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História

Força da tradição e garra da luta

História de: José Vidal Pola Galé
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/06/2022

Sinopse

Em seu depoimento, José conta sobre suas recordações das histórias de seus pais espanhóis, já que a tradição espanhola sempre esteve muito presente em sua vida. Brinca que nasceu na cervejaria, pois seu pai trabalhou durantes muitos anos em algumas cervejarias, fala também sobre os seus estudos na Escola de Comunicação e Artes, na USP, suas reuniões no Partido Comunista Brasileiro, sua prisão na ditadura militar, sobre a morte de Vladimir Herzog e dos sinais da redemocratização.

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História completa

P/1 - Galé, pra começar, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Meu nome completo é José Vidal Pola Galé, nasci no dia seis de dezembro de 1952, em Marília, interior de São Paulo.

 

P/1 - Galé? Esse teu sobrenome não é aqui do Brasil?

 

R - Não, na verdade, meu nome seria José Vidal Pola Galé, porque eu sou filho de espanhóis. Meus pais vieram da Espanha em 1951. Meu pai era comerciante de uma cidadezinha do interior espanhol, lá da província de Zaragoza, cidade de Tauste. Ele veio pra América, inicialmente Buenos Aires, onde já tinha um irmão dele, já falecido também. Depois de Buenos Aires, ele esteve em La Paz. Em La Paz, ele veio para o Brasil, onde já tinha um amigo dele de Tauste em Marília. Então ele saiu de La Paz, entrou no Brasil por Corumbá e foi até Marília, que é ali no oeste do estado de São Paulo.

 

P/1 - Como se chama a cidadezinha do seu pai?

 

R - Tauste.

 

P/1 - E o nome do seu pai?

 

R - Henrique Galé Husan __________

 

P/1 - O que você sabe da família do seu pai, Galé?

 

R - A família do meu pai era uma família do campo, eles viviam da agricultura. Eu lembro das histórias do meu pai contar, que o meu avô plantava trigo, eram produtores de trigo lá em Tauste. Meu pai participou da guerra civil espanhola na região lá, a gente sempre dizia, a região lá era do Franco, então ele participou pelo exército do Franco, nos anos trinta, no final dos anos trinta. E tem um outro tio meu, esse também veio para o Brasil, só que acabou, ele morreu muito cedo aqui. Mas esse outro tio meu, ele fazia parte daquele, tem um nome, dos caras que iam, eram voluntários pra guerra... Então teve um tio meu que chegou a ir pra África e tudo. Mas meu pai participou da guerra civil. Ele foi pela família, porque eram quatro irmãos, então um precisava ir, os demais não precisavam ir. Então ele acabou sendo o que... Ele mesmo que decidiu ir.

 

P/1 - O que é que ele conta dessa participação dele na guerra?

 

R - Ele conta vários episódios, mas geralmente são mais folclóricos do que qualquer coisa. Ele falava: “Eu dava uns tiros lá, nunca sei pra que é que era, mas o sargento mandava dar tiro e a gente dava tiro”. E então houve uns episódios interessantes, uma vez ele se perdeu também, tava uma neve violenta e ele se perdeu e tava andando, ele tropeçou num fio, ele pegou o fio e acabou indo para um lugar mais seguro, ao abrigo da neve, foi se proteger. Mas aí terminado isso, meu pai era muito vivo, muito envolvido ali na cidade, ele chegou a ser da direção do time de futebol da cidade. Ele chegou a ser empresário de luta livre também. Ele acabou montando um comércio. E segundo meus tios, que ainda estão vivos, na época, era o maior comércio lá da cidade, era o dele.

 

P/1 - Comércio do que?

 

R - Era um comércio que tinha roupa, tinha várias coisas, mas coisas pra casa, além de vestimenta, mas tinha também toalha de mesa. Era uma coisa mais... Bem geral. Mas aí tem uma coisa meio nebulosa, acho que ele acabou saindo de lá, porque ele não se dava muito bem com o irmão mais velho dele. Ele tinha muito atrito e tal. E o irmão mais velho queria mandar muito nele e ele não tinha um espírito muito pra ficar subordinado a alguém, então ele acabou vendendo tudo, naquela época não tinha essas facilidades bancárias de hoje, que você vai, deposita no banco e cai em outro lugar, tal. Conta-se o seguinte: um tio meu disse que ele fez umas calças, que tinha bolsos por dentro, encheu de dinheiro nos bolsos da calça pra vir pra cá, pra América.

 

P/1 - Trouxe o dinheiro?

 

R - Ele vendeu todo aquele comércio, pegou o dinheiro. Segundo esse tio meu, naquela época era o preço de um apartamento que ele tava carregando. Aí veio pra cá.

 

P/1 - E essa relação dele com o futebol? Com a luta livre? Que história é essa?

 

R - É porque tinha um clube lá, de Tauste, que tem até hoje, tem um time de futebol e ele era muito ligado na vida social lá da cidade, então ele chegou a ser da direção desse time.

 

P/1 - Mas não que ele jogasse?

 

R - Ele jogou, mas não profissionalmente. Brincava e até teve o apelido de Samourita, que foi um goleiro muito conhecido na Espanha. E como ele jogava no gol, as pessoas deram o apelido de Samourita pra ele, por causa do Samoura, que faz parte da história do futebol espanhol.

 

P/1 - E dos pais dele, ele não conta muito?

 

R - A mãe morreu muito cedo. Ele tinha três anos quando a mãe morreu. E o pai morreu, ele já estava aqui no Brasil quando ele morreu. Teve trombose, amputou uma perna e acabou morrendo. Mas esse meu avô era agricultor, como eu falei, e esse irmão mais velho é que tocou o negócio da família, com as terras lá, cuidar da plantação, coisas assim.

 

P/1 - E da viagem dele pro Brasil o que ele conta, Galé?

 

R - Nessa viagem, eu não tenho muita lembrança. Da viagem em si eu não lembro não, não tem nada que me faça lembrar, não.

 

P/1 - Ele já vem com a sua mãe?

 

R - Já, já. Eles casaram em Tauste. A minha mãe era de uma família muito grande, eram sete irmãos. A minha avó e o meu avô por parte da mãe tinha uma pensão na cidade, La Fonda. Até hoje eu tenho as fotos de lá. Era uma pensão onde as pessoas se hospedavam e comiam. E meu pai se casou com ela, o meu irmão mais velho nasceu lá em Tauste, mas ele veio pra cá muito cedo, com seis meses eles atravessaram o Atlântico pra vir pra América.

 

P/1 - O nome da sua mãe?

 

R - Carmen. Carmen Pola ______. Na Espanha o sobrenome é invertido, então hoje eu tenho dois nomes: José Vidal Pola Galé e José Vidal Galé Pola.

 

P/1 - Tá certo. E da Dona Carmem? O que você sabe da família dela? Da infância dela?

 

R - A minha mãe sempre foi muito ligada à casa, então ela ajudava minha avó nessas coisas da pensão. Tenho um tio que é padre, ele é pároco, hoje ele está numa cidade,_________. E tinha um outro, o irmão mais velho dela que morreu agora, há dois meses, tem uma parte do meu nome, que é Vidal, uma parte do meu nome é por causa dele. Ele era mecânico, mas não de carro, fazia máquinas e coisas assim. E tem um outro que era comerciante, que ainda vive. Tem uma irmã que vive numa outra cidadezinha que chama (Caspi?), na mesma província de Zaragoza. E tem uma outra irmã, é a caçula, que é a Guadalupe, também vive em (Caspi?), normalmente quando eu vou pra Espanha é onde eu fico.

 

P/1 - Mas ela conta coisas da pensão? Como será que era essa vida na pensão?

 

R - Essa pensão... A gente foi pra lá em 1958. A minha mãe e todos nós, os irmãos, somos em quatro. É o mais velho, eu, um mais novo e a caçula, que é uma menina. Era uma menina (risos). Então a gente foi em 58 e nós fomos exatamente porque era a consagração desse meu tio como padre. Tem uma cerimônia e aí tem uma festa. Então a gente foi pra lá por conta disso. E nós fomos de navio. O nome do navio era o Cabo São Roque. E a empresa do navio, acho que existe até hoje. Era o Cabo São Roque, o Cabo São Vicente e o terceiro que eu não me lembro agora. Então em 58 nós estivemos, nós ficamos nessa pensão e era uma farra. Tinha coisa, tinha um lugar embaixo, tinha uns presuntos pendurados, vinho. Tinha o hábito do vinho lá, quer dizer, eles tomam o vinho nas refeições e para as crianças eles botam o vinho com água. Faziam um refresco, mas de vinho. Então se cria o hábito de vinho bem cedo lá. E essas coisas eu lembro. A gente ficava muito na rua. Quando nós fomos, a idéia era ficar um mês ou dois meses, um mês, mais ou menos, quarenta dias. Mas aí, foi na época, era o Juscelino o presidente aqui. Então nós fomos. Aí começou a aparecer a inflação aqui no Brasil e meu pai se perdeu com negócio de dinheiro, e não tinha dinheiro pra gente voltar. Então nós acabamos ficando um semestre lá e chegamos a frequentar a escola lá, eu e meus dois irmãos. Minha irmã não, porque ela era de colo ainda.

