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História

Frutos de um berço cultural

História de: Gabriela Salles Argolo Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/01/2021

Sinopse

São Paulo. Santo Amaro. Música. Artes. Meio artístico. Volei. Educação Física. Pedagogia. Professora. Casamentos.Mudança de cidade. Filhos. Coordenadora Pedagógica.

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História completa

 

P/1 – Eu vou pedir pra você contar o seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – Gabriela Salles Argolo Costa, eu nasci em São Paulo em 07 de abril de 1973.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais, Gabriela?

 

R – Meu pai é Ruben Argolo e a minha mãe é Sandra Salles Argolo.

 

P/1 – Qual que é a atividade profissional deles?

 

R – Meu pai é radialista, trabalha na TV Cultura já há mais de 20 e tantos anos, encarregado de produção lá dentro. E a minha mãe já é aposentada, mas era secretária.

 

P/1 – E onde que eles nasceram? A gente colocou na ficha, mas é pra a gente ter isso gravado.

 

R – O meu pai é baiano, nasceu em Salvador, e a minha mãe é paulistana, nasceu aqui em São Paulo.

 

P/1 – Você se lembra do nome dos seus avós dos dois lados?

 

R – Lembro. Meu avô era Feliciano Argolo e a minha avó Firmina Argolo, parte do meu pai. E da minha mãe é Norma Salles e Willian Salles.

 

P/1 – Você sabe qual que era o trabalho deles? Dos avôs e das avós?

 

R – As minhas avós do lar. O meu avô por parte de mãe morreu ela era muito jovem, mas ele era descendente de árabes e eles tinham muitas lojas em Santo Amaro, então provavelmente ele trabalhava nas lojas da família.

 

P/1 – Do lado da tua mãe?

 

R – Mãe... O meu avô, mas ele morreu minha mãe era muito jovem. O meu avô...

 

P/1 – Loja do quê?

 

R – Devia ser de móveis, esses árabes que tem loja de móveis e eles tinham muitas lojas ali em Santo Amaro. Agora, a minha mãe foi sempre arrimo de família por causa dessa saída, a morte do meu avô muito cedo. Agora, do meu avô paterno eu não me lembro.

 

P/2 – Você sabe como os seus pais se conheceram?

 

R – Sei. Eles se conheceram numa academia de capoeira aqui no... A história deles é bem bacana: Meu pai era hippie, com a família do meu pai e as minhas tias todas no movimento... Do Golpe de 64, e meu pai veio pra Salvador morar na casa dessa irmã aqui em São Paulo e dava aulas de capoeira. Um dia desses a minha mãe conheceu algumas pessoas da academia e foi pra academia e o conheceu.

 

P/1 – Começou a fazer capoeira, foi aluna dele?

 

R – Não chegou a fazer capoeira, mas se conheceram ainda... Eles ficaram juntos sete meses, aí ela engravidou e casaram. Casaram, ele foi embora pra Bahia, voltou, aí eles namoraram um pouco, ela engravidou e aí eles casaram. Mas namoraram sete meses só, estão casados há 37 anos.

 

P/1 – Você estava falando dos avós, você falou do avô por parte de mãe e o avô por parte de pai que é da Bahia você não chegou a conhecer.

 

R – É. O avô Feliciano não, porque ele já era bem mais velho. Meu pai é o caçula de oito filhos, nove filhos. Então, quando eu... As imagens que eu tenho dele, ele ficou muito tempo acamado, ele já estava na cama. Então, isso não ficou pra mim o que... Eu tenho histórias dele assim, muito de valores, do que era importante, valores morais. Família de protestante, meu pai nunca foi protestante, mas meu avô e minha avó eram. Então, eu tenho muitas histórias que o meu pai conta de situações de valor moral que eles pegavam no pé. Eu vejo muito na minha história hoje, na história junto com o meu pai. Mas são as histórias que ficaram. Essa da profissão não.

 

P/1 – Tem alguma que você...

 

R – Tem. Tem uma que é muito... Meu pai achou um dinheiro num ponto de ônibus e meu avô fez ele voltar com o dinheiro e ficar lá esperando no ponto de ônibus que provavelmente essa pessoa ia voltar pra procurar porque ia precisar desse dinheiro. A pessoa voltou e ele entregou o dinheiro de volta. Então, era muito assim de ser uma pessoa correta e muito solidária. Isso sempre foi muito forte na família do meu pai, de ser solidário com o outro. Ter pouco, mas o pouco que tem se alguém precisar... Solidário, generoso, isso foi sempre muito forte. Então, são valores que eu vejo na atitude, tudo que meu pai foi falando na minha formação, isso estava carregado desses princípios.

 

P/1 – E a origem do lado da tua mãe é árabe, a origem da família que veio da Bahia qual que é a ascendência?

 

R – É espanhola. Mas assim, espanhol... A minha avó era cabocla, eu tenho parentes negros. Minha avó assim, eu tenho uma tia bem morena, meu pai tem cabelo bem cacheado, minha avó era cabocla. O sobrenome é espanhol, mas meu avô era descendente de português. Então, tem uma mistura aí que a gente não sabe como se deu. Agora, do lado da minha mãe, meu bisavô era italiano. De história das pessoas que vieram da Itália e tem uma família bem loira de olho azul assim, bem... Você vê que é descendente bem dessa época da imigração no Brasil.

 

P/1 – E a tua família guarda alguma tradição desses dois lados? Uma tradição árabe ou espanhola ou italiana? Tem alguma coisa, algum traço?

 

R – Não que eu perceba. Nada. Não ficou. Não ficou mesmo.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho uma irmã. Uma irmã mais nova, quatro anos mais nova.

 

P/1 – Você que veio primeiro?

 

R – Eu vim primeiro. Fui eu que fiz o casamento acontecer.

 

P/1 - E o que ela faz?

 

R – Minha irmã se formou em Educação Física e hoje ela joga futebol. Já foi jogar na Itália, foi jogar em um monte de... Foi duas vezes pra Itália, jogou aqui no Brasil também e hoje ela trabalha na área, faz treino de futebol e trabalha com ginástica laboral, mas ela é da área de esporte, fez Fisioterapia. Tá na área de educação também, mas voltada pra área do esporte.

 

P/1 – E onde que você morou na tua infância?

 

R – Eu morei ali em Interlagos. Não em Interlagos mesmo assim, não sei se vocês conhecem, mas a região de Santo Amaro sempre. Foi onde eu sempre andei.

 

P/1 – Ah tá. Sempre por lá?

 

R – É. Eu estudei ali em Santo Amaro, todos os meus amigos eram daquela região. Até hoje tem uma turma grande desse espaço.

 

P/1 – Como era onde você morava? Você se lembra como era a tua casa, como que era a rua?

 

R – É a mesma casa que hoje a minha mãe ainda mora. É um sobrado, não é uma casa grande, a gente nunca foi de uma condição financeira exorbitante. Era um sobrado, vivemos nós quatro, sempre tivemos cachorro. Meu pai e minha mãe sempre receberam muita gente, eles são muito de muitos amigos, nunca... Se vai fazer um churrasco tem ao menos 30 pessoas. Então, é sempre a casa muito cheia, sempre com muitos tios, porque você chama todo mundo de tio, mas de sangue mesmo tenho dois. Então, a casa sempre cheia, a rua gostosa, rua calma, conhecendo os vizinhos, os vizinhos fazendo parte.

 

P/1 – Você brincava na rua?

 

R – Brinquei muito na rua. Brinquei muito antes dessa casa até. Numa outra que a gente morou. Muito assim, muito...

 

P/1 – Antes dessa?

 

R – A gente andava de bicicleta... É. Essa casa eu fui já era mais mocinha, devia ter uns 11 anos. A gente morou, quando fui um tempo pra Recife, moramos um ano e pouco em Recife, quando eu tinha sete anos. Meu pai foi transferido pra lá, nessa época ele trabalhava com músicos. Aí a gente foi pra Recife um ano e meio.

 

P/1 – Mas essa primeira casa que vocês moraram era também em Santo Amaro?

 

R – Era também em Santo Amaro. Mas era numa região...

 

P/1 – E como que era essa primeira casa?

 

R – Acho que esse é o lugar que eu mais tenho lembrança, porque é onde eu comecei a crescer, aí eu fui pra primeira escola... Nessa época ainda estudava em escola pública e todos os amigos, os vizinhos iam pra mesma escola, aí a tarde voltava, eu ia brincar. Eu ficava com a minha avó, minha mãe trabalhava fora e meu pai também. Então, a minha avó levava a gente pra escola, depois minha avó pegava e ela cuidava de mim e do meu primo. Então, eu tenho muita lembrança de voltar da escola, minha avó dar o almoço, aí a gente ficar assistindo sessão da tarde um pouco. Lembro muito de sessão da tarde.

 

P/1 – Na sua casa?

 

R – É. Ficar assistindo... Na casa da minha avó, porque a minha avó morava perto de casa. Ficar assistindo sessão da tarde e aí depois ir brincar na rua, que era essa rua que podia brincar, que não tinha problema.

 

P/1 – Do que vocês brincavam?

 

R – Bicicleta, eu brincava de casinha, eu brincava de subir na árvore pra ver os meninos do outro lado da rua, quando já estava mais mocinha. Brinquei muito de boneca. Eu fui bem menininha assim, eu lembro bem. Eu vejo algumas menininhas cheias de coisinha cor de rosa, cheia de coisinha. Eu era esse tipo de menina. E depois mocinha eu não podia ver um menino perto que eu já estava querendo saber onde estavam os meninos.

 

P/1 – Era cheia de festa a sua casa?

 

R – Era. Sempre com bastante gente assim, bastante... Muito animada. Como meu pai trabalhava com música, ele trabalhou com Vinícius de Moraes, Chico Buarque, na produção dos shows deles, então meu pai tem até hoje disco de vinil. Aí ele punha, nos finais de semana ele punha essas músicas e ficava dançando com a minha mãe, e colocava eu e a minha irmã em cima do pé dele também pra dançar junto com ele. Então, a gente foi aprendendo a dançar assim. Então, a gente dançou, chegava final de semana era uma animação o tempo todo. Eu estranhei muito quando eu percebi que os meus pais tinham ficado mais velhos, porque tinha uma coisa muito jovial deles o tempo todo. Eles são muito moços, a minha mãe casou, me teve com 20 anos. E aí quando eu percebi que eles estavam ficando mais velhos, estava mudando o tipo de balada que acontecia em casa. Eu tomei um susto. Já era mocinha. Aí eu fui entender, mas é que eles estão ficando mais velhos também. Vai mudando. Mas até hoje é assim, se chamar pra alguma coisa eles vão estar junto, vão animar. Se eu for fazer um jantar pra mais pessoas em casa, meu pai é que cozinha em casa. É baiano, gosta daquelas comidas, ele cozinha bem pra caramba. Aí é meu pai que vem, ele que cozinha pra mim, me ajuda na cozinha. A minha mãe fica na organização do geral. Mas são pessoas bem importantes na minha vida até hoje.

 

P/1 – Você ficou até os sete anos nessa primeira casa?

 

R – Não. Eu fiquei nessa casa até mais. A gente foi pra Recife, voltou e aí já devia ser uns 11 anos que eu fui pra essa outra. Já tinha uns 11, 12 anos que eu fui pra essa outra que é a que a gente mora hoje, que eles moram hoje.

 

P/1 – E aí como é que foi essa ida pra Recife? Você tinha um monte de vínculos aqui e foi pra lá. Como foi isso?

 

R – Eu não me lembro da tristeza de ir, coisa assim. Eu me lembro de lá, da liberdade que era. Engraçado! Porque aqui já tinha a liberdade, mas não sei se era a coisa da praia, da minha mãe não trabalhar. Porque lá o período que a gente foi, a minha mãe não trabalhava. Isso é uma marca pra mim, que hoje até carrego culpa por causa dos meus filhos também. Porque eu me lembro da satisfação de eu chegar da escola e a minha mãe estar em casa. Então, ficou uma marca muito grande pra mim isso, de chegar e... Até nos períodos que a minha mãe ficou desempregada que eu chegava em casa e ouvia o barulho da panela de pressão. Olha que loucura. Eu falava: “Gente, minha mãe tá em casa”. Aquilo me dava uma satisfação de saber que a minha mãe estava. Então, ficou muito essa lembrança de minha mãe me levar pra escola, minha mãe me pegar na escola. A escola era em frente ao apartamento, era um apartamento que a gente foi, e da sala da minha escola eu via às vezes a minha mãe na janela. Então, ficou essa lembrança. Eu sofri muito mais pra voltar do que eu lembro pra ir.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

 

R – A gente ficou um ano e meio.

 

P/1 – Você tinha...

 

R – Sete, até oito e pouquinho. Eu voltei já pra segunda série aqui na escola.

 

P/1 – E o que você achou de morar lá? Como que era morar lá? Você se lembra?

 

R – Ah, era muito bom. Eu só tenho sensação boa, gostosa, de um tempo feliz. Porque acho que devia ser assim que estava pros meus pais também. Uma coisa nova, já tinha grandes expectativas pro meu pai. Então, a gente tinha uma condição... Tinha empregada lá, porque a empresa deu toda uma condição pra a gente... Aqui na nossa situação que tinha. Mas eu me lembro de um momento muito feliz, minha irmã era pequena...

 

P/1 – Aqui ele trabalhava com produção...

 

R – Produção de show. Aqui também.

 

P/1 – E lá também ele foi fazer isso?

 

R – Também. Ele trabalhou com esses... Como é que chama? General Lacerda, com esse povo também. É muito engraçado que eu canto, às vezes toca essas músicas eu saio cantando. O povo: “Da onde que você conhece essas músicas?” “Ah, nem te conto”. Porque eu sei muito mais. As músicas muito que você só escuta lá no Largo 13 assim, bem lá no... Ou lá na 25 de Março e eu saio cantando. Dessa época que o meu pai trabalhava com as produções. Eu participei de clipes do Villa Lobos. Essa formação que os meus pais deram, de transitar desde essa música considerada menos ali, que não é, porque é tão rica quanto. E ver o Villa Lobos, participar de um clipe do Villa Lobos tal, fez muita diferença, que eu vejo hoje no meu filho, na formação que eu tento dar pra ele.

 

P/1 – O que você fez no clipe do Villa Lobos?

 

R – Era “Grande Circo Místico”. Era o CD “O Grande Circo Místico”. Eu não lembro. Lembro que tinha uns negócios lá no chão, a gente estava de camiseta branca e uma porção de coisas coloridas e na abertura do CD, que hoje eu sei que é a abertura, a gente tinha que pular, sair pulando essas coisas de almofada assim. Mas muito divertido.

 

P/1 – Deve ter tido uma formação musical tão...

 

R – Grande. E meu padrinho também. O meu padrinho é, não sei se vocês conhecem, saiu daqui da Vila, ele é o presidente do PV, o Pena.

 

P/1 – Ah sim, claro.

 

R – Que foi assim, foi quem instituiu a Feira da Vila aqui na Vila. Eu vim muito, eu vendi coisa na feira da Vila novinha, bolo que eu fazia em casa. E ele é músico também. Músico e ator. Na época do Golpe também fez bastante... Teve peças que ele fez e eles... Meu pai quando veio pra São Paulo ele morou com a minha tia e morou com esse meu padrinho. Quando eles se casaram, juntaram, meu pai e a minha mãe, eles foram morar junto com esse meu padrinho. Então, é muito forte essa vivência assim cultural. Pra mim foi bem forte. Não tinha monte de grana pra esbanjar, mas cultura tinha. Então, foi bacana.

 

P/1 – Legal. E você se lembra da sua primeira escola? Eu vou voltar, agora você já foi pra Recife, eu vou voltar um pouquinho só pra...

 

R – Lembro. Lembro antes de Recife o meu prezinho, que era uma escola que chamava Peixinho Dourado. Eu lembro que tinha a tia Flávia que era a dona da escola. Era uma escola que tinha uma roda gigante. Era enorme pra mim, hoje deve ser pequenininha, porque eram só três lugares e rodava com a mão. Então, eu contava pra todo mundo que a minha escola tinha roda gigante.

 

P/1 – Gigante.

