, é voluntário, nós fazemos porque nós gostamos. E eu jogo bem, eles me vêm jogando, eu fico lá na quadra brincando e vou brincar com eles e eles querem ser igual a mim, falam: “Nossa, eu quero jogar assim”. E nós os incentivamos a jogar bola, ir pro outro caminho, eles veem que eu trabalho, não preciso estar na vida do crime, pra ser feliz. Pra poder estar ali, dando o treino pra eles, eu não preciso estar na vida errada, eu trabalhando, consigo minhas coisas. Nós sempre tentamos dar o melhor pra eles, quando vem doação de alguma coisa, nós damos para eles, eles ficam felizes. Os campeonatos eles ficam loucos pra jogar, pra aprender. A idade que eu pego, eles são novos ainda, mas pra mim é gratificante, é emocionante, é tudo de bom. Eu gosto do que eu faço.


P/1 – E que dia você dá aula?


R – Então, como eu entrei no serviço vai fazer uns quatro meses, antes eu estava dando todo dia. Todo dia que tinha treino eu estava lá, estava eu, estava o Ed, estava o Aquiles, estava dando treino. Mas estava meio que pandemia, nós estávamos regrando muito, dando um dia sim e um dia não, mas agora eu estou dando toda quarta-feira. Toda quarta-feira eu dou aula, aí quando eu pego duas folgas assim eu consigo já... mas estou pegando toda quarta-feira e tem mais quatro professores, tem eu, o Aquiles, o Ed e o Vagner, são seis professores, e as meninas.


P/1 – E você já percebeu alguma transformação nas crianças, de ter aula?


R – Sim, sim. Na minha aula eles já se respeitam mais, que eu já ganhei a confiança deles também.


P/1 – Eu estava perguntando se você já percebeu alguma transformação das crianças.


R – Sim, sim, já, já, eles respeitam. Se eu falo com eles, que eu sou duro também, eu falo alto, porque é difícil, é muita criança, acho que eu pego umas quarenta crianças ali, de sete a doze anos, é falando aqui, falando aqui, eu tenho que dar uns gritões: “Tô falando, meu, você não está escutando?” Porque eles estavam em rodinha e eu vou explicar pra eles que o futebol e tal, tem que tocar a bola, tem que fazer isso, que o jogo passado foi isso aí e aí está um conversando ali, aí tem outro conversando ali, aí outro aqui atrás está falando, aí o outro não está nem prestando atenção. Aí, eu falando e ele fala e eu começo: “Presta atenção”. Aquele professor, né? Mas hoje eles já se respeitam muito.


P/1 – E, pra você, como é voltar a morar na Zaki Narchi?


R – Voltar a morar? É, porque eu estava na Vila Guilherme e comecei a morar lá de novo. Nunca saí de lá, na verdade, nunca saí de lá, meus amigos, minha infância toda é lá. Aí eu vou pra algum lugar, eu conheço algumas pessoas, mas não é mais aquele afeto que eu tive na infância. E hoje eu conheço todo mundo da Zaki Narchi e todo mundo me conhece também, que mora lá desde pequeno, tem muito amigo meu que mora longe e hoje nós nos falamos também, às vezes, vêm pra Zaki Narchi, quando tem uma festa, alguma coisa. É isso aí. 


P/1 – E como é morar lá, então?


R – Como é morar lá? É minha infância, é bom, tô perto do meu filho, perto da minha irmã, tô perto do meu irmão, pra mim é muito bom, eu gosto de morar lá.


P/1 – E comparando com quando você era pequeno, agora quais mudanças você enxerga lá?

 

R – As mudanças lá?


P/1 – É, as principais, assim. Pode ser assim: cresceu… é que eu não posso influenciar nas respostas, né?


P/2 – Mudou muita coisa assim, do espaço, ou das pessoas?


R – Sim, mudou, porque antigamente tinha... hoje está voltando a favela. Sempre teve a favelinha ali e eles tiram e acaba montando de novo. Mudou que tinha o alojamento antigamente também, tinha um alojamento de frente pro Shopping Center Norte, aquilo ali mudou tudo. Mudou… pra mim não mudou mesmo, não. (risos) Mudou as pessoas, que mudam e crescem.


P/2 – Quem construiu o campo? Porque tem a Casa Amarela...


R – Certo!


P/2 – Quando começou ali, quem construiu esse campinho que você fala que dá aula, faz parte da Casa Amarela ou é da comunidade?


R – Tem dois, na verdade. Como tem duas quadras, tem uma quadra que é pra trás e tem a da frente, não pode restringir todo mundo. Então, nós temos uma quadra, que nós queremos fechar, só pra dar aulas, mas estamos correndo atrás pra reformar, porque eles vieram lá e fizeram de qualquer jeito e abriu um buraco no meio da Zaki Narchi, abriu um buracão, teve que cavar tudo, ficou feio, refazer aquela quadra ali, teve que refazer, mas fizeram do mesmo jeito, no mesmo cantinho, do mesmo jeito, refez, mas refez de qualquer jeito.


