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Fundações que transformam

História de: José Climério Silva de Sousa
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Publicado em: 29/04/2020

Sinopse

José Climério nos conta como uma Fundação de um dos Bancos mais utilizado pelos brasileiros transformou a sua vida. Compartilha sua caminhada no Banco do Brasil, que começou com Menor Aprendiz até chegar à área financeira da Fundação Banco do Brasil. Após ingressar na Fundação, José Climério compartilha como aplicou os aprendizados sobre o meio ambiente em seu cotidiano. Relata sua visão sobre as cadeias produtivas do Brasil e acredita que a Fundação seja um grande agente de transformação social.

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História completa

P1- Bom, Climério, pra começar nossa entrevista, vou pedir pra você falar seu nome completo de novo, o local e a data de nascimento.

R- Muito bem. José Climério Silva de Sousa, é, nascido em Brasília em 26 de junho de 64. E, faltou alguma coisa?

P1- Não. [risos] Fala uma coisa, é, descreve um pouco, você que nasceu e cresceu em Brasília?

R- Sim. É, quer dizer, eu nasci em Brasília, período pós-revolução, é, revolução, Golpe Militar de 64. Nascido e criado, às vezes algumas pessoas ainda se surpreendem, né, quer dizer, como se não fosse normal encontrar pessoas nascidas em Brasília, se a cidade tem 46 anos. Mas eu sou nascido e criado. É, ingressado no Banco do Brasil em 1979, através de um programa que o banco possuía na época chamado “Menor aprendiz”. Então, eu sou radicado, nascido, criado e radicado na cidade.

P1- E, Climério, o que significava trabalhar no Banco do Brasil, quando você ingressou, em 1979?

R- Bom, quando eu entrei, foi uma coisa muito forte porque, como era um programa social, é, em princípio você entrava no banco, por um período transitório até os 17 anos e 10 meses, depois, saía, ou, se houvesse um aproveitamento em algum processo seletivo interno, poderia-se ficar no banco. Então, como tinha esse cunho social, pra mim foi um alpinismo social muito grande naquele momento, ou seja, eu morava na cidade do Gama, aqui em Brasília, e atendia os requisitos de carência econômica da família. Então, pra mim, foi de muita importância, foi através desse processo que eu fui andar de elevador e de escada rolante, né? Na época a área de recursos humanos do Banco do Brasil funcionava no edifício Venâncio 2000, que para a  época era um prédio moderníssimo, fiquei maravilhado de entrar, aos 15 anos de idade, numa instituição como o Banco do Brasil.

P1- O que você fazia, na época?

R- Bom, nessa época eu cuidava de reprografia, arquivos, é, enfim, tratamento de informação. E claro, embora não era previsto nas funções, mas, queira ou não, comprar um lanchinho pros funcionários, colegas, na lanchonete da Galeria dos Estados, já que eu trabalhava no Edifício Sede 1, e fazia algum ou outro afazer em banco, alguma coisa fora do... na agência do banco ou até fora do banco, embora isso não era, em princípio era vedado, mas na prática acabava acontecendo uma vez ou outra.

P1- E, a gente vai fazer um salto, né, eu queria que o senhor falasse um pouco, assim, de quando e por que você veio pra Fundação Banco do Brasil.

R- Bom, é um salto grande, né, porque aí já estamos em 2004, é, agosto, setembro, acho que agosto. Recebi um convite para um processo seletivo. Eu era gerente da agência Pátio Brasil, aqui em Brasília, e recebi um convite para participar de um processo seletivo para diretor de área. Fiquei muito satisfeito por ser da forma que foram, processos seletivos. Foram selecionados, quer dizer, primeiro eu recebi o convite para encaminhar o currículo se desejasse participar. Então, fiquei sabendo depois que receberam cem currículos. Desses cem currículos, 20, através de um consultor, foram chamados para uma entrevista. Desses 20, cinco foram entrevistados pelo presidente e pela diretoria da Fundação, entre os quais o presidente Jacques. É, desse processo, o escolhido foi o colega Edvaldo, mas, ato contínuo a esse processo, surgiu uma vaga na diretoria que ocupo. Então, como foi em seguida, a Fundação achou por bem se valer do mesmo processo seletivo, então houve duplo aproveitamento; o Edvaldo foi pra área de gestão de pessoas, que era o processo pelo qual eu havia participado, e eu, num mapeamento de competências, como sou formado em administração e ciências contábeis, e também com pós-graduação em finanças, fui escolhido pra diretoria financeira da Fundação, na seqüência do mesmo processo, que aconteceu tudo juntinho aí.

P1- E aí você começou nessa época.