 

R – É. E minha mãe levava, não era perto da nossa casa, minha mãe de manhã me levava de carro. Esse lugar tem até hoje, ela parava dia sim, dia não numa vendinha, porque naquela época não tinha mercados, não tinha... Era uma vendinha e comprava um prestígio pra eu levar de lanche. E até hoje tem...

 

P/1 – Onde que era essa escola?

 

R – Lá em Santo Amaro também.

 

P/1 – Não era perto, mas era no mesmo bairro?

 

R – É. Era o mesmo bairro. Tinha que ir de carro ou de alguma condução. 

 

P/1 – E como que era?

 

R – E eu ficava meio período lá. É uma escola... Eu me lembro muito dessa época que eu estava aprendendo a ler e a escrever que eu ficava querendo escrever tudo. Lembro da formatura, não sei se porque tem foto, essa lembrança fica, mas da formatura que era um vestido vermelhinho que a gente usou. Mas eu gostava muito de ir pra lá. Mas o parque é o que mais ficou na minha lembrança. E essa coisa da minha mãe levar ouvindo no rádio “Vamos embora, vamos embora, tá na hora, vamos embora, vamos embora...”. Vocês lembram disso, ou não?

 

P/1 – Eu lembro.

 

R – Eu acho que a Fernanda não.

 

P/2 – Mas isso passa ainda na Jovem Pan a.m..

 

R – E aí comprava prestígio. É isso. E comprava prestígio pra levar de lanche.

 

P/1 – E vocês iam de uniforme? Ia só você ou você e tua irmã?

 

R – Não. Minha irmã acho que essa época ainda não ia. Era um uniforme. Era um shortinho vermelho, daquele shortinho fofinho que tinha e uma camiseta branca com um peixinho aqui na frente, peixinho dourado. Eu tenho o boletim e o diploma do prezinho, tenho até hoje que a minha mãe guardou. Era um peixinho.

 

P/1 – E você lembra como era a aula assim...

 

P/2 – As atividades…?

 

P/1 – As atividades. Não era aula ainda!

 

R – Eu me lembro de uma situação da minha professora, que quando eu fui professora eu nunca deixei isso acontecer, porque aquilo me magoou muito. Porque eu investi muito num desenho, eu pintando um desenho, fiz com o maior capricho, aí fui mostrar pra professora ela estava conversando com outra. Eu mostrei pra ela que eu tinha feito ela fez uma coisa assim: “Ah tá”. E continuou conversando com a outra professora. Aquilo me marcou tanto assim. Depois já adulta, já com faculdade tudo, eu fui pensando o que aquilo significou, que eu tinha investido tudo e a professora não tinha percebido que eu tinha investido, a conversa estava mais interessante lá com a colega. Mas eu não lembro muito. Dessa época, não. Eu lembro muito assim de como foi mesmo na primeira série, primeira e segunda série que eu tinha uma professora muito brava, que puxava a orelha porque a minha letra era muito pequena e era uma situação muito ruim que eu lembro. Eu adorava a escola, mas essa professora, eu gostava, porque a gente nunca admite que não gosta de uma professora, mas eu lembro que eu gostava, mas tinha medo dela porque ela puxava a orelha.

 

P/1 – Nessa mesma escola?

 

R – Não. Essa já era outra. Essa era só prezinho. Aí eu fui pra uma escola pública pra fazer o... Eu fiz de Fundamental I e II escola pública. Depois eu fui pra uma particular e depois ingressei na faculdade, fiz PUC. Nessa época eu lembro mais do tipo de lição que tinha, das continhas, eu resolvendo continha, das festas que tinha, a Festa do Sorvete, a Festa da Primavera, festa junina. Aí eu lembro bastante.

 

P/1 – Como que era a Festa do Sorvete?

 

R – Chegava o verão e tinha Festa do Sorvete. Olha que situação! Aí você ia, tinha... Era sorvete pra vender, eu não sei muito o motivo dessa...

 

P/1 – Era final de semana?

 

R – Era no final de semana. Mas a escola arrecadava dinheiro pra... Como chama? Que tem coisa de pais também, porque era a escola e o conselho de pais. Não é conselho de pais que tem em escola, é outro nome que tem. Chamava festa do sorvete.

 

P/1 – Então os pais se envolviam nas comemorações?

 

R – Envolviam-se nisso, nas comemorações. E lembro muito do hino, que a gente cantava o hino toda semana, tinha hasteamento da bandeira. A diretora entrava, a coordenadora, você tinha que levantar, essas formalidades eu lembro bastante, que a gente hoje... Eu não acredito que tenha na maioria das escolas, mas tinha. E lembro muito do meu pai. Meu pai, vocês já perceberam que aparece, tudo Freud explica: muito assim, ele em cima cuidando, “como está estudando? como não está?”. Na época de prova eu pedia pra ele me ajudar a estudar. Ficava brava porque ele ao invés de me fazer as perguntas que a professora passou, porque essa professora fazia muito isso, passava um monte de perguntas e você tinha que fazer as respostas e estudar. Ele não me perguntava a pergunta, ele falava a resposta e eu tinha que adivinhar qual era a pergunta. Eu ficava brava, a gente já também... Eu devia estar na sétima série que a gente encenou... Essa professora fez toda diferença na minha vida. O poema do João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina”. A gente encenou e tinha um menino da minha turma que desenhava muito e ele pegou todos aqueles painéis do Portinari dos retirantes e fez uma coisa absurda de linda. Eu queria hoje encontrar com ele pra saber o que aconteceu com ele. Hoje, é que eu vejo a grandiosidade do que ele fez. E depois eu fiz mestrado, eu pesquisei museus, pesquisei guarda de museu do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Fiz toda uma pesquisa da... Porque esse museu tem a fama de três guardas que eram considerados pelos outros, professores, porque eles iam à biblioteca do museu e depois explicavam pros outros guardas. O Museu de Belas Artes tem as grandes obras do Pedro Américo, que são das batalhas do Avaí, batalhas de... Então, eles explicavam e a eu fazia grupo de estudo na UNICAMP aqui de São Paulo, pesquisava lá e foi uma época que eu morei no Rio de Janeiro, isso eu já tô casada, já tô lá na frente. Mas assim, foi desembocar lá. Eu acho que toda essa minha formação estética e no geral, porque eu não penso só na estética e no visual, mas na música, nessa liberdade de pensar, de ver as coisas, desembocou um pouco no meu mestrado. Aí hoje na PlayPen todos esses eventos que tem, por exemplo, esse de 30 anos, as bienais sou eu que coordeno já há seis anos, porque é uma área que eu gosto muito.

 

P/1 – Mas voltando um pouco aí na fase... Na escola, você lembra como é que era as aulas, um pouco mais velha já, Primeira, Segunda série, Terceira, quais eram as atividades que tinham…?

 

R – Então, a gente tinha educação moral e cívica como disciplina, que era esse respeito à bandeira, tinha a coisa do patriotismo, acho que ali já estava instalada uma ditadura, então isso era bem importante de acontecer. O hino nacional fazia parte disso também. E era muito forte, porque é um conteúdo que ficou. Eu não lembro... Por exemplo, meu marido estudou na escola da polícia militar. Ele lembra muito de conteúdos que ele estudou, eu não lembro, não é tão forte pra mim o conteúdo, mas essas marcas dessa disciplina, por exemplo, foi bem forte. Mas de atividade específica não lembro não.

 

P/1 – Tinha uma matéria que você gostava mais de estudar?

 

R – Eu sempre gostei da parte de Humanas assim, História, Ciências, Língua Portuguesa eu gostava. Eu não gostava de Língua Portuguesa na análise sintática que a gente tinha que fazer, porque a gente não escrevia. Eu sempre adorei escrever até hoje, mas a gente não escrevia, a gente tinha que ficar fazendo análise da... Então, dessa parte eu não gostava. Essa era uma atividade que era o tempo todo saber qual era o predicado, o sujeito da oração. Eu tinha pavor daquilo e não sabia fazer, mas eu sabia que podia escrever e aquilo me incomodava. A gente nunca saía pra escrita assim, completamente diferente do que a gente ensina hoje na escola. Completamente diferente. Mas eu gostava muito. E Ciências quando eu tava na sexta, sétima série, a gente tinha um caderno que ela pedia pra... A gente tinha que ler uma reportagem, achar no jornal uma reportagem que fosse de Ciências e aí colocar nesse caderno e tinha todo o trabalho de resumo, o que aquela atividade... Isso também foi uma... Eu não me lembro de nada que me marcou, mas eu lembro que era uma área muito gostosa, porque cada um contava de uma descoberta nova que tava acontecendo. Não tem nada mais... Toda hora no jornal aparece uma descoberta nova. Então, também no futuro eu falei: “Essa professora era inteligente”. Mas de terceiro e quarto ano eu lembro da passagem, quando estava terminando a Quarta série para ir pra Quinta série que eu ficava muito aflita que não teria mais desenhos para colorir. Olha que loucura! Não teria mais desenho pra colorir porque aí a gente não era mais criança, não ia poder mais colorir desenho. Bem bobinha! Mas é o que eu me lembro dessa...

 

P/2 – E os amigos da escola? Amigas?

 

R – Fiz muitas. Tenho amiga até hoje dessa época de quinta série. Tenho outra que a gente é amiga, fez toda escola juntas desde os quatro. Mas você sabe que eu tive alguns problemas na escola de meninas quererem me bater? Eu vivi esse fantasma...

 

P/1 – É mesmo?

 

P/2 – Por quê?

 

R – Porque sei lá. Elas achavam que eu queria roubar os meninos delas. Eu devia ser muito namoradeira de ficar paquerando os meninos.

 

P/1 – Isso que idade?

 

R – Nossa, desde a quarta série. Porque eu estudei de primeira a quarta em uma escola e depois de quinta a oitava noutra. Eu lembro que nessa outra já tinha... Porque era escola pública. Tinha lá as pessoas do bairro que tinham um nível econômico ok, nada, mas eram... Mas eu tinha colegas que moravam em favela na faculdade. Eu me lembro de eu ir à casa de uma amiga na favela. Eu penso talvez que fossem essas... Ou por preconceito meu hoje de achar que eram meninas que eram da... Na época, eu achava que eram, que elas deviam ser faveladas. Aquela coisa que hoje não falo isso nunca mais na minha vida. Mas na época era essa lembrança que ficava. Essa foi uma lembrança que ficou muito assim, de outra menina querendo me pegar na rua.

 

P/1 – E chegou a pegar ou não?

 

R – Não. Ainda bem, mas eu morria de medo, era medrosa até.

 

P/1 – Mas você tinha um grupo de amigos?

 

R – Tinha. Tinha um grupo grande e acho que isso um pouco em função dos meus pais, eu juntei, sempre fui muito de agregar o tempo todo e de preservar. Então, eu tenho essas amigas até hoje. A gente tem mais de 30 anos já de amizade, porque vem lá desde os sete, oito anos e até hoje.

 

P/2 – Deixa só eu fazer uma perguntinha: você estudou um ano e pouquinho lá em Recife, teve diferença na escola, os colegas, a matéria, o uniforme? Porque mudou bastante.

 

R – Teve. Porque lá em Recife era uma escola particular também, então... E do prezinho também era uma escola particular. Então, as duas tinham assim, tinham condições diferentes. Eu lembro muito, essa de Recife tinha piscina dentro da escola, tinha aula de natação na própria escola, tinha outras atividades que a gente podia fazer. Eu lembro que os meninos podiam fazer futebol, que devem ser os cursos extras que a gente oferece hoje. Mas essa de Recife, acho que foi a escola nesse período com nível melhor, porque eu lembro bastante das questões de estrutura. As escolas estaduais o que tinham era assim: grandes bibliotecas, um espaço muito grande porque são escolas públicas daquela época que eram escolas grandes. As merendas que a gente tinha, eu sempre gostei, nunca achei ruim a merenda da escola. Mas essa diferença de conteúdo é que eu não lembro muito de todas elas, se tinha uma diferença de conteúdo. Não tinha diferença de.. porque eu acho que eu lembraria… de metodologia, sabe? De assim, era uma escola montessoriana e eu fui pra uma e senti a diferença. Isso não tinha porque seria difícil de esquecer. Pensando nas escolas hoje, porque elas, a de Recife eu não sei, mas as outras existem até hoje, era na linha mais tradicional mesmo.

 

P/1 – E você participava de atividades extras nas escolas que você frequentou?

 

R – E fui federada em vôlei, mas aí já também de quinta em diante, que eu entrei no time da escola e aí jogava pelo time da escola. A gente tinha que ficar depois do horário pra treinar, fazer as aulas de vôlei depois da escola só o time pra disputar os campeonatos pelas escolas estaduais que tinha. Eu joguei muito vôlei, até bem mocinha.

 

P/1 – A tua irmã... Talvez você tenha estimulado ela?

 

R – Minha irmã sempre foi mais moleca.

 

P/1 – Seus pais estimulavam esporte bastante? De onde que veio essa vontade de jogar vôlei?

 

R – Meus pais sempre estimularam. Meu pai e a minha mãe tinham muito assim de... Como eles durante a semana não ficavam com a gente, eu lembro muito de final de semana eles pegando a gente e indo pra USP andar de bicicleta, ou indo pra USP jogar futebol, porque meu pai jogava futebol com outras pessoas lá da USP. Então, é sempre um lugar aberto que o corpo tava em atividade, ou era com música, o corpo tava sempre em atividade. Minha mãe nunca foi grande esportista assim, mas meu pai vem, fez capoeira, jogava futebol. Hoje, não faz nada. Pra tirar o meu pai do sofá pra ir fazer alguma coisa é um sufoco. Mas ele foi. Tem foto no casamento dele ele jogando, com um black power desse tamanho assim, boca de sino desse, ele jogando capoeira no casamento dele. Então, acho que foi isso que estimulou. E meus pais nunca tiveram... não são pessoas preconceituosas. A minha irmã ir jogar futebol, qual é a da minha irmã... Nunca foi um problema. Então, eles estimularam e ela ia... Eu lembro muito a gente indo pro sítio, meus pais têm um sítio onde a gente vai desde a década de 80. Minha irmã jogava lá junto com os moleques, meu pai a colocava pra jogar junto com ele, saía xingando, jogava e... É que não vai pra frente no Brasil o futebol, então ela tá lá só patinando. Mas a gente... Era um espaço aberto dentro de casa.

 

P/1 – E eles participavam da escola, da vida escolar de vocês? Como que era essa coisa? Além de ele ajudar você a estudar pra prova, essa coisa com nota.

 

R – Eles ajudavam muito assim, de... Não ajudavam assim, mas eles eram... Eu não tenho carência porque eles trabalhavam fora eu não tinha a presença deles. Essa não é uma falta que eu sinto. Então, eu me lembro deles muito estimulados, quando a gente trazia alguma coisa que tinha que fazer pra escola, o que precisasse fazer pra aquilo acontecer eles faziam. Minha mãe indo às reuniões pra saber, eu tinha sempre que passar de ano sem recuperação se eu quisesse ir pra Bahia no final do ano, porque aí eu ia pra casa das minhas tias na Bahia, ficava lá três meses. Ficava do começo de dezembro até depois do carnaval. Aí se eu quisesse ir eu tinha que passar de ano. Então, eu me lembro deles, sempre que eu precisei, eles estavam junto comigo.

 

P/1 – E eles iam? Eles também passavam uma temporada na Bahia?

 

R – Eles iam entre o Natal e o Ano Novo, na época das festas. Porque eles pegavam férias e iam na época das festas. Minha irmã quando ficou mocinha... Eu peguei mais a boiada, porque eu fui mais velha eu peguei mais anos essa boiada de ir. Minha irmã pegou pouquinho.

 

P/1 – Você teve educação religiosa nas escolas?

 

R – Não. Nem em casa. Isso é um trauma.

 

P/1 – E línguas? Inglês...

 

R - Tive. Nas escolas tive. Tinha uma professora D. Yuriko que chamava todo mundo de seu banana.

 

P/1 – Como ela chamava?

 

R –D. Yuriko Uma japonesa. Quem errasse, ela chamava de banana: “Você é um banana”.

 

P/1 – Professora de?