P/1 – Mas quem fez? A prefeitura que fez lá? 


R – A prefeitura. A prefeitura veio, fez a quadra, mas deixou de qualquer jeito lá. E aí nós estamos atrás pra reformar lá, porque nós estamos tentando correr atrás, pra deixar lá bonitinho e fechar a nossa, dos treinos. Tem duas, uma nós deixamos pra comunidade e a outra pros treinos.


P/2 – Você lembra quando construiu isso? Porque, pelo que eu entendi, tinha a comunidade, depois fizeram o Cingapura, que são os prédios, já tinha essas quadras, ou não?


R – Não, foi feito quando foram feitos os prédios. Quando era pequenininho, só barraco, era tudo barraco ali. Ali era tudo barraco, não tinha prédio, era tudo só favela, mesmo.


P/2 – Então, quando fizeram os prédios, a prefeitura fez as quadras?


R – É, aí fez as quadras junto. Quando fizeram os prédios, aí já fizeram as quadras no meio dos prédios, lá.


P/1 – Você já era nascido?


R – Já, já era nascido. Eu lembro que tinha um campinho ali ainda, hoje tem uma favelinha pequenininha, que é feita de bloco ali. Ali tinha um campinho ainda, hoje tem as duas quadras e tinha o campinho ainda. Eu lembro do campinho de areia. Ali tinha um campinho de areia ainda. Jogava bola lá.


P/1 – Já tinha história com o futebol, né?


R – Já, já, de lá acho que saiu o Ricardo Oliveira. Ricardo Oliveira é de lá, o jogador de futebol, é da comunidade. Eu lembro dele quando era pequeno.


P/2 – E o que você percebeu da comunidade, da molecada, quando veio uma quadra construída, com as coisas mais arrumadinhas, com relação ao campinho? O pessoal gostou?


R – Sim, é que você jogar num campinho de areia e jogar numa quadra é meio diferente o futebol, já muda um pouco. Mas o objetivo é fazer o gol, né? Mas você jogando ali, a tática já é diferente na quadra. Então, a quadra você tem que ser mais rápido pra jogar na quadra, aí mudou bastante. Tem o campinho e tem o campão, que é em frente ao Center Norte e o campão já é o campo normal. E ali tinha o campinho de areia e a quadra. Mudou muito, eu só vivia na quadra, o dia inteiro.


P/2 – Para esse uso que você falou, que estava usando uma a mais para dar as aulas e outra mais pra comunidade. Mas antes disso, até, as pessoas se organizam de boa pra usar a quadra, ou tem um time que quer jogar e outra galera que quer jogar também? Como isso acontece, pra usar esses campinhos?


R – Isso é hereditário, não é, isso daí. Quando era pequeno, os maiores mandavam. Não tem jeito, se chegarem os maiores, quem vai mandando vai de categoria. Tem os molequinhos pequenininhos, aí chegam os maiorzinhos, tem os molequinhos de sete, oito anos, jogando bola lá, aí chegam os de doze, quatorze pra jogar bola. Porque, normalmente, quando eles vão brincar, eles vão brincar só em um gol e os outros brincam só no outro gol. Às vezes, vão brincar num gol só, porque eles são pequenininhos e não conseguem usar a quadra toda. Aí, quando chegam os maiorzinhos pra jogar bola e pra montar o time, já era, aí eles saem. É hereditário. Toda comunidade é assim. Aí eles saem, pra jogarem os maiores. Aí quando estão os de quatorze, quinze anos, aí nós chegamos e, se nós chegarmos, eles têm que sair, que nós vamos jogar. Aí chega nosso time lá, eles já sabem que vamos jogar, então eles têm que parar. Então, eles ficam o dia inteiro na quadra e nós que somos mais velhos, queremos jogar bola, eles já estão o dia inteiro, vão ficar mais? A gente já pede pra eles saírem: “Por favor, saiam!” Nós somos professores, chegamos na hora: “Não, vai lá, vai lá, vai lá, vai jogar agora”. Eles respeitam, tem que respeitar. E aí eles ficam lá sentados assistindo, mas eles gostam de ficar assistindo nós jogarmos, porque lá tem muito moleque bom, onde eu moro. Tem muito moleque bom de bola, lá. Eles gostam de ficar assistindo. Por isso que sempre, no futebol sempre os incentivo a ir pro treino, porque nós jogamos bola e eles gostam de nos ver jogando. Nós damos rolinho, chapeuzinho, fazemos  gol, fazemos coisas que eles falam: “Nossa!” Aí eles gostam.


P/1 – E o Ricardo Oliveira saiu de lá, então?


