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História

Futebol, cultura e televisão

História de: Alexandre Primo Theodoro (Alê Primo)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento Alê Primo conta como eram as brincadeiras de infância na Vila Olímpia e os colégios em que estudou, destacando o período o Equipe como sendo o mais interessante de sua vida escolar. Fala sobre a escolha do curso de Jornalismo, por influência do pai. Lembra seu interesse por futebol desde novo, escolhendo o Santos como time de preferência. Relata como começou a apresentar o programa “Tá na Área”, do canal SportTV onde misturava cultura e futebol em uma série de entrevistas descontraídas. Destaca as participações em duas copas do mundo de futebol: a da França, em 1998 e do Japão/Coréia, em 2002, quando levou uma equipe para produzir o programa nestes países.

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História completa

Nasci aqui em São Paulo no dia 27 de fevereiro de 1957. Meus pais são Sérgio Primo Theodoro e Teresa Gianini Theodoro. São aqui de São Paulo. Meu pai é do interior e minha mãe é de família italiana, imigrantes italianos que vieram pra São Paulo e fizeram a vida aqui. Cheguei a conviver com a avó materna. Meus avós paternos muito pouco, era praticamente bebê, não me lembro deles, eles vinham do interior. Fazendeiros que no crash da Bolsa de Valores de 1929 perderam tudo porque plantavam café.  Eu morei no Bixiga com a italianada toda.

Meus pais se conheceram aqui em São Paulo via uma irmã do meu pai que tava, acho que, com tuberculose, uma coisa assim, na época e se tratava em Campos de Jordão. Então numa dessas idas pra visitar a irmã, meu pai foi, minha mãe também estava lá, eles se conheceram e se aproximaram por causa da irmã dele e tal e ficaram juntos uns anos. Eu tenho uma irmã um pouco mais nova, somos dois, um casalzinho.

Eu nasci em São Paulo, com zero dia eu fui pro Rio porque meu pai trabalhava no Rio na época. Então minha mãe esperou eu nascer e foi pro Rio, eu morei de zero a dois anos no Rio, voltamos pra São Paulo. Então, era pra ser carioca, só que minha mãe quis que eu nascesse aqui por causa da mãe dela, família, tal. Meu pai já estava lá. Voltei pra São Paulo e fui morar no Bixiga, morava na Rua Santo Antônio. A gente foi morar no apartamento da minha avó. Tinha muito isso, as famílias ainda tinham aquele hábito casava e continuava na casa.  A gente foi morar lá porque quando eu voltei do Rio minha mãe e meu pai já não estavam bem. O casamento não deu muito certo. De lá a gente saiu pra uma casa nossa, que minha mãe comprou. Moramos lá, meu pai frequentava o tempo todo, domingo, almoço com minha avó, macarronada, aquela coisa, tal, mas ele tinha a casa dele e ela a dela. Ele veio pra São Paulo, trabalhou muitos anos nos Diários Associados, do Chateaubriand. Ele era jornalista e fez a vida dele ali no centro da cidade, na Rua Sete de Abril, onde era os Diários Associados.  Ele tinha outra casa, outra mulher, casou, fez outra família e tal. E a minha mãe virou funcionária pública, funcionária federal.

Depois mudamos para essa casa, na Vila Olímpia. Eu morei dos cinco aos dez anos, na fase incrível de São Paulo, maravilhosa, porque era ainda rua de terra, terreno baldio, riachos, perto onde é a Bandeirantes, tinha rio, riacho, rã, sapo, bicho solto. Eu vivia de shortinho, descalço, era um moleque de rua, então empinava papagaio, bolinha de gude, guerra de mamona. Era uma casa de dois andares com quintal, eu tinha passarinho, cachorro, gato, coelho, tudo solto. A casa era movimentada.

Nessa época eu estudei em dois colégios. Um era o Meninópolis, ou Pequenópolis, que existe até hoje. Colégio normal ali do bairro, tal. Isso foi quando eu mudei. Depois fui estudar no Jardim Escola América, que foi uma escola experimental que não existe mais, tinha menos de 50 alunos.  Depois a gente saiu da Vila Olímpia e foi pra Higienópolis. Compraram apartamento em Higienópolis e ali eu entrei no Mackenzie. E foi um choque cultural porque o Mackenzie era, e deve ser até hoje, extremamente rígido. Muito rígido. Eu garoto, cabeludo, calça boca larga, passei uns quatro, cinco anos no Mackenzie numa guerra terrível com as professoras. Até que minha mãe falou: “Pode sair. Eu não aguento mais esse lado pedagógico deles”. Eu já era adolescente.