 

R – Inglês. Mas eu tive assim, essas aulas de inglês de escola. Não fiz, nunca fiz curso fora. Nunca tive interesse de fazer e meus pais também. Não foi uma preocupação dos meus pais. Não sei se também foi e eles não tinham dinheiro pra sustentar e aí também não foram muito a fundo com isso, mas não fiz. Quando eu entrei na faculdade, tava perto de me formar e eu queria fazer já mestrado, terminar a faculdade e fazer mestrado que aí eu comecei a ficar desesperada porque mestrado tinha exame de proficiência: “Eu não vou passar”. Aí foi que eu comecei a minha longa caminhada do inglês que já perdura mais de 15 anos e eu não saio do lugar.

 

P/1 – Deixa só eu perguntar uma coisa, antes de a gente passar pra essa fase mais mocinha assim, juventude e tal. Você tem algum fato marcante na infância, nessa época de escola, primeiros anos de vida? Você tem uma lembrança muito...

 

R – Ah, tem tanta coisa.

 

P/1 – Muito forte de infância. Pode ser na escola, enfim, na sua vida em família.

 

R – Nessa primeira época... Não, depois eu tenho bastante.

 

P/1 – Se você não lembrar também...

 

R – Tem uma coisa que marcou. Não fez diferença pra pessoa que eu sou, mas foi uma coisa que me entristeceu muito: foi a separação de uma tia e de um tio. Eu amava muito os dois juntos e eu vi o sofrimento do meu primo, toda mudança que causou na vida do meu primo.

 

P/1 – Era o primo que você via a sessão da tarde?

 

R – Era. Esse meu primo era o melhor na escola, de repente ele começou a ficar o pior e nunca mais recuperou. Até hoje, é um homem feito e nunca mais recuperou essa separação. Então, esse período foi... As coisas que envolvem a minha tia lá na frente quando a gente chegar eu conto. Esse período me marcou, eu senti muito porque a casa deles era perto da casa da minha avó. Então, como eu ficava muito com a minha avó e a minha tia não trabalhava, eu também acabava indo pra casa dela e ficava muito com ela. Então, foi aquela tia que, imagina você com 12 anos, 11, 12 anos, que pinta a sua unha, que pega seu cabelo e coloca uma fitinha aqui. Eu a achava o máximo! E aí ver a minha tia no sofrimento e tal, foi uma coisa que até hoje quando eu lembro me entristece. E ver meu tio... Deixar de ver meu tio, ver pouco. Depois também mais tarde já mocinha, quando eu reencontrei o meu tio eu chorava parecia um bebê, querendo o colo dele, de saudade dele. Então, foi uma situação que marcou bastante pra mim, que eu lembre agora. Sabe o que marcou? A morte da Elis Regina.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Porque foi...  Eu devia ser muito pequena, meu pai tem o jornal até hoje. Meu pai era muito... Não era amigo dela, mas trabalhou muito na produção de show dela. Ela tinha uma relação muito boa com a equipe. Eu lembro do meu pai chorando muito. E meu pai e a minha mãe vendo a TV assim, inconformados. O jornal vindo pra casa e o meu pai mostrando onde era ele lá no jornal no dia do enterro. Então, foi uma coisa que marcou.

 

P/1 – Vocês ouviam Elis Regina em casa?

 

R – Muito. O disco “Fascinação” frente e verso, bastante.

 

P/1 – Tem uma música que lembra muito a sua infância?

 

R – “Como nossos pais”. “Como nossos pais” eu gosto bastante.

 

P/1 – Legal. E aí você foi ficando mais velha, foi indo pro colegial. Queria que você contasse um pouco esse começo dessa adolescência, como é que foi. Foi ficando mocinha, sua tia foi colocando fitinha no teu cabelo. Como foi essa passagem?

 

R – Então, eu fui... Antes de ir pro colegial eu já arrumei namorado, eu já tava namorando sério, namorei cinco anos. Bobagem da vida da gente.

 

P/1 – Quando que você começou a namorar?

 

R – Nossa, eu comecei a namorar na sétima série.

 

P/1 – Ele era de onde?

 

R – Ele era da mesma rua, seis anos mais velho que eu, já trabalhava, na época ele queria casar, era uma loucura.

 

P/1 – Como foi esse começo de namoro? Você tão novinha...

 

R – Eu não lembro como foi ali na rua. Naquela coisa de menino na rua, começa a namorar. Morava ele, a mãe, a irmã, o pai... Os pais já eram separados, o pai  morava em Minas. E a gente já convivia, já o conhecia da rua e aí a gente ficou. Não lembro como foi. Na época não era ficar, sei lá como era. Mas sei que começou a namorar e foi durando. Mas, por incrível que pareça, eu sempre sabia que não ia... Eu tava com ele, mas não era a pessoa que eu imaginava pra sempre na minha vida. Durou bastante.

 

P/1 – E seus pais quando você começou a namorar? Como foi a reação?

 

R – Meus pais são muito free. Foi tudo bem, conversou com ele. Mas em casa sempre foi muito liberal essa coisa de... Quando eu comecei a namorar, o que vai acontecer, se vai transar, se não vai, o que acontece, o que não acontece. Isso tudo meus pais conversaram comigo. Sempre me acompanharam. Minha mãe ia ao médico pra ver. Até meu marido, eu brinco, quando a gente começou a namorar, na casa dele eu dormia no quarto da irmã e na minha casa ele dormia no meu quarto, porque sempre foi tranquilo em casa. O rapaz também era de uma família muito ok, então meu pai e minha mãe ficavam seguros porque sabiam que era um menino de família, um menino responsável, que cuidava… Então, tinha os horários pra vir, tinha horário pra ir embora, a gente... Meu pai, eu lembro, acho que mais quando eu entrei no colegial que meu pai começou a liberar eu ir viajar com ele. Foi o primeiro namorado que eu viajei. Mas eu era muito serelepe, não podia ver um menino bonito! Então, na hora que eu fui pro colegial, que eu fui pra uma escola maior, fui estudar no Radial.

 

P/1 – Também lá perto?

 

R – Também naquela região. E aí era muito menino, aí não dava pra ficar com um namorado só, era uma loucura.

 

P/1 – E aí?

 

R – Aí... Nossa, o meu Colegial foi... A turma, eu tenho hoje uma turma grande de compadre, eu sou madrinha do filho dele, ele é padrinho... Dessa época, né? Tem mais, era 1988, 20 anos já essa turma tá junta. Uma turma muito assim... Aí meus pais fizeram diferença também, porque meus pais intencionalmente, hoje eu também entendo, eles queriam: “Vai marcar alguma coisa com os amigos? Marca aqui em casa”. Eles faziam a comida, aí brincava, ficava junto. Aí todo mundo sempre queria ir pra minha casa e meus pais estavam sempre de olho. Então, depois você via que... Hoje eu sei que tinha uma intenção. Eu tive amigo que morou uma época na minha casa porque os pais foram embora mais cedo e ele não queria ir embora. Os pais foram embora pra outro estado, ele não queria ir, aí no período de transição ficou morando em casa comigo. Hoje, é padrinho do meu filho. Essa do colégio foi uma época bem tensa, foi quando eu terminei esse namoro, comecei apaixonadíssima outro namoro também que a gente...

 

P/1 – Isso no colegial?

 

R – No colegial.

 

P/1 – Esse primeiro namorado que você ficou um monte de tempo você foi e voltou? Não?

 

R – A gente ficou sétima, oitava série, primeiro e segundo colegial. Quatro anos.

 

P/1 – Nossa.

 

R – E terceiro colegial. No terceiro colegial, no comecinho do terceiro colegial que aí eu comecei a falar: “Não. Não vai dar porque a cabeça dele já tá muito pesada”. Porque aí eu já tinha posto uns chifrinhos, né? Tava muito pesada. Deixa ver o que eu vou fazer. Aí fiquei apaixonadíssima por esse colega, era colega da sala já há três anos e no último ano aquela paixão louca. A gente vivia na escada de incêndio, o bedel ia lá buscar a gente levava pro diretor, eu nunca tava na aula, tava só na escada de incêndio beijando pra caramba. Mas foi um grande amor da vida também. Eu fiquei mais quatro anos, a gente ficou... Não. Três anos, porque foram os dois primeiros da faculdade. Mas aí apaixonadíssima, era só ele na minha vida.

 

P/1 – O que você fazia? Além de fazer as festas na sua casa, o que vocês faziam pra se divertir? Qual que era a...

 

R – Nossa, tenho até vergonha de contar. Essa época era a época da lambada. Eu tava lá na lambada, dançando lambada e muito. Dançando muito. A gente dançava lambada, eu participava, olha que vergonha, da rainha da... Eu já fui rainha... Nossa, se os alunos sabem disso, os professores. Como chama? Rainha de alguma churrascaria dessas aí da vida. Participava de concurso que tivesse de modelo. Ia lá todo mundo aplaudia, os colegas da faculdade. Me achando, vê se pode. A gente fazia muita trilha, essa turma do Colégio era uma turma que fazia muita trilha assim. Eu descia Santos caminhando, aí voltava. A gente fez bastante isso. Muito na casa um de outro fazendo música ou parodiando algumas músicas que já existiam, colocando nome dos colegas, pra gincanas do colégio. Tinha uns meninos da turma que um deles era esse que eu namorava, ficava doida da vida, que adorava ir mexer com travesti. Aí eles iam lá e eu só brigava. Mas a gente se divertia muito, era... Só que depois eu precisei distanciar porque eu tinha uma ânsia por uma coisa mais cultural que essa turma ainda não me supria.

 

P/1 – Por quê? A deles era uma coisa mais de trilha?

 

R – É. Era uma coisa mais esporte assim, mais de falar besteira, mais na parte da comédia assim, aquela comédia escrachada. E eu tava toda começando num movimento mais sério, isso já no final do colegial, entrando na faculdade e os primeiros anos da faculdade que ainda não tenho a turma forte da faculdade, você ainda tá com a turma do Colégio. E a gente teve um tempo meio assim de falar: “Gente, eu tô ali tá?”.

 

P/1 – O que te despertou essa seriedade, essa ansiedade por mais cultura?

 

R – Porque eu acho que sempre ficou presente. E nem é uma coisa super inteligente porque você quer estar no... Não é nada disso. Mas é de conhecer coisas novas, de querer saber do que as pessoas estão falando, de coisas de ampliar assim pra coisas novas. E era uma turma, a maioria menino, e menino demora pra crescer, pra virar homem. Aí ficava lá só nessa comédia escrachada, muito inteligente também. Hoje, eu consigo ver que só consegue fazer esse tipo de comédia quem é muito inteligente. Mas que uma época me deu bode foi também quando eu terminei com esse namorado, eu fiquei um tempo só beijando.

 

P/1 – Que lembrança que você tem mais marcante da tua adolescência?

 

R – Nossa.

 

P/1 – Pode ser mais de uma também.

 

R – Então, desse tempo... Eu fico pensando assim, nesse período já era forte em mim, mesmo com essa coisa toda de querer divertir e tal, mas já era forte em mim uma coisa de querer a minha casa, de querer a minha casa do meu jeitinho, que não fosse do jeito dos meus pais. Eu já vislumbrava minha casa do meu jeito. Eu já pensava: “Eu vou casar com um Engenheiro que vai ser alto”. Eu já pensava tudo isso, tudo planejadinho de como vai ser. Então, eu me lembro dessa fase, eu pensando assim: “O que eu tenho que fazer pra ter a minha casa assim, pra ter um salário x, pra...”. Bem planejado. Eu lembro de uma época eu planejando o meu futuro. Onde eu queria estar na idade que eu tô hoje. Então, isso é uma marca, mas a marca ali é um pouco dessa de você achar que você é dono do mundo. Nossa, me achava a dona do mundo. Não de ser sacana com os outros porque isso eu nunca fui, mas eu... Sabe de você achar muito que você pode tudo?

 

P/1 – Você se lembra de atitudes assim, de alguma situação que você hoje olha pra trás e fala: “Nossa”?

 

R – Eu lembro. Eu conversando com uma colega: “Ai, mas a gente é muito madura pra eles. Não tá dando, assim eu não aguento. Eles são muito crianças”. Mas eu me lembro de eu querer o meu carro, lembro de ir de ônibus aí eu passava naquelas lojas de carro e ficava olhando assim, o pescoço virava procurando o carro.

 

P/1 – E a relação com os teus pais na adolescência? Como é que foi?

 

R – Foi sempre boa. Eu não fui uma adolescente rebelde. Eu nunca precisei apanhar. Minha irmã levou umas palmadinhas lá no bumbum mas eu nunca apanhei. Mas eu tinha essas coisas assim de... Nossa, não podia ver um homem bonito. Então, eles ficavam meio preocupados comigo nesse sentido. Onde tinha homem bonito eu tava ali perto. Eu percebia que a intenção deles de estar a turma junto era essa, mas eu não tive atrito assim. Era muito forte em mim essa vontade de ter o meu carro. Algumas situações que eu via que alguns amigos já conseguiam ter... Daí entrar na faculdade e ter o carro próprio... Eu me lembro de eu querer muito nessa época, eu me lembro de eu falar com os meus pais sobre isso. Mas não me lembro de isso ter causado um problema, de ter sido um período de problema.

 

P/1 – Deixa só eu perguntar uma coisa pra fechar essa fase assim mais escolar. Como que funcionava? Eles escolherem essas escolas pra onde você foi? Esse Colegial era mais... Qual que era o critério deles?

 

R – Sabe que eu que escolhi no colegial, porque eu fui fazer... Um grupo de amigos foi pra lá, que era um grupo que... Eu fiz técnico em Educação Física. Eu acho que nem existe mais isso.

 

P/1 – No Colegial?

 

R – É. Porque depois não tem nem função nenhuma! E depois fiz cursinho no Universitário. Porque um grupo ia pra lá, esse grupo que jogava vôlei e aí eu queria ir também porque eu queria dar sequência. Aí eles foram, conheceram a escola, a proposta. Era uma escola particular, um preço que eles podiam pagar, aí eles toparam.

 

P/1 – Essa do colegial?

 

R – Essa do colegial.

 

P/1 – Como que chamava? Você se lembra?

 

R – Radial.

 

R – As escolas públicas, acho que era pela proximidade de casa. Era escola mais próxima de casa. Eu acho interessante assim, porque eu percebo... As escolas não me deram tudo que eu precisei de conhecimento. A bagagem que eu tenho hoje de formação mesmo, de pensar um mundo, de pensar educação, da profissional que eu sou, não foi da escola. Muita coisa foi meus pais, minha forma de abordar. Não assim que eles sabiam me dizer uma coisa que eu não aprendi na escola de conteúdo, mas a forma como eles sempre abordaram que mexia comigo pra eu querer saber mais. Muito cabeça aberta. Meu pai e a minha mãe são pessoas de cabeça muito aberta. Então, acho que isso que fez a diferença pra querer ir buscar mais. Vai buscar mais, vai ver, sem preconceito. Então, a forma como eu fui me relacionando com o aprender as coisas me fez dar um salto. Porque aprender não é uma função da escola só. Você aprende fora dela, muito fora dela. Pra mim foi bastante assim. Quando meus pais tinham um grupo, têm até hoje, desse tantão de grupo de amigos que mora ali em Pinheiros e a gente ia, era uma mesa grande assim que eles jogavam, reuniam-se pra jogar baralho. Eram pessoas que participaram do Golpe de 64, gente que foi exilada, que precisou ficar fora, tal. Então, eu ouvia essas histórias. Eu não estudei isso, eu não me lembro de ter estudado isso na escola. Provavelmente não estudei como Golpe de 64, eu estudei como revolução ou sei lá. Não estudei como golpe. Mas ali, aquilo era muito vivo, então, à medida que eu fui crescendo, que você vai aprendendo assim, significa tudo aquilo. Então, eu vejo assim, hoje, pensar na formação que eu tenho hoje das coisas que eu conheço, posso ensinar meu filho, das conversas que eu posso ter, absolutamente não vieram do nível das escolas que eu frequentei.

 

P/2 – Eu tenho uma pergunta. Você tinha uma profissão em mente que você queria seguir fazendo o técnico em Educação Física que talvez tenha te encaminhado pra faculdade?