R – Sim, Ricardo Oliveira veio de lá. Ricardo Oliveira é jogador. Jogador famoso, mas ele foi e virou da igreja aí, aconteceram algumas coisas com a vida dele também, que dizem respeito a ele e acho que ele meio que se afastou da comunidade, né? Foi morar em outro lugar, acho que foi morar até na China, Japão, estava na Arábia também. E hoje o Aquiles e o Ed têm muito contato dele. O Aquiles mais, fala mais com ele assim e tal, às vezes, ele vem, esses tempos atrás veio doação de cesta básica na pandemia e tal e aí nós tentamos sempre ele nos ajudar, a comunidade, mas é difícil ele ajudar. Não sei, ele tem os motivos dele. Então... 


P/1 – E como é o dia a dia na Zaki Narchi?


R – O dia a dia? Que nem, eu tô entrando às quatro horas agora, eu acordo, meu filho mora na Vila Guilherme e às vezes ele fica bastante tempo comigo também. Hoje é minha folga, vou até pegá-lo, quando sair daqui. E a gente fica lá, vou no salão de cabeleireiro, a gente conhece todo mundo, desce, cumprimenta, falo com um e falo com outro. Encosta num canto e começo a falar do que aconteceu no seu dia, às vezes, de futebol, às vezes, fala de um monte de coisa, não sei. Fica conversando o dia inteiro lá. (risos) O dia inteiro, passando hora, porque não tem nada pra fazer, quando não vai trabalhar. Ou puxar um futebol. Se puxa o futebol, os meninos vêm.


P/1 – E como é a relação do entorno da comunidade com as pessoas que moram lá?


R – Do entorno? Como assim? Tipo: a comunidade no meio, aí tem o shopping, tipo isso você quer dizer?


P/1 – É. Como é? É uma relação pacífica, assim?


R – Sim, creio eu, eles já tentaram tirar a comunidade várias vezes. Mas hoje em dia, a gente faz parte da associação, o Center Norte dá doações pra nós, ganhamos até doação de cama elástica, ganhamos uma academia deles. Está tendo uma relação hoje, hoje está tendo uma relação mais tranquila, mas antigamente era difícil. Antigamente eles queriam nos tirar e nós botávamos fogo na rua e fazíamos um monte de protesto. Fazia muito protesto. 


P/2 – Mas eles que queria tirar, quem? Prefeitura ou os vizinhos?


R – Então, eles falaram que tinha um gás tóxico ali debaixo e tal e tem até uns aparelhos, vão lá direto colocar uns aparelhos lá e tal, porque ali é lixão. Colocaram isso pra nos tirar, só que eles queriam nos tirar pra nos jogar lá pro interior, mas ninguém aceita sair do Centro ali, porque está no Centro ali, praticamente. Aí, ninguém aceitou e já teve várias confusões com eles, sobre isso.


P/2 – Você lembra porque surgiu a associação, se era pra resolver essas coisas, ou por uma outra...


R – Não, é que é assim: a associação que eu tô hoje faz, se eu não me engano, dois anos, que é que está o Ed, o Aquiles, eles sempre fizeram alguma coisa pela comunidade, sempre fizeram evento, o Ed e o Aquiles, porque eles sempre gostaram de poder ajudar, só que a associação ficava com outro cara, com outra pessoa. Acho que era da igreja e tal, só que essa associação aí não fazia nada pela comunidade, vivia fechada. Antigamente fazia só velório nela, alguém morria, ia lá, fazia velório, era fechada, não fazia nada. De vez em quando dava alguma coisa, mais no final do ano. Isso daí estava errado, todo mundo estava vendo que estava errado. Na verdade, estavam fazendo coisa errada ali dentro. Aí o Ed, com muitos anos ali falou: “Não, vou pegar a associação e tal, o que vocês acham, vou me candidatar à presidente”. Aí fizeram uma votação lá, porque o Ed falou: “Vou pegar a Casinha Amarela, não tem nada aí, vocês não estão fazendo nada aí, não tem nada, como assim está parada a associação aí? Não chega nada, não tô entendendo. Vamos fazer uma votação, pra ver em quem eles votarão”. Aí fizeram a votação lá, aí todo mundo votou no Ed, aí o Ed ganhou e hoje a associação é aberta pra todo mundo. Você pode ser voluntário, pode ir lá, chega doação e vai pra comunidade, distribui, nós distribuímos, nós vemos chegando, nós que doamos. Aí eles falam: “Precisa de voluntários, vem você, vem você”. Antigamente não tinha isso, antigamente eram os que estavam lá fechados e fecha a Casinha Amarela e está fechada. E hoje não, você pode ir lá, pode ajudar, até entrou um voluntário esses dias aí, muitos voluntários e isso é legal. Está sendo legal.


P/2 – O campinho é um grande point de encontro da galera?


R – Sim, lá você vai encontrar alguém.


