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Funcionário nº 1

História de: Jayme Ramalho Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Seu Jayme nasceu em Itaquari, um distrito do município de Cariacica, no Espírito Santo. Seu pai morreu afogado quando ainda tinha dois anos de idade. Sua infância em Itaquari foi de muito sacrifício com a sua mãe e duas irmãs. Até que seu tio Ramalho o buscou, passou a residir na casa dele em Aimorés. Assim como o seu tio e o falecido pai, também foi trabalhar na estrada de ferro Vitória-Minas. Começou como aprendiz, passou para limpador de locomotiva e por força de boa vontade foi transferido para o cargo de telegrafista. Também trabalhou como auxiliar noturno em estação e com apenas 26 anos, tinha mais de 400 homens trabalhando sob a sua responsabilidade. Seu Jayme foi transferido para Vitória, esteve presente nos primeiros passos da construção do Porto de Tubarão, com muito orgulho foi o primeiro funcionário na época. Casado e pai de sete filhos, e muitos netos, só espera ter saúde para comemorar bodas de ouro e continuar apostando no jogo do bicho.

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História completa

P/2 - Seu Jayme, fale o seu nome, local e data de nascimento?

 

R - Jayme Ramalho Filho

 

P/1 - Onde o senhor nasceu?

 

R - Nasci em Itaquari, município de Cariacica.

 

P/1 - A data?

 

R - 17 de 12 de 19, 1919.

 

P/1 - O nome dos seus pais?

 

R - O meu pai chamava-se Jayme Neves Ramalho

 

P/1 - Sua mãe?

 

R - Adélia Ramalho Tavares.

 

P/1 - O senhor se lembra do nome dos seus avós?

 

R - Leopoldo Ferreira Tavares parte da minha mãe. E por parte do meu pai, ele suicidou-se em Portugal em 1883. 

 

P/1 - E qual era a atividade dele?

 

R - Meus avós, os portugueses?  Ele era ministro. Ele combatia pela lei marcial, queria acabar com a lei marcial em Portugal. Então ele estava com o compadre dele que era seu secretário, Antônio Pereira Ramalho. Aí chegou um emissário: "Doutor Cassiano, a polícia está procurando o senhor e mais o Francisco Pereira Ramalho!" Aí na mesma hora, a igreja ficava pertinho de onde ele morava lá em Portugal; "Fala lá com o padre mandar uma batina pra mim". Aí mandou a batina, e o que ele fez? Ele refugiou-se pra Espanha. Mas __________ e coisa e tal todo mundo chegava lá: "Cadê doutor Cassiano?" "Ele tá na Espanha." "Nós estamos sentindo tanta falta, coitado! Doutor Cassiano era um homem tão bom, fazia tanta caridade à gente aqui, tudo direitinho!" É, mas ele tá lá." No outro dia chegava outro lá. "Doutor Cassiano?" "Ah, tá na Espanha." E depois chegava outro lá também; "Não tem jeito de você me dar o endereço dele lá, não?" Aí deu o endereço, bateram língua né, era o tal do FMI. Aí escreveram pra ele que ele podia retornar, que a situação... ele queria acabar com a lei marcial. Aí ele voltou! Quando ele chegou no porto, a polícia... aí ele meteu o revólver na coisa e se suicidou, isso em 1983!

 

P/1/2 - E o seu pai, o que fazia?

 

R - Meu pai coitado, deixaram meu pai lá entregue a uma pessoa. Ele vestido de padre falou: "O Jayme fica aí, tão logo normalize a situação, eu escrevo pra vocês e vocês bota Jayme aí, de volta." Ué, ele se suicidou! Aí meu pai veio embora, com 9 anos, veio com o secretário dele, esse tal de Francisco Pereira Ramalho, por isso que eu tô dizendo que eu não tenho nada de Ramalho.

 

P/ 2 - O nome "Ramalho" é por causa do secretário? 

 

R - É!

 

P/2 - E ele veio pro Brasil com esse secretário?

 

R - Quem?

 

P/2 - Seu pai.

 

R - Ah, o meu pai veio com 9 anos. Eu tenho tudo direitinho, passaporte, tem tudo.

 

P/2 - Aí ele veio pra onde aqui no Brasil?

 

R - Ele veio com esse cumpadre, o tal Francisco Pereira Ramalho, pra estrada de ferro Maricá, no estado do Rio. De lá a estrada de ferro Vitória-Minas precisava de gente, então tinha gente fazendo pesquisa lá, aí ele veio e entrou na Vitória-Minas. Ele foi o primeiro maquinista.

 

P/2 - Em que ano?

 

R - Isso em 1901. O primeiro maquinista em 1901.

 

P/1 - O senhor nasceu em que cidade?

 

R - Eu nasci no município de Cariacica, Itaquari. Mas me registraram lá em Aimorés.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Minha mãe era muito bairrista!

 

P/2 - Sua mãe era de Aimorés?

 

R - Não, mamãe era de Itaquari, município de Cariacica.

 

P/2 - E ela não gostava de Itaquari?

 

R - Não, não!

 

P/2 - Seu Jayme, como era Itaquari na sua infância?

 

R - Itaquari era atrasado, muito atrasado.

 

P/2 - Quais eram as brincadeiras de infância?

