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História

Força e fé: uma guerreira na luta contra o câncer

História de: Maria Sylvia Farina Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2011

Sinopse

A história de Maria Sylvia Farina Matos é de muita luta, mas acima de tudo muita perseverança, vitórias e grandes alegrias. Sylvia conta sobre seu casamento, sobre a realização do sonho de ser mãe e, anos depois, ser avó e sobre sua persistência na luta contra o câncer. Uma história inspiradora e uma aula sobre ver o lado bom da vida e não perder a fé.  

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História completa

P/1 – Sylvia, me diga seu nome, local e data de nascimento.

R – Maria Sylvia de Oliveira Farina Matos, sou nascida em São Paulo, na capital, no dia 9 de dezembro de 1952.

P/1 – Seus pais são aqui de São Paulo?

R – São aqui de São Paulo. E esse 9 de dezembro de 52, na verdade no registro  diz dez de dezembro. Dizia-se naquela época que toda criança que nascesse a partir de dez de dezembro, os pais ganhavam um salário mínimo pelo nascimento dos filhos, era uma lei. Então, acho que na hora, acho que ele só se enganou, entendeu, não que ele fizesse de propósito, na hora que o papai foi registrar, ele registrou como dia dez. Eu já comecei dando lucro, já ajudei a pagar um pouco da maternidade, nunca me esconderam isso .

P/1 – Sylvia, conta um pouco sobre a sua origem familiar, os seus avós são daqui, vieram de onde?

R – Meu avô paterno veio da Itália, era barbeiro. Meu pai e os irmãos dele já nasceram no Brasil e a minha avó paterna também era brasileira. Do lado da mamãe, meus avós tem ascendência portuguesa, mas são todos nascidos no Brasil, em Sorocaba.

P/1 – E o que o seu pai fazia, ele trabalhava com o quê?

R – A gente sempre dizia que o papai não teve tanto estudo, mas ele era muito inteligente. Ele fez Contabilidade, que na época não era um curso universitário. Ele foi funcionário por muitos anos do Moinho Santista, onde ele acabou se aposentando. 

P/1 – Em Sorocaba?

R – Aqui em São Paulo. Moinho Santista trabalhava com tecido, ração... Então, ele teve a oportunidade, durante a vida dele, de participar das várias etapas que o moinho teve, tecelagem, pães, bolos, uma série de coisas que eles produziam. E eu me lembro que eu era pequenininha e tinha o Salão da Criança, não é muito do tempo de vocês, era no Ibirapuera, tinha os estandes da Nestlé, da Kibon, e tinha do Moinho Santista, onde eles distribuiam pedaços de bolo e pão de minuto. E todos os dias íamos pro Salão da Criança para comer todas as coisinhas que tinha nos estandes. A mamãe, por sua vez, era professora primária, e também ele acabava conseguindo levar as classes do grupo escolar para poder ir participar, as entradas eram gratuitas, mas eles participavam também do evento em termos de conseguir condução, o Moinho patrocinava levar as crianças até o Parque do Ibirapuera. É uma coisa que eu lembro, que eu ficava toda toda, e eu tinha orgulho de dizer, quando eu ia nos outros estandes: “Olha, meu pai é do estande do Moinho Santista!”, e ganhava mais alguma coisinha .

P/1 – Sylvia, e onde era a sua casa de infância?

R – Olha, do que eu me lembro, quando eu nasci, eles falam que nós fomos morar na Granja Julieta, mas que era uma casa muito fria, porque não batia o sol, diz que o papai quase deu a casa de graça, porque ele dizia que queria sol. Hoje ele tem oitenta e sete anos e quando qualquer um, algum neto, vai comprar alguma coisa ele diz: “Olha a face, porque casa fria é uma coisa horrorosa! Tem que comprar face norte”. E nós viemos para Rua João Cachoeira, que era no Itaim, e eu me lembro que a minha vida inteira eu morei na região do Itaim, Vila Nova Conceição. Quando Itaim e Vila Nova Conceição tinham o Córrego do Sapateiro, o depósito do Mappin, que era o grande magazine de São Paulo, o depósito mesmo era na Rua João Cachoeira, onde tinha cigana, não eram ruas asfaltadas, e eu brinquei muito na rua. Hoje eu sinto que a criançada não tem essa oportunidade de brincar na rua. A gente brincava de pega-pega, pique-pique, e corria. E de noite não tinha medo, ficava todo mundo, as famílias ali também participando, então, minha vida foi mesmo no bairro do Itaim.

P/1 – E como era a sua casa? Era uma casa, um apartamento?

R – Era uma casa, uma casa muito gostosa. Nós crescemos todos os vizinhos juntos, foi uma leva de seis casas, não era uma vila, mas ela pegava uma esquina da hoje tão famosa Rua João Cachoeira, onde era essa minha casa, foi onde eu mais morei. A minha era de esquina, as outras davam volta pela minha para pegar uma rua e a outra. E nós crescemos juntas numa turminha, estudávamos juntas, iamos para escola juntas, foi uma fase muito boa da minha vida.

P/1 – Você tem mais irmãos, irmãs? 

R – Tenho um irmão cinco anos mais velho do que eu, homem, sempre nos demos muito bem, mas acho que essa diferença de idade, de cinco anos, faz também um pouco de diferença, acho que principalmente quando um é homem e a outra é mulher. Quando ele foi fazer faculdade, por exemplo, ele foi estudar fora de São Paulo. Eu estava começando a ficar adolescente, e aquele convívio gostoso... Ele foi fazer faculdade em Taubaté, e a gente não teve aquela coisa que o irmão pega no pé se a irmã tá paquerando, eu não tive muito isso com ele. Hoje eu estou com cinquenta e oito, ele está com sessenta e três, lógico, cada um tem a sua maneira de pensar, mas uma pessoa muito especial para mim também.

P/1 – E como era a convivência na sua casa, quem exercia a autoridade, seu pai, sua mãe?

R – Olha, eu acho que esse lado italiano da família é um pouco forte. A mamãe tá com oitenta e quatro anos e ela vem de uma época que poucas mulheres trabalhavam fora e as que trabalhavam, geralmente eram professoras. Minha sogra, por exemplo, ela foi empregada doméstica, ela veio de Portugal e foi ser empregada doméstica, mas ela diz, “eu trabalhava em casa de professora”. Então, ser professora em escola pública era um “status”, e a mamãe foi uma professora muito bem conceituada, mas muito rígida. Então eu estudava no Grupo Escolar Martim Francisco, que até hoje existe, na Vila Nova Conceição, e a mamãe fazia eu entrar pela porta dos alunos, enquanto outras mães de colegas minhas, entravam junto com as mães. Em um primeiro momento eu achava: “Puxa, eu acho que minha mãe tem vergonha de mim, faz eu entrar pelo lado dos alunos, enquanto as outras mães entram...”. É muito engraçado, talvez na ocasião eu não tivesse feito essa leitura, e acho que depois, até pelos anos passando, foi a forma mais correta. Eu era aluna como qualquer outra aluna, eu era filha de uma professora. Por onde aluno entra? Pelo portão dos alunos. Eu já achava que ela não deixava por rigidez mesmo, a mamãe era uma pessoa mais rígida. O papai era menos rígido que ela, mas ele tinha aquele jeitão italiano dele, de muita superproteção, então tudo não podia. Acho que eu já estava um pouquinho mais velha, ir no cinema na sessão das oito às dez, depois das dez não pode ir, porque pega mal. Homem, sentava algum primo meu perto de mim, ele começava de onde ele estava ‘push’, fazia assim, como quem diz, “longe”. Homem era um bicho na época, então, eu acho que quando eu cresci um pouco, eles me olhavam, podia ser primo, ele mandava afastar, ficava muito perto. Acho que até cresci um pouco pensando que homem era um grande pecado na vida da mulher. E eles me criaram com muita rigidez. Onde até a virgindade, para eles a mulher tinha que casar virgem, falava “virgem, pura e casta”, era um termo que usava. Naquela ocasião, as minhas amigas... Por isso acho que esse negócio de dizer “porque hoje tá assim, que amanhã tá assado”, acho que desde que a gente vê essas histórias, que nem essa novelinha que está passando, Cordel Encantado, essa novelinha das seis, que é bem do tempo... as meninas já davam suas transadinhas, então, o negócio já vem de muito tempo. Mas eu tive uma criação rígida, também não acho que foi uma coisa que me fez sofrer, não, não foi assim como se isso tivesse me marcado pro lado ruim, não, era a filosofia deles, eu entrei na deles, eu era uma menina caseira também. Isso eles tinham de muito legal, eles recebiam meus amigos muito bem em casa. E o meu irmão tinha um conjunto “à la” Beatles e a minha garagem era o estúdio, entendeu? Então, aí eu me sentia o máximo, porque eu era irmã do cara do conjunto. Nessa época eu estava no ginásio e ele no colegial. Eu era muito baixinha, como sou até hoje, e na cantina todas as meninas do colegial me deixavam passar na frente para pegar o lanche, porque eu era irmã. Eu sempre tinha alguma coisa para me esconder atrás, eu era irmã do artista do conjunto que cantava como os Beatles. Então a minha casa sempre foi muito cheia de jovens. Com toda rigidez que tinha, meus pais preferiam que as coisas acontecessem dentro da minha casa. As meninas me curtiam muito no sentido de ter acesso aos meninos, por sinal era uma turminha de cinco muito bonitinha, nunca paquerei com nenhum deles, mas eram uns meninos bonitos, todos estudavam também no Costa Manso, e no Costa Manso eu era premiada para passar na frente da cantina. Eles acabaram tocando no programa do Ronnie Von, a família inteira ia, e não sei o quê, aquela coisa de fã clube estava começando. A Rita Lee naquela ocasião foi na minha casa ensaiar, o Ronnie Von, que morava na Avenida Santo Amaro, foram ensaiar juntos, mas assim, depois cada um foi tomando um rumo em termos de estudo, essas coisas, meu irmão foi fazer faculdade fora e o conjunto acabou acabando.

P/1 – Sylvia, e vocês tiveram algum tipo de formação religiosa?

R – Tivemos, a minha família é católica. Eu tinha um tio, irmão da mamãe, que ele dizia muito:  “Vocês não sabem o que é sentir Cristo na hóstia”. E ele foi modelo para nós, de pessoa, em termos de ser humano, nós aprendemos muito com esse irmão da mamãe, que era uma pessoa muito querida pela família. E o tio teve esgotamento nervoso em uma ocasião, que naquele tempo ainda não chamava Síndrome do Pânico, era esgotamento nervoso, ele acabou se apegando ao Espiritismo, e virou um dos maiores kardecistas que eu conheci. Mas nunca impôs a nós da família a religião, ele fazia o Evangelho no Lar, ele tinha uma entidade que tem até hoje - ele é falecido - é a Casa do Caminho, que é na Vila Mariana, e ele fazia todo trabalho social lá dentro, e fazia um trabalho espiritual. E ele até acabou me dando muitas explicações de coisas que aconteceram na minha vida. Então, em termos de formação, eu ainda acho gente, que você dizer assim, “Eu sou católica”... eu não discuto religião, porque primeiro eu não sei, não sou uma pessoa que sou enfronhada no Evangelho, porque acho que para você discutir qualquer coisa, você tem que ter um pouco de conhecimento. Eu acredito... porque eu acredito em Deus, eu acho que Deus existe, eu acredito nas coisas. A morte d’Ele, de Ele ter vindo para modificar as coisas, mas não sou uma pessoa que fica defendendo essa ou aquela religião, nunca discuti com ninguém e aceito. Na formação familiar fui batizada, fiz primeira comunhão, fui crismada, casei na igreja católica.

P/1 – Mas seus pais eram praticantes?

R – Praticantes, todos nós éramos praticante, íamos à missa no domingo. Eu ainda vou à missa todo domingo, quando tenho condição de ir, quando alguma coisa não me pega no meio do caminho, mas não é não ir porque não estou com vontade, é por problemas de saúde, que às vezes eu tenho e que não dá para ir. Agora, meus filhos foram formados na religião católica, mas nenhum dos dois é praticante. E eu acho que eles também tem o direito de escolher aquilo que eles querem seguir.

P/2 – Eles tem fé?