P/2 – Além de conhecido, tem algum outro lugar na comunidade que é esse ponto de encontro, que você vai achar alguém lá, uma referência? Algum bar, um barbeiro, algum ponto que é mais…


R – ... que é mais movimentado, no caso. Que tem mais pessoas que você vai encontrar. Lá onde tem um bar e tal, aí você vai na quadra. A Luli é perto da quadra também, a Luli fica aqui e a quadra fica de frente com ela. A Luli, que é a cabeleireira, o salão de cabeleireiro ali, todo mundo: “Está na Luli”, já sabe onde é a Luli, salão de cabeleireiro. E a rua principal, que é a Rua Antônio dos Santos Neto. Essa Rua Antônio dos Santos Neto é onde fundou a Zaki. Ali é a Zaki Narchi, que é a avenida principal e dentro tem uma rua e dentro da Zaki Narchi, essa rua, você passando nela, você consegue ver os prédios todos. Então, essa rua tem vários trailers, barraquinhas, essa rua é mais movimentada, você pode passar ali, que vai ter alguém, vai ser movimentado ali, na parte de trás.


P/1 – Depois na Dona Irene? 


R – Sim, sim, ali mesmo.


P/1 – Eu fui lá.


R – Você foi lá? Que legal! (risos)


P/1 – Eu ia perguntar pra você: qual impacto da Casa Amarela na vida das pessoas da Zaki Narchi?


R – Hoje está mudando muito, porque que nem eu falei, antigamente não tinha nada de doações, assim e hoje as pessoas estão mudando o olhar pra Casinha Amarela. Porque antigamente não tinha essas doações que tem hoje. No começo que o Ed pegou, as pessoas estavam até criticando, falando: “Ah, que não sei o que, vocês estão roubando tudo”. Só que hoje em dia eles veem que nós estamos doando, que nós chegamos e nós vamos lá, levamos até na casa deles, nós passamos dando folhetinhos pra eles irem buscar e nunca teve isso. Isso aí que mudou, o impacto deles mudou muito sobre a Casinha Amarela. E vindo vários voluntários da comunidade, eu mesmo sou um, não faz nem tanto tempo assim, que eles falam: “Nossa!” Tem mais um menino e tem outra menina, tem pessoas que estão entrando no grupo nosso. Tem pessoas antigas, que antigamente eram mais das antigas. Hoje impactou bastante, hoje a pessoa fica mais… eles estão vendo que nós estamos fazendo pela comunidade. Fora que nós damos aula na escolinha, que tem vários professores que são da associação também, que nós damos aulas pras crianças, que eles veem lá, veem nós gritando, fazendo trabalho legal com eles e mandando foto no grupo pros pais e isso impactou muito e é muito legal também.


P/2 – E assim que saiu, esse pessoal da igreja, né?


R – Então, esse pessoal que saiu…


P/2 – ... eles continuam lá, mas como é esse relacionamento?


P/1 – Alguns não, alguns estão, alguns não. O cara presidente mesmo lá, eu nem o vejo mais lá na associação, ele é da igreja lá, acho que mora na Vila Ede, montou um mercado lá, se não foi com as coisas da associação, que o Ed fala, montou um mercadinho lá e eu o vejo pouco. Ele é da igreja e eu o vejo pouco.


P/2 – Eles não tentaram voltar, tomar posse?


R – Sim, sempre arruma um empecilho, mas eles estão vendo como nós estamos andando, não tem como eles nos tirarem de lá, porque quem está lá agora é a comunidade mesmo, a comunidade de verdade.


P/1 – E para além das doações, lá tem projetos incentivados?


R – Tem, tem. Sempre o Ed ou a Elis, a Fernanda, o Aquiles, buscam um projeto. Tem professor de muay-thai, de tênis, de balé, eles sempre tentam buscar um professor diferente e na comunidade às vezes até tem. Tem um professor na comunidade que ele é de tênis, ele é da comunidade também, desde pequeno. Então, balé, eles sempre tentam achar uma pessoa de fora e tal, porque não tem professor de balé lá ainda, ainda vai formar um lá. Aí é balé que eles tentam puxar pra comunidade e como nós estávamos na fase de pandemia, estava meio que… mas agora está começando a voltar de novo, já.


P/2 – Teve um projeto lá de bicicletas. Deu certo, né? Ou não?


R – Sim, teve. Deu, deu certo, os meninos até ganharam umas bicicletas. E vem vários projetos. Vai chegando e nós vamos encaixando lá na associação.


P/1 – E, ao longo desses anos, quais foram os momentos mais marcantes seus, aqui na Zaki Narchi e também os momentos mais marcantes da Zaki Narchi, que você acha?


R – Que eu acho? Mais marcantes? 


P/1 – Que você vivenciou.


R – Ah, foi quando eles tentaram nos tirar, tentaram nos despejar, querer tirar, isso me marcou muito. Porque eu ficava na rua, aí um monte de pessoa na rua, aí vinha o Choque, tinha que tacar pedra, lembro disso daí. (risos) Isso daí me marcou muito, eles querendo nos tirar, sendo que a comunidade se uniu ali de uma forma que não vai tirar, não vão tirar, não.


P/2 – Mandaram tropa de choque?


