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História

"Foi uma sequência de sucessos"

História de: Sérgio Alvino Picazio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/04/2020

Sinopse

Vida e profissão do pai. São Paulo na década de 40. Festas italianas. Trabalho na Votorantim. Técnico de Contabilidade. Departamento Pessoal. Empresas do Grupo Votorantim. A imagem e participação dos acionistas. Aposentadoria. Casamento e família.

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História completa

P/1 - Claudia Leonor

P/2 - Soraya Moura

R - Sérgio Alvino Picazio



P/1 - Senhor Sérgio, vou pedir para o senhor dizer o seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R – Sou Sérgio Alvino Picazio, nasci em São Paulo no dia 16 de setembro em 1933.

 

P/1 – Senhor Sérgio, o nome dos seus pais?

 

R – É Luiz Picazio e Bernardina Longobardi Picazio.

 

P/1 – E qual a origem deles?

 

R – Meu pai [era] italiano e minha mãe era brasileira, filha de italianos.

 

P/1 – O senhor sabe quando seu pai veio para cá, como é que foi?

 

R – A única coisa que eu sei é que meu pai veio para cá com 3 anos de idade, juntamente com os pais, e ficaram sozinhos aqui no Brasil, aqui em São Paulo. Onde permaneceu até a morte, né?

 

P/1 – E ele trabalhava com o quê?

 

R – Era alfaiate. Trabalhava para a antiga casa Mappin, no tempo em que não existia industrialização de roupas e sim os alfaiates, que faziam manualmente sem maquinarias. Então ele trabalhava para lá.

 

P/1 – O senhor chegou a visitar seu pai lá no Mappin, na casa Mappin?

 

R – Visitar... Ele trabalhava também em casa, tinha que entregar as roupas no Mappin. E eu também ia fazer entrega, ali na Praça Ramos. Ele não trabalhava internamente no Mappin, mas o serviço era dado e eles faziam como um tipo de terceirização hoje, né?

 

P/1 – E quantos anos o senhor tinha quando começou a fazer isso?

 

R – Talvez uns 12 anos.

 

P/1 – Já andava sozinho por São Paulo?

 

R – Já.

 

P/1 – Descreve pra gente como era a cidade nessa época.

 

R – São Paulo, nessa época, existia o tempo do bonde, né? Eu nasci no bairro da Bela Vista e ali da Bela Vista até o Centro da cidade... Quer dizer, quando íamos para a cidade, é como se fosse uma coisa nova, algum passeio fora do normal. Ao ponto de [que] quando se chegava em casa, e quando voltava, a pergunta sempre era: “Como é que está a cidade?” Então tomava-se o bonde, descia-se na rua Formosa, embaixo do Viaduto do Chá - o bonde passava por lá e ia até a Praça do Correio. Na Praça do Correio, tinha um chafariz, antes era [um] tipo de um chafariz, mas era daquele tempo que antecede... Existiam os cavalos, porque tinha o Viaduto Antártica, que ainda era tudo terra, existiam os cavalos e bebiam água. E tinha também, no centro, aquela estátua que está hoje ao lado do Teatro Municipal do Carlos Gomes, tinha no centro da praça a estátua do Carlos Gomes. E os bondes, tanto da Bela Vista, Jardim América até Jardim Paulistano, faziam o contorno, ali era o ponto final. Eles faziam o contorno ali, voltavam pela rua Formosa e subiam depois pela rua Augusta, iam direto até o Jardim Paulista, Jardim Paulistano.

 

P/1 – Para outros bairros.

 

[Pausa]

 

P/1 – Bom, senhor Sérgio, o senhor estava descrevendo São Paulo, estava falando do centro, dos bondes. E do bairro da Bela Vista, que recordação o senhor tem?

 

R – O bairro da Bela Vista era um bairro tradicional de famílias, principalmente, de italianas, que a rigor, existia toda uma afinidade entre as pessoas, os conhecimentos também de um e de outro. E como não podia deixar de ser, também aquele caso em que as famílias se contrapunham, existia também alguma rivalidade entre famílias, né, aquelas mulheres que não tinham muito, que nasceram só para cuidar dos filhos, então, se preocupando mais com a vida dos vizinhos, isso era normal. E a tradicional também, isso era à noite - como eram casas, poucos apartamentos existiam. Então à noite, ou as pessoas ficavam nas janelas ou então alguns colocavam as cadeiras nas portas das casas e ficavam sentados conversando com os vizinhos, isso e aquilo, né? Isso aí era o bairro da Bela Vista, embora não só de italianos, existiam outras raças também, mas os predominantes eram italianos. Tanto é que até hoje a Bela Vista é conhecida como o bairro, principalmente, das cantinas, um bairro tradicional italiano. Depois, com o tempo, várias famílias foram se desfazendo, outras mudando, e combinou depois, vamos dizer, para a derrubada da Bela Vista - hoje estão tentando restaurar vários centros. Quando a Prefeitura desapropriou uma série enorme de casas, inclusive, a casa do meu sogro também foi cortada para passar o elevado que vai lá para a Consolação, vai lá para o Costa e Silva. Então, ali foram desapropriadas muitas casas e as famílias acabaram se mudando, poucas são as famílias que ainda residem lá, quase nada. E o bairro se tornou muito deteriorado, a única valorização histórica que tem seriam algumas construções que ainda existem naquele centro que é a rua Barbosa, Rua Treze de Maio - que é o centro dos restaurantes, cantinas, a Igreja Nossa Senhora da Achiropita... É uma igreja que promove muito a parte social, [e] isso aí ainda se mantém, mas o resto ficou muito deteriorado, não alterou nada. Existem casas muito antigas que estão até ocupadas por marginais.

 

P/1 – Quando o senhor era criança, já existiam festas italianas, como é que era?

 

R – Naquele tempo não existia muito. Houve uma época que no carnaval, o ponto de encontro das escolas de samba era no quarteirão seguinte ao da minha casa, por onde saíam todas as escolas de samba... Não lembro, talvez isso foi em 1940, por aí. Agora, o que existia de tradicional, que não era no bairro, mas próximo, porque ali da Bela Vista para a Paulista - para a Avenida Brigadeiro são quarteirões só -, então existia o que se chamava o Corso, no qual se desfilavam com fantasias, carros... Então todas as pessoas colocavam fantasias e sobre o carro enfeitado com serpentina e confetes, faziam todo um percurso exibindo fantasias. Claro que não era essas fantasias de hoje, que é uma pena. (risos) Mas o que existia de tradicional era isso, né, no carnaval. Na época de Páscoa, a famosa procissão da igreja Nossa Senhora da Achiropita. Esse caso que vocês veem hoje da festa da Nossa Senhora da Achiropita em agosto, veio um tempo depois a ser comemorado em todo o mês de agosto, praticamente, para as obras assistenciais. Eles fazem uma quermesse, tipo aquela que existe no Brás.

 

P/1 – São Genaro, né?