R – Eles tem fé. Eu sinto assim, a minha filha, até mais do que meu filho, não comparando, eu acho que a fé do meu filho não é verbalizada, ela é muito sentida, e muito atuada. Porque também acho que religião não é pegar o Pai Nosso e a Ave Maria e... Porque em casa eu rezo o terço, minha sogra reza seis por dia, ela reza para a família inteira. Na terceira Ave Maria minha cabeça já foi para outro lugar e já voltou. Então, eu bato papo com Deus antes de dormir, quando eu acordo, “Ó cara, estamos aqui, vamos enfrentar mais esse dia”. E eu acho que religião é viver o dia a dia e fazer o bem ao próximo, mais do que você assumir aquela coisa da religião. O Evangelho tem muitas falas que tem a ver com você servir ao outro, fazer as coisas, ser honesto, e você não precisa ficar pregando isso toda hora, isso é de cada um. 

P/1 – Voltando um pouco. Você contou essa coisa da escola, que você entrava pela porta normal. E tem uma professora que te marcou, quais outras lembranças você tem da escola, desse período?

R – Eu tenho. Eu não sei se é bom ou se é ruim, eu sou uma pessoa que posso ser considerada uma pessoa que sempre teve uma coisa muito forte em termos de liderança, desde o grupo escolar. E não era pela mamãe, porque nos primeiros anos ela ainda não era professora dessa escola. Chegava na hora de fazer uma apresentação: “Sylvia, você quer recitar poesia?”. Eu não era tímida, era bem cara de pau para fazer as coisas, então as professoras me ensaiavam, eu fazia gestos e recitava as poesias. Muitas daquelas que tem a ver com os governos da vida, “Sete de setembro, Dia muito virtuoso desse Brasil, Brasileiro...” e não sei o quê. Eu ia para a frente com as poesias, adorava declamar poesia ensinada pelas professoras. Quando eu saí do quarto ano, que eu fui pro ginásio, uma coisinha feia, uma mentirinha feia, tinha negócio de representante de classe, que era aquela que mantinha contato com os professores, com a diretoria, para reivindicar os direitos da classe. Mas eu não conhecia ninguém, era vestibulinho que tinha no meu tempo para você entrar numa escola pública, naquela época, quem ia para escola particular é quem não tinha tanta capacidade de frequentar uma escola pública, porque as escolas públicas eram escolas muito boas. Hoje se dá o contrário, uma pena. E sinto muito não ter lutado para que as escolas públicas continuassem na mesma forma que eram antigamente. E eu fui para primeira série do ginásio em uma turma de quarenta e cinco, que eu não conhecia ninguém, daí você vai conhecendo as pessoas, mas tinha gente no bairro que você já tinha visto. Ia ter dia da eleição do representante de classe, eu chegava para um e dizia assim: “Como é o seu nome?” “Fulana” “Vota em mim que eu voto em você”. Chegava para outra e dizia: “Vota em mim que eu voto em você”. Isso eu falei para umas sete. Eu tive oito votos, os da sete e mais o meu. 

P/2 – Boa, política! 

P/1 – Política nata .

R – E eu fui a representante de classe nesse primeiro ano. Sinal que alguma coisa eu fiz, porque eu fui representante da minha classe todos os outros anos, até o terceiro colegial, não tinha nem mais eleição. E eu acho que se eu tivesse vivido numa época, não sei se é bom não ter vivido, porque a gente escuta as coisas. Eu era muito nova, na época das revoluções estudantis que tiveram, eu não cheguei a participar disso, porque eu era mais nova, mas eu sempre tive o interesse em lutar pela coletividade. Nas coisas da minha classe eu lutava por passeios, para a gente ter direito a aulas quando os professores faltavam, quando tinha alguma coisa em termos de suspensão de aluno que eu achava que não era verdadeiro, eu lutava para reverter. Então, eu acho que eu tinha essa coisa de liderança muito forte em mim. Mas até hoje, essas sete pessoas que votaram em mim continuam minhas amigas, ó, de quase cinquenta anos atrás. E sempre que a gente se encontra comenta esse fato, “vote em mim que eu voto em você”.

P/1 – Você é amiga delas até hoje?

R – Até hoje.

P/1 – Vocês se encontram?

R – Nós nos encontramos e tínhamos assim, desde essa época, a profissão que a gente escolher, uma não vai cobrar da outra. E eu tive sorte que a minha família não era rica, mas era uma família que meu pai trabalhava, minha mãe trabalhava, eu tinha uma vida boa. Não é de sobrar, mas eu tinha tudo o que eu queria, meus pais puderam proporcionar, comida não faltou na minha casa, acho que isso, quando eu falo de riqueza naquela época, a educação não me faltou, o carinho não me faltou, mas eu tinha assim, eu podia ir na cantina e comprar um sanduíche, enquanto eu tinha algumas colegas que não podiam. Então, a gente combinou que qual fosse a profissão futura da gente, a gente não cobraria das outras. E dessa “tchurminha” eu era a melhor situada financeiramente, uma virou dentista e até hoje eu não pago dentista, a outra é médica, a outra é enfermeira, eu fui assistente social, não tem o que oferecer, porque assistente social não tem muito o que oferecer. Eu tenho às vezes um ombro amigo para gente bater um papo e conversar. 

P/1 – Agora que eu entendi, uma não ia cobrar das outras os honorários .

R – Os honorários. Eu fiquei no lucro, eu e uma menina que fez Biomédicas e que virou bancária. Ela fez o concurso do Banco do Brasil, largou essa parte de biomédicas e foi ser bancária. Ela falou: “A única coisa que eu posso é facilitar e  dizer assim para vocês: ‘Ó, tenta abrir a conta que pode dar na poupança, ou mais isso, ou mais aquilo”. E hoje nós estamos todas aposentadas, a dentista e a médica não, e daí que a gente vê, são profissões que a pessoa acaba virando um profissional liberal e que tem que trabalhar, continuar trabalhando por muitos anos para poder também ter um padrão de vida bom, como graças a Deus eu sou tão orgulhosa das duas, que até hoje elas tem. Tem uma que tem uma clínica de plástica, ela fez Anestesia, está muito bem de vida e a gente torce assim por ela, uma barbaridade, sabe? Ela teve uma vida de infância muito difícil, e hoje é o destaque nosso. Além da belezura que ela virou, porque ela era a gordinha, e todo gordo tem o rostinho lindo. E depois que ela virou médica, que faz plástica, nossa, é um corpitcho maravilhoso, dá de dez a zero em nós .

P/1 – Como era mesmo o nome da escola?

R – Costa Manso, que era também na João Cachoeira.

P/1 – Você fez até...

R – Fiz até o colegial.

P/1 – Ah, você fez direto lá.

R – Fiz direto. Depois eu fui fazer faculdade.

P/1 – E a juventude, como era lá no Itaim? O que vocês faziam?

R – Coisas de brincar na rua, nós íamos ao cinema, na Avenida Santo Amaro tinha muito cinema. Não existiam os shopping centers, eu acho que o primeiro shopping center que teve em São Paulo foi o Iguatemi, que também era perto da gente, mas os cinemas eram de bairro. Então, era sempre a mesma coisa, no final de semana um cineminha, do cineminha ia para uma lanchonete, que até hoje existem algumas, tipo o Joakin’s na Joaquim Floriano, que a gente já ia na época. E a gente saía, tudo muito em turma, não era aquela coisa do casalzinho, quando você namorava, sair sozinho. Nós saíamos a turma toda, nos divertíamos muito, era uma coisa, isto eu acho, mais saudável. Não existia o computador, o celular. Eu sou um pouco “demodê”, mas acho que a gente vivia e conversava mais, eu acho que a gente se enturmava mais. E os bailinhos na garagem também, que a gente botava música, cada uma levava um pratinho de salgadinho, nem que fosse amendoim, batatinha, ou patê, e a gente fazia os bailinhos nossos nas garagens, para dançar com os meninos, que também eram do Costa Manso. Foi uma época, eu acho que eu tive uma época gostosa, embora eu tivesse, como eu falei, facilidade com liderança, eu sempre fui muito agarrada com mamãe, então, muitas vezes as pessoas me convidavam... não sei, era algum medo que eu tinha, as mães convidavam: “Deixa eu levar a Sylvia para passear, nós vamos passar o final de semana em Ubatuba”, por exemplo, eu dizia para mamãe: “Diz que você não deixa”. Eu tinha muito medo de ficar longe da mamãe. Tinha esse meu tio que eu falei que era espírita, não sei o quê, irmão da minha mãe, minhas primas da minha idade, eu queria todos na minha casa, que mamãe levasse todos para lá, mas eu não gostava de ficar na casa dos outros. Nas muitas terapias que eu fiz, nenhuma me explicou muito isso não. Ou eu nunca falei isso como estou falando hoje.

P/1 – E o que a tua mãe falava quando você falava isso, “não quero ir”...

R – Ela dizia que não deixava, era cúmplice. Também não sei se pelos medos que ela tinha, ou qualquer coisa, sei lá. E a mamãe é assim, embora até hoje eu tenha loucura por ela, a mamãe não foi daquelas mães de botar o filho no colo, abraçar, isso ela fez com os netos. Ela era uma pessoa fria, ela não era uma pessoa carinhosa, por isso que eu falei da rigidez dela. Os netos tem loucura por ela, ela é daquelas avós que os netos chegavam e ela já ia para a cozinha fazer o bolinho de chuva, mas com os filhos ela foi mais linha dura. Mas sempre amei muito e até hoje ela é uma pessoa muito especial na minha vida, minha mãe.

P/2 – Ela está bem?

R – Ela também está com a saúde mais fragilizada, eu acho que essa coisa da longevidade dos idosos, eu estava até conversando com algumas amigas minhas essa semana. Eu não sei se isso veio para o bem, ou se veio para o mal, porque essa minha geração, quase todos os pais estão beirando os seus noventa e dois, noventa e um, oitenta e nove, oitenta e sete... E eu acho que a qualidade de vida deles, um vai perdendo a visão, outro vai perdendo a audição, então foram pessoas que foram dinâmicas na vida e que estão se sentindo, como a gente poderia dizer? Vou pegar minha mãe como exemplo. Ela pegava a bolsinha dela, e para mim era um exemplo, ela foi sempre muito chique, ela não deixava de sair sem passar um batonzinho, bolsinha na mão, muito bem arrumada, de meia de seda, “tailerzinho” e não sei o quê. E de repente eu vejo a mamãe com dificuldade de controlar o xixi, o cocô, com dificuldade para andar. E daí ela diz: “Eu não ando mais em mim, eu dependo de vocês”. Isso me dá uma tristeza muito grande, de ver uma pessoa como ela foi, viver isso hoje. O papai sempre foi uma pessoa que sempre quis ser cuidador de todo mundo, eu acho que ainda na fase em que ela estava boa, ele começou a assumir muitas coisas por ela, e ela se acomodou. E hoje, até disse isso para eles ontem, eles estão morando na Praia Grande, ele perdeu a visão, os dois estão com dificuldade para escutar, e ela para andar. Estávamos falando de clínica, como é que vai fazer, de cuidadores. Eu disse: “A mamãe vai ter que ser seus olhos, e o senhor vai ter que ser as pernas da mamãe”, porque eu estava com os dois na rua, eu também tenho minhas dificuldades, ela de braço dado comigo, eles não aceitam uma bengala, e ele de braço dado com ela. Ele “tropicou”, caiu por cima dela, e quase fomos nós três no chão, porque eles também não aceitam que eles precisam desses recursos para ficar melhor. E para uma pessoa de oitenta e sete anos... Eu falei para ele: “Eu acho chiquérrimo se você estiver com a bengalinha na mão”, mas eles não aceitam esse tipo de coisa. Isto me entristece um pouco. Até por conta de outros problemas de saúde que eu tenho, e que eu tento com toda força lutar para tentar vencer. Daí eu sou mal educada, mal criada, porque eu pego no pé e fico brava e eu brigo com eles. É uma briga que talvez eu pudesse ser um pouquinho mais boazinha, mas eu falo com muita rigidez: “Não, porque vocês vão comprar bengala e não sei o quê!”. Quando eu falei isso, até achei que foi doce pela primeira vez, ele aceitou que ela vai ter que ser os olhos dele e ele as perninhas dela, porque ela tá com dificuldade de andar. Acho que foi uma coisa gostosa que nos aconteceu ontem, antes de a gente se despedir, eles estavam indo para Praia Grande. Porque meu irmão está morando lá e para me facilitar algumas coisas, se optou para que meus pais fossem ficar mais tempo na Praia Grande do que em São Paulo. Do papai e da mamãe, um pouquinho é isso.