 

R – Então, eu brinco. Escrevi até no dia dos professores um e-mail pras professoras com uma narrativa assim. Mas eu acho que eu fui um pouco escolhida pela profissão, porque eu sempre quis trabalhar, sempre quis fazer alguma coisa. Aí com 15 anos, uma amiga trabalhava numa escolinha, ela tava precisando de alguém pra ajudar, ela me chamou. Talvez menos um pouquinho que 15 anos. Eu brinco, era bonitinha, aquela ideia que a professora tem que ser... Se é bonitinha, carinhosa, gosta de criança, pode ser professora. Eu entrei nessa leva. E achei bacana, eu sempre fui muito maternal com todo mundo, fosse um pouquinho menor que eu já tava ali na relação. Eu tive essa primeira experiência que eu gostei, eu saí de lá e fui pra... Mas aí eu fui trabalhar num escritório, era um escritório de ticket restaurante o Wells.

 

P/1 – Ah, o Wells. Isso depois de você...

 

R – Não. Nessa época. Não tinha entrado na faculdade ainda, pouquinho antes de entrar. Tava lá fazendo técnico em Educação Física, não sei pra que, só pra jogar vôlei e aí fui trabalhar na... Trabalhei nessa escolinha logo no primeiro ano do colegial aí saí de lá, fiquei pouquinho, e fui pra Wells. Aí eu detestei. Detestei aquele escritório, aquela coisa fechada, aquela gente assim, só falando de uma coisa. Eu detestei aquilo.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo?

 

R – Fiquei uns seis meses também, eu era assistente de uma advogada. Mas eu prestei Direito e prestei Pedagogia, né?

 

P/1 – Agora, quando você ajudou tua amiga na escolinha você ficou pouco tempo?

 

R – Fiquei pouco, gostei daquilo, mas estava ali só pra ganhar um dinheirinho. Devia ser bem pouco inclusive.

 

P/2 – E você se lembra das suas atividades lá nessa escolinha? O que você fazia?

 

R – Eu era professora do integral, das crianças que ficavam o dia inteiro. Então, à tarde eu dava desenho pra pintar, fazia atividade livre com sucata. Era muito uma coisa, mas bem escolinha assim de... Eu acho que assim, o que me fez voltar pra educação foi a experiência não ter sido boa no escritório. Porque aí eu falei: “Eu não quero isso aqui também”. E aí outra escola do lado da minha casa tava precisando eu fui lá. E aí fui chamada de novo.

 

P/1 – No colegial, quando você tava no colegial fazendo técnico em Educação Física, você começou a pensar o que você queria fazer da vida? Como que era essa...

 

R – Pensava. Então, mas eu não conseguia ter certeza assim do que fazer. O que me fez ter foi a oportunidade de trabalhar, porque se eu não tivesse trabalhado em escola... Até ali eu não tinha pensado em ser professora.

 

P/1 – Você trabalhou em escola, você tava no colegial ainda, trabalhou só um pouquinho...

 

R – Eu me lembro muito da minha mãe falando: “Ah, faz secretariado também”. E meu pai: “Não”. Meu pai sempre foi esse que dava a visão: “Filha, você tá trabalhando com educação. Pedagogia é o significado do que é ser educador”. Aí meu pai fazia sempre essa coisa maior, dava um olhar maior pra... E aí eu tava gostando de... Falei: “Bom, eu vou prestar Direito e Pedagogia. Vamos ver no que vai passar”. Eu não tinha uma formação sólida, fiz Universitário, passei na primeira fase da USP e não passei na segunda. Aí passei em Pedagogia na PUC.

 

P/1 – E por que Direito?

 

R – Sei lá eu porque eu prestei Direito. Acho que porque eu tinha trabalhado com a advogada. Mas se eu tivesse na parte de direito tem muito a ver com algumas coisas que eu faço hoje assim. Mas eu ia ser pobre de marré, marré, marré, porque eu ia cuidar só de quem precisa. E aí eu passei, foi legal porque meu pai falou... Pedagogia na PUC, na época o Paulo Freire era professor ainda, quem foi a PUC. Aí meu pai começou a contar as histórias da PUC na época do Golpe. Eu já fiquei... Minha mãe contando que eles iam pra PUC passear, meu pai vendia disco de vinil na porta da PUC. Aí eu fiquei fascinada, tudo que é narrativa, se começar a contar uma história eu tô lá ouvindo. Eu não gostei, fiquei o primeiro ano já pensando: “Eu vou ficar o primeiro ano, mas pedir transferência pra Direito”. Ainda tinha essa coisa, vou ficar mais vou pedir... Imagina. Eu fiquei já adorei. Aí eu fiquei nessa escola, nessa segunda escola que eu trabalhei foi a grande escola pra mim. Eu fiquei lá cinco anos, aí tive uma experiência lá como assistente de coordenação. Aprendi muita coisa, mas era uma escola pequenininha.

 

P/1 – Como que chamava?

 

R – Nova Geração. De lá eu fui pra... Eu me formei eu ainda estava nessa escola, mas eu já estava como assistente de coordenação e já estava a mil. Aí eu já estava muito educadora.

 

P/1 – Essa primeira escola você lembra qual que era a metodologia dela?

 

R – A gente estava naquela coisa de estudar construtivismo. Estava na faculdade, super formação, mas eu não entendia ainda direito o que era construtivismo. Sei que eu tentava usar, entender Emília Ferreiro pra alfabetizar as crianças, não entendia nada. Hoje, eu olho e falo: “Meu Deus, você não sabia nada”. A gente estava naquela tentativa de entender o que era isso de que estavam falando tanto.

 

P/1 – Você tentava aplicar no seu trabalho?

 

R – Tentava aplicar lá, mas não conseguia fazer a intervenção certa, nem o encaminhamento de trabalho que funcionasse porque de fato não tava compreendendo o que estava acontecendo.

 

P/1 – Mas você tinha liberdade na escola pra fazer…?

 

R – Tinha. Porque também as donas não entendiam muito como devia ser. Porque senão elas não iam dar... Era uma escola pequena também, não iam fazer isso com... Mas tinha. Mas eu era muito séria, acho que é por isso assim, eu sempre muito séria. Eu não sei muito bem, mas também não vão perceber, eu tô estudando, uma hora eu vou saber. Não sei ainda, mas uma hora eu vou saber.

 

P/1 – Você falou que você começou aí você estava educadora mesmo.

 

R – Ah, já estava.

 

P/1 – Como foi essa... Você se lembra de quando você começou a perceber que de fato você estava se tornando uma educadora?

 

R – Eu lembro. Eu lembro muito na seleção do que eu levava. Vinha muito à tona tudo o que eu tinha vivido. Se eu fosse fazer alguma seleção eu trazia, sei lá, uma música do Luiz Gonzaga, que nenhuma professora tinha pensado naquilo, mas eu trazia porque eu tive uma experiência fora da minha vida e trazia e aquilo dava certo. Quando eu comecei a perceber que tinha uma coisa que era da minha pessoa junto com aquela coisa mais técnica que eu estava aprendendo e que dava certo, eu falei: “Bom, eu tô encontrando onde é o ponto, a medida”. Eu senti que tinha uma diferença quando a escola me selecionou pra ser assistente de coordenação. Ali eu falei assim: “Acho que agora eu tô chegando, tá fazendo diferença, tá aparecendo pra alguém que a formação tá acontecendo”. Mas aí eu saí de lá e fui pra uma grande escola, que foi o Pueri Domus. Então, saí de uma escola ovinho, mas eu me formei eu trabalhava lá.

 

P/1 – Nessa pequena.

 

R – Nessa pequena. Aí eu entrei no mestrado no ano seguinte, na PUC em Psicologia da Educação. Lá no mestrado me indicaram pro Pueri, aí eu fui fazer... Nesse meio do caminho eu dei uma aula de natação, tá gente. Eu tive formação em Educação Física e queria um dinheirinho, dei uma aula de natação na Runner. Dava aula de natação também. Aí o Pueri me chamou. Foi pra mim um fuá, que era um escolão gigante, um salário que professor toma um susto quando vem de escolinha pequena. E ali no Pueri eu acho que foi a minha primeira grande experiência numa escola de verdade, com pessoas que sabem o que estão fazendo, estão na área pensando a área mesmo, tem uma clientela que sabe o que é que... Não dá pra você inventar moda, fingir que tá dando aula porque a clientela vai perceber. Então, no Pueri eu aprendi muito essa parte mais objetiva assim, do que você quer ensinar, dos seus objetivos pra ensinar. Essa parte mais funcional de planejamento mesmo foi lá, porque eu não sabia fazer planejamento. Achava que eu sabia fazer, mas eu não sabia. Eu aprendi a fazer planejamento lá, planejamento de aula lá pra uma situação específica lá. 

 

P/1 – Você era assistente de...

 

R - Não. Aí já no Pueri. No Pueri eu fui pra professora de alfabetização.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho, quando você estava na PUC eu queria saber que professores que te marcaram mais, que linhas, correntes pedagógicas que te chamaram mais atenção. Como foi esse período?

 

R - Então, a Emília Cipriano que é uma que hoje tá aí... Eu nem gosto do que ela se tornou, ficou uma coisa bem esquisita. A Emília Cipriano, era o Sérgio Cortella, o Rui... Que é um de filosofia... Não me lembro do nome dele. Mas o Rui, a professora Vera Placco, que hoje tá no projeto de educação lá, faz a pós e foi ela que me levou pro mestrado. Vera Ronca.  Eu lembro o nome de todas, Vera Ronca, a esposa do Paulo Ronca que hoje eu aplico a prova operatória que eles criaram. Nossa, acho que foram... Difícil pensar num só que tenha feito... No último ano especialmente tinha uma professora que chamava Maria Luiza que era diretora do Nossa Senhora de Lourdes ali da Nove de Julho, porque aí vinha uma teoria muito impregnada de prática, você via que ela sabia, que era de verdade aquilo tudo.

 

P/1 – O que ela...

 

R – Ela dava uma disciplina, eu já estava fazendo a especialização em orientação e supervisão escolar e ela dava essa disciplina. Então, vinham muitas situações reais de cotidiano de escola. Hoje,eu tô no cotidiano de escola eu sei que é assim. Vem aqui enfrentar. Tem que vir aqui enfrentar o dia-a-dia. E ela tinha isso, então foi bem bacana. Mas a PUC tem um conjunto de... Vocês fizeram o quê? USP?

 

P/1 – Eu fiz Cásper Libero, mas...

 

R – Não tem? A PUC tem um contexto assim, que te pega. Você não é a mesma coisa, porque exala essa... Que foi uma parte da igreja que se opôs ao golpe. Isso é tudo muito presente. Tinha essa coisa, o Paulo Freire passando pelos corredores e a gente indo assistir aula dele. Esse contexto era muito forte. Então, todos os professores.

 

P/1 – Você viu várias aulas dele, você foi aluna dele?

 

R – Não. Não fui aluna dele, ele já não estava. No ano que eu entrei ele não estava mais dando aula, mas ele vinha dar algumas aulas. Aí ficava aquela sala super cheia, você lá atrás tentando cavar um cantinho. E aí eu tive um ano, eu esqueci... Quando eu me formei, eu fiquei muito ansiosa pra me formar, eu engordei, eu ficava com medo de sair da faculdade, achava que não estava pronta. Eu queria ficar mais tempo, eu fiz de novo o movimento assim de... Eu não sou traíra, tá gente? Fica parecendo que eu sou! Mas de novo eu fiz movimento e a Dani, minha colega de faculdade, a gente fez a faculdade junto, ela fala disso até hoje: “Sua traíra. No final do ano você não quis ficar com a gente pra fazer trabalho. Você foi lá fazer trabalho com as outras CDF´s”. Porque eu ficava achando: “Vocês só brincam. É o último ano de faculdade. Tem que levar alguma coisa a sério”. E aí eu não ficava com elas. Aí a Dani tem uma história que ela conta até hoje, um trabalho lá que ela copiou, filha da mãe, todinho do livro aí a professora fez altos elogios: “Ah, Daniela, que maravilha de trabalho”. Ela tinha feito cópia e eu lá tirei cinco, seis, alguma coisa assim. Ela tira sarro até hoje: “Tá vendo sua boba?”. Mas eu fiz esse movimento, curioso, porque eu fiz o mesmo movimento de criar distância do grupo que eu amava, das minhas amigas, pra dar conta dessa saída, dessa transição. Aí fui pro mestrado, lógico, eu tinha 22 anos, quem faz o mestrado com 22 anos? Dei conta de mestrado com aquele monte de professor falando aquele monte de coisa que eu não entendia nada? Não dei, fiquei dois anos lá tentando, tentando, tentando, sofrimento. Aí tranquei, falei: “Não”.

 

P/1 – Quantos anos você…?

 

R – Eu entrei no... O mestrado você tem que terminar em dois anos e meio. Eu tinha bolsa. Eu estava, tinha prazo, não conseguia, não achava o meu projeto. Com 22 anos você tem projeto algum pra pesquisar? Só se já é vinculada ao grupo de pesquisa da faculdade. E aí eu fiquei num projeto muito a mercê de uma professora, não tinha nada a ver comigo e aí não ia. Aí eu parei, tranquei o mestrado. Eu já estava no Pueri, já estava super feliz no Pueri. Mas também me enfiei, estava como professora e o Pueri tem, hoje é outro dono, mas eles têm uma rede de escolas associadas pelo Brasil todo. Então, eles pegavam professores... E tem o material que eles produziam. Os professores que se destacavam na rede de São Paulo, eles convidavam pra ser professor formador, que ia pra essas escolas pra dar curso sobre o material e tal. Lógico que eu estava lá. Aí fui ser professora formadora do Pueri, passei por todas...

 

P/1 – Na área de alfabetização?

 

R – É. E a Fernanda, que hoje é a nova diretora, ela fazia isso comigo também, só que ela já estava em outro patamar. Aí fui professora formadora do Pueri um tempão, que fez uma super diferença. Aí também, aí vem uma formação que é a formação em serviço, você pega o seu dia-a-dia, conversa com professor específico. Essa formação pra minha atuação o Pueri foi que me... Eu me tornei professora no nível profissional melhor, de mais qualidade, de clareza profissional mesmo da área de educação lá. Foi lá que eu tive essa chance. E aí eu casei.

 

P/2 – Mas deixa só eu entender então. Você começou, você tá dizendo que foi essa formação como? Como professora de que turma? Se você...

 

R – Eu trabalhei sempre com cinco e seis anos. Era Jardim II e primeiro ano. Era uma escola muito rica, então a gente sempre tinha a formação com educadores de fora e tinha... Quando eu entrei pra ser professora formadora a gente se reunia, esse grupo pequeno se reunia com os assessores pedagógicos do colégio. Tem gente que eu tenho contato até hoje da área. E aí era uma formação no miudinho pra gente poder fazer a formação depois maior.

 

P/1 – Isso que eu ia perguntar. Como era essa professora formadora? O que ela... Como que funcionava esse périplo pelo Brasil?

 

R – Veja se pode, 23 anos de idade eu queria formar alguém. Nossa, mas você aprende muito, você vê que a gente precisa mesmo trocar experiência, porque todo mundo sabe umas coisas, outros sabem outras e... Fui pra Fortaleza, fui pro Rio de Janeiro. Ia sempre em grupo, ia um grupo que pensava muito, um grupo de pessoas mais velhas que hoje essa diretora então, ficava sempre muito atenta. A gente tinha que ler muito material, então tinha que estudar e dar devolutivo. Então, esse compromisso com estudo faz você crescer. Você tem que estudar. Você quer estar aqui então vá ralar, estude. Então, tinha reuniões presenciais e tinha um material que tinha que estudar, você tinha que vir com uma proposta de como você trabalha essa unidade na sua turma. Você contava como você trabalhava e você tinha que entender o que estava por trás daquele trabalho que você fez, qual é o conteúdo conceitual que está aqui, atitudinal, procedimental. Isso tinha que estar na ponta da língua porque era isso que você ia ensinar e fazer o outro perceber. Aí eles davam formação de técnicas de dar curso também. Como falar em público, como gerir o tempo, então isso é tudo coisa que você vai aprendendo. De erros de português ao falar que você não pode ter. Isso foi bem bacana de... Tinha que fazer os relatórios dos alunos, aí não como professora formadora, mas eu fazia relatório por escrito de aluno. Então, também tinha uma intervenção, você já ia aprendendo ali. Eu sempre fui do tipo também que se você me ensinar uma vez não precisa ensinar de novo. Eu aprendia rapidinho. Você me ensinou aqui eu já ficava atenta: “Ai gente, eu não posso errar isso de novo. Eu não posso”. Então, eu sempre fiquei muito atenta e foi dando certo. Aí foi que eu casei e estava no Pueri e meu marido foi transferido pro Rio de Janeiro.

