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História

Fredi Jon, da arte do agito até a arte da emoção

História de: Fredi Jorge Silva Oliveira
Autor:
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Fredi Jorge tem lembranças de uma infância feliz. Claro que alguma coisa ficou no terreno das frustrações. Como a falta de estímulo para a música, talvez algumas incompreensões. Mas foi bom se sujar de barro; andar de BMX numa roda só; comer jabuticaba, brincar de cabana. Não demorou muito tornou-se viajante e escritor: o primeiro livro de poesia e muitas viagens astrais. A música estava no sangue, surgiu como adrenalina; de tão intensa, cansou. Quando viu tinha um filho, precisava virar o jogo, amadurecer. Descobriu encantos na serenata. E sentimentos com os quais se identificou. Construiu ali a sua história, adicionou tudo o que a sua imaginação lhe permitia e lhe pedia. Dançarinos, romantismo, poesia, bom humor, emoção. Coleciona histórias de como a música, a expressão artística se caracteriza por um poder transformador.

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História completa

Fredi Jorge, ou melhor, Fredi Jon de acordo com a numerologia. Era para ser Pedro, porque eu era esperado para o Dia de São Pedro; depois escolheram Rogério Jorge, acabou Fredi. Sugestão do escrivão - talvez uma premonição do futuro artístico, porque Fredi era um compositor da época. Reminiscências da infância me transportam aos meus avós - em especial, às avós. A materna era onde eu comia direto do fogão a lenha; e onde eu ficava todo o tempo, que a escola era longe de casa. Já a avó paterna era benzedeira, afamada no bairro dela. Desde pequeno, eu sempre gostei de música. Era muito a fim de um violino, mas o pai não tinha dinheiro. Aliás, dada a situação da gente eu não tive incentivo musical. Meu pai dizia assim: “Música e mulher, só faz sucesso quando é novo”. Aí, eu me dividia entre a música e algo que já era um prenúncio de experiências extra-sensoriais. Não sei se esse mundo estranho, exotérico, teve alguma relação com o meu momento de nascimento, praticamente um milagre. Os médicos chegaram a dizer para a minha mãe que não daria para garantir os dois vivos - ela e o bebê. Tanto que, como sequela, só conservei cerca de 30% da vista esquerda. E ainda de lembranças antigas, eu falaria das brincadeiras - queimada; cabana; guerra de mamona; bicicleta; carrinho de rolimã, e o futebol - voltar para casa todo enlameado. Agora, a sensação mesmo foi a BMX que eu ganhei - andava com uma roda só. E, na escola, eu adorava arrancar a maria-chiquinha das meninas para jogar bola de gude. E, como num filme antigo, a sequência de experiências, sensações, aspectos multifacetados da realidade vai se impondo como recordação: as surras que eu levava, às vezes sem merecer, às vezes por ingenuidade, inocência, outras merecidas; a pouca informação da época; gostos, como o vôlei; diversões como o quintal da avó, repleto de jabuticabas, de comer até a barriga doer, disputando com os passarinhos, com o cachorro. Você era moleque, você era encantado com a vida. Hoje, perdeu esse encantamento. (...) você ganha muita realidade, mas a realidade em hora errada. Ocorre que quando eu devia estar focado em outras coisas - estudo, namoro, por exemplo - eu comecei a fazer viagens astrais. Em que consiste? Sair do corpo, estar dormindo e não estar; acordar e não estar acordado. Aí, entre 17 e 18 anos, escrevi o meu primeiro livro de poesia. E, nas minhas viagens, que se intensificavam, eu sentia que estava viajando só na mente; o corpo não. Comecei a perceber que eu me deslocava; que as cores eram mais fortes; as coisas mais vivas; os cheiros. Passei, portanto, a ter todas as sensações e percepções de um outro mundo. E foi nessa época que eu conheci o Antônio Carvalho, da Bandeirantes, amigo do meu pai, um segundo pai. Um maluco legal. “Maluco beleza!” Que me falou de mundos intraterrenos, da escada de Jacó, coisas do gênero. E mais viagens. Eu voava, penetrava nos cenários, mil inspirações para minha poesia - “A areia ardia antes de o Sol soluçar seus segredos…”. Mas aí, achei que era tempo de parar. E parei. Só que, antes, vivenciei coisa mais impressionante: matéria dentro de matéria - eu atravessando a parede… “Meio sombria, meio gelada, mas é normal”. E eu indo mais, voando, até um lugar