 

R - Ah, minha filha, se eu falar a verdade à você. A minha mãe, eu e duas irmãs, a ________, me criou com o maior sacrifício! Eu pra poder viver e ajudar minha mãe coitada, não tem estrume de boi? Aquilo _______________, parecia cera, né? Dia de domingo eu acordava 4 horas da madrugada e ia vender pão. Quando acabava de vender pão eu ia vender refresco, lata de limonada. Não tem aquelas cinco pontes? Eu trabalhei nas cinco pontes, naquela época, levava carrinho de brita, na construção das cinco pontes! Ganhava 200 réis, cada carrinho de brita, pegava lá! 

 

P/1 - Mas isso o senhor já tava morando onde?

 

R - Itaquari.

 

P/2 - O seu pai ajudou a construir a estrada de ferro...

 

R - O meu pai morreu afogado!

 

P/2 - Conta essa história do seu pai.

 

R - A Cachoeira escura era terrível. Era tão terrível que jogava fumaça longe! Aí eles saíram pra pescar. Ele fez uma farra muito grande lá em Valadares. Ele cantava muito bem, era um português que cantava muito bem, tocava violão muito bem. Fez a maior farra dentro de Governador Valadares em 1922. No dia 30 de outubro. Ele morreu dia primeiro de novembro. Ele fez a maior farra lá na casa do senhor (Lídio?) Cabral. Falou: "Prepara amanhã, na minha volta, nós vamos fazer uma serenata aqui." Por que ele cantava muito bem, tocava muito bem, era um português muito inteligente. "Vou pescar uns surubins e nós vamos fazer uma farra aqui!" Aí ele foi, mas quando chegou lá, ele olhou e falou: "Ih credo! A vara principal eu esqueci, lá no trem da locomotiva!" Era uma vara comprida. "Vai lá apanhar." Aí ele foi, chegou a andar assim uns vinte metros. "Ué, cadê o Jayme?"  Chegou lá, coitado, tá ele batendo n'água. Tivesse uma corda jogava e salvava ele. Escorregou no limo. E foram achá-lo três quilômetros abaixo! 

 

P/1 - Ele fazia o quê na companhia, qual era o serviço do seu pai?

 

R - Ele era maquinista.

 

P/2 - E Cachoeira Escura era uma estação?

 

R - Era uma estação, o final da linha!

 

P/2 - Quantos anos o senhor tinha quando ele morreu afogado?

 

R - Eu tinha 2 anos, não cheguei a conhecer.

 

P/2 - E o senhor foi criado por quem?

 

R - Pelo meu tio, Antônio Ribeira Ramalho.

 

P/2 - Ele também trabalhava na Vale, mais tarde?

 

R - Trabalhava, ele era chefe de depósito da estação Aimorés.

 

P/2 - E o senhor morava na casa dele ou na casa com a sua mãe?

 

R - Morava na casa dele!

 

P/2 - E a sua mãe?

 

R - A minha mãe ficou em Itaquari. Por que o velho Ramalho foi lá me buscar.

 

P/2 - O senhor tinha irmãos?

 

R - Eu tinha três, mas morreram. Só tinha uma irmã.

 

P/2 - E seus irmãos ficaram com a sua mãe ou foram juntos pra casa do...

 

R - Não, só eu só! Os outros ficaram. Três morreram!

 

P/2 - Pequenos?

 

R - Pequenos, pequenos.

 

P/2 - E quando o senhor muda, onde e como era a casa dessa pessoa que criou o senhor?

 

R - Ah, casa muito boa!

 

P/2 - O senhor lembra como ela era por dentro?

 

R - O velho Ramalho, esse que me criou, ele fez a maior ingratidão comigo!

 

P/2 - Por quê?

 

R - Porque de manhã cedinho eu tirava leite das vacas, vendia, ajudei a construir três casas e ele me deserdou! Um maquinista um dia passando virou: "Ô Jayme, cê não sabe da maior: seu Ramalho te deserdou, passou tudo o que tinha no nome da Magnólia!" Falei: "Não tem problema não, eu tô vivendo até hoje!" A minha irmã falou: "Grande coisa, Jayme!" Minha irmã ganhava um dinheirão, ela era enfermeira da INPS. Ganhava um dinheirão naquela época. Falou: "Grande coisa!" "Mas você não precisa?" "Não preciso!" Aí essa mulher que vivia com o velho Ramalho... mas Deus não quer nada mal feito, virou: "Ih, Jayme, agora que eu vim tomar conhecimento, o Ramalho passou tudo pro meu nome. Você não tem conhecimento com o juiz de direito, não?" Eu falei: "Dona Alice, de ter, tenho. A senhora sabe, juiz hoje anda dentro de bar, bebe cachaça com todo mundo!" Mas naquele tempo juiz andava com o anel aqui ó! Aqui, e pra conversar com ele precisava muita audiência! Aí eu, infelizmente, vou lá conversar com ele. Fui lá, ele chegou: "O senhor é pessoa interessada?" "Olha doutor, eu sou e não sou, por que o seu Ramalho era meu tio. Aí tocou a campainha, lá vem o secretário. "Apanha aquela pasta de inventários lá!" Aí tá lá: Antônio de Oliveira Ramalho, português, não tem para quem deixar... Aí, "Para aí, para aí! Tá muito bem entregue à pessoa que ficou. Ela que cuidou dele até a hora da morte, tá muito bem entregue!" Aí o juiz perguntou: "O senhor tem mais irmãos?" Se eu falasse que tinha o meu cunhado ia botar banca, né? "É eu sozinho!" Aí pronto.

 

P/2 - Em que cidade era que o seu tio Ramalho morava?

 

R - Aimorés.

 

P/2 - Quando o senhor entrou pra companhia estrada de ferro Vitória-Minas?