Virei aquele adolescente meio vagabundo, que estudava em colégio que passava por nota, até eu terminar o ginásio. Estudei no bairro, no Teresiano, no Claretiano. Terminei o ginásio meio aos trancos e barrancos e fui parar no Equipe, 73 a 78.  Eu acordava e ia pro Equipe, passava o dia, almoçava com o pessoal, ficava envolvido com o centro cultural, shows, com música. Virou uma turma, uma referência. O Equipe tem uma importância cultural muito forte nessa cena cultural que se formou nos anos 80, onde a gente, já adulto, começou a ser alguém na vida.

Eu tinha uma formação intelectual forte, meu pai era ligado a livros, arte e me passou muito isso na casa dele. Eu lia muito, era obrigado a ler, ele me cobrava, então tinha uma formação bacana. Gostava de ler e escrever, eu tinha facilidade, achei que ia ser jornalista ou escritor. Terminando o Equipe, antes de entrar na faculdade, eu arrumei um emprego como fotógrafo, que eu fotografafa o tempo todo. Prestei vestibular, entrei na faculdade de Jornalismo na FIAM, que a FMU tinha acabado de comprar. Entrei na FIAM, ganhei bolsa de estudos e continuei lá. Nesse meio tempo, quando eu entrei no primeiro ano da faculdade eu já tinha tido contato com vídeo. Surgiu essa câmera de vídeo. Eu fui pra frente das câmeras e me tornei um repórter de televisão. A entrada na TV foi um projeto que chamava Radar, foi o primeiro programa jovem de televisão no Brasil, diário. Eu trabalhei em 500 mil programas, mas o primeiro da minha vida chamava Radar, esse primeiro jovem, diário, de televisão brasileira. Eu trabalhei na Gazeta, Record, Bandeirantes, Globo, eu fui indo, pulando.

Com dez anos eu morei em Higienópolis. Higienópolis é ao lado do Pacaembu. A adolescência foi do lado do Pacaembu. O Pacaembu era meu quintal, tanto pra brincar com turmas, como pra ir no futebol. Eu ia em tudo quanto era jogo de futebol, Sempre torci pro Santos, eu sou aquele, o pessoal fala ‘viúva do Pelé’. Eu ia pra Santos passar férias ali no Gonzaga e a gente ia na casa da porta do Pelé no final do dia, a molecada. Ele saía pra jogar bola com a gente. Era um moleque também. Ele ajudava muito as pessoas, todo mundo que precisava de alguma coisa ele ajudava. Ele era um cara muito bacana, sim. Isso durou só o início da adolescência. Como eu tinha essa formação muito intelectual, muito ligada a livros, futebol, de repente fez assim, o futebol era o ópio do povo, Era ligado à cultura, cinema, preferia muito mais ver um filme do Fellini do que ver meu time do Santos jogar. Eu ficava esperando a estreia do filme do Fellini, era aquele moleque do Bergman era todo ligado a isso. Passaram-se muitos anos, eu estava totalmente no mundo da televisão, vivia disso, trabalhei em tudo quanto é programa que você imagina, fiz programa de economia, culinária, comportamento, cultura, programa jovem, vários que eu participei, de vários projetos

E um belo dia encontrei uma amiga minha, a Eleonora de Barros, que hoje em dia é artista plástica.  Cruzei um dia com a Eleonora: “Oi Eleonora, tudo bem? O que você está fazendo?” “Estou trabalhando na Revista Placar” “Revista Placar?”. Ela falou assim: “A Placar vai ser totalmente reformulada, vai ter uma linguagem nova, por isso que me chamaram. Agora vai ser Sexo, Futebol e Rock n’Roll”. Quando ela falou isso eu falei: “Nossa, isso daí dá um programa de televisão”. Veio um programa na minha cabeça, vou fazer esse programa de televisão sobre sexo, futebol e rock n’roll. Programa jovem, liga de futebol, não tem nada com mesa redonda. Procurei a Revista Placar, os caras falaram: “Você tem condições de fazer um piloto, programa número 1”. Falei: “Tenho. Trabalho numa super produtora, tenho equipamento, tudo”. Formatei o programa, chamava TV Placar. Batemos na Globosat e os caras, a hora que viram ficaram chocados com o programa. Tive que explicar pra eles, então o que eu quero? Meu programa de futebol vai ter futebol, mas vai ser ligado à literatura, cinema, artes plásticas, televisão, quadrinhos, cultura pop, eu chamava de futebol pop. Nasceu o “Tá na Área”. Faço isso até hoje, eu implanto projetos pras pessoas. E o mundo do futebol, que durou até 2002 na televisão. Depois de 2002 eu saí do SporTV e voltei pra área de cultura onde estou até hoje. E na parte de futebol eu fiquei trabalhando no Museu do Futebol, eu trabalho até hoje com eles. Até implantar o “Tá na Área” foi quase um ano, e eu trabalhava aqui na Jana Filmes, que é uma produtora gigantesca aqui de São Paulo de televisão, cinema, publicidade. Pedi demissão. Eu era um diretor de televisão bem sucedido. Eu larguei tudo, fiquei duro, gastei toda grana, fui morar no Rio com a Betty, a gente morava num apezinho todo apertado, os dois sem dinheiro, ela atriz de teatro, já com um super reconhecimento, premiada, mas não ganhava dinheiro. Durante esse período eu formatei muitos programas, inclusive projetos pra Copa do Mundo, eu que esquentava as Copas do Mundo, eu que fazia projetos antes, durante.