 

P/1 - E como era esse povoado?

 

R - Na verdade, sete mil habitantes não é bem um povoado lá, já é uma cidadezinha. É uma de las Cinco Villas __________. Mas é aquela coisa tradicional, tem uma praça central, tinha uma fonte no meio. E Aragão tem uma característica, aquela arquitetura que vem do árabe, com os tijolos, é uma coisa, é muito típica, tem um nome até que me foge agora, mas esse tipo de arquitetura tem um nome, tem muita influência árabe. Então ela tem um padrão meio igual da região ali. São obras muito bonitas lá, umas casas antigas, a igreja. A igreja é tombada pelo, enfim, pelo governo lá e ela faz parte também das coisas históricas a serem visitadas. Era muito bonita a cidade, as casas antigas, a igreja. E tem uma coisa, hoje o prefeito de Tauste é meu primo, é filho desse que morreu agora há dois meses.

 

P/1 - E desses seus seis meses lá, tem alguma lembrança mais marcante?

 

R - Tem, dessa... De coisas tipo visitar o campo.  A gente ia com carroças, aquelas carroças tipo de carga, era um cavalo, aqueles cavalos _______, bem típicos ali da Europa. São animais de trabalho. E com aquela coisa de madeira botava uns bancos, fazia uns dois, três bancos e a gente ia. Eram viagens assim, as cidades são perto uma das outras, são sete quilômetros, dez quilômetros. Não tem longas distâncias de um município à outro. E eu lembro dessas viagens que eram agradáveis, ia todo mundo ao campo se divertir.

 

P/1 - Lanchar lá no campo?

 

R - Lanchar, comer fruta ou buscar fruta, subir nos pés pra pegar os figos, coisas assim. Essas lembranças eu tenho até hoje. E teve um episódio também que a gente tava brincando na praça, eu e o meu irmão mais velho, e tinha um grilo, e a gente tentando pegar o grilo, nisso o grilo pulou pra dentro do bueiro. Aí o meu irmão e eu tiramos a tampa do bueiro pra pegar o grilo. Era uma tampa, era uma grade de ferro, mas era pequena, não era muito grande, mas isso o cara da prefeitura viu. E o cara da prefeitura viu e pegou o meu irmão e levou ele pra delegacia de polícia. E precisou a minha mãe ir lá pra conversar, mas foi mais pra dar um susto nele, pra não fazer mais isso. Mas esse negócio eu lembro até hoje e esse meu tio lembrava desse episódio, porque eles fizeram... A gente era meio, quer dizer, o tipo de educação que a gente tinha aqui era uma coisa bem solta, lá em Ribeirão Preto a gente vivia na rua, não tinha... Com os amigos, brincava. E na Europa, de uma maneira geral, e na Espanha também, é uma coisa, as crianças tem que ficar bem obedientes, sempre certinhas.

 

P/1 - E você lembra da cena do moço da prefeitura chegando?

 

R - Lembro, ele pegou e levou ele pra la policia.

 

P/1 - E sua mãe teve que ir até lá?

 

R - É, minha mãe foi lá, mas tava meio combinado com esse meu tio, que era pra dar susto mesmo, a idéia era pra não ficar fazendo bagunça na cidade.

 

P/1 - Você estava com quantos anos nessa época, Galé?

 

R - Eu tinha cinco anos e meio.

 

P/1 - Você falou Ribeirão Preto, então vamos voltar um pouquinho antes dessa sua viagem. Quer dizer, a chegada dos teus pais…

 

R - Eu nasci em Marília, mas com três anos de idade... O meu pai chegou em Marília e ele foi pra Marília porque tinha uma família que era de Tauste que já estava em Marília, que era a família (Montolá?). (Montolá?) era uma família de muito dinheiro, tanto lá na Espanha, e esse ramo que ficou aqui também. Eles hoje são donos do maior supermercado que tem lá, que por sinal eles deram o nome de Tauste, supermercado Tauste, tem lá em Marília até hoje. E é o maior supermercado, parece que tem filiais agora. E ele ficou lá uns três anos, um pouco menos. Não, uns três anos. É, dois anos e meio, três. Aí foi pra Ribeirão Preto, ele foi trabalhar numa cervejaria, nunca tinha tido essa relação, mas aqui no Brasil ele começou a trabalhar numa cervejaria, no caso era a Antártica, tinha Antártica em Marília. Ele trabalhou na Antártica de Marília e depois veio pra Ribeiro Preto também pra trabalhar numa cervejaria. Aí tem uma coisa que marca até hoje e que eu sempre digo: “Eu nasci numa cervejaria!”. E meu pai sempre contava isso, que com seis meses de idade ele botava cerveja na mamadeira, então é um hábito que até hoje eu gosto de cerveja, sempre gostei de cerveja.

 

P/1 - O que é que eles contam do seu nascimento, Galé?

 

R - Eu nasci numa maternidade lá, eu visitei, tem um nome muito interessante, a maternidade se chama Gota de Leite e existe até hoje. Tem uns dois, três anos... Não, mais, uns cinco anos eu tive lá em Marília pra visitar. Eu queria ver, porque eu saí de lá e nunca mais voltei, só uma vez a trabalho que passei por lá e falei: “Pô, preciso conhecer direito a minha cidade” e fui pra lá. Aí visitei essa maternidade e são umas freiras que tomam conta até hoje. E falei pra ela que tinha nascido em 52. Ela falou que provavelmente... Tá toda bem cuidada, houve reformas, evidente, mas o casarão ainda é o mesmo casarão do tipo daqueles antigos, mas até hoje funciona como maternidade, é uma fundação. E a freira lá me disse que provavelmente eu teria nascido naquela sala ali, porque naquela época era ali que aconteciam os partos. Mas que eles não tinham mais o registro porque tinha sido transferido pra Santa Casa, e acabou se perdendo os registros. E aí fui na igreja, uma igreja antiga, tipo colonial, onde estão os livros de batismo. Então eu fui lá ver o nome. E tinha lá um livro desse tamanho, enorme. “Que dia que foi?” “Dia tal!”. E ela achou lá, tinha lá o registro do meu nascimento, batismo. Com os padrinhos, o padrinho era o Montola. E tinha uma assinatura do meu pai, da minha mãe. Então de Marília é pouca coisa que eu tenho, porque, na verdade, eu cresci e estudei em Ribeirão Preto.

 

P/1 - E você sabe por que é que mudaram para Ribeirão Preto?

 

R - Foi mais pela oportunidade de emprego. Meu pai estava na Antártica lá, mas ele não gostava de lá. E, realmente, a cervejaria Antártica ela tinha uma tradição meio... Era de alemães, uma coisa meio nazistona. Ele não aguentou e saiu e veio trabalhar em Ribeirão Preto numa cervejaria que se chamava São Domingos. Essa cervejaria era de uma família - que naquela região de Ribeirão Preto, foi a terra do café - era um pessoal que tinha café que montou uma cervejaria. Então ele foi pra trabalhar lá.

 

P/1 - Você sabe o que ele fazia?

 

R - Ele era mestre cervejeiro.

 

P/1 - O que faz um mestre cervejeiro?

 

R - O mestre cervejeiro é o responsável pela qualidade da cerveja. É o que tem a receita da técnica de fazer cerveja. Então essa que foi a profissão dele. Ele como comerciante passou a ser mestre cervejeiro.

 

P/1 - E em Ribeirão vocês moravam onde?

 

R - Em Ribeirão Preto, num primeiro momento a gente morou na Rua São Paulo. Sempre no mesmo bairro, porque a cervejaria era nos Campos Elíseos, cervejaria São Domingos, na Rua São Paulo. Num primeiro momento a gente morou na Rua São Paulo, depois na Rua Minas, depois na Rua Goiás, depois na Rua Visconde do Rio Branco, e por último, na Avenida Gerônimo Gonçalves, é aquela avenida que tem as palmeiras imperiais, não sei se vocês conhecem a cidade, mas é onde passa o Ribeirão Preto, que tá lá até hoje. E era também, a gente na Gerônimo Gonçalves morava na cervejaria, na cervejaria Paulista. Meu pai da São Domingos... A São Domingos faliu e ele foi trabalhar na cervejaria Paulista, fazia a Niger e a Pôquer, a cerveja Pôquer.

 

P/1 - Como era esse bairro onde você cresceu?

 

R - Campos Elíseos.

 

P/1 - Como é que ele era? O que você lembra?

R - É um bairro pobre da cidade. Tipo, classe média baixa. E era um bairro onde tinha muita... A Santa Casa era ali. Era perto da Santa Casa a cervejaria e a _______, era em frente à Santa Casa. E tinha indústrias, grandes comércios também, tipo Matarazzo também era por ali. Então era um bairro bem operário. Campos Elíseos. E era também onde tinha o cemitério, o Cemitério da Saudade, que chamava. E o cemitério já era a saída pra ir pra Franca, pra Batatais, pra ________.

 

P/1 - Nessas casas todas que você citou que você foi se mudando, qual é a que você tem a primeira lembrança? É da...

