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História

Francisco Carlos e a Bella Sicília

História de: Francisco Cammilleri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/05/2021

Sinopse

Francisco Carlos Cammilleri nasceu na cidade de Ribeirão Preto, em 28 de janeiro de 1967. Seus avós são da origem de Licata, na província de Agriento, Itália. A família começou primeiramente no ramo dos sorvetes. O seu pai fez mini pizzas até então inexistentes na região de Ribeirão Preto deixando um legado inovador. Conta que a família é muito grande e que há diversos parentes que moram na Itália, sendo a tecnologia um facilitador de comunicação. O imigrante italiano tem grandes sonhos na vida, quer poder rever os seus familiares um dia. Quer ser bem sucedido no ramo da agricultura, no trabalho ou comércio. A pandemia foi repentina e trouxe algumas dificuldades a serem trabalhadas. A cantina Bella Sicília tem 62 anos de muita história e tradição em suas receitas. 

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História completa

          Eu sou Francisco Carlos Cammilleri. Nasci em Ribeirão Preto, em 28 de janeiro de 1967. Minha mãe é Gerônima Sílvia Papa Cammilleri, e meu pai é Francesco Cammilleri.

          A nossa cantina tem 62 anos. Em 1954 foi quando meu pai veio pro Brasil, diretamente pra São Paulo, na casa de um amigo que o convidou. Meu pai tinha lutado na Segunda Guerra Mundial e ficou meio apaixonado pelo Brasil, através dos pracinhas brasileiros, na guerra. Naquele momento de guerra, eles conversava muito e falavam maravilhas do Brasil. Quando a Itália estava na época do pós-guerra, devastada, ele falou em vir pro Brasil. Ele veio pra São Paulo, pois já tinha alguns amigos direcionando, falando: “Vem que é bom, vem que é bom”. E logo já encontrou com esse amigo. Ele, destemido, já foi logo no primeiro dia em busca de alguma oportunidade. Passando pela rua, encontrou a Confeitaria Fasano, e lá estava Fabrício Fasano, também com ‘seus vestimentos’ parecidos, porque os dois estavam meio de terno, meio de boina. E trocando uma ideia, falando em italiano, o meu pai havia contado que acabava de chegar a São Paulo; e ele se interessou, porque antes da guerra meu pai era confeiteiro na Itália. Imediatamente ele teve essa oportunidade. Meu pai falou: “Se eu não souber fazer o que você faz ou me pede em uma semana, você não precisa nem me pagar. Eu só preciso da oportunidade de mostrar meu trabalho”. E por aí meu pai acabou ficando cinco anos no Fasano, aprendendo a lidar com tiramisù, com cannoli, com os gelatos e pegando muito esse estilo. E durante esses anos, ele também fazia o balcão da Casa Italiana, o Massadoro e o Sete Belo, que era uma cafeteria, mas daquelas máquinas antigas de tirar os cafés, mas com muitos cafés.

          E uma vez ele veio até Ribeirão Preto e se apaixonou por um ponto estratégico da cidade, mesmo sem conhecer a cidade. Era na Rua Barão do Amazonas com a Rua General Osório. Ali circulavam as boas amizades, os passeios, os encontros dos jovens que já começavam a ter aquela paquera, e a Bela Sicília acabou se encaixando. Meu pai era solteiro, mas olha que coincidência interessante: em 1959, a minha mãe representou a Sicília num desfile na Avenida Paulista, onde fizeram uma comemoração pra Giovanni Gronchi, que era o presidente da Itália. E em 1959, meu pai inaugura a Bela Sicília, que é Bela Sicília por causa da Sicília. Meu pai pegou minha mãe e nunca mais largou; foi uma grande felicidade pra vida do meu pai, pois eles tiveram um casamento maravilhoso de 57 anos.

          A Bela Sicília começou, na verdade, como uma sorveteria, nesse ponto que eu te contei. A minha mãe tinha grandes habilidades na culinária italiana, e  por conta do cinema em frente, as pessoas paravam naquele ponto, e meu pai começou a fazer umas minipizzas, que não existiam em Ribeirão Preto. Aí os advogados, os médicos, todas as pessoas começam a participar desse momento.