P/1 – E você estava falando que vocês faziam muito bailinho de garagem, você lembra que música tocava, o que vocês ouviam?

R – Lembro. Não era Roberto Carlos na época, mas eram essas músicas dos Beatles, do Rolling Stones, o Roberto Carlos também já estava entrando. Por isso que eu falo, eu sou muito cara de pau. Tinha um programa do Roberto Carlos na Record, eu devia ter uns treze anos, tinha que levar um cobertor para entrar no programa, quando a Record era na Consolação. Eu peguei um pano de mesa do jogo da minha mãe, e fomos tudo para o programa do Roberto Carlos. Um estúdio pequeno, acho que alguém foi levantar para pegar bala no palco, porque o povo jogava rosa tal, eu saí correndo e sentei na cadeira da menina, no primeiro banco do auditório. E de repente eu vi meu cobertor ser jogado e alguém falou, “Foi cobertor que pediu, não foi um trapo!”. Eu fiquei bem quietinha, eu era meio rasteirinha, viu, mas eu arranjava um jeito de conseguir fazer as coisas. Mas eu era rasteirinha. Que gostoso, gente! Eu nem  lembrava mais do cobertor verde do jogo do baralho desbotado! Foi ótima essa!

P/1 – E no colegial você já estava pensando em faculdade, ou tinha...

R – Estava. Acho que essa foi a primeira grande frustração da minha vida. Porque quando chegou no segundo colegial, nesse tempo a gente tinha Inglês, Francês, tinha uma série de matérias, não era opcional, você tinha um leque grande de matérias. Eu não era excelente aluna, mas não era das piores, era uma aluna média para baixo, eu era muito boa em Matemática, adorava Matemática, mas língua era uma dificuldade para mim, e eu fiquei reprovada em Francês. Eu tinha tanto medo do professor de Francês, que eu precisava menos ainda no exame de segunda época, que era um negócio que tinha, e eu não consegui. Eu sabia só cantar o hino em francês, o “Allons enfants de la Patrie” [La Marseillaise], isso eu decorava direitinho, mas não caía na prova, e eu acabei perdendo o ano. Eu nunca soube perder, eu acho que aí que eu descobri que, para mim, perder era muito difícil. Como é que eu ia ser reprovada se eu vinha com a minha classe até o segundo colegial? E tinha conseguido com o diretor da escola, não com aquela história de “vota em mim, que eu voto em você”, mas que o pessoal escolhesse fazer o curso Normal, porque só tinha Clássico e Científico no Costa Manso. Para vocês terem ideia, por essa luta para virar escola Normal e para a Secretaria de Educação mudar o nome, e ter... porque eram quatro anos para ter, eram os dois do colegial, quem ia pro Clássico fazia mais um, quem ia pro Científico fazia outro, e para Escola Normal mais dois anos. Eu consegui formar uma classe, daí não foi ‘vamos que eu vou dar cobertura’, não, foram pessoas que escolheram fazer o curso Normal. Nós conseguimos formar uma classe e o diretor mandou para a Secretaria da Educação e abriu a classe. E para abrir essa classe tinha que ter “x” alunos, e eu fui reprovada em Francês e não podia ir pro Normal. Eu tinha que repetir o ano por causa do Francês. Daí, o diretor da escola conversou com os meus pais e disse: “Olha, tem escolas que não tem Inglês e Francês, só tem uma língua. E ela poderia passar pro terceiro não aqui, mas ela poderia passar pro terceiro colegial porque ela passou em inglês”. Sabe aquele negócio, o currículo mínimo era tanto, a minha tinha mais cadeiras. Saía como se eu estivesse sendo transferida de escola para uma escola que não tinha Francês, e era uma escola particular, e eu tive que mudar de escola. Eu acho que foi o primeiro grande luto que eu tive, ter que sair do Costa Manso. Porque a minha ideia era fazer Direito depois do colegial, ou Normal, porque eu queria ser professora. E eu não poderia fazer isso por causa da história do Inglês e Francês, então eu tive que sair da escola, só que eu sabia o horário que as meninas entravam, o que elas faziam e não me adaptava na outra escola que eu tava. E daí eu fui estudar numa escola de gente muito rica, que iam visitar museus, riscavam as coisas e diziam: “Meu pai tem dinheiro e paga”, que é muito diferente do mundo em que eu vivia. Era pancada todo dia, eu até falei para minha mãe: “Eu não to aguentando. A pressão é muito grande, o pessoal é muito metido, não é do meu nível, isso não é para mim”. E eu fui parar numa arapuca que chamava Colégio [Humberto Alfredo] Pucca, na cidade. E só ia gente lá para passar de ano. E era eu e uma menina e acho que uns quinze meninos, tudo trombadinha e louco, e diziam assim: “Se vocês não passarem cola para nós, nós penduramos vocês no lustre e damos um monte de pancada”. E assim eu ganhei o ano, mas foi um ano que talvez tivesse sido melhor se eu tivesse perdido, porque as tristezas que eu tive nesse um ano foram muito grandes. Daí, esse menina disse que iria fazer Serviço Social, e eu falei: “Acho que vou fazer também”, e entrei no Serviço Social. Não me arrependo nem um pouco, fiz um curso lindo de Serviço Social.

P/1 – Eu não entendi, posso voltar só um pouquinho? Mas na sua casa tinha alguma expectativa para você seguir alguma carreira?

R – Não, eles nunca fizeram opção. Esse meu tio, que era espírita, ele era assistente social. Talvez por eu ser muito fã dele como assistente social, como pessoa, talvez tenha sido uma influência para mim, entendeu? Mas a mamãe também era professora. Eu não podia fazer o Curso Normal por causa da história do Francês, a vontade primeiro era ser professora, o Direito veio depois na minha cabeça. Eu acho que o Serviço Social e o Direito têm muita coisa em conjunto, acho que tem alguns complementos nessas duas formações nas pessoas. Não foi por influência deles, eu acabei fazendo Serviço Social porque essa minha amiga falou, e o meu tio era assistente social. E todo mundo dizia que ele era um excelente profissional, que não sei o quê, e eu embarquei nisso. E na ocasião, quando a gente estava no terceiro colegial, mesmo nesse Pucca, a gente foi conhecer algumas instituições para fazer escolha, não tinha teste vocacional, para conhecer algumas áreas. E eu fui ao Hospital Antonio Prudente e conheci a dona Carmem Prudente, de quem eu tenho um orgulho muito grande de ter conhecido. E daí eu queria ser voluntária do Antonio Prudente, que era o hospital de câncer e ela também era assistente social, ela também acabou me animando para isso.

P/1 – Quantos anos você tinha?

R – Eu tinha dezoito anos.

P/1 – Nós vamos retomar só um pouquinho de onde parou... Se você quiser começar pela história tá tudo bem também.

P/2 – A Sylvia estava falando... Eu mencionei o meu pai, hoje ele está com noventa anos, está querendo ir embora, se queixa muito da vida, e a Sylvia estava dizendo de uma profissão que tem muito futuro...

R – Eu acho que é assim. Por essas minhas amigas, que eu tenho conversado esses dias por conta de um encontro que nós vamos ter sábado agora, e todas nós estamos com mães e pais com essa idade, então eu estava dizendo, inclusive com a Luciana, com o Tiago , com meus filhos e alguns amigos, que a profissão, que se a pessoa souber, for bem treinada, não precisa ser de formação acadêmica fantástica, mas que tenha paciência e saiba lidar com idoso, é a profissão que vai dar mais dinheiro. Porque você não consegue encontrar pessoas que sejam companheiras do idoso. Porque os filhos estão numa empreitada que muitas vezes não dá para levar num médico, porque não tem tempo, ou porque não pode ou porque ela também não tem filho. Então, esses cuidadores acompanham a pessoa ao médico, escutam o que o médico tem que falar, ou eles que cuidam direto da pessoa e passam para alguém da família. Eu tenho visto em consultórios médicos muitos cuidadores acompanhando, porque as pessoas não podem vir. E o carinho que essas pessoas tem que ter... Então, acho que a profissão do futuro seria dos cuidadores de pessoas da terceira idade, porque eu acho que a longevidade tá indo muito para a frente, as pessoas precisam de alguém junto com elas, pelas dificuldades que elas tem. E eu estava comentando com o Fernando que eu fiz uma reunião na minha casa com umas primas da minha mãe, porque eu achei que a mamãe estava triste. Deu mais de 400 anos no encontro, e são primas-irmãs, todas elas eram viúvas menos a mamãe. E elas chegaram animadíssimas com seus andadores, com táxi, e eu acho que como elas ficaram viúvas há mais tempo e talvez tivesse um pouco mais de saúde na época, elas tiveram que se virar. A mamãe não toma táxi sozinha, elas chegaram todas de táxi, com seus andadores, animadíssimas pro tal do encontro. Então, as pessoas precisam ter alguém, não dá para você deixar uma pessoa de noventa anos dormir sozinha numa casa, e o Fernando estava até dizendo, muitos deles só falam isso: “Não sei porque eu estou vivendo, já estava na hora de eu ir embora, eu não sirvo mais para nada”. E este grupinho que estava na minha casa dizia, numa passada de coisa, como é que eles viam: “Eu vou no teatro, eu ainda faço não sei o quê, eu faço chinelo pros netos”. Por quê? Porque se cuidaram, se gostaram e tiveram alguém junto para conversar. Porque acho que a solidão, do idoso ficar sozinho e não ter com quem conversar, é uma outra coisa muito triste. Porque a gente vê, filhos ainda vão, não sei se acontece com vocês, mas eu vejo, minha mãe tem três netos e minha sogra tem nove netos. Esses netos vão visitar a vó pouquíssimas vezes, porque também não conseguem só escutar: “Eu não estou bem, eu estou cansada, me dói aqui, me dói ali”, não sei o quê. Então, o afastamento acaba acontecendo ou por isso, ou por preocupações dessas pessoas, mas eu acho que esses cuidadores, bem formados, serão grandes profissionais amanhã. Lógico, se a pessoa depende de tomar alimentação parenteral, você tem que ter enfermeira, mas eu digo o acompanhante, o cuidador, aquele que conta história, que ouve as histórias do idoso. A minha sogra adora contar quando ela cuidava das cabras em Portugal, quantas vezes você for na casa dela ela vai te contar da história da cabra, ela vai te contar que quando ela foi empregada, a patroa dela ou era muito enérgica, ou só queria que ela dançasse o vira. Então, quando ela fazia alguma coisa, que não cuidava bem do cachorrinho, ela ia lá e dava um beliscão, porque naquele tempo a empregada apanhava, dormia no porão. Minha sogra tem noventa e dois anos, ela veio de Portugal como imigrante para cá, e eles não deixaram de ser os substitutos dos escravos que existiam, então, a empregada doméstica dormia no porão, tinha que acordar às cinco horas, dormir tarde da noite. Ela diz que essa patroa dizia assim para ela: “Vamos, Augusta! Faça o serviço, você é muito mole!”. De repente ela dava uns beliscões na minha sogra, a minha sogra ficava tristíssima. O cuidador não pode ser esse tipo também, de dar o beliscão. Por outro lado, o dia que ela estava alegre ela dizia: “Adoro ver você dançar o vira”, botava uma música portuguesa e minha sogra, que foi uma moça muito bonita, dançava o vira para alegrar a patroa. Eu acho que é uma porta que está se abrindo por aí em termos de ocupação. Outro dia eu fui ao médico com o papai e a mamãe, acho que eles viram que eu estava um pouco irritada com os dois, e veio uma senhora perto de mim e me entregou um papel. Olha, muito fina. “Eu tenho um carro, eu não sou taxista, mas eu levo as pessoas ao médico, ao teatro”, tinha uma programação de teatro, “Em quatro pessoas eu compro os ingressos, pego em casa, levo de volta”. Porque as pessoas ainda gostam dessa coisa cultural também. Então, acho que é uma profissão do futuro.

P/2 – Conta daquele livrinho que vocês fez quando você ficou grávida.

R – Quando eu estava grávida... Como eu tinha aquela criação que você tem que casar pura, virgem e casta, que eu contei para vocês no começo da conversa...

P/1 – Você não tinha tido namorado antes?