 

R - Eu entrei em primeiro de janeiro de 1936, não 1938. Por que antigamente na Vitória-Minas, dois anos não contavam, ficava como confiança.

 

P/1 - Como assim?

 

R - Era confiança!

 

P/1 - E o senhor fazia o quê, seu Jayme?

 

R - Na carteira tá primeiro de janeiro de 1938. 

 

P/2 - O que o senhor fazia lá?

 

R - Entrei como aprendiz. Depois fui promovido a limpador de locomotiva.

 

P/2 - E depois?

 

R - Depois, sem nunca ir na estação, peguei um aparelho pica-pau e comecei a aprender. O pessoal até achava graça lá! "Esse cara tá ficando doido!" Nunca fui na estação praticar. Aí eu tava lá, o aparelho chamou. Baixo Guandu chamando Aimorés. Aí eu fui lá e atendi. "A Y, A Y." Aí o agente virou: "Ué Jayme, cê sabe telegrafia?" Aquele tempo era difícil, né? Falei: "É aprendi por força de boa vontade!" Aí na mesma hora fizeram uma correspondência pra Vitória, pra chefia e me transferiram. Telegrafista.

 

P/2 - O senhor pode fazer como é que era?

 

R - De madeira, pica-pau.

 

P/2 - E não falava nada, só batia?

 

R - Qualquer coisa, passava telegrama, transmitia o telegrama, tudo, tudo, tudo.

 

P/1 - Era o código morse?

 

R - É o morse. Telegrafia morse.

 

P/2 - É difícil, o senhor aprendeu sozinho?

 

R - Força de boa vontade!

 

P/2 - E o senhor estudou?

 

R - Depois passei a ser inspetor geral.

 

P/1 - Inspetor geral de quê?

 

R - Por que tinha os trechos. E cada trecho tinha um inspetor. Por exemplo, o primeiro trecho era de Pedro Nolasco até Baixo GuandU. O segundo trecho de Baixo Guanduj até Valadares. O terceiro trecho de Valadares a Desembargador Drumond. E eu era inspetor geral, eu mandava em todos eles.

 

P/2 - Quem era o dono da companhia nessa época?

 

R - Os donos? Era o doutor Francisco Pereira Nolasco.

 

P/2 - Ele era o proprietário?

 

R - Era o proprietário.

 

P/2 - Antes da Vale?

 

R - Antes, ou ainda antes, antes! Que estrada de ferro Vitória-Minas chamava-se estrada de ferro Diamantina. Tanto que a primeira estação não era Pedro Nolasco, era... Eu falei o nome dela ainda há pouco. Era São Carlo!

 

P/2 - E quantas cidades tinham ao longo da linha?

 

R - Naquele tempo, onde meu pai morreu, Cachoeira Escura. Lá era o final da linha.

 

P/2  - E quanto tempo demorava?

 

R - Ah, era um Deus-nos-acuda!

 

P/2 - Conta um pouco por quê?

 

R - Muita curva, muita rampa. Puxava só seis carro! 

 

P/1 - E como era a bitola?

 

R - A bitola era igual à bitola de trilho. No muito uns 10 centímetros. Depois é que foi melhorando.

 

P/2 - E como era o trem, o vagão?

 

R - Ah, era tudo de madeira.

 

P/1 - E a locomotiva?

 

R - A locomotiva, maria-fumaça!

 

P/1 - Quem embarcava no trem?

 

R - Tinha o condutor, o ajudante de bagageiro e o fiscal entrava no meio do trem sem ninguém saber, pra dar incerta. Ver ali se estava com o...

 

P/1 - Quem usava esse trem, viajava no trem. Pra que o trem servia?

 

R - Tinha maquinista, foguista e graxeiro.

 

P/2 - E era um trem de passageiro?

 

R - É.

 

P/2 - Não tinha minério nessa época?

 

R - Não, não. O Cauê, a jazida do Cauê foi descoberta em 1970. Ô, 1930. O Cauê. Mas depois de muita bomba, dinamite e coisa e tal, aí começou o transporte de caminhão. Isso em 1940. Eu ajudei muito a jogar pedra de cima da plataforma pra coisa. Começou em 1940. Pela rodovia. Caminhão pegava 4 toneladas só. 

 

P/1 - Ia pela rodovia?

 

R - Ia pela rodovia. Até a estação de Drummond. De Drummond pra baixo descia de trem.

 

P/1 - E quando descia o trem ia até aonde?

 

R - Vinha aqui pra Vitória.

 

P/2 - Seu Jayme, na estrada de ferro tinha índio, alguma coisa assim?

 

R - Tinha!

 

P/2 - O senhor chegou a ter contato?

 

R - Com índio? Tinha (crenaque?).

 

P/2 - Conta um pouco.

 

R - Era aterro guarani, lá em (crenaque). Guarani.

 

P/2 - Como é que era o contato com eles?

 

R - Eles pouco atravessavam pra banda de lá. Ficavam sempre do lado do rio. Não tinha contato quase nenhum não.

 

P/2 - E bicho, inseto, doença assim... malária, cólera, essas coisas tinham?

 

R - Malária era o fim do mundo. Tinha uma estação chamada Alfredo Maia. Dava febre à dois por um. Ipatinga, a mesma coisa! E febre maligna. Cê não aguentava, aquela gosma. A gente tomava muita febrina. Tinha, como se diz, enfermeiro visitava toda semana.

 

P/2 - O senhor ficou doente alguma vez?

 

R - Ah, fiquei!

 

P/2 - O quê o senhor teve?