 

P/1 – Só uma coisa, você casou, quem é essa pessoa? Quando ela surgiu na tua vida?

 

R – Meu príncipe encantado. É o Engenheiro. Eu não falei que eu ia casar com um Engenheiro alto, moreno? Eu disse. É um Engenheiro que eu conheci... A gente se reencontrou no Dado Bier, não sei se é da época de vocês...

 

P/1 – Que era na Juscelino?

 

R – Que era na Juscelino. Mas a gente tinha... Quem apresentou a gente era um amigo, eu tive um namorado 11 meses, um tempo antes, que era Engenheiro também. Eu conheci esse amigo dele, era um amigo muito bacana, a gente depois que terminou o namoro ficou ainda amigos. Aí teve uma vez que a gente foi pra, eu estava indo pra uma viagem no sul, de carnaval, e meu marido me viu conversando com esse menino e falou: “Quem é essa? Gracinha. Quem é?” “Ah, é uma amiga tal”. Esse meu amigo não deu nem bola, mas meu marido me perguntou dele e eu nem vi. Um tempinho antes eles tinham se formado na FEI e eu fui à formatura, mas por causa do meu outro namorado e eu vi o meu marido lá no... Aquele monte de homem, né? Eu vi e falei: “Nossa, que interessante esta pessoa”. E ficou por isso. Aí depois no Dado Bier a gente estava passando, ele passou por mim, eu muito serelepe falei: “Oi”. Aí ficou. Eu estava dançando, ele veio me tirou pra dançar e a gente começou a dançar lambada, porque estava na época da lambada. Aí veio o Maurício e falou assim: “Ah, eu não acredito que vocês estão dançando juntos. Sabe quem ela é?” falou pro meu marido “É aquela menina que você perguntou tal”. Aí eu olhei bem pra ele, eu falei assim: “Não é que na formatura você não estava assim, assim?”; “Estava”. A gente já tinha se visto em alguns outros lugares.

 

P/1 – Mas no Dado Bier ele não se lembrou de você?

 

R – Não. Quando me chamou de...

 

P/1 – Ele chegou e estava dançando com a...

 

R – É. Aí que o Maurício falou.

 

P/1- Você sabia que era ele?

 

R – Não. Eu não sabia. Eu falei “oi” e também não sabia, depois é que eu fui perguntar: “Você estava na formatura do ano tal...”. Aí esse Maurício foi até nosso padrinho de casamento. A gente ficou nesse dia e dois anos depois a gente casou.

 

P/1 – Voltando então, aí ele foi transferido pro Rio de Janeiro...

 

R – Dois anos e meio. Eu tinha 26 anos quando a gente casou, ele 28. Ele tinha acabado de se formar, tinha começado a empresa, estava há pouquinho tempo na empresa e teve essa oportunidade de ir pra um projeto na Petrobrás e com uma condição bem bacana, sendo subsidiado pela empresa, com moradia lá pra esposa se quisesse levar. A gente no comecinho de... Aí eu saí. Saí do Pueri. A gente casou em janeiro, até trouxe a foto do meu casamento que a minha turma do ano anterior estava toda na primeira fileira da igreja. A gente casou em janeiro, quando foi em agosto a gente foi embora pro Rio. A gente casou e tal, quando eu soube em fevereiro, um pouquinho antes de começarem as aulas, que tinha essa possibilidade de a gente ir pro Rio de Janeiro, a gente não sabia ainda a época que isso ia acontecer, eu falei no Pueri e aí pedi meu desligamento. Aí foi que eu fui a primeira vez pra PlayPen, que eu fui cobrir a licença maternidade da Dani Almeida. Quando eu vi que eu não ia direto pro Rio de Janeiro, que eu ia ficar um semestre aqui...

 

P/1 – Você pediu em janeiro o afastamento?

 

R – Eu pedi o afastamento do Pueri. Eu falei: “Não vou assumir a turma pra em março a gente ir embora”.

 

P/1 – Pois é.

 

R – Aí a Dani estava saindo de licença maternidade, ela falou: “Você não quer vir?”. Eu nunca tinha trabalhado com Fundamental I. Falei: “Quem é professora, é professora em qualquer série. Eu vou lá me meter”.

 

P/1 – Vocês tinham se formado juntas…?

 

R – É. Aí eu falei com a Márcia e aí deu super certo já na primeira vista, já deu certo. Aí eu fiquei quatro meses na PlayPen em 2000. Fiquei quatro meses na PlayPen em 2000 e depois voltei em 2004. Aí ficou um namoro, sempre a Márcia pedindo pra eu voltar, mas aí eu retomei o mestrado, aí veio outra...

 

P/1 – Você ficou quatro meses, daí você foi pro Rio de Janeiro...

 

R – Eu fui pro Rio de Janeiro. Fiquei no Rio de Janeiro um ano e três meses. Trabalhei lá numa escola de educação infantil que a dona hoje é minha comadre, é madrinha do meu filho também. A gente ficou bem amiga. Meu marido veio embora antes porque aí ele teve outra proposta de emprego, saiu da empresa que ele estava. Uma das viagens de ponte aérea ele encontrou essa pessoa, a pessoa fez uma proposta de emprego ele veio embora antes. Eu fiquei lá porque eu não queria largar a escola no meio do caminho. Aí eu fiquei morando com a dona da escola três meses. Eu ficava na ponte aérea, indo e vindo, porque ele negociou isso com a empresa. A gente veio embora e quando eu vim a gente ia fazer três anos de casado, eu já tinha começado a voltar a estudar num grupo de estudo. Não tinha voltado o mestrado da PUC, mas já estava no grupo da UNICAMP, pensando em voltar a fazer mestrado, se não fosse na PUC voltar a fazer. Tinha esse grupo que estava lá no Olho de Campinas e estava no Rio. Então, eu aproveitava que estava lá no Rio e ia pro Museu de Belas Artes no Rio de Janeiro. Fiz todo o meu conteúdo do mestrado é tudo do Rio de Janeiro.

 

P/1 – O grupo da UNICAMP estudava... Qual que era o foco de estudo da…?

 

R – É uma loucura. Tem um grupo na UNICAMP que chama Olho. Que é toda parte que faz... Tem a parte de educação da área de artes e tem a parte de estética de filme, de produção de filme. Toda essa parte de artes em geral, de multimídia é desse grupo. Eu fazia parte de um dos grupos deles de estudo. Nosso estudo era qual é a relação que a pessoa estabelece num encontro com a arte, e aí uma crítica ao encontro didatizado com a arte, que é o encontro que a escola faz. Eu trago na dissertação, eu falo muito que o meu encontro com a arte nunca foi didatizado. Quando não é didatizado ele tem outro sentido que é o mesmo encontro que o guarda no museu teve, mais velho depois, que levou os filhos pra ver o museu. Então, é uma contribuição pra escola pensar que tipo de encontro que ela tá possibilitando do aluno com a arte. A bienal é toda nessa linha assim, de criar possibilidade de encontros significativos com a arte, que ela tenha outros caminhos e cada criança, cada professor possa encontrar o seu caminho, que não seja aquele quadradinho que uma aula de artes às vezes, como as que nós tivemos.

 

P/1 – Ia te perguntar, essa primeira passagem pela PlayPen, como que foi? O que você achou?

 

R – Nossa, foi demais. Você vê, ontem eu fui entrevistar uma professora, eu tô indo entrevistar falei assim: “Silvia Santana, eu já ouvi esse nome”. Aí eu olhei o currículo direito tá lá Pueri Domus. Eu falei: “Puta, eu não acredito”. Aí eu entrei, a menina trabalhou comigo um tempão no Pueri, eu trabalhei no Pueri quase seis anos. Ela quando entrou fez estágio três meses na minha sala como professora. Ela começou a contar coisas lá de como era eu dando aula, de coisa que marcou pra ela dando aula que eu não podia nem imaginar.

 

P/1 – O que ela falou?

 

R – Mas que pergunta que você fez mesmo? Por que eu tô contando?

 

P/1 – Na verdade eu tinha perguntado da primeira experiência na PlayPen, mas esse relato é legal.

 

R – Ah. Não, é porque ela contou assim, que eu cantava muito com as crianças, das músicas que eu levava pra cantar com as crianças, que era um grupo super difícil e eu ia levando de um jeito lá que o grupo ficava todo voltado pra mim. Achei super bacana assim. Ela: “Seu jeitinho...”. Sei lá qual é o meu jeitinho. Aí ela falou: “Naquela época você já falava da PlayPen”. Agora, eu não sei... Porque eu tinha uma amiga que trabalhava na PlayPen, eu já tinha...

 

P/1 – Era a Dani, né?

 

R – Não. Não era a Dani ainda, era outra, Isabela que também fez faculdade comigo e não está mais lá, que é da época até da Ana Maria.

 

P/1 – Ana Maria é a primeira...

 

R – A primeira diretora. Eu gostava muito do que a Isabela contava. Eu devo ter falado e ficou, porque ela falou pra mim: “Naquela época você já falava”. Devia ter perguntado o que eu falava. Mas foi muito importante, porque eu trabalhei com projetos que era a teoria da época. Eu trabalhava no infantil, mas você trabalhava com projeto no infantil, você pega um tema que eles gostam... Só que na PlayPen tinha um negócio de estudar muito, de ser do jeito que era na Espanha, como o idealizador pensou o projeto. Então, era muito sério, um grupo muito forte. Eu fiz um projeto em quatro meses, a gente estava comemorando os 500 anos do Brasil e qual foi o projeto que saiu do meu grupo? Não saiu nada, né? Porque eu que devo ter ficado estimulando ali pra sair: O belo da cultura africana. Toda parte de arte, de estética da cultura africana. 

 

P/1 – Isso foi um projeto macro que...

 

R – A gente tinha que pensar num tema que eu pudesse trabalhar os conteúdos da série e aí eu faria umas coisas extras pra dar conta do que o projeto não contemplasse. Mas aí as crianças faziam as perguntas, a gente levantava hipóteses, ia fazer bem na linha de pesquisa. Então, fazia tudo muito sentido. O jeito como a PlayPen até hoje funciona combina muito com o meu jeito de pensar. A Guida é muito moderna, ela é muito aberta, não é preconceituosa. Então, isso também fica muito forte. Eram os projetos que eram coisas muito intensas pra fazer com os alunos, era essa quinta dimensão que já apareceu. Eu entrei e aquilo tudo... A minha amiga Dani que estava lá há um tempão não entrava naquele jogo simbólico. Ela não conseguia conversar com o golfinho, que é esse elemento mágico que na verdade não é nada, é você que escrevia a carta pro seu aluno e dizia que era esse elemento mágico golfinho. Nossa, mas já entrei...

 

P/2 - Esse ainda não sei o que é.

 

R – Chama Quinta Dimensão. Eu já entrei com tudo na Quinta Dimensão, já era o golfinho, eu sonhava com o golfinho, o golfinho me visitava, eu conversava com ele tranquilamente, parecendo uma autista.

 

P/2 – Isso já existia quando você entrou?

 

R – Existia. Agora não existe mais, porque mudou a direção perdeu... Esse projeto acabou um pouco antes porque ele era vinculado a Faculdade de Berkeley. Mas eu combinava, a PlayPen combinava comigo, com o meu jeito de ser, de pensar, essa brincadeira, o lado sempre muito sensível, a parte estética sempre muito presente. Então, isso sempre combinou comigo. Foi muito sofrido sair da PlayPen pra ir embora pro Rio.

 

P/1 – Você saiu no meio do ano?

 

R – É. Eu saí a Dani voltou, que a Julia nasceu em 22 de abril, em junho eu saí. Mas aí eu fui embora ficou um amor pela Márcia, pela Guida. Eu fui pro Rio, voltei. Quando eu voltei, eu estava terminando o mestrado e aí resolvi engravidar também, já que eu não estava trabalhando. Aí eu fiquei por conta de ser do lar um pouquinho, que é bom. Ser do lar, ficar lá só fazendo comidinha e tal. Foi gostoso. Aí fiquei. Eu pari dois filhos ao mesmo tempo, porque a dissertação eu defendi dia dois de abril e meu filho nasceu dia 23 de abril.

 

P/1 – Nossa. Defendeu super grávida.

 

R - Terminei... Super. Tem foto lá gravidona. Terminei passando mal. Eu emagreci três quilos do meu filho, eu vomitava oito vezes por dia. Eu passei mal muito.

 

P/1 – No final?

 

R – No final nada. Os nove meses, passei muito mal, eu fiquei internada. Mas só de vomitar assim. Ele nasceu com três quilos e 680, mas eu era um palito assim. E aí quando ele estava com oito meses... Aí teve um namoro o tempo todo da PlayPen pra eu voltar. A Márcia ligava: “Volta, não sei o quê. Volta. Eu tenho um horário assim...”; “Márcia, eu só volto se for pra assistente de coordenação. Não volto pra sala de aula”.

 

P/1 – Por que você não queria voltar pra sala?

 

R – Porque era metida. Sempre fui metida. Eu queria, sempre quis viver essa parte de coordenar. Sempre quis. Eu sabia que... Tem um pouco da dinâmica que eu já tinha percebido. Se eu não entrasse num lugar já numa outra posição, por exemplo, você tá como professora, pra você assumir é muito mais difícil. Tem situações, mas é muito mais difícil. E a PlayPen estava numa época boa, porque aí foi 2004, quando ela voltou pro prédio e aí ia começar a se arrumar. Teve a oportunidade em 2004 e aí eu voltei, entrei como assistente. Ele tinha oito meses, aí ele ficou em casa um pouco ainda e ele entrou na PlayPen com um ano e oito meses, o mais velho. Hoje já tá com sete e meio, fala, escreve, lê inglês, uma belezinha. Aí o outro entrou com um ano e três meses também. Ai eu já tô na PlayPen.

 

P/1 – Deixa só eu te perguntar uma coisa, só pra eu entender, no Pueri você dava aula, aí você passou pra professora formadora, mas você não deixou de dar aula?

 

R – Não. Não podia deixar. Era a condição.

 

P/2 – E sempre na alfabetização.

 

R – É. Alfabetização e Jardim II. Eu era um ano aqui e um ano acolá.

 

P/1 – E aí quando você entrou na PlayPen, nessa segunda entrada, nessa última, você entrou...

 

R – Direto na F1.

 

P/1 – Direto, é isso que eu ia perguntar, pra que...

 

R – Já pra cuidar de primeiro a quinto. Aí eu ralei.

 

P/1 – É. E aí? Como é que foi?

 

R – Aí eu ralei porque eu não sabia trabalhar com F1. Eu não tinha... Porque, tudo bem, primeiro passou a ser do Fundamental I que era na PlayPen, mas prezinho nunca foi, prezinho sempre foi educação infantil. Lá a gente agora, o prezinho que a gente chama de primeiro ano é parte do Fundamental I. Aí fez toda a diferença pra mim. Aprendi muito com os assessores pedagógicos. Primeiro, toda diferença porque a escola era pequena, então deu tempo de eu aprender. Eu fiquei dois anos como assistente e estou há cinco como coordenadora. Eu aprendo rápido, então eu fiquei ali só vendo o que eu tinha que aprender. Aí eu aprendi mais uma coisa com a Célia: se você não tá aprendendo muito bem, pagam uma supervisora pra te ensinar melhor. Então, fiz muito esse movimento de pagar uma pessoa. Até hoje tenho uma supervisora que eu vou em alguns momentos falo assim: “Esse nó eu não consigo desatar. Não tô entendendo o que tá acontecendo. Nunca vivi isso. Me ajuda a pensar”. Então, eu fui tendo essa pessoa também que eu levava as situações e a gente fazia estudo de caso.