R – Eu namorei muito pouco. E o meu marido é onze anos mais velho do que eu, e também vem de uma criação de muito respeito. E acho que na cabeça dele... Porque eu tenho cinquenta e oito, ele vai fazer setenta, acho que ele é um pouco do tempo em que a mulher não podia ficar rodando muito por aí com um e com outro, então, uniu o útil ao agradável em termos de formação familiar. Isso eu sei porque o meu sogro dizia para mim, tanto homem como mulher é a mesma coisa, é uma coisa que ele falava muito. E eu acho que eu mais casei, embora eu seja muito feliz, depois eu quero contar um pouquinho do companheiro que é o meu marido para mim.

P/1 – Você vai contar tudo. Como vocês se conheceram, até chegar nessa história de grávida...

R – Eu conheci o meu marido numa viagem de navio. Eu já tinha vinte e sete anos, eu queria casar não porque eu queria perder a virgindade, mas porque eu queria ter um filho. E a virgem pura e casta só poderia ter um filho se ela casasse, então eu queria casar. E fui fazer uma viagem de navio e ele estava na viagem de navio. Depois eu soube que ele vendeu um telefone, era no tempo que o telefone era seu, para ele poder fazer essa viagem de navio, porque ele não tinha grana para fazer. Era um tal de Funchal, um navio português pequenininho, não é como hoje que tem esses cruzeiros para três mil pessoas, novecentas pessoas cabiam no navio. E eu estava com cinco amigas e ele estava com um amigo, e eu disse pras meninas: “Olha, eu só vou se eu ficar...”. Porque só tínhamos conseguido uma cabine dupla, o resto era individual, que você ficava com uma outra pessoa, mesmo nós sendo amigas não conseguimos ficar juntas. Eu falei: “Eu tenho que ficar com alguém conhecido, porque não quero dormir com gente que eu não conheço”. E eu fiquei com uma amiga nossa e as outras ficavam com outras. A viagem inteira o meu marido ficou conversando com uma outra moça que dormia na cabine com uma das minhas amigas. E no último dia da viagem, para você ver como é a coisa de religião, eu já falei que minha sogra reza seis terços por dia... Nós estávamos jogando bingo e o comandante falou: “Haverá uma missa agora, em agradecimento à viagem”, o navio era português. Eu parei de jogar, nós estávamos todos juntos, acho que umas vinte pessoas, ele e a moça juntos também, mas eu não vi nada demais dele com a moça, era carnaval. E eu falei: “Eu vou assistir à missa” e quando estava assistindo à missa ele chegou na missa também. E era o último dia da viagem, o navio ia ancorar em Santos. Chegou a noite, era o jantar de despedida, todo mundo mais chiquezinho no navio, naquela época eu tinha um corpinho, modéstia à parte, bonitinho, era baixinha, mas tinha umas perninhas bonitinhas, botei um topzinho, não sei o quê, eu tinha vinte e cinco anos. E chegou a noite, tinha um baile no navio, de repente começam a perguntar “o que quer beber, o que quer beber?”, e eu não bebia nada, falei: “Quero beber whisky” - metida eu - e daí, a menina também falou que queria, o outro falou não sei o que lá. Ele trouxe um copo para menina, eu falei: “E o meu?”, ele falou: “É nosso” e daí nós começamos a conversar. Quando desci do navio, meus pais estavam no porto, as irmãs dele estavam no porto... Nós não nos comprometemos com nada, não teve nenhum beijo, foi conversa até as quatro da manhã e o navio ia chegar às seis, tinha que botar as malas para fora. Eu disse para minha mãe: “Tá vendo esse cara? Eu vou casar com ele”, eu disse para mamãe. Passou uns vinte dias, nada. Ele me ligou, nós fomos tomar um chopp no Joan Sehn, começamos a conversar e começamos a namorar. E um ano meio, com as nossas duas idades, ele com trinta e oito, não tinha mais muito o que esperar, nós namoramos, noivamos e casamos. E logo eu fiquei grávida, porque o meu sonho era engravidar, era ter um filho. Eu não vou dizer para vocês que eu casei a mulher mais apaixonada do mundo, mas hoje eu sou muito apaixonada pelo meu marido, pelo companheiro que ele tem sido nesses trinta e um anos. E um mês e meio depois eu fiquei grávida. E eu escrevi durante a minha gravidez, era isso que eu estava falando com o Fernando, todos os dias eu conversava com o meu filho.

P/1 – Ai que lindo!

R – Conversava, e guardei. Até uns três ou quatro meses depois que ele nasceu, aí tinha o álbum do bebê, as coisas já iam mais pro álbum do bebê, primeiro sorriso, primeiro dentinho, mas ainda uns três meses depois de ele nascer eu ainda escrevi, e guardei isso. E quando ele fez dezoito anos eu dei para ele. “Ô mãe, obrigada”. Mas ele nunca comentou, e eu sou “fucenta”, eu pus, está no mesmo lugar, caramba, e não fala nada do que eu escrevi para ele? Aí, um dia eu falei para ele: “Oh Tiago, você leu?” “Não mãe, não li, não”. Eu fiquei numa frustração de morrer. E eu fazia terapia, eu fui falar para minha terapeuta: “Eu não me conformo, escrevi, era a coisa mais importante para mim” “Era para você, não para ele. Ele não pediu para você escrever nada. Isso tudo que você escreveu é importante para você, você fez porque VOCÊ quis fazer. Não queira passar pro outro gostar ou não gostar daquilo que você escreveu ou que ele é obrigado a ler aquilo que você escreveu sobre ele”. Eu achei o tal do caderninho, ele não tinha lido mesmo, e pensei: “Já que é meu, eu vou catar ele de volta para mim”. Passou um tempo, ele disse para mim: “Mãe, cadê aquele caderno que você escreveu para mim?”. Eu falei: “Tá comigo porque vocês falaram para eu fazer terapia, a terapeuta falou que ele é meu”. Ele falou: “Não, você escreveu a minha vida, agora eu quero ler, tá no momento de eu ler a minha vida”. Ele leu, e tá com ele, não está mais comigo. Então, eu tenho dois filhos, eu me dou divinamente bem com a Renata, depois vou contar um pouquinho dela, ela teve neném. Mas eu tive uma identificação com o Tiago muito grande, primeiro porque era o meu sonho mesmo ter filho, curti a gravidez da forma mais apaixonante do mundo. E ele nasceu por descolamento da placenta, eu estava numa festa, tive descolamento da placenta e nós dois quase morremos. Eu fui para o hospital, eu me lembro que estava com roupa emprestada dos outros, final de gravidez sem comprar roupa não dava, alguém me emprestou. Sei que o sapato fazia assim: “Chuá”. O sangue, eram coágulos de sangue que eu perdia, e logo os amigos me acudiram, “Acho que estourou minha bolsa”, quando fomos ver era sangue. Ele estava de oito meses, eu fui pro hospital, o médico foi acionado, foi chegando junto. Por isso que eu digo dos profissionais, quem conseguiu perceber que o Tiago ainda estava vivo foi uma parteira, porque com todos os aparelhos modernos não escutaram o coraçãozinho dele bater, e essa parteira veio com um negócio que parecia aqueles megafones e conseguiu ver o foco do bebê. Eu acabei tendo o Tiago até na maca, foi uma coisa muito rápida, e o médico chamou o Américo e disse para ele: “Nós vamos tentar salvar um”, ele disse: “Salva minha mulher”. Porque a hemorragia tinha sido muito grande, eu tinha perdido muito sangue. Graças a Deus nós dois estamos aí, eu e o Tiago. Então, a nossa aproximação foi sempre muito forte, eu acho que talvez eu tenha paparicado muito ele, de muito medo. Ele ficou um mês no hospital, eu ia todos os dias ao hospital tirar leite para tentar dar para ele, ele só podia tomar vinte gramas de leite, ele era muito pequenininho. Hoje você vê criança que nasce com seiscentos gramas e sobrevive, na ocasião ele nasceu com mil e setecentos, perdeu, foi para um mil e quatrocentos e tinha vinte e seis centímetros. Ele era uma coisinha assim, pequenininha, e eu não podia pegar nele, porque ele tinha que ficar na incubadora. O primeiro dia que a enfermeira disse: “Passa a mão nele”, acho que foi a maior felicidade que eu tive na minha vida. Dentro da incubadora, eu botei a mão em dois buracos e pude passar a mão nele. E por uma infelicidade minha, e daí eu volto a insistir, que em todas as profissões existe gente boa e gente ruim, ruim em termos de capacidade, de humanidade, quando ele teve alta, o pediatra nos chamou no hospital e disse: “Provavelmente essa criança não faz sete anos. Ele precisa ser muito estimulado, porque ele vai ter uma série de deficiências, porque da meia-noite, quando ela teve descolamento da placenta, à uma e dezenove, o oxigênio não circulou no cérebro dele”. E aí é que o meu tio espírita me deu a grande explicação da vida para mim, e que eu acreditei, porque acho que era o que eu queria acreditar, disse que mesmo sem ele ter recebido oxigênio, ele tinha que ter vindo para esse mundo e ele tinha que viver essa história. Hoje ele tem trinta anos, com vinte e um anos ele se formou em Direito, e ele é advogado de direito de paciente, principalmente portadores de câncer. Então, eu acho que ele foi muito paparicado, acho que eu posso ter errado, porque na ânsia de acontecer isso, e aí que eu falo das falas das pessoas, uma pessoa falar isso para uma mãe que está tirando o filho da maternidade, “ele não sobrevive”. A gente vê que cada um reage de uma maneira. Estávamos eu e meu marido, meu marido não gravou isso, eu gravei na minha memória, e esses sete anos, acho que foram os piores sete anos para mim, dentro da memória, e da gente lembrar da história, muita coisas nesses sete anos eu não me lembro. Eu tinha muita dor de cabeça e vivia intensamente para estimular o meu filho.

P/1 – Mas o que ele tinha?

R – Não tinha NADA aparentemente. É que ficou na minha cabeça essa fala, que ele não passaria dos sete anos, e com os sete anos chegando, eu ia ficando pior de saúde.

P/1 – Mas ele não desenvolveu nada?

R – Ele só teve uma coisa, ele cresceu pouco. Tudo o que mandavam fazer eu fazia. Na verdade ele teve uma hérnia e teve que ser operado. Era só brinquedo pedagógico que tinha na minha casa, eu falava: “Tem que estimular a cabeça dessa criança e conversar muito com ele”. Então ele não podia chorar, porque no meu tempo, e já falaram diferente para minha netinha agora, ele nasceu com uma hérnia, mas não podia operar, porque não tinha peso, era inguinal, não era de umbigo e, segundo eles, não podia chorar porque a hérnia poderia estrangular. E ele tomava um leite, porque o meu leite foi acabando, com a história de ele ficar no hospital, ele tomava um tal de leite Pelargon, que acidificava. Então, a minha vida e do meu marido, que neste momento já foi um grande companheiro, a gente tinha que preparar o leite, sabe aquele negócio de preparar três mamadeiras,  deixa na geladeira, esquenta e vai dando? Você preparava o leite, dava para ele, ele fazia cocô, você trocava ele, dali a duas horas tinha que fazer de novo outra mamadeira. Porque o leite tinha que ser feito na hora e sempre de pequena quantidade, por conta do sugar dele, para ele não perder peso. E o pessoal do meu serviço, eu trabalhava com psicólogas, assistentes sociais, pedagogas, enfermeiras e nutricionistas, elas diziam: “Sylvia, não é possível essas dores de cabeça que você tem”. Eu fazia exame e não descobria a causa, e nunca comentei com ninguém que ele não iria passar dos sete anos. E o meu marido nunca conversou comigo sobre isso. Por isso que eu digo, o cara falou, mas para ele não bateu e para mim bateu.

P/1 – Vocês nunca falaram sobre...