R- E aí, cheguei aqui em 27 de setembro de 2004, é, e, de certo modo, até com uma preocupação, porque, até então, os afazeres do dia-a-dia nunca me levaram pra ocupação social, com uma responsabilidade socioambiental empresarial. Então foi interessante porque mexeu com os meus próprios valores, né, hoje, eu brinco que já sou até militante religioso, participo de movimento de casais da igreja, e eu atribuo, de certo modo, essa minha inclinação e essa mudança de estilo de vida e de valores com a minha entrada na Fundação, porque eu deixei de ser apenas executivo de um conglomerado financeiro, para atuar numa instituição do terceiro setor, também foi a primeira vez que ouvi falar do termo “terceiro setor”. E hoje tô muito satisfeito, é desafiador porque tem dificuldades de empresa e tem responsabilidades nobilíssimas num país ainda tão desigual como o nosso, ainda tão necessitado de instituições fortes capazes de promover uma modificação desse quadro.

P1- Legal. Climério, é, a tua área, qual que é hoje, assim? Passou pela reestruturação, né, tem...

R- Passou, é...

P1- Recente.

R- Digamos assim, ela acabou voltando ao que era. Então, a minha diretoria é financeira, mas por trás de termo financeiro tem finanças, controladoria e controles internos, tá? Os controles internos são os que saíram e voltaram, então a gente, nessas três vertentes, espera apoiar a direção da Fundação, prover à direção da Fundação com informações que lhe sejam relevantes e úteis pra ela cumprir o seu papel de forma satisfatória.

P1- É, frente aos projetos que a Fundação desenvolve, vocês têm alguma ação de suporte, como é que…?

R- Tem alguma coisa. Para que os projetos ocorram, a gente depende muito da rede de agências do Banco do Brasil, que é uma forma de a Fundação estar, como se fossem braços da Fundação, lá, o mais próximo possível do empreendimento social. Então, a gente se vale da rede de agências, e aí a minha área entra muito nessa articulação, nessas negociações com o banco pra refinar procedimentos, porque é uma empresa que tem um banco e, ao mesmo tempo, é como se a gente fosse uma instituição com mais de três mil pontos e escritórios em todo país. Então eu procuro, depende da minha atuação, das minhas equipes, nesse relacionamento com o Banco do Brasil, pra coisa fluir bem, que funcione direitinho aqui.

P1- Vocês dão algum suporte pro pessoal que trabalha nos projetos, internamente? Externamente seria junto a essa capilaridade do próprio Banco do Brasil, que é gigantesca, né? E internamente, tem?

R- Internamente, digamos assim, com mão na massa, como poderíamos dizer, não, por conta do processo que a gente lida, né?

P1- Tá, entendi.

R- Mas à frente lá, eu procuro sempre vender, passar pras minhas equipes a ideia de que nós temos que atuar aqui numa forma colaborativa, ou seja, as áreas condutoras de projetos sociais precisam que toda a estrutura da Fundação funcione pensando, principalmente em quem tá lá dependendo da Fundação. Nem sempre a gente consegue, mas, se a gente não tiver essa preocupação o tempo inteiro, aí é que as coisas não vão acontecer mesmo. Então, procuro dizer pra eles e praticar que a gente tem que vender facilidades, que a gente tem que dar soluções, e numa visão de cliente-fornecedor, ou seja, internamente, é, institucionalmente a Fundação tem milhares de clientes lá, que dependem dos empreendimentos; e, internamente, essas áreas da Fundação que lidam diretamente com os beneficiários de projetos sociais, eles precisam de nós, da área de suporte, mas nós temos que ter essa preocupação de efetivamente viabilizar o trabalho da Fundação para com essa clientela externa, né?

P1-  E me fala uma coisa, assim, tem algum projeto que você conhece da Fundação que você acha interessante, assim, do seu ponto de vista, que você tenha mais paixão?

R- É, particularmente, tenho uma paixão maior pelas cadeias produtivas, principalmente de recicláveis, porque acho que o problema ambiental tá presente no dia de hoje, quanto mais o país cresce, mais ele produz... é, é, vamos chamar de lixo, né? E, claro que o ideal é que nós não tivéssemos ninguém que dependesse desse “lixo” pra viver, mas, por outro lado, nós podemos sim fazer com que as pessoas sobrevivam com dignidade se valendo de reciclagem de resíduos sólidos, que é o que a gente chama da cadeia que se ocupa ali do lixo. Mas, têm outras cadeias também fantásticas, né, como do caju, do mel, ou seja, eu acho muito bonito, porque é o tipo de trabalho que efetivamente modifica a situação depois. Acredito que as cadeias produtivas são, na minha opinião, as que mais têm condição de deixar uma modificação mais palpável; embora uma pessoa que seja alfabetizada, também a modificação é fantástica, transforma. Mas, fascina-me mais, talvez pela minha própria origem, tive uma origem economicamente desfavorável, mas não, eu fui alfabetizado criança e estudei normalmente. Então me identifico pelo fato de o conglomerado Banco do Brasil proporcionou a mim uma transformação social efetiva. Claro, pela questão econômica, né, me permitiu uma ascensão econômica que, a partir dela, eu pude prover todas as minhas necessidades. Até lembro que, só voltando um pouquinho, né?