R – É, a tropa de choque veio. Tacaram fogo na rua, fecharam tudo, falamos: “Não, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Isso me marcou muito, você vê que a comunidade pode ser unida, basta eles quererem.


P/2 – Na época, você tinha quantos anos, quando eles tentaram fazer…


R – Várias vezes, não vou lembrar minha idade, não, mas adolescente, já, eu estava no meio da rua atacando pedra também, correndo, dando risada. Não tinha o que fazer, né? “Vamos correr”. Corre pra lá, corre pra cá. Ficava olhando, mas não lembro a minha idade, não. Não sei se tinha quinze anos, estava jogando bola, tinha mais ou menos essa idade.


P/2 – Como é, assim? Eu nunca vivi uma situação assim _______ . Sei lá, a prefeitura, o Estado manda a tropa de choque e você falou que foi marcante da comunidade se unir. E o dia seguinte, como é que é?


R – O dia seguinte?


P/2 – É, a comunidade se reúne para ver ou comemorar que conseguiu vencer uma batalha?


R – Ah, no outro dia vai ser normal, pra você, porque muitos você vai ver na rua, vai dar risada do que aconteceu, você vai falar do que aconteceu e vai falar: “Conseguimos, ninguém vai nos tirar daqui, não”. Fica o comentário só, não que se reúne todo mundo. Ficam só os comentários. Você vai num lugar e comenta com um; vai no outro e comenta com outro: “Nossa, aconteceu”. Como aconteceu uma vez, o menino tomou uma bala de borracha, tem muito isso daí, tomou no olho uma vez aqui, ficou inchado, o Takara, o apelido dele era. Era, porque ele morreu, morreu nessa vida errada. E tomou até um tiro no olho, ficou inchado. E nós tínhamos que ir pra guerra, não vai nos tirar daqui, não. E no outro dia fica comentando, fica o comentário na comunidade.


P/1 – E quais os principais problemas que você vê na comunidade, que você gostaria de melhorar?


R – Ah, tem muitos. Educação, a pessoa saber comunicação, como se portar, eles não sabem. É muito difícil. Os meninos mesmo vão pra escola, os pequenininhos, por ir. Porque na escola, eles não vão aprender nada. Na comunidade, ali nós tentamos ensiná-los, mas, às vezes, é dentro de casa também, às vezes, são muitas pessoas com situação difícil em casa. A mãe tem que trabalhar também, não tem um pai. Na comunidade tem uma favelinha, lá mesmo você vê um monte de criança jogada, ficam três dias sem tomar banho, suja, suja, suja, você fala: “Meu Deus do céu!” Isso aí tem muito. Falar pra você, é difícil.


P/2 – As escolas são distantes da comunidade, pras crianças irem, dá pra irem sozinhas ou não?


R – Então, é mais ou menos uns dez minutos. Da Zaki Narchi pra escola são uns dez minutos, mas você vai passar pela Cruzeiro do Sul, pela avenida movimentada, às vezes, crianças pequenas estão indo sozinhas. Eu mesmo ia sozinho quando era pequeno, eu e meu irmão, era pequenininho. Minha mãe não tinha quem levar. Muitas vezes a mãe leva, quando pode, mas tem muita gente que às vezes não tem mãe, não tem pai. Às vezes, o pai está nas drogas e a mãe sumiu, acontece muito isso daí.


P/2 – E posto de saúde, essas coisas, também é longe?


R – Tem, é longe, um pouquinho longe. Tem um que é na Braz Leme, é longe, mas dá pra ir andando. Ali na Braz Leme e tem um no Carandiru, que é o posto Carandiru, mas também você anda um pouquinho, que é ali perto da Vila Guilherme.


P/1 – Pensando um pouco também sobre a sua vivência lá na Zaki Narchi, você percebe diferença de geração, dos mais velhos para sua geração, agora, pras crianças?


R – Alguma diferença?


P/1 – É.


R – Poucas. Pouca coisa, pouca coisa, mas o respeito que mudou muito, porque os meninos respeitam menos hoje. Antigamente, se não respeitasse, ia tomar um cascudão. Quando nós éramos pequenos, na minha época. Hoje não, hoje nós não podemos colocar a mão nas crianças, não pode. Mas os meninos são folgados. Mas muito, assim, não mudou muito não, porque minha infância foi aquilo ali, eu os vejo e eu fui criado assim, mais ou menos. Às vezes, meu filho também fica na rua, brinca, corre, vai pra lá e vai pra cá, porque eu fui criado assim, sempre solto e do mesmo jeito que ele fala palavrão, eu também falava. Mas é como eu falei: eu entrei na escola, comecei a ler, escrever, a professora me ensinou a ter educação, aí eu aprendi bastante. Muitos deles, é difícil, não sabem ler, você fala: “Sabe ler?” “Não”. Muitos não sabem ler e escrever, então eles não têm muito essa sabedoria. Sabem malandragem, eles sabem muito, são muito malandros, eles querem ser espertos, eles querem ser muito espertos. Às vezes, eles querem ser mais espertos que nós. Como nós já vivemos aquilo, eu pego bem no pé deles. Pego bastante no pé deles.