R – Esse assunto nunca. E daí eu fui fazer terapia, que foi uma primeira terapia de regressão que eu fiz, antes de fazer as outras, eu fui fazer terapia por causa da dor de cabeça. O pessoal dizia: “Você tem que ver porque você tem tanta dor de cabeça, já fez tanto exame e não tem nada”. Eram os sete anos chegando. Eu não consegui voltar nessa terapia, porque eu tinha medo de outras vidas, eu voltei coisas dessa vida. E quando eu volto, para duas coisas, misturando as estações. Quando eu volto para do Tiago eu começo a dizer para ela: “Ele vai morrer, ele vai morrer” “Vai morrer do quê?” - ela instigando na terapia da regressão - “Ele tá chegando a sete anos, ele não vai sobreviver” “Mas quem disse isso para você?” Porque na terapia de regressão você tem muito claro, não é uma hipnose, você sabe o que você falou e ela conversa com você sobre isso no final da sessão da terapia. Daí, eu dizia assim: “Ele vai morrer, porque ele chegou aos sete anos” “Mas quem disse para você?” “O médico” “Mas que médico?” “O médico do hospital, no dia que ele teve alta”. Então, tudo aquilo que ficou embutido, eu comecei a colocar para fora e ela dizia para mim: “O que você gostaria de falar para esse médico?” “Seu filho da..., vai tomar no... Como é que você tem coragem de dizer isso para uma mãe? Como você faz uma coisa dessas? Você não sabe que sofrimento tem sido isso para mim. Meu filho não tá tão mal assim”. E chorava. Foi a hora que eu tive uma catarse e botei tudo para fora. E ela trabalhou comigo, era uma coisa que tinha ficado fechada. Ela chamou o meu marido, porque depois eu contei que ele estava junto e ele falou: “Agora vocês falando isso, tá me vindo alguma coisa, mas eu não armazenei isso”. Ele lidou com o Tiago como se ele fosse ter uma vida normal, não marcou para ele essa fala do pediatra. Ela perguntando, ele lembrava do médico ter falado alguma coisa, mas para ele, ele viu que o menino estava bem e não ficou uma coisa tão forte como tinha ficado para mim. E nesta terapia, já que você falou da infância, por isso que eu digo, a gente volta e lembra, uma das coisas que eu tinha na minha cabeça, porque eu sempre fui moreninha e minha família mais clarinha, e eu tinha o meu avô do lado materno que dizia que eu não era filha da minha mãe, que eu tinha sido achada na lata de lixo, que isso é comum para muita gente também. Acho que talvez por isso eu tenha sido tão apegada à minha mãe . E ele dizia: “Você não é filha dela, você foi achada na lata de lixo”. E nesta terapia eu também voltei pro meu parto, porque mesmo depois de grande, às vezes eu me perguntava: “Será que eu sou filha da minha mãe mesmo?”, até uns sete, oito, nove anos. E quando eu voltei também foi um momento muito bonito, porque... Por isso que eu digo, a religião é uma coisa, cada um interpreta mais ou menos de um jeito. Era Nossa Senhora dizendo para a minha mãe que ela ia voltar para este mundo e que ela teria uma filha, que seria eu, junto com meu pai. Eu via a fisionomia do meu pai na sessão de terapia, moço, com a idade quando eu era pequena, e que eles iriam conceber e que eu também estaria voltado para esse mundo como filha deles. Depois disso eu pedi para ela me dar alta, porque quando ela começou: “Nós vamos ver se a dor de cabeça tem a ver...”. Eu falei: “Não, eu tenho medo dessas coisas, vamos parar por aí, eu já vi o que eu queria, que era o meu nascimento e essa coisa do Tiago”. Foi por culpa minha que eu não fiz, mas mais tarde eu retomei a terapia de vidas passadas, que foi muito boa para mim também.

P/2 – Você voltou para a terapia depois de saber que estava doente ou foi antes?

R – Antes, foi antes. O Tiago tinha sete anos e quando eu tive o meu primeiro câncer eles tinham... Faz dez anos, ele tá com trinta, ele tinha vinte anos.

P/1 – Você tinha quantos anos?

R – Eu tinha quarenta e oito anos.

P/1 – Quando você descobriu?

R – No dia 11 de setembro, quando teve o ataque às torres gêmeas e estava passando na televisão, eu estava com febrão, por isso que eu nunca mais vou me esquecer do dia 11 de setembro. Eu estava deitada, eu trabalhava, mas estava com febre e esperando o horário para ir ao médico. E foi tratada como uma pneumonia. Tratei da pneumonia, voltei a trabalhar, tive uma outra pneumonia. Daí, eu tinha uma amiga que era médica pneumologista, eu tive nela e ela falou: “Vamos pedir uma tomografia?”. Fizemos a tomografia e deu um nódulo no pulmão, pequenininho, e ela falava: “É do tamanho de um feijão”. Daí, a tontinha aqui, que não queria enxergar, eu sempre gostei muito de pipoca e falei: “Será que eu não aspirei um milho de pipoca?”, porque eu comia pipoca toda noite vendo televisão, “Vai ver que eu aspirei um milho de pipoca”. Para encurtar um pouquinho a história, no dia 27 de novembro, que essa data tem muito a ver com toda a minha história e minha fé, dia 27 de novembro eu fui fazer uma biópsia, era uma broncoscopia e deu que eu tinha um nódulo no pulmão direito, e que era um câncer. Daí já me mandaram pro cirurgião torácico, que foi um espetáculo de médico, que eu jamais vou esquecer dele. Eu fui com uma lista imensa de coisas para perguntar para ele, ele muito simpático disse: “Vou falar uma porção de coisas, você fica inteiramente à vontade para me perguntar o que quiser”. E daí, só para voltar um pouquinho, eu já peguei, porque eu sou muito rápida, quando eu fiz a broncoscopia eu sabia o dia que ia ficar pronto e deixei marcado médico pro mesmo dia. Só que eu sou muito ansiosa e no carro eu abri o resultado. E disse pro meu marido: “Eu to com câncer”.

P/1 – Então, não foi ninguém que deu a notícia, você que...

R – Eu vi a notícia pelo exame. Na hora, as pernas balançaram. Eu disse para ele: “Nós vamos no médico e eu vou tirar isso de letra. O câncer não vai me pegar, eu vou pegar o câncer.” E fomos nesse médico. Ele foi bárbaro, eu não tinha uma pergunta para fazer para ele, porque ele explicou TUDO que eu queria saber. Eu olhava pro meu papel e não tinha mais pergunta para fazer. O risco de vida, o tamanho da cirurgia, a gravidade da cirurgia, eu não sabia que o pulmão é uma coisa tão grande, que tem não sei quantas camadas, e para você chegar no tumor tem que abrir as camadas do pulmão,tudo, que eu iria ficar na UTI por oito dias, que eu corria risco de vida, sim, que era uma cirurgia muito delicada. “E quando você quer marcar?” “Pro mais rápido que puder”. Eu fui levar o resultado pro dia 27, marcamos para o dia 6 de dezembro. E eu fazia anos dia 9 de dezembro. A cirurgia demorou quatorze horas, ele tirou um lobo do meu pulmão e ele foi conversar com a minha família, que ele estava querendo tirar o segundo, porque eu não sabia de nada disso, daí que a gente começa a ler coisas dessa área, que um pulmão tem três lóbulos e o outro tem dois. Esse meu que tinha câncer tinha três, então, ele ia tirar o segundo também, porque ele estava muito na margem do primeiro e segundo e podia ter passado alguma coisinha. Por prevenção, ele já ia tirar. Graças a Deus na biópsia deu no primeiro sim, mas no segundo não deu e deixei para lá. Até perguntamos, será que eu vou poder morar em São Paulo? Será que eu vou respirar direito? Será que porque tirou dois pedaços do pulmão você não vai respirar porcaria nenhuma? E quando terminou a cirurgia eu fui muito feliz. Doeu muito? Doeu muito. Mas eu já esqueci. Porque durante três meses eu tive que dormir de barriga para cima, o corte é muito profundo. Então, eu fico imaginando, quando a pessoa está dando aquelas bênçãos no casamento, se o padre demorar muito para mandar você ficar com a mão esticada, você já fica com o braço doendo. E o médico contou para mim que para abrir e não quebrar toda a costela, ele tem que botar tipo um abridor, um negócio para segurar, isso por uma hora e meia, para abrir isso, e uma hora e meia para fechar isso, fora o tempo da cirurgia. Quer dizer, a dor que eu tinha, de tomar morfina e tudo... mas tudo passa, é o momento. Você vive aquele momento, foi difícil? Foi. Mas tive outros momentos. E tem gente que passa por coisas muito piores do que isso, e eu tive uma recuperação razoavelmente boa, superou minhas expectativas. Na ocasião, nós estávamos vivendo um momento financeiro não dos melhores, a mamãe botou uma enfermeira para me ajudar, porque tinha aquelas coisas que eles chamam de cachorrinho, que é dreno, não sei o quê? E não dava para cuidar. E meu marido vê sangue e desmaia, e não sei o quê. Eu tive uma pessoa para me ajudar nos primeiros quinze dias, até tirar todos os drenos, e passou.

P/1 – Você ficou quanto tempo no hospital?

R – Eu fiquei dezessete dias.

P/1 – Em qual hospital?

R – No São Luiz. E daí eles até diziam que, por tirar o lóbulo do pulmão, não precisaria de quimioterapia, mas que eles achavam bom eu ter um acompanhamento de um oncologista. Pode falar o nome das pessoas?

P/1 – Pode, eu queria saber o nome desse cirurgião.

R – Eduardo [de Campos] Werebe. A mamãe, toda vez que vê esse moço, beija a mão desse médico. Ele é judeu, de uma humanidade tremenda. Depois saiu do meu convênio, até hoje ele não me cobra uma consulta. Tornou-se meu amigo pessoal, eu não esqueço o aniversário dele, o dia do médico, o Natal, e nós somos amigos. E me indicou onde eu faço tratamento até hoje, o Centro Paulista de Oncologia, que um dos diretores de lá é o Sérgio Simonsen, que cuidou da Hebe, e o doutor Roberto, que é o meu médico, é um dos sócios dele. E eu comecei a ser tratada por ele. Um ano e meio depois, eu dizia que o ano ímpar era o meu ano de peso, fazendo os exames de rotina eu descobri um nódulo na mama direita.

P/1 – Quanto tempo depois?

R – Um ano e meio. Como pegou 2001 no final, eu falo assim: “2001, 2003, 2005, 2007, 2009”. Em 2003 eu descobri esse câncer na mama, também fui muito bem atendida por uma outra equipe, que era o Silvio Bromberg, eram todos médicos do Einstein. Mas como eu fiquei muito no São Luiz e a minha equipe também era do São Luiz, eles eram do Einstein e o meu convênio não cobria o Einstein, então eles foram me atendendo tudo no São Luiz. Eu tenho três moradias, a minha de São Paulo, a de Socorro e do São Luiz do Morumbi, porque semana sim e outra agora, ultimamente, eu to passando pelo São Luiz, porque eu ando com a saudezinha um pouco fragilizada. Quando descobriu, essa mesma equipe me indicou o médico da mama, que eu ia por indicação deles, já era da equipe que estava tratando. Eu fiz a retirada da mama, existia um exame que eu nunca tinha ouvido falar, e que na ocasião eu fiz e o convênio não cobria, que era o gânglio sentinela, depois até chegou a aparecer em uma das novelas. O Einstein era um dos poucos hospitais que fazia, caro a beça, doloridinho também. Um dia antes da operação, eles deixavam delimitado no seu peito onde era, no dia seguinte pegavam essa máquina e iam lá. O que seria o gânglio sentinela? Porque às vezes eu tenho dificuldade para explicar essas coisas tecnicamente, então essa do soldadinho eu amei. O gânglio sentinela é o chefe, todos nós temos gânglios. Na axila, que é que pega a parte da mama, a gente pode ter, tem pessoas que tem vinte, tem pessoas que tem trinta, tem pessoas que tem trinta e cinco gânglios. Mas tem um que é o chefe, e essa maquininha pegava o chefe. Então, na hora da cirurgia, quando você estava com ele aberto, ele ia no chefe. Se o chefe estivesse contaminado, você tinha que fazer esvaziamento da axila, se o chefe não estivesse contaminado, você tirava o chefe porque você tinha que tirar ele e não precisava fazer o esvaziamento da axila. Porque muitas mulheres fizeram esvaziamento da axila sem precisar fazer, e qual é o problema do esvaziamento da axila? Você tem aquele negócio do braço inchado, não consegue mais dirigir, não tem quase mais movimento nas mãos. Dá linfonodos, não sei o quê. Eu fui aprendendo isso por conta da doença, então dessa vez eu não precisei fazer quimioterapia. Porque eu tirei a mama toda, tirei o bico, a auréola, a mama. Só que eles me convenceram que eu tinha que fazer a reconstrução da mama. Eu falei: “Gente, eu não sou vaidosa”. Eles já botaram cirurgião plástico e disseram assim: “Tem alguma coisa no seu corpo que você não gosta?”, eu “Nada, eu gosto de tudo o que eu tenho no meu corpo”. Mas acho que há muito tempo eu não olhava pro meu corpo. Quando eu cheguei em casa, eu fui olhar no espelho o que eu não gostava em mim, e daí, eu vi que eu tinha uma baita de uma barriga caída . Porque eu tinha tido duas cesarianas, não sei o quê, e a proposta era eu tirar a gordura da barriga e colocar no peito. E também não sabia, que acho que falta pras mulheres saberem dessas coisas... Eu achava que tirava a gordura, abria aqui, abria aqui, tirava a gordura e botava aqui. Ela vem toda por dentro, para não ter contaminação. Eu acabei fazendo, mas não fiz bico nem auréola, mas já fiz na hora. Então, talvez seja isso que eu encarei bem, eu pensei: “Puxa, tem tanta mulher que encara tão mal com essa história de tirar o peito”. Porque eu já saí com o meu peito feito. Então, na hora que terminou a cirurgia eles já fizeram a reconstrução da minha mama. Também foi uma cirurgia de dezesseis horas, entre tirar e colocar. Eu fiz. Nesse dia estava no auge a história do Zagallo, “vocês vão ter que me engolir”. Quando  eu cheguei no quarto a família inteira esperando no quarto, eu falei: “Vocês pensam que foi dessa vez? Vocês ainda vão ter que me engolir”. E eu fiz essa cirurgia, não fiz quimioterapia. E aí, gente, uma coisa muito difícil, porque palpite todo mundo dá. Será que não é melhor você consultar outro médico? Você já teve no pulmão, não fez quimioterapia, vai ver é por isso que você teve na mama. E pelo oncologista era considerado como dois cânceres primários, não tinha nada a ver o do pulmão com a mama, eram cânceres diferentes. Daí, eu tomei uma hormonoterapia, que era um tal de Tamoxifeno, que quase todas as mulheres que tiram a mama, depois mesmo da "quimio", tomam essa medicação durante cinco anos. Um ano e meio depois eu tenho um câncer na outra mama. Eu falei, “caramba, já tá começando...”. Ah, e não contei uma coisa engraçadinha, posso contar?