 

R - Engraçado, eu tenho lembrança de todas, por episódios. Na da rua São Paulo, eu lembro que tinha uma escada. A gente subia. A casa ficava em cima, embaixo eu não sei o que é que era que tinha, mas devia ser algum armazém, alguma coisa. Então a gente subia uma escada e a casa ficava em cima. E eu lembro que uma vez eu caí, eu rolei de lá de cima, eu devia ter uns quatro, cinco anos. Até hoje eu lembro, parecia uma coisa enorme aquela escada. E depois na Rua Minas... Na Rua Minas a gente brincava muito na calçada, ali na casa, tinha muita planta, minha mãe gostava de planta. Não tem nada assim que... Mas onde conheceu, onde a minha mãe, principalmente, fez muita amizade ali com as vizinhas, com a vizinhança.  

 

P/1 - Brincavam do que na calçada?

 

R - A gente brincava de tudo, desde bang-bang até... Quer dizer, nessa idade é mais bang-bang. E também de amarelinha, mas a gente não chamava de amarelinha lá não, era outro nome que a gente dava. Mas era isso de ficar pulando lá. E depois na Rua Minas, aí na Rua Minas, aí foi pra valer, aí foi pra valer, era brincar na rua, a gente fazia guerra de mamona, pegava aqueles cachos, tinha muita mamona, ficava jogando bolinha um no outro. Jogava bola, onde eu aprendi a andar de bicicleta, na Rua Goiás. Engraçado que eu lembro o número até hoje, 1279. Hoje tem um... Um salão de... Como é que chama? Um salão de beleza.

 

P/1 - Como é que era a casa?

 

R - Um sobrado. Tinha a entrada, que seria uma garagem, um jardinzinho pequeno, aí tem a sala, tem aquelas janelas de vidro e ferro com uma grade toda trabalhada, com aqueles ferros que fazem desenho. Nessa rua é onde a gente passou a brincar pra valer, é onde eu comecei a frequentar a escola. Eu entrei, a primeira escola minha foi o (Vite Pax?), é um grupo de freiras alemãs, é alemão, é um grupo de ensino alemão. Eu fiz o pré-primário, que era junto, era na mesma quadra, na mesma calçada, só que vinha pra cá tinha o (Vite Pax?).

 

P/1 - Sei. Iam a pé pra escola?

 

R - É.

 

P/1 - Sozinhos?

 

R - Não, no pré-primário não, ia minha mãe ou a gente tinha uma empregada que chamava Maria, ela levava a gente também. E depois eu fiz o colégio que era ao lado, era uma escola municipal, mas fazia parede com o (Vite Pax?), era o Círculo Operário. Era uma escola municipal, onde eu aprendi a ler e escrever. E o nome da professora era Dona Maria, rigorosa ela, exigente. E ela tinha um agravante que qualquer coisa que eu fizesse, ela passava em frente de casa, porque ela morava na outra quadra, no outro quarteirão. Então ela saia da escola quando eu fazia alguma coisa, ela parava e contava pra minha mãe. Aí não tinha jeito.  

 

P/1 - Como é que era essa rotina escolar naquela época?

 

R - Eu estudava de manhã, era meio período só. E ficava de manhã, depois à tarde tinha lição de casa. Voltava pra casa, almoçava. Meu pai voltava, meu pai sempre almoçou em casa. Almoçava em casa, a gente conversava ali. Às vezes a gente até dormia depois, aquele hábito espanhol de dormir um pouquinho depois do almoço. Mas aí fazia a lição e ficava brincando na rua até de noite.

 

P/1 - Mas na escola o que era? Tinha uniforme? Como era a sala de aula? O que você lembra?

 

R - As salas de aula eram daquelas carteiras de dois, com um buraco no meio pra botar o tinteiro, botava embaixo o tinteiro assim, enfiava a pena, mas a gente usava lápis ali. E tinha aulas de alfabetização, evidentemente; matemática. E tinha uma coisa que até hoje eu lembro, eles levavam pessoas pra falar sobre cuidados de higiene, negócio de lavar mão, dos dentes. Me lembro até hoje que foi um, provavelmente era um dentista, mas ele dava noções de higiene bucal, tinha que escovar os dentes e tal. Mas ali como era um bairro pobre tinha gente que não tinha escova de dente. E eu lembro de uma coisa muito interessante, ele falava: “Você que não tem escova em casa, faz o seguinte: pega água e o sabão que a mãe lava a roupa, passa o dedo assim e faz assim que some!” É uma coisa, que realmente, um senso de... Porque tinha gente que não podia comprar uma escova de dente, essa que é a verdade, mas ele tinha essa preocupação de que essas pessoas também tivessem a sua higiene bucal, porque sempre foi um problema aqui no Brasil, as crianças não têm, perdem os dentes por causa da cárie, por causa do tártaro, e não porque não querem, mas porque não têm noção que pode evitar.

E a disciplina era muito rigorosa na escola. E eu lembro de um castigo, mas não lembro a causa do castigo, mas eu lembro que foi, a professora botou todo mundo ali no meio do pátio, ficar debaixo daquele sol, ficamos uma meia hora lá, não levantava mais aquilo e até acho que foi por alguma algazarra coletiva ali na sala e acabou todo mundo pagando o pato. E um outro episódio que eu lembro dessa escola também foi uma festa, acho que foi de final de ano, que nós ensaiamos, todos fomos colocados num auditório ali do lado e a gente ficou lá na frente cantando Lampião de Gás. A Inezita Barroso, na época, fazia sucesso com essa música. E aí todos nós cantamos Lampião de Gás, isso também é uma coisa que me vem à memória.

Mas saindo dessa escola, depois a minha família mudou dessa Rua Goiás pra Rua Visconde de Rio Branco, que era próxima ao centro de Ribeirão. Visconde de Rio Branco, 510. E aí eu fui também estudar no Colégio Marista, era na Rua Bernardino de Campos, onde está até hoje. Meu pai conseguiu lá uma bolsa, porque naquela época tinha bolsa pra mim e pro meu irmão mais velho.

 

P/1 - E isso foi uma mudança grande?

 

R - Foi. Foi uma mudança bem... Porque até hoje eu lembro. Eu fui pro terceiro ano. Primeiro e segundo eu fiz no Círculo do Operário e aí o terceiro eu fiz no Colégio Marista.

 

P/1 - Que lugares que vocês frequentavam da cidade? Você falou que foi pro centro de Ribeirão. Que lugares de Ribeirão?

 

R - O centro era um lugar que a gente frequentava muito, até para as matinês. Tinha cinema de domingo de manhã, às dez horas, desenho passava, a gente ia muito. Desfiles eram sempre ali, de Sete de Setembro, essas coisas. Os cinemas eram todos ali, a praça que tem até hoje, é a praça XV de Novembro.

 

P/1 - O que acontecia nessa praça?

 

R - Passeava, não tinha nada de especial, mas ela tinha um laguinho central, tinha uns patos, umas coisas assim. Então era um lugar agradável, com muita árvore, tem até hoje, tem muita árvores. E tem até hoje umas árvores antigas, com as raízes já altas e cipós. Era um lugar agradável que tinha um cheiro que eu lembro até hoje daquele cheiro.

 

P/1 - Que cheiro?

 

R - De verde. Um cheiro das árvores que exalavam aquele... Um cheiro de verde, de quando você está na árvore... Hoje tem um problema lá em Ribeirão, ali naquela praça juntou muita andorinha numa determinada época, não sei exatamente qual, e ficou insuportável porque ficou um mau cheiro horrível e da última vez que eu fui eu passei ali e tava um cheiro tão desagradável, porcaria. E quando eu era moleque era um cheiro tão agradável aqui.

 

P/1 - Você falou que quando voltava pra casa, às vezes, tinha a siesta, né? E dentro de casa tinha uma coisa da Espanha presente assim?

 

R - Tinha. A comida em casa ela sempre foi tipicamente espanhola.

 

P/1 - O quê?

 

R - Minha mãe fazia pisto, por exemplo, que chamava pisto, era ovo com pimentão, cebola, que misturava. _________, Paella. E tem uma coisa, as conversas em casa sempre foram ao redor da cozinha, porque minha mãe cozinhava, meu pai trabalhava, mas ele sempre almoçava em casa. Aí ele voltava do trabalho, a gente voltava da escola, então a gente ficava conversando ali. E tinha aquela coisa de que na hora da refeição tinha que estar todo mundo. Não tinha essa coisa de um almoça, depois vem outro e almoça... Tinha que sentar todo mundo pra comer. E ai se um saísse e não chegasse. Ficava esperando e levava uma bronca se não aparecesse. Isso aí é uma coisa também tipicamente espanhola, ou européia, mas mais latina.

 

P/1 - Todos em volta da mesa?

 

R - É, isso aí era rigoroso.

 

P/1 - E quem cozinhava na casa? Sua mãe?

 

R - Minha mãe, minha mãe sempre foi dona-de-casa.

 

P/1 - Como é que você descreveria sua mãe, Galé?