 

R – São Genaro, tipo daquela. Então todos os anos eles fazem aquela festa. Agora, no bairro, existe ainda o Museu da Bela Vista, que foi um morador muito antigo lá, o Armandinho, que reuniu muitas peças, muitas obras e construiu um Museu ali, modesto, né?

 

P/1 – O senhor conheceu o Armandinho?

 

R – Não como amizade, mas de relacionamento, de conversa, sim, conheci.

 

P/1 – Senhor Sérgio, o senhor tinha irmãos, como era essa convivência?

 

R – Meus irmãos... A verdade é o seguinte: naquela época, eu completava 14 anos, o meu primeiro emprego, por exemplo, o meu pai chegou: “Já conversei com o fulano de tal, logo no início de janeiro você vai começar a trabalhar lá”. Então eu tinha pouca escolha. (risos) Mas era uma coisa normal, porque independente disso, éramos quatro homens e uma mulher só. Mas nem sempre por sermos homens deixávamos de compartilhar dos afazeres de casa. Naquele tempo, a nossa casa era uma casa grande, tinha 54 metros de comprimento, várias salas, quartos, então todos nós ajudávamos também. Naquele tempo, usava-se encerar a casa com o escovão, o famoso escovão. (risos)

 

P/1 – E o senhor tinha que ajudar?

 

R – Sim.

 

P/1 – Todo mundo?

 

R – Todo mundo ajudava.

 

P/1 – E quando tinha o revezamento de tarefas, como era?

 

R – Depende. Existiu época... Existiu um fato curioso: todos nós nascemos em casa e por uma coincidência a parteira da minha mãe foi uma só dos cinco filhos. Ela foi madrinha do meu primeiro irmão homem, porque a mulher é mais velha, então depois ela já estava com uma certa idade. Então parece que foram crescendo assim, à medida que um estava trabalhando, o outro ainda não tinha idade para trabalhar. Todos os dias ia na casa dela para fazer compras, ia na mercearia, na quitanda - naquele tempo não existia supermercado. E houve uma sucessão: à medida que um saía, outro entrava no posto (risos), além de ajudar em casa também. Aí, depois que estava no campo de trabalho, a vida mudava um pouco. Era o tempo que quando você começava a trabalhar com 14 anos, o que você recebia era do pai. Você tinha o dinheiro da condução; não existia, como hoje, barzinhos, divertimentos, isso e aquilo, um cinema, uma coisa e era só. O resto era para complementar o orçamento da casa.

 

P/1 – Senhor Sérgio, o senhor frequentava [a] escola?

 

R – Sim, frequentei o antigo Grupo Escolar, ali na Rua Major Diogo e de lá cursei a Escola de Comércio, já trabalhando. Depois, aí eu já comecei a trabalhar, então eu sustentava a escola, ajudava em casa com aquilo que recebia, e com 19 anos me formei já contador. Mas, nesse tempo, eu já estava na Votorantim.

 

P/1 – Já começava o trabalho.

 

R – Já.

 

P/1 – Mas com 14 anos, que trabalho o pai do senhor arrumou?

 

R – Trabalhava numa companhia de seguros, Companhia de Seguros Ipiranga, na rua XV de Novembro. Lá eu entrei como auxiliar de escritório. Lembro que o ordenado era um ordenado de praxe, e lá fazia serviços diversos de escritório, mas eu sempre tive por hábito não ficar só naquilo que me era determinado. Eu ia sempre, se tivesse hora vaga, procurar outras coisas para que eu aprendesse também. Então foi isso aí, foi uma passagem muito rápida pela companhia de seguros. E ali, a própria pessoa da companhia de seguros, falou que tinha um amigo que trabalhava na Votorantim, que era uma empresa grande, isso e aquilo. E aí eu fiquei sabendo que a Votorantim era depois das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, estava em segundo plano. Bom, essa decisão eu tomei por minha conta, não falei nada para o meu pai. Fui lá, preenchi ficha e depois de uma semana, eu obtive resposta, me chamaram. Aí me ofereceram, eu era auxiliar de escritório, aí me ofereceram um cargo de “office boy”, porém, o salário era 50% a mais. (risos) Eu não hesitei, né, aí fui trabalhar na Votorantim. O “office boy” tinha que usar jaleco e eu comecei a usar.

 

P/1 – Que cor era?

 

R – Tipo esses do Correio, era um bege meio amarelado, mais ou menos assim. No setor que eu entrei na Votorantim, eu era como “office boy” do Departamento Pessoal. Acontece que era na rua XV de Novembro - esse prédio existe ainda, era (pegado?), não era o Banco do Estado de São Paulo, era o Banco de São Paulo, fica no final da rua XV de Novembro, quase na esquina da Praça Antônio Prado. Bom, quando eu entrei eu era office boy do Departamento Pessoal. Aquilo era um salão não muito grande, mas que reunia várias outras seções: seção de cobrança, seção de importação e exportação e a seção de contabilidade, onde se fazia antigas máquinas Nacional, tipo antigo, é claro, que se fazia a escrita da empresa. Agora, a curiosidade desse andar, que era no quinto, é que no final do corredor, não na entrada, uma porta de vidro aqui e ao lado direito tinha um local fechado com vidros escuros, no qual ficava o escritório do avô do Doutor José, o Comendador Antônio Pereira Ignácio. Ele já estava com bastante idade, mas ele frequentava diariamente o escritório e ali ele ia muitas vezes à tarde. Ele tirava o seu cochilo, ficava descansando, dormia, mas ele não estava em atividade, à frente da empresa, né? E existia no fundo do corredor, onde era a toalete. Obrigatoriamente, ele tinha que passar por entre os funcionários que estavam no canto de lá, então quando passava... Ele já estava com bastante idade, ele gostava de brincar, mas implicava muito com... Se passava, a primeira coisa que ele fazia, ele olhava assim se havia lâmpadas acesas. Ele batia nas costas da pessoa e perguntava: “Ó, menino, essa luz é preciso?”, “Precisa, Comendador, senão não dá”, “Deixa-me ver, apague”. (risos)

 

P/1 – Senhor Sérgio, como o Comendador era fisicamente? Descreve para gente.