P/1 – E você já sofreu algum tipo de preconceito, por morar na Zaki Narchi?


R – Sim, as pessoas. Não de falar pra mim, mas você vê o semblante da pessoa, você vê o gesto dela, aquele jeito que você fala: “Moro no Zaki Narchi” e ela: “Ah, mora no Zaki Narchi”. Já mudou até o jeito de falar, de conversar, já sofri preconceito, sim. Eu não tenho vergonha não, falo até hoje, no trabalho eu falo que moro no Zaki Narchi, sempre morei, não tenho vergonha, não.


P/1 – Como você se sente, quando se depara com esses olhares?


R – Ah, já vem mais um preconceituoso, já vi tantos que, pra mim, é mais um só.


P/1 – E pra você, que vive lá, como você descreve a visão das pessoas que não moram lá e veem a comunidade?


R – As pessoas que não moram lá? Ah, veem como um ponto de drogas, perdição, de falar que as pessoas de lá não são boas, mas é o que eu falo: não é todo mundo. Às vezes, o que uns fazem, outros pagam, mas não é todo mundo. Conheço até pessoas que falam: “Nossa, você é superlegal e você mora lá e tal”. Eu falo: “Moro lá, sim” “Nossa, que diferente!” E eu falo: “Mas tem pessoas que são normais, nem todo mundo é igual”. Tem pessoas que têm família e vão do trabalho pra casa, nem saem na rua. Tem pessoas que eu conheço, já vi. Tem pessoas que ficam na bagunça mesmo, tem baile funk lá, vai pro baile, então, na comunidade têm em dia de sábado, está voltando ao normal. Aí o pessoal fica no baile, fica cheio de gente lá. Pra mim, eu vivi isso aí desde pequeno. Mas, pra eles, é a maior diferença, ainda mais quando tem baile funk, eles falam: “Nossa, aquele barulho”. Eu moro lá, então pra mim é normal.


P/1 – E como a pandemia afetou sua vida?


R – A pandemia afetou porque já não estava muito bem com a mãe do meu filho, acabei ficando desempregado, eu quebrei o pé, depois fiquei desempregado. Eu estava pra entrar num restaurante, aí quebrei o pé e não entrei no restaurante, veio a pandemia e aquilo ali se ajuntou tudo e eu falei: “Meu Deus do céu!” (risos) Essa pandemia acabou comigo. Mas nós somos fortes e damos a volta por cima. Mas acabou comigo, veio separação, veio cobrança, veio dívida, começou a vir dívida e eu sem trabalhar, falei: “Meu Deus do céu!”. Afetou financeiramente e emocionalmente também.


P/1 – E lá na Zaki Narchi, como foi a pandemia?


R – A pandemia lá foi tensa, morreram algumas pessoas. Morreu a mãe da minha ex-mulher. A mãe dela morreu de Covid também. Ela veio lá do Paranavaí e veio pra cá. E aí acabou vindo na pandemia e ela não conseguiu voltar, porque não tinha mais ônibus, aí ela ficou por aqui na Zaki Narchi e aquilo ali acho que não deu. Não sei, elas tinham que trabalhar. Eu também estava trabalhando na pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, quando veio o começo da pandemia, eu estava trabalhando na prefeitura, aí começou a cortar e eu fui mandado embora. Aí ela faleceu, na pandemia, marcou muito ali.


P/1 – E teve bastante doação também, ou diminuiu?


R – Ah, na pandemia teve, porque a pandemia ficou muito tempo, ficou o quê? Quase dois anos. Ficou muito tempo de pandemia. Ganhamos bastante doações, doações vêm de todos os lugares. Falar pra você que disso aí a gente não teve do que reclamar não, muitas pessoas passaram muito bem, graças a Deus, na comunidade. Ajudou. Veio bastante doação.


P/1 – E o que você mais gosta na Zaki Narchi?


R – O que eu mais gosto na Zaki Narchi? Ah, quando fala em futebol, quando fala em jogo, futebol e criança, associação, ali, já, pra mim é gratificante demais, fico muito feliz. Eu acho que eu amo fazer aquilo ali, de verdade.


P/1 – Você falando parece que você se encontrou, né?


R – Sim, sim, com certeza. Eu que já fiz tanta coisa, de tudo um pouco, falei: “Nossa, aqui é minha praia”, porque você poder ser comunicativo e de uma forma, com pessoas que querem o bem de outras pessoas. Isso que me marcou bastante pra eu ficar, falar: “Nossa, vou ficar aqui, que esse é o lugar”. Dentro de mim fala: “Fica aqui, que é o seu lugar. Você sabe fazer isso muito bem”. Então, isso, como você falou: eu me encontrei, já gostei de fazer essa parte aí.


P/1 – E se você pudesse mudar uma coisa, o que você mudaria, lá?