 

R - Minha mãe era uma mulher... Assim, sem... Aceitava tudo, era muito passiva, muito religiosa. Ia à missa todo domingo e nos obrigava a ir à missa todo domingo também. Mas alegre, solidária. Quando a gente tinha algum problema ela ia pra resolver, estava sempre do lado, sempre a favor, sempre deu muita atenção a gente, não tinha essa coisa de não estar nem aí. Não, era uma galinhona pra gente ficar debaixo das asas. (pausa) Então a conversa era sempre ali na cozinha, e juntava todo mundo na hora do almoço e todo mundo na hora da janta.

 

P/1 - Jantar também?

 

R - Também, todo mundo junto. Não tinha essa de um come, depois outro come, não.

 

P/1 - Isso inclusive na adolescência?

 

R - Inclusive na adolescência. Eu lembro que eu fiz o cursinho-vestibular, mas eu saia do colégio, passava em casa. Era noite. Eu sentava, comia mais rápido que os demais e ia pra escola. Mas sempre teve essa coisa de comer junto. Aliás é um hábito que eu acho salutar, porque é um momento que você… De troca de experiência muito rico. É onde tinha as histórias do meu pai, as histórias da minha mãe. Então a ausência disso eu acho que cria uma lacuna. Quer dizer, você diminui o espaço de convívio. Quanto mais você diminui, menos tempo você tem pra passar essas histórias que um passa pro outro.

 

P/1 - A adolescência também foi em Ribeirão? Adolescência, juventude…

 

R - Tudo, tudo.

 

P/1 - O que era ser adolescente em Ribeirão naquela época?

 

R - Olha, tinha várias coisas. Tinha muito de bebe, lá tem o Pinguim, então a gente ia muito tomar cerveja, meu pai sempre trabalhou em cervejaria, e a gente vivia dentro da cervejaria. A última casa era na Cervejaria Paulista.

 

P/1 - Dentro da cervejaria?

 

R - É, quer dizer, era no prédio da cervejaria, não que fosse dentro, mas era no mesmo prédio. Aqui tinha uma porta que tinha dois apartamentos em cima, um era do meu pai e outro era do chefe da mecânica, que é um sueco. Então era dentro. E volta e meio no sábado meu pai pegava um barril de 25 litros e a gente sentava ali e ficava bebendo chopp.

 

P/1 - Quem? Ele…

 

R - Ele, meu irmão mais velho, eu e algum amigo. Domingo de manhã em casa sempre foi um ponto de encontro, exatamente por causa da cerveja. As pessoas iam em casa tomar cerveja.

 

P/1 - Como é que era? Era cerveja em barril de que?

 

R - Em barril ou em garrafa. No caso ai, o meu pai de vez em quando levava um barrilzinho de 25 litros pra casa e a gente ficava tomando ali. Mas normalmente o meu pai recebia da cervejaria, cerveja. Duas dúzias de cerveja grande, duas dúzias de cerveja preta. Toda semana, então tinha muito cerveja lá. Hoje eu digo que eu devo tudo a cerveja (risos), primeiro porque o meu pai pagava todas as minhas coisas com as cervejas, e eu também tomei muita cerveja.

 

P/1 - E essas idas ao Pinguim, como eram?

 

R - E as idas ao Pinguim eram de fim de semana, alguns dias da semana, mas eram mais de sexta, de sábado, principalmente. Com quinze anos, dezesseis anos a gente ia muito lá. Não só no Pinguim, mas como em outros bares. Mas teve desde coisa de sair pra fazer serenata também, naquela época ainda se fazia, pelo menos a minha turma fazia. A gente saia pra tocar música, cantar, fazer batucada.

 

P/1 - Tem alguma que você lembre em especial? Alguma serenata?

 

R - Não, nenhuma especial, porque geralmente, quando a gente fazia, fazia um roteiro passando na casa de amigos, de amigas, geralmente colegas de escola. Mas era mais na farra, não com outras intenções que não eram essas, de passar o tempo.

 

P/1 - E cantava o quê?

 

R - As músicas brasileiras de época, desde Chico Buarque, já tinha, até Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa, músicas brasileiras, não tinha muito o hábito de cantar músicas estrangeiras, não.

 

P/1 - E você ficou em Ribeirão até quando, Galé?

 

R - Até 72. Eu prestei o vestibular em 72, ai entrei na ECA - USP. Escola de Comunicações e Artes, aí vim pra cá, em 72.

 

P/1 - Vestibular de que?

 

R - De Comunicações. Inicialmente eu vim pra fazer Cinema, a minha intenção era fazer Cinema, mas acabei entrando na ECA, acabei por convívio… E conhecendo as pessoas, e acho que até também por uma questão de trabalho eu acabei fazendo Jornalismo.

 

P/2 - E por que o interesse em Cinema?

 

R - Eu vi muito cinema em Ribeirão Preto, pelo menos eu via três filmes por semana, uma coisa engraçada, porque aqui em São Paulo o hábito acabou não prosseguindo, não prosperando, mas eu sempre gostei muito de cinema. E geralmente eu ia no meio da semana  em um, no sábado ia e no domingo também ia (risos).

 

P/1 - Que safra de filmes era naquela época?

 

R - Isso era final dos anos sessenta.

 

P/1 - Tem algum filme que você lembre?

 

R - Ah, tem vários. Você sabe que eu vejo na televisão, passa muitos filmes dessa época, é muito difícil passar um desses filmes que eu não tenha visto no cinema. Desde “Nau dos Insensatos”, “Vergonha” do Bergman, enfim… Todos os filmes… É muita coisa. Engraçado, e esses mais recentes eu acabo não acompanhando.

 

P/1 - E o teu sonho qual era? Era fazer cinema?

 

R - Era fazer cinema. Eu achava uma coisa bonita. E não me atraia também essas outras atividades, Engenharia ou Medicina. Teve um episódio anterior… Eu sempre gostei muito de pedra, de natureza, eu ia fazer Geologia em Ouro Preto, só que pra fazer Geologia, uma das exigências era estar quite com o Serviço Militar, e eu não tava, porque eu ainda não tinha idade, eu ia fazer ainda mais pra frente, um ano depois acho. Então acabei não indo pra lá, mas eu tinha vontade de fazer Geologia. Cinema e Geologia eu não sei a relação que tem ai, mas… (risos) E eu provavelmente teria ido, se tivesse dado tudo certo provavelmente eu ia pra Ouro Preto fazer Geologia, eu ia fazer um curso técnico que equivalia ao Científico e na sequência ia fazer o vestibular pra Escola Superior. Parece que Ouro Preto era a primeira escola de Geologia que tem no Brasil.

 

P/1 - E como foi essa mudança pra São Paulo?

 

R - Não, mas aí eu acabei fazendo o Científico lá, e a divisão era Medicina e Engenharia, porque na minha época era assim: você tinha que fazer o Científico, é o Colegial hoje, o primeiro ano era normal e no segundo ano você fazia opção ou pra Engenharia ou pra Medicina, porque no caso da Biologia era mais… Estudado de um lado e Física do outro. Então nesse época teve opção, mas nenhuma das duas… Acabei ficando na Biologia, não, na Engenharia. Porque Medicina até hoje, eu não sei como as pessoas optam por Medicina, eu acho muito desagradável hospital, doença, eu não tenho essa vocação. Mas aí pensei no Cinema, nessa área de humanas é a que sempre me atraiu mais. Sempre gostei muito de ler jornal, ver televisão, gostava muito de ver televisão, mas sempre mais noticiário.  Então acho que isso, juntando tudo, acabou dando deu cair numa escola de comunicações e ter entrado também, e lá dentro foi que eu optei por Jornalismo, até porque as pessoas com quem eu estava mais próxima todas estavam ali pra fazer Jornalismo, então acabei optando também por Jornalismo.

 

P/1 - Que ano que era, mais ou menos, quando você entra na ECA?

 

R - Eu entrei em 72, foi quando eu mudei pra São Paulo.

 

P/1 - Você foi morar onde quando você veio pra São Paulo?

 

R - Eu fui pra uma república de uns amigos de Ribeirão Preto, era ali no Conjunto dos Bancários, na [Avenida] Nove de Julho com a [Rua] Groenlândia. E ali fiquei acho que um ano, a gente tava na esquina de cá. O Conjunto dos Bancários… Tem aqui a Groenlândia, a Nove de Julho, então ele está do lado de cá e do lado de lá da Avenida Nove de Julho e está do lado de lá também daquela que vai pra Santo Amaro, a São Gabriel. O Conjunto dos Bancários foi feito pelo sindicato dos bancários no final dos anos cinquenta, e até hoje tá lá, esse Conjunto existe até hoje. Eu fiquei um ano ali, de um lado, depois mudamos para o outro, fiquei alguns meses e depois eu fui morar com o Laerte Coutinho, o chargista. A gente morava numa casinha ali na Previdência. Moramos até 78 juntos.

P/1 - E representou pra você uma mudança grande essa história de sair de Ribeirão e cair na ECA, cair na USP, cair em São Paulo?