 

R - Tive a tal da febre maligna. Coisa terrível!

 

P/2 - O senhor foi auxiliar noturno na estação?

 

R - Eu trabalhei como auxiliar apenas quatro anos. Quando foi determinada época, chamaram o agente de Barbado que era uma estação muito trabalhosa. Era estação de ______ de lotação, por que o trem dali pra cima corria pouco. E era pouco vagão. Aí um dia chamaram lá…

 

R - Aí o Lisboa virou e falou: "Vão me deixar na mão!" "Mas porquê seu Lisboa?" "Ah um período desse, minhas filhas tão estudando, tão no ginásio. Nós não tamo em período de férias. Se vocês permitirem eu vou indicar uma pessoa pra estação Desembargador Drummond." "Quem é?" "Jayme Ramalho Filho que trabalhou comigo. Eu assumo toda e qualquer responsabilidade por ele!" "Ah, mas o Jayme é muito novo! Jayme está com 26 anos. A estação de Drummond vai trabalhar com mais de 400 homens sob a responsabilidade dele!" "Pois é o único que vai resolver o problema de lá!" Aí me transferiram pra lá. Drummond era entroncamento. Pra cima Nova Era era Central do Brasil. Aí eu cheguei lá em Drummond, falei: "Vou lá em Nova Era." Fui lá em Nova Era, o agente era muito meu amigo, o Malaquias, o seu Homero Moreira. "Ô Homero, eu queria que você me apresentasse o agente de Nova Era, pra gente dialogar, ver o que tá havendo, o que precisa aquela coisa e tal." "Vamo lá!" Aí ele foi lá e me apresentou o agente, chamava Malaquias. Aí ele olhou pra mim e falou: "Nossa Senhora, esse rapaz é muito novo pra trabalhar aqui, numa estação como esta, com mais de 600 homens sob responsabilidade desse rapazinho aqui!" Aí eu falei: "Malaquias, eu vim aqui exatamente pra você citar o problema da sua estação, enquanto eu cito o problema da minha. "Ó Jayme, aqui é o seguinte, a minha caixa-d'água você tá vendo aí ó! Chega a locomotiva pra tomar água, acabou a água. Lenha, não encontro fornecedor. Eu suprimo trem um atrás do outro!" "Pois tá bem , Malaquias. Então se o problema é esse tá tudo resolvido. Cê pode mandar o trem, toda as suas locomotivas vão tomar água lá em Drummond, a caixa d'água lá é muito grande, o rio era de frente, não tem problema. Pode mandar lá! Lenha também, pode mandar pra lá, mas manda o pedido por escrito pra mim fazer na parte de área. É só esse o problema Malaquias?" "Só! E o seu?" "O meu é o seguinte: eu tenho um trem que sai 4 horas, tem que trazer o pessoal pra Nova Era, trabalha em Drummond, mas mora aqui. Drummond não tem recurso. Daí fica no sinal toda a vida e não consegue chegar lá. E depois eu fico o dia todo pesando vagões na balança. Quando eu peço licença lá em Nova Era o telegrafista da Central do Brasil pergunta: "Quantos carros tem aí?" "Tantos carros!" "Ah não, eu só recebo tantos carros". "O problema é esse!"" Falei então: "A partir de hoje você dá antes quantos carros vai levando, aberto e fechado, tudo direitinho pra num ter problema." Aí acabou o problema.

 

P/2 - Tinha muito acidente com os trens?

 

R - A Companhia Vale do Rio Doce tinha adquirido uns carros chamados (Weder?). Esses carros descarrilhavam de uma estação pra outra mais de 20 vezes!

 

P/2 - Quando a Companhia comprou esses carros?

 

R - Ela comprou esses carros, mais ou menos, 1945, eu tava em Drummond. 1937 por aí assim.

 

P/2 - E o senhor se lembra quando a Companhia encampou a estrada de ferro Vitória-Minas?

 

R - Ah, não lembro não!

 

P/2 - Não o ano.

 

R - Por que era estrada de ferro Vitória-Minas, aí passou a ser Companhia Vale do Rio Doce.

 

P/2 - O quê que mudou?

 

R - Mudou por que foi mudando de presidente. Apareceu um presidente e achou de botar o nome Companhia Vale do Rio Doce. Quando eu lembro do doutor Schettino.

 

P/2 - Pras pessoas que trabalhavam não teve muita mudança? Pros trabalhadores da estrada de ferro?

 

R  - Não, não. Tudo passou direto pra Vale do Rio Doce. Não teve indenização, nada, nada.

 

P/1 - Quando o senhor foi transferido pra Vitória?

 

R - Eu vim pra Vitória por que o meu chefe era muito meu amigo mesmo! Aí o doutor Hildes chegou: "Jayme, cê dá um jeito de pedir sua transferência prum lugar de recursos. Por que o parto da sua mulher vai ser um parto muito complicado!" Aí o chefe lá era muito meu amigo, eu levei ao conhecimento dele e na mesma hora me transferiu. Aí fui pra Vitória e pronto! Aposentei lá. Aposentei aqui! Aí eu vi fundar o Tubarão.

 

P/1/2 - Ah, viu fundar e como é que foi. Conta essa história.

 

R - Essa história minha filha... Eu legalizei tudo, até os terrenos todos. O falecido doutor Hélio Ferraz virou pra mim e: "Jayme, dá um jeito de acertar esse negócio aí, desmembrar." Mas o governo podia, pra utilidade pública, baixar um decreto-lei, não é isso? Mas no final doutor Hélio disse: "Não, o terreno todo! Legaliza ele tudo direitinho." Aí nós começamos a construir Tubarão. Quando eu levei a escritura, tudo direitinho, começamos a construção de Tubarão.