 

R – Ele já estava com bastante idade, mas ele tinha o espírito bom, mesmo com os funcionários assim, ele era uma pessoa que gostava muito de ficar ali. Ele tinha um secretário e tinha ordens médicas para ele não sair, então ele ia ali na rua do Comércio encontrar com os amigos dele, os amigos dele sabiam que era um dos donos da Votorantim, então ele ficava lá com os amigos tomando alguma coisa, isso e aquilo. Às vezes, mesmo contra ordem, ele dava um jeito de fugir e ia para lá. Aí depois ele teve um derrame e foi indo até que a vida dele chegou no final. Mas ainda voltando no campo do Departamento Pessoal, das seções que faziam parte do andar, a rigor eu era “office boy” do Departamento Pessoal, mas eu atendia a todos os demais setores também, seção de exportação, seção de cobrança - naquele tempo, as cobranças eram feitas por duplicatas que os clientes vinham fazer o pagamento. Eu trabalhava no quinto andar e a tesouraria era no primeiro andar, então eram constante clientes que quando vinham pagar as faturas, as duplicatas, telefonarem lá para a seção de cobrança. Então tinha que levar a duplicata que estava em carteira lá para o primeiro andar, não podia usar o elevador, então chegava, levava a duplicata. Muitas vezes nem bem chegava, estava lá em cima e já tinha outro também para cobrar, era um sobe e desce daqueles, né? Mas até aí tudo bem. No Departamento Pessoal, eu fiquei como “office boy” [por] 2 meses. O dia 4 sempre foi... Não sei porque tudo acontece dia 4. Eu entrei na Votorantim dia 4; dia 4 de fevereiro, eu saí como “office boy” e passei como auxiliar de escritório; depois de casado, também no dia 4 de setembro, eu casei no civil; dia 4 de janeiro nasceu minha filha; dia 4 de maio nasceu meu filho. É tudo dia 4! Eu estava nos setores que eu fazia no Departamento Pessoal, eu tinha lá as minhas atribuições de arquivo, fazia arquivo, preencher blocos de papel carbono. Mas como eu já falei anteriormente, eu não ficava preso só naquilo, eu não queria ficar parado sem fazer nada e a minha vontade era sempre de aprender, então encostava em um, em outro... Dentro do Departamento Pessoal tinha seção de correspondência, isso e aquilo, eu não tinha feito curso de datilografia, mas eu aprendi lá mesmo, fiz curso de datilografia, e aos poucos eu fui indo. Eu sei que talvez em 2 anos e meio eu estava como subchefe do Departamento Pessoal, eu acho que eu tinha os meus 17 anos, por aí. E, no Departamento Pessoal, eu fiquei durante 15 anos entre “office boy”, as outras funções e a subchefia do Departamento Pessoal.

 

P/1 – Isso foi em que época mais ou menos, senhor Sérgio?

 

R – Acho que foi em 1955.

 

P/1 – E o que a Votorantim tinha como seus principais produtos para produção?

 

R – Isso aí é uma boa pergunta. A Votorantim tinha como produção principal, na época, o cimento, né? Isso aí é indiscutível. Talvez vocês não saibam, mas existia a fábrica de sabão, fábrica de óleo, tinha sabão Peri, óleo Primus, que era em Sorocaba, e tinha fábrica de óleo Lucinda - Lucinda porque a esposa do Comendador chamava Lucinda Pereira Ignácio. Mas quando entrei, eram umas fábricas, vamos dizer, “démodé” [fora de moda], né, estava um pouco fora de... Mas o Doutor Moraes, o pai do Doutor José, tinha alguma coisa muito grande ainda por aquelas fábricas e essas fábricas faziam então sabão, óleo vegetal e até teve uma época que se fazia propaganda pela Rádio Tupi. Eu não lembro se era Tupi ou Difusora, que era patrocinado desses produtos, e tinha como audição do Francisco Alves. (risos) Posteriormente, tinha a fábrica de papel. Isso sem contar de outras empresas também, que pertenciam ao Grupo. A CBA estava em evolução, injetando dinheiro ali para a Companhia Brasileira de Alumínio, porque na Votorantim o que havia era uma divisão de setores da área do Doutor José. Era o setor, basicamente, de cimento, papel, tecidos; tinha fábrica de tecidos também, tudo centrado lá em Sorocaba. Posteriormente, a fábrica de óleo e a de sabão foram extintas e restou a fábrica de tecidos lá em Sorocaba, que naquele tempo, a Votorantim não era um Município, era um subdistrito lá de Sorocaba. Aí ficou a fábrica de tecidos, papel e cimentos, que era o principal - isso centrado na área de Sorocaba, porque existia no Norte e no Nordeste fábrica de cimento também, como no Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná. Existiam fábricas e perduraram por muito tempo.

 

P/1 – E por que tinha muita fábrica concentrada em Sorocaba?

 

R – Porque o nascedouro foi lá, tudo fluiu de lá.

 

P/1 – O senhor sabe contar esse começo, alguma coisa que o senhor teve notícia?

 

R – Bom, pela notícia que eu tenho, tem lá no escritório uma ata de 1918, [de] quando o Comendador, eles compraram do antigo Banco União, fizeram uma negociação, é uma questão muito extensa essa aí. Fizeram uma negociação e ficaram com toda a área que pertencia ao Banco União e que envolvia, principalmente, a produção do cimento. Então, vamos dizer, foram áreas enormes com regiões calcárias que propiciavam no local a implantação do produto cimento, que dependia muito do calcário. Então ali que foi centrado o ponto inicial da fabricação do cimento, né, por isso que você entrou lá e de lá, depois, aos poucos, começou a subdivisão de outras áreas, de outros locais, onde foram implantadas as fábricas, tanto no Norte como aqui no Sul também. E hoje a área toda do Rio de Janeiro, chegou também. O nascedouro foi todo em Sorocaba, a história toda partiu de lá e o resto foi tudo uma subdivisão, um crescimento natural de divisão administrativa da expansão da empresa. Foi assim que começou e foi se expandindo.

 

P/1 – E quando o senhor saiu da companhia de seguros e foi para a Votorantim, comunicou a família?

 

R – Sim.

 

P/1 – O que eles acharam? O senhor tomou essa decisão aos 14 anos sozinho, eles deram força?

 

R – Eles acharam que a decisão tinha sido correta. Ficaram meio surpresos, mesmo assim, como a pessoa que tinha arrumado a colocação para mim era um amigo muito íntimo do meu pai... Mas eu saí na maior. Nesses 9 meses, inclusive, tinha muitas amizades lá dentro, gostavam muito de mim, mas sempre eu parti de um pressuposto de ter a consciência tranquila, fazer um papel correto, no sentido de ser injusto ou então agir de uma maneira que fosse a menos digna possível. Agi com honestidade, com dignidade, fui claro: “Arrumei outro emprego”. Mas dei o prazo: arrumei outro emprego, então a partir de tal data eu fiz a carta e me desliguei da empresa. Sem maiores problemas.

 

P/1 – O senhor falou que ficou até 15 anos no Departamento Pessoal, como é que surgiu nesse meio tempo o curso de contabilidade?

 

R – O curso de contabilidade foi natural: depois que eu terminei o curso primário, eu automaticamente fiz o meu curso. Naquele tempo, era curso de admissão, e entrei para a escola técnica. Então fiz o meu curso de contabilidade, eram 3 anos básicos e 2 técnicos, foi o curso que eu fiz. Mas como eu trabalhava no Departamento Pessoal - me formei com 19 anos -, eu nem fiz o meu registro no CRC. Eu disse: “Bom, Departamento Pessoal, eu não preciso do registro. Para que é que eu vou...” Eu acho que só fiz o registro depois de 10 anos, tanto é que o meu número no CRC é 61967, mas se eu tivesse feito na época em que me formei, talvez fosse uns 25 mil e pouco, por aí. (risos) No Departamento Pessoal, eu fiz muitos cursos no Idort. Eu fiz muitos cursos de relações humanas, em vários locais. Tudo que era curso que aparecia eu fazia, Relações Humanas do trabalho. Enfim, tudo relacionado com a parte de técnica e relacionamento com Pessoal, isso e aquilo, e mesmo em relação aos métodos. Até hoje eu acho os certificados de cursos que eu fiz voltados para área do Pessoal, né? Hoje eles falam Relações Humanas. Naquele tempo não era Relações Humanas, mas indiretamente era. Eu tinha Relações Humanas do trabalho, isso aí existia.