 

P/1 – Ela ia à PlayPen dar conselho?

 

R – Não. Eu ia. Custo meu pessoal, do meu bolso, mas eu fiz muito isso, faço até hoje. Toda vez que eu preciso é um dinheiro que eu não economizo porque faz muita diferença. Na hora que eu vejo que tá aquele nó que eu não consigo sozinha pensar...

 

P/1 – Você lembra que grande nó assim, que você...

 

R – Nossa, eram muitos. Porque o que aconteceu? Não foi fácil retornar coordenadora desse grupo que eu tô hoje. Hoje eu sou a líder delas, não tenho dúvida, mas não foi fácil. 

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa que eu até tô tentando ver com a Fernanda se a gente tinha te perguntado ou não, quando você atuou numa escola no Rio de Janeiro você lidava com que idade?

 

R – Lá eu era coordenadora também.

 

P/1 – Era coordenadora de...

 

R – Infantil. Sempre infantil. A primeira oportunidade de Fundamental I foi na PlayPen.

 

P/1 – Aí a gente tinha parado no grande nó, você ia começar a contar.

 

R – Porque na PlayPen... Aí foi isso, eu fiquei o primeiro ano com a Márcia, que eu era assistente da Márcia. No final do ano entrou a Célia. Aí eu fiquei mais um ano como assistente da Célia, esse ano sim entraram os assessores, porque a Célia tinha um jeito diferente de trabalhar, trabalhava com os assessores pra cada área de conhecimento. Então, ali na hora que o assessor chegava pra falar como ensinar texto, eu não sabia como ensinava texto pra criança dessa idade, como corrigia texto pra criança dessa idade. Eu não sabia nada. Eu escutava, escutava muito e perguntava: “Mas quem é que falou sobre isso?”. E ela lia quem é que falou sobre isso. E aí o que fez a diferença? Que na hora que vai construir o currículo de História eu tô junto e, sei lá, escolhe um tema “cidadania”, qualquer outro tema, eu tenho a visão de um mundo que aí eu falo: “Sou eu. Eu a pessoa Gabriela”. Eu não posso num tema específico de conteúdo de Fundamental I, mas eu tenho uma formação que me permite poder pensar essas práticas na escola. Às vezes com menos técnica, mas com bom senso, mas que dá pra fazer uma atribuição de valor, de escolha. Então, acho que essa combinação foi boa de fazer. Mas gente muito boa, a Célia contratou gente muito boa pra fazer esse currículo. Aí eu fiquei um ano com ela, a escola cresceu um pouco mais ela não podia mais ficar na coordenação e ela também nem tinha experiência. A Célia sempre trabalhou com crianças mais velhas, ela não tinha experiência com Fundamental I nem com Infantil. E aí eu assumi a coordenação no ano seguinte, o grupo de professor ainda estava pequeno, então dava. Só que foi um grupo de professor contratado pela Célia. Hoje, quem contrata a equipe do Fundamental I sou eu. Então, eu escolho as pessoas que eu quero que trabalhem comigo. Na época era a Célia que fazia, então o vínculo era com ela. Tem duas pessoas no grupo que foram coordenadoras da Célia na outra escola que ela trabalhou. Então, você já sabe como isso funciona. Assim, eu vivi momentos com uma professora que hoje a gente tem uma relação ótima, eu a escolhi pra ser professora do meu filho, porque isso eu me dou o direito, de colocar meu filho onde... Mas ela foi assim, foi muito difícil, eu tive que ir no... Mas também nunca quis. Não tiro conflito na minha frente, não mandei nenhuma embora. A Guida me deu esse espaço: “Manda embora. Se não tá dando, manda embora”. Não. Pra escola as professoras são boas. Não pode uma relação comigo afetar uma coisa que é boa pra escola. Com essa professora teve uma reunião junto com a Guida assim, de limpar... E ela também é excelente, por isso que limpou, porque se fosse uma pessoa de menor compreensão das coisas, talvez não tivesse limpado. Mas eu precisei viver assim, na conquista de cada uma, legitimar o meu lugar como coordenadora. É lógico por competência, senão não legitimaria, e por verem em mim uma pessoa que pode ocupar esse lugar. Aí a supervisão teve um momento crítico que era isso, elas estavam querendo... Elas se sentiam muito no lugar da pessoa que não pensa com a gente junto o projeto, só de quem faz o projeto. E professor bom não pode ficar nesse lugar, essa foi a primeira coisa que eu aprendi com a supervisão. Se você quer uma equipe boa, competente, ela não pode ficar no lugar de quem executa o que você pensa, o que a direção pensa, o que o assessor pensa. Ele tem que estar no lugar de quem pensa também, porque ele é tão bom quanto. Aí eu fiz todo um trabalho. Aí veio o meu jeito, porque até então eu não tinha o jeito, era o jeito da Célia. Aí veio o meu jeito de pensar, muito pelo simbólico. Eu fiz uma linha do tempo, por isso que eu olho essas coisas e fico doida. Eu construí uma linha do tempo, colocando na linha o que cada um contribuiu para o projeto da escola. Por isso que nesse encontro eu sinto falta, que teve o último, eu senti muita falta do período depois. Porque depois assim, todo projeto que a gente pensa, cada professor que ficou lá contribuiu pra montar o curso da série. Acabou não aparecendo no workshop. A gente colocou na linha o que cada um contribuiu pro curso do projeto, pro curso da PlayPen.

 

P/1 – Vocês têm essa linha?

 

R – Eu desmanchei a linha, mas o que a gente tem é um caderno... Eu inaugurei um caderno de registro que a gente ia registrar todos os nossos encontros com uma linguagem que não era uma pauta. E assim, fui atuando na parte sensível, porque aí estava uma escola muito seriona, aqui entre nós a gente tá séria, muito seriona. E assim, tinha que brotar mais o jeito sensível, olhar pras crianças de outro jeito, ser generoso, tolerante. Tinha que brotar, tinha que vir mais à tona esse lado. Aí eu fui numa vivência grande nesse sentido. As professoras que eram professoras mais antigas, porque a Márcia tinha essa atuação muito grande pra esse viés do professor. Aí elas vieram. Aí o grupo veio e foi se estabelecendo o nosso jeito de trabalhar, a verdade do grupo. Mas toda vez que eu tinha uma situação... Essa foi uma situação muito importante, que a supervisora me ajudou a pensar na linha do tempo, na coisa do registro do caderno, elas falavam muito que queriam um espaço pra elas darem a pauta da reunião. Então, a gente vai saber falar o que tá ruim, mas você vai saber falar o que tá bom também, como a gente faz com os alunos. Então, a gente construiu uma dinâmica de trabalho que hoje está consolidada, tá posta a dinâmica pro Fundamental I, de como a gente funciona, que importância esse caderno tem pra a gente.

 

P/1 – Como que é o caderno?

 

R – Ah, é lindo! Ele foi um caderno grande que eu trouxe como um álbum de capa dura com páginas em branco. E aí cada uma leva, ao final da reunião leva, ele abre a reunião seguinte, pra ler o caderno na reunião seguinte. Aí sempre tem um texto e tem um exercício dela na folha do caderno, não pode ser só o texto, tem que ser um caderno bonito. Bonito mesmo de ver, que combine o que ela tá dizendo em palavra e as imagens que ela escolheu pra colocar. Uma hora que vocês forem lá, eu mostro.

 

P/1 – É uma reunião semanal, Gabriela?

 

R – A gente tem a reunião toda quarta-feira das quatro às seis. E aí não é sempre que o caderno é lido, porque esse caderno só é lido quando está a equipe de Português, que é a equipe que eu coordeno. Então, quando a equipe tá reunida com a turma do Inglês ou com outra pessoa ele não é lido, ele faz parte da nossa história.

 

P/1 – Vai ter um coordenador que é da área de Inglês?

 

R – Vai. E vai dividir agora a coordenação. Finalmente. Difícil.

 

P/1 – Por quê? Atualmente como é que está?

 

R – Eu sou coordenadora de tudo, de primeiro ao quinto e do Inglês eu pego todos os pepinos que acontecem de disciplina, eu que pego.

 

P/1 – Porque não tem uma pessoa?

 

R – Não tem. Ano que vem entra essa pessoa, pra você ver como é que estava precisando, porque entra essa pessoa a tarde e ainda divide a coordenação do português. Eu devo ficar, eu tô escolhendo...

 

P/1 – Divide a coordenação do Português?

 

R – É. Eu não fico mais com tudo, com primeiro ao quinto.

 

P/1 – Você vai ficar com o quê?

 

R – A Guida quer que eu fique com primeiro e segundo.

 

P/1 – Ah tá, divide em período.

 

R – É. E aí fica terceiro, quarto com outra e a nova diretora pega quinto em diante. Mas assim, tudo que eu sei de F1... Hoje, eu posso trabalhar em qualquer escola do mundo no Fundamental I, porque a gente criou um projeto, não tinha assim. O que tinha antes... Tinha isso que eu falei pra vocês que era muito legal, um projeto muito bacana tal, mas quando a gente chegou eles estavam... A Célia deve ter contado no começo que era o maior... Eles usavam o material Pitágoras assim, que era muito fraco e tinha muita coisa que não sei pra onde foi, evaporou. Porque era muito fraco.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Não sei. Sei que não tinha procedimento, não tinha avaliação. Não tinha assim, era um laissez-faire mesmo assim, era uma coisa muito esquisita. Eu sei que já teve, então eu não sei onde foi que perdeu. A gente hoje tem um trabalho muito sério. Duas professoras que vieram agora de Escola da Vila, e da Fundação Bradesco que tem o dinheirão que tem, estão impressionadíssimas com o nosso trabalho. É uma construção mesmo de... Aí vem o meu jeitão, que eu nunca deixei e algumas vezes até briguei com a Célia, que a gente não pode falar que esse projeto é meu. Ninguém pode dizer isso: “Fui eu que decidi isso, eu que fiz”. Porque esse projeto é nosso, é do assessor. Eu nunca deixei assessor falar: “Essa ficha é minha”. Não. Essa ficha é nossa porque a gente discutiu assessoria, o professor discutiu muito. Tem uma atuação que cada um na sua função fez o que podia fazer de melhor pra aquele trabalho. Então, a gente tem um curso montado, pode sair qualquer diretor, entrar qualquer um que o trabalho está consolidado. A gente vai fazer mudanças, mas não vai dar essa sensação de cadê o trabalho que... Não. Você vai lá e você vai pegar, você vai ter que ter um bração bem grandão pra conseguir pegar esse trabalho que tem hoje. Porque ele não escorrega entre os dedos e é fruto de muito trabalho. Eu trabalho bastante pra PlayPen. Até ontem duas horas da manhã.

 

P/1 – É?

 

R – É. A PlayPen ocupa muito espaço das nossas vidas, de quem trabalha nela...

 

P/1 – De educação...

 

R – É. Não sei se... Eu fico me perguntando: “Será que é só aqui na PlayPen, em outros lugares...”. Porque é muito invadido o... Eu tô numa situação especial, porque o que eu vivo na PlayPen não existe em nenhuma escola, uma coordenadora pra 13 turmas diferentes. Até às vezes tem pra turmas da... Tem pra oito turmas se forem todas de primeiro ano, o mesmo ciclo. Mas também foi o que me fez ter essa visão geral. Hoje eu sei de currículo de Fundamental I pra caramba, porque eu tive que dançar o samba do crioulo doido.

 

P/2 – Acho que, pra a gente deixar registrado, como é que funciona o trabalho de coordenador de Fundamental I? Quais são as atividades? O que você...

 

R – Eu tenho uma atuação no pedagógico e uma atuação na orientação de alunos e de pais. É por isso que fica bem sobrecarregado. No pedagógico, eu tenho a parceria dos assessores, então tem um assessor pra cada área. O assessor vem uma vez por mês e ele me ajuda a acompanhar como vai o andamento do currículo, ele me ajuda a fazer uma análise do material que o meu tempo e por não ser especialista eu não faria.

 

P/2 – Ele seria uma ponte entre você e o professor?

 

R – É. Então, ele vê o material, a professora produz algum material tem que mandar pra ele antes pra ele ver se o conceito tá certo de Ciências que ele vai ensinar, de Geografia, de História. Essa é uma puta ajuda, porque eu não tenho a formação pra isso. Ele vê as provas que a gente elabora pra ver se os objetivos estão sendo atendidos, se isso é assim mesmo tal. Então, eles me ajudam. Aí a minha atuação no pedagógico com elas vai muito de assim, qual é o nosso projeto? É reforçar o nosso projeto. Tudo bem, o assessor às vezes pensa uma coisa maravilhosa, mas não dá porque o nosso projeto... Então, eu tenho um pouco a função de garantir a escolha que a escola fez pro projeto pedagógico, porque o professor às vezes fica com essa vontade de sair muito, o assessor também e lógico, sair sempre vai poder sair, mas sair sabendo o que tá fazendo. Então, eu fico um pouco vendo isso, o tempo que tá, a professora: “Ah, não deu tempo de fazer isso”. Não tem essa história de não dar tempo. Por que não deu tempo se estava previsto? Eu fico na coordenação desse todo buscando sempre a coerência de não deixar invadir muito a área aqui, uma área ali. Coisas que a gente já combinou, por exemplo, hoje eu sei exatamente como a gente produz texto na escola, qual é a linha de produção de texto, como se deve corrigir texto no segundo e no quinto ano. Aí eu fico um pouco olhando, como é que você tá fazendo, professora nova que entra. Crio com elas um documento do que introduz, do que mantém cada conceito. A gente tem um material muito documentado, tá até naquela pasta que eu deixei com vocês que é um quadrinho assim que tem quem introduz, primeiras experiências, sistematiza.

 

P/1 – Que tem até umas siglinhas né, pra isso?

 

R – É. Então, a professora que entra, acalma, porque ela vê o que cabe a série dela. E aí tem o que toma mais tempo, que invade completamente o pedagógico que é a orientação de alunos e de pais. Porque aí na orientação de aluno são todas as situações de conflito que tem, de problema de disciplina, aquela coisa que manda pra coordenação.

 

P/1 – Eles vão na tua sala?

 

R – É. Manda pra coordenação. Sou eu que atuo. Eu estudei muito, é uma coisa que eu quero um dia levar pro doutorado porque daí eu tenho um jeito de fazer mesmo, técnico pra essa idade de Fundamental I.

 

P/1 – Que é essa relação com os alunos? Conciliação.

 

R – Isso. Que é a Telma Vinha da UNICAMP, é um pessoal que vem estudando como tem que pensar a questão da disciplina de encaminhar tal. E aí as crianças, toda vez a criança... Por que não tá aprendendo? Por que não tá alfabetizando? Se é dislexia, se é... Isso tudo aprendi na PlayPen, estudei muito o que é dislexia, o que são essas coisas pra poder identificar. Sou eu que faço o encaminhamento pros pais, que recebo a bronca também quando eles ficam com raiva da escola porque encaminhou. Atendo fono, psicóloga, professora particular.

 

P/1 – Dos alunos que...

 

R – Dos alunos que tem algum problema que a gente tá encaminhando. Pais que a gente precisa chamar porque tem alguma questão mais importante de comportamento, alguma coisa assim que... Aí isso toma um tempo bem grande mesmo do trabalho. Primeiro e segundo ano é onde os pepinos aparecem mais, porque é quando eles estão aprendendo a ler e a escrever. Então, qualquer problema de aprendizagem é ali que desemboca, é quando começa a aparecer.

 

P/1 – E comportamento, tem alguma concentração em alguma série ou sempre...

 

R – Ah, são diferentes os tipos de situação que acontecem, mas é no geral porque eles estão bem danadinhos.

 

P/1 – O que eles aprontam assim mais... Aconteceu alguma...

 

R – Tem os pequenos que não percebem muito, que tiram todo o papel higiênico e colocam no vaso. Tem essas coisas assim que a consequência não é tão... Aí tem uns que já têm um problema que põem, aquela velha história, tachinha pra sentar em cima.

 

P/1 – Continua existindo isso?

 

R – E tem os casos de bullying que são as crianças que estão nesse lugar de crianças... E aí a gente tem uma atuação bem em cima. Aí eu faço...