P1- Não, fiquei à vontade.

R- Que o meu, felizmente as minhas cáries puderam esperar eu ter o meu trabalho, senão eu teria perdido dentes, né? Então... E é verdade, aos 15 pra 16 anos, a primeira vez que eu fui ao dentista para um trabalho preventivo, um trabalho de restauração. E se as cáries tivessem me alcançado mais cedo, talvez não tivesse condição de tratar a minha necessidade dental. Então, voltando, é, realmente eu, é a primeira vez que me faço essa pergunta, que me é feita essa pergunta, e eu respondi, então tô respondendo com o que me saiu agora. Eu realmente acho que o que mais me fascina são as cadeias produtivas e, em particular, a dos resíduos sólidos.

P1- É, essa fascinação mudou alguma coisa, assim, no teu cotidiano, assim, de tratar com a questão do lixo?

R- Sim.

P1- Impactou na tua vida, na tua família?

R- Sim, hoje, é, não, quer dizer, não só lixo, mas questão ambiental como um todo. Hoje, na minha casa, empreendi ações que permitissem reduzir o consumo de água e energia, porque o Brasil depende fundamentalmente de água; a questão do lixo, tentar ser mais racional na produção de lixo. Tento passar isso pros meus filhos e na Fundação também tenho a preocupação com o que a gente desperdiça aqui de papel, por exemplo, gostaria que, não só eu, mas outras pessoas também, a gente gostaria que a Fundação tivesse condição de usar o papel reciclado, mas a gente enfrenta algumas dificuldades por causa do processo de compra do banco, mas gostaria que... Eu tenho vontade de ver a Fundação usando papel reciclado, pelo menos a Fundação, porque, se, de repente, pro Banco do Brasil ainda não é viável por questão econômica, mas gostaria de encontrar uma forma viável para a Fundação não usar papel branco, pela toda questão ambiental que está por trás e porque se estivéssemos usando papel reciclado e tivéssemos condição de, no processo de compra também, determinar que a matéria prima desse papel reciclado fosse adquirida junto a cooperativas, estaria fechado o ciclo, né? E é bacana, porque a gente vê o papel, todo o conglomerado por inteiro, porque o Banco do Brasil hoje tá, nessa questão social, ele tá por inteiro, porque a gente tem uma cadeia produtiva que consegue mudar a situação social da pessoa. A pessoa que tá fora do sistema econômico passa a ter uma renda, pode, de repente, se tornar um cliente atendido pela Fundação, passar a ser um cliente do Banco Popular do Brasil, e se ela crescer mais, ela se torna cliente do próprio Banco do Brasil. E aí ela produz um lucro, que retorna de novo para a Fundação, para atender outras parcelas da população que estão naquela situação, daquele que já tá proporcionando resultado pra sociedade.

P1- É também uma cadeia, né?

R- Uma cadeia.

P1- De valores, mais de valores, talvez...

R- Seria uma espécie de cadeia produtiva do lucro, né, cadeia produtiva do lucro social.

P1- Então tá.

R- Mais ou menos assim, eu to formando esse nome agora.

P1- Nossa, fantástico! Se você fosse... pra gente tá acabando, Climério... se você fosse traduzir a Fundação em algumas palavras, pra você, que que ela significa?

R- É, eu diria que é um instrumento poderoso de transformação e que eu diria que se, quanto mais sucesso ela tiver, mais fica perto do seu fim. O ideal é que não houvesse necessidade dela existir, mas torço pra que seja eficiente, que outra fundações surjam e que as necessidades, hoje, essas desapareçam, porque no dia que isso acontecer, talvez, aí, assim, a gente vai estar num país mais justo socialmente, menos desigual, e sem necessidade de agentes de transformação como a Fundação.

P1- Fantástico. Em nome, então, da Fundação Banco do Brasil e do Museu da Pessoa, eu agradeço a sua entrevista.

R- Eu é que agradeço também a oportunidade de poder contribuir com o registro histórico de toda essa experiência que não é só minha, aliás, que é minha por pouco tempo, que é de todos nós. Obrigado.


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