 

P/2– Esses cursos eram oferecidos pela empresa ou o senhor fazia à noite ou em outro período?

 

R – Não, muitos eram gratuitos, oferecidos pelo Idort. E, por coincidência também, teve uma época que foi um outro senhor alemão que fazia parte do Idort, então ele ficou também como se fosse um superior do chefe do Departamento Pessoal. Ele tinha vários cursos, era do Idort também. Então eu também tive a oportunidade de trabalhar com ele. Mas não foi só no Idort, existiam outros Sindicatos também, tanto como contabilista como outros Sindicatos que ofereciam cursos. Então eu fazia porque eu sempre me interessei assim por não ficar parado, estático. “Aprendeu aquilo, já sabe tudo”, não. Até hoje eu acho que eu não aprendi nada, todos os dias a gente está aprendendo alguma coisa, apesar que sabe tudo. Eu sempre tive receio da pessoa que diz que sabe tudo - pode contar que essa não sabe quase nada, porque, na verdade, por mais que saiba, a pessoa sempre está aprendendo alguma coisa e eu sei que não só eu como a maior parte das pessoas morrem e não aprendem quase nada. O pouco que aprende é o suficiente só para ter um conhecimento, e eu não me considero nada em termos de dizer que eu sei. Tudo muito ao contrário, sempre detestei pessoas que chegam para mim, não no mal sentido: “Não, porque você sabe, entende disso, é pleno conhecedor disso ou daquilo”, “Olha, eu não sou nada disso, estou sempre aprendendo. Conheço um pouco, o resto eu estou sempre aprendendo. Todo dia estou aprendendo alguma coisa”. Foi uma conduta que eu tive até hoje.

 

P/1 – Senhor Sérgio, depois de 15 anos ainda no Departamento Pessoal, que funções o senhor assumiu dentro da Votorantim?

 

R – Bom, aí um diretor achou que eu estava perdendo meu tempo lá como subchefe do Departamento Pessoal, como de fato estava mesmo, né, aí me vincularam na contabilidade. Foi aí que eu comecei então, aí eu comecei na contabilidade e depois de um período já não muito longo, eu passei já como auxiliar diretor do contador, praticamente como subcontador. Eu e mais outro colega passamos, só que o meu colega só tinha uma função e eu sem querer criei a minha, que era a contabilidade vinculada. Eles não tinham isso, não existia, a parte legal da contabilidade, de orientação legal das fábricas e dos vários departamentos, porque existiam as fábricas e vários departamentos. Só voltando um pouquinho, não existia no Paraná, Cambará, que era beneficiamento de algodão, que alimentava com o fio de algodão a fábrica de tecidos; existiam departamentos de hidroelétricas que eram usinas geradoras de energia para as próprias fábricas, não do volume de hoje, mas, na época, era uma coisa substancial, e vários depósitos de venda. O que acontece? Eu percebi que não havia uma orientação jurídica sob as leis que eles eram obrigados a ter conhecimento e que muitas vezes não se cumpriam porque eles não tinham. Eu não era advogado, mas dentro do meu serviço eu comecei, então eu não sei se é um dom, eu não sei. Aí comecei a me interessar e assinar revistas, jornais, isso e aquilo, fui me formando um autodidata nesta parte. A partir daí eu comecei a dar todas as orientações, fazia circulares quando tinha coisa nova para as fábricas, depósitos, departamento, isso e aquilo, dando orientação jurídica sem ser advogado. E aí eu me especializei na parte de imposto de renda, balanço, tudo isso aí, até que chegou a época em que o contador se afastou. Aquele meu outro colega já havia saído, outro colega ao meu lado. E por determinação do Doutor José, eu assumi a contabilidade, isso foi em 1986. Assumi a gerência de contabilidade, e durante esse percurso, o meu relacionamento foi mais com o Doutor José, porque a Votorantim, na verdade, foi uma divisão de áreas no qual o Doutor José tinha sob o seu controle a área de tecidos, papel, cimento; e o Doutor Antônio, já na parte de metalurgia, que é a Companhia Brasileira de Alumínio, Metalúrgica Atlas e outras empresas que hoje compõem todo esse complexo, né?

 

P/1 – Vou fazer uma pergunta para o senhor que pode parecer boba, mas o que quer dizer Votorantim?

 

R – Votorantim?

 

P/1 – É, o senhor sabe?

 

R – É uma palavra indígena, não sei... Eu estou confundindo agora Itaú, que é pedra negra. Eu sei que é uma palavra indígena, mas francamente, no momento, não me ocorre.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Mas é uma palavra indígena.

 

P/1 – Enfim, quando o senhor assumiu a contabilidade toda, que momento que estava vivendo a empresa?

 

R – Houve momentos difíceis. Eu assumi, justamente, quando eu fui para contador ou quando eu fui para contabilidade, porque houve dois momentos.

 

P/1 – Se puder resgatar os dois.

 

R – O primeiro momento é quando eu fui para a contabilidade. A Votorantim estava passando, como outras empresas também, que existia um faturamento muito bom, então existiam muitas duplicatas, mas dinheiro estava um pouco difícil, né? Mas, naquela época, se faziam operações com empresas, não de capitalização, que ainda não eram Bancos como o Banco Safra, então nós descontávamos duplicatas, Companhias de Investimentos. Nós descontávamos duplicatas e as duplicatas que estavam em carteira, para fazer caixa. E mediante isso, entregávamos as duplicatas e o reembolso, uma parte em dinheiro. Agora, aí foi um período não muito curto. Outro período também que foi um pouco difícil foi quando a Votorantim estava na rua XV de Novembro e depois ela comprou aquele prédio ali na Luís Parajós, na Avenida da Luz, depois do viaduto que tinha sido construído pela Companhia Antártica Paulista. Comprou aquele prédio, ficamos lá um bom tempo. Depois disso, a Votorantim saiu de lá e comprou o antigo Hotel Esplanada, onde hoje está o Doutor Antônio com as empresas dele.

 

P/1 – Que é ali atrás...

 

R – Do Teatro Municipal. Ali foi tudo reformado, ficou a fachada e o resto do prédio tombado e internamente foi todo reformado. Um prédio de uma solidez incrível, e bonito também. Voltando àquele caso que você perguntou sobre as dificuldades, a maior talvez foi no tempo em que o Doutor José Ermirio de Moraes foi Senador por Pernambuco e depois houve aquele ataque violento do Marechal Castelo Branco, o AI-5; que foi imputado a ele, que foi apoiado também pelo Governador de Pernambuco, foi imputado a ele qualquer vinculação comunista, como se isso fosse possível. Em vista disso, nós tivemos de uma hora para outra, fomos praticamente invadidos pela Força Aérea, que fez o movimento do AI-5 pela Força Aérea da Aeronáutica, ali invadiram. Eu não era o contador ainda, mas levaram o contador para o Dops. Mas essa fase passou do Dops. Antes disso, houve uma fiscalização interna, uma verificação interna na Votorantim que perdurou durante um ano, três fiscais durante um ano lá dentro da Votorantim, e me coube uma parte também para ficar assessorando.

