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História

Fruto de um investimento familiar

História de: Hélio Menezes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/12/2020

Sinopse

Lembrança da infância e do bairro, Rio verrmelho, onde morou em Salvador. Relação afetiva com os pais. Recordações da escola e primeira infância. Educação e tradição familiar. Religiosidade. Período de vestibular e mudança para São paulo. Vida profissional, viagem a Dakar e mudança de área de estudo. Visão e metodologia da prática curatorial. Carreira acadêmica e estudos no campo da arte afro-brasileira. Trabalhos atuais como curador.

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História completa

Ano 1. Eu nasci na cidade de Salvador, Bahia. Eu sou filho de Sônia e Hélio. Irmão de Camila. Eu sou neto de Tereza, José, Marlene e outro Hélio. Então, nos cálculos já se nota, eu sou a terceira geração, o terceiro Hélio. Eu nasci no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, onde cresci toda a minha infância e adolescência, até os meus dezoito anos, quando eu me mudei para São Paulo, vim fazer faculdade e aqui ainda hoje estou. Salvador, pra mim, foi essa cidade berço, mesmo. Eu cresci numa família muito numerosa e muito festeira. O irmão da minha mãe era casado com a irmã do meu pai, de modo que a gente tem um cruzamento e as duas famílias tornaram-se, nesse processo, uma só. Então, eu tenho uma família bastante numerosa, muitos primos, muitos tios. Festas de aniversário a cada final de semana, porque é muita gente, né? Então, cresci nesse ambiente festivo, diverso, misturadíssimo, com muitos credos religiosos, convivendo no mesmo espaço. Então, eu me vejo muito cria de Salvador, mesmo. Não é apenas a cidade em que eu nasci. Mas eu me sinto densamente influenciado e construído por Salvador, assim.

Então, na minha escolinha era aquela coisa de, desde aquela época, sei lá, cinco, seis anos de idade, (risos) eu era o aluno número um da escola. E as professoras todas, sabe, aquela coisa de mimar o aluno preferido. Eu fui o orador da turma, na... nessa coisa de você ganhar o diploma de alfabetizado, né? De terminar o... não é nem diploma, eu não sei que nome dar a isso, mas... Formatura. Na formatura da primeira escola eu fui o orador. E aí, quando eu me formei no terceiro colegial, eu fui orador de novo. E aí, quando eu me graduei, da minha primeira graduação, eu fui orador de novo, da minha turma. Tipo, eu sempre fui o orador da turma. (risos) E isso começa lá atrás, desde a escolinha de primeira infância. Meus pais têm, ainda hoje, mas especialmente à essa época, da infância minha, de minha irmã, é isso: a educação sempre foi um valor fundamental na minha família. Como valor em si e como estratégia de autonomização. De melhora de vida, de ascensão, de formação de si. De modo que a minha rotina era muito de sair da escola - isso eu lembro - ainda pequeno, ir para casa, fazer o dever de casa, almoçar e fazer o dever de casa. A primeira coisa era fazer o dever de casa. 

Então, tirando esses momentos de bombeiro e oftalmologista, que eram coisas mais de criança, adolescente, assim, que se encanta com uma coisa e tal, quando eu comecei a ter um pouco mais de consciência do que eu gostaria de fazer, eu sempre tive a certeza de que eu seria advogado. Porque esse é um projeto familiar também. Então, meu avô foi advogado, meu pai é advogado, a minha irmã é advogada. Eu venho de uma família que encontrou na Educação e no exercício do Direito, o lugar da ascensão social, o lugar da formação intelectual, enfim, de tudo. Então, imagina, o meu avô chamando-se Hélio, advogado. Meu pai chamando-se Hélio, advogado. É natural que eu fosse também um Hélio advogado. E foi esse o meu plano até o limite, na realidade. 

Eu cresci num bairro voltado para o mar, que festeja o mar, que entrega flores ao mar. Que se organiza, anualmente, para celebrar o mar. E me mudei pra São Paulo. Então, foi um baque tremendo pra mim. Foi um baque tremendo pra mim. Chegar também na USP, num curso super elitista. Eu não tinha ideia que Relações Internacionais... quer dizer, eu prestei o vestibular e, quando eu passei, eu fui saber: era um curso que tinha sessenta vagas. Então, assim, é muito pequeno, é super elitista. E não tem sessenta vagas porque não pode ter mais. É porque quando você diminui, mais você elitiza, né? Então, foi uma mudança radical de... se lá eu vivia - sem romantismo - entre caboclos encantados e violências e coisas erradas também, aqui, na USP, eu convivia apenas com gente branca, basicamente. Então, eu fui o primeiro nordestino a entrar no curso de Relações Internacionais da história da USP. Veja bem! Isso não é orgulho nenhum, né? Devia ser vergonha pra USP. E eu acho que eu fui o terceiro preto a entrar, porque antes de mim tinha o Marcos, que hoje é diplomata, assim, um colega. E junto comigo entrou o PH. Acho que é isso. Acho que não tinha mais ninguém, negro, indígena, não branco. Não que eu lembre, pelo menos. 

Eu me vejo, profissionalmente, como um pesquisador, curador. E, por economia das palavras, eu uso curador apenas, porque entendo que é da prática da curadoria, fazer pesquisa. Então, pesquisador curador é um termo redundante. Porque, se você é um curador que não pesquisa e eu conheço muitos colegas que são curadores que não necessariamente têm pesquisa, pra mim não é curadoria. Não é curadoria. É organização de obras de arte, é, sei lá. 