 

R - Ah sim, porque a convivência universitária… O que eu acho mais importante da universidade, acho que é a convivência universitária, que vai desde a convivência com os professores, até a convivência com os colegas de faculdade. E é por isso que eu sempre acho que… “A faculdade boa de Direito é a… A uninove tem um curso bom de não sei o que…” Eu falo que não é possível, eu não consigo enxergar isso, porque a universidade pra mim é a formação da pessoa, não é uma formação técnica. Formação técnica não precisa ser de uma universidade, mas a convivência universitária é que permite uma formação crítica, uma formação com sentido social, e eu acho que essas universidades… Eu não vejo isso em outras universidades a não ser na universidade pública, pra falar a verdade, ou talvez acho que tipo a PUC, que tem uma tradição, uma coisa assim também.

 

P/1 - Porque você teve oportunidade de conviver com quem, nessa sua vinda pra USP?

 

R - Foi onde eu conheci as pessoas que eu conheço até hoje, Sérgio Gomes, Ricardo Moraes, Laerte Coutinho, enfim, um monte de gente que eu convivo até hoje. E que foram as pessoas que me ajudaram a ter uma visão mais ampla do mundo, a ter uma visão crítica.

 

P/1 - Tinha uma atividade grande, naquela época?

 

R - Grande, grande. A gente tinha, lá na ECA… Quando eu entrei lá teve um trote… Ao contrário, eu via aqueles trotes lá em Ribeirão Preto, na Universidade de São PAulo, lá tem uma Universidade de São Paulo ainda, um negócio violento, um negócio de raspar, de pintar, de humilhar as pessoas, eu achava tão ridículo aquilo. E quando eu cheguei aqui teve um trote, mas foi um trote cultural, não, não era cultural, era alguma coisa por aí, não lembro exatamente o nome, mas era um trote cultural, onde tem palestras com iniciativas de mostrar, ampliar a visão das coisas. Então eu achei muito positivo isso, eu lembro que na minha entrada eu tive o Juca de Oliveira, uma palestra, o Suplicy, que na época era professor da GV, na época não, porque ele é até hoje, mas naquela época ele não era ainda, não tinha sido ligado a política, Nelson Pereira dos Santos, enfim, pessoas do meio artístico, político, cultural, importante né. E eu vindo de Ribeirão Preto, é uma coisa que sempre te dá um alento, uma satisfação.

 

P/1 -  Você tinha participação no movimento estudantil, movimento partidário, como que era isso?

 

R - Não, eu tinha… Lá em Ribeirão Preto a gente tinha um grupo de amigos, conversava, foi quando deu 68, eu tava lá, teve muita manifestação estudantil lá, eu ficava acompanhando meio distante, eu não tinha nenhum envolvimento com aquilo, na verdade, mas eu conhecia as pessoas que tavam… Os líderes estudantis, porque era muito difícil também não conhecer, porque eram pessoas do mesmo convívio, mas a minha vida ativa ali não foi nada… Era mais de conversa só. Tinha o Centro Acadêmico lá no colégio que eu fiz, eu estudei no Colégio Estadual Alberto Santos Dumont, no Científico, até o final do Ginásio eu fiz no Marista. Então tinha um centro acadêmico que eu cheguei a participar lá, de algumas atividades internas, de promoção de atividades, coisa assim, que também era uma maneira de participar, mas aqui foi mais, porque eu me aproximei muito do pessoal do Centro Acadêmico Lupe Cotrim, e onde eu conheci esses amigos que são até hoje.  

 

P/1 - Como eram as questões da imprensa da época, da censura, do jornalismo em plena ditadura chegavam na universidade, Galé?

 

R - Foi exatamente nessa ocasião que começou a ter uma reação dos meios de comunicação, tipo Estadão, publicar poesia, receita de bolo. Então a universidade, e até hoje, é um lugar onde a… O fronte da contestação foi a universidade, foi o meio universitário. Os jornais também começaram a se revoltar contra esse estado de repressão. Então a universidade via essas denúncias como uma coisa que vai crescendo, quer dizer, as sociedades se organizando pra combater e lutar pelo estado de direito, liberdade de expressão, a redemocratização do país, então a luta universitária foi importante com todo aquele ímpeto juvenil, mas que faz parte também.  

 

P/1 - Mas que tipo de coisa vocês se organizavam?

 

R - Desde debates, eu lembro que em novembro de 72 nós fizemos um grande encontro de comunicação, tinha até o nome de “Encontrão”, foi lá em Goiânia, e que reunia estudantes de comunicação do Brasil inteiro, tinha gente do Maranhão, Amazonas, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso, Minas, então isso ajuda, você vai despertando a consciência crítica de ver a realidade, de abrir os olhos, e movimentos integrados a atividades estudantis, discussão do currículo, da censura, do Estadão que manifestava a censura. A gente promovia abertura das questões que incomodavam. Então nesse sentido foi muito positivo, mas também não era uma coisa amarga, de revolta, não, fazia shows com o Paulinho da Viola e falava alguma coisa, era uma coisa agradável. Promovemos um jogo uma vez, na época tinha o Afonsinho, ele veio uma época jogar bola com a gente, eram coisas agradáveis, mas que ajudavam no processo de conscientização, de luta pela redemocratização, enfim.

 

P/1 -  E trabalho? Você estudava e trabalhava?

 

R - Eu estudava e trabalhava, comecei a trabalhar na Gazeta Esportiva, ali na Barão de Limeira, 425. Meu primeiro emprego, quer dizer, na verdade eu trabalhei durante alguns meses numa gráfica lá no ipiranga, mas uma péssima lembrança de lá, trabalhei não me pagaram, e era um sacrifício, eu tinha que ta lá às oito horas, não me lembro, oito, oito e meia, e o ônibus era lotado, eu não conseguia entrar no ônibus, era no terceiro ônibus que eu conseguia pegar, depois de chegar ao ponto. Aí fiquei lá, mas foi horrível.

 

P/1 - Redação foi a Gazeta, então?

 

R - Redação foi na Gazeta Esportiva.

 

P/1 - Como que era a realidade de uma redação, nessa década de setenta?

 

R - No caso da Gazeta Esportiva era uma coisa meio atípica, porque é um jornal esportivo. Tinha a redação da Gazeta Esportiva e uma outra redação, era a Gazeta que ficava em outro andar. A gente ficava no terceiro, acho que era o quarto, é, não, acho que ficava no quinto, o quarto era o arquivo, então é bem atípica redação de esportes, isso que eu to te falando é em 73. Eu fiquei de 73 pra 74 lá, mas tinha pessoas interessantes ali, que discutiam as coisas que tavam  acontecendo no país.

 

P/1 - As ferramentas de trabalham o que era?

 

R - As ferramentas de trabalho era máquina de escrever, não tem mais, mas eram máquinas de escrever, laudas, as laudas eram em papel jornal, laudas de setenta toques, vinte linhas, cola, tinham uns gomeiros, com pincel. No final você escrevia o seu artigo e você revisava com a caneta, corrigia algumas coisas e você colava, colava a lauda um com a dois com a três, enfim, do tamanho que fosse a matéria, e aí tinha a retranca, a retranca era também um papel diferenciado, era menor, onde você botava o título, a linha fina - A linha fina era aquela, você tem o título, era a explicaçãozinha que vem junto - então isso se colava, depois de estar ok, isso era enrolado e jogava, aí alguém: “desce!”, porque a geralmente a gráfica era embaixo (risos), então tem um tubulão que você jogava essas coisas e caía lá embaixo, isso ia ser, digitava. Eu peguei as duas empresas, a mudança, lá na Gazeta Esportiva. Tinha a impressão a frio, era a offset, mas alguns cadernos eram feitos por chumbo, era o clichê. Dependendo do dia da semana o que se fazia ia pra ser composto a linotipo.

 

P/1 - O que era a linotipo?

 

R - Linotipo era uma composição onde as letras… Era feito um clichê com chumbo, era uns filetes de chumbo e em cima as letras, depois passava, era onde passava tinta e onde passava o papel, e imprimia. Eram os clichês.

 

P/1 - Rodava de madrugada?

 

P/1 - De madrugada, os jornais eram rodados de madrugada. Então eu cheguei a pegar essa transição, aliás eu peguei duas transições, eu peguei do filme pra… Na televisão eu peguei o filme para a gravação eletrônica. Mas na Gazeta Esportiva eu cobria esporte amador, porque lá era dividido o futebol, e se chamava esporte amador tudo que não era futebol, ia desde automobilismo até luta de boxe. Alguns meses depois eu já fiquei responsável por uma página que saía aos sábados, onde eu cuidava de camping, aeromodelismo, tinha mais um esporte, não lembro agora, mas fazia aquela página inteira ali. E a gente trabalhava na Barão de Limeira, mas eu lembro que pra receber a gente tinha que ir no pé da Gazeta, na Paulista, aí no dia do pagamento pegava um carro, íamos quatro, cinco até a sede da Fundação Cásper Líbero receber.

 

P/1 - Você ficou trabalhando e estudando até se formar?

 

R - Sim.

 

P/1 - Você sai da ECA em que ano?

 

R - Eu saí em 78.

 

P/1 - Então quer dizer, aquele episódio em 75 você ainda tava na ECA?