R – Lá? Eu tiraria o tráfico, né? O principal, porque é onde se perdem muitas crianças, pra droga. Hoje mesmo eu vejo uma criança lá que não tem nem quatorze anos se perdendo pras drogas. Tem muito disso daí lá. Aí você fala: “Meu Deus do céu!” Se eu pudesse, tirava as drogas de lá, com certeza. É uma coisa que eu tiraria, era isso.


P/1 – E como é seu dia a dia?


R – Hoje?


P/1 – É. A sua rotina.


R – A minha rotina, que nem eu falei: estava na fase de reabertura do restaurante Coco Bambu, estou trabalhando lá há uns quatro meses, aí eu estava trabalhando direto, então eu estava trabalhando do meio-dia à meia-noite, do meio-dia às duas da manhã, aí tem umas três, quatro horas de descanso, eu tô indo pra academia e volto pro serviço de novo. Então, agora está voltando ao normal o meu horário, que meu horário fecha, que eu entro quatro horas da tarde e saio meia-noite e meia, uma hora. Depende do plantão, duas horas da manhã, se precisar. E de quarta-feira é minha folga, na minha folga dou treino pras crianças, como eu falei, sete horas da noite e fico com meu filho. Sempre, quando eu posso, fico com meu filho. Como eu sempre chego tarde, né, aí ele dorme na tia dele, que mora lá, que é a irmã da mãe dele. E tem minha irmã também, que mora no prédio do lado, lá em cima, só que ele gosta de ficar na tia dele. Aí, eu o pego na minha folga, que nem hoje vou pegá-lo e fico lá na comunidade, fico na quadra, até dar a hora do treino, aí dou o treino pras crianças, depois o treino nove horas acaba e vamos jogar bola na quadra. Na minha folga tem um grupo aqui: “Vamos jogar bola, vamos, vamos, vamos”. Aí nós vamos e começa a jogar bola.


P/1 – Era a pergunta seguinte: o que você gosta de fazer na sua hora de lazer? (risos).


R – (risos) Se você perguntar, é jogar bola!


P/1 – E, Simon, quais são seus maiores sonhos, hoje?


R – Hoje? Ah, meus maiores sonhos é: ver meu filho bem, meu filho e minha filha, ela chama Vitória, a irmã dele. Tô trabalhando pra isso, está voltando tudo ao normal, graças a Deus, agora, tô trabalhando pra deixar meu filho bem. Como meu filho gosta de jogar bola e ele sabe jogar bola, vou incentivá-lo a ser jogador de futebol, mas ele vai estudar e, se não for, vai trabalhar. Então, isso daí é meu maior sonho mesmo: vê-lo bem, tranquilo, vivendo bem. Poder dar do bom e do melhor pra ele, está bom demais.


P/2 – E seu sonho pra comunidade?


R – Que ela se una Se una mais e se ajunte mais. Porque a comunidade, querendo ou não, como eu falei: nós crescemos juntos, os meninos da minha idade, mas tem as pessoas mais velhas, as pessoas bem mais antigas do que eu, que me conhece e me viu crescer e até fala pra mim: “Você cresceu!” Meu sonho é ver a comunidade unida, na associação lá poder fazer alguma coisa pela comunidade, falar: “Olha, tem uma doação aqui, quem precisa? Quem vai lá, ajuda?” Chegou doação e poder ajudar. Hoje em dia os meninos da escolinha ajudam bastante, nós sempre os incentivamos, os mais velhos sempre ajudando: “Vai chegar um caminhão de cesta básica, vamos ajudar, vem” e eles ajudam. Eu queria que toda a comunidade fizesse isso. Ia lá procurar saber mais, tem vários projetos, tem coisas que, se Deus quiser, como a associação é nova, vai crescer muita coisa ali e nós estamos no caminho certo, estamos com pessoas boas, pessoas que querem ajudar e a comunidade vai mudar muito ainda. Vai mudar, isso nós vamos fazer, a comunidade, nós, em conjunto. No plural. 


P/1 – E o que você espera, primeiro pro seu filho, mas depois pras outras crianças que você ensina o futebol?


R – Ah, poder falar o dia que elas estiverem trabalhando, estiverem com a casa delas, com o filho delas, poderem falar: “Você foi meu professor, você está no meu coração, você me ensinou muito!” Isso aí vai ser gratificante pra mim, vai ser emocionante, eles um dia crescerem e poderem falar isso pra mim e eu vou falar: “Mas você sabe como você era terrível, hein?” (risos). E você ficar feliz por isso. Isso, pra mim, traz muita felicidade, me deixa alegre.


P/1 – E o que a comunidade Zaki Narchi representa, na sua história?