 

P/1 - O senhor é o funcionário número um de Tubarão?

 

R - É, o número um. Eu fui o primeiro funcionário a botar os pés aqui dentro! MInha matrícula era 80.001.

 

P/2 - Por que é 80.001 e não 1?

 

R - Porque o número começava por 80.000. Por isso o meu era 80.001!

 

P/2 - O primeiro funcionário?

 

R - O primeiro funcionário! Ó, você quer ver uma coisa? Vou te contar uma coisa interessante. Apareceu aqui um tal de mister Bráulio pra fazer o organograma da companhia. Aí eu tava tirando cinco férias acumuladas. Eu tinha dois caminhões de transporte lá em Manhuaçu. Aí eu fui pra lá e coisa e tal, cuidar da minha vida particular. Tava tirando cinco férias. Aí o mister Bráulio chegou perto do doutor Hélio: "Doutor Hélio..." Não, era doutor (Branner?). "Doutor (Branner?) eu vou entregar o organograma da companhia, menos daqui!" Não, era doutor Hélio mesmo! "Menos do porto." "Mas porquê?" "Por que até agora não consegui localizar o pessoal." Por que tinha o chefe de serviços de estação, o tal de José Abreu, ele só mexia com maquinista, só! Negócio de pessoal de estação era tudo comigo. Aí doutor Hélio virou: "Ô Abreu, onde é que anda Jayme?" Aí telefonaram lá pra casa, a mulher virou: "Ele tá lá em Manhuaçu." "Manda buscar ele com urgência aqui! Por que o doutor Bráulio veio falar comigo que o organograma, ele iria mandar pro presidente da companhia. Mas o nosso não ia por falta de informação." Aí me chamaram lá no hotel, eu atendi; "Ô Jayme, pra você descer com urgência, já tem um auto de linha lá em Valadares te esperando!" Aí eu vim que vim embora! Aí o mister Bráulio tá lá, fazendo pergunta: "Fulano de tal, o que ele faz aqui?" Aí eu dizia a matrícula todinha e a função dele. Aí daqui a pouco ele falou pro doutor (Branner?): "Esse homem aí parece que tem um computador na cabeça! Ele sabe tudo direitinho, até a matrícula, o que o sujeito faz, tudo direitinho!" Aí fui embora.

 

P/2 - Que cargo o senhor tinha na época da fundação de Tubarão?

 

R - Inspetor geral.

 

P/1/2 - Como era Vitória na época?

 

R - Vitória? Tem um ditado que diz: Vitória é a cidade presépio do Brasil. Era uma porqueira! (risos). Não valia nada, uma porqueira!

 

P/2 - Por que o senhor fala isso?

 

R - Só dava vagabundo, não gostava de trabalhar, não gostava de nada.

 

P/2 - O senhor fica no cargo de inspetor muito tempo?

 

R - Ah, eu vou te explicar. Eu fui obrigado a me aposentar. Aposentei antes do tempo, não devia ter aposentado. Se não eu tinha valia, tinha tudo. Mas, o que aconteceu? Eu pedi um empréstimo à fundação Vale do Rio Doce, a mandado de um amigo meu, aí tá lá! Deu o  primeiro mês, não saiu o empréstimo. Deu o segundo, não saiu o empréstimo. Deu o terceiro também não saiu o empréstimo. Nossa Senhora! Aí eu entrei na mão de um agiota a mandado do chefe da fundação Vale do Rio Doce. "Jayme faz igual os outros. A sua verba já foi aprovada. Apanha, quando sair você paga todo mundo." Deu tudo, tudo errado. Aí o que é que eu fiz? Aposentei, recebi um prêmio gordo como o diabo naquela época, depois é que sustaram.

 

P/1 - Quem era o presidente nessa época?

 

R - Era o doutor Schettino. Aí eu falei; "Tá danado!" Quando foi um belo dia, me apareceu um carrasco lá, por que todo militar é carrasco, todo militar é carrasco! Chegou lá na minha casa; "É seu Jayme, o senhor empregou só material de primeira aqui, hein?" Aí quando ele ia saindo eu puxei o paletó dele assim. "Guarda Valter, quando é que o senhor vai liberar minha verba?" Ele virou pra mim com a cara mais cínica. "Seu Jayme, se o senhor tinha verba particular eu não vejo razão da fundação liberar verba pro senhor!" "Peraí doutor Valter,  peraí !" Fui lá, apanhei as notas fiscal todas. "Tá aqui." Aí o falecido doutor Hélio virou, chamou doutor Daniel: "Ô Daniel, vem cá! Vamos salvar o Jayme aí! Vamos tirar um empréstimo pra ele liquidar esse negócio aí!" Eu falei: "Não doutor Hélio, o senhor tem sua família, eu não vou sacrificar o senhor, doutor Daniel também tem a dele, eu não vou sacrificar. Eu já tenho o meu tempo de casa. Eu aposento, recebo o prêmio da Vale do Rio Doce, líquido todo mundo, pronto!" Assim eu fiz. Peguei um prêmio grande, grande, grande!

 

P/1 - Era que ano isso?

 

R - Em mil novecentos... eu tinha a carteira de aposentadoria aqui, 1948, 1945. Em 1959!

 

P/ 1- Quem era o presidente na época?

 

P/2 - Mas seu Jayme, o senhor não veio aqui pra Tubarão em 1966?