 

R - Tava na ECA.

 

P/1 - Você lembra desse episódio da morte do Herzog?

 

R - Então deixa eu voltar um pouquinho mais. No início de 75 houveram algumas prisões, e a gente ficou preocupado, a gente conversava, tomava alguns cuidados, a gente se juntava pelo Partido Comunista Brasileiro, que era na verdade um grupo de amigos que tinha uma visão da vida e da história em comum, a gente discutia a realidade brasileira, e isso era proibido. Então houveram algumas prisões, a gente tomava alguns cuidados, a gente já tava trabalhando e tal, até que houve uma prisão próxima, o Sérgio Gomes que sumiu. A gente preocupado, onde é que tá, aí fomos até o sindicado, na época era o Audálio Dantas o presidente, “olha, o Sérgio Gomes desapareceu”, os pais desesperados, enfim. E a gente já sabendo mais ou menos o que era. Então a partir daí foi um inferno a vida desse grupo. Eu não voltava pra casa, porque se eu voltasse pra casa eu corria o risco de ser preso, então um dia eu dormia num lugar, outro dia em outro, outro dia em outro, ficava itinerante, e aí de vez em quando, pô, mas preciso buscar roupa, pegar roupa em casa, então a gente montava um esquema, ia pra lá tipo umas três horas da tarde, dava três voltas, via se não tinha nenhum carro ali perto, aí entrava, pegava as coisas e saía correndo.

 

P/1 - Que ano que é?

 

R - Em 75 mesmo.

 

P/2 - Em que momento que você entrou em contato… Porque você falou que era do Partido Comunista?

 

R - Em 72, logo no ano em que eu entrei, por essa afinidade de preocupações.

 

P/2 - Ninguém em especial então?

 

R - Não, não, foi por atividade mesmo. Na verdade a atividade que nos levava à isso, mas pelo que fazia, não porque, não era o contrário, não, temos que fazer, vinha uma determinação e tinha que fazer assim, assim e assim. Não, era enquanto a gente tava fazendo, “pô, legal, vamos conversar”, era isso.

 

P/1 - Mas o que era o Partido Comunista naquela época? Eram reuniões?

 

R - Reuniões de pessoas que discutiam a momento político do país, analisar o que estava acontecendo, o processo, a gente ta falando de 72 pra 73. Foi quando entrou o Geisel, quando tinha aquela briga entre os militares, aqui em São Paulo tinha o Paulo Egydio [Martins], que foi nomeado, naquela época não se elegia o governador e nem os prefeitos das capitais, então a gente analisava o quadro político, a correlação de forças, e as nossas iniciativas eram juntar as forças que entendiam que o país precisava voltar pro caminho da democracia, da participação popular, da liberdade de expressão, do Estado de Direito, era isso, isso era ser comunista. Hoje a gente fala que isso era proibido, as pessoas não assimilam muito, mas era proibido discutir isso.

 

P/1 - E tinha que ter uma habilidade para promover essas reuniões?

 

R - Tinha, porque havia… Isso aí era uma coisa que tinha que fazer clandestinamente, tinha que tomar cuidado, porque pessoas já tinha morrido por causa disso, então tinha que ter todo um esquema pra se encontrar, às vezes, até com um determinado livro, você tinha que tomar cuidado pra carregar o livro, porque podia ser visto como uma coisa subversiva. O livro do Lenin era… Você carregar aquilo já era altamente comprometedor. Quando a gente marcava uns encontros, tinha que fazer um esquema pra se encontrar, pra sentar no mesmo lugar pra conversar. Às vezes tinha aquela coisa de uma casa pequena e em um determinado momento colocar quarenta, cinquenta pessoas dentro da casa, e não podia chegar quarenta, cinquenta pessoas de uma vez numa casa, discretamente, então tinha um esquema de chegada, entrava em dois, três, e a saída a mesma coisa, saía dois, três, bem esparsa. Era uma coisa que tinha que ser discreta, pra não chamar a atenção de vizinhança ou da própria polícia. Então esses eram os anos de chumbo, quer dizer, é um desserviço que se fez ao Brasil, porque isso daí atrasou o processo de desenvolvimento, não no sentido econômico, não é nada disso, o desenvolvimento da sociedade, de participação, de consciência de seu papel.  Então esse desserviço é uma coisa, eu acho que o pior que aconteceu foi esse buraco que se fez, nós estamos pagando até hoje, tamo tropeçando ainda. O Brasil, na verdade, tem vinte anos de democracia.

 

P/1 - Esses encontros e esses debates foram  em 72, 73, 74, 75 também. Mas se acirra e situação em 75?

 

R - Não, não se acirra em 75, na verdade a coisa se acirrou em 68, com o AI-5. O Ai-5 foi a grande cacetada que se deu na cabeça do povo brasileiro, foi onde proibiram os partidos, proibiram todas as manifestações, as escolas passaram a ter um currículo direcionado, então 75 fez parte de um processo, uma estratégia dos militares eu acho, que era de intimidação, e pegou o Partido Comunista Brasileiro… Porque o Partido Comunista Brasileiro fazia parte da vida ali, nas redações você tinha gente, nas escolas você tinha gente,  e gente fazendo as atividades específicas ali. Ninguém tava na ECA dando tiro (risos), não, a gente tava estudando, tava promovendo encontros, então a iniciativa do governo militar foi de uma intimidação, foi de “olha aí, ta vendo o que é ser comunista? Nós estamos de olho”, pra intimidar qualquer iniciativa. Só que acabou dando um resultado inverso, porque despertou a sociedade “porra, como é que pode?”, o cara diretor de jornalismo da cultura foi morto, o cara que fazia o editorial do Estadão ta preso, o Weis, por exemplo, o Rodolfo Konder, era o editor chefe da visão ta preso, tem alguma coisa errada, não é possível que essas pessoas estejam tão erradas e eles estão certos, todos tinham uma responsabilidade da sociedade, professores também. Até PMs foram presos, Coronel Silvestre, ele era Coronel, acho que ficava ali no Butantã, ele morava no Butantã e acho que também ele ficava naquele batalhão lá da PM, ele e mais nove soldados.

 

P/1 - A notícia da morte do Herzog, por exemplo, você lembra como ela chegou à você, assim, o que provocou?

 

R - Eu soube só depois, eu soube quando eu fui transferido junto com outras pessoas do DOI-CODI para o DOPS, aí que eu soube, porque eu não… Éramos três numa cela, era eu, o Frederico Pessoa, e o Luiz Paulo, aí de repente tiraram o Fred e tiraram o Luiz Paulo, aí eu fiquei sozinho na cela. Fiquei uns dias sozinho. Lá você não conversava com ninguém, tinha umas paredes assim, e aqui tinha uma parede, um muro, e do lado de lá tinha celas também na mesma situação, e você não podia falar alto porque aí vinha o cara e dava paulada. Então ficava ali, e eu nao soube da morte, só depois que eu vim a saber.

 

P/2 - Quando você foi preso?

 

R - Engraçado, eu sei o dia que eu saí, mas não sei o dia que eu fui preso, mas foi em outubro, acredito que em torno do dia quinze ao dia vinte de outubro.

 

P/2 - E como é que foi? Como aconteceu?

 

R - Eu, é… Antes eu era itinerante, dormia num lugar, dormia noutro, então no dia em que eu fui preso… Eu fazia o seguinte: eu ficava sempre num lugar com gente, eu ficava na ECA, tava na Eca ainda, até a hora de ir pra Folha, trabalhava na Agência Folha, o meu horário de entrada era às sete horas, então eu ficava até umas seis horas na ECA, aí pegava um ônibus e ia lá pra Barão de Limeira, na Folha. Aí entrava e trabalhava ali e tal. Num desses dias tocou o telefone da portaria dizendo que tinha uma pessoa querendo falar comigo, mas tava com dificuldade de estacionar, e eu realmente tinha marcada com a mulher do amigo meu de, ela ficou de passar lá pra conversar, e eu achei que era ela e eu desci, eu lembro que tava meio frio, tava com uma jaqueta, deixei a jaqueta… A jaqueta ficou na redação, aí eu desci, fui até a porta, olhei assim e no que eu olhei tinha aquela… Aquelas veraneios, com cor amarela, verde, no que eu vi eu já virei, mas já tinha dois caras atrás de mim e me seguraram e me levaram embora. Aí eu falei: “não pera, deixa eu pegar o documento, eu to sem a… Mas não teve conversa, me jogaram dentro da perua veraneio, me algemaram e o cara pegou um… Tava com Notícias Populares, enrolou na minha cara e aí ficou rodando um tempão até me levar ao DOI-CODI.

 

P/1 - Estávamos falando…

 

R - Então, a minha prisão, na verdade, se deve mais à atividade e a ligação lá na universidade do que no meio jornalístico. Era 75, eu tava no terceiro ano, porque eu repeti muito também, eu era mau aluno, não era bom aluno. Teve disciplina lá que eu mesmo me reprovei, não, eu não mereço passar, vamos fazer tudo outra vez. Eu não fazia os trabalhos, essas coisas. Não por negligência, era mais porque a atividade do centro acadêmico me absorvia bastante. Então quando teve a prisão foi pela relação com a universidade.