Talvez a Copa mais antiga, eu tenho uma sensação, eu escutando radinho em 62 ou 66. Eu me lembro que tinha um amigo, meu vizinho na Vila Olímpia, na Rua Doutor Vahia de Abreu, onde eu morava, a gente era amigo e eu me lembro da gente escutando no rádio a Copa. Eu tenho essa sensação, não tenho imagem. A primeira grande Copa que foi demais foi a Copa de 70 porque o Brasil foi campeão. Em plena ditadura militar, mas eu não tinha a menor noção da ditadura militar, eu acompanhei toda a Copa pelas ruas de São Paulo porque cada vez que o Brasil ganhava, São Paulo virava uma loucura.

Eu participei de duas Copas trabalhando, da França de 98 e do Japão/Coreia 2002. A Copa da França foi incrível. Porque eu tinha morado na França e falo francês.  Eu tinha um amigo meu francês, também diretor de documentários, que eu conheci na França e que estava morando no Brasil. Chamei o cara no ato, falei: “A gente precisa formatar um programa pelas cidades-sede francesas e fazer matéria de comportamento como eu faço pro Tá na Área”. Até cair a ficha, sei que a gente foi, eu fiquei acho que quatro meses viajando pela França. Foi alucinante porque a gente tinha conseguido muitas coisas in loco, não deu tempo de organizar, o celular ainda estava aparecendo, era tudo muito complicado, a produção. Quando aconteceu a Copa do Japão foi a mesma coisa, viajei antes, fui pra Coreia, viajei a Coreia inteira, o Japão inteiro, a mesma coisa. Em 2002 a Globo entrou em concordata, foi um negócio meio grave financeiramente, na bolsa, de Nova York, uma coisa maluca de dinheiro que eu nem entendo direito. A Globo foi reformulada e o SporTV idem.

Como torcedor não tem como não torcer.  Não tem esse negócio. Já tive umas Copas que eu falava: “Ah, quero que o Brasil perca”, já tive esse sentimento, tanto na época que não era tão ligado ao futebol, naquele intervalo, como na época ligadão profissionalmente. Chega lá você torce, nossa, é uma loucura, você quer que o teu time ganhe, vira aquela coisa.

Em 2002 foi mais tranquilão, foi bem mais legal porque vai ganhando, vai ganhando, vai ganhando e chega na final e ganha, é farra. Mas eu fiquei mais ligado na Copa de 98. A de 2002 não foi assim essa coisa, não foi mesmo. Gozado. Mesmo ganhando. Uma copa na França tem um charme indescritível.  O Japão nem de longe, é o país mais curioso que eu conheci, a Coreia não sou muito ligado, confesso, é bem estranho, tanto que eu conheci primeiro o Japão e depois fui pra Coreia, você estranha. O Japão é bem mais interessante do que a Coreia, culturalmente e tal. A da França, eu vi umas matérias incríveis. Eles foram pra uma floresta que eu não vou saber o nome agora, eles levantavam às quatro horas da manhã, de noite, durante um ano, frio pra caramba, iam correr. Qual o treinamento agora? Vamos correr até às seis da manhã, ficavam duas horas correndo. Eles levaram a Copa muito a sério, ninguém sabia disso, esse treino era secreto, eles estavam se preparando para ser campeões, só que tinha um time “menor”. E ninguém sabia do potencial do Zidane, do Zinedine Zidane que foi um monstro o cara, que acabou com o Brasil, foi o grande líder. Então, enquanto o Brasil ficava, eu ia no treino do Brasil, eu fui nos dois. Era um badalo. O Brasil poderia até ser campeão, mas ele tava muito badalado. Escola de samba em Paris, sabe, Joãosinho Trinta, era uma farra. Em Paris eu fiz várias matérias com Joãosinho Trinta. Ele montou um barracão nos subúrbios de Paris, um barracão de verdade, como se fosse um barracão aqui, com cara de barracão, cheio de brasileiro, que trouxe da Beija Flor. Eu fiz matéria com ele, cobri o desfile, obviamente, que ele fez, um desfile incrível, uma escola de samba. E fiz um programa especial que chamava Tá na Torre, porque eu era no Tá na Área. Foram duas grandes experiências porque eu me fortaleci muito como profissional porque tanto França ou Japão/Coreia eu continuei com minha linguagem, continuei o Alê Primo daquele jeito, repórter mais solto, pondo humor, conduzindo os gringos em situações, às vezes embaraçosas, não muito cotidianas pra eles que eles ficavam travados.

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