 

P/2 – Esses fiscais seriam...

 

R – Receita Federal. Essa foi uma fase difícil, mas depois acabou, saiu tudo bem, não teve maiores problemas.

 

P/2 – E a empresa era aberta, senhor Sérgio, era comentado pelos funcionários?

 

R – A empresa nunca foi fechada.

 

P/2 – Era transparente? Tudo era discutido entre os funcionários mesmo, eles recebiam essas informações do que estava acontecendo?

 

R – A senhora sabe, as notícias correm, né? O assunto era estritamente entre os acionistas, o Doutor Moraes, os filhos, nós da contabilidade. O resto, o assunto dessa natureza corre, isso é inevitável. E foi uma coincidência muito grande que um dos fiscais que fez parte dessa verificação acabou sendo o meu professor de contabilidade. Quando eu fui fazer direito, eu já conhecia a contabilidade de trás para frente. (risos) Mas em termos de dificuldade, eu posso dizer que a Votorantim, é lógico, sofreu alguns períodos, eu vou até dizer pequenos em vista de outras empresas, muito pequenos, porque ela foi desenvolvida, teve uma constituição familiar assim muito bem formada. O Doutor Moraes com os filhos, que é o falecido Doutor José, Doutor Antônio, Doutor Clóvis, que já faleceu também, que era marido da filha dele, e o Doutor Ermírio, que é o irmão mais novo. E o que eu admiro muito nessa família é justamente que normalmente de gerações em gerações as coisas vão superando muito, mas eles conseguiram isso que eu acho um grande mérito: imprimir no seio de todos filhos e filhas esse espírito de trabalho e continuidade daquilo que eles implantaram. Tão bem formados, eles estão todos lá na Votorantim, cada um ocupando o seu cargo. É lógico, no dia de hoje a concepção de empresa está muito mudada, então não existe só aquela concepção, vamos dizer, de uma estrutura unívoca. Existem vários setores e são comandados ou diretamente por um acionista, ou pelo filho do acionista, mas com aquele mesmo pulso firme. E outra coisa que é também interessante: não se atém só nas épocas passadas, o que era o passado. Não, a modernização veio caminhando junto e eu sempre gostei disso também, porque eu acho que a pessoa só viver de passado não está conhecendo nada. Se ela não se adapta, não fica adequada àquilo que o mundo vai criando, que essa geração vai criando... Como é o caso da engenharia, que na minha opinião apesar de ser uma desorganização, eu não gostei. Tanto é que hoje não se fala mais quase nada da engenharia. Globalização, hoje, é talvez, na minha opinião, alguma coisa que parece que está indo para o caminho da globalização, mas o que importa para mim é a mentalidade dos administradores. Isso é preponderante, porque se os administradores não tiverem uma visão ampla de prever o futuro, eles se afundam. E a Votorantim através dos seus diretores, eles mantêm firmemente aquela posição de se modernizar. Tudo bem, mas uma modernização coerente com a realidade do momento.

 

P/2 – E a gente pode dizer, o senhor pode dizer que essa essência lá dos fundadores permaneceu?

 

R – Hoje sobre outras formas, diferentes, mas é o espelho do passado, porque dificilmente empresas que se destroem... Bom, até nos Estados Unidos tivemos isso também, por quê? São empresas que não souberam cultivar, não souberam ter uma visão maior do futuro, isso e aquilo, então acabaram pelas sucessões, talvez uma visão não tão grande, acabaram se autodestruindo e reduzindo a empresa a nada. E na Votorantim isso, felizmente, não aconteceu, ela continua crescendo.

 

P/1 – Senhor Sérgio, o senhor trabalhou bastante ao lado do José Ermírio, é isso?

 

R – Sim.

 

P/1 – Então, dentro dessas perspectivas, quais eram as características da personalidade dele, o que o senhor considera marcante? Descreve um pouquinho pra gente.

 

R – Marcante. Ele era uma pessoa, principalmente com os funcionários antigos, uma consideração muito grande. Quando ele tinha confiança na pessoa, ele tinha mesmo, depositava uma confiança muito grande e demonstrava isso. Era uma pessoa o qual tinha uma memória extraordinária; se você se comprometesse com ele a um determinado serviço daqui tantos dias ou daqui a um mês, você não enganava, não; ele te cobrava, lembrava muito bem. Se por um acaso, qualquer erro ou qualquer coisa assim - ele relevava tantos erros, muitas vezes ele aceitava até sugestões, também. E não só na Votorantim, mas ele fazia parte, foi presidente do Rotary Club de São Paulo, do Colégio Rio Branco, foi presidente da Associação dos Patronos do Teatro Municipal, durante muitos anos também, da Federação Paulista de Futebol. Ele diversificava.

 

P/1 – Por que ele fazia essa diversificação?

 

R – Porque ele gostava. Futebol ele gostava; o Colégio Rio Branco foi praticamente pelo pai José Ermirio de Moraes; a Associação dos Patronos do Teatro Municipal, que ele gostava muito de música também, e o colocaram como presidente durante muitos anos. E nessas funções, como eu estava vinculado a ele, ele gostava que eu o acompanhasse também quando fosse o caso, para gerenciar essa parte de relatórios gerenciais, isso e aquilo. Então, quando ele ia no Rotary, íamos apreciar os relatórios gerenciais, discutíamos, dava sugestão, ele pedia sugestão, isso foram vários anos. Os Patronos do Teatro Municipal foi a mesma coisa, que eu cheguei a ser do conselho fiscal, na Federação também, porque o Farah pediu, eu entrei também como membro do conselho fiscal da Federação Paulista de Futebol, depois saí, há pouco tempo saí. Então ele gostava dessas atividades, gostava muito de música, futebol, né? E a parte também que ele tinha no Rotary, que ele apreciava muito, que ele foi presidente de lá, chegou até a ser presidente de honra; gostava de jogar tênis, treinou muito também com a Maria Estela Bueno, a irmã dela também trabalhou lá. Agora, no trabalho, era uma pessoa que tinha uma memória extraordinária, tinha uma visão das coisas, assim, muito ampla, e como pessoa era uma pessoa humana. Agora, é claro, quando presenciei casos de qualquer deslize de funcionário, isso e aquilo, quando ele precisava ser mais enérgico, ele era, mas ele tinha toda uma forma de ser assim que não era aquela pessoa agressiva. Era uma pessoa de boa índole e humana, acima de tudo.

 

P/1 – Bom, senhor Sérgio, eu queria que o senhor falasse um pouquinho do José Ermírio, eu queria que o senhor fizesse a mesma coisa falando um pouquinho da personalidade do Antônio Ermírio.