 

P/1 - Pela tua atuação no centro acadêmico?

 

R - É, na universidade. Nem sei se eu estava no Centro Acadêmico, acho que eu não estava mais. Não, eu não estava mais no Centro Acadêmico. A gente tinha perdido a eleição. Eu fiz parte com o Markun de uma chapa que foi derrotada na eleição do Centro Acadêmico. E então aconteceu essa prisão, dessa maneira, por conta também que lá na Folha de S. Paulo tinha um pessoal da segurança que era tudo funcionário do DOPS. Era DOPS, que não existe mais, mas era Departamento, como é que é? de Polícia Social, DOPS, Departamento de Polícia Social, Departamento de Política e Social, uma coisa assim. Eles tramaram esse negócio, porque eu olhei na rua, vi a perua, quis voltar e o cara já tava atrás de mim. Quer dizer, eles estavam lá dentro, né? E aí ficamos, eu fiquei umas três, quatro semanas preso. Mas havia uma reação, Dom Paulo na época foi muito importante, porque ele denunciava as prisões, as torturas, ele ia, enchia o saco do governador, o Paulo Egydio, pra fazer pressão.

 

P/1 - Dos teus dias na prisão o que você lembra mais forte?

 

R - Dos dias da prisão eu lembro que... Eu fiquei numa cela, que nem eu falei antes, com outros dois jornalistas, o Frederico Pessoa e o Luiz Paulo, me foge o sobrenome dele agora, mas ele é do Vale do Paraíba, trabalha até hoje lá. Eu lembro que o Luiz Paulo tinha um problema na coluna, ele levou tanta pancada que ele ficou inerte, ele ficou no chão. Então, tudo ele precisava ser ajudado: comer, ir ao banheiro, a gente que levava ele, porque ele tinha perdido a movimentação toda. E a gente ficava conversando ali, baixinho, porque... Se subisse um pouco a voz eles iam lá e reprimiam, dava bronca, porque não podia falar alto. Mas eram dias intermináveis. Chegava o café da manhã, que era um café e uma rodela de pão sem nada e água. E no almoço também um prato, um prato plástico, tudo junto ali. E a gente comia. E a gente conversou que era bom se exercitar, fazer ginástica. Pra não ficar ali... Enfim, criar alguma atividade. E todos nós... Eles tiravam a roupas e davam um macacão, um macacão verde escuro, e no meu caso, o macacão me apertava, porque ele tinha pouca altura, então eu tinha que tirar ele, senão ficava oprimindo assim era uma coisa extremamente desconfortável. Falei isso, mas o cara não quis saber de trocar, “fica com esse mesmo”. Eu pra dormir tinha que tirar a parte de cima, porque não dava pra fazer assim. Eu que lavava os macacões, então juntava uns dez macacões e tinha que lavar, botava numa lata com sabão e ficava socando aquilo. Uma vez em lembro que, por causa desse negócio de lavar os macacões, ele me levou e eu fiz uma brincadeira: “Pô, vamos fazer um jogo de futebol aqui, fica os presos contra você, tinha uns dois seguranças lá, “junta aí o pessoal da segurança e vamos fazer um joguinho de futebol aí, porque isso aqui está muito chato, não tem nada pra fazer”. Puta, o cara ficou bravo.

E por conta do Luiz Paulo ta mal, o Davi Capistrano tava preso também, na época, que foi prefeito aqui de Santos, e ele é médico, era, já morreu. Mas ele foi algumas vezes na cela pra ver como é que estava o Luiz Paulo. O guarda lá levava ele, dava um remedinho e a gente conversava rapidamente. Enfim, as lembranças ali daquela cela.  A cela era uma coisa pequena, um colchão no chão, aquela latrina portuguesa, que é no chão, sem porta, sem nada. E a grade, o quartinho devia ter dois metros de largura, por dois e meio, três. Ficávamos os três lá em colchões. Só o colchão, sem lençol.

 

P/1 - E a saída de lá?

 

R - Num determinado dia: “Vocês vão embora”. Nos levaram pra um lugar pra pegar as coisas, botar a roupa, sapato, tiraram do envelope, devolveram o relógio. Aí foi juntando todo mundo, todo mundo se reviu. Ah não, antes, teve um momento antes de ir embora, juntava todo mundo pra escrever, tinha que escrever um relatório, anotava o que fazia, o que não fazia, de próprio punho. E aí nesses momentos a gente se juntava ali também, isso em um ou dois dias, isso antes de ir embora. Aí num dia todo mundo pegou as coisas e foi num, acho que era num camburão desses grandes que cabiam várias pessoas, mas é tudo fechado, ele tinha um negócio assim que você não vê a rua de dentro do camburão. Fomos lá dentro, o Weis tava nessa viagem também, o Fred. Aí chegamos lá já tinha um bando de gente que já estava lá. Mas a sensação de ir pro DOPS era a melhor possível, porque você saia, você deixava de ser um desaparecido pra ser um preso. Ou seja, você já estava sob a responsabilidade do Estado, porque no DOI-CODI você não estava sobre a responsabilidade de ninguém, não existia aquilo lá legalmente, institucionalmente não existia aquilo. Então a ida pro DOPS era um alívio pra todos nós.

 

P/1 - É quando vocês ficam sabendo da morte do Herzog?

 

R - Eu fiquei sabendo nesse reencontro que eles levaram todo mundo pra fazer relatório aí que eu fiquei sabendo. Eu não sei, isso aí deve ter sido no dia dois. Não, dia primeiro de outubro, dia dois de outubro. Depois a gente foi pro DOPS, no DOPS eu fiquei lá mais uns dois, três dias. E aí... Aí eu saí.

 

P/1 - E aí você reassume a sua vida, o seu trabalho, tudo?

 

R - Sim, aí eu voltei a trabalhar, eu voltei à faculdade. Isso foi no dia cinco de novembro, eu sai no dia cinco de novembro, meu pai foi lá me buscar. Meu pai e tinha um amigo que era delegado de polícia, que foi lá, Doutor Zenon, que era de Ribeirão Preto, mas ele estava em São Paulo, trabalhando em São Paulo.  

 

P/1 - Teu pai saiu de Ribeirão pra ir te buscar?

 

R - Não, não, na verdade, aí minha família já tinha mudado pra Mogi Mirim, isso um tempo atrás. Quando eu vim pra São Paulo, no ano seguinte minha família mudou para Mogi Mirim. Então, mas esse amigo de Ribeirão Preto, que trabalhava aqui, ele era delegado regional e era muito amigo do meu pai, eu sei que ele foi junto lá com meu pai e eu sai junto com eles de lá. Então, o que aconteceu foi que com a morte do Vladimir Herzog houve uma reação muito forte. Teve um ato, teve Dom Paulo, enfim, saiu em tudo quanto é jornal, no mundo todo. Então por isso que apressou a saída de lá do DOI-CODI pro DOPS. E o DOPS em seguida a gente saiu. Alguns ficaram presos ainda, mas já com processo formalizado. Mas o episódio Vladimir Herzog, no meu entendimento, fez parte... É um marco na mudança de… Quer dizer, apressou, fez parte da redemocratização do Brasil.

 

P/1 - Você lembra de sinais de que essa redemocratização começava?

 

R - Sim. Isso foi em 75. Aí você teve as eleições, a reconquista de assuntos que eram proibidos de serem tratados nos jornais, passaram a ser tratados nos jornais. Porque tinha uma briga também dentro do próprio regime militar, havia grupos e esses grupos estavam em confronto. E essa força da sociedade ajudava a ser mais a favor da evolução, não da obstrução do processo, mas da evolução pra uma abertura. Houve, depois do Vladimir Herzog, teve o Manuel Fiel Filho, que daí o Geisel afastou o Milton Tavares, que era o general, na época era do comando do segundo exército aqui, houve o afastamento dele. Quer dizer, o próprio sistema tava caminhando para uma abertura contra a linha dura, vamos falar assim, o Silvio Frota.

 

P/1 - E as reuniões do partido como é que ficaram depois disso?

 

R - Não, depois disso dispersou. Aí como a gente tinha uma… Quer dizer, o nosso grupo, que era lá da universidade, na verdade ele prosseguiu com as atividades, porque a gente sempre fez isso. Também quando saímos de lá fizemos... A gente começou a montar a Oboré, a fazer jornais pros sindicatos, organizar também músicos pra promover a cultura popular, o Clube do Choro. E ao mesmo tempo trabalhando. E a Universidade, também acho que a gente já deu uma afastada do Centro Acadêmico, porque a gente já não tava, era o outro grupo que estava lá. Mas esse grupo que eu conhecia lá da Universidade também partiu pras suas atividades, voltou à normalidade.

 

P/1 - Você tomou que rumo, Galé?