P/1 – Claro.

R – Quando eu fui operada do pulmão, eu tinha um cargo importante na prefeitura, eu era assistente da Alda Marco Antonio, que hoje é vice-prefeita, só que eu não a conhecia, ela me convidou porque eu era funcionária de carreira. E o Hospital São Luiz não tem maternidade no Morumbi, e era tanta flor que eu recebia no hospital, que dava volta no corredor do hospital, de tanta flor que eu recebia. Para dizer agora, na última internação que eu tive, nem uma rosinha eu recebi, porque o pessoal já não aguenta mais me ver no hospital. Então, aquela vez foi uma novidade, o hospital se encheu de flores, o pessoal mandava levar embora para casa, de tanta flor que tinha. E acho que o povo estava achando que eu ia morrer também, mas eu sou osso duro de roer. Quando eu voltei a fazer o gânglio sentinela, daí disse que estava contaminado, e eu tive que fazer o esvaziamento da axila.

P/2 – Sylvia, você é uma guerreira. Parabéns! 

R – Dizem. Eu acho que tem muita gente que me ajuda nessa luta de ser guerreira, eu acho que não é por acaso que a gente tem as coisas e não é por acaso que algumas pessoas tem e outras não tem. Eu nunca disse, a pergunta mais comum para quem tem câncer é assim: “O que mudou na sua vida depois que você teve câncer?”. Geralmente a pessoa fala assim: “Eu melhorei, eu fui melhor pros outros, eu ajudei mais pessoas, eu revi minha vida”, para mim, hoje, esse último câncer que eu estou, é de ser mais humilde. Viver uma vida legal eu sempre vivi, ter amigos eu sempre tive, mas depender dos outros como agora eu comecei a depender, para mim tá sendo muito triste. Eu não conseguir subir uma escada, porque eu to com metástase óssea, metástase no fígado, que é gerado pela segunda mama, que foi um outro câncer primário. Então, eu tive um carcinoide, um carcinoma ductal, um carcinoma lobular. As metástases vem desse, que correu pelo gânglio sentinela. Eu tive que fazer esvaziamento da axila e daí ele já correu, ele já pegou, sempre em cada dois anos, ossos, fígado e agora pegou a meninge.

P/1 – Sempre foi voltando de dois em dois anos?

R – Agora é tudo em função dessa mama. Tanto que as medicações que eu tomo, o pessoal pergunta: “Você tá tomando medicação pro osso?”  “Não, a medicação que eu tomo é sempre em função da mama”. Mas ele está instalado nos ossos.

P/1 – Quantos foram? Cinco?

R – Cinco cânceres. E olha, vocês vejam como eu sou abençoada. Dor nos ossos é raro que eu tenha, porque quem tem câncer nos ossos, diz que é uma coisa pavorosa. Eu não vou dizer que eu nunca tenho, mas nada ainda que um corticoide, um Lisador, um Tramal não passe minha dor. Então eu tenho em toda bacia, em toda coluna, no ombro, no joelho e no ilíaco, na parte óssea. No fígado, eu to com um nódulo no fígado de quatro centímetros. E esse ano eu descobri o da meninge, que eu já pensei que era o cérebro. Daí, foi a hora que eu caí um pouquinho, “agora não dá mais”, porque como os médicos acabaram ficando muito amigos, eu to cheia de médicos amigos, de todas essas áreas, ortopedista, e não sei o quê, não sei o que lá, eu to lá com eles toda hora. E daí, uma médica que me faz os ultrassons, que é bárbara, bárbara, bárbara, para você conseguir horário com ela você demora seis meses. Ela disse: “Sylvinha, é só me ligar”. Ela fala para mim, “Você não deixe de me ligar. Américo, se for operar um osso dela, você conversa comigo, porque eu vou conversar com meu marido”. O marido dela é professor de ortopedia. “Não deixe mexer num osso dela antes de o meu marido ver!”. Daí eu falo algo e ela diz: “Eu perguntei se tem convênio com ele, eu fiz alguma pergunta para você nesse sentido?”. Então, eu acho que eu sou muito bem assistida, sabe? Eu acho que eu tenho uma equipe fantástica e é isso que me dá forças. Agora, dessa vez eu caí, porque essa mesma médica disse assim: “Enquanto não for no fígado tá bom”. Daí, pegou no fígado. “Agora o fígado tá superado, o negócio é se pegar a cabeça”. E quando falaram da meninge, eu falei: “Agora eu to ferrada!”.

P/2 – Quando foi?

R – Foi agora esse ano, no começo do ano. Eles me explicaram que a meninge não é no cérebro, que o problema é se for no cérebro . 

P/2 – É a membrana...

R – É, é a membrana que cobre. Ela dá o que? Eu to falando com vocês, eu não to com a boca torta, mas eu to com a boca, essa parte minha está paralisada. E daí eu fui no bucomaxilo, porque eu comecei a sentir muita dor nos dentes e era tudo em função da meninge. Então, o que ela dá? Um mal-estar, uma hora paralisa aqui, outra hora o olhinho abaixa, e a gente vai levando. Acho que eu já até acostumei. Graças a Deus não paralisou o nariz, porque eu consigo respirar. Porque quando a gente vai no dentista e toma aquelas anestesias assim, não existe coisa mais irritante que ficar com o nariz meio tampado. Então, assim gente, para fechar essa história do câncer, eu venho lutando com ele há dez anos. Com ele querendo me pegar e eu tento dar uma driblada no bichinho aí. Nesse período eu tive infecção generalizada e tive choque anafilático, sobrevivi às duas coisas. A médica da UTI do São Luiz diz assim para mim: “Eu não sabia quem eu cuidava primeiro, se era de você ou do seu médico”. Porque ele foi na ambulância comigo e ele chegou muito mal, porque eu acho que também para esses médicos não deve ser fácil, ter um paciente que eles vem acompanhando e ver as coisas acontecerem. Este ano eu fui muito ao hospital, eu to tendo um cansaço que a gente não sabia se era do coração ou se era do pulmão, eu me canso muito fácil. Então, eu achei, pela primeira vez, que as minhas forças estavam acabando. Acho que a melhor coisa foi hoje ter vindo aqui bater esse papo com vocês. Porque quando me falaram de eu vir conversar, eu falei: “Eu não to tendo mais a mesma força para poder ajudar as pessoas. Mas a vida é tão linda, a vida é tão bonita, que eu acho que eu não tenho o direito de me entregar. Eu tenho que continuar lutando, até porque eu acho que a gente tem metas na vida da gente para seguir. Eu vi um negócio aqui, Rosana, na tua sala, depois você vai me explicar, era uma coisa redonda que tinha umas coisas escritas, parecia uma roletazinha...

P/1 – Ahhh, aqui na escrivaninha?

R - Éééé. 

P/1 – Quando acabar eu vou contar para você o projeto que nós fizemos, “Esquemas da Vida”.

R – Ah é, Esquemas da Vida? Eu vi outro dia, eu sou um pouco de assistir televisão no sábado, eu adoro música. E a televisão tem me irritado um pouco, com muita morte, muito assalto, muito não sei o quê, e eu adoro música popular brasileira, a-do-ro meu Roberto Carlos, eu tenho disco, vitrola, na cidade de Socorro, que eu boto meu disco e fico olhando meus passarinhos lá, e as minhas plantinhas, que me traz uma energia maravilhosa quando eu posso ir para lá. E eu estava pensando comigo, ih, já me embananei inteira, gente! Fui falar um assunto... Eu dou desculpa que é a meninge, quando eu saio mal eu falo que é a meninge . Viu como eu sou orgulhosa? Ah, dá vida. Que foi essa roda, e eu estava assistindo um dia o Huck...

P/1 – Caldeirão do Huck?

R – Caldeirão do Huck. E tem o negócio da casa, não sei o quê, e foi uma moça negra, com duas filhas, linda! E eu trabalhei muito tempo em favela, e eu vi casas de favela muito mais limpas do que casas de pessoas que tinham... O preconceito que as pessoas tem dos outros porque é favela... Eu entrava em favela como eu entrava na casa do meu vizinho, porque minha vida era trabalhar com o pessoal de favela. E os armários dela eram caixas de papelão, que ela foi fazendo por andar, para guardar as roupas dela, da filha e do outro. E ela tinha uma roda, foi bem na hora que eu estava desanimada, coisa de um mês e meio mais ou menos, ela tinha essa roda, onde ela botava metas possíveis e metas sonhadas. Então, por exemplo, a meta possível, é eu poder comprar a geladeira, com o salário da minha filha nós vamos comprar uma geladeira. Metas que ela sonhava era participar do Caldeirão do Huck, ela fazer os dentes dela... Eu falei: “Eu vou começar a trabalhar com metas possíveis. Dentro de tudo o que eu estou vivendo, eu vou começar a trabalhar com metas possíveis”. Nessa altura eu não tinha tido essa última internação. Mas antes disso, qual era um dos meus maiores sonhos? Era ser avó. Eu dizia, “Acho que não vou conseguir ver um neto meu”. E a minha filha ficou grávida e eu curti essa gravidez dela com a maior paixão da minha vida. Não só com bens materiais, mas eu olhava, eu queria comprar para ela tudo o que eu via, era o sonho da minha vida ter neto, como era de ter filho. E o meu genro é super legal, eles não são casados... para minha mãe e pro meu pai, eu voltando pro passado, foi fim de mundo, tanto que minha mãe, dessa reunião com as primas dela, dessa daí, da reunião dos quatrocentos anos, ela foi contar que estava para nascer, que ela ia ser bisavó, porque ela tinha vergonha de dizer que ela ia ser bisavó, que a neta não tinha casado . “Com tanto problema que a gente vive, a senhora tá preocupada?” E essas primas dela falavam: “Você é uma idiota!”, e uma dizia assim: “Há cinquenta anos eu fui casar no Uruguai, porque no Brasil desquitado não podia casar”. Foi muito gostoso esse encontro. Voltando para a minha filha, eu acompanhei, só que ela foi morar fora de São Paulo, ela foi morar em São José dos Campos. E embora eu goste muito do marido dela, eu gosto mesmo, eles são muito objetivos nas coisas deles, e pensam bem diferente. Teve um dia que ela falou que não ia sair, ele estava na aula, a gente ligando, achando que eles estavam na maternidade, a família inteira ligando para tudo quanto é lugar... Levamos uma comida deles: “Pô, não pode ir nem no supermercado?” . 