É o Atlântico, cara. O Atlântico é um negócio muito doido pra mim, assim. Foi uma experiência... assim, eu me formei em Relações Internacionais e trabalhei durante quase cinco anos, quatro anos e meio, no Fórum Social Mundial. Eu fui coordenador internacional do fórum, com vinte e dois anos de idade. 

Então, eu fui, pelo fórum, três ou quatro vezes ao Marrocos, eu fui três vezes à Tunísia, eu fui seis vezes à Dakar, eu fui duas vezes à África - tudo pelo fórum - à África do Sul. Eu fui à Bangladesh, eu fui ao Curdistão. Eu fui à Turquia, eu fui à França, eu viajei o mundo trabalhando pelo fórum. Aos vinte e poucos anos de idade. Então, isso é óbvio que transforma muito a pessoa, assim. Eu entrei como estagiário no fórum e, em seis meses, eu virei coordenador. Porque eu sou desses, né? Aplicado, assim (risos). E nisso foi o Atlântico, foi o mar porque, quando eu cheguei em Dakar, (fffffffuuuuuuuuuuuu), a primeira vez, em 2010, foi um... Dakar foi uma transformação oceânica! 

No Centro, perto de onde eu trabalhava, era bem no Centre Ville, centrão de Dakar. Ficava a dez, quinze minutos a pé, do meu trabalho, um mercado popular, maravilhoso, que é o Marché Kermel, mercado Kermel. Eu amava, então eu ia lá todos os dias, mesmo para não comprar nada. Porque era um ambiente muito vivo, mercado africano. Imagina, gente! Era um mercado africano, numa grande cidade. Aquela cena mesmo, sabe? E eu amava, amava o Marché Kermel, fiz amigos lá, entre os quais, Parkour. E eu me lembro da primeira vez, quando eu conheci o Parkour, eu vi uma escultura, desse tamanho assim, mais ou menos, que era um Xangô. Um Xangô de seios. Que eu já tinha estudado na Antropologia, assim, por interesse, que era uma figura um pouco sumida do Brasil. Que os Xangôs, aqui, foram masculinizados... foram retirados. A gente tem os Xangôs em madeira, tal e qual, com o machado bifacial, a estrutura é a mesma, mas os seios caíram no Brasil, né? Na diáspora, de um modo geral. E eu encontrei, em 2011, um Xangô de peitos no meio da feira de Dakar. Eu fiquei louco. Minha cabeça explodiu com aquilo. Porque, nos fundos da casa da minha avó, tem um Xangô tal e qual, sem peitos. E aquilo eu falei: “Não é possível”. Pra minha questão, que ficava na cabeça, foi uma só e essa questão me persegue até hoje, lá se vão dez anos atrás, de tentar responder essa questão que o Atlântico me deu a partir do Marché Kermel: como que pode essa forma que eu encontrei lá, ter atravessado o Atlântico, passado por quatrocentos anos de escravismo, de perseguição cruel, continuada, após o escravismo, com queima de terreiro, com desvalorização, demonização, aí eu atravesso o Atlântico e encontro o mesmo Xangô, que tem lá escondidinho nos fundos da casa da minha avó, vendendo na rua. Aquilo não... eu ainda não consegui responder. Não sei se eu vou conseguir responder, de como pode essa forma ter se mantido basicamente inalterada. Porque uma coisa é você continuar talhando em madeira, outra coisa é você manter o machado bifacial, (risos) sabe assim? (risos). A genuflexão, o joelho dobrado, a postura austera. O corte geométrico do rosto. Tal e qual. Aí aquilo eu falei, pra mim foi: “Eu preciso estudar isso”. Sabe quando isso vira uma obsessão? Era uma obsessão pra mim. Como que eu encontrei, lá do outro lado do Atlântico, aquele objeto. Eu comprei. Eu o tenho na minha casa até hoje, esse Xangô. E, para mim, foi uma coisa de: “Eu preciso entender. Enquanto eu não estudar isso daqui, eu não vou ficar tranquilo”. Por isso que até hoje eu não sou tranquilo (risos). Porque, enquanto eu não terminar de estudar isso... e isso me levou imediatamente para as artes, assim. E aí eu comecei a pesquisar. Eu queria, no meu mestrado, pesquisar a estatuária de Xangô, assim (risos). Tamanha a obsessão. Aí eu vi que a estatuária de Xangô me abria, em realidade, um campo de pesquisa, sobre produção artística negra, mais amplo. Porque, para tentar entender as formas daquele Xangô em madeira, eu fui ler os críticos de arte, especialistas, historiadores, né? Eu fui ler tudo. Você não encontra. A questão é que é tão eurocêntrico o pensamento em artes no Brasil e no mundo, mas no Brasil a coisa ganha, por sermos a maior colônia escravista do mundo, o desprezo pelos cânones africanos, a ignorância para entender como se constitui aquela arte e não à toa é chamada de artesanato, né? A arte, arte, seria a arte europeia, a arte anglo-americana e tal e aquilo é artesanato. Eu falei: “Isso aqui não é artesanato, meu querido”. Porque é isso: uma forma que atravessa quinhentos anos é forte demais pra ser resumida a artesanato. 

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