 

R – Do Antônio eu não posso falar tão profundamente, muito superficial, porque a rigor é como eu falei para você: eu tinha uma vinculação direta com o Doutor José, porque ali as partes são divididas, né? Então, do Doutor Antônio, eu não tenho assim muita coisa para dizer, como o Doutor José, que conheço a personalidade dele. Conversamos muitas vezes, mas não posso ser mais profundo do que eu fui com o Doutor José, que foi uma pessoa com quem eu convivi por muito mais tempo. Já com o Doutor Antônio, não; conheço mais ou menos a personalidade dele. É uma pessoa, aliás, talvez isso fosse até desnecessário eu comentar, porque vocês através da mídia devem saber muito bem qual é o pensamento e a linha de conduta do Doutor Antônio: é uma pessoa voltada inteiramente para o trabalho. O Doutor José era uma pessoa que aproveitava mais do lazer, né, fazia viagens longas, conheceu o mundo todo. O Doutor Antônio é uma pessoa voltada mais inteiramente para o trabalho, tanto é que é conhecido como uma pessoa que sábado e domingo está indo em fábricas, vai na Beneficência Portuguesa, isso e aquilo. Para ele não tem descanso, é trabalho. Agora, é uma pessoa também humana, uma pessoa que dependendo da situação ele sabe ser mais impositivo, tem uma consideração também muito grande por funcionários, principalmente funcionários antigos, dos quais ele se cerca também, que o assessoram. Uma pessoa humana também, todos eles tiveram a mesma linha. É claro que cada um, dentro da sua concepção, tem um espírito diferente, mas nada de prejudicial, muito ao contrário, uma pessoa que tem um valor muito grande, uma pessoa que poderia muito bem ter sido eleito naquela época como Governador do Estado de São Paulo. Não foi porque o interior comandou mais que a própria capital, mas seria uma pessoa indicada. Ao mesmo tempo, eu até que não teria sido tão bom assim, porque na minha opinião não adianta, você pode colocar e ter um político, você pode colocar a pessoa mais honesta, a pessoa mais trabalhadora que seja, mas ela depende de todo o escalão para baixo e esse escalão é fundamental. Se ele não funcionar além do escalão, ele tem um corpo em termos de Governador do Estado, ele tem uma Assembleia Legislativa. Por melhor que seja a intenção da pessoa, ele não consegue nada, ele não consegue muita coisa. Nós tivemos um caso que não foi do Governador, mas foi um caso do Ministério da Saúde. O Adib Jatene, que na minha opinião seria um excelente Ministro da Saúde, o que aconteceu naquele caso da ICMF, que ele bateu tanto pela ICMF, ele acabou desistindo porque embora aprovada, foi totalmente desvirtuada da finalidade que ele havia proposto. Então ele como homem íntegro, por hombridade, preferiu sair do que continuar no estado em que ele não concordava.

 

P/1 – Nessa época que o Doutor Antônio se candidatou a Governador, a Votorantim se mobilizou?

 

R – Toda, total.

 

P/1 – Conta pra gente como foi um pouquinho isso, porque é um lado diferente.

 

R – Houve um movimento muito grande, né, todas as seções se mobilizaram, houve comícios, houve passeatas. Todos colaboramos, fizemos faixas, participamos de passeatas, comício na Praça Ramos de Azevedo. Realmente, houve um movimento muito grande. E se sentia, naquela época, que o Estado de São Paulo estava realmente proposto a que o Doutor Antônio se elegesse Governador do Estado, mas prevaleceu mais a votação do interior e ele acabou sendo, ele teve uma votação muito expressiva aqui na cidade de São Paulo, mas infelizmente, o interior, né? Agora uma coisa é certa: nesse particular que o Senador, o Doutor José Ermirio de Moraes, pediu aos filhos, porque ele teve uma decepção muito grande quando Senador da República, então ele pediu aos filhos que jamais entrassem pelo caminho da política. O Doutor Antônio, naquela época, talvez pressionado, resolveu, e talvez vendo uma possibilidade, porque para ele dinheiro não era problema, não era problema dinheiro ou então status, ele não precisava disso. Ele queria, realmente, como homem público, visando o bem que seria do seu Estado de São Paulo, objetivo maior seria este mesmo. Não por uma questão como eu falei de status, ele não precisava disso aí. Aliás, seria mais uma dor de cabeça para ele do que outra coisa, mas ele acabou sendo convencido e concordou em ser na sua candidatura. Teve aquela votação expressiva aqui em São Paulo, mas não sei se acabaria dando certo ou não, porque as pressões de qualquer um que está no poder, seja um Presidente da República, um Governador do Estado, um Prefeito, as pressões, as questões políticas e partidárias é muito influente e influencia demais, distorce e tira daquele que está no cargo a possibilidade de exaltar aquilo que, realmente, ele está querendo. Essa é minha visão.

 

P/1 – E hoje, o Doutor Antônio é Presidente da...

 

R – Hoje ele é Presidente do Conselho Administrativo.

 

P/1 – E da Beneficência Portuguesa?

 

R – Presidente.

 

P/1 – O senhor conhece um pouco essa atividade?

 

R – Na Beneficência? A atividade que eu sei é que o Doutor Antônio é incansável lá na Beneficência. É um homem que muitas vezes, antes de ir para o trabalho - porque 7 horas ele já está lá no escritório, e antes de ir para o trabalho, ele passa na Beneficência. Não todos os dias, mas...

 

P/1 – Antes das 7?

 

R – Antes das 7, sem contar sábado e domingo. Quando não [na] Beneficência, [nas] fábricas.

 

P/1 – E quem acompanha esse ritmo dele?  Deve ser uma coisa meio difícil.

 

R – Por incrível que pareça, ele acompanha, talvez [com] um pouco de sacrifício para a família, não sei. Esse particular, eu não posso, acredito porque uma pessoa que tem uma atividade assim tão extensa, pouco pode se dedicar por inteiro à família, talvez seja de uma forma mais restrita, mas é uma pessoa que está sempre presente no lar, foi isso na educação dos filhos, está sendo agora já faz um tempo, na continuidade do trabalho dos filhos junto à empresa. Eu diria que hoje o Doutor Antônio, na falta do Doutor José, que antes era dividido, que hoje ele concentra todo esse poder, não poder, vamos dizer, de imposição, mas um poder de visão, de transmissão para os filhos daquilo que ele é, como ele é e como se deve trabalhar, porque os filhos obedecem horário, não tem problema nenhum...

 

P/1 – Não tem regalia.

 

R – Não tem regalia, não é porque é filho. Ao contrário, talvez o filho trabalhe mais que o funcionário, é o inverso.

 

P/1 – Senhor Sérgio, o senhor falou dos momentos difíceis, que esteve trabalhando na Votorantim; e quais foram os momentos bons da empresa, que teve uma grande produção, enfim, que foram fases boas da Votorantim?