P/1 – Vocês acharam que tinha nascido!

R – Que tinha nascido. Daí, eles falaram: “Nós vamos fazer o seguinte: a hora em que ela for para a maternidade, que o médico falar ‘ela vai ficar’, nós ligamos para vocês e vocês vem tudo para cá”. Porque os pais dele também moram aqui em São Paulo. “Tá bom”. Daí eu já senti e falei: “Renata, estava pensando em ficar uma semana” “Não, mãe, não precisa”. Caramba... É que a gente que idealiza as coisas de maneira diferente. Por azar meu, no dia 29 de junho eu passei muito mal, e fui internada na semi-UTI com broncoespasmo, fechou o meu pulmão. E eu achei que eu estava morrendo, porque eu não estava conseguindo respirar e era aqueles BiPAP, e era não sei o quê, não sei o que lá. E eu tinha combinado com ela que no dia 30, nascesse ou não nascesse, eu iria para São José. Eles tinham concordado, sabe? Tudo brincadeira, o genro brincando comigo, porque a previsão era que se não nascesse até o dia três ela iria fazer cesariana. No dia 30 nasceu a Bianca e eu não pude ficar com a minha filha. Eu acho que foi uma tristeza muito grande para mim, porque o meu maior sonho era poder estar junto com ela na hora que nascesse o neném. E o meu filho e o meu marido, mais uma vez maravilhosos comigo... O Rodolfo, marido dela também, eles puseram um radinho daqueles que falam, e eu fui acompanhando um pouco o nascimento da Bianca. E a Renata foi muito feliz. E aí é que Deus me prova mais uma vez que Ele existe. Uma menina de vinte e cinco anos, que foi muito paparicada pela mãe, que não fazia nada em casa porque a mãe tinha empregada e fazia tudo, ela só estudava, virou uma senhora dona de casa, teve um filho sozinha e teve o primeiro filho de parto normal em quatro horas. Então, o que eu vou reclamar dessa vida, minha gente? Eu só senti não poder estar junto com ela, daí, meu oncologista é muito engraçado, porque o Tiago e o Américo foram para lá e tinham tirado fotografia para me trazer, e o que eles fizeram? Montaram uma foto, que até eu fiquei meio assim, como se eu estivesse junto. Por isso que eu digo, a gente tem que tomar cuidado com esses computadores. Eram eles, a Bianca e mais eu na fotografia. E quando o médico veio me visitar eu mostrei para ele, e ele morrendo de pena de mim, para eu ver minha neta, “Mas logo eu vou te dar alta. Como é que você tá fazendo essa fotografia?”. Eu falei: “Tirei todos os fios, fui para lá e voltei” . 

P/2 – E qual é a mensagem que você gostaria de deixar para tua neta?

R – Eu mandei uma cartinha para ela e escrevi que a vida é linda e que ela viva essa vida intensamente, que ela tenha pelos pais dela o mesmo amor que nós tivemos por ela. Eu tinha certeza que os pais dela teriam e que ela os respeitasse muito, porque ela também foi muito bem-vinda para esse mundo, ela foi muito bem amada durante a gravidez pela mãe e pelo pai dela, e que ela contasse com eles como os melhores amigos que ela pudesse ter, mas que ela deixasse um lugar no coraçãozinho dela para vó dela, porque a vó dela também amava muito ela.

P/1 – Posso fazer uma pergunta, que ficou aqui assim para mim? 

R – Sim.

P/1 – Voltando àquele seu tio espírita que ele deu uma explicação de seu filho e você falou, depois ele falou para mim o que significava essa coisa de eu ter tido esses cânceres. O que ele falava, qual foi a explicação dele? Foi ele quem disse?

R – Não, foi essa terapeuta...

P/1 – Da regressão...

R – Uma que eu fiz depois, nas terapias que eu fiz, eu voltei para outras vidas. Em várias vidas eu tive câncer, então, era um resgate e era um câncer que eu ia logo. Eu tinha e ia. Eu cheguei a ser uma escrava, queriam que eu fosse ser ama de leite e eu não fui, e daí que talvez eu tenha carregado de não ter dado o leite, poderia ter me dado o câncer de mama. Porque segundo os psicólogos, são coisas que a gente somatiza, muita coisa que a gente vai carregando junto com a gente. E foi nessas outras vidas que eu vivi, eu sempre tive câncer, mas com mortes muito recentes, quer dizer, eu tinha e morria. Acho que agora eu já tive todos e na próxima vida eu não vou ter nenhum. Eu acho que foram embora.

P/1 – No que você acha que essa terapia de regressão ajudou?

R – Olha, eu acho que ela me ajudou a enxergar que existem novas vidas e que a gente volta para resgatar alguma coisa. Mas eu também não sou muito estudada, não, eu sou uma pessoa assim de ler, tem três livros que ela já me deu para ler e que eles ficam na gaveta, para poder entender melhor as coisas, sabe? Eu acho que teve uma terapia que eu fiz, independente... O da regressão, o que ela me ensinou é um pouco disso, que uma vida tem relação com a outra. E, por exemplo, eu vi nessa história de regressão, essas mesmas pessoas que estão nessa minha vida de agora tiveram outros papéis em outras vidas. Vou contar uma historinha rapidinha para vocês. Eu tinha um sonho de ter uma chácara, e quando eu tive o câncer de pulmão, diziam que era bom eu sair de São Paulo, por causa do ar. E Socorro é perto de Bragança, Águas de Lindóia, uma região montanhosa. Atibaia já está mais poluída, por já ter muitas indústrias, e Socorro é um lugar montanhoso muito bonito. E eu fui muito para lá numa colônia de férias dos funcionários públicos para me recuperar, depois que eu tinha tirado os pontos, por causa do ar, até pensar o que a gente ia fazer. E compramos essa chácara em Socorro... O que você tinha perguntado que eu comecei a falar de Socorro?

P/1 – De que maneira a terapia te ajudou...

P/2 – Você aprendeu que as pessoas tem papéis diferentes, mas são sempre mais ou menos as mesmas pessoas.

R – Ah, é! E quando eu fui ver essa chácara, apareceu uma senhora do lado da casa com uma filha e um filho e ela falou assim: “A senhora está comprando? Porque eu tenho um filho que é pedreiro, tenho um filho que é isso, que é aquilo, menos esse, que é bêbado”. Todo mundo já tinha entrado no terreno para ver, não tinha nem casa. Eu peguei a mão dele, um neguinho pretinho, é paixão da minha vida também, meu filho adotivo, peguei a mão dele e falei assim: “Se eu comprar essa chácara você vai vir trabalhar comigo”. Ele estava bem bêbado nesse dia, ele tinha na época vinte e quatro anos. Eu acabei comprando essa chácara e tive uma história com esse menino, que ele foi trabalhar comigo, arranjei clínica para ele ficar internado, uma série de coisas. O que eu tive com esse menino em uma outra vida que eu voltei? Era nisso que eu queria chegar. O meu avô desta vida era senhor feudal, ele era dono de uma fazenda de escravos, o meu pai desta vida era o capataz, que engravida a minha mãe desta vida. Não sei se está ficando complicado... O capataz engravida a minha mãe e o meu avô, talvez tudo isso da rigidez, das coisas sexuais, não sei o quê, me fez entender essas coisas. O meu avô bota minha mãe para fora, e minha mãe me tem. Quer dizer, ela é minha mãe e o menino era escravo, e ele estava num negócio, quando vocês falam de sentir cheiro da época antiga, parece que eu to vendo, ele com a cabecinha presa assim (barulho de respiração ofegante), talvez da minha falta de ar (respiração ofegante), e ele queria água, porque ele estava com sede, não me deixaram dar água para ele, e ele morre. E daí eu me encontro nessa vida com ele como alcoólatra, e daí essa minha necessidade, já que eu não pude dar água para ele naquela época, de eu fazer alguma coisa para ele agora. Até hoje ele é um amigão meu. Ele bebe, ele para, ele bebe, ele para, mas eu continuo amando ele do mesmo jeito. Ele não trabalha mais comigo lá, mas quando eu to lá ele vem dizer: “Vim comer a comida da minha mãe”, ele fala para mim. O meu marido, para pegar todas as minhas taras e me acompanhar, só sendo um marido muito bom. E para ele poder receber as nossas visitas em Mogi das Cruzes, porque a mãe não ia, nós tínhamos que fazer o curso. Só que é muito mais fácil você fazer um curso quando a pessoa, por mais que eu gostasse dele, que não é do teu filho mesmo... Porque aquele desespero das mães com as coisas que esses meninos fazem...

P/1 – Vocês fizeram curso para poder visitar ele?

R – Sim. Eu e meu marido fomos fazer o curso, para todo mês poder fazer a visita para ele. Ele saiu da clínica, voltou a beber, arranjamos outras clínica. Todo mundo diz assim: “Você não desgruda dele”, eu falei: “É um outro filho que eu tenho, não é porque ele é alcoólatra...”. Porque agora ele diz assim: “Só por hoje”. E quando ele vê que eu to no hospital ele fica de-ses-pe-ra-do, eu falo para ele assim: “Então, me ajuda, você tem que ficar bom, a hora que você ficar bom, eu fico boa também”, fazendo chantagem. “Se você não fica bom, eu não fico boa, porque eu fico preocupada com você”. Hoje ele tá com trinta anos também e é uma pessoa que eu quero muito bem. E aí, teve uma outra história de vida. E outras que eu já tive, eu já fui rainha, mas eu também já fui prostituta. Então, aquela coisa de novo, de não encostar no primo, que tudo é pecado, que tudo é coisa. Em algumas vidas que eu voltei foram explicadas algumas coisas. Foi uma coisa legal que eu acho que eu vivi. Acho também que eu fui uma pessoa que também tem que ser agradecida, porque eu tive oportunidade de vivenciar muita coisa. E eu queria contar uma coisa para vocês que talvez seja assim, o mais especial para mim. Quando eu descobri o meu câncer, no dia 27 de novembro, eu sou devota de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Como diz o Roberto Carlos, é só o nome que muda, porque todas elas são a mesma mãe de Deus. E a Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, a história dela é da França, ela era uma freira que nasceu na França, fez um milagre e virou santa. E ela é também muito conhecida como Nossa Senhora das Graças, é a mesma, só que em alguns nomes ela tem o nome de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa por conta de cunharem medalhas com ela, que foi o que ela pediu que fosse feito. E dia 27 de novembro é o dia dela. Então, eu soube do meu câncer no pulmão no dia 27 de novembro, um ano depois eu passo por uma perícia médica hor-ro-ro-sa, porque eu trabalhava ainda como assistente social, estava afastada, e eles queriam me fazer uma readaptação funcional, que era não atender mais público por conta do pulmão. Eu disse: “Então eu prefiro não trabalhar, porque essa história de ficar em escritório, eu gosto de ir na favela, de atender emergência”, e sabia que não tinha condição, então, depois de passar por uma perícia, de lerem todos os meus relatórios, eu me aposento no dia 27 de novembro. Muitas das minhas saídas de UTI foram em 27 de novembro, tudo o que é forte na minha vida me acontece no dia 27 de novembro. E eu só não vou ao Santuário da Medalha Milagrosa, que para mim o mais perto é Monte Sião, se eu estou no hospital. E cada vez que eu vou eu me emociono profundamente com esta Nossa Senhora, eu tenho uma fé i-na-ba-lá-vel nela.

P/1 – Qual é a história dela? Você sabe?

R – A história dela é assim, ela era uma menina que se tornou freira lá na França e ela recebeu de Nossa Senhora, mãe de Jesus, que ela protegesse as crianças. E ela salvou muitas crianças. E quando ela virou santa, eles diziam que para atender todos os pedidos que viessem, que as pessoas não se cansassem de fazer os pedidos para ela, que ela atenderia esses pedidos das pessoas. Porque muitas vezes as pessoas tem receio de pedir as coisas, e que não era para ter receio que ela estava aí para atender, que a única coisa que ela pedia, e diz na oração dela, que era para você fazer essas medalhas onde ela diz: “Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a vós”, e  distribuir essas medalhas. Essa coisa de vocês aqui, cada hora eu to achando mais legal, porque a gente vai lembrando de outras coisas. O primeiro estágio que eu fiz, tirando ter ido na Antonio Prudente, que eu ainda não fazia Serviço Social, foi na creche Catarina Labouré, que é o nome dela, que é aqui no Ipiranga. Era uma creche que tinha o nome dela! 