de onde eu vi a Terra, a Lua, um ser de outro planeta; aliás, cheguei a tocar nele. E essa foi a última “viagem astral consciente” que eu fiz. Parei. Eu preferi interagir com o mundo real. Bom, mas aí eu terminei o ensino médio, fui trabalhar mesmo. Num banco. Para descobrir, em pouco tempo, que aquele mundo não me pertencia. Reuni os amigos, montei uma banda, fui para a noite. Profissionalmente. Flashback, rock, hard rock, country, tudo que aparecesse. Fizemos Capital e interior, às vezes três shows por noite, tocando de segunda a segunda em determinadas épocas. Rádio, gravação - dois discos, um não lançado porque o pessoal dessa última banda (eu tive outras, ao longo do tempo) começou a apresentar um desânimo; muito desestimulados, sei lá, alguns saíram… Mas eu continuei. Só que ganhando mal e tocando pouco. E, coincidentemente, pelo que eu chamo de “acidente de percurso”, eu ia ser pai. Numa situação inteiramente diferente da que, um dia, eu imaginei: pensei que seria fruto de muito amor, muita estabilidade, uma família amorosa e responsável. E não, eu estava entregue ao sexo como se fosse um vício - não sei como a Aids não me pegou - era farra emendando farra. Eu estava precisando amadurecer, assumir uma outra postura diante da vida, já havia um filho, precisava virar o jogo, ganhar o suficiente, criar a minha história. E, por circunstâncias, fui criá-la no lado diametralmente oposto: não era agito, não era a coisa compulsiva, não era a contínua ativação do chakra do sexo, era uma coisa que se encaixava mais num cenário de emoções, de sensibilidade, de criação, de apresentar a música como elemento transformador: eu fui fazer seresta, seja lá qual for a diferença entre seresta e serenata; alguns dizem que havendo romantismo é serenata; não havendo é seresta. Seja como for, é emocionar as pessoas, tocar as pessoas, marcar as pessoas, e também brincar com as pessoas. … é o lúdico em cena, junto com o vintage e com o atual. Na verdade, o jogo começou a virar quando eu conheci o ator e músico Rudifran Pompeu. E, através dele, eu descobri que assim como existe a música só de alegria, de agito, da adrenalina, também existe um outro gênero, sereno, profundo, bem humorado, que igualmente contagia, resgata emoções, encanta, emociona, transforma. Pode ser na casa da pessoa, no salão de festas, no hotel, no motel, no bordel e no hospital. Na Maternidade, no trabalho, no leito, na churrascaria, na piscina, na escola e - por que não? - no velório. Foi então que me joguei nesse mercado, adorei fazer, aprendi a fazer, fui trabalhar os textos, compus um figurino, um roteiro. adicionei dançarinos, um cenário, juntei uma trupe, descobri que eu era criativo e que conseguia vender as minhas ideias. Quando vi, o propósito não era só ganhar, era dividir: dividir alegria, repartir emoções, intercalar humor e sentimentos puros. Homenagens inesquecíveis, sinceras - gente que delas se lembrava seis, oito anos depois. Gratificantes, incríveis. Como a da babá que ofereceu a serenata a uma menina com síndrome de down e nove anos mais tarde pediu uma outra: desta feita, para comemorar a maioridade da sua protegida e para que ela revivesse a emoção maior da sua infância, segundo conseguia se expressar. E a história do cara que ofereceu dez serenatas a dez moças diferentes e acabou casando com a última, justamente a que mais o rejeitou e à sua iniciativa. Serenata oferecida com as músicas de que fulano mais gostava; só que o cenário era o velório do mesmo - o que falar? como falar? para quem falar? A serenata do bordel, o marido que traiu e se arrependeu. A serenata para a jovem parturiente - texto sobre o nome da criança, o anjo da guarda, o mapa astral do recém-nascido, o signo. Eu próprio saio do guarda roupa, na Maternidade, vestido de anjo, violão a tiracolo. Então, tudo isso eu aprendi com a serenata, com essa forma de usar a música para despertar sentimentos, emoções, surpresas, gratidão. Num mundo dominado pela tecnologia fria e alienante, em que prevalece o individualismo, de que é modelo a “selfie” - o eu na frente de todos, todos estão juntos mas quem aparece em primeiro plano sou eu. Enfim, com a música, o telegrama animado, a poesia, o improviso, o espetáculo, eu libero a forma mais lúdica de chegar ao coração de alguém.

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