 

P/1 – Como vocês atuam?

 

R – Primeiro colocando alerta pra todos os professores, porque o segredo é interceder. Primeira atuação é não deixar acontecer, aí quando a mãe fala alguma coisa, a criança também, eu solto um e-mail pra todos os professores, mesmo que não seja professor, pra observar, pra não deixar acontecer. Depois a criança, identificando quem são depende de cada idade pra você ver, porque tem uma idade que a criança já tem consciência do que tá fazendo, da intenção dela e tem idade que ainda não. A gente sempre faz o confronto, eles vão se falar. Um olhar pro outro, falar da sua intenção e aí é conversando bastante: “Qual é a intenção?” Sempre a minha pergunta chave é: “Qual é a intenção?”. Agora, quem me ajudou a ser muito professora é meu filho, gente. Meu filho. Depois que você tem filho, vocês não têm filho?

 

P/1 – Ainda não. Você tem um?

 

R – Eu tenho dois. Um de sete e um de três. Depois que você tem filho você aprende muito mais a ser professora, você fica mais generosa com as mães. Você vê que não adianta pedir pra mãe, não é tudo que a gente consegue fazer, nem pedagogo consegue fazer tudo. Muito mais generoso com a mãe e aprende que tem coisas que você tem que usar bom senso.

 

P/2 – Como é que foi na volta pra PlayPen você voltar pro prédio novo? Porque a experiência de quatro meses foi na casa...

 

R – Foi. Aí eles saíram, construíram o prédio novo. Foi muito ruim o começo porque a Guida ainda estava numa relação com o prédio muito esquisita. Primeiro que era muito vazio, era uma coisa que não combinava, era muito vazio, muito gelado, muito concreto, que não combinava com esse jeitão que eu tinha conhecido da casinha, daquela bagunça, daquela circulação. Era tudo muito arrumado, muito bonito, não podia ter nada desarrumado. Tudo que fosse pra parede, a Guida queria ver, tal. Ela não deixava a gente pregar coisa na parede no corredor. Esse monte de painel que hoje tem no corredor espalhado por tudo quanto é lugar, coisa pregada, demorou muito. Demorou uns dois anos pra ela liberar porque ela estava na relação com casa nova, sabe? Então, foi muito chato esse começo assim, nesse sentido. Porque a escola estava dura de pedra, não podia gastar, devendo pra caramba, a gente não tinha um puto. Ela estava chata porque não deixava a gente pôr nada. Acho que ela nem se lembra disso, eu vou lembrá-la. Não deixava. A gente queria colocar um relógio na parede, ela não deixava pregar nada. “Porque o arquiteto não vai gostar. O arquiteto não sei o quê. O arquiteto...”. Mas aí liberou. Esse começo foi bem assim, precisou ser resistente pra ficar ali, fazer o que a gente fazia com as condições que a gente tinha. O ano passado pra cá que a gente tá usufruindo um tempo de vacas gordas, que o que pedir vem, de material, de... Mas esse começo a gente...

 

P/2 – Tá mais cheia a escola?

 

R – Que tá mais cheia, que de fato as dívidas estão mais pagas. Agora, o que a Célia... Nesse período que foi bacana que eu acho que foi a grande aprendizagem que, por exemplo, eu tive com a Célia, é ritmo de trabalho: “Vamos lá”. Ela saia mais cedo, mas assim: “Vamos trabalhar. Vamos tirar todo mundo pra trabalhar”. Dava uns três gritos no corredor, todo mundo saia trabalhando, a escola toda que estava acostumada aí num clima mais... Não dava. A gente precisava ter aluno na escola. Então, todo mundo tinha que trabalhar no mesmo ritmo. Você dava uns três gritos no corredor, todo mundo saia rapidinho fazendo o trabalho. A gente trabalhava muito num pique assim de...

 

P/1 – E se eu perguntar como é que foi essa transição, porque quando você voltou estava com poucos alunos. O que foi feito pra trazer?

 

R –Eu acho que a gente fez todo um trabalho de marketing. O nome da Célia e do Lyle fizeram a diferença, o tempo de experiência deles, esse primeiro momento. Depois assim, a gente tinha um mantra que aqui nessa escola se lê muito e se escreve muito. Era um mantra, todo mundo falava.

 

P/1 – Aqui nessa escola se lê?

 

R – Lê muito, escreve muito, a escola é muito forte. Era um mantra que a gente falava pra a gente mesmo acreditar. E a gente começou a ter clareza de quais são os projetos que politicamente venderiam a escola. E a gente começou a vender. Fazíamos os alunos escreverem bastante, que nem é nessa proposta que a gente faz hoje, que a gente não precisa mais. Hoje, é uma proposta mais moderna da parte de Língua Portuguesa, mas na época era pros alunos escreverem muito e a gente fazia muita mostra cultural. A escola sempre chamava os pais pra ver material.

 

P/1 – Por que vocês acharam que esse era o argumento necessário, a questão da leitura? Foi talvez uma falha?

 

R – É. Era uma coisa que tinha que a escola é fraca na parte de Português, boa no Inglês, mas era fraca na parte do Português. Então, a gente começou a deixar muito evidente os projetos de leitura, os projetos de escrita da escola, a pensar muito na correção do texto, fazia mostra cultural, chamava os pais pra evento pela manhã cedinho com os alunos dentro da escola. Começou a mostrar trabalho. Fazia reunião pedagógica com a coordenação, apresentava o trabalho. Hoje, a gente não precisa fazer mais nada, mas a gente fazia muito, tudo que pudesse vender a escola, a gente atuava. 

 

P/1 – Primeiro pros próprios pais que estavam...

 

R – É. Pra quem estava e pra manter, porque a gente sabia que isso era coisa de... E foi... A gente não fez nenhuma propaganda em nenhum outro lugar, foi de boca em boca. Simplesmente dobrou!

 

P/1 – Ativaram a rede de vocês.

 

R – Da gente. E aí toda mostra cultural mandava convite para ex-alunos, ex-pais, pais que vieram visitar. A gente tinha muito uma coisa do registro de pais que vieram visitar a escola. Bienal, mostra cultural a gente mandava os convites pra esses pais também, aí eles vinham.

 

P/1 – A mostra cultural o que é?

 

R – É um evento que a gente faz no ano que não tem a bienal de artes, a gente faz essa mostra cultural. Na bienal de artes eu fico atrás de um projeto estético, uma obra de arte, alguma coisa assim, que elas façam com o grupo. E na mostra cultural a gente mostra trabalhos de sala.

 

P/2 – E aproveitando agora o gancho da bienal, você começou a pegar mais esse lado, como é que foi? Você assumiu a parte da bienal?

 

R – Você sabe que eu nem sei o porquê a Guida me colocou lá. Não lembro se ela tinha essa visão toda da minha experiência com a área de artes, mas eu comecei em 2004. A primeira bienal foi meu primeiro ano lá e deu certo assim, porque a forma que eu... Eu não sei como foi muito assim diferente, mas os professores falaram a forma de organizar, de pensar o tempo foi bacana. De lá pra cá todos esses eventos que são maiores a Guida pede pra eu cuidar. Eu fico pensando: “Qual é o meu ponto forte?”. Se eu fosse falar assim: “Qual é o meu ponto forte como profissional?” que eu acho que é um ponto, mas nem um ponto forte, mas um ponto que eu gosto que seja e eu cuido pra manter. Primeiro, que eu mesmo numa situação de stress intensa eu vou ser incapaz de ser grosseira com alguém. Se eu for, eu vou conseguir me retomar ali e ir lá pedir desculpa. E na bienal precisa ter calma porque uma hora o projeto vai brotar, porque tô falando de um processo de criação. A bienal é processo de criação e processo de criação você alimenta, alimenta, alimenta, uma hora ele aparece.

 

P/2 – Não vem pronto.

 

R – Então, acho que a bienal foi um pouco isso, a Guida... Eu me vejo fazendo isso, eu acredito no processo de criação, eu dou liberdade pro processo de criação aparecer e vou alimentando da forma como eu acho que é. Na hora pra sair o projeto eu fico muito tranquila porque se tá tudo organizado e tá todo mundo vinculado com o projeto, fica um estouro. É incrível. 30 anos você vai ver. Vocês vão fazer o livro, mas você vai ver o que vai se transformar a PlayPen. Se bem que a gente vai ter pouco tempo, a gente normalmente tem seis meses pras professoras fazerem outro projeto com os alunos, a gente vai ter três.

 

P/2 – Deixa eu te perguntar uma coisa aqui que a gente na verdade passou por ela. E a questão de ser uma escola bilíngue? Como que é trabalhar num lugar... Como é que foi pra você isso?

 

R – Isso foi uma questão muito importante pra mim quando o meu filho nasceu, de se eu colocava ou não. Porque eu tinha uma compreensão que o Inglês ia limitar a expressividade dele, porque ele não ia se comunicar na escola. Então, eu pensava muito assim: “Mas ele não vai falar, ele não vai cantar cantigas de roda brasileiras da nossa cultura, não sei o quê. Vai ficar uma expressão limitada”. Aí conversando com uma das professoras da UNICAMP ela falou: “Imagina! É mais uma forma de expressão. Ele saber o inglês é mais uma forma de expressão”. E de fato é. É impressionante as crianças agora no quinto ano. Então, pra mim é muito diferente trabalhar numa escola monolíngue, numa escola bilíngue. Você tem que ter um compromisso não só com... Eu não tenho um compromisso com o currículo de Português na PlayPen. Eu tenho um compromisso com o que as crianças vão aprender na escola. Porque se eu tivesse um compromisso só com o currículo de Português eu não vejo porque tem coisas que eles estão aprendendo na outra e não é na mesma língua. Eu tenho que ver ela nesse todo. Então, é um exercício o tempo todo com o Mr. French, de a gente buscar integração do currículo que dá certo, que não dá certo pra ver essa criança como um todo, que tá lá, passa o dia todo, que aprendeu um pouquinho de Matemática ali, vai aprender de outro jeito ali. Essa ideia de que ela tá acionando o cérebro de diferentes formas, aprendendo por regiões diferentes do cérebro. É fascinante.

 

P/1 – E agora uma...

 

R – Acho que seria difícil eu trabalhar numa escola, eu trabalhar de novo numa escola monolíngue, porque é fascinante ver como é possível fazer isso acontecer.

 

P/1 – Agora, só seguindo essa toada, como que é agora com essa perspectiva do alemão?

 

R – Então, o alemão tá só no Fundamental II, ele não tá na mesma equivalência do Inglês, ele tem quatro aulas. Aí é o que a gente tá vivendo, depois que ele aprendeu uma, a outra língua é muito mais fácil. E ele já tem uma relação com aprender outras línguas que é uma relação tranquila, que não é uma relação tensa. Tanto que a gente no terceiro ano disponibiliza pro pai se quiser Espanhol e Francês. No terceiro ano.

 

P/1 – Na terceira série. E aí o que é, as quatro aulas de alemão são o quê?

 

R – São quatro aulas dentro do currículo...

 

P/1 – É a língua?

 

R – É a língua. Não é como a gente tem Inglês que tem Matemática, Ciências, aí é ensino da língua. É como se fosse uma escola de língua, de Alemão. Mas é muito fascinante ver como as crianças transitam nesse universo assim, essa facilidade que a criança tem de transitar nas duas línguas e se comunicar. Eu faço inglês, gente, tô lá gastando todo o meu dinheirinho pra tentar um dia falar.

 

P/1 – E como que é a relação com os pais? Quem são esses pais?

 

R – Esse é meu problema, os pais. Podia ter só os alunos.

 

P/1 – Depois eu vou querer saber...

 

R – Então, os pais não são uma clientela de todo admirável. Tem muita gente ali, muita família admirável, com todo o dinheiro que tem o que eles conseguem, como eles conseguem educar os seus filhos. Mas é uma clientela que ainda tem uma relação: “Tô pagando”. Isso aparece muito forte. Uma clientela mimada. Um dos casos que não dá pra eu ficar na coordenação sozinha, ontem foi um exemplo, a Guida me viu tão nervosa... Mas uma mãe reclamando que eu não consegui falar com ela. Liguei três vezes retornando a ligação dela, ela não pode atender e aí no final ela estava fazendo um escândalo porque eu não atendi ao telefone. Eu falei: “Mas, Sandra, fala...”; “Eu só queria dizer que ele foi chorando pra escola, queria que você observasse”. Pra coordenadora você querer... Fala pra minha assistente que é uma das meninas lá: “Pede pra Gabriela falar com a professora”. Manda um recado pra professora, não precisa a coordenadora te atender pra olhar o seu filho que tá... Então, é um pouco isso. Isso é muito grande assim, nessa clientela. Atendimento pra mim tem que ser... E se eu não puder atender já vai chamar a Célia, vai reclamar pra Célia. Agora também tem famílias que têm... Mas a gente ainda não tá com uma maioria, sabe? Eu ainda percebo...

 

P/1 – Mas tem algum trabalho com os pais?

 

R – Não dá tempo. Eu acho que a gente vai precisar fazer, não deu tempo ainda. A gente até fez algumas palestras, mas ficou muito isolado, não ficou de um jeito que pudesse pensar numa transformação de atitude, de um modo de ver.

 

P/1 – É que você tem que implementar também a cultura.

 

R – É. E aí precisa ser sistemático. Sempre voltar a falar um pouquinho sobre aquilo. A gente não fez. Precisa voltar a fazer, talvez agora aumentando a equipe de coordenação, direção, isso aconteça, porque precisa. É uma clientela que precisa de formação.

 

P/1 – E os alunos, seguindo essa toada, o que essa geração nova que tá chegando...

 

R – É uma geração muito inteligente, com acesso a muita informação. É uma clientela que é gostoso de trabalhar porque eles já viajaram muito. Então, tudo que você fala da gancho, porque eles têm repertório. Tem menor abandonado na minha escola também. Não é porque é muito rico não, mas tem menor abandonado que a gente fala, que é criança muito abandonada de pai e mãe, porque pai e mãe deixam com a babá e aí ele fica também sem cultura porque não é estimulado. Mas na sua maioria é um grupo muito estimulado, com muito acesso, com pais letrados, com pais com muita formação, tem livro o tempo todo, tem jornal o tempo todo. Então, é bacana, a gente brinca assim, tem que tomar até cuidado porque quando a gente vê o nosso trabalho está puxando porque eles vão respondendo. Se você der um trabalho eles vão respondendo porque são crianças muito... Tem a barriguinha cheia, tem onde dormir. É um grupo de criança muito inteligente, é uma geração já mais preocupada com o planeta, é muito engraçado de ver. É uma geração que mostra que... Preocupada com reciclagem, de não gastar água, porque acho que o universo deles de desenho essas coisas tem muito. Não é a maioria, nunca é a maioria, mas já é uma geração que você vê que é diferente da nossa.

 

P/1 – Tem algum episódio que você se lembre, que você sacou isso?

 

R – Ah, tem muito. “Gabriela, a torneira do banheiro quebrou, tá gastando água do mundo”. Tem muita situação assim. Do desperdício de comida, a criança vir falar do desperdício de comida do refeitório. Então, isso é bacana.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar, qual que é nessa trajetória tua na PlayPen, o que você considera que é a tua maior realização lá?

 

R – Na PlayPen?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, o currículo da Fundamental I. Eu acho que é o currículo... Não, são duas coisas.

 

P/1 – Sedimentação dele, implementação?

 

R – É. Assim, fazer a consolidação desse projeto. Eu sei que a atuação, foi muito estudo em meio muito a atuação com os assessores, pedindo pra vir trabalhar. Foi isso e foi um jeito de olhar esse aluno que tem disciplina, que dá problema. Então, poder olhar com ele, ser justo sempre. Você tem que ser justo sempre com a criança. Você nunca pode dar uma bronca se você não sabe exatamente o que aconteceu. Ter paciência pra ouvir toda a história de começo ao fim. Tem que parar tudo, porque é isso que forma a pessoa que ele é. Todas às vezes que a gente parar pra discutir uma atitude que ele teve, adequada ou não, eu tô fazendo a formação da pessoa que ele é. Isso é muito mais importante do que eu ensinar uma conta de matemática. E aí eu acho que isso as professoras me dão o feedback. Acho que é isso que é um diferencial que no dia-a-dia aprende muito comigo ali na forma de lidar.