 

R - Tubarão, eu vim pra aqui isso era tudo mato!

 

P/2 - Mas aí o senhor já estava aposentado?

 

R - Não, não! Eu aposentei. O falecido doutor Hélio falou: "Você tá muito novo pra se aposentar. Vai assinar um termo aqui, toda a vez que a companhia precisar do seu serviço você tem que voltar!" Aí eu assinei um termo e não fiquei nem três meses. Aí voltei ganhando o dobro. Aí eu preparei maquinista, guarda freio, condutor, como supervisor deles todos.

 

P/2 - Entendi!

 

P/1 - Mas o senhor não veio pra cá, no porto, como inspetor?

 

R - No porto? Secretário do superintendente, o Hélio da Costa Ferraz.

 

P/2 - Conta um pouco pra gente do seu Hélio, como era?

 

R - O homem mais trabalhador, mais exigente que apareceu aqui no porto de Tubarão. Os outros que tiveram aqui, José de Oliveira Carvalho e o Otávio Figueiredo eram turista! Eles eram turistas! O Hélio não! Ele me deu toda e qualquer liberdade pra resolver tudo!

 

P/2 - Conta aquela história que tinha só um jeep e uma caminhonete aqui.

 

R - O jeep era da elétrica e a caminhonete era pra ir a nutricionista e a telefonista. Um dia quebrou a caminhonete aí o Sabino telefonou: "Ô Jayme, como é que eu vou fazer pra levar a nutricionista e a telefonista?" "Pega o jeep! Quando foi passar a mão no jeep, Darci Provedel: "Quem é que deu ordem?" "Foi o seu Jayme." Subiu igual a um… Aí eu falei: "Vai lá e fala com o doutor Hélio!" Doutor Hélio virou: "O Darci, aqui não tem condução específica não. Aqui é pra atender Tubarão e tá acabado! O Jayme tá certo, num se mete com o Jayme não, o que ele faz aqui eu aprovo!"

 

P/2 - Depois o senhor falou que a companhia comprou dez carros.

 

R - O Eliezer era casado com uma alemã. Ele toda a vida falou comigo, quando nós viajávamos e íamos tomar cachaças, o diabo a quatro, ele virou pra mim e disse: "Jayme, eu nunca na minha vida me casarei com mulher brasileira. Mulher brasileira é preguiçosa!" Ele foi lá pra Alemanha. Aí o que ele fez? O sogro dele era dono da fábrica da volks, de fusquinha. Aí comprou doze fusquinhas! Aí eu distribuí pra todos os engenheiros! Aí apareceu um tal de doutor Aguirre, chegou lá, telefonou pro Sabino. "Sabino, manda um fusquinha desse lá atender minha família." A mulher dele gostava de jogar baralho, era viciada como o diabo! Aí Sabino virou: "Doutor Aguirre, só com ordem do seu Jayme!" "Ué, por que eu vou receber ordem do seu Jayme? Eu sou engenheiro, superior à ele!" "Bom, só com ordem dele ou não mando não!" Aí o doutor Aguirre subiu: "Ô Jayme, desde quando você tem poderes de impedir de mandar um carro que fique à minha disposição?" Entra aí, fala com o doutor Hélio. "Ô Hélio, o Jayme proibiu de mandar carro pra atender minha família!" "Ô Aguirres, porque você não manda o seu? Cê tem um fusquinha, manda o seu, que ele tá certo. Aqui não tem carro exclusivo pra ninguém, manda o seu!"

 

P/2 - Seu Jayme, queria que o senhor contasse sobre a morte do doutor Hélio? 

 

R - Doutor Hélio morreu... Vieram três engenheiros da Companhia Aratu, na Bahia. Aí o doutor Pipa falou: "Ô Hélio, você é presidente de honra da Desportiva Futebol Clube." "Ih rapaz, é mesmo! Você deixe os três engenheiros da Aratu que eles vão comigo!" Aí por infelicidade coitado, ele saiu na kombi de contra-mão. Aí vem o carro do Golias, que trabalhava com nós, pega a kombi e ele salta. Pra assumir a responsabilidade, por que ele era um homem muito correto. Saltou pra assumir a responsabilidade da batida. Aí vem o carro do Golias, pega ele, prensou ele... quebrou o escroto todo e pronto! Aí telefonaram pra nós, pra mim, Jacir Paradiso: "Ô Jayme, doutor Hélio faleceu!" "Faleceu o quê rapaz, tava comigo agora!" Uma coisa horrível, triste!

 

P/1 - Ele morreu na hora?

 

R - Morreu na hora.

 

P/2 - Foi naVale o acidente? Dentro da companhia?

 

P/1 - Foi lá fora que ele morreu?

 

R - Foi numa rua. Ai meu Deus do céu, ao lado do supermercado São José! Em Vitória.

 

P/1 - Como era a relação com o doutor Hélio?

 

R - Nós era igual pai e filho! Ele me dava toda e qualquer autorização. Aqui tinha uma empresa, a empresa capixaba. Um dia mandou a fatura, olhei a fatura, hora trabalhada tanto, hora não trabalhada, tanto. Não vou passar visto nisso aqui não, mandei chamar o dono da empresa, o Lauro. "Lauro vem cá, que negócio é esse? Hora trabalhada, tanto. Hora não trabalhada, tanto! Se você pega os ônibus e manda fazer a linha, se fica só a disposição daqui de Tubarão, tá certo! Não vou pagar não." "Ah seu Jayme, então o senhor não vai achar gente pra trabalhar aqui, atender Tubarão!" "O quê!? Se eu abrir concorrência agora aparece mais de vinte!"