 

R - Eu passei a trabalhar, a gente teve uma participação no sindicato também, depois tivemos novas eleições lá, tudo. A gente passou a ter um envolvimento maior com o sindicato dos jornalistas, que teve um papel importante, não só nesse episódio especificamente, que foi fundamental o trabalho do Audálio Dantas, principalmente. Mas foi também, o sindicato tinha um papel junto com a OBI, a OAB, ele tinha o papel de promover, de denunciar o arbítrio, a censura, tinha uma coisa institucional forte, era menos corporativo, vamos falar assim, e mais voltado pras lutas da sociedade, liberdade de imprensa principalmente, porque era a lida dos profissionais que ele representa, mas também pela redemocratização do país.

 

P/1 - Onde é que era o sindicato?

 

R - É no mesmo lugar, lá na Rego Freitas. O sindicato desde que eu vim pra São Paulo é lá, não sei nem onde é que era antes, mas ele está há muito tempo lá. Mas então passamos... Aquilo que a gente fez também... Tinha o PMDB, MDB, naquela época não era PMDB, era MDB, eram dois partidos, Arena e MDB, MDB aglutinava as forças de oposição, era uma oposição consentida, mas era uma oposição, mas era onde serviu pra sociedade se organizar, pra representação política também se organizar ali. A gente chegou a fazer o jornal do MDB. A gente sempre estava enfronhado, mas nessas coisas que estavam acontecendo, não era nada de… Por baixo do pano. A gente que fazia isso. Então nosso trabalho ficou voltado mais pra fora. Eu acho que a universidade... Mas também porque alguns já estavam no último ano. No trabalho também você vai se envolvendo mais.

 

P/1 - Você tava trabalhando onde?

 

R - Na Agência Folhas.

 

P/1 - E depois da Agência Folhas? Como é que foi a tua trajetória?

 

R - Depois da Agência Folhas, eu fui pra redação da Folha, o Folhão, a gente chamava o Folhão. E do Folhão, aí eu fiquei um tempo na Oboré, só na Oboré, uns dois anos, aí depois da Oboré eu fui pra Placar, lá na editora Abril, e da Placar eu passei pra televisão. No início dos anos oitenta, eu fui pra TV Globo, ser editor. Fiquei lá até 85, depois fui pra Record, fiquei dois anos lá, voltei pra Globo, e desde então fiquei passando pelas televisões, fui pra Bandeirantes, pra Record, cheguei a trabalhar na OM [Rede OM (Organizações Martinez)], entrava aqui pela Gazeta. Depois eu trabalhei em produtora pra fazer programas. Depois fui trabalhar na Manchete, voltei ainda pra Globo uma outra vez, depois fui pra Manchete, da Manchete eu fui pra uma produtora pra fazer alguns programas pra televisão, daí fui pra Cultura, e esses últimos três anos estou na Cultura.

 

P/1 - Nesse meio tempo teve a abertura real, a democratização...

 

R - Então no processo aí, o que é que nós tivemos, nos anos setenta, então cada vez avançando, a sociedade se organizando, vieram as Diretas Já, teve a eleição do Tancredo.

 

P/1 - Você participando disso como? Como profissional?

 

R - Não, porque eu estava ainda lidando com esporte, mas é claro que numa redação você conversa muito, nossa matéria-prima é a conversa. É conversa, é informação, então sempre lidando com esses assuntos. Eu lembro que tinha as eleições, nas eleições também era um processo rico de discussão. Nós tivemos eleição em 76, foi em 76 pra vereadores. Não é isso? É. 76. A gente também participava da eleição, lutava, tinha campanha pelo voto nulo, porque a eleição era uma farsa. Mas a gente achava que a participação força a abertura, abre as portas pra discussão, você de alguma maneira interfere no processo, então essa coisa a gente sempre teve muito claro que negar o que tava acontecendo e se afastar era dar espaço para outras forças ocuparem, o atraso, quem não tava afim de que a coisa evoluísse. Sempre participamos desse processo com essa visão de que as portas têm que ser abertas. As eleições eram esse processo rico, 76, 78 também teve eleição para... 78 teve eleição pra deputados.

 

P/1 - Você lembra desses teus votos? Representava uma coisa...

 

R - Lembro, lembro, representava, sim. Sim, me lembro de muitos votos. Recentemente, o Resque, Antonio Resque, foi deputado estadual. O Goldman nessa época também, ele tinha… No final dos anos setenta o Goldman tinha...  O Estadão fazia um ranking de deputados que mais se destacavam pelo trabalho e o Goldman várias vezes entrou nesse, como os deputados que mais se destacaram. Aí em 82 tivemos a eleição, a primeira eleição pro governo do Estado. O Montoro se elegeu aqui, o Brizola no Rio de Janeiro. Enfim, quer dizer, tudo isso é resultado do processo e que tem a ver com a participação das pessoas, a pressão da sociedade. E que lá atrás teve a morte do Vladimir Herzog serviu pra organizar a sociedade contra o arbítrio, contra... Quer dizer, a gente não pode entender essas coisas como um momento só, não é um momento só, é um processo.

E hoje vemos uma democracia, mas o Brasil é muito frágil ainda, temos vinte anos de prática democrática. E cada vez melhora. Tudo que acontece hoje de ruim, tudo que se... Mas faz parte do processo. Eu acho que a participação, a discussão, a discussão desarmada, porque às vezes eu acho que hoje tem muita pré-disposição, as pessoas se fecham num dogma, numa visão estanque da realidade que não é e por conta disso não discutem, não abrem, não promovem a abertura de visão pra ter uma visão maior. As pessoas temos problemas sérios aqui hoje no Brasil, mas não é porque A ou B, não é por causa disso, por causa daquilo, são conjunturais, são culturais, tem a ver com as Capitanias Hereditárias, lá de trás. Então, o que eu acho que isso aí foi muito ruim, esses anos todos de regime militar, de ditadura, impediram, quer dizer, atrasaram o processo de clareza, de desenvolvimento da sociedade como elemento ativo da vida. Então acho que o grande desserviço desse Golpe de 64 foi esse, foi de ter atrasado o país, a sociedade na busca do seu destino, de uma felicidade geral, num país de injustiça social. Tudo isso tem a ver com aquilo que aconteceu lá atrás.

 

P/1 - Depois dessa ponte aí do passado pro presente, pra gente já ir finalizando, eu queria te perguntar de futuro. Depois dessa sua trajetória, Galé, fica algum sonho pra você?

 

R - O sonho... Você tem muita coisa pra ser resolvida. A gente vive num país em que a justiça social tem que galgar muitos passos à frente. Então sonhos, tenho sonhos sim, de que a vida melhore, quer dizer, de que mais gente tenha acesso à felicidade, mais gente não tenha que ficar preocupada com coisas que atrapalham a vida, que atrapalham o desenvolvimento, que todos tenham acesso à escola, que todos tenham acesso à diversão. Enfim, a felicidade na sua plenitude. Uma qualidade de vida melhor.

 

P/1 - E de fazer alguma coisa você tem um sonho assim? Você.

 

R - Eu procuro fazer isso no meu trabalho. Eu acho que a prática jornalística, que é o meu métier... Eu sempre procuro voltar pra que aquilo que eu boto no ar, no caso da televisão, seja útil pra quem vê, seja útil pra despertar consciência, ou espírito de solidariedade, ou a consciência crítica, ou a participação. Enfim, eu sempre tenho essa preocupação de não colocar no ar uma coisa inconsequente. Isso aí... Me dá uma satisfação quando eu consigo fazer isso. Meu sonho é que isso continue, e vai continuar, porque tem gente nova entrando no mercado profissional que também tem essa preocupação. E esse pessoal que tá entrando que também não tenha essa pré-disposição, porque, às vezes, a pré-disposição castra o espírito crítico, a pessoa já está pré-determinada para aquela coisa e ela não consegue abrir a cabeça pra riqueza que é ali, não é A ou B, não é o bem e o mal, seria simples, nós vamos acabar com o mal e ficar só o bem, não existe isso. Existem conjunturas ali, e pra serem vistas a pessoa tem que se desarmar, pra analisar aquilo com frieza. Acho que muitos dos problemas que nós temos hoje têm a ver com essa coisa que é muito da América Latina, na verdade, o Brasil também, mas não é só aqui, é uma coisa de espírito armado, quer dizer, eu acho que tem que ser assim e não abro mão de que seja assim, então não há um diálogo consequente, há disputa só, e acaba sendo uma disputa só pelo poder. Então não tem uma… Quando na Europa você já vê a comunidade européia se juntando, unificando a moeda, tentando arrumar a economia de uma maneira, integrando todo mundo, aqui você tem uma dificuldade até dentro do país, cada um tem uma visão, cada quer puxar para um lado, puxar pro outro. Não tem aquela visão do caminho paralelo junto, mas num mesmo sentido. Então no meu trabalho eu procuro fazer isso.

 

P/1 - Eu tenho já uma última pergunta, a pergunta pra gente fechar é assim: o que você achou de ter contado um pouco da sua história?

 

R - Olha, eu achei interessante, porque contar história ajuda a gente também a relembrar, e a ver, a analisar, pegar algumas referências que a gente deixou lá atrás, você resgatar isso é bom, você tem mais elementos pra viver o presente. Achei ótimo, espero que de alguma maneira seja útil pra alguém.

 

P/1 - Com certeza. Obrigada, Galé, pela entrevista.

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