 

R – Eu diria que a Votorantim foi uma sequência de sucessos, eu não usaria muito esse termo “ruim”; eu usaria o termo um pouco mais “difícil”, não “ruim”. Agora, os tempos melhores sempre foram aqueles em que a empresa procurou de uma forma muito lógica e bem estruturada, bem fundamentada, ampliar a ramificação dos seus negócios. Isso foi uma continuidade, não foi de uma hora para outra, isso foi aos poucos, mas sempre tiveram visão daquilo que se ia fazer. O crescimento, como foi, por exemplo, o caso da Companhia Brasileira de Alumínio. Naquele tempo, a Votorantim ajudou muito a implantação da Companhia Brasileira de Alumínio. Vinha injeção de subsídios para que a empresa se formasse, então foi um período que se desviou muito da Votorantim para a implantação da CBA, que hoje talvez é a terceira empresa no campo de alumínio, de condução do alumínio. Eu sei que existe o alumínio, o problema grande hoje é justamente a exportação do alumínio, devido estar vinculado à essa exportação, à valorização do mercado externo do alumínio. Então tem o problema da competitividade, mas é uma empresa que tem um grande sucesso, sem contar se vocês virem o que tem de hidrelétricas próprias que fornecem energia para o próprio alumínio, é uma coisa de extraordinário. Como estou falando do alumínio, tem o caso, que eu deixei passar, casos da estação do calcário lá em Sorocaba, onde existem minas subterrâneas. Aquilo lá dentro é uma cidade, circulam caminhões fora de estrada. Você sabe o que é caminhão fora de estrada? Aqueles caminhões enormes que não circulam na cidade, circulam lá por dentro, mas são quilômetros, existem ruas com faróis, tudo subterrâneo.

 

P/1 – O senhor chegou a entrar nessas minas?

 

R – Sim.

 

P/1 – Qual é a sensação, descreve um pouquinho pra gente essa sensação de entrar nessas...

 

R – É uma coisa fora de... É uma coisa muito incomum, você se vê abaixo de metros e metros, 100 metros abaixo do solo com todos esses paramentos que tem de transporte, extração; o transporte do calcário das minas e os caminhões carregando. É uma coisa que não tem descrição, só vendo mesmo, né?

 

P/1 – E a produção de cimento, eu vou perguntar, não sei se tem a ver, teve uma mobilização muito grande na época que construiu Itaipu por conta do cimento, da concretagem toda, né? Teve alguma participação especial da Votorantim nessa época?

 

R – Bom, a Votorantim sempre foi uma fornecedora muito grande de cimento, acho que foi das maiores, existia a Itaú em Minas, que foi adquirido pela Votorantim, hoje já foi fundida, mas existe a Companhia de Cimento Itaú e tem no Norte e no Nordeste outras empresas de cimento. Mas aqui em São Paulo - e a Itaú em Minas. E a Votorantim sempre foi a maior produtora que abrangia grande parte do fornecimento delas, principalmente para as obras públicas, né?

 

P/1 – A de Barroso também pertence ao Grupo?

 

R – Barroso, não.

 

P/2 – O senhor acha que nesse processo de crescimento, de diversificação, existia uma pessoa, ou o senhor José, o senhor Antônio, que fosse mais arrojado: “Vamos lá, vamos ver bem”. Existia um contraponto, um equilíbrio ali ou era consenso?

 

R – Não, para mim, eu acho que era constante, sim. No Norte e Nordeste, nós tínhamos o genro do cunhado do Doutor José, o Doutor Clóvis, quem geria a parte dos negócios de cimento lá no Norte e Nordeste, isso aí ficava com ele. Agora, a parte do Sul sempre foram eles mesmos: o Doutor José na área de cimento, o Doutor Antônio na área de metalurgia. Não é só cimento, é cimento, papel - tecidos acabou, né, não existe mais já faz tempo. Mas, vamos dizer, cada um dentro da sua área mantinha aquela linha de trabalho. Não existia, pelo menos que eu saiba, choques, vamos dizer, entre família isso é comum, muitas vezes questão de poder. E lá não existiu porque, na minha visão, eles souberam dividir de tal forma a empresa fazendo com que cada um tivesse o poder dentro da sua área, mas esse poder não era só centrado numa pessoa sem que houvesse, vamos dizer, uma dissociação entre um e outro. Vamos dizer que: “Eu tomo as minhas decisões isoladas e você toma as suas isoladas”. Existe um gerenciamento, mas existia sempre a unificação das ideias em conjunto. Sempre houve isso, isso talvez foi e está sendo até hoje o sucesso da empresa, porque se não fosse isso... Você sabe, para construir um império é difícil, mas para derrubar não custa. Nós tivemos casos em empresas que eu não quero citar o que é que deu.

 

P/1 – Senhor Sérgio, a Eliana, que está acompanhando a nossa entrevista, quer fazer uma pergunta para o senhor.

 

R – Pois não.

 

P/3 – Eu acredito que a empresa começou de uma forma e não se manteve idêntica no decorrer do tempo, ela deve ter sofrido transformações, o senhor deve ter assistido algumas transformações dentro da empresa. Eu gostaria, se fosse possível, que o senhor fosse pontuando pra gente, dizendo assim: olhando de fora, como o senhor foi vendo as transformações da Votorantim em termos de organização da empresa, divisão de quadros funcionais, atividades em que a Votorantim ia se envolvendo no decorrer do tempo, essa adaptação da Votorantim aos novos tempos e às novas tecnologias. É uma pergunta grande, mas acho que dá para o senhor falar algumas coisas.

 

R – Bom, durante um período, a gestão toda ocorreu mais no âmbito familiar. Isso foi por um período muito longo. E, nesse período, já começaram, não transformações, eu não diria transformações, mas diversificações, ampliação dos negócios, isso ainda no âmbito familiar. Aos poucos foram se abrindo novos caminhos para adaptar a empresa numa realidade que seria uma empresa com gerenciamento, vamos dizer, mais aberto e contando com pessoas também que já vieram fazer parte do grupo diretivo. Ela acompanhou esse processo, não deixou de acompanhar isso que eu repito de uma forma coerente, no sentido de adaptar, sempre estar renovando a empresa para ela não ficar estática num processo administrativo técnico através de novos investimentos. Pessoas também que vieram ocupar cargos de diretoria com outra visão também - nada sem o aval dos acionistas -, mas que colaboraram e colaboram até hoje também no sentido, vamos dizer, administrativo, funcional. Então, isto fez e está fazendo que a Votorantim hoje criou uma série de empresas paralelas, com ramos totalmente diferenciados.

 

P3 – Por exemplo?

 

R – Banco Votorantim, por exemplo, é um deles. Tem empresa até de aviação, exportação, muitos outros que agora no momento não está me ocorrendo, mas um dos que está tendo também sucesso é a Votorantim Internacional. Ah, eu esqueci de um detalhe muito importante na área de cimento: hoje a Votorantim tem uma fábrica de cimento no Canadá, eu havia esquecido esse detalhe.

 

P/1 – É a multinacional aos avessos?