          Eu acho que a gente mantém uma clientela grande dos moradores mais antigos de Ribeirão Preto, mas também de outros que estão chegando e conhecendo a cantina. Ribeirão está vivendo um momento muito diferente. Está me parecendo uma cidade muito semelhante a Campinas. Ela ficou uma cidade muito sofisticada. E o meu cardápio é especificamente em cima da tradição italiana. Eu não tenho feijoada, torresmo, não tenho nada disso. Tenho meu leque italiano. Então, além de eu ter essa clientela tradicional, eu tenho uma clientela jovem, que também está consumindo muito fora e começa a gostar dos antepastos, que é uma berinjela, uma abobrinha, um jiló, que eram legumes que não eram muito bem aceitos pelos jovens anteriormente.

          Agora, uma outra coisa que é um grande concorrente das cantinas, do mercado em si, são as pessoas começando a criar o hábito de fazer comida em casa. Hoje a juventude começa a gostar de cozinhar em casa. Apesar de não ter todos os trejeitos, mas ela gosta de fazer uma comida em casa.

          Em relação à pandemia, eu acho que o grande desafio nosso é essa ausência da família e dos clientes dentro do nosso estabelecimento. Isso criou uma angústia muito grande. A falta desse calor humano dos clientes foi uma coisa que a gente sentiu muito. Porém, eu tive a felicidade, nesse primeiro momento, de ter uma clientela amiga, que estava muito disposta a ser solidária comigo naquele momento.

          Mas a pandemia foi um desastre pra todo mundo, não é? A perda dos clientes que tivemos... nós tivemos clientes amigos que perdemos, entendeu? Isso criou muita dor, tanto é que, alguns, eu nem comentei pra minha mãe, pra não aumentar o nível de angústia. O fato de não poder fazer uma homenagem, uma despedida pra esses amigos da cantina, foi uma coisa muito triste.

          Permanecer no comércio hoje... eu acho que a gente está sendo muito herói, porque são tempos difíceis de resultado, são tempos de pandemia, de doença. A gente tem medo também de alguém ficar doente, tem medo de não dar certo. A gente atende o público, põe máscara, luva, tudo, mas a gente tem medo também. Voltamos pra casa, temos a família da gente - porque pior do que pegar é o passar pra outra pessoa.

          Mas a gente criou algumas estratégias no restaurante: o fornecedor já não entra mais dentro do restaurante, ele entra pelo portão lateral; deixa tudo em cima de uma mesa, e depois, quando ele vai embora, o funcionário vai pegar essa matéria-prima, e lava produto por produto. Então nós não temos contato com o fornecedor em hipótese nenhuma. Tem uma outra coisa que a gente percebe, que também deu resultado positivo: a história da maquininha. Se a maquininha vai, vai receber, muito bem; senão, depois o cliente liga, paga quando puder, quando quiser. Isso criou uma confiança muito grande.

          Graças a Deus a gente conseguiu manter o nosso grupo. A gente não dispensou ninguém, não. Nós trabalhamos numa equipe de dez pessoas e mais dois da família, que somos nós, e às vezes aparece um sobrinho meu pra ajudar de domingo – que é um rapaz que me interessa, que fez Administração na FEA, USP, e ele gosta também um pouco desse meu lado.

          Aliás, eu tenho dois sobrinhos: o Giuseppe, que fez Direito, que participa só na gastronomia, no mangiare; e o Franccesco fez Administração e aparece no domingo pra me ajudar. Mas nós continuamos com esse grupo de funcionários: as meninas na cozinha, as meninas no balcão e os meninos na padaria, fazendo a parte do pastifício. Meu irmão, a minha mãe e meu tio, agora, nesse primeiro momento, estão afastados por conta da pandemia. Esse meu tio às vezes aparece lá, e a gente se preocupa, porque não queria que nada acontecesse com nosso grupo nesse momento muito difícil. Nós sabemos que o balcão, por uma infelicidade, pode contrair algum tipo de doença. Então, dos mais velhos, a gente exigiu que não viessem.

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