 

P/2 - Os ônibus eram pra quê?

 

R - Pra atender o pessoal de Tubarão! Saía 4 horas. Outra turma entrava a noite. Revezavam. Mas os ônibus dele não trabalhavam só com essa finalidade não. Atendia aqui e ia trabalhar na linha, fazer a linha dele. Por isso que eu cortei.

 

P/2 - O minério, antes de escoar por Tubarão, escoava por onde?

 

R - Antes de Tubarão? Minério não tinha.

 

P/2 - Não tinha minério?

 

R - Era só mercadoria diversa.

 

P/2 - Só depois de Tubarão é que começou exportar minério?

 

R - Só depois de 1940.

 

P/2 - O senhor lembra quanto de minério era exportado?

 

R - Um milhão e meio, por ano! Por ano!

 

P/1 - Um milhão e meio de toneladas?

 

R - É, por ano!

 

P/1 - Como é que carregava o navio?

 

R - O navio carregava no cais de… Capuaba! O nome do cais era Eumenes Guimarães. Foi nosso engenheiro aqui.

 

P/1 - Como é que punha o minério no navio?

 

R - Ah, tinha o tal de (cumper?), jogava dentro do trem.

 

P/1 - O que era o (cumper?)? Era uma máquina?

 

R - Era uma máquina, o tal de (cumper?). Parecendo uma draga.

 

P/2 - Os navios, como eram?

 

R - Ah, navio era muito pequeno! O navio maior, eu cheguei a conhecer, chamava Ripon. Pegava 90 mil toneladas só!

 

P/1 - O senhor lembra quando começaram as obras aqui do porto?

 

R - Aqui começou em mil novecentos… Eu saí em 1957. O jubileu de prata tá ali… Meu filho, filho da mãe saiu. Eu queria parar a coisa, ele saiu. 

 

P/2 - Como construíram o porto, as obras?

 

R - Ah menina, teve uma vez, vou começar por etapas. E tem uma ordem da companhia, todo processo que tinha anexo, o sujeito era obrigado a retirar e assinar: retirei o anexo. Então no segundo píer, veio croquis lá do Japão. Aqui tinha um tal de doutor Leitão que era o diabo, não dava obediência a ninguém. O que ele fez? __________ bateu na mesa dele, ele tirou os croquis que estava anexado e não deu ressalva. Aí doutor Hélio me chama "Ô Jayme, nós estamos em dificuldade pra construir o segundo píer, porquê? Não tem croquis!" "Ué, não tem croquis? Manda ir atrás do doutor Leitão! Por que ele tirou e não dá obediência a ninguém! É o único! Ele já pediu divisão da companhia." Aí mandaram atrás do doutor Leitão, lá na sua terra, lá em São Paulo. Chegou lá, tinha o endereço tudo direitinho, dei. Ele foi lá e trouxe os croquis. Aí começou a construir o segundo píer. 

 

P/2 - Seu Jayme, o senhor foi na inauguração do porto?

 

R - Vim, foi uma maravilha!

 

P/2 - Teve festa? Conta um pouco!

 

R - Teve. Tinha mais de 5 mil pessoas. Eu fui homenageado, recebi brinde, uma placa de prata folheada à ouro. Tudo isso. Foi um festaço!

 

P/2 - O que o senhor achou de terem construído o porto de Tubarão?

 

R - Ah, foi uma maravilha! Esse terreno todo aí, eu que cuidei! Cuidei tudo, tudo, tudo. Legalizei o terreno, pra depois começar a construir o porto.

 

P/2 - O porto ia trazer muitos benefícios pra companhia?

 

R - A companhia me deu de tudo! Vários presentes, de valor, relógio Rolex de ouro! Tudo.

 

P/2 - E depois de Tubarão, o que mudou em Vitória, a cidade cresceu com o porto?

 

R - Ah, cresceu, claro! Tinha muito movimento. Por que tinha e companhia de pelotização, tudo isso!

 

P/2 - Os navios foram crescendo?

 

R - O navio era pequeno!

 

P/2 - E depois?

 

R - Depois passou a pegar navio de quase 1 milhão de toneladas. Só navio grande!

 

P/2 - Quando o senhor saiu da empresa?

 

R - Eu aposentei em mil novecentos... ué. Eu entrei 1938. Eu aposentei em 59!

 

P/2 - Depois o senhor volta, né?

 

R - Voltei pra preparar uma turma de maquinistas, guarda freio, condutor.

 

P/2 - Quando o senhor parou de vir na companhia?

 

R - Não parei não! (risos)

 

P/2 - E como é que o senhor vê a companhia hoje?

 

R - Não existe outra no mundo! O maior porto do mundo é esse aqui! O meu filho trabalhou lá em Carajás, no porto da Madeira,  Ilha da Madeira lá em Carajás! Mas esse aqui é o maior porto do mundo!

 

P/2 - O que significou pro senhor trabalhar na Vale?

 

R - Eu trabalhei pouco na Vale. Poucos anos. Eu fui obrigado a aposentar.

 

P/2 - O senhor trabalhou mais na estrada de ferro?

 

R - Ah, bom demais!

 

P/2 - E o que significou pro senhor trabalhar lá?

 

R - Lá eu era inspetor geral, né? 

 

P/2 - Além desse filho o senhor tem outros parentes que trabalham na Vale?

 

R - Não, só tive um filho só.