 

R – É, lá no Canadá. Então, tem uma série de empresas. Como hoje o sistema empresarial exige que você, na medida das tuas necessidades, crie empresas com as quais você mesmo pode, na gestão daquela empresa, [ir] ampliando o seu campo, visando o interesse também da própria empresa, abrindo um leque que se abre. Vamos dizer, como é o caso de exportação, o que tem muito de exportação é alumínio. Exportação sempre tem aquilo, é o plano da competitividade, o mercado internacional, mas ela vai abrindo, os leques foram se abrindo, aos poucos foram se abrindo. Quer dizer, os filhos que ingressaram na empresa como Diretores já tiveram uma outra visão - esta não de vivência, mas sim de formação e que, de uma forma direta, estão consolidando tudo aquilo que já foi feito e ampliando. Mas uma coisa posso dizer: nada é feito, assim, aleatoriamente, tudo é bem estudado, bem planejado. Nada se faz sem esse planejamento, sem ver a viabilidade do negócio - que eu saiba, nada se faz. Então o que eu diria para você é isso: é uma empresa que não ficou estática e que, aos poucos, foram abrindo novos campos de atuação, que é isso que faz na Votorantim hoje um conglomerado, um grupo na importância que é.

 

P/1 – A gente vai caminhar para o final, eu queria que o senhor falasse um pouquinho do processo de aposentadoria do senhor. Por que o senhor se aposentou e continuou prestando serviços? Não conseguiu se desligar?

 

R – Não consegui, não. Na verdade, na época do Passarinho, quando ele queria cortar o negócio das aposentadorias, isso e aquilo, eu tinha 32 anos de empresa, 33, não lembro. Então eu falei: “Bom, eu não vou esperar 50 anos para aposentar.” Eu aposentei, houve concordância deles, e continuei trabalhando, mas continuei trabalhando como empregado. Quando foi em 93, eles decidiram que eu saísse da contabilidade e ficasse só na parte de assessoria, fiz um contrato de dois anos e fiquei até agora, 2002. E foi nessa altura que eu ficava mais ligado lá com o Doutor José, até que agora em dezembro então já veio o comunicado de que em 2002 eu sairia de lá. Agora, você pergunta como é que foi ou como é que está sendo?

 

P/1 – Como está sendo, o que o senhor está estranhando mais?

 

R – Bom, por enquanto eu não vou ficar assim, né? Não fazer nada, não dá, mas de jeito nenhum, porque eu tenho saúde, a minha cabeça está funcionando perfeitamente bem, acho que posso ainda e tenho condições de fazer alguma coisa dentro do meu campo. Agora, não fazer nada, de jeito nenhum, esse negócio de dizer, correr no Ibirapuera, de ficar lendo jornal, vendo televisão, não dá, não nasci para isso. Talvez aí eu seja meio Doutor Antônio. Sabe o que é para mim lazer? São horas vagas que você dispõe. Lazer não é você pegar, para mim, né, desculpe se vocês pensam diferente. Não sei, mas lazer não é você sair de manhã, ir no Ibirapuera, correr, pegar o jornal, assistir televisão, isso e aquilo, vê receita de bolo na televisão. Lazer são horas disponíveis que você tem que você aproveita para ir a um teatro, um cinema, uns amigos, uma coisa que você frequente com a esposa. Isso é um lazer, um passeio de sábado, domingo, tudo bem. Agora, dia a dia você fazer isso, não.

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho do casamento do senhor, como o senhor conheceu sua esposa.

 

R – O casamento com a minha esposa foi o seguinte: como eu falei para você, nós morávamos numa casa muito grande e quando jovens nós tínhamos o hábito, como tinha a sala muito grande, duas salas, tanto no carnaval, São João, essas festas juninas, né, nós fazíamos reuniões em casa e convidávamos amigos, amigas. Então enfeitávamos tudo, tirávamos todos os móveis da sala, enfeitávamos tudo. Se era festa de São João - tínhamos um quintal muito grande -, no final da casa fazíamos fogueira, tudo quanto era comestível da festa junina e ficávamos o tempo todo. Eu que fazia os balões e no carnaval também fazia os bailes carnavalescos familiar, convidávamos os amigos, amigas também. E uma amiga da família levou justamente um dia a minha atual esposa, que morava quase defronte a mim, mas eu não conhecia. Aí ficamos nos conhecendo e, sem querer, começamos a namorar. Como eu te falei, no dia 4 de setembro casei no civil, nós namoramos uns três anos e casamos no civil. Ela ainda estava estudando nesse tempo, ainda estudava no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, estava fazendo curso de professora de piano, que ela é também. Aí depois casamos, tivemos filhos só depois de três anos. Programamos também o mês que nós queríamos que nascessem os filhos, porque antes eu não queria, nem ela. Programamos o mês que queria que nascesse. Por incrível que pareça, eu fui inverso, todo homem quer um homem primeiro, [mas] eu queria uma menina. A menina nasceu em janeiro, nasceu no dia 4 de janeiro. Depois de três anos, veio o menino - aí eu queria um menino. Dia 4 de maio nasceu o menino.

 

P/1 – No mês que o senhor queria.

 

R – E estamos casados, fez 44, este ano vai fazer 45. Minha filha é casada, tenho uma neta que, infelizmente, tem uma síndrome - que eu já te falei -, isso é um desgosto que eu tenho, que a menina não anda, não fala. A gente entende, mas é um desgosto que eu tenho. Tem um menino de seis anos, mas infelizmente tudo que faltou para ela está com ele; ele é inteligente. O meu filho é psicólogo, solteiro, ele trabalha lá na Escola Paulista de Medicina, chefe do laboratório de psicologia, tem pacientes também no consultório e vai tocando a vida dele. Sobre o casamento, a vida [é] normal, sem grandes problemas. É lógico, atritos existem, é normal. Seria anormal se não tivesse.

 

P/1 – Senhor Sérgio, pra gente terminar a entrevista, o que o senhor achou de ter ficado esse tempo com a gente resgatando a história do senhor pela Votorantim, o que acha da Votorantim estar fazendo esse trabalho de memória?

 

R – O que eu acho é que aqui no Brasil, hoje, o que menos se preserva é a memória. O que falta muito aqui no Brasil é a preservação da memória, então eu acho que esse trabalho aí da empresa do porte da Votorantim é uma coisa que vem realmente ensejar assim para que... Pelo menos, alguém está fazendo alguma coisa pela sua memória, porque realmente é digna de ter a sua história. Vamos dizer, sempre lembrando que ela continue talvez mais 80 anos, 85, e ser muito mais do que ela é hoje.

 

P/1 – E do senhor ter dado essa entrevista pra gente resgatando a trajetória do senhor na Votorantim?

 

R – É o maior prazer, a maior descontração, vocês são muito agradáveis, foi uma sensação muito grande e, ao mesmo tempo, uma rememoração do passado. Embora a memória da gente nunca apaga aquilo que passou, mas falar, transmitir é diferente do que só pensar, né, então eu tive um grande prazer de falar com vocês.

 

P/1 – Nós que agradecemos a entrevista.

 

[Fim do depoimento]

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