R – A minha vida, a história toda. Representa aprendizado, você poder lidar. Se você me colocar no meio de uma favela, eu vou saber entrar e sair, em qualquer uma que você quiser, eu vou saber entrar e vou saber sair, porque me ensinou muito isso. E graças a Deus trabalhando também com público e sendo comunicativo no Outback, aprendi a me impor também lá dentro, de um pessoal de um patamar mais alto, pessoas que têm um padrão mais alto, eu sei me impor numa comunidade. Em qualquer favela eu entro e saio, coisa que pessoas que têm um padrão mais alto, eu vou saber conversar com eles, da mesma forma que eu converso na comunidade. Sem palavrão, sem gíria. Então, isso daí deu uma facilidade de crescer muito, né?


P/1 – Simon, a gente está chegando no fim já, tem mais só duas perguntas.


R – São quantos minutos, mais ou menos? Só vou avisar o menino, o Aquiles, pra me buscar. Ele falou: “Avisa uma meia hora antes, que eu já vou resolver aqui”.


P/1 – Ah, então pode avisar, que aí a gente vai... Simon, a gente está chegando no fim. Eu queria saber se você queria contar alguma história que eu deixei passar, ou deixar alguma mensagem?


R – Deixar uma mensagem. Eu falei tudo que eu queria ser sincero aqui, nesse momento, com vocês aqui. Queria ser sincero e então eu fui sincero ao máximo, eu fui sincero em tudo. Falei a minha vida toda pra vocês. A mensagem que eu quero deixar é que as pessoas de comunidade, ou não sejam, amem a outra pessoa. Independente de quem ela seja, de que cor ela seja, de onde ela seja, que a pessoa ajude ou tenta ajudar uma pessoa, porque o começo é nós nos ajudarmos, nós vamos chegar longe. Hoje no Brasil, acontece muito isso no Brasil, porque as pessoas não se ajudam. As pessoas, em vez de se ajudarem, criticam muito uns aos outros. Isso aí, pra mim, eu acho muito feio. E isso tem muito na comunidade. As pessoas, às vezes, não se ajudam. Às vezes, se ajudam e, às vezes, não. E acontece muito que não, quer você bem, mas nunca melhor do que ela. E eu falo que isso fica muito chato lá na minha comunidade. Mas eu quero que as pessoas, um dia, ajudem uns aos outros, porque vão chegar longe, vão chegar a outro nível, quando a pessoa tem a mente de poder ajudar outra pessoa.


P/2 – Você disse que a pandemia ajudou, teve muitas doações e a gente ficou quase dois anos aí na pandemia.


R – Sim, sim. 


P/2 – Tem alguma coisa que você percebe, assim, que se destaca, que mudou por conta da pandemia, que você acha que mudou ou na relação das pessoas, ou na organização da comunidade, que você acha que vai ficar assim? Seja de bom ou de ruim. 


R – Sim, vai ficar. Porque mudou o pensamento das pessoas. Tem pessoas boas que estão ali só pra ajudar, então isso mudou muito. Na pandemia mesmo, pessoas que ficavam só em casa e nós íamos de carro lá, pra entregar a cesta básica na casa da pessoa, por causa da pandemia, pra pessoa não ficar rua e tal, nós íamos tudo certinho, álcool gel, máscara, deixava lá a cesta básica. Então, isso mudou bastante, as pessoas viram que nós estávamos ali pra ajudar a comunidade, a gente queria ver a comunidade bem. Então, ajude você também, ajude, vai lá, preste um serviço lá, comunitário, sem cobrar nada, uma hora do seu tempo, duas horas do seu tempo lá, você já vai ajudar bastante, pensa que não, mas está ajudando, sim. Então, isso marcou muito as pessoas na pandemia.


P/1 – E a última pergunta é mais, assim, pra perguntar o que você achou de ter contado um pedacinho da sua história hoje, aqui?


R – Ah, eu achei o máximo! Eu pensei que eu ia ficar meio com vergonha, eu falei: “Não, vou ficar meio com vergonha, eu acho”. E na hora que eu cheguei e vi um monte de câmera e tal, falei: “Ah, não, vamos lá, vamos conversar.” Às vezes, seria mais fechado. Mas falei: “Ah, não, vou falar um pouco da minha vida aí, pretendo falar a verdade, porque eu tô nesse momento aqui que vai ficar pra história.” Vai ficar na história aí, espero que um dia eu possa pegar meu celular e ver lá minha história, que eu contei. (risos) Legal, foi muito maravilhoso, eu gostei mesmo.


P/1 – Nossa, a gente agradece demais, né, Raquel?


P/2 – Nossa, sua disponibilidade, você foi muito generoso, em compartilhar sua vida.


R – Obrigado! Compartilhamos aqui com vocês, é maravilhoso também. Foi muito legal, gostei.


P/2 – E é bom que você tem um exemplo muito positivo para dar. De ter feito escolhas do bem, de querer ser um exemplo. De querer, não! De ser um exemplo. Então, eu acho que é bem bacana você deixar esse legado, essa história como exemplo, mesmo.


R – Como exemplo, com certeza. De superação de vida. Podia estar em outro lugar, fazendo outras coisas, coisas erradas aí. 


[Fim da Entrevista]


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