 

P/2 - Ele já está aposentado?

 

R - Tá aposentado há muito tempo. Aquele ganhava bem!

 

P/2 - Ele atuava em que área?

 

R - Pra lhe falar a verdade, ele era mais que um diretor da Companhia Vale do Rio Doce. Porque tudo era com ele. Ía com a pasta, chegava no Rio, doutor Schettino, aqui eu resolvo, agora ____________ o ministro das Minas e Energia. Segue pra Brasília. Aí ele ía pra Brasília. Ganhava muito bem, muito bem!

 

P/2 - Fala o nome dele.

 

R - Antônio Vítor Ramalho.

 

P/2 - E a sua esposa, quando o senhor conheceu?

 

R - A minha esposa, se eu falar o nome da rua (risos) cê vai dar risada!

 

P/2 - Como era?

 

R - Cu do boi! (risos). Lá na rua cu do boi!

 

P/2 -  Como é que foi, o senhor olhou pra ela? Ela olhou pro senhor?

 

R - O meu sogro riquíssimo, aí nós... Namorei com ela por coincidência. Por uma mera coincidência!

 

P/2 - Por quê?

 

R - Porque eu comecei a namorar com a irmã dela! (risos) Aí casei com ela! Essa irmã até mora em São Paulo! Mora lá na rua Matarazzo.

 

P/2 - Como chama a sua esposa?

 

R - Zélia Gomes Ramalho.

 

P/2 - E vocês moram juntos, quem mora na sua casa hoje?

 

R - Moramos. Eu, ela e esse filho mais velho, Antônio Vitor, que está separado da esposa. E o meu caçula que é cantor e compositor. Três.

 

P/2 - Teve festa de casamento?

 

R - Ô se teve! (risos)

 

P/2 - Quem pagou a festa? O pai dela?

 

R - Tudo de graça! Tinha um cara em João Leiva, naquela época, chamava-se João Perereca. Ele tinha o jazz, tinha tudo e foi tocar lá! Aí dançamos a noite toda!

 

P/2 - O senhor era jovem, todo bonitão quando se casou?

 

R - Só usava terno branco.

 

P/2 - Como os jovens se vestiam na época?

 

R - Pra falar a verdade pra você eu tinha o ponto certo pra deixar minha roupa! (risos) Eu só usava terno branco! Só terno branco!

 

P/2 - E quantos filhos o senhor teve com a dona Zélia? Sete filhos?

 

R -  Tive a Adélia, a mais velha, Célia, Ana Maria, a preta Maria de Fátima e a Rita que morreu de acidente coitada! Tive seis filhos com ela, seis mulheres!

 

P/2 - E netos?

 

R - Ah, netos tem um monte!

 

P/2 - Como é o seu dia e dia hoje?

 

R - Hoje eu não faço nada! (risos) De jeito nenhum. Assisto o Jornal Nacional. Acabou o jornal nacional, ó! Cama! Quando tem futebol... Eu hoje estou satisfeito. Parece que o Vasco bateu no Cruzeiro. Quando eu saí de lá nós estávamos batendo de um a zero. Agora não sei como é que está.

 

P/2 - Se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o senhor mudava?

 

R - Eu não, eu quero viver muitos anos ainda. Já falei e torno a dizer: Deus vai me dar vida e saúde pra mim fazer as bodas de ouro aqui em Tubarão! E falta pouco, não falta muito não.

 

P/2 - Com certeza!

 

R - Faltam sete anos só!

 

P/2 - Inteiro do jeito que o senhor tá!

 

R - Eu tô com 83. Eu tenho colega com 97 anos. Um agente de Itabira, Gessi, tá com 100 anos, todo ____________, mãozinha aqui!

 

P/2 - Seu Jayme, quais são os seus sonhos? Projetos de vida?

 

R - Meu projeto é só jogar no bicho. Sou viciado pra diabo! (risos)

 

P/2 - O senhor já ganhou alguma vez?

 

R - Já!

 

P/2 - Então tá rico!

 

R - Já ganhei dinheiro que deu pra comprar gado como diabo! Tá tudo lá em Itabira. A minha filha, a preta, essa que tá lá em Bahrein. Eu joguei lá, o cara veio me pagar: "Ó seu Jayme, tá aqui o dinheiro. Uma importância como essa não manda pagar pelo cambista não. Tá aqui o dinheiro!"  Dinheiro pra diabo! Deu pra comprar gado! Aí eu mandei tudo pra Itabira.

 

P/2 - Fala um pouquinho da sua filha, que tá lá na Arábia Saudita com o marido, o que ele faz lá?

 

R - Ela agora tá aqui. Ela tem cinco lojas aqui. Ela tá aqui. O marido voltou pro Bahrein. E ela vai voltar daqui a 3 meses.

 

P/2 - O que ele faz lá?

 

R - Ele é diretor executivo da maior pelotização da Companhia Vale do Rio Doce. Ele é obrigado a ficar lá cinco anos pra se aposentar. Bahrein fica entre o Kuwait, essa do Saddam Hussein, Iraque, Arábia Saudita, tudo isso.

 

P/2 - A gente tá terminando a entrevista, o que o senhor achou de contar a sua história de vida pra nós?

 

R - Tá bom, tá ótimo, muito bom! Muito aproveitado viu, eu agradeço muito a vocês. De todo o coração a consideração que vocês tiveram comigo.

 

P/1/2 - Nós é que agradecemos! O senhor quer colocar mais alguma coisa?

 

R - Não, não.

P/2 - Obrigada seu Jayme!



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