P/1 – Da santa?

R – Dessa santa, porque o nome original dela é Catarina Labouré. Quer dizer, muitas das coisas da minha vida, e eu fui uma das pessoas que fiz parte, quando São Paulo só tinha quatro creches, e essa era uma creche, de fazer parte da equipe que hoje tem em São Paulo mais de mil creches, na ocasião tinham quatro e eu fui ser Assistente Social, que fiz parte do projeto de creche da cidade de São Paulo. Então, eu acho que a Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, o dia que ela não puder mais aceitar o meu pedido, é porque acho que ela vai me dar um outro presente, porque quando eu comprei a chácara em Socorro, a única coisa que eu construí foi uma capela para ela. Esse meu tio espírita foi junto comigo passear, e como a história de Nossa Senhora Aparecida, nós achamos no lugar uma réplica da mesma que tem na França! E eu não vi, quem viu foi o meu tio: “Olha a sua santa querida!”. Porque era um lugar lá em Socorro, que o pessoal levava santo, para não jogar no rio, porque tinha essas crendices, não pode jogar no lixo, levavam para esse senhor que em um lugarzinho do rio do Peixe lá, ele guardava imagens de santo. E quando eu saí da capela, e com tudo, que ele é espírita, ele entrou e disse assim: “Essa não é a sua santa?”. E eu chorava, porque eu queria aquela santa para minha capela. “Eu compro” “Eu não quero comprada, eu quero dada, vamos achar o homem que cuida disso para ver se ele me dá essa santa. Essa santa não pode ser comprada”. Ele acabou me dando, eu acabei depois levando roupas pras crianças dele, porque aquela santa não tinha que ser comprada. Tanto que na minha capela tem imagem de Nosso Senhor, que geralmente pessoas que tem capela tem vários santos na capela, e na minha tem a imagem dela. E daí, há três anos, agora em agosto, quando eu ainda não tinha nem no fígado, nem na meninge, aparecem umas oportunidades na vida da gente que não é sempre que aparece. Minha sogra tem três imóveis, que é por usos e frutos, e quando ela ficou viúva ela foi morar no mesmo prédio que eu moro, porque eu sempre me dei muito bem com ela, e o meu sogro pediu para a gente cuidar dela. Também não foi por acaso, porque minhas duas cunhadas morreram de câncer nesse período de dez anos. E eu sobrevivi ao câncer, então, algumas coisas tem aí no meio da história. Por que em vez de ela morar perto de uma filha, ou com uma filha, ela foi morar comigo? Eu falo para ela, “Não pede para a senhora morrer, porque enquanto a senhora tá viva, Deus tá mandando eu ficar viva para poder cuidar da senhora”. E essa casa que ela morava antes de vir morar no meu apartamento era nossa por sorteio. Foi uma herança por sorteio, e acho que nós ficamos com a menor parte do bolo, mas também não tem importância. E o Américo falou para ela: “Mamãe, a tua casa tá caindo, tá com cupim, é uma oportunidade boa de vender, ela é com usos e frutos para a senhora, eu vou comprar um outro imóvel”. E daí comprou, e como era nosso, sobrou vinte mil do apartamento. Eu assistindo ao programa do [Paulino] Brancato Neto, que é um programa que tem na Rede Vida, porque ela só assiste Rede Vida e eu estava na casa dela, ele estava fazendo uma excursão para Portugal, passando por Fátima, Lourdes, a Medalha Milagrosa na França e São Francisco de Assis, na Itália. E não sei porque nós tínhamos passaporte, estava para vencer, mas eu e Américo  tínhamos passaporte. Em uma semana nós resolvemos pegar esses vinte mil, era dez mil por cada viagem e eu disse: “Eu vou realizar o meu sonho”. Eu fui de bengala, porque os ossos estavam ruins para danar, eu fui tomando uma quimioterapia oral. Juro gente, o dia que eu entrei na igreja dela, porque eu contei na excursão do ônibus, e não foi isso não, não fomos só à igreja, era um pessoalzinho católico de quarenta e sete pessoas, mas nós fomos no "Moulin Rouge", fomos ver uma casa de.... E quando eu contei a minha história da minha fé pela Medalha Milagrosa, a excursão inteira foi assistir à missa, que era uma missa diferente das que eu vi em Santiago de Compostela, diferente da que eu vi em Fátima, que eram aquelas multidões. Era uma igreja pequenininha, com missa de domingo comum. Eu peguei o papel, o meu problema de francês com meu professor, eu não sei nada em francês, eu cantava como se eu fosse uma francesa com o papel da música. E a imagem de louça do corpo dela dentro da igreja... Quando eu cheguei em São Paulo, porque de lá passamos por Roma e já viemos embora, eu fui fazer os exames, meus ossos estavam todos calcificados. E daí eu fui dar um testemunho disso, do milagre que eu tinha recebido. E daí, passados seis meses, voltou em outros lugares nos ossos. Daí eu dizia assim, “Como é que eu vou dizer para essas pessoas que voltou, se eu falei que tinha conseguido um milagre?”. Eu não estava triste de ter voltado, mas como é que eu vou explicar que minha santa não é tão santa? Que minha santa não me curou?” . E eu falava com muitos jovens também, eu sempre dei muita palestra, e eu dizia assim, “Ó gente, ela me curou para aquele momento, agora são outros ossos”. E o médico me explicou que eu vou sarando de um osso... E é verdade mesmo, eles dizem que câncer de osso, você melhora e ele pega um outro, é uma coisa crônica, como a diabete”. Eu não to precisando da bengala, mas que ele voltou, ele voltou. Mas não foi Nossa Senhora que fez voltar, não, era para eu ter mais um testemunho de vida, para enfrentar as paradas que vem por aí ainda. Então, o dia 27 de novembro é um dia muito importante na minha vida, tanto que a minha filha Renata dizia assim:  “Quer ver que vai nascer dia 27, mamãe?”. Porque todos os dias 27 eu abro a minha capela em Socorro para quem quiser fazer uma visita para Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Então, ela é uma pessoa muito importante na minha vida.

P/1 – Depoimento maravilhoso, eu to emocionada aqui.

P/2 – Eu também, muito legal, muito bom.

P/1 – Gostou da experiência?

R – Vocês foram bárbaros, viu? E amanhã... A gente tem muitos amigos, todos nós, e a gente diz que amigo mesmo a gente conta no dedo, a gente tem muitos colegas. E eu acho que eu formei um legado de amigos muito grande. E eu liguei para algumas amigas minhas, porque a Renata vem para São Paulo. Ah, e eu fui ver a neta, viu gente? Vi a neta, fiquei muito emocionada. Tive um problema com a minha filha, de chorar muito, e eu não conseguia pegar a criança, ela não conseguia me dar a criança, ficamos meio atrapalhadas nós duas.

P/1 – Lá em São José?

R – Lá em São José. Quando ele me deu alta eu fui lá, mas só fiquei um dia e vim embora, porque ele não queria que eu ficasse muito tempo. E sábado eu vou fazer um lanche para essas minhas quarenta amigas, que trabalharam comigo, que conheceram a Renata como eu conheci os filhos delas. Então, eu vou fazer uma reunião na minha casa, para apresentar a minha princesinha pras minhas amigas, e elas estão tão felizes, eu não sei se é tanto para conhecer minha neta, mas para nós nos revermos e batermos um papo.

P/1 – É aquelas do...

R – Essas todas que eu fui falando no meio do caminho, que elas dizem assim para mim... Eu ia até trazer uma foto para vocês verem quando eu fiz cinquenta anos, que foi quando tinha um ano do meu câncer, eu tinha quarenta e oito anos, fiz anos em dezembro, quarenta e nove, e eu me aposentei e fiz uma reunião com elas. São essas mesmas amigas que acompanharam o dia a dia da Renata, como eu acompanhei dos filhos delas. Então, elas estão vibrando que vão se encontrar. E cada uma que eu ligava contava a história da sua mãe:  “Minha mãe está com dificuldades, não está andando”. Então, nós todas estamos vivendo o mesmo problema de família, acho que vai ser uma reunião muuuito gostosa essa que vamos ter. Lógico que a Renata vai descer um pouquinho com a Bianca, depois vai embora, mas vai servir de encontro para nós. E ontem um médico queria que eu ficasse internada no hospital de novo, porque eu não estava conseguindo respirar direito. Eu falei: “Não, dessa vez você não me pega. Você vai esperar o chá. Eu prometo”. Eu até falei que hoje eu vinha em um lugar. Ele falou: “Depois você fica em casa fazendo todos os exercícios direitinho para você estar boa no sábado?”. E na segunda-feira, como o meu medidor tumoral subiu muito por causa da meninge, eu vou voltar a tomar quimioterapia injetável. Então, esse meu sonho de Socorro, às vezes fica um pouco pendurado, mas eu falei para ele: “Vamos começar de novo?” “Vamos começar tudo de novo”. “Vamos começar o tratamento de novo?” “Vamos começar”. E que seja eterno enquanto dure, e que a gente viva intensamente. Acho que se a gente puder deixar uma mensagem para mim e para todas as pessoas: que cada dia é um dia, que a gente tem que viver intensamente esse dia. Não de se jogar para uma coisa para se estrumbicar, mas intensamente, com a alma, com a vida. Porque o dia que tiver que chegar a hora da gente, ela vai chegar, para cada um de nós. O dia que chegar o meu, eu digo para vocês honestamente, eu to muito bem preparada, porque eu vivi tudo. Lógico, deve ter outras coisas para eu viver, mas eu acho que eu tive oportunidade de vivenciar coisas lindas na minha vida. E eu tenho um orgulho do meu marido, que cuidou de mim, cuidou não, porque eu não precisei de ser cuidada, ó o orgulho. Hoje eu pedi para ele pegar as coisas no armário para mim, eu fiquei muito brava, porque ele demora um pouco e eu fico irritada . Mas ter um marido que acompanha uma mulher durante dez anos, que vive em hospital, que nunca reclamou de uma mulher mutilada de dois seios, que muitos homens largam suas mulheres por muito menos. Ele foi um companheiro ma-ra-vi-lho-so. Ele não deixa de me acompanhar. Eu brinco que ele é um motorista chique, acho que ele também tem um pouquinho de medo da doença, para ele não cai tão bem como para mim, então, para ele, quando vem uma notícia que começou de novo, ele treme nas bases um pouco. Mas ele nunca disse assim para mim: “Eu não vou te levar, eu não vou junto”, e dorme no hospital comigo. E tenho dois filhos que têm sido, até na formação deles, a Renata se especializou em Nutrição Oncológica e o Tiago se especializou em Direito de direito dos pacientes, e fora o trabalho que ele tem, que ele recebe como advogado, ele tem todo um trabalho voluntário. E outras coincidências da vida, ele foi participar de coisas que eu, como assistente social participei, que a Lei Orgânica da Assistência, a Lei da Saúde, o direito dos portadores de câncer ou de outras doenças comuns. E tenho pais ainda vivos e uma sogra que, por opção, foi morar perto de mim. Sobrinhos muito bons, amigos maravilhosos... então assim, do que reclamar? Dói? é chato? Mas o chão nunca abriu tão grande para mim por causa do câncer, não. Ele não foi um negócio assim, que eu caí em um buraco e disse: “É o fim de linha”. Não era o fim de linha, eram momentos que eu tinha que passar. Então, eu acho que assim, ninguém quer ter câncer. Falar assim, eu queria ter um câncer, ninguém quer ter, não é? A gente preferia não tê-lo, mas quantas coisas que a gente vê, e hoje, gente, moça com trinta anos tendo também câncer. Essa história do companheirismo da família, para quem tem problema de saúde, e dos idosos que estão aí, acho que eu vou ser defensora dos idosos, os idosos que estão aí, que precisam de pessoas que lhe deem atenção, eu acho que o que falta hoje na humanidade é você dizer bom dia para uma pessoa quando você abre o elevador. É isso.

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