 

P/1 – Qual que você acha que é a maior realização da PlayPen desde que você tá lá? Desculpa. A maior mudança desde que você tá lá?

 

R – Engraçado que não é a mudança que a Guida mais celebra. Ainda. Porque eu acho que não foi um ano que ela conseguiu... Ela não conseguiu curtir todos esses anos ainda porque ela estava muito preocupada se a escola ia falir, não ia falir, se ia dar certo ou não. Ela não conseguiu curtir esse novo período. Mas eu acho que a maior mudança é no projeto pedagógico, que a gente tem hoje os estudos do meio de cada série, cada série tem o estudo que faz fora da escola pensado e volta pra escola, continua trabalhando. Isso vai do primeiro ao nono ano numa coerência. O processo de avaliação que também é coerente. Tem a linha, agora a gente tem as linhas de atuação de Primeiro a Nono ano. Uma equipe muito forte que sabe o que faz. Eu acho que essa foi a maior conquista da PlayPen, o projeto pedagógico como tá hoje e a equipe de professor que ela tem. Não é o que ela consegue ainda ver.

 

P/1 – Ela tá saindo do urgente.

 

R – É. Mas eu vejo que é o que vai...

 

P/1 – O que são essas linhas de atuação que você comentou?

 

R – É disso assim, papel de estudante, o que eu tenho que trabalhar aqui no primeiro ano quando ele entra que vai fazer diferença quando ele estiver no sexto? O que eu tenho que trabalhar de ortografia quando ele tá no segundo que vai fazer diferença já quando ele estiver no sétimo? De gramática, tudo isso a gente hoje sabe assim, não posso deixar de trabalhar aqui porque isso vai dar um buraco acolá. Se a gente não consegue trabalhar ali na frente, a gente já consegue arrumar porque a gente tem isso, esse trabalho posto, documentado no papel. Quando a gente chegou lá, a gente não tinha planejamentos em papel que a gente pudesse pegar. Nem no papel a gente tinha planejamento.

 

P/1 – Legal. Tem algum fato pitoresco, algum episódio interessante com algum aluno que você se lembre ou algum professor? Enfim, algum...

 

R – Eu vou lembrar depois, agora eu não vou lembrar.

 

P/1 – Se você lembrar depois de repente você...

 

R – Tem o meu filho. Tem várias histórias, mas essa do meu filho a Guida quer que eu escreva lá no papelzinho pra mandar. Eu voltando da escola com ele, meu primeiro filho tinha quase três aninhos, eu vi que ele tinha comido ovinho no lanche, eu falei: “Filho, você comeu ovinho na escola hoje?”. Ele: “Não, mamãe, em casa eu como ovinhos, na escola eu como eggs”. Mas eu não lembro agora, eu vou... Se eu lembrar depois eu falo com vocês, alguma situação.

 

P/1 – Então, a gente, encaminhando aqui mais pro final, como que você vê a PlayPen daqui a cinco anos? O que você vislumbra?

 

R – Eu a vejo maior ainda. A tia Guida vai ter um problema porque ela vai ter que fazer a discussão do espaço dela, porque ela vai continuar em crescimento. Eu vejo crescimento na PlayPen. Eu acho que não tem menor chance hoje, com o trabalho que a gente tem, com a equipe, com tudo, de a gente ter um problema e ela perder aluno. Eu a vejo grande e tendo que discutir o que ela faz com o espaço da escola, tendo que pensar se vai ficar um segmento ali ou não. E continuando a ser referência do trabalho de ensino bilíngue.

 

P/1 – E a educação de uma forma geral? Como que você acha que vai estar?

 

R – Eu acho que cinco anos é pouco pra a gente ver mudanças bem significativas. Eu confio no governo, confio na Dilma, não é minha candidata, mas eu confio no governo. Confio nas pessoas que estão lá pensando na educação e eu acho que a gente também não vai ter um retrocesso, um prejuízo pra área, a gente vai pensar em coisas que vão, passos que vão fazer enriquecer e ampliar o que a gente já tem hoje. Mas eu acho que é pouco tempo pra mudanças tão significativas de serem percebidas num âmbito mais geral.

 

P/ 1- Mas você acha que a gente tá caminhando pra uma melhoria?

 

R – Eu acho.

 

P/1 – Só pra deixar registrado, o nome do seu marido...

 

R – É Carlos Eduardo Fogarolli Costa.

 

P/1 – Legal. Os nomes dos filhos.

 

R – É Vinícius, o mais velho, Argolo Costa e Eduardo, o mais novinho, Argolo Costa.

 

P/1 – O que você mais gosta de fazer na sua hora de lazer?

 

R – Estar com os meus filhos. Sempre. Estar com eles e pensar em alguma coisa, um compromisso meu. Pensar em algumas coisas que eles gostem muito, que eles sintam que eu tô pensando só pra eles no final de semana que a gente tá completamente dedicados a eles.

 

P/1 – Legal. Você quer perguntar alguma coisa que eu não tenha perguntado? Já finalizando assim.

 

P/1 – Eu acho que, eu não sei, talvez você comentar um pouquinho mais sobre a bienal, de como é que ela funciona, como é que são escolhidos os artistas, o tema. Como foi criado o conceito de curadoria que foi um processo meio seu assim.

 

R – Então, a gente... Sabe que a curadoria foi antes, não foi comigo. Quando eu entrei já tinha essa função que era do curador. Mas é isso assim, a gente escolhe um artista e um tema para explorar. E aí é sempre um artista contemporâneo vivo que possa ter uma troca com as crianças. Nós tivemos duas bienais nesse tempo que isso não aconteceu, mas a gente fez a mediação de outro jeito. Uma foi o Lasar Segall, que a gente fez com museu e com os filhos e do Krajcberg que ele, embora vivo, não veio até a escola, mas aí teve a exposição que foi no Parque Ibirapuera. Então, isso ajudou bastante o trabalho. A ideia é sempre essa, depois que eu entrei, que possa ser um momento pra a gente pensar a arte, um encontro com a arte muito maior do que as aulas que tem ao longo dos anos. Ela pode acontecer nesse sentido assim, que a arte quando você entra em contato com ela, ela te invade, ela transborda e cria todo esse processo criativo que tem que vai desembocar. Anos de bienal a gente não consegue fazer metade do que a gente tem pra fazer com as crianças de alfabetização e elas se alfabetizam, porque eu tô estimulando outra relação do processo criativo. Então, é essa a aposta. Aí como a gente faz? A gente faz um período de trabalho com os professores, a gente apresenta o tema e apresenta o artista pros professores e aí eu vou pensando a cada período de reuniões uma pessoa vem falar sobre o tema, uma pessoa vem e faz uma oficina, uma pessoa vem e faz o “nanana”... E aí quando chega no segundo semestre o professor tem que ir com os alunos. Agora ele vai introduzir tudo que a gente fez com ele, ele vai buscar a sua forma de introduzir o artista e o tema pros alunos. Só que ele tá super alimentado, ele já tem o viés de onde ele quer fazer a abordagem. Então, o Krajcberg eu me lembro de uma professora assim, que ela pegou a sombra e o que ela fez não tinha nada a ver com Krajcberg. A princípio se você olhasse não tinha nada a ver com ele, porque ela criou uma coisa outra. Mas o viés dela foi a sombra. Então, ela fez um monte de experiência com as crianças de sombra, de brincadeira de sombra que tudo aquilo compôs depois a... Ela fez uma instalação, a instalação dela e aí a professora de Artes entra muito pra concretizar essa ideia que a professora teve. A arte sai da sala de artes. Ela é feita pelo professor. Então é isso, a gente alimenta pra depois ela introduzir o tema na sala já com o viés do que ela quer trabalhar. Aí ela vai seduzir o grupo de alunos pra aquilo acontecer. E como a gente fez esse percurso, tá todo mundo muito estimulado, alimentado, na hora que for com os alunos vem essa intensidade. Aí não tem como dar errado. Não vai sair nunca feio, fora de prazo porque ela tá tão vinculada com aquele projeto, que é o que a gente aposta com os 30 anos, por isso que eu venho fazendo encontro com as professoras também. Ela tá tão vinculada com aquele projeto que ela nunca vai permitir que ele dê errado. Esse é o segredo da bienal, conseguir coordenar uma escola daquele tamanho e fazer o evento dar certo. Porque é só vincular o professor e o projeto que ela não vai deixar aquilo dar errado.

 

P/1 – Como que você compararia as escolas que você estudou com a PlayPen?

 

R – Nossa. Eu olho aquelas crianças da PlayPen e falo: “Vocês não sabem de nada. Aproveitem aí”. É muito diferente. São realidades muito diferentes de possibilidades que eles têm, porque é uma escola que tem dinheiro pra isso, investe na formação do profissional constante. Não existe professor que não tenha formação constante e a escola não pode partir do pressuposto que isso é dever do professor só. É também, mas é da escola você fazer a formação daquilo que você quer pro seu projeto. Então, é muito diferente de estrutura que tem, da atenção individualizada, o número de alunos por sala, até da escolha dos conteúdos, porque é uma escola laica, que não tem compromisso em prestar contas a ninguém do governo. Então, a gente tem liberdade pra falar dos conteúdos. Essa é uma diferença muito grande. É lógico que sempre tem, eu tenho alunos ali que não estão aproveitando, ele vai ter uma formação tão parecida quanto o aluno que tá na pública e também não está. O fato é que hoje tem uma diferença. Eu não lembro se na minha época era tanto quanto hoje. Mas eu vejo, eu fui votar em escola pública, eu vejo o nível dos cartazes na parede, eu vejo... Eu vejo quando a gente vai pro zoológico, por exemplo, que eu tô com o grupo todo organizado pra fazer pesquisa, só vou a três animais e vou embora, porque aquilo faz parte de um estudo maior que é na sala, tudo organizado. E aí eu vejo aquelas crianças no zoológico passeando. Não é a mesma oportunidade ainda, essa que é a pena. Infelizmente falo: “Gente, como a gente vai conseguir um dia chegar?”. Porque não é a mesma oportunidade de acesso às coisas. Então, é muito diferente mesmo.

 

P/1 – Como que você avalia o impacto da sua passagem na PlayPen, tanto na sua vida profissional como na sua vida pessoal? Essa sua estada na PlayPen.

 

R – Na profissional, é aquilo que eu falei, ela foi a escola mais importante pra eu aprender a trabalhar com Fundamental I. Foi lá que eu aprendi. Essa marca ficou. Tudo que eu sei de Fundamental I é de lá e de um bom nível, eu sei que a gente tá trabalhando num bom nível. Agora, pessoal assim, eu tô contando esse ano pra passar, porque ela afetou muito o meu pessoal. Porque invadiu muito a minha casa, invadiu muito meu sono, invadiu muito o meu tempo com as crianças, com a minha família pelo volume de trabalho. Nesse sentido. Por outro lado assim, é a escola que os meus filhos estão, é marca para toda a vida do que ela significa. Ela tem um significado dobrado porque é onde eu aprendi a ser coordenadora de Fundamental I. A Guida é uma pessoa excepcional porque ela é tão corajosa... A Guida numa reunião falou assim: “Deixa a Gabriela errar”. Ela estava precisando porque a escola estava quase falindo e ela coloca uma pessoa que tá aprendendo e aposta: “Deixa ela errar, até ela aprender”. E acho isso incrível. Pra minha vida é inesquecível essa oportunidade que ela deu de poder assumir um trabalho não sabendo que trabalho era esse e aceitando o meu erro. Tanto que eu assim, não tem nada que eu faça errado que eu não vá na Guida e fale antes. Não tem nada. Eu vou na Guida e falo: “Guida, isso não deu certo, aqui eu comi bola”. Tudo. Ela sabe de tudo que não funcionou bem, o que funcionou também. Eu acho isso incrível dela. Então, é uma marca grande na minha vida.

 

P/1 – E o que você acha da PlayPen comemorar os 30 anos fazendo um projeto como esse de memória?

 

R – Eu que insisti! Porque se eu deixasse a Guida por ela mesma a gente não ia fazer nada. Porque ela estava muito... É o evento que eu coordeno, a gente tá... Ela estava muito mexida, esse ano foi um ano muito difícil na escola, nas relações da escola, com os professores. Porque aí a escola cresceu, não tem mais aquela relação, estava falando até com a Márcia, ela não tem mais a relação com os funcionários que ela tinha antes, caseira. É uma relação profissional. Ela estranhou muito essa relação. Então, ela não reconhecer esse projeto tem muito a ver com isso, ela tá estranhando tudo isso. Ela também não pode curtir porque ela estava preocupada em manter a escola viva, em pé, paga, você pagando. Então... O que você perguntou mesmo? Eu falei um monte de coisa e esqueci.

 

P/1 – O que você acha da escola fazer um projeto de memória dos 30 anos?

 

R – Aí eu li o livro do Pueri. Eu falei: “Guida, deixa eu entrar em contato com o Museu da Pessoa”. Eu sugeri pra ela um professor de História que tem lá e quando eu vi o livro do Pueri eu falei assim: “Guida, deixa eu entrar em contato com o Museu da Pessoa pra a gente ver como é”. Aí ela falou: “Tá bom. Então, vai”. Aí eu tentei falar com a Márcia, falei um pouco com a Márcia e tal. Aí ficou um tempo sem conseguir falar de novo, ela voltou de viagem e falou assim: “Não, dá o telefone que eu vou ligar pra marcar”. Aí ela ficou interessada e marcou. Foi o primeiro orçamento, ela: “... Pensa em dinheiro e não sei o quê”. Aí ficou, o marido alemão que não gasta em nada e tal. Aí eu insisti, falei: “Guida, 30 anos é história. A escola merece esse presente. Você vai começar a fazer, isso vai preencher, vai contaminar a gente, não tenha dúvida”. É o que tá acontecendo, tá todo mundo já doido pra chegar o dia da festa. E ela também. Porque é uma super sintonia dela com a Márcia, com vocês, então ela tá super animada. Aí eu falei, quando terminou o workshop, eu falei assim: “Tá vendo Guida? Que bom que a gente insistiu e tá dando certo”. Ela tá super feliz. Eu acho que não podia passar em branco. Mesmo custando caro pra escola, simbolicamente ela tinha que investir essa grana na escola falar assim: “Eu posso pagar essa grana pra 30 anos depois de tudo que eu passei...”. A Guida é muito de vanguarda. Muito. Eu vejo as coisas que ela faz, e não é porque ela estuda muito não. Ela tem um feeling, uma percepção pra algumas coisas que é impressionante. Ela é muito moderna. Tudo que for de muito moderno, bacana que você levar pra ela, ela tá apostando. Eu acho que não podia passar em branco. São muitas conquistas. Até pra ela ver, falar assim: “Olha, valeu toda essa briga do prédio, essa briga com equipe tudo. Valeu, porque tá aqui o resultado. Essa é a minha história”. Eu acho bem bacana.

 

P/1 – E só pra terminar, a última pergunta, o que você achou de ter dado essa entrevista?

 

R – Eu achei gostoso! Gostei muito. Incrível. Eu fiquei surpresa porque eu não chorei, porque eu sou uma chorona quando vou falando assim. Talvez se eu falasse mais do meu pai e da minha mãe eu ia chorar. Eu sou uma eterna filhinha do papai e da mamãe. Mas é uma parada gostosa na vida que a gente não faz. Quem não faz terapia não têm essas oportunidades. Eu vivi um tempo atrás uma coisa parecida fazendo a retomada do meu filho quando eu comecei a tratar com homeopatia. É o mesmo sentimento que eu tô tendo hoje assim, a chance de você poder só falar de arrumar coisas que ficaram na lembrança que você fala: “Por que eu tô pensando nisso agora? Por que isso apareceu?”. Eu vou sair daqui e essa história vai continuar. Porque provavelmente eu vou ligar pra um, eu vou ligar pra outro e essa história vai continuar. Então, foi muito gostoso.

 

P/1 – Queria agradecer você em nome do Museu, em nome da própria PlayPen que tá fazendo o projeto.

 

R – Obrigada. Obrigada gente.

 

P/1 